sábado, abril 30, 2011

VÍDEO


Hi, Jack...


video

ROBERTO CARLOS - AMANTE À MODA ANTIGA

Robert Carlos é quase da minha idade e por isso fazemos parte daquele grupo de jovens que ainda escreviam cartas de amor... hoje é mais mensagens de telemóvel.

TEREZA

BATISTA

CANSADA

DE

GUERRA

Episódio nº 95


Os sonetos despertaram-lhe a curiosidade e, chegando a Cajazeiras, tratou de descobrir a inspiradora dos veementes arroubos paternos. Foi Marcos Lemos, alto funcionário dos escritórios da usina, colega de letras do juiz, quem lhe deu indicações sobre Belinha; tagarela, foi ele igualmente a lhe falar de Tereza Batista.

Quando pela última vez estivera na comarca, rapazola de dezassete anos, Dan andou se esfregando com moçoilas em frenesi; no aperto do corredor tocara os seios de casada saliente, de ousado decote, fora tudo. Agora, ao passar pela Praça da Matriz, ao descer a rua principal, enchiam-se as janelas, sorrisos, olhares, donzelas às dúzias.

Condenadas ao celibato, ao barricão – palavra maligna: aquela mais moça está com o pé no barricão, a outra já se enterrou no barricão, ou seja, sentenciadas à beatice, à histeria, à loucura. Daniel nunca vira tanta devota e tanta maluca, tanta fêmea a mendigar macho.

O governo, disse ele a Marcos Lemos e a Aírton Amorim, ao tomar assento na Assembleia dos letrados, se realmente cuidasse da saúde e do bem estar da população, devia contratar meia dúzia de robustos desportistas e colocá-los à disposição das massas femininas em desespero. Aírton Amorim, gozador, aplaudira a ideia:

- Bem pensado, meu jovem. Só que para nossa comuna fazem-se necessárias pelo menos de duas ou três dúzias de rijos campeões.

Quisesse encher o mês de férias na bolinagem de virgens no esconso das portas e tinha às suas ordens farto material, ampla escolha, e muito cuidado a tomar para não cometer um descuido fatal e lá se foi um cabaço, pois outra coisa não desejavam as assanhadas para de imediato pôr a boca no mundo – daqui d’el! Fui comida, deflorada, era virgem, estou grávida, tragam o padre e o juiz – proclamando-o vil sedutor e noivo de casamento marcado às pressas, logo ele, filho de juiz de direito, essa não. Virgens não eram o seu género preferindo as casadas, amancebadas ou livres de qualquer compromisso. Casadas, ali, naquela vida ronceira, raríssimas pagavam a pena de um olhar; cedo perdiam qualquer encanto nos trabalhos domésticos, nos partos seguidos, na modorra e na chatice quotidianas.

Daniel quase não reconhecera aquela cujos peitos túmidos tocara há cinco anos num encontro fugaz; gorda matrona, busto flácido, cor de clausura. Uma mais bonitinha, cara de malícia, trêfegos olhos de árabe, merecedora do irresistível olhar de frete, ao responder-lhe ao sorriso exibiu a boca falha de dentes, banguela, uma tristeza, absurdo desleixo.

Além do perigo de escândalo. Imagine-se um marido ultrajado, estranhando os chifres, a acusá-lo, a ele, filho do meritíssimo, de destruir lar cristão e feliz, de enlamear a sagrada instituição da família, se não fizesse pior; ameaças de vingança e morte, correrias, tiros; Dan sempre fora alérgico a violências de qualquer tipo.

Não podia fazer uma sacanagem dessas com o paterno nem expor-se aos zelos rústicos de sertanejos primários, ainda no tempo de histórias de Trancoso quando se lavava com sangue a honra emporcalhada. Na capital, marido enganado só mata nas classes ditas menos favorecidas e cada vez mais raramente; a partir de certa renda, se a raiva é grande por ser grande o amor, o marido exempla a infiel com uma surra; se é por demais delicado de crânio, incapaz de suportar o peso dos cornos, desquita-se e sai para outra; a grande maioria se conforma, quanto mais rico mais fácil de adaptar-se. (clik na imagem)

INFORMAÇÕES ADICIONAIS


À ENTREVISTA Nº 91 SOB O TEMA:


“DEBATE COM O PAPA”




O Palco do Debate

A Capela Sistina é um dos tesouros de arte mais famosa do Vaticano. Foi construído entre 1471 e 1484 durante o papado de Sisto IV, daí seu nome. Essa é a sala onde se realiza o conclave para eleger os papas e onde se realizam cerimónias oficiais, como a coroação de papas eleitos. Os frescos de Miguel Ângelo, incluindo o Juízo Final, dão-lhe um valor ainda maior. Era natural que o Papa escolhesse esse cenário para a discussão com Jesus de Nazaré…

Os Personagens de Conflitos, e os Resultados

Que se passaria num debate entre o Papa e Jesus de Nazaré? Reconheceria Jesus como o representante de seu Movimento o Pontífice romano? Quais seriam as armadilhas do papado, o luxo que o rodeia? Não se surpreenderia ao vê-lo vestido com tantos atributos da soberania e do poder?


Seguramente, Jesus identificaria a pompa do Vaticano com aquela que cercava os imperadores romanos de seu tempo. Provavelmente, relacionaria o guarda-roupa papal alguns dos ornamentos dos altos sacerdotes que o condenaram à morte. O excesso de riqueza e ostentação certamente indignariam Jesus e, com sua paixão radical, recordar-lhe-ia a sua mensagem mais repetida: “Tem que escolher entre Deus e o dinheiro e renunciar à arrogância de acreditar-se superior aos outros.

E o que se passaria com o Pontífice? Reconheceria o Papa num camponês galileu o Cristo dos seus dogmas? Respeitá-lo-ia, escutá-lo-ia? Acreditaria, realmente, que era o Jesus da Nazaré que o interpelava e desqualificava? Seguramente que quem acredita que é infalível em questões de fé cristã, quem nunca debate com ninguém, apenas ordena e “pontifica”, quem tem tanto poder e vive rodeado de tantos símbolos de poder, não responderia nada e abandonaria a sala muito agastado.

sexta-feira, abril 29, 2011

VÍDEO


Em todas as famílias há sempre um "malandreco"...

video

JAIR RODRIGUES - TRISTEZA

Foi o último samba de estilo tradicional a vencer no Carnaval. "Tristeza", foi também o último sucesso, aliás póstumo, de Haroldo Lobo falecido em Julho de 1965. Este samba, na sua versão original é de autoria de Niltinho (Nilton de Sousa) que estava a iniciar-se mas a versão era muito extensa. Harold, remontou-a dando-lhe um toque de profissional, reduziu-lhe o tamanho e enxertou-lhe alguns compassos de uma antiga melodia de sua autoria ficando um samba vibrante, sentimental, consagrado pelo povo. O seu sucesso foi tão grande que o Niltinho passou a ser chamado de Niltinho Tristeza. Esta interpretação de Jair Rodrigues foi a primeira e a mais marcante de quantas se lhe seguiram.


TEREZA

BATISTA

CANSADA

DE

GUERRA


Episódio Nº 94




Dessa vez, no entanto, dona Beatriz não precisara adular ou discutir: inesperadamente Daniel se propôs para a viagem: quero mudar de ares Mater! Só assim se livraria de dona Pérola Schuartz Leão, macróbia conservada em cosméticos e jóias, lastimável caricatura de moça, nem mais podia rir à solta, tanto lhe haviam repuxado a pele do rosto, dinheiro a rodo e activo cheiro a alho.

Viúva paulista e sexagenária em visita às igrejas da Bahia, na de São Francisco encontrara o moço estudante, barroco e celeste, perdeu a cabeça e a compostura, alugou casa na praia, abriu-lhe a bolsa gorda. O dinheiro da indústria de malhas ia directo para os dengues de Tânia, mulatinha arrebatada, recente no castelo de Tibúrcia, rabicho forte de Daniel.

Fartou-se das duas ao mesmo tempo. Nenhuma cirurgia pôde atenuar o cheiro de alho no colo de dona Pérola e o dinheiro perturbaram a modéstia de Tânia, tornando-a enxerida e exigente – as paixões de Dan eram fogaréu de pouca lenha. Restava-lhe a fuga, lá se foi com dona Beatriz para as fronteiras do estado onde o pai administrava a justiça e escrevia sonetos de amor.

A irmã, Verinha, recém eleita Princesa dos Estudantes – perdera o título de Rainha por evidente parcialidade do júri – chamara a atenção dos manos para alguns dos sonetos paternos publicados no suplemento literário de A Tarde.

- Meninos, o velho deve ter arranjado uma boca rica em matéria de mulher, essas poesias são afrodisíacas, só falam em seios, ventre, leito de amor, posse, desvario. Eu gosto, acho sensacionais. Isaías, você que é sabichão, o que é que o velho quis dizer com coito fornízio?

Isaías, o mais idoso, às vésperas de formatura, noivo da filha única de político em evidência, com emprego prometido na Saúde Pública, não sabia e não queria saber o significado de fornízio: para mascará-lo de indignado bastava o coito simples.

- Falta ao velho a necessária compostura, afinal é um juiz de direito. Certas coisas se fazem, mas não se proclamam, nem mesmo em versos.

- No físico e no carácter, Isaías era o retrato do pai; é Eustáquio cagado e cuspido, dizia dona Beatriz com certa amargura, quem quiser se engane com ele, eu conheço meu povo.

Dan saíra à mãe, tinha opinião diferente: aja cada um da maneira que melhor lhe aprouver e deixe os outros em paz; se ao Paterno agradava alardear em versos eróticos os atributos da sua musa caipira, problema dele, porque criticá-lo?

Sozinho, na cidadezinha modorrenta, onde nem a esposa nem os filhos se dispunham a lhe fazer companhia, matava o tempo de desterro contando sílabas, bolando rimas difíceis, fazia ele muito
bem. Que significa, fornízio? Também nessa casa não há um dicionário sequer.


(click na imagem e aumente)

ENTREVISTA FICCIONADA


COM JESUS CRISTO Nº 91 SOB O TEMA:


“DEBATE COM O PAPA”



RAQUEL - Atenção, atenção... Advertimos que está finalmente confirmada a entrevista que temos vindo a anunciar todos estes dias… em cadeia com os colegas da Rádio Vaticano e da televisão, que é a responsável por esta transmissão histórica!

APRESENTADOR - O debate do século! Hoje, às 12 horas vão enfrentar-se nada menos que Sua Santidade, o Papa de Roma, e Jesus Cristo, que, segundo alguns jornalistas, voltou à Terra depois de dois mil anos. O debate será realizado por videoconferência. Sua Santidade, o Papa, não concordou por questões de segurança, deslocar-se a Jerusalém pelo clima de insegurança que existe no Médio Oriente. Jesus disse que não conhece Roma e não tem visto para a Itália preferindo falar de seu país natal. Agradecemos às Emissores Latinas o contacto com ele ...

RAQUEL - Bem, pelo menos, dão-nos esse crédito ...

LOCUTOR - O sinal pode ser captado por milhões de receptores em todo o mundo. Telas gigantes foram instaladas nas principais cidades para que o debate seja visto nos cinco continentes, especialmente nos países cristãos…

JESUS - Raquel fique comigo… Receio um pouco tantos aparatos…

RAQUEL - Sim, não se preocupe ... eu aviso-o no momento em que deve falar…

LOCUTOR - Senhoras e senhores, vai ter lugar o momento mais inesperado, um acontecimento histórico. Em Jerusalém, Jesus Cristo, em Roma, Sua Santidade o Sumo Pontífice da Igreja Católica. Representante e representado, face a face.

JESUS - E de que vamos nós falar, esse homem e eu, Raquel?

RAQUEL – A agenda está em aberto. Segundo me constou, o Papa quer perguntar-lhe sobre o aborto, os preservativos, os homossexuais… assuntos em que o senhor não definiu uma posição clara nos evangelhos.

LOCUTOR - Neste momento, faz a sua entrada na Capela Sistina, Sua Santidade, o Papa, vestindo uma esplêndida capa bordada a ouro... Na cabeça uma coroa tripla, que simboliza a sua autoridade... Na mão um bastão também de ouro maciço…

JESUS - Esse homem é meu representante, Raquel?

RAQUEL - Bem, sim, ele diz que é seu vigário na terra...

LOCUTOR - O Papa sentou-se no trono... Por cima dele, o famoso fresco de Miguel Ângelo, onde Jesus aparece no Juízo Final a separar os justos dos pecadores... E, neste momento, temos Jesus Cristo num lugar não identificado em Jerusalém ... Toma a palavra o moderador do debate…

MODERADOR - Gostaria de lembrar que cada um, na sua vez, tem três minutos para apresentar as suas ideias. Estamos combinados… A primeira pergunta por ordem de antiguidade, será para Jesus Cristo.

RAQUEL - Cabe-lhe a si, Jesus Cristo. Pode perguntar qualquer coisa, o que quiser. Tem três minutos.

JESUS - Acho que vou ter tempo… eu... eu só quero fazer-lhe uma pergunta. Diz que me representa. Se assim é por que se veste então coberto de ouro, com coroa de tal forma que parece disfarçado de imperador de Roma? O imperador acreditava que era Deus e o senhor acredita que é o quê?

MODERADOR - ... O exponente tem ainda dois minutos e meio ...

RAQUEL - Pode continuar a falar, Jesus Cristo ...

JESUS – Então ouça. Se quiser ser meu discípulo, vai, vende o que tem, as jóias, o palácio, vende tudo e dá aos pobres e então pode falar em meu nome. Ai de ti, cego que guias outros cegos, se encerras as portas para o Reino de Deus. Não entras tu nem deixas entrar aqueles que lutam por justiça!

MODERADOR - ... Nós agora damos a palavra a Sua Santidade o Papa…

LOCUTOR - Um momento… Do Vaticano vem um sinal confuso… O Papa levantou-se… Está se retirando... não sei exactamente o que acontece… abandona a Capela Sistina... atravessou agora a porta de saída… pedimos desculpas à nossa amável audiência e… terminamos a nossa transmissão.

LOCUTOR - Outro Deus é possível. Entrevistas exclusivas com Jesus Cristo na sua segunda vinda à Terra.

quinta-feira, abril 28, 2011

Sem qualquer espécie de nacionalismo bairrista esta é a linha de costa mais bela da europa.

Tsunami ataca em Minami - Saurin

Para os que estremecem perante a nossa crise vejam esta... e não digam que com o mal dos outros podemos nós bem...

VÍDEO


Damas ao volante...


video

UIRAPURU - NILO AMARO E SEUS CANTORES DE ÉBANO


Uirapuru é a designação de diversas aves da floresta que se caracterizam pelas plumagens de cores muito vivas : preto, vermelho, branco ou laranja... São muito activas deslocando-se rápidamente entre a vegetação. Infelizmente, crenças estúpidas de que ter um uirapuru empalhado dá sorte na vida e no amor faz com que ele esteja ameaçado de extinção.

TEREZA


BATISTA


CANSADA


DE


GUERRA

Episódio Nº 93






- Sou um romântico incurável, que posso fazer? – exclamava Daniel, o popular Dan das velhotas, no pátio da Faculdade. Estudante de Direito, doutor em malandragem com curso completo nos cabarés, castelos, pensões de mulheres; alto e esguio, lânguido, formoso rapaz; olhos de quebranto, grandes e dolentes (os antigos olhos de dona Beatriz antes da moda oriental), olhar de frete no dizer dos colegas, lábios carnudos, cabelos encaracolados, beleza um tanto equívoca, não por efeminada mas por doentia.

Fez-se Dan o ai-jesus das raparigas nos castelos e das elegantes senhoras na alta-roda, a maioria no fim da pista, nas últimas plásticas. De umas e de outras aceitava dinheiro e presentes e orgulhoso os exibia – gravatas, cintos, relógios, cortes de fazenda, notas de conto de réis – ilustrando com eles picantes relatos a amenizar a chatura das aulas.

Para não magoar seus sentimentos, Zazá do Bico Doce lhe punha às escondidas, no bolso do paletó, parte substancial da féria diária; Dan ia buscá-la pela madrugada no castelo de Isaura Maneta e em idílio desciam a Rua São Francisco para o quartinho arrumado, folhas de pitanga no chão de cimento, cama de lençóis limpos com perfumes de alfazema: no percurso, Zazá, discreta e delicada, obtinha hora e maneira de lhe enfiar o dinheiro no bolso sem ele se dar conta, ingénua Zazá do Bico Doce.

- É só me fazer de distraído e a grana escorre no bolso – esclarece Daniel – sem ferir meus sentimentos.

Já dona Assunta Menendez do Arrabal, de marido idoso e panificador, quarentona na força do apetite, expunha na cama presentes e dinheiro, valorizando as dádivas, revelando os preços, custou caríssimo, meu lindo, um dinheirão (obtinha descontos em lojas de amigos) elogiando procedência e qualidade, casimira inglesa, meu lindo, de contrabando; devassa pendurava gravatas na estrovenga de Dan, cobria-lhe o ventre com cédulas: veja como essa sua coroa é mão aberta, meu lindo!

