sábado, abril 28, 2012

IMAGEM
Hoje, não é uma linda fotografia da natureza, daquelas que enche de orgulho e felicidade o nosso olhar e o nosso espírito. As  sociedades desenvolvem-se a velocidades diferentes, a competitividade, a ganância do lucro, o consumismo desgarrado, uma falsa ilusão de bem estar, conduziram a estas situações. Todos nós, uns mais que outros, somos responsáveis. Será que ainda vamos a tempo de reverter este estado de coisas? 



Uma ilha de Lixo


Por Eduardo Gazola

Não sei quantos de vocês já ouviram falar disto.
O fato é lamentável. Faz tempo que quero falar a este respeito mas não tive tempo de pesquisar para escrever algo mais palpável sobre o assunto.

Existe uma ilha de lixo próximo ao Japão. Esse lixo acumulou-se ali porque as correntes marítimas ali os acumularam. Alguém atirou ao mar uma latinha de Coca-Cola no Caribe e tempos depois essa latinha encontrou suas “primas” lá na Pacific Vortex como é chamada a ilha de lixo do Oceano Pacífico.

Aquela garrafinha que você atira para a rua pela janela do seu carro, é levada pela chuva às sarjetas, aos rios e finalmente ao mar; Do mar ela vai encontrar o seu caminho para juntar-se ao Pacific Vortex e assim se forma um Lixão no meio do Oceano Pacífico.

Entre o litoral da Califórnia e o Havai, uma área enorme ganhou um triste apelido: o Lixão do Pacífico. Levadas pela corrente marítima, toneladas e toneladas de sujeira, produzidas pelo homem, acumulam-se num lugar que já foi, em tempos, um paraíso.

Um oceano de plástico, uma sopa intragável, de tamanho incerto a aproximadamente 1.600 quilómetros da costa entre a Califórnia e o Havai. 3,5 milhões de quilómetros quadrados, seis vezes maior do que a França, 22.000 quilómetros de circunferência e, segundo estimativas, maior do que a soma de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás.

Charles Moore viajava pelo Pacífico, entre o Havai e a Califórnia, quando resolveu arriscar um novo caminho.

"Foi perturbador, dia após dia não via uma única área onde não houvesse lixo. E tão distante do continente, lembra o capitão.

Como um descobridor nos tempos das Navegações, Charles Moore, foi o primeiro a detectar a massa de lixo e baptizou o lugar de Lixão do Pacífico.

 Primeiro, viu pedaços grandes de plástico, muitos deles transformados em casa para os mariscos. Depois, quando aprofundou a pesquisa, o capitão descobriu que as águas-vivas estavam-se enrolando em nylon e engolindo pedaços de plástico. O albatroz tinha um emaranhado de fios dentro do corpo.

"Antes não havia plástico no mar, tudo era comida. Então, os animais aprenderam a comer qualquer coisa que encontram pela frente. Pode ver-se que “eles tentaram comer um pedaço de embalagem mas não conseguiram, diz o capitão.

Com uma peneira na popa, o capitão e a sua equipe filtraram a sopa de plástico e fizeram medições. Já descobriram, por exemplo, que 27% do lixo vem de sacos de supermercado. Numa análise feita com 670 peixes, encontraram quase 1.400 fragmentos de plástico.

São informações valiosas, fