Terça-feira, Novembro 24, 2009


Ramadão



Um muçulmano durante o período do Ramadão senta-se junto a um alentejano no voo Lisboa - Funchal.

Quando o avião descola começam a servir as bebidas aos passageiros.

O alentejano pede um tinto de Borba.

A hospedeira pergunta ao muçulmano se quer beber alguma coisa.

Responde o muçulmano com ar ofendido:


- Prefiro ser raptado e violado selvaticamente por uma dezena de putas da Babilónia antes que uma gota de álcool toque os meus lábios.


O alentejano engasgando-se, devolve o copo de tinto à hospedeira e diz:


- Eu também, eu também. Não sabia que se podia escolher!!!

VÍDEO

Vale a pena reparar na expressão do espectador...

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CARLOS PAIÃO - PIÃO-DAS-NICAS

CANÇÔES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS

ROBERTO CARLOS - DE QUE VALE TUDO ISSO



TIETA DO
AGRESTE


EPISÓDIO Nº 287



Ascânio não soube desse diálogo mas tomou conhecimento de variadas opiniões sobre os motivos determinantes da sua posição. Seu carácter e sua honra são discutidos apaixonadamente – como sempre acontece com os líderes.

Jamais imaginara que a redenção de Agreste (A presença da Brastânio significa a redenção de Agreste – proclama a manchete do jornal mural) lhe custasse tanto vexame, tanta consumição. Apesar das escusas do doutor Marcolino, persistem em seus ouvidos as frases capciosas, a palavra “compensações” junto com o aparte insultante, cuspido em sua cara no improvisado meeting do primeiro post: Pau – mandado da Brastânio! Vendido! De nada adiantara ter recusado a ajuda oferecida pelo doutor Mirko para a eleição, exactamente para ficar a coberto de qualquer suspeita: acusam-no da mesma maneira.

No decorrer desses dias agitados, vai-se habituando a equívocas situações que de início lhe pareceram intoleráveis. Ao ouvir o aparte, ficara como louco, desafiara o covarde a mostrar-se e a repetir a injúria. Perdera a cabeça, no bar, durante o torneio do Taco de Ouro, ao ouvir dona Edna aludir à Bacia de Catarina. Terminara por não ligar importância ao disse que disse, um líder deve colocar-se acima de tais mesquinhezas. Sobretudo quando acontecem factos realmente graves, junto aos quais o aparte anónimo, a frase incompleta do advogado, as torpezas de dona Edna nada significam.

Dona Carmosina, amiga fraterna, em cujo seio encontrara lenitivo na hora fatal da traição de Astrud, madrinha do namoro com Leonora, comportara-se de maneira insólita, para não dizer indigna. Tentara intrigá-lo com o coronel Artur, a quem Ascânio devia emprego e candidatura. Obtendo resultados, o que é pior.

Envenenado contra a Brastânio, o fazendeiro mandara chamá-lo. Não quero imundice em Agreste, dissera. Ascânio rebatera as afirmações e os argumentos da agente dos Correios, cuja posição apaixonada devia-se à amizade que a ligava a Giovanni Guimarães. Repetira frases e conceitos de Mirko Stefano e Rosalvo Lucena, bradara contra os inimigos do progresso da pátria brasileira. O coronel, os olhos semicerrados, a face cansada, ouviu o seu arrazoado mas não se deu por satisfeito, atirou-lhe com artigos publicados em O Estado de São Paulo, a sentença do juiz italiano; O estado de São Paulo não mente nem se engana. Levantou os olhos para o afilhado:

- Fui eu que levantei a sua candidatura quando Enoch morreu. Mas por aí estão dizendo que você é candidato por essa tal fábrica.

- O que sou devo ao senhor, meu padrinho. Mas não me importo que me apontem como candidato da Brastânio, não é uma desonra. Ao contrário, pois temos o mesmo ideal: o progresso de Agreste. Digam o que disserem, façam o que fizerem, não me dobram. Vou até ao fim. Agradeço tudo o que o senhor tem feito por mim, mas não me peça padrinho, para mudar de opinião – Um líder forja-se na luta.

Mal se refizera da entrevista, difícil e dolorosa pois o padrinho definhava a olhos vistos, recebeu outro golpe, o pior de todos. Voltando de Mangue Seco, a madrasta de Leonora, a cidadã benemérita, a Joana d’Arc do sertão, dona Antonieta Esteves Cantarelli o convida para uma conversa. Nós dois e mais ninguém, dissera. Ficara apavorado, na certa Tieta soubera do que estava acontecendo entre ele e Leonora, na beira do rio; chegaram aos seus ouvidos as murmurações da cidade. Não negará; aproveitando a deixa, confessará seu amor profundo e honesto, quer casar-se. Pobre, porém ambicioso e capaz, saberá conquistar um lugar ao sol. Assim resolverá de uma vez a situação. No bolso o anel de compromisso. Seja qual for a reacção
de dona Antonieta, não pensa desistir de
Leonora. Prepara-se para o encontro.

Segunda-feira, Novembro 23, 2009


A idade ensina-nos a fazer as melhores escolhas!!!





UMA QUESTÃO DE
PRIORIDADE





Uma senhora inglesa bem idosa estava no convés de um navio de cruzeiro segurando seu chapéu firmemente com as duas mãos para não ser levado pelo vento. Um tripulante aproxima-se e diz:


- Perdoe-me, lady...não pretendo incomodar, mas já notou que o vento está levantando bem alto o seu vestido?

- Já, sim, mas é que eu preciso de ambas as mãos para segurar o chapéu.

- Mas, lady.... deve saber que suas partes íntimas estão sendo expostas! -
disse o tripulante.


A senhora olhou para baixo, depois para cima, e respondeu:

- Gentleman, qualquer coisa que esteja vendo aqui em baixo tem 85 anos.

O chapéu comprei-o ontem!

VÍDEO

Um perigo para o trânsito...

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LUÍS MIGUEL - EL RELÓGIO


CANÇÕES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS
NELSON NED - SE AS FLORES PUDESSEM FALAR



TIETA DO
AGRESTE

EPISÓDIO Nº 286




DOS ÚLTIMOS RETOQUES NA FORMAÇÃO DE UM LÍDER OU DE COMO ASCÂNIO FICA DE SACO CHEIO



Forja-se um líder no fulgor da batalha, vencendo adversidades – lera Ascânio Trindade no volume “A Trajectória dos Líderes, de Tiradentes a Vargas”.

Comprova pessoalmente a verdade da afirmação. No fragor da batalha, em meio a agravos e decepções, insolências e ameaças, Ascânio se modifica, amadurece, reformula sua escala de valores, cresce em ambição (um homem sem ambição jamais será um vitorioso, ensinara o vitorioso Rosalvo de Lucena), torna-se um forte. Convicto do acerto das suas atitudes, disposto a ir até ao fim.

Segundo o autor dos esboços biográficos, quase sempre uma força misteriosa sustenta o líder no combate, uma estrela guia-lhe os passos, um sol ilumina seu caminho. Correcto. No caso do jovem líder de Agreste, essa misteriosa força provem de Leonora Cantarelli, estrela e sol, inspiração e desiderato. Nela se alimenta de coragem e disposição. Muito deve suportar um líder, se deseja vencer e comandar. Não fosse aquele alento de amor, cada noite renovado, como tolerar e confundir advogados e herdeiros? Juntos ou cada qual por si, sobem e descem as escadas da Prefeitura, a aporrinhá-lo. Aporrinhar, verbo cru e grosseiro, jamais o utilizaria antes o educado Ascânio, pouco afeito a expressões chulas. Mas agora de saco cheio escapam-lhe palavrões a torto e a direito.

Sozinho ou em grupo, terminam sempre na sala de despachos, infernizam a vida do candidato, esgotam-lhe a paciência. Exigem definições, promessas, garantias. Vai desapropriar ou não? A área inteira ou apenas uma parte? Em que bases será fixada a indemnização? Peritos? Quais? Apesar de ter abandonado a faculdade de Direito no 2º ano, Ascânio enfrenta os argumentos dos advogados, a pressão dos herdeiros. De nada vale irritar-se. Não pode mandá-los à puta que os pariu como tanto deseja fazê-lo. Deve consideração a Modesto Pires, a dona Carlota, é amigo de Canuto Tavares e deles necessita sobretudo agora, pois a eleição pode deixar de ser um simples referendum da vontade comum do coronel Artur de Tapitanga e do povo.

Aparentando não perceber insinuações, meias – palavras, advertências, consegue apaziguá-las sem se comprometer. Tão rígido antes, aprende a ser maleável. Diante da intransigência de Fidélio, não existe outra solução para o problema dos terrenos, além da desapropriação. Se existe, gostaria de conhecê-la, quem sabe os senhores advogados…

A desapropriação, por consequência, beneficia os herdeiros. A Prefeitura não deseja prejudicar ninguém. A instalação da fábrica deve ser motivo de riqueza para os cidadãos do município, esse o seu pensamento. Por que não tratam de legalizar seus direitos? Assim, no momento preciso, se Fidélio não voltar atrás, poderão acertar com a Prefeitura os detalhes da desapropriação. Navega entre herdeiros e advogados evitando entrar em choque com paredros (conselheiros) de sua candidatura. Apesar disso, atritou-se com doutor Marcolino Pitombo, logo com quem!

- Mais uma palavra e eu o convido a retirar-se da sala – Um líder deve saber se impor, quando necessário e útil.

Na presença de Josafá, o causídico em meio a uma conversa enrolada, de repente se refere a “compensações no caso que…” Insultado, Ascânio não lhe permite terminar a frase, vagam no ar indefinidas intenções. Tentativa de suborno? Diante da indignada reacção, doutor Marcolino não perde a calma nem o sorriso: o caro amigo anda com a susceptibilidade à flor da pele; somente assim se explica que empreste malévolo sentido a palavras inocentes – acalme-se, por favor. As explicações foram aceites, ficou o dito por não dito.

