quinta-feira, setembro 29, 2016

          Rui Veloso


            

Perfídia - Alceu Valença


                   

Sala de Espera


              

Caro António Roberto, Psicólogo Psicoterapeuta: 



Espero que me possa ajudar. 

Saí ontem à tarde no meu carro para ir trabalhar, e deixei o meu marido em casa, a ver televisão, como sempre. Andei pouco mais de 1 km quando o motor parou e não pegou mais. 

Voltei para casa, para pedir ajuda ao meu marido e quando cheguei, apanhei-o em flagrante na cama com a filha da minha vizinha! 

Eu tenho 32 anos, o meu marido tem 34 e a desavergonhada, 19. Estamos casados há 10 anos e ele confessou que mantinha aquela relação há mais de 6 meses. 
Eu amo o meu marido e estou desesperada. 

Preciso urgentemente do seu conselho. 

Antecipadamente grata. 

Patrícia 
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Cara Patrícia: 



Quando um carro pára, depois de ter percorrido uma pequena distância, isso pode ser devido a uma série de factores. 

Pode não haver combustível no depósito ou o filtro estar entupido, mas também pode ser da injecção electrónica ou da bomba de gasolina que, não fornecendo combustível ou pressão suficiente nos injectores impede que o motor funcione. 

Nesse caso, a pessoa a contactar deve ser um mecânico. 
Não volte a incomodar o seu marido. Ele não é mecânico. 
Você está errada. Não repita mais isso. 

Espero ter ajudado. 

António Roberto - Psicólogo e Psicoterapeuta 

Richard Dawkins

















Tantas vezes citado e transcrito neste blog faz todo o sentido que aqui também fique registado, um pouco mais em pormenor, quem é Richard Dawkins.
Nasceu em Nairobi, capital do Quénia, em 1941. Estudou Zoologia em Oxford, tendo-se doutorado sob a direcção do biólogo Nicolaas Tinbergen, Prémio Nobel em 1973 pelos seus estudos em Etologia (disciplina que estuda o comportamento animal).
Foi professor de Zoologia na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Presentemente é catedrático na Universidade de Oxford.
Para lá de cientista e académico, tornou-se conhecido como um dos intelectuais mais influentes da actualidade.
Defensor intransigente da evolução segundo a teoria de Darwin é um divulgador ágil da ciência e do pensamento científico.
Intelectual polémico, defende fervorosa e militantemente o “orgulho de ser ateu”.
As religiões, que tiveram a sua génese na evolução, por causa de alguma vantagem selectiva na moralidade, devem agora, com a explicação científica, serem metidas no caixote das velharias.
Sobre o seu livro, A Desilusão de Deus, disse J. Craig Venter decifrador do genoma humano:
- “Esta é uma leitura excepcional – chega a ser divertida…Nem é preciso comprar toda a colecção de Dawkins para se orgulharem da sua coragem de expor o mal que as religiões podem fazer. Os zelosos fundamentalistas da Bíblia vão, sem dúvida, afirmar que encontraram Satanás encarnado”

Matt Ridley, Zoólogo, autor da obra “O Que nos faz Humanos”, ainda sobre o livro afirma o seguinte:

- “Dawkins dá às compaixões e emoções humanas o seu devido valor, que é uma das coisas que confere força às suas críticas à religião.

Hoje em dia, muitos líderes religiosos são homens que, o que é óbvio para qualquer pessoa excepto para os seus perturbados seguidores, estão dispostos a sancionar a crueldade perversa ao serviço da sua fé.

Dawkins atinge-os com todo o poder que a razão pode exercer, destruindo as suas absurdas tentativas de provar a existência de Deus ou as suas presunçosas reivindicações de que a religião é a única base da moralidade, ou que os seus livros sagrados são literalmente verdadeiros”.

No Prefácio do seu livro, Richard relata um episódio que se passou com a sua mulher quando ainda era criança.

Ela detestava tanto a escola que frequentava que queria deixá-la. Mais tarde, já com mais de 20 anos, revelou aos pais este triste facto, o que deixou a mãe horrorizada: “Mas, minha querida, por que não nos contaste?” ao que ela respondeu: “Mas eu não sabia que podia contar”.
Eu não sabia que podia
Há por aí muitas pessoas que foram educadas de acordo com uma determinada religião, que são infelizes nela, que não acreditam nela ou que se preocupam com os males cometidos em nome dela; são pessoas que sentem uma vaga ânsia de deixar a religião dos pais e gostariam de o fazer, mas que pura e simplesmente não compreendem que isso seja uma opção.
O livro “A Desilusão de Deus” tem como objectivo despertar consciências, dar a perceber a essas pessoas que, afinal, “elas podem”e que é possível ser-se ateu sem deixar de ser uma pessoa feliz, equilibrada, com sentido moral, e intelectualmente realizada.


PS - É, para mim, um intelectual de eleição, na divulgação da cultura e da ciência contra o dogmatismo da religião. O melhor e o mais persuasivo de todos.

ENJOOS NAS GRÁVIDAS
(A verdade sobre este assunto)












Na década de 1950 foi receitado às mulheres grávidas um medicamento chamado Talidomida para combater os enjoos matinais e indisposições características destas situações e que se julgava, então, não ter efeitos colaterais.


O resultado foi trágico com milhares de crianças deficientes em todo o mundo.

A produção deste medicamento foi suspensa mas continuou a pensar-se que os enjoos e indisposições da gravidez eram algo que tinha de ser curado.

Hoje, sabe-se que as mulheres estão biologicamente preparadas para protegerem os seus bebés durante o seu desenvolvimento.

Repare-se:

- As grávidas evitam, instintivamente, certos alimentos;

- Os alimentos ingeridos deslocam-se durante mais tempo ao longo dos intestinos;

- O fluxo sanguíneo para os rins aumenta;

- O fígado eleva gradualmente a produção de enzimas;

- O nariz torna-se mais sensível aos cheiros;

- Até o hábito, aparentemente bizarro, de comer argila ganha sentido porquanto está provado que a argila reduz a absorção de produtos químicos tóxicos sendo usada para tratar de problemas de estômago e náuseas.

Tudo isto configura um importante “Plano de Guerra” biológico que evoluiu durante milhões de gerações, muito antes do aparecimento da nossa espécie, para resolver um problema recorrente de sobrevivência e reprodução.

É que os enjoos da gravidez ocorrem principalmente durante aquele período em que no feto se desenvolvem os principais sistemas de órgãos e que constitui um momento mais sensível às toxinas.

Em 1940, um médico investigador referia que as mulheres que sofriam de enjoos graves durante a gravidez tinham menos propensão para abortar.

Os alimentos mais condimentados e amargos são mais susceptíveis de provocar enjoos do que os alimentos insípidos sabendo-se, como se sabe, que esses alimentos muito condimentados e amargos estão implicados em abortos e deficiências do feto.

Percebe-se, assim o motivo, porque sendo os enjoos, em si mesmo, desagradáveis à mulher e ao bebé que vai nascer, pelo qual milhões e milhões de mulheres em todo o mundo ficam misteriosamente “enjoadas” quando engravidam e isto, sabendo-se, que a selecção natural elimina as coisas que são desagradáveis.

Portanto, em resumo, os enjoos da gravidez não constituem um mal que deva ser curado, mas tão-somente um mecanismo testado e aprovado ao longo de milhões de gerações, dentro do processo de selecção natural, para ajudar a resolver o problema da sobrevivência e reprodução.

“A Evolução Para Todos” de  David Sloan Wilson 

Planos para o futuro...


Uma galinha põe um ovo de meio quilo.

Jornais, televisão, repórteres....todos atrás da galinha.

- Como conseguiu esta façanha, Sr ª Galinha?

- Segredo de família...

- E os planos para o futuro?

- Pôr um ovo de um quilo!

Então as atenções voltam-se para o galo...


- Como conseguiram tal façanha, Sr. Galo?

- Segredo de família...
- E os planos para o futuro?
- Partir os cornos ao Peru!!!

Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)



Episódio Nº 95















- É um canalha, em Tui tentou possuir à força a minha mãe – acrescentou Pêro Pais – depois, virando-se para o príncipe, exclamou. – mas ela só vos ama a vós! Recusa o Mem Tougues por vossa causa!

Dei por mim a sorrir, animado. A presença daquele menino e, sobretudo o que ele dizia estavam a reabilitar Chamoa. Aos poucos, Afonso Henriques recomeçava a acreditar que ela não era tão má rês como a julgara.

Reacção oposta teve Ramiro. As palavras de Pêro Pais enfureceram-no, embora tenha silenciado a sua ira, que só libertou mais tarde perante o bispo.

Pai, vossa esposa é uma desvairada!

Afinal, Chamoa, ainda amava Afonso Henriques! Só recusava o Tougues por causa do príncipe, cravando mais a espada da dor no coração já tão ferido de Ramiro!

Vamos então salvá-la e ao Gonçalo! – proclamou Afonso Henriques, dando um abraço àquela criança, que o mirava com admiração.

Contentes e entusiasmados, esquecemos Ramiro, que abandonou a Sé amparado pelo Rato, ambos atordoados por tantas revelações. Mas, se no coração deste último morava apenas uma funda desilusão com o Velho, no de Ramiro crescia um redemoinho de traições e ódios, intrigas mesquinhas e desconsiderações...

A explosão não ia tardar.


Coimbra, Outubro de 1133

Nas horas seguintes, enquanto a noite caía, Ramiro e o Rato vaguearam, abalados, pelas ruas de Coimbra. Comeram numa taberna, mas como as regras da Ordem proibiam o consumo de vinho, saíram de lá rapidamente, para evitar tentações, continuando as voltas pela cidade.

A dada altura, deram por eles em frente do casão agrícola de Mem e o Rato animou-se:

- Vou bater-lhe à porta, pode ser que me safe!

Dissera-o para ver se espevitava Ramiro, mas este, ainda desorientado, desatou a acusá-lo de ser um pecador desvairado, que os ia perder se continuasse com pecaminosas investidas.

Pai, ele é o demónio em pessoa!

Ofendido, o Rato deu-lhe réplica e acusou-o: era má pessoa, andava insuportável, passava os dias a destratá-lo! Depois de desembochar, virou as costas a Ramiro e caminhou resoluto em direcção ao casão, quase chocando com o almocreve, que saía do local onde dormia.

- Olá, bonitão, vim visitar-vos! – disse ele.

Perante nova abordagem atiradiça do colega, Ramiro descontrolou-se. Mas em vez de repreender o Rato, como fizera anteriormente, dirigiu a sua ira contra Mem:

 - Ides fornicar as mouras ou ajudá-las a fugir?

Os outros dois miraram-no, surpreendidos com tanta antipatia e, mais ficaram, quando o bastardo de Paio Soares, esgazeado, largou uma enxurrada de insultos impróprios e acusações maliciosas, apontando o dedo a Mem, numa postura agressiva.


quarta-feira, setembro 28, 2016

               Ennio Marchetto

             

Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)


Episódio Nº 94



















O bastardo de Paio Soares manteve-se mudo e siderado. Recordei-me das suas aflições do passado, na presença do pai ou de Chamoa e admiti que as antigas fragilidades estavam de volta, pois a sua palidez indiciava a possibilidade de tombar à nossa frente.

O príncipe deve ter temido o mesmo pois questionou Ramiro, com uma ponta de malícia na voz:

 - Ides desmaiar?

Ouviram-se os risos de Peres Cativo, que desprezava o jovem templário. Mas o simpático Pêro Pais estendeu-lhe a mão, dizendo:

 - Minha mãe falou-me de vós.

Numa criança tão nova era impossível haver naquela frase ironia ou maldade. Pêro Pais relatava apenas uma verdade límpida e simples: Chamoa falara-lhe de Ramiro, seu meio - irmão mais velho, filho de Paio Soares e de uma outra mulher, um bastardo, é certo, mas do mesmo sangue que ele.

Porém, no desconfiado Ramiro, a frase do meio-irmão teve o condão de lhe agravar uma dor silenciosa, como ele revelou depois ao bispo Bernardo.

- Que dissera Chamoa ao miúdo? – Que eles tinham sido amigos? – Que Paio Soares, pai de ambos, humilhava Ramiro em criança? – Que se casara com Chamoa, adorada pelo seu bastardo? – Que este fugira da Viseu depois de admitir matar-se? – Que desmaiava sempre que a via? – Que também odiava Afonso Henriques por este lhe ter disputado Chamoa? – Sim, o que lhe dissera aquela mulher desvairada que dormia com vários homens? – Gozara Ramiro, escarnecendo dele em frente do irmão, o primogénito que ia herdar tudo, enquanto ele, um infanção bastardo, nada teria?

Pai, porque me enviais este teu filho e meu irmão?

Era assim, tortuosa, que funcionava a mente de Ramiro, mas da sua boca não saíra ainda uma única palavra.

- Não o cumprimentais? – perguntou Afonso Henriques.

O templário engoliu em seco e balbuciou:

- Vossa mãe está bem?

Pêro Pais, primeiro sorriu-lhe, agradado com o que julgava ser uma preocupação genuína. Depois, colocou um ar sério e contou que Chamoa se encontrava prisioneira em Tui, no castelo do pai dela.

- Fernão Peres pôs um facínora a vigiá-la dia e noite.

Paio Guterres, que ajudara o menino a fugir, revelou que o vigilante da minha cunhada era um antigo templário de Soure.

Com uma ténue hostilidade, enfrentou Ramiro e o Rato e afirmou:

 - Deveis conhecê-lo. Chamam-lhe Celho.

Se Ramiro estava embasbacado, mais ficou. Incrédulo, negou que tal pudesse ser verdade, secundado pelo Rato, alegando ambos que o Velho, por estar doente se retirara da Ordem para morrer em paz!

O transtorno dos dois templários foi enorme, quando perceberam que haviam sido enganados. O Velho, não só era um traidor que sempre trabalhara para o Trava, como lhe entregara o antigo punhal de Paio Soares! O espanto de Ramiro e do Rato multiplicou-se, a profundidade da fraude daquele magistral embusteiro era dolorosa para os seus antigos colegas.

             Salvator Adamo - C´ est Ma Vie

           Os cantores românticos do meu tempo...


  

                                DONAS DE CASA

Dona de casa, espécie em vias de extinção. Fica aqui registada para recordar um dia mais tarde...



         As Vindimas


               

Uma bela lição

de vida!










- Vai um cafézinho?

Um professor diante da sua turma de filosofia, sem dizer uma palavra, pegou num frasco grande e vazio de maionese e começou a enchê-lo com bolas de golfe. A seguir perguntou aos estudantes se o frasco estava cheio e todos estiveram de acordo em dizer que sim.

O professor tomou então uma caixa de fósforos e a vazou dentro do frasco da maionese. Os fósforos preencheram os espaços vazios entre as bolas de golfe. O professor voltou a perguntar aos alunos se o frasco estava cheio e eles voltaram a responder que sim.

Logo, o professor pegou uma caixa de areia e a vazou dentro do frasco e, óbviamente,a areia encheu todos os espaços vazios e o professor questionou novamente se o frasco estava cheio e os alunos responderam-lhe com um retumbante sim.

De seguida o professor adicionou duas chávenas de café ao conteúdo do frasco e preencheu todos os espaços vazios entre a areia e nessa ocasião os estudantes riram-se. Quando os risos terminaram, o professor comentou:

- Quero que percebam que este frasco é a vida e as bolas de golfe são as coisas importantes: a família, os filhos, a saúde, a alegria, os amigos. As coisas que realmente vos apaixonam. São coisas que, de tão importantes, mesmo que perdêssemos tudo o resto, a nossa vida continuaria cheia.

