sábado, abril 25, 2009


A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS



Impossível não assinalar esta data, 25 de Abril de 1974, porque ela celebrará sempre o dia em que o “ Movimento dos Capitães” derrubou o regime que durante mais de quarenta anos perseguiu os cidadãos com a PIDE, polícia política que prendia e castigava as pessoas que discordavam do regime e manifestavam essa discordância, e punha em prática a censura que impedia que as ideias circulassem na imprensa, nos livros e oralmente entre as pessoas.

Por outras palavras, restabeleceu no país a liberdade. Esta é responsabilidade que cabe ao 25 de Abril, à Revolução que, felizmente, foi dos cravos e que deve ser imputada aos cidadãos que nela se envolveram e a levaram à prática, sem esquecer o contributo que ao longo dos anos foi sendo dado por muitas outras pessoas.

Restabelecida a liberdade, tudo o que de então para cá aconteceu no país é da responsabilidade dos portugueses e das conjunturas políticas que desde então vivemos.

Um povo só pode ser responsabilizado plenamente pelo curso da sua história nos períodos em que os cidadãos não vivam oprimidos por um poder que os ameace na sua liberdade e integridade física. Numa situação destas há uma distorção forçada dos comportamentos que alteram o rumo da história que inevitavelmente seria outra se vivida em liberdade.

Acusar o 25 de Abril do que quer que seja para além do restabelecimento da liberdade no país, só se entende por juízos precipitados, falta de discernimento ou por um comprometimento directo com interesses ligados ao regime anterior por quem, com essas acusações, pretenda “uma pequena vingança”.


Esperar-se-ia que as forças militares que derrubaram, pela força, o poder anterior pretendessem, após isso, exercê-lo, não obstante as desinteressadas intenções sempre anunciadas em situações deste género mas, em vez disso, o poder militar vitorioso, chamou representantes da sociedade civil e encarregou-os de constituír um governo livre e democrático.

Na história das revoluções esta mais parecia uma história da carochinha em que no final o jovem herói casa com a princesa, têm muitos filhos e são felizes para sempre… mas, desta vez, não foi história de “princesas”.
O Movimento dos Capitães, responsável pela revolução, após a vitória, chamou um general insuspeito de revolucionário e pediu-lhe que assumisse o controle da situação tendo em vista a passagem a uma situação transitória de elaboração de uma nova Constituição que antecedesse eleições livres e democráticas.

A pureza dos ideais do 25 de Abril estava consumada e os jovens capitães mantiveram-se fiéis à sua palavra comprovando que, se a juventude se caracteriza, naturalmente, pela ingenuidade e imaturidade, neste caso ela provou ser pura, desinteressada, generosa e sincera.

Realçado este aspecto essencial do 25 de Abril, muitas coisas aconteceram de então para cá de erradas, que nos prejudicaram, que foram motivo de grandes “confusões”, especialmente no período do PREC (Período Revolucionário Em Curso) mas que constituíram, também, uma fase de grande efervescência ideológica, voluntarismo e de um despertar depois de tantos anos de “um apagado e vil silêncio”.

Hoje, e esqueçamos por um momento a recente e muito preocupante crise, depois de um longo período de dezenas de anos de estagnação a todos os níveis, vivemos num Portugal diferente em muitos aspectos: sociológicos, demográficos, políticos, culturais e paisagísticos… Era inevitável, depois da integração na Comunidade Europeia que nos abriu fronteiras alargando o nosso espaço económico, financeiro e de trabalho, com uma nova moeda, esquecido que foi o escudo, com a entrada de milhões e milhões de euros em grande parte responsáveis por esta “nova cara” com que hoje nos apresentamos ao mundo.

Vivemos numa democracia de partidos políticos, forma adoptada pela generalidade dos países europeus, com as especificidades próprias do temperamento, cultura e educação de cada um deles. Como dizia Churchil: “de todos os regimes o menos mau...”.

E quem não tem queixas da democracia em que vive? Quem não atribui aos políticos que nos governam as origens dos males que nos afligem? Quem não os responsabiliza, com ou sem razão, esquecendo que, no mínimo, somos nós que os elegemos e com isso nos tornamos co-responsáveis de tudo quanto acontece?

Todos temos que assumir a nossa quota-parte de responsabilidade quando vivemos em liberdade numa sociedade que não nos persegue, prende e castiga pelas nossas ideias e comportamentos no respeito por um quadro legal que livremente estabelecemos.

Mas, se compararmos uma sociedade a um enorme e complexo computador, logo nos lembraremos dos vírus que os afectam e dos quais nenhum está livre. Nesse outro enorme “computador” que é a nossa sociedade, o principal vírus que o afecta é o da“partidocracite”.

Podíamos falar do enriquecimento ilícito, da corrupção ao nível das mais altas decisões mas, se é verdade existir uma conexão entre grandes interesses e partidos políticos, nomeadamente os que participam em governos, não é menos verdade que, apesar de tudo, é em democracia que eles melhor podem ser combatidos… assim haja autêntica vontade política.

A corrupção e o enriquecimento ilícito que lhe está associado têm a ver, fundamentalmente, com pessoas e o exercício do poder. Os partidos, especialmente os que alternam no governo, têm os meios e estrita obrigação de lutar contra ele, colocando-o no Código Penal como um crime, perseguindo-o e punindo-o exemplarmente.

A partidocracite, empolando os interesses dos respectivos partidos, na defesa ou na luta pelo poder, sobrepondo-os aos da comunidade, confundindo-os com os do país, é, infelizmente, de uso corrente na maioria das sociedades democráticas, salvaguardadas as legítimas opções políticas com que cada partido se apresenta ao eleitorado.

Reconheçamos que a luta contra este vírus é muito difícil porque ele se disfarça e aparece revestido e disfarçado de muitas formas que confundem os cidadãos.

Os sistemas antivírus para este enorme computador não se compram nas lojas, instalam-se, é certo, mas um por um, num esforço colectivo e simultaneamente individual, pelo empenho de cada qual no estudo, pelos conteúdos das matérias que são ensinadas nas escolas e universidades e, finalmente, através de uma vivência cívica que leve em linha de conta “que há mais vida” para além do consumismo, dos interesses mesquinhos e das coisas meramente materiais.

Todos somos responsáveis e o país será aquele que os portugueses quiserem ou forem capazes de fazer, e isso, entre nós, passou a ser possível desde o 25 de Abril de 1974, não o esqueçamos, graças à Revolução dos Cravos!

Celebrar hoje o 25 de Abril de 1974, é confrontarmo-nos com aquilo que fomos e não fomos capazes de fazer no quadro de liberdade que ele nos devolveu, já lá vão trinta e cinco anos.

Naturalmente, que a ditadura de Salazar deixou um quadro pouco favorável ao nosso desenvolvimento futuro e quem a viveu sabe perfeitamente disso, mas não é mais possível ignorar que de há 35 anos para cá somos um dos países mais livres do mundo e é com a responsabilidade dessa liberdade que nos foi entregue pelo movimento dos Capitães de Abril que nos defrontamos hoje.

Não mais as legítimas desculpas da censura, das perseguições da polícia despótica da PIDE, do medo da denúncia, do analfabetismo, das fronteiras passadas a salto, do silêncio, da ignorância do mundo, não mais… de tudo isso ficou-nos a liberdade que a Revolução dos Cravos nos entregou para podermos voltar, todos nós, a sermos senhores do nosso futuro… esta a herança da Revolução e a grande responsabilidade que recaiu sobre o povo português: "terrível" legado.

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