Na saída, Josafá recordou ao impulsivo patrono conversa anterior:

- Não lhe avisei, doutor, que Ascânio é homem direito? O senhor se trumbicou…

- Confesso que me enganei, sim, mas ao afirmar que o rapaz é tolo. Nem tolo nem honesto. Pode ter sido, antes de lhe ter aparecido uma boca dessas. Meu caro Josafá, já lhe disse que toda a honestidade tem seu preço. O nosso é baixo, não paga a pena, não se compara com o da
Brastânio. Não se esqueça que mestre Colombo passou aqui antes de mim.

Domingo, Novembro 22, 2009


Drª RITA LEVI
MONTALCINI


Presidente Honorária da Associação Italiana de Esclerose Múltipla



NOTÁVEL ENTREVISTA





A italiana neurologista, Drª Rita Levi – Montalcini, que completou 100 anos no dia 22 de Abril de 2009, recebeu o Prémio Nobel da Medicina há 23 anos, quando tinha 77.

Nasceu em Turim, Itália, em 1909 e obteve o título de médica na especialidade de Neurocirurgia.

Por causa da sua ascendência judia viu-se obrigada a deixar a Itália um pouco antes do começo da 2ª G.G.

Emigrou para os E.U.A. onde trabalhou no Laboratório Victor Hambuerger do Instituto de Zoologia da Universidade de Washington de Sant Louis.

- Como vai celebrar os seus 100 anos?

- Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso, não gosto de celebrações. No que estou interessada é naquilo que faço todos os dias.

- E o que faz?

- Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem… elas e os seus países. E eu continuo investigando, continuo pensando.

- Não se vai aposentar?

- Jamais! Aposentar é destruir o cérebro. Muita gente se aposenta e se abandona… e isso mata seus cérebros e adoecem.

- E como está seu cérebro?

- Igual a quando tinha 20 anos! Não noto diferença em ilusões nem em capacidades. Amanhã vou para um Congresso Médico.

- Mas terá algum limite genético?

- Não. Meu cérebro vai ter um século… mas não conhece a senilidade… o corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!

- Como é que faz isso?

- Possuímos grande plasticidade neural: quando morrem neurónios, os outros se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso é preciso estimulá-los.

- Ajude-me a fazê-lo.

- Mantenha seu cérebro com ilusões, activo, faça com que ele trabalhe e ele nunca se degenerá.

- E viverei mais anos?

- Viverá melhor os anos que viver, é isso o interessante. A chave é manter curiosidades, empenho, ter paixões… veja… não me refiro a paixões físicas especificamente…simplesmente tenha paixões.

- A sua foi a investigação científica…

- Sim e continua sendo.

- Descobriu como cresceu e se renovam as células do sistema nervoso…

- Sim, em 1942: dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, factor de crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida a sua viabilidade em 1986, deram-me um prémio por isso.

- Como foi que uma garota italiana dos anos 20 se converteu em neurocientista?

- Desde menina que tive empenho em estudar. Meu pai queria ver-me bem casada, boa esposa, boa mãe… e eu não quis. Fui firme e confessei que queria estudar.

- Seu pai ficou magoado?

-Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa… meus irmãos mais velhos eram brilhantes e eu sentia-me tão inferior…

- Vejo que isso foi um estímulo…

- Meu estímulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava em África para ajudar na lepra. Desejava ajudar os que sofrem, esse era o meu grande sonho!

- E você o tem feito… com a sua ciência.

- E hoje, ajudando as meninas de África para que estudem. Lutamos contra as enfermidades, a opressão da mulher nos países islâmicos por exemplo, além de outras coisas…

- A religião trava o desenvolvimento cognitivo?

- A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem afastando-a do desenvolvimento cognitivo mas algumas religiões estão tentando corrigir essa posição.

- Existem diferenças entre o cérebro do homem e da mulher?

- Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções vinculadas ao sistema endócrino. Mas quanto às funções cognitivas, não tem qualquer diferença.

- Por que existem ainda poucas cientistas?

- Não é assim! Muitas descobertas científicas atribuídas a homens foram, na realidade, feitas por irmãs, esposas ou filhas.

- É verdade?

- A inteligência feminina não era admitida e, por isso, deixada na sombra. Hoje, felizmente tem mais mulheres que homens na investigação científica: as herdeiras de Hipátia!

- A sábia Alexandrina do Sec. IV…

- Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como ela foi. Claro, o mundo tem mudado alguma coisa…

- Ninguém tentou assassiná-la…

- Durante o fascismo, Mussolini quis imitar Hitler na perseguição aos judeus e eu tive de esconder-me por uns tempos. Não deixei de investigar: tinha o laboratório no meu quarto… e descobri a apoptose, que é a morte programada das células!

- Por que tem uma alta percentagem de judeus entre cientistas e intelectuais?

A exclusão estimula entre os judeus os trabalhos intelectuais: podem proibir tudo menos o pensamento! E é verdade que tem muitos judeus entre os Prémios Nobel…

- Como explica a loucura nazi?