- Os fósforos são outras coisas importantes, como o trabalho, a casa, o carro etc.

- Finalmente, a areia é tudo o resto: as pequenas coisas.

- Se colocássemos primeiro a areia no frasco, não haveria espaço para os fósforos, nem para as bolas de golfe. O mesmo ocorre com a vida. Se gastamos todo o nosso tempo e energia nas coisas pequenas, nunca teremos lugar para as coisas que realmente são importantes. Prestem, pois, atenção às coisas que realmente importam. Estabeleçam as vossas prioridades... o resto é só areia.

Um dos estudantes levantou a mão e perguntou:

- Então e o que representa o café?

O professor sorriu e disse:

- Ainda bem que perguntas! Isso é só para vos mostrar que por mais ocupada e preenchida que a vossa vida pareça estar haverá sempre tempo e lugar para tomar um cafézinho com um amigo. 

PORQUÊ 

O DRAMA

DA MORTE















Era inevitável que sendo o homem um ser intelectualmente tão evoluído e sensível, no mínimo, não fizesse da morte um drama... compreende-se!

Conciliar o pensamento e a reflexão sobre a vida com um simples ponto final ao qual nada mais se segue parece-nos algo tão brutal e falho de lógica que a reacção, em termos de desespero, é sempre a mesma:

-“Tem de haver mais qualquer coisa”…

Alguns vivem fascinados e frustrados perante a morte porque não conseguem vislumbrar o que está para além dela e esta é a diferença entre os homens bem pensantes que ainda cogitam sobre a morte e aqueles que, hoje em dia, se limitam a viver preocupados em resolver os problemas do dia a dia continuando a pensar sobre a morte aquilo que os seus pais e avós sempre pensaram, “soprado” pelas religiões que também herdaram e que é uma forma de não pensarem.

A morte não é um desafio fácil de aceitar e abordá-lo é sempre um acto de coragem porque, diga-se sobre ela o que dissermos, a sensação que no fundo, lá bem no fundo, nos fica é que tudo quanto sobre ela se diga é pura especulação tendo mais a ver com a vida do que com a morte, a vida que desejaríamos nunca acabasse mesmo que, para isso, tenhamos que “criar” outros mundos e outras formas de vida.

Como se todos os seres vivos fossem dignos de morrer excepto o homem por não fazer sentido que a natureza o tenha feito evoluir para uma forma qualitativamente tão diferente e perfeita e reservar-lhe, no fim, exactamente o mesmo destino!...

Esta necessidade de prolongarmos a vida para além da morte, porque é desta necessidade que se trata, foi ao longo da história da humanidade o factor mais determinante e influente da própria vida do homem e das sociedades.

Vivemos sempre condicionados por aquilo que esperamos que nos venha a acontecer após a morte, e as religiões, todas elas, souberam muito bem tirar partido desses condicionalismos.

Quando deixarmos de amar a Deus e em vez dele amarmos, no sentido de respeitar, a natureza, os outros homens e os restantes seres vivos que connosco partilham a vida na Terra, talvez então aceitemos melhor o nosso fim em pé de igualdade com as restantes formas de vida.

Somos, de facto, especiais, tivemos que o ser para sobreviver na luta que travámos para termos direito a um lugar ao sol, mas continuamos sujeitos às leis fundamentais do Universo e desaparecer para sempre sem outras consequências que não sejam as transformações químicas que se operam a partir do momento da última batida do coração, é uma dessas leis.

Outra atitude que não seja esta, para além de representar uma veleidade que não nos fica bem, constitui, igualmente, uma enorme contradição para a nossa mente dada a dificuldade em conciliar o racional com as expectativas da fé.

Por isso, a Filosofia que alguns afirmam, entre outras coisas, ser um curso geral para a morte, talvez pudesse com mais vantagem, constituir um curso geral para a vida que nos ensinasse que todas as nossas energias devem ser canalizadas para a satisfação da responsabilidade do que significa estar vivo.

Responsabilidade connosco próprios, com o nosso semelhante e para com o planeta que é a casa onde vivemos, não em nome de, ou para agradar ou recear a um Deus qualquer que nos espera após a morte para nos castigar ou premiar mas porque, neste momento, está já suficientemente instalada uma espécie de moral universal que aponta no sentido de que a nossa própria sobrevivência como espécie não é possível salvaguardar se não olharmos a vida como a nossa oportunidade de manter os equilíbrios entre nós, homens, e a natureza que nos suporta.

E para isso não é a nossa morte que nos deve preocupar mas antes as gerações vindouras que reivindicam, também elas, o direito à vida para poderem morrer como nós.

Sinceramente, julgo que estamos, neste aspecto, numa encruzilhada terrível porque temos a consciência de que a estamos a viver mas não temos a certeza de qual o caminho que vai ser percorrido.

O planeta como que estremece e agita, também ele parece inquieto quando o forçam a uma evolução mais rápida do que aquela que, naturalmente, se processaria não fosse a nossa interferência.

Para ele, planeta, é indiferente, mas para as formas de vida que suporta pode ser um abreviar das suas existências e por isso ele manda os seus avisos, alerta os homens, os únicos que os sabem interpretar e… aguarda.

Os fenómenos da natureza são o resultado de múltiplos equilíbrios que se estabelecem e restabelecem contínua, lenta, mas inexoravelmente.

A velocidade a que esses equilíbrios e reequilíbrios acontecem é a chave que facilita, dificulta ou impossibilita mesmo a sobrevivência das espécies através dos fenómenos de adaptação já explicados por Charles Darwin na sua Teoria da Evolução.

E é aqui que há verdadeiras razões para falar da morte que dizima e pode levar ao desaparecimento das espécies e não a morte natural dos indivíduos dentro de cada espécie indispensável, de resto, para a própria sobrevivência da espécie.

Será que a velocidade a que desaparece a massa de gelo do pólo Norte vai dar alguma hipótese de sobrevivência ao urso polar?

E o que irá acontecer aos milhões e milhões de pessoas que vivem à beira mar se a água dos Oceanos começar a subir a um ritmo que não permita a sua reinstalação noutras áreas com tempo para se adaptarem e aprenderem a fazer outras coisas?

E se alterações do clima, de repente, puserem em causa a produção de arroz no continente asiático como vão sobreviver os biliões de pessoas que dependem dele para se alimentarem?

E agora, sim, uma palavra para a fé, não em Deus ou em deuses mas a fé nos homens, de preferência em todos os homens, esclarecidos, responsáveis, capazes de pensar e decidir para o futuro, exactamente aquele futuro que neste momento parece tão ameaçado pelo egoísmo das actuais gerações.

Mais uma vez, como sempre, é nos homens, como não podia deixar de ser, que está, ou não, o futuro da humanidade.
  

AFONSO HENRIQUES

 Rei Fundador











Era um homem violento, feito do mesmo pau de todos os guerreiros da Idade-Média, egoísta, sensualão e déspota. Se não fosse assim não teria fundado um reino.

Com o poder dos visigodos em ascensão, eles, que tinham desmantelado o Império Romano e dominado toda a Europa de Leste a Oeste com excepção de uma faixa a norte da Península ibérica dominada pelos Suevos, não era com escrúpulos, problemas de consciência e rijezas de carácter que alguém faria obra de tomo, perdurável.

Mas não tinha cabelos no coração, não era insensível e a palavra justiça para ele não era totalmente destituída de sentido. Isto viu-se na cena trágico-cómica com D. Gonçalo de Sousa:

 - Foi o caso que, sendo hóspede do bom fidalgo, seu apoiante político e leal vassalo, apanhando-o de costas a tratar com os criados das tarefas do comer, virou a mulher, Dª. Sancha Álvares em cima de uma pele de urso e satisfez a sua lascívia.

Entretanto, D. Gonçalo, entrou no salão e surpreendeu-o no acto tendo conseguido ainda articular estas misérrimas vozes:

 - Levantai-vos senhor, que a comida está na mesa…

Enquanto el-rei se banqueteava, foi-se o marido ultrajado à mulher e, tosquiando-lhe os cabelos e ajoujando-lhe às costas uma pele de cabra, com o esfolado para fora, pô-la em cima de um jerico, aparelhado de cilha e albarda e sentada ao contrário no animal.

E foi nesta pose que a mandou para casa do pai dela, não sem antes desse uma volta por onde el-rei se encontrava com os seus cavaleiros.

D. Afonso Henriques ficou em grande cólera e a soprar, jurando-lhe pela vida. Doía-lhe ter abusado da confiança do nobre servidor, mas o desforço dele tivera um repique que muito o confundia e envergonhava aos olhos dos seus.

Hesitante, porém, entre enviá-lo de presente ao diabo ou passar adiante chamou-o à sua presença e disse-lhe:

 - Por muito menos, cegou um adiantado de meu pai a sete condes…

- Cegou-os à traição, senhor, mas disso morreu.

 - E se eu te mandar cortar a cabeça…?

 - Senhor, mais vale. Homem borrado, morto é.

D. Afonso Henriques ficou a meditar naquela palavra. Teria, depois de comer bem e beber melhor, filosofado com Herádio que “…se havia de correr a atalhar a ira como se fosse a apagar um incêndio…” e, montando a cavalo, despediu da Quinta do Unhão, vencido o instinto sanguinário.

Que faltou algumas vezes à palavra dada, pelo que os puritanos, ao tempo que os havia, muito o censuravam, muito o censuravam…! Sim, faltou, mas é demasiado rigor com o homem, abalizado na guerra e na conquista, relevar tal pecadilho.

O que ele quebrava com certo desembaraço era a palavra política, a de rei, que não a de homem. Há a sua diferença. Naquelas épocas recuadas, o verbo estava na infância da arte. Não se sabia falar diplomaticamente. O ditado árabe: «Alá deu ao homem a palavra para esconder o seu pensamento» passou primeiro dos filtros da Renascença para os lábios italianos, que o souberam transmitir aos ministros e homens públicos do Universo.

Aquilino Ribeiro

  

terça-feira, setembro 27, 2016


“O VOO DO MOSCARDO” (FANTÁSTICO…) 


The Flight of the Bumble-Bee” (“O Voo do Moscardo”) é um famosíssimo interlúdio musical, composto pelo compositor russo Nicolai Rimsky Korsakov para sua ópera “O Tzar Saltan”, entre 1899 e1900.
É um verdadeiro "tour de force" musical, inicialmente escrito para um solo de violino. Algum tempo depois o próprio Rimsky Korsakov reescreveu a peça para piano. Contudo, era tecnicamente tão difícil de recriar que o famoso pianista Vladimir von Pachmann (1848/1933), ao ler a partitura, julgou-a "impossível de ser tocada". Anos depois, Serguei Prokofiev (1891/1953) aceitou o desafio e abriu a porta para que pouquíssimos colegas realizassem essa proeza...
Esta jovem pianista chinesa, de apenas 18 anos, certamente uma das melhores do mundo, dá um show de virtuosismo…
Como se vê não é impossível mas as dificuldades até nos deixam com os olhos trocados... 






Poema Do Fecho

Éclair

















Filipe II tinha um colar de oiro,
tinha um colar de oiro com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
Combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco,
e a tíbia de um santo
guardada num frasco.
.
Foi dono da Terra
foi senhor do Mundo,
nada lhe faltava
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safiras, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo,
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho éclair.

(António Gedeão - Poeta português - 1906-1997)

Poeta, professor e historiador da ciência portuguesa. António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, concluiu, no Porto, o curso de Ciências Físico-Químicas, exercendo depois a actividade de docente.

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