Com aquele físico perfeito de gigolô, o ar ambíguo de querubim libertino, sentimental e vicioso, possuindo todos os conhecimentos necessários ao nobre ofício, competente e tesudo, bom de dança, bom de bico – lábia fácil, voz sonolenta, mole e cálida, embriagadora – bom de cama – sou o melhor chuparino da Bahia, aliás do Nordeste, quiçá do Brasil – com tantas qualidades reunidas, não conseguia ser um verdadeiro profissional, conforme confidenciava aos colegas:

- Sou um romântico incurável, que posso fazer? Apaixono-me como uma vaca idiota, me dou de graça, e ainda gasto do meu; onde já se viu gigolô decente, gigolô que se preze, desperdiçando dinheiro com mulher? Não passo de um amador.

Riam os colegas de tanto descaro, Dan não tinha jeito, um caso perdido, cinismo demais, embora os íntimos confirmassem a existência de súbitas paixões, levando-o a abandonar protectoras ricas e confortáveis xodós. Sua sorte em amores tornara-se proverbial nos meios estudantis e boémios, atribuíam-lhe renques de amantes, multiplicando-lhe os casos. Desde mocinho, atrevido frangote, ganhava e gastava dinheiro com mulheres.

Raramente os filhos do meritíssimo iam vê-lo na comarca distante. Dona Beatriz, atenta às conveniências, às boas maneiras, numa catequese de razões e promessas, obtinha vez ou outra a companhia de um deles na visita ao esposo e pai. chatas, sem dúvida mas imprescindíveis para o bom conceito de família.

Daniel, o mais rebelde e o menos disponível, há cinco anos não embarcava na lenta composição do da Leste Brasileira – porque hei de ir enterrar um mês naquele buraco, Mater, se posso ver o paterno quando ele der as caras por aqui, sem falar que para essas férias já tenho programa – em compensação visitara Rio, São Paulo, Montevideu, Buenos Aires, em companhia e às custas de generosas devotas de seu físico e de seus talentos. (clik na imagem e aumente)

INFORMAÇÕES ADICIONAIS




À ENTREVISTA Nº 90 SOB O TEMA:




“VIEMOS DOS MACACOS?





Washoe, Dá-nos Uma Lição de Humildade


Da sua longa e apaixonante experiência ao lado da chimpanzé Washoe, que morreu aos 42 anos, em Novembro de 2007, e a quem ensinou a falar com a linguagem dos surdos-mudos, Roger Fouts retirou esta bela lição de humildade:

Entre as inúmeras lembranças de Washoe que me vêm à mente, desde os primeiros sinais que ela aprendeu até às suas muitas atribulações de mãe, uma em particular se destaca pela sua intensidade: no momento em que Washoe acordou, numa manhã de 1970, na colónia de chimpanzés do Instituto de Oklahoma, tinha então cinco anos e, pela primeira vez desde a infância, se via cara a cara com os seus pares.

Virou-se para mim e perguntou: "Quem são estes besouros pretos?". Washoe poderia ter-se agarrado à sua "superioridade humana" e ignorar ou maltratar os outros chimpanzés que eram para ela seres estranhos e sem maneiras, que não falavam com ela. No entanto, ela foi capaz de abandonar a sua arrogância cultural e desenvolveu um forte sentido de protecção para com os seus semelhantes. Cuidava com carinho maternal os pequeninos e defendia os mais fracos. Sempre me perguntei como seria acordar um dia, como aconteceu com Washoe, e descobrir que não somos considerados como seres superiores.


O "Bloqueio dos Mistérios"

Raquel explica a Jesus o mecanismo da vida, a Teoria da Evolução que Charles Darwin nos ensinou e Jesus como um bom judeu, respondeu que compreendia o mistério, sem o que mistério deixe de o ser o que é considerado como um características de sabedoria, num velho conto jasídico.

O jasidismo foi um movimento religioso dentro do judaísmo que, desde o século XVII, e com base nas raízes culturais judaicas - que fizeram de Jesus sábio e humilde - proporcionou uma nova abordagem para a relação entre os seres humanos e o divino.

Assim como cada fechadura tem uma chave única que a abre, assim cada mistério deste mundo tem a sua meditação que o penetra e expõe. Mas, da mesma forma que há ladrões para as fechaduras também há ladrões para os mistérios e Deus não ama menos esses ladrões, que fazem saltar as fechaduras dos mistérios. Assim o explica o conto de Maguid de Mezritsh em os "Melhores Contos Jasídicos" de Baal Shem Tov.

Na entrevista com Raquel, Jesus reconhece em Darwin, o "ladrão" estudioso que quebrou o bloqueio do mistério da vida.

quarta-feira, abril 27, 2011

VÍDEO


Com 1 e 40 anos de casamento...

video

PETULA CLARK - KISS ME GOODBY


Em 1968 tínhamos a guerra que os EUA desencadearam no Vietnam do Sul quando em 1965 enviaram as primeiras tropas para apoiarem o governo contra o Vietnam do Norte. Morreram cerca de 6 milhões de asiáticos, vietnamitas, norte e sul, 4 milhões, e mais 2 milhões de cambojanos e laocianos. Entre os americanos 50.000 mortes. As despedidas faziam parte do drama da guerra e esta canção, para mim, a mais linda da Petula Clark foi, naturalmente, um enorme êxito nos EUA.


TEREZA


BATISTA


CANSADA


DE


GUERRA
Episódio Nº 92



Esse mundo é cheio de nove horas, são as regras do jogo, é preciso cumpri-las, ninguém pode desconhecê-las.

Ninguém, sequer Daniel, o filho predilecto, retrato da mãe, entrando na sala com o permanente sorriso de sedução – não tivera Daniel de vir passar o mês de férias em companhia do pai para colocar distância e ausência entre os sessenta anos milionários de pérola Shuartz Leão, farto dos anéis, dos colares, dos soluços, do ciúme da velha senil? Pondo banca de cínico, de dissoluto, Dan não passava de um rapazola, um menino.

Daniel sente a tensão na sala, tem horror a brigas, discussões, caras fechadas, trata de desanuviar o ambiente:

- Andei explorando o burgo; meio triste, não é? Já tinha esquecido como era, também faz um século que estive por aqui. Não sei como você consegue aguentar o ano inteiro, paterno, com só duas idas à Bahia; é dureza, vou me formar em Direito, como você deseja mas não me peça para ser juiz no interior, é de lascar.