- Hitler e Mussolini souberam falar ao povo, onde prevalece o cérebro emocional sobre o neocortical, o intelectual. Conduziram emoções, não razões!

- Isso está acontecendo agora?

- Por que acha você que em muitas escolas nos E.U.A. é ensinado o Criacionismo e não o Evolucionismo?

- A ideologia é emoção sem razão?

- A razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos. Nós não. E ao sermos imperfeitos temos que recorrer à razão, aos valores éticos: distinguir entre o bem e o mal é o mais alto grau da evolução Darwiniana!

- Você nunca se casou ou teve filhos?

- Não, entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que decidi dedicar-lhe todo o meu tempo, toda a minha vida!

- Conseguiremos algum dia curar a o Alzheimer, o Parkiinson, a demência senil?

- Curar… O que vamos conseguir é travar, atrasar, minimizar todas essas enfermidades.

- Qual é hoje o seu grande sonho?

- Que consigamos um dia utilizar ao máximo a capacidade cognitiva dos nossos cérebros.

- Quando é que deixou de se sentir feia?

- Ainda estou consciente das minhas limitações!

- O que tem sido o melhor da sua vida?

- Ajudar os demais.

- O que faria hoje se tivesse 20 anos?

- Mas eu estou fazendo!!!



A Drª Levi - Montalcini é, desde 2001, Senadora Vitalícia da República Italiana, nomeada directamente pelo Presidente Carlo Azeglio Ciampi.

Sábado, Novembro 21, 2009

Pensamento do Dia



O Amor é como a relva, se o plantares e regares todos os dias, ele cresce.



Se aparece uma vaca, acaba com tudo!

VÍDEO

Destreza, coragem, técnica... (oxalá quando cairem não se magoem muito...)

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Anedota do dia! (Descupem mas não resisto a esta...)



Um gajo pequenino entra num elevador e depara-se com um gajo enorme lá dentro.

O gajo grandalhão olha para o pequenino e decide apresentar-se:

- 2,05 metros de altura, 152 quilos, pénis de 30 cm, testículo esquerdo de 1,2 quilos, testículo direito de 1,5 quilos... Victor Costa.

O gajo pequenino desmaia.

O gajo grande pega no pequenino, reanima-o com umas bofetadas.

- Que se passa? Tem algum problema?!

O tipo pequenino pergunta:

- Desculpe, mas o que é que você disse?

O gajo grandalhão repete tudo novamente.

- 2,05 metros de altura, 152 quilos, pénis de 30 cm, testículo esquerdo de 1,2 quilos, testículo direito de 1,5 quilos... Victor Costa.

O gajo pequenino suspira de alívio...

- Ah! Victor Costa?! Graças a Deus! Eu percebi que tinha dito: "Vira-te de Costas..."

RUI VELOSO - NÃO QUEIRAS SABER DE MIM

CANÇÕES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS
LINDOMAR CASTILHO - EBRIO DE AMOR




TIETA DO


AGRESTE


EPISÓDIO Nº 285



DO BANZO DIAGNOSTICADO POR OSNAR



Na pensão de dona Amorzinho, definha o velho Jarde Antunes, outrora agricultor laborioso, jovial criador de cabras. Passa a maior parte do dia estendido na cama, morrinhento, nada no mundo o interessa. Josafá, vez por outra, tenta reanimá-lo:

- Daqui a mais uns dias, Pai, logo se venda o terreno e embolse os cobres, a gente se toca para Itabuna. Vosmicê vai ver o que é terra fértil, gado gordo, cada rês de encher os olhos, vai conhecer roça de cacau. Aquilo, sim, vale a pena, não são esses tabuleiros daqui, secos e esturricados. Tenha um pouco de paciência.

Os olhos do velho persistem fixos nos caibros do teto, Josafá se agasta:

- Está sentindo doente, Pai? Quer que chame o médico?

- Precisa não. Tenho nada, não.

Bom filho, Josafá perde tempo contando-lhe detalhes sobre a marcha da demanda, idas e vindas dos advogados, matreirices de Modesto Pires, dúvidas sobre Ascânio, quando não descreve as opulências do sul do Estado, a grandeza do cacau. Não tem sequer a certeza se o velho o escuta.

- Está ouvindo, Pai?

- Estou sim, meu filho.

No calor da tarde a leseira aumenta, Jarde cerra os olhos, indiferente a tudo. Ou quase tudo, pois lhe acontece, de raro em raro, calçar as alpargatas, sair do quarto e da pensão, atravessando a rua em direcção à loja de Astério. Em busca de notícias de Vista Alegre, das cabras e de seu Mané. As notícias são boas, Jarde cobra alento ao ouvi-las, chega a sorrir. Discorre com Astério e Osnar, sobre o costume das cabras; não existe animal, doméstico ou selvagem, que com elas se possa comparar. Quanto a seu Mané, nem o coronel Artur da Tapitanga possui macho de tanta competência e sobranceria. Bodastro retado, confirma Osnar.

