quinta-feira, dezembro 08, 2016

Trump - Person of the Year





















A prestigiada Revista Time consagrou, na sua última edição, Donal Trump como Imagem de Capa na Pessoa do Ano, e por isso ele fez as pazes com a imprensa e os jornalistas, até porque ambicionava este prémio há muito tempo.

No ano anterior, nesta mesma eleição, ele ficou em terceiro lugar, atrás de Merkel e do líder do Estado Islâmico, Abu Bakar al Baghdadi.

Charles Lindberg, aviador, que tinha cruzado o Atlântico em 33 horas e 39 minutos, em 1927, foi o primeiro a abrir esta eleição. 

Adolfo Hitler foi o escolhido em 1938, o que significa que nestas eleições não se escolhe entre "bons" ou "maus" mas sim pela influência que a pessoa teve nesse Ano, na opinião dos directores da Revista permanecendo no segredo dos jornalistas.

Curiosamente, desta vez, a nomeação não terá agradado muito ao nomeado porque o intitularam de Presidente dos Estados Divididos da América, o que o levou a queixar-se de que não foi ele o culpado dessa divisão.

A explicação desta escolha que, para mim, nesta pontinha da Europa, me ia deixando doente, é dada, muito acertadamente, pela Directora da Revista, Nancy Gibbs: - "para lembrar a América que a demagogia se alimenta do desespero e que a verdade é tão poderosa quanto a confiança naqueles que a dizem, por capacitar um eleitorado oculto através da suas fúrias e transmitindo ao vivo os seus medos e por moldar uma cultura política do amanhã através da demolição da de ontem".

Francamente, para mim, depois de Barak Obama, o contraste não podia ser maior e a desilusão também ...

A figura deste senhor, que se especializou em impressionar os outros ostentando a sua riqueza, causou-me sempre arrepios e, das duas uma, ou eu sou muito diferente do comum dos cidadãos americanos, ou na realidade eles estão mesmo desesperados.

Reconheço, no entanto, que existe aqui uma mescla de sentimentos, dos quais não comungo, talvez por não viver no desespero, embora a situação dos americanos também não me pareça que seja desesperada... 

Por isso, a escolha deste senhor louro, grande, de "melena", que vem do sector da construção civil, especializado em Concursos de Beleza Feminina de Miss Universo, e ostenta a riqueza dando a conhecer o avião particular em que se desloca, um Jumbo 707 -é, para mim, e ninguém gosta de andar de cavalo para burro qualquer coisa de afrontoso, especialmente depois de Barak Obama, homem de cultura e de oratória excelentes.

Donald Trump é a surpresa, a desilusão, o contraste... e ninguém gosta de andar de "cavalo" para "burro" e infelizmente, os EUA, para o bem e para o mal, são também o nosso "cavalo" e o nosso "burro".

quarta-feira, dezembro 07, 2016

AFONSO HENRIQUES

- Rei Fundador




















Era um homem violento, feito do mesmo pau de todos os guerreiros da Idade-Média, egoísta, sensualão e déspota. Se não fosse assim não teria fundado um reino.

Com o poder dos visigodos em ascensão, eles, que tinham desmantelado o Império Romano e dominado toda a Europa de Leste a Oeste com excepção de uma faixa a norte da Península ibérica dominada pelos Suevos, não era com escrúpulos, problemas de consciência e rijezas de carácter que alguém faria obra de tomo, perdurável.

Mas não tinha cabelos no coração, não era insensível e a palavra justiça para ele não era totalmente destituída de sentido. Isto viu-se na cena trágico-cómica com D. Gonçalo de Sousa:

 - Foi o caso que, sendo hóspede do bom fidalgo, seu apoiante político e leal vassalo, apanhando-o de costas a tratar com os criados das tarefas do comer, virou a mulher, Dª. Sancha Álvares em cima de uma pele de urso e satisfez a sua lascívia.

Entretanto, D. Gonçalo, entrou no salão e surpreendeu-o no acto tendo conseguido ainda articular estas misérrimas vozes:

 - Levantai-vos senhor, que a comida está na mesa…

Enquanto el-rei se banqueteava, foi-se o marido ultrajado à mulher e, tosquiando-lhe os cabelos e ajoujando-lhe às costas uma pele de cabra, com o esfolado para fora, pô-la em cima de um jerico, aparelhado de cilha e albarda e sentada ao contrário no animal.

E foi nesta pose que a mandou para casa do pai dela, não sem antes desse uma volta por onde el-rei se encontrava com os seus cavaleiros.

D. Afonso Henriques ficou em grande cólera e a soprar, jurando-lhe pela vida. Doía-lhe ter abusado da confiança do nobre servidor, mas o desforço dele tivera um repique que muito o confundia e envergonhava aos olhos dos seus.

Hesitante, porém, entre enviá-lo de presente ao diabo ou passar adiante chamou-o à sua presença e disse-lhe:

 - Por muito menos, cegou um adiantado de meu pai a sete condes…

- Cegou-os à traição, senhor, mas disso morreu.

 - E seu te mandar cortar a cabeça…?

 - Senhor, mais vale. Homem borrado, morto é.

D. Afonso Henriques ficou a meditar naquela palavra. Teria, depois de comer bem e beber melhor, filosofado com Herádio que “…se havia de correr a atalhar a ira como se fosse a apagar um incêndio…” e, montando a cavalo, despediu da Quinta do Unhão, vencido o instinto sanguinário.

Que faltou algumas vezes à palavra dada, pelo que os puritanos, ao tempo que os havia, muito o censuravam, muito o censuravam…! Sim, faltou, mas é demasiado rigor com o homem, abalizado na guerra e na conquista, relevar tal pecadilho.

O que ele quebrava com certo desembaraço era a palavra política, a de rei, que não a de homem. Há a sua diferença. Naquelas épocas recuadas, o verbo estava na infância da arte. Não se sabia falar diplomaticamente. O ditado árabe: «Alá deu ao homem a palavra para esconder o seu pensamento» passou primeiro dos filtros da Renascença para os lábios italianos, que o souberam transmitir aos ministros e homens públicos do Universo.

Não havia língua que melhor soubesse prometer, cantar uma fábula que a musicalíssima língua de Petrarca. Todavia era a filha primogénita da latina, que não contava no seu léxico, aliás sóbrio no essencial, o termo sim.

Pois D. Afonso Henriques não ligava grande importância ao prometer e ao faltar frente a frente a outros príncipes, no que provou ter em si o germe do prefeito homem das chancelarias.

Desmentindo-se, e não há que apontar no rol das prendas do primeiro rei faculdade tão lucilante como essa do ludíbrio verbal.

De resto, não está provado que não fosse João Peculiar ou o chanceler Julião que por ele fizessem esse jogo com pau de dois bicos em que os políticos modernos atingiram a subtileza máxima, aprendida nos mistifórios de Aristóteles e no ilusionismo dos prestidigitadores.

Mas se não fosse assim – com papas e bolos se apanham os tolos – era possível que ele, apenas pelo vigor do braço, virasse e amanhasse tão grande geira?

D. Afonso Henriques era religioso, tão maciçamente religioso como o exigia a política de resistência ao muçulmano, que ameaçava subverter o mundo ocidental, e com a Roma pontifícia a cabeça da liga neo-visigótica.

Para ele, e de modo geral, para todo o europeu, a religião tinha-se tornado uma espécie de epitélio da natureza humana.

Fazia assim parte da vida fisiológica dos indivíduos. Todos os actos vinham tocados de determinação eclesiástica. Daí, a estreita e prosaica inteligência que tinha de haver, e de facto havia tanto entre o espírito e Deus, ou entre o homem e o sacerdote, como entre o Príncipe e a Santa Sé.

Por isso mesmo o desrespeito ficava na mesma escala da familiaridade. A cada passo os reinantes infringiam pactos e concordatas celebradas com Roma, e o Papa, a cada passo, erguia o látego excomunicatório e fustigava os relapsos e perjuros.

Mas o Santo Padre tanto excomungava como desexcomungava. Da mesma maneira, os príncipes sabiam que a todo o tempo era hora de comprar o indulto, ou mesmo a salvação a poder de dinheiro.

O braço pontifício levantava-se como batuta e acudiam solícitas as pragas do Egipto, os gafanhotos, as lagartas, os ventos ruins e os ares pestilenciais.

Em Portugal, durante a primeira dinastia não houve monarca que não tivesse os seus problemas com a Cúria.

Roma era susceptível e ciosa das suas prerrogativas. Compreendia-se. Roma fora a mãe chocadeira da pintainhada latina.

Furtarem-se ao cumprimento das obrigações contraídas era negra e intolerável ingratidão.

Mas pagavam-no com língua de palmo, bastava o Sumo Pontífice alçar o breve da maldição.

D. Afonso Henriques sentiu várias vezes sobre si o pesado braço do pescador. Por ventura, as circunstâncias em que o facto se deu, cobertas hoje com o leve verdete do mito, mas sem que por isso tenham perdido a verdade local, constituem o episódio mais pitoresco e porventura shakspereano da sua existência agitada.

Lá porque as vozes de Dª Teresa, entre ferros, chegassem a Roma, ou o que é mais verosímil, os maravadis de oiro, que o infante ficara de contar para a burra de S. Pedro na qualidade de vassalo e obsequioso cristão, deixassem de tilintar a caminho da Cidade Eterna, o facto é que o bispo de Coimbra, de regresso a Portugal, recebeu o encargo de admoestar o rei. Admoestar e, se tanto se impusesse, lançar o interdito sobre o Reino.

D. Afonso Henriques recebeu com ânimo insofrido a reprimenda – que tinha o Santo Padre que meter o nariz onde não era chamado? – e o prelado tratou de cumprir o mandato que trazia, pelo que excomungou toda a terra, abalando para Roma como uma seta.

Sentiu-se muito o rei quando foi informado e, indo-se logo nessa manhã à Sé e mandado tocar para o Capítulo, disse aos cónegos:

 - Dai-me um Bispo…

- Bispo temos, como havemos de vos dar outro - respondeu um menos cobarde.

Extraído da Obra de Aquilino Ribeiro: "Príncipes de Portugal - Suas Grandezas e Misérias".
  

DONGA, PINXIGUINHA, HEBE e CHICO BUARQUE - PELO TELEFONE




Um pouco de história: Entre os séculos XVIII e XIX, nas cidades, desenvolveram-se dois ritmos musicais que marcaram a história da MPB (Música Popular Brasileira): o LUNDU e a MODINHA. O LUNDU, de origem africana, sensual, batida rítmica, dançante. A MODINHA, de origem portuguesa que trazia a melancolia, falava de amor, com uma batida calma e erudita. No início do séc.XX começam a surgir as bases do samba: dos morros e dos cortiços do Rio de Janeiro misturam-se batuques e rodas de capoeira com os pagodes e as batidas em homenagem aos orixás e o Carnaval começa a tomar forma com a participação, principalmente dos sons de origem africana de mulatos e negros ex-escravos.

1917 é um marco pois Ernesto dos Santos, O Donga, compôe aquele que é considerado o 1º Samba: Pelo Telefone aqui cantado pelo próprio, já velhote, com a intervenção do então jovem Chico Buarque.







Feijoada Traiçoeira





                                                                 




                                           
                                 .







O Carlos, advogado, 45 anos, bonacheirão, adorava feijoada.


Porém, sempre que a comia, o feijão causava-lhe uma reacção fortemente embaraçosa. A sua saliente barriga inflava ainda mais, e os gases...

Um dia apaixonou-se. Quando chegou a altura de pedir a mulher em casamento, pensou:
 - «Ela é de boa família, cheia de etiqueta, uma verdadeira dama, não vai aguentar estar casada comigo se eu continuar assim...»Decidiu fazer um sacrifício supremo e deixou de comer feijoadas.

Pouco depois, estavam casados.

Passados alguns meses, ao voltar do trabalho, o carro avariou.
Como estava longe, ligou à mulher e avisou-a que ia chegar tarde, pois tinha de regressar a pé.

No caminho, passou por um pequeno restaurante e foi atingido pelo irresistível aroma de feijoada acabada de fazer.

Como faltava muito para chegar, achou que a caminhada iria livrá-lo dos efeitos nefastos do feijão.

Entrou, pediu, fez a sua pirâmide no prato. Ao sair, tinha 3 doses de feijoada no estômago.

O feijão fez efeito e, durante todo o caminho, foi a peidar-se sem parar.

Foi para casa literalmente a jacto. Peidava tanto que tinha de travar nas descidas, e nas subidas quase não fazia esforço a andar.

Quando se cruzava com pessoas continha-se, e aproveitava a oportuna passagem de um ruidoso camião para soltar os gases.

Quando chegou a casa, já se sentia mais seguro.

A mulher parecia contente quando lhe abriu a porta e exclamou:

- «Querido, tenho uma surpresa para o jantar!»

Tirou-lhe o casaco, pôs-lhe uma venda nos olhos, levou-o até à cadeira na cabeceira da mesa, sentou-o e pediu-lhe que não espreitasse.

Já sentia mais uma ventosidade anal à porta, mas controlou-se.

No momento em que a mulher ia retirar a venda, o telefone tocou.

Ela obrigou-o a prometer que não espreitaria e foi atender o telefone. Era uma amiga...

Enquanto ela estava longe, o Carlos aproveitou, levantou uma perna e «ppuueett», soltou um.

Era um peido comum. Para além de sonoro, também fedeu a ovo podre.

A plenos pulmões, soprou várias vezes, a toda a volta, para dispersar o cheiro.

Quando começou a sentir-se melhor, surgiu outro. Este parecia potente.

Levantou a perna, tentou sincronizar uma sonora tosse para encobrir e «pprrraaaaaaaa».  Saiu um rasgador tossido.

Parecia a ignição de um motor de camião, e com um cheiro mil vezes pior que o anterior.

Para não sufocar com o cheiro a enxofre, abanou o ar com as mãos e soprou em volta, à espera que o cheiro dissipasse.

Quando a atmosfera estava a voltar ao normal, eis que vem lá outro.

Levantou as pernas e deixou sair o torpedo, mesmo um missil e dos valentes daqueles que se espalham por toda a parte.

Este foi o campeão, as janelas tremeram, os pratos saltaram na mesa, a cadeira saltou e, num minuto, as flores da sala murcharam.

Enquanto ouvia a conversa da mulher ao telefone, permanecia fiel à sua promessa de não espreitar e continuou assim por mais um tanto, a peidar-se e a tossir, a levantar ora uma perna ora a outra, a soprar em volta, a sacudir as mãos e a abanar o guardanapo.

Acendeu o isqueiro e desenhou com a chama círculos no ar, a tentar queimar o nefasto metano, que teimava em acumular-se na atmosfera.

Ouviu a mulher despedir-se da amiga.

Sempre com a venda posta, levantou-se apressadamente e, com uma mão, deu umas palmadas na almofada da cadeira para soltar o gás acumulado, enquanto a outra mão abanava para dispersar o cheiro.

Sacudiu e deu palmadas nas calças para libertar-se dos últimos resíduos.

Ouviu o «plim» do telefone a desligar.

Alarmado, sentou-se rapidamente, compôs-se, ajeitou o cabelo, respirou profundamente, pousou as mãos ao lado do prato e assumiu um ar sorridente.  Era a imagem da inocência quando a mulher entrou na sala.

Desculpando-se pela demora, ela perguntou-lhe se havia espreitado à mesa.

Depois de ele jurar que não, ela retirou-lhe a venda, e... SURPRESAAAAAA!!!




.... Estavam 12 pessoas, perplexas, pálidas e constrangidas, sentadas à mesa: os pais, os sogros, os irmãos e os colegas de tantos anos de trabalho, todos de guardanapo na mão a sacudir a nuvem de gases que enchia a sala...

Era a festa surpresa do seu aniversário!

CONVERSA

DE SURDOS

                                                                 









A Bíblia


Em Outubro de 2009, o padre e teólogo Carreira das Neves e José Saramago travaram na televisão uma conversa de surdos ou, no mínimo, um diálogo difícil.

Esta dificuldade traduziu-se numa impossibilidade de entendimento, espécie de caminho que não leva a lado nenhum e que sempre acontecerá quando um crente e um não crente se procuram explicar reciprocamente.

José Saramago fez acusações graves à Bíblia e a Deus, tendo mesmo reconhecido ter exagerado quando utilizou certas expressões, por exemplo: o tal “Manual de Maus Costumes”, mas desculpou-se com os seus direitos de autor.

O reconhecimento deste exagero parece-me ter sido feito mais por uma questão de amabilidade para com o interlocutor e as pessoas religiosas que o estavam a ouvir do que por não pensar exactamente o que disse.

Ele leu o que estava escrito no Antigo Testamento e a conclusão a que chegou foi de que aquilo não passava de um Manual de Maus Costumes e por isso o disse e reafirmará todas as vezes que isso vier a propósito e justificará apoiando-se em muitas passagens da Bíblia.

A grande questão que se levanta nestas apreciações tão graves sobre a Bíblia, é que este livro, para judeus e cristãos, é um texto sagrado porque eles acreditam no Deus daquela religião enquanto que, para José Saramago e para todos os ateus, é simplesmente um livro, não propriamente igual a qualquer outro, mas sem a componente do sagrado.

Por esta razão, a discussão que ambos travaram, não era de carácter literário ou interpretativo, qualquer coisa de académico que acontece com todas os livros, mas antes algo que tocava fundo, na essência espiritual de cada um deles e na de todas as pessoas que professam aquelas religiões mas que incomodam também os outros, os não crentes, porque afinal todos fomos criados neste “caldo” religioso e sabemos que a sociedade é constituída maioritariamente por pessoas religiosas ou que se consideram como tal, incluindo nela os nossos amigos e familiares.

As pessoas, não se sabe quem, que ao longo de mil anos foram escrevendo o que está escrito na Bíblia, (não vamos pensar que tenha sido Deus a fazê-lo directamente), tinham a noção de que o estavam a fazer para um livro sagrado e que essas palavras iriam ser lidas como se tivessem sido ditadas por Deus, muitas delas, mesmo, diálogos onde intervém o próprio Deus como personagem.

Isto significava que aquela mensagem escrita não iria apenas influenciar os leitores mas formar consciências, mentalidades, transmitir orientações com a força de ordens, criar unidade de um povo à volta de um Deus, essa entidade suprema, transcendente, que se escapa ao entendimento porque ultrapassava os homens em absoluto, no poder, deixando-lhes apenas a escapatória da obediência cega, sem discussão.

Terrível, a responsabilidade desses homens que ao longo dos séculos foram escrevendo a Bíblia, de tal forma que tiveram de a repartir com os teólogos, os que interpretam essa escrita.

Por aquilo que foi dito pelo teólogo Carreira das Neves, o Antigo Testamento é, todo ele, escrito usando metáforas e parábolas, de uma forma simbólica, o que significa uma solução de grande inteligência porque permite que os teólogos o actualizem e expliquem aos crentes de acordo com os tempos que se estão vivendo e com as orientações que em cada momento a Igreja ache mais conveniente.

Por esta razão, a Bíblia será cada vez mais um texto metafórico, para interpretar e não para ler porque o seu significado literal, com o avanço dos conhecimentos científicos e o triunfo da razão, será cada vez menos compreensivo.

Assim, a importância e o papel dos teólogos é cada vez mais importante para a Igreja porque ela pretende – pretensão inglória - complementar a fé dos seus seguidores com explicações plausíveis e racionais da mensagem do seu Deus.

Contra isto se insurgiu José Saramago para quem o livro não tem nada de sagrado e pergunta: “mas com que direito os senhores me vêm dizer o que está escrito na Bíblia?”

E aqui está a polémica que, ao fim e ao cabo, não é polémica nenhuma:

- O padre Carreira das Neves lê a Bíblia com os olhos de um crente, nem preciso acrescentar de padre e teólogo.

- José Saramago faz a mesma leitura com os olhos de um não crente mesmo que, como afirmou, se esforçasse para o ser.

O ponto de partida está na crença de um Deus que em seis dias, ou lá o tempo que fosse, fez o Universo. Antes não fez nada e depois, daí para cá, nada voltou a fazer, versão da Bíblia que, para Saramago, não crente, é absurdo e inteligível.

Realmente, a razão e a fé são inconciliáveis. A razão é um instrumento de análise crítica e a fé um dogma ou um conjunto de dogmas que não se sujeitam a essa tal análise crítica e constitui “batotice” Carreira das Neves afirmar que, “se os crentes não conseguem provar que Deus existe, os ateus também não conseguem provar que ele não existe”.

Todos sabemos que o ónus da prova é de quem afirma. Não é legítimo pensar que recai sobre mim a obrigação de provar em tribunal que não sou criminoso.

Fiquemo-nos, portanto, pela questão da fé. Foi através do processo de selecção natural que a sobrevivência da espécie humana aconteceu e o acreditar fez parte desse processo.

Os que não acreditavam e não seguiam os conselhos dos progenitores foram ficando pelo caminho…e mesmo assim não foi fácil...momentos houve em que chegámos a números no limiar mínimo da sobrevivência da espécie.

Este “jeito” de acreditar ficou-nos gravado no cérebro. É verdade, mas não nos esqueçamos que se chegámos ao que somos, hoje devemo-lo à capacidade de usar a nossa razão sem a qual também não teríamos sobrevivido.

Temos de conviver todos, crentes e não crentes, apelando cada vez mais à nossa inteligência, razão e senso comum… seja ele o lado em que estivermos.

O nosso futuro colectivo não depende de mais ninguém para além de nós próprios. Não sejamos ingénuos, não confiemos essa matéria a Deus. O mesmo “mecanismo de acreditar” que pode ter sido o segredo da nossa sobrevivência em tempos recuados da nossa evolução, pode, agora, virar-se contra nós.

Pensemos no que estão fazendo os fundamentalistas e radicais islâmicos e os de todas as religiões.

Tempos perigosos os que vivemos...

NOVOS TESTES
DOS PSICÓLOGOS...
















Um sujeito está numa entrevista para emprego. O psicólogo dirige-se ao candidato e diz:
- Vou fazer-lhe o teste final para a sua admissão.
- Perfeito! - diz o candidato.

O psicólogo pergunta:

- Você está numa estrada escura e vê ao longe dois faróis emparelhados a virem na sua direcção. O que acha que é?
- Um carro. - diz o candidato.
- Um carro é muito vago. Que tipo de carro? Um BMW, um Audi, um Volkswagen?
- Não dá para saber, não é?

- Hum... - diz o psicólogo, que continua - Vou fazer-lhe outra pergunta: Você está na mesma estrada escura e vê só um farol a vir na sua direcção. O que é?
- Uma mota - diz o candidato.
- Sim, mas que tipo de mota? Uma Yamaha, uma Honda, uma Suzuki?
- Sei lá, numa estrada escura, não dá para saber... (já meio nervoso)

- Hum..., diz o psicólogo. Aqui vai a última pergunta:
- Na mesma estrada escura você vê novamente um só farol, menor que o anterior, e você apercebe-se que vem mais lento. O que é?
- Uma bicicleta.
- Sim, mas que tipo de bicicleta? BTT, estrada, passeio...?
- Não sei.

- Lamento, mas reprovou no teste! - diz o psicólogo.

Aí o candidato dirige-se ao psicólogo e fala:
- Interessante esse teste. Posso fazer-lhe uma pergunta também?
- Claro que pode. Pergunte.
- Você está à noite numa rua iluminada. Vê uma mulher com maquilhagem carregada, vestidinho vermelho bem curto, a girar uma bolsinha... o que é?
- Ah! - diz o psicólogo - é uma puta.
- Sim, mas que puta? A sua irmã? A sua mulher? Ou a puta que o pariu?

terça-feira, dezembro 06, 2016

Lolongue - O maior crocodilo do mundo com 6,17 metros. Morreu de ataque cardíaco...


              

              Salvamento de animais por outros animais



Temos tendência para fazer uma interpretação antropomórfica do comportamento de  certos animais mas é errado. Só o homem adopta comportamentos humanos. Os animais agem de acordo com instintos que têm a ver com a sua própria sobrevivência, dos seus descendentes e em defesa da manada.    
              

             

                 O Empreendedor


                 

Rubem Alves
 (colunista da Folha de S. Paulo)












Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece, observou Nietzsche.

É o meu caso.

Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo.
Por medo.

Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega:

- Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos.

Tardiamente. 
Na velhice. 
Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei:


- "O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.


Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus
como fundamento da ordem política. 

Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo.


Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. 

Basta ver os programas de TV que o povo prefere...


A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos.

Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direcções opostas.

Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha
para que o povo, na planície, 
se entregasse à adoração de um bezerro de ouro.

Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso 
que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado!

Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!

Mas ela tinha outras ideias. 

Amava a prostituição. 
Pulava de amante para amante enquanto o amor de Oséias 
pulava de perdão a perdão.

Até que ela o abandonou.

Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário
pelo mercado de escravos e
o que foi que viu?

- Viu a sua amada sendo vendida como escrava.

Oséias não teve dúvidas.

Comprou-a e disse:

- "Agora você será minha para sempre.". 
Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa 
numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. 
O povo era a prostituta.

Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.

O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros,
porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.

As mentiras são doces; 
a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola
com pão e circo.

No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos
sendo devorados pelos leões.

E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!

As coisas mudaram.

Os cristãos, de comida para os leões, 
se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente:

- judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.

As praças ficavam apinhadas com o povo em festa,
se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro 
"O Homem Moral e a Sociedade Imoral" 
observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. 
São seres morais.


Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem. 
Mas quando passam a pertencer a um grupo, 
a razão é silenciada pelas emoções colectivas.

Indivíduos que, isoladamente,
são incapazes de fazer mal a uma borboleta, 
se incorporados a um grupo tornam-se capazes 
dos actos mais cruéis.

Participam de linchamentos, 
são capazes de pôr fogo num índio adormecido 
e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival.

Indivíduos são seres morais. 
Mas o povo não é moral.
O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional,
segundo a verdade e segundo os interesses da colectividade.

É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.

Mas uma das características do povo 
é a facilidade com que ele é enganado.

O povo é movido pelo poder das imagens 
e não pelo poder da razão.

Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.

Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista 
que produz as imagens mais sedutoras.

O povo não pensa.

Somente os indivíduos pensam.

Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam 
a ser assimilados à colectividade.

Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.

Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.

Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, 
o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.

Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.

O nazismo era um movimento popular. 

O povo alemão amava o Führer.

O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares.

Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos.

Mas, que posso fazer?
Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, 
de Saramago, de silêncio;

Não gosto de churrasco, não gosto de rock, 
não gosto de música sertaneja, 
não gosto de futebol.

Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, 
eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos

e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno", 
à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.

Mas, para que esse acontecimento raro aconteça,
é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute:

- "Caminhando e cantando e seguindo a canção.",

Isso é tarefa para os artistas e educadores.

O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.


Rubem Alves





NOTA - Tem razão Ruben Alves sobre o risco que representam as massas. Quando o povo diz que "muita gente junta não se salva" reconhece exactamente esse perigo, mas trata-se de um risco que pode ser minorado, não eliminado. A liberdade será sempre o preço mais baixo  porque permite equilíbrios... A educação, cultura e o desenvolvimento de um sentido da responsabilidade cívica ajudam à esperança...

A democracia é uma longa estrada que privilegia a liberdade e a responsabilidade dos cidadãos mas não os põe a salvo da manipulação. Dela, só cada um de nós, através da sua formação como homens e essencialmente como cidadãos, se pode defender.


Site Meter