Dona Beatriz sorri para o filho:

- Seu pai, Dan, sempre foi pouco ambicioso, é um poeta. Inteligente, com tanta leitura, escrevendo nos jornais, e com o prestígio da minha família, poderia ter feito carreira na política, não quis, preferiu a magistratura.

- Tudo tem as suas compensações, meu filho – novamente o meritíssimo enverga o manto da respeitabilidade.

- Acredito, meu pai – concorda Daniel recordando Belinha, a quem saudara na rua, a manceba do doutor juiz.

- Aqui posso estudar com tranquilidade, preparar com calma meus dois livros, o de direito penal e o de poemas. Quando me aposentar, penso fazer concurso para a Faculdade: tenta-me a cátedra, a política nunca me tentou, ao contrário, repugna-me!

- Inteiramente revestido de importância, de dignidade, envolto numa toga moral.

Dona Beatriz prefere mudar o rumo da conversa, os modos solenes de Eustáquio lhe dão nervos, que cansaço!

- Já despertou grandes paixões, Dan? Muitos corações em polvorosa? Quantos maridos, quantos lares ameaçados? – Paparicava os amores dos filhos, confidente compreensiva, cúmplice risonha quando Daniel se envolvia com amiga da roda do carteado.

Mulherio fracote, materna, mas agressivo. Cio generalizado, nunca vi igual, as janelas lotadas. De pouco interesse, pelo menos por ora.

- Nada que lhe atraísse? Dizem que as moças daqui, apesar de tabaroas, são da pá-virada. – Volta-se para o marido: - Esse seu filho, Eustáquio é o conquistador número um da capital.

- Exageros devidos ao amor materno, não vá nessa conversa, Pater. Alguma sorte com velhotas, alguns amores românticos, saldo pequeno.

O juiz considerou em silêncio a esposa, concentrada nas unhas, e o filho, a boca num bocejo, tão parecidos os dois, tão estranhos para ele. Afinal, o que lhe restava do mundo?

As tertúlias com os génios da terra, as dificuldades da métrica, as tardes e noites no calor de Belinha. Meiga Belinha, solícita, recatada, discreta, tinha um primo, pecado venial.

Bateram palmas à porta – a ilustre esposa do prefeito em visita à ilustríssima senhora do Juiz de Direito. Daniel se esgueira, vai rondar o armazém do capitão. (clik na imagem e aumente)

INFORMAÇÕES ADICIONAIS

À ENTREVISTA Nº 90 SOB O TÍTULO:



“VIEMOS DOS MACACOS”? (10)



Nossos Parentes Mais Próximos



Entre os seres vivos que hoje habitam o planeta os nossos parentes mais próximos, são os macacos, especificamente os três grandes macacos (chimpanzés, orangotangos e gorilas) e entre estes três, os chimpanzés, com quem partilhamos 99,5% do código genético, são os mais próximos dos três.

A ciência descobriu que os seres humanos e chimpanzés tiveram um ancestral comum há cerca de 6 milhões de anos e, a partir dessa fase, ambas as espécies evoluíram para o são hoje.

Esta evolução ocorreu em África. Alguns povos Oeste Africano preservam na sua língua a memória deste ancestral parentesco: "chimpanzé" é uma palavra do dialecto congolês que significa “homem de bricadeira”, "palhaço". Nas aldeias da região o chimpanzé é altamente considerado. Na aldeia Oubi é proibido matá-lo, na Vila Mende (Guiné) são chamados de "pessoas diferentes" e o povo Baulé chama-o de "querido irmão".


Nossos Primos Em Primeiro Grau

A cultura ocidental, influenciada pelo pensamento helenista que tanto marcou até hoje a teologia cristã, estabeleceu até muito recentemente uma fronteira rígida entre os humanos e “as bestas”, que ela caracterizou como desprovidos de razão e do que ela chamou o "presente dos deuses": a linguagem.

Desde que Darwin desenvolveu e apresentou a Teoria da Evolução, que tornou parentes todas as formas de vida, os cientistas evolucionistas ensinaram-nos a ser mais humildes.

A pesquisa recente desenvolvida por cientistas evolucionistas têm-nos mostrado que os nossos "primos-irmãos”, os chimpanzés parecem-se tanto connosco que se comportam, sentem e pensam de uma maneira muito semelhante a nós, que estão biologicamente dotados para a aprendizagem pela sua curiosidade insaciável, sua capacidade de imitar, a sua tendência para jogar e a sua longa infância.

Demonstraram-nos que até podem falar, não só compreendendo palavras simples e concretas, mas também expressando conceitos, entendendo símbolos e construindo sintaxes complexas, usando uma habilidade incrível e muito semelhante à das crianças, a linguagem de sinais usada por surdos-mudos. Se não pronunciam as palavras que entendem e utilizam na linguagem gestual é apenas porque lhes falta um aparelho vocal como o nosso, mas seu cérebro gera palavras, frases, a maravilha da linguagem.

Podemos ler sobre este assunto o livro do mestre americano Roger Fouts, "Primos" (Ediciones B, Barcelona, 1999) e em várias obras da britânica primatologista, Jane Goodall, uma pioneira do estudo científico dos
chimpanzés desde 1960.

terça-feira, abril 26, 2011

OCUPADO...


N A R I ZT U P I D O...





No Interior de Minas, um casal de amigos caminhava pelo pasto de uma fazenda, até que viram um cavalo transando com uma égua, e a amiga logo perguntou... . - Carzarbertoo..., o que é aquilo?


- Elis tão casalano, sô! A égua tá no cio, o cavalo percebeu isso e ta mandano brasa!!!


- Mais cumé co cavalo sabe que ela tá no cio, Arbertoo?


- Aaara!!, é co cavalo sente o cheiro da égua no cio, sô!