Ao despedir-se, o velho recai no desalento, na melancolia. Põe-se de pé, lívido, trôpego, cabisbaixo, pele e osso. Astério, penalizado, convida-o a acompanhá-lo na caminhada matinal à roça. Jarde recusa, um gesto esmorecido, um fio de voz:

- Pra quê? Pra ver o que não me pertence mais? Só peço que o senhor cuide bem dos bichinhos.

Arrasta-se, cruzando a rua, Osnar diagnostica:

- Está com banzo.

- Banzo? – duvida Astério – Nunca ouvi ninguém atacado de banzo por aqui. Banzo era doença de escravo.

- Pois é, tinha acabado com o treze de Maio. Voltou com a fábrica. É capaz de virar epidemia.



NOTA:


- O Banzo foi diagnosticado no século XIX como um distúrbio mental. Os escravos ficavam entristecidos, paravam de falar e, acima de tudo, deixavam de comer quaisquer que fossem as comidas…falecendo pouco depois numa espécie de morte voluntária.

Os escravos suicidavam-se 2 a 3 vezes mais que os homens livres, especialmente com o banzo a que também poderíamos chamar de nostalgia.

… quem diz que elas não matam?

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

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As duas cabeças falam, riem, olham, têm sensações e, mais importante, têm pensamentos diferentes. Uma, quer ser odontóloga, a outra, advogada. A cabeça da esquerda controla a mão e a perna esquerda. A cabeça da direita, a mão e a perna direita. A perfeita coordenação motora, andar e dançar, deixa os médicos intrigados. Observem: ela escreve com ambas as mãos ao mesmo tempo.

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CARLOS PAIÃO - CEGONHA



FICHA PARA
EMPREGO



Esta ficha de emprego foi preenchida por um jovem para o McDonalds no Rio de Janeiro. A empresa contratou-o por ter considerado a ficha honesta e engraçada. Serve também para se observar a quantidade de perguntas estúpidas que são feitas ao candidato.


Ficha de Emprego

NOME:
- Júlio da Silva Moura

SEXO:
- Duas vezes por semana.

CARGO DESEJADO:

- Presidente ou vice-presidente da empresa. Falando sério, qualquer um que esteja disponível. Se eu estivesse em posição de escolher, eu não estaria me inscrevendo aqui.

SALÁRIO DESEJADO:

- R$ 15.000,00 por mês e todos os privilégios existentes. Se não for possível, façam uma oferta e poderemos chegar a um acordo.

EDUCAÇÃO:
- Tenho.
ÚLTIMO CARGO OCUPADO:

- Alvo de hostilidade da gerência.

ÚLTIMO SALÁRIO:

- Menos do que mereço.

MAIS IMPORTANTE META ALCANÇADA NO ÚLTIMO EMPREGO:

- Uma incrível colecção de canetas roubadas e de mensagens post-it.

RAZÃO DA SAÍDA DO ÚLTIMO EMPREGO:

- Era um lixo.

HORÁRIO DISPONÍVEL PARA O TRABALHO:

- Qualquer um.

HORÁRIO PREFERIDO:

- Das 13:30h às 15:30h, segundas, terças e quintas.

VC TEM ALGUMA QUALIDADE ESPECIAL?

- Sim, mas é melhor se ela for colocada em prática em ambientes mais íntimos.

PODEMOS ENTRAR EM CONTACTO COM SEU ACTUAL EMPREGADOR?

- Se eu tivesse algum, eu estaria aqui ?

VC TEM ALGUMA CONDIÇÃO FÍSICA QUE O PROÍBA DE LEVANTAR PESOS DE ATÉ 25kg?

- 25 kg de quê?

VC POSSUI CARRO?

- Eu acho que a pergunta mais apropriada seria: Você tem um carro que funciona?

VC JÁ RECEBEU ALGUM PRÉMIO OU MEDALHA DE RECONHECIMENTO?

- Talvez. Eu já ganhei a Porta da Esperança.

VC FUMA ?

- No trabalho não, nos intervalos sim.

O QUE VC GOSTARIA DE ESTAR FAZENDO DAQUI A CINCO ANOS?

- Vivendo nas Bahamas, com uma super modelo loura, incrivelmente rica, burra, sexy e que pensa que eu sou a melhor coisa que surgiu desde a invenção do pão de forma. Na verdade, eu gostaria de estar fazendo isso agora.

CANÇÕES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS

NELSON NED - TUDO PASSARÁ



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 284




ONDE O LEITOR TOMA CONHECIMENTO DA EXISTÊNCIA DE UM COMITÉ ELEITORAL AINDA CLANDESTINO


Pau para toda a obra, Ricardo transforma-se em importante peça da esforçada equipe que trabalha em segredo no quintal do chalé do Comandante, transformado em sede de comité eleitoral. Por ora clandestino, pois a candidatura permanece secreta, conhecida apenas de alguns conspiradores. O Comandante concordara com um pedido de Tieta: não bote o andor na rua antes que eu tenha conversado com Ascânio e com o coronel Artur.

Ricardo ajuda nos trabalhos de carpintaria e de pintura, vai comprar pano na loja do tio Astério, serve de elemento de ligação dos conjurados, circulando entre a agência dos Correios, o bar, a casa de dona Milú, sem esquecer as sagradas obrigações para com a igreja. Na igreja encontra Cinira, estudando para beata, galgando os degraus da torre, ela na frente, ele atrás a contemplar. Em correria pela cidade, certamente na intenção de cortar caminho, penetra em becos e desvios, resvala nos braços de Maria Imaculada, toda ela em dengue e queixa: pensei que tu nunca mais ia aparecer, bem.

À noite, participa da conferência do Estado – Maior – dona Carmosina, Aminthas, o Comandante – vibra com os planos da campanha, antes de recolher-se aos seios de Tieta. Na fúria dos dezassete anos, devotado e incansável, cumpre com brilho os deveres de cidadão e de homem. Pau para toda a obra.

Portador de uma peça de algodãozinho, no quintal deserto na hora da sesta, Ricardo houve um discreto psiu a chamá-lo, não vê ninguém. Mais forte o apelo se repete, proveniente do outro lado da cerca.

O quintal do chalé limita com o quintal da casa onde vive, submissa mas não resignada, a defesa e cobiçada Carol. Garantia de tranquilidade para Modesto Pires, a quem uma sina injusta e o poder do dinheiro concedera direitos exclusivos sobre a beldade em cativeiro; impossível melhor vizinhança. A incurável monogamia do Comandante é pública e notória; o próprio Osnar perdeu a esperança de um dia conduzi-lo à alegre convivência da pensão da Zuleika. Acresce o sentimento de gratidão, profundo em Carol, fazendo-a devota de dona Laura. As senhoras de Agreste evitam qualquer contacto com a amásia do ricalhaço. Todas à excepção de dona Laura de Queluz, nascida e criada no sul, liberal. Também dona Milú não conta: por viúva, provecta e parteira, está acima dos cânones locais, além do bem e do mal.

Florida cerca de arame no qual se enramam trepadeiras azuis e amarelas separa os dois quintais. Pelas fendas da cerca, acontece Carol espiar o quintal vizinho, quase sempre silencioso e tranquilo, mesmo quando os donos da casa estão na cidade. Por vezes Gripa, a empregada, vem colher limões. De manhã cedo o Comandante dedica-se à ginástica que, somada ao mar de Mangue Seco, ajuda-o a manter a forma atlética. Admirá-lo é prazer platónico, inconsequente pelas razões expostas. A integridade do Comandante e a gratidão da manceba reduzem o espectáculo a pura emoção estética.

Assim sendo, imagine-se a surpresa de Carol ao constatar desabitual movimento do lado de lá da cerca. Colocando-se à espreita, notou a existência de estranho material de trabalho, tábuas, ripas, pano, cartolina, tintas, à disposição de sensacional trupe. Delas participam os galantes moços do bar – Aminthas que lhe pisca o olho e acena adeus, Seixas, o dos longos suspiros ao passar sob sua janela, Fidélio, dos quatro o mais bonito, reservado e esperto, aguardando um ensejo propício e o descarado Osnar. De repente, acompanhados por dona Carmosina, invadem o quintal, desenrolavam pano e cartolina, batiam martelos, misturavam tintas. O Comandante ditava ordens. Seu Modesto, em noite recente, disse que o povo de Agreste anda de cabeça virada.

A excitação da opípara e proibida Carol chega ao cúmulo quando percebe, através das folhas das enredadeiras, o vulto inesperado e angélico do adolescente Ricardo, de pé maneiro e perna cabeluda. Adormece com ele nas noites de agonia e desamparo, acarinhando o travesseiro. Agora o tem ali, ao alcance da mão. Seu Modesto sabe o que diz, Agreste ganha repentino encanto.

Repete o psiu, Ricardo se adianta, coloca o rosto na fresta, uma coroa de flores na cabeça.

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

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Massagem erótica!!!???

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RADETZKY MARCH, OP.228 - VERSÃO CHINESA


ATTENDI AL LUPO



TIETA DO


AGRESTE

EPISÓDIO Nº 283


ONDE A CARNIÇA COMEÇA A FEDER



Apopléctico, Modesto Pires grita fora de si:

- Bando de urubus!

Canuto Tavares (duas vezes Antunes) ergue-se diante do dono do curtume:

- E o urubu mais porco de todos é o senhor! Usurário, agiota!

Os doutores Baltazar Moreira e Gustavo Galvão, quase sempre de comum acordo, trocam desaforos:

- Desleal, hipócrita, salafrário!

- Ignorante. Primário, analfabeto!

Doutor Franklin, em cujo cartório acontece a baderna, tenta apaziguá-los:

- Meus senhores, meus caros senhores, calma…

Teme que passem dos insultos aos tabefes. Dona Carlota, directora do colégio, habituada ao respeito, inicia um chilique. Doutor Marcolino vale-se do faniquito da histérica solteirona para obter calma e silêncio.:

- Vamos ouvir o que o doutor Baltazar tem a nos dizer. Já que ele tomou a iniciativa de procurar a Brastânio…

- Tomei e não preciso de pedir licença a ninguém para agir em defesa dos interesses dos meus constituintes… se querem ouvir , darei a informação, se bem não seja obrigado a fazê-lo…

O bafafá começou quando, reunidos no cartório a pedido do doutor Marcolino, em meio à explanação feita por ele, o doutor Baltazar o interrompeu anunciando:

- A medida que o colega propõe eu já a tomei, por conta própria. Não vale a pena perder tempo repetindo a mesma diligência.

Por conta própria ou seja por conta de dona Carlota e Modesto Pires, à revelia dos demais, pelas costas, traição, punhalada vil. A assembleia tornou-se tumultuosa. Mas doutor Marcolino, sempre sorridente, consegue acalmá-los, decepcionando o jovem Bonaparte, chegado a filmes de pancadaria: tivera fundadas esperanças de assistir a uma cena de pugilato entre Canuto e Modesto Pires, o quotidiano de Agreste torna-se excitante. Doutor Marcolino propõe que os epítetos sejam retirados, de lado a lado: dona Carlota, atendida pelo tabelião, volta a si, ainda trémula.

Insultos, ameaças, desmaio, como se doutor Baltazar houvesse abiscoitado para dona Carlota a dinheirama da Brastânio. No entanto, conforme explica o advogado, os resultados dos seus contactos com a directoria da empresa haviam sido negativos. Para começar, ao sabê-lo patrono do herdeiro do coqueiral, mandaram-no dirigir-se ao escritório do doutor Colombo, o que ele fez. Não falou da longa e humilhante espera na ante-sala, ao contrário ressaltou a cortesia com que o mestre o tratara. Cordial porém categórico.

Segundo disse o interesse da Brastânio por Agreste até àquele momento era puramente teórico, pois o governo do estado ainda não se pronunciara sobre a localização da indústria. Havia, é certo, possibilidades de a fábrica ser instalada em Agreste, mas antes de uma decisão das autoridades competentes, a Brastânio sentia-se impedida de estabelecer acordos, discutir preços, adquirir terrenos. Ali ou alhures, onde fosse. Como passar por cima do Governo, adiantando-se a uma decisão oficial, ainda em estudos? Ademais, como tratar com pessoas faltas de qualquer condição jurídica, pseudo - herdeiros, sem direitos assegurados?

Antes de propor acordos, devem procurar o reconhecimento das suas pretensões, pois a companhia, se for o caso de conversações e acerto, tratará somente com herdeiros proclamados como tais pela justiça. Quanto à alardeada desapropriação, sobre ela, declarou nada saber, não deve passar de especulação da imprensa:

- Mas, se o Prefeito pensa em desapropriar a área visando futura valorização, isso é problema dele e não meu…

Com essa afirmação, evidentemente falsa, mestre Colombo despedira o prezado colega. Doutor Baltazar termina narrativa afirmando, conciliatório, ter sido sempre sua intenção relatar essas démarches aos demais herdeiros.

Segue-se um silêncio de meditação, logo interrompido por Canuto Tavares:

- Pelo visto estamos no mato sem cachorro…

Não é essa a opinião do doutor Marcolino, que reclama a reconciliação geral tendo em vista uma acção colectiva junto ao futuro prefeito. Bem conduzida, a desapropriação poderá revelar-se solução aceitável. Não adianta tentar impedi-la, por ser medida legítima; devem torná-la proveitosa. Que acham os caros colegas?

No calor da tarde, lá se vão eles, trotando nas ruas de Agreste. No cartório, doutor Franklin aperta as narinas com os dedos, murmurando:

- Está cheirando mal…

Bonaparte lastima:

- Pensei que Canuto fosse meter o braço em seu Modesto. Ia ser sensacional… Já pensou, Pai?

- Nem quero pensar.

CANÇÕES ROANTICAS BRASILEIRAS

NELSON NED - DOMINGO À TARDE


A TEMPESTADE






Eles estavam juntos na casa.

Apenas os dois.

Era uma noite fria, escura e chuvosa. A tempestade tinha chegado de repente e cada vez que um trovão ecoava, ele observa o seu pulo.

Ela olhou através da sala e admirou sua força aparente...e desejou que ele pudesse pegá-la em seus braços, confortá-la e protegê-la da tempestade.


De repente, com um estouro, a energia se foi... ela gritou...

Ele correu ao sofá onde ela se encolhia de medo.

Ele não hesitou e a colocou em seus braços.

Ele sabia que era uma união proibida e tinha a expectativa de que ela o empurrasse de volta.

Ele ficou surpreso quando ela não resistiu e o agarrou.

A Tempestade passou...


Eles sabiam que estavam errados...

Suas famílias nunca entenderiam... Tão consumidos estavam em seu MEDO que não ouviram nenhuma porta se abrindo... apenas o clique seco de uma máquina fotográfica...