Passaram mais adiante, e tinha um bode transando com uma cabra, e a amiga perguntou de novo, e o Amigo deu a mesma resposta.


Mais na frente, lá estava um boi pegando uma vaca, e ela tornou a perguntar, e ele deu a mesma resposta: que o boi também sentia o cheiro da vaca no cio.


Foi aí que a amiga perguntou:


- Ô Carzalbertoo, se eu perguntá uma coisa pr'ocê, ocê jura que num vai ficá chatiado?


- Craro que não, miga! Ocê pode perguntá!


- OCÊ TÁ COM O NARIZTUPIDO?

PETULA CLARK - THIS IS MY SONG


Quem, da minha geração, não se lembra desta linda canção de Petula Clark de 1967? Após vender um milhão de cópias em 1961 com a canção "Romeu" casou e mudou-se para França. Tony Hatch escreveu e fez os arranjos de muitos dos seus sucessos entre eles o estrondoso "My Love".


TEREZA

BATISTA

CANSADA

DE

GUERRA



Episódio nº 91





Num espaço entre os renques de beatas – vindas para bisbilhotar, bruxas venenosas, bando de urubus – a sós com o marido, dona Beatriz não esconde a triste impressão recolhida na visita da véspera à dona Brígida e à afilhada:

- A pobre mulher vive imunda, atrás da criança, no abandono. Nestes últimos meses ainda caiu mais, dá pena. Sempre com aquelas histórias de arrepiar. Se houver um pingo de verdade no que ela conta, esse seu amigo Justiniano, nosso compadre, é o maior tarado do mundo.

O juiz repete-lhe então a mesma explicação de sempre; cabia-lhe defender o capitão a cada visita da esposa à afilhada e também a muitas outras pessoas amigas do finado doutor Ubaldo Curvelo e de dona Brígida:

- Maluca, uma pobre maluca, não resistiu à morte da filha. Vive assim porque quer, não há maneira de a convencer a cuidar-se. O que devia fazer o capitão? Mandá-la para o hospício da Bahia? Para o São João de Deus? Você sabe as condições em que vivem os loucos. Ao contrário, o compadre a mantém na roça, dá-lhe de um tudo, deixa-a cuidar da neta com a qual é realmente apegada. Para o capitão seria fácil, com as relações que possui, arranjar uma vaga para ela no auspício, estava o caso liquidado.

Acrescenta:

- Peço-lhe encarecidamente, minha amiga, evitar qualquer comentário desairoso a respeito do capitão. Seja ele o que for, é nosso compadre, e tem sido um amigo prestimoso ao qual devemos grandes favores.

- Devemos, não, meu amigo – dizia “meu amigo” pondo na voz a solenidade um tanto ridícula do meritíssimo. – Você deve… deve dinheiro, creio.

- Dinheiro para as despesas. Ou você pensa que o ordenado de juiz é suficiente para os nossos gastos?

- Não se esqueça, meu amigo – novamente o tom de mofa – que pago as minhas despesas pessoais com as rendas que herdei, aliás, com a pequena parte que você não pôs fora e que consegui salvar por milagre.

Tantas vezes já recebera o meritíssimo aquele dinheiro pelas fuças e cada vez reagia da mesma forma: erguendo as mãos para os céus, abrindo a boca para enérgico protesto; apenas não protestava, não dizia nada, como se, vítima da maior das injustiças, desistisse de qualquer indiscutível explicação ou fulminante defesa, a bem da paz conjugal.

Com um leve sorriso, dona Beatriz pousa nas unhas longas e tratadas os olhos de amêndoa – iam-lhe muito bem, disseram todos na capital – desviando-os do marido, pobre homem no esforço inútil da mímica repetida, do gesto gasto, risível.

Eustáquio dava-lhe pena, com a amásia matuta, a máscara de respeitabilidade e os versos de galo novo, corno velho. Inteiramente nas mãos do capitão, um canalha da pior espécie; a seu serviço, acobertando-lhe as bandalheiras, os malfeitos. A sorte era não existir possibilidade de reviravolta política e ser ela, dona Beatriz, parenta dos Guedes pelo lado materno, segura garantia. A eles devia Eustáquio a nomeação para a magistratura, doze anos atrás quando, ao constatar a débâcle, a herança comprometida, lhe impôs aquela solução para evitar o desquite e a desonra.

Suspendeu os ombros, não falemos mais nisso, aliás dona Brígida pouco ou nada lhe interessa. Foi visitá-la para cumprir um dever social como veio passar uns dias com o esposo, por dever social e conveniência própria: nem os filhos, ainda menos os primos, gostariam de vê-la desquitada ou largada
do marido. (clik na imagem e aumente)

INFORMAÇÕES ADICIONAIS


À ENTREVISTA Nº 90 SOB O TEMA:

“VIEMOS DOS MACACOS?” (9)


Não é Uma Escada, Mas Um Arbusto Frondoso



Todos os fósseis do género Homo que surgiram na África, o berço da humanidade, provam a Teoria da Evolução. E também mostram que a nossa árvore de família não pode ser representada como uma escada que tem na sua última etapa a nossa espécie, Homo Sapiens.



Também não devemos imaginá-lo como uma árvore em linha recta, culminando com a nossa espécie "a espécie-eleita”. A melhor imagem para entender o que somos e o nosso lugar na árvore da vida é pensar num arbusto com ramos em todas as direcções.

A evolução humana não foi um processo simples, que passou, na sua fase final, de Homo Habilis a Homo Erectus e daqui ao Homo Sapiens.

Hoje sabemos que o Homo Habilis e o Homo Erectus coexistiram, sem se cruzarem geneticamente, em distintos nichos ecológicos, por pelo menos mais de um milhão de anos, e tiveram um ancestral comum dois ou três milhões de anos atrás.


“Quanto mais sabemos, mais complexa se torna a história da evolução”, repetem todos os cientistas. “Os resultados mostram que a evolução humana foi caótica, longe dessa marcha heróica que vemos em alguns desenhos, com um ancestral evoluindo para algo intermediário e, finalmente, para nós”, diz Fred Spoor, em co-autoria com o famoso paleontólogo Maeve Leakey num estudo realizado no Quénia em 2007.

segunda-feira, abril 25, 2011

ZECA AFONSO - O MENINO DO BAIRRO NEGRO


Passam hoje 37 anos que o Movimento dos Capitães pôs fim a um regime caduco que se desmoronava dia-a-dia. Tudo o que aconteceu de então em diante foi da responsabilidade dos portugueses que, em liberdade, sem a ameaça dos sinistros agentes da Pide, foram decidindo das suas vidas. Desse período, dos ideais então sentidos, ficaram-nos as canções e a voz esplendorosa, única, de Zeca Afonso. O "Menino do Bairro Negro", com um poema enternecedor, comovente, foi a canção baluarte do reportório do "mestre" dos cantores de intervenção que foi Zeca Afonso.




TEREZA

BATISTA

CANSADA

DE

GUERRA



Episódio Nº 90





Na sala de frente da casa do meritíssimo juiz, doutor Eustáquio Fialho Gomes Neto, Fialho Neto dos ardentes sonetos, as luzes acesas; as cadeiras ocupadas pelas visitas de boas-vindas à senhora dona Beatriz Guedes Marcondes Neto, a esposa quase sempre ausente, mãe amantíssima “na capital a tomar conta das crianças, nos tempos que correm não se podem largar os filhos sozinhos numa cidade grande, com tantos engodos e precipícios!”.

Também para dona Beatriz as chuvas de Inverno tinham sido benéficas, pois, de rápida visita de Fevereiro a esta de Junho, nesse curto prazo de quatro meses, remoçara ao menos dez anos.

Rosto de pele lisa, estirada, sem rugas nem papo, corpo esbelto, seios altos, aparentando não mais de trinta fogosas primaveras, valha-nos Deus com tanto descaramento, como exaltada rosnou às amigas, após a visita, dona Ponciana de Azevedo, a das frases virulentas: “Esta fulana é a glorificação ambulante da medicina moderna”. Para dona Ponciana, a cirurgia plástica era um crime contra a religião e os bons costumes. Mudar a cara que Deus nos deu, cortar a pele, coser os peitos e quem sabe o que mais, vade retro! Mariquinhas Portilho discordava, não vendo crime nem pecado no tratamento; ela nunca o faria, é claro, nem tinha porquê, sendo viúva e pobre, mas a esposa do juiz residia na capital, frequentando a alta…

- A alta e a baixa, comadre, mais a baixa do que a alta… cortava dona Ponciana implacável. – Passou há muito dos quarenta e agora aparece com cara de mocinha e ainda por cima chinesa…

Referência aos recentes olhos amendoados pelos quais dona Beatriz trocara os antigos, grandes, macerados, melancólicos, súplices, factores importantes de seu sucesso anterior, infelizmente empapuçando-se num mar de rugas e pés-de-galinha e por demais vistos.

- Mais de quarenta? Tantos?

Mais de quarenta, com certeza. Apesar da herança e do parentesco, demorara a casar, foi preciso esperar um caça dotes indómito, capaz de fazer ouvidos moucos ao clamor universal: dona Beatriz, moça solteira, facilitara às pampas. Ora, o filho Daniel ali presente anda pelos vinte e dois, e é o segundo. O primogénito, Isaías, vai para os vinte e sete – entre os dois houve uma menina que morreu de crupe – em Dezembro se forma em Medicina. Sim, fique você sabendo, Mariquinhas, você, que tanto a defende: as crianças por cuja inocência zela na Bahia, pelas quais abandona o marido aqui, nas mãos de uma vagabunda, são esses dois marmanjos e Vera, a Verinha, maior de vinte anos, ainda marcando passo no curso ginasial mas já no terceiro noivado. A madama fica na Bahia, no jogo de cartas e no deboche, e não tem vergonha de posar de esposa sacrificada aos filhos, como se nós fossemos um bando de velhas malucas, sem outra coisa a fazer senão falar mal da vida alheia.

E não o somos, por acaso? – ria-se a boa Mariquinhas Portilho; ao demais, no entanto, concordam com dona Ponciana Azevedo, assim tão bem informada da vida da família do meritíssimo por conhecidos seus, vizinhos de rua de dona Beatriz: testemunhas oculares, oculares, minhas senhoras!

Todas as tardes a mãe amantíssima sai para o carteado em casa de outras a ela iguais no descaramento ou para encontrar-se com o doutor Ilírio Baeta, professor da faculdade e seu amante há mais de vinte anos; parece ter sido ele, ainda estudante, quem lhe fez a festa. E não contente em pôr os chifres no juiz, pondo-os também no esculápio ilustre, gulosa de rapazes. Isso explica a necessidade de remendar a cara, recondicionar o corpo, botar meia sola – sola inteira! – apertar os olhos, coser o peito, quem sabe o que mais? A inveja enche o corpete das comadres, amarga-lhes a boca, fel nas línguas. (clik na imagem e aumente).

INFORMAÇÕES ADICIONAIS


À ENTREVISTA Nº 90 SOB O TEMA:

“VIEMOS DOS MACACOS?” (8)




A "Heresia" da Evolução

A Igreja Católica durante cem anos e muitas igrejas evangélicas pentecostais até aos dias de hoje rejeitam a Teoria da Evolução como uma verdadeira heresia. Fazem-no por ignorância, fundamentalismo e literalismo bíblico, também este baseado em arrogância.

Se aceitassem esta evidência científica teriam que aceitar que os seres humanos não são "reis" da Natureza, que a natureza não é nossa, mas que pertence a ela própria como parte de uma complexa e intrincada teia de vida à qual não temos direito de propriedade. Teriam que ser mais humildes.

A partir do livro da Génesis e de uma filosofia de vida que pode ser chamado de "especismo", - como muito adequadamente lhe chamou Richard Dawkins - a Teoria da Evolução é uma heresia: questiona a nossa arrogância como espécie, “humilha-nos”, põe-nos em contacto com a terra, com o nosso verdadeiro ser animal, com os nossos instintos animalescos, coloca-nos no nosso lugar, remove-nos essa coroa da espécie superior que nos dá o direito de dominar as outras espécies em benefício próprio.

Muitos pensadores e especialmente pensadoras, concluiram que a centralidade que a espécie humana tem na civilização que nós construímos (antropocentrismo), é a centralidade da versão masculina da nossa espécie em que é a própria civilização (antropocêntrica) que está levando a civilização humana à sua destruição.

domingo, abril 24, 2011

HOJE É


DOMINGO



(Da minha cidade de Santarém)




Costuma dizer-se que cada povo tem os governantes que merece e eu acrescentaria que os bons governantes podem ajudar a fazer bons governados porque os exemplos devem vir de cima: exemplos e estímulos de trabalho, disciplina e seriedade.

A realidade é que Portugal não tem hoje bons governantes: Sócrates, Passos Coelho, Paulo Portas, Cavaco Silva terão, concerteza, muitas qualidades mas não têm sido bons governantes porque não têm posto o interesse do país, dos portugueses de hoje e das próximas gerações, em primeiro lugar, acima de interesses pessoais, político/partidários e clientelas.

É verdade que a Europa também não está bem servida: Merkel, Sarkozi, Berlusconi, principais responsáveis pela continuidade do projecto europeu são autênticos fracassos, são vulgares, medíocres, não têm dimensão humana, intelectual e política para cargos de tanta responsabilidade. A construção de uma europa unida era e é um projecto arrojado, ambicioso, muito difícil dados os antecedentes históricos dos países que a compõem.

Para tal necessitava-se de líderes de grande capacidade de liderança e de grande visão para o futuro, capazes de explicar e fazer. Em vez deles, temos o que temos: parecem decidir só para o imediato, o curto prazo e falta-lhes coragem e estratégia para afrontarem o grande capital financeiro especulativo que arruína e explora países e multidões na Europa e em qualquer parte do mundo.

Mas eu tenho a percepção que o problema está para além das pessoas, dos líderes, dos de cá e dos de lá. Radica num estilo e numa forma de viver, numa maneira de procurarmos ser felizes de há muito tomada, que vem de longe mas se acentuou nos últimos anos e com ela nos estamos a arrastar, a nós e ao planeta em que vivemos, para um beco sem saída.

Quando no final dos anos setenta começaram a entrar nas nossas vidas os grandes espaços comerciais em substituição das velhas mercearias e das outras lojas, cada uma da sua especialidade, quando, pela primeira vez, deparámos com aquelas superfícies enormes, quilómetros de prateleiras, umas a seguir às outras, secções atrás de secções, milhares de produtos… dava para perceber que havia ali uma mensagem sublimar de convite ao consumo, uma espécie de insinuação de que a felicidade se adquiria simultaneamente com todos aqueles objectos e cada um deles.

A felicidade ilusória da posse, (compro um carro novo e sou feliz…) do consumo, contra o qual o movimento hippie procurou lutar no início dos anos sessenta proclamando, no seu lugar, a paz e o amor.

Prevaleceu a mensagem do “consumo” com estímulos que vêm de todo o lado, entram-nos pelos olhos e ouvidos, seduzem-nos, submetem-nos, escravizam-nos.

Toda a sociedade se estruturou para o consumo na apropriação de bens e na posse das fontes de matérias-primas.

Por ele, fizeram-se e fazem-se guerras e o planeta está a esgotar-se: recursos naturais, florestas, rios, mares, o ar que respiramos, tudo “arrastado” pela onda do consumo, e uma humanidade em polvorosa, gritantes desigualdades, sede de justiça e uma contínua e insaciável avidez pelo consumo… beco sem saída?

… E nós aqui, para sobrevivermos no dia-a-dia, vamos negociar um apoio sem termos outra alternativa e sem sabermos se algum dia o poderemos satisfazer, nem como o vamos cumprir, se é que vamos… outro beco sem saída?

Poderia esta situação alguma vez ter sido diferente?

- Lembro-me sempre da história do elefante e do lacrau que o matou com uma picada venenosa quando este, altruisticamente, o transportava no dorso para o outro lado do rio.

- Por que fizeste isto se agora vais também morrer afogado, pergunta-lhe o elefante no estertor da morte:

- O que queres?... é a minha natureza!

Sabemos de sociedades pacíficas, pequenas comunidades de pessoas ditas primitivas, dotadas de saberes e capacidades especiais, que nada têm, nada consomem e são felizes… conheci-os, no sul de Angola, os bosquímanes, de ar risonho e aspecto de meninos crescidos. Há cinquenta anos, na parede da sala da Associação Académica do meu Instituto, emoldurada, estava a fotografia de uma linda jovem bosquímane. Mas, no seu estilo de vida, nunca teríamos ido à lua e não contaríamos histórias por computador.

Lembro-me, também, da aldeia comunitária de Rio de Onor, atravessada pela fronteira norte, no distrito de Bragança, e na qual as terras, rebanhos e fornos são partilhados por todas as pessoas que desenvolvem um trabalho conjunto de entreajuda.

Conviver e competir, repartir e disputar, maneiras diferentes de viver… a maior parte do mundo especializou-se na competição e na disputa, muita dela feroz e sem olhar a meios, e quem não for capaz de competir “morre”. Nós próprios, dizem, não somos competitivos…

Infelizmente, parece que o caminho há muito está traçado… continuando neste crescimento demográfico e persistindo como "máquinas" de consumo, alimentamos, sem querer, o processo que está a destruir o planeta e a nós próprios…

A humanidade, toda ela, precisa de ir de férias para pensar.

Para todos um Bom Domingo.

Site Meter