Quarta-feira, Novembro 18, 2009


TIETA DO
AGRESTE

EPISÓDIO Nº 282


DAS RAZÕES DIFÍCEIS DE EXPLICAR E DE ENTENDER


Na Alcova, a sós com Tieta, Leonora narra alegrias e tristezas, exaltada:

- Mãezinha, não sei como lhe agradecer por me ter trazido. Tem sido tão bom… É verdade que vamos demorar mais uns tempos? – Toma a mão de Tieta, beija-a, nela encosta o rosto, grata e terna.

- É bem capaz, mais umas semanas, ainda não sei quanto. Mas, cabrita, deixe para pensar na separação quando estiver na marinete. Até lá aproveite o mais que puder, esqueça que tem de ir embora…

- Se eu pudesse…

- Deixe para lá, já te disse. E a beira do rio? Me conta…

- Tu nem imagina, Mãezinha como foi difícil convencer Ascânio. Não queria nem tocar no assunto, foi arrastado por mim. Tem medo de ver meu nome na boca do povo, que eu vire moça falada… Pobrezinho, fico até com remorso. Outro dia, no bilhar, perdeu a partida para Astério porque achou que dona Edna estava referindo-se a mim, numa conversa com Osnar.

- Vai ver, estava mesmo, a puta descarada.

- Para dizer a verdade não sei. A gente toma muito cuidado, Ascânio é por demais cauteloso. Sabe, Mãezinha, do que eu tinha vontade? De dormir uma noite inteira com ele, pelo menos uma, antes de ir embora. Numa cama de verdade, em cima de um colchão, os dois pelados, sem pressa, sem sustos, sem ter de falar baixo. Só que não vejo onde.

- Tu não vê? E a casa dele? Ao que sei mora sozinho.

- Sozinho, não. Tem Rafa…

- A criada é uma velha broca, surda, quase cega? Então, cabrita?

Não sei como tu ia se arranjar senão fosse eu…

- Será que ele topa? É tão escrupuloso! Ai, Mãezinha, não me conformo quando penso que tenho de ir embora. Vou morrer de saudades.

- Saudade é igual a amor, Nora. Não mata, ajuda a viver.

Leonora não se limita ao relato do namoro, fugas nocturnas para os esconsos do rio, sussurrando poemas, suspiros contidos. Refere também desagradáveis episódios; com essa história da desapropriação do coqueiral, Ascânio não tem um minuto de sossego. De tudo, o mais triste, fora a ruptura das relações com Carmosina. Ascânio tentara o possível e o impossível para evitar aquele desfecho, deixando inclusive de aparecer na agência dos Correios para não ouvir provocações e dichotes. Mas ao saber da visita da fofoqueira à Fazenda Tapitanga, onde fora com o objectivo de intrigá-lo com o padrinho e protector, Ascânio não mais se conteve. A pérfida assacara cobras e lagartos contra a Brastânio, lera recortes de jornais, criticara o apoio da Prefeitura aos planos da Companhia, referira-se a abuso de confiança. O Coronel, baratinado, mandara chamar o afilhado, exigira explicações, o que fora fazer à Bahia, que história era essa da desapropriação? Ascânio indignado e ferido, sem atender aos rogos de Leonora, dirigira uma carta – carta comovente, Mãezinha, até chorei quando ele leu para mim – à intrigante, rompendo relações pondo fim a uma amizade “que eu pensara ao abrigo das divergências. Epistológrafa não menos competente, dona Carmosina revidara as acusações de aleive e insídia em missiva de estilo
e conteúdo
igualmente dramáticos: “você atirou minha amizade, provada em momentos cruciais na lata de lixo da Brastânio”.

- Que horror essa briga, Mãezinha. Antes, antes eram todos tão unidos. Gosto muito de Carmosina, morro de pena.

Tieta acarinha a fulva cabeleira da moça:

- Tu não sabe ainda porque voltei de Mangue Seco.

- Me admirei. Pensei que Mãezinha só ia vir no dia da festa.

- era essa a minha intenção. Se tu está contente aqui, muito mais estava eu em Mangue Seco. Gozando as delícias do paraíso, cuidada por meu arcanjo. Pois bem larguei tudo e vim.

- E por quê, Mãezinha?

- Porque não pude me impedir. Fiz tudo para não vir, acabei vindo. O pior é que eu sei que, no fim, não vai adiantar nada. Não foi Mãezinha quem veio, Nora. Foi Tieta, aquela menina das cabras que brigava com a polícia ao lado dos pescadores. Não sei explicar mas, se eu não viesse, acho que nunca mais teria coragem de pôr os pés aqui.

Tão pouco Leonora tem certeza de entender. Tieta levanta-se, chega à janela, olha o beco, pobre Leonora!

- Vim acabar com a candidatura de Ascânio. Por bem ou por mal.

- Ai, Mãezinha! O que vai ser de mim?

- Isso não tem nada a ver com o teu xodó. Não se meta em nossa briga, tu não é daqui, está de passagem, esse assunto só interessa a quem é de Agreste.

Trata de amparar teu homem, se tu gosta tanto quanto diz. Ele vai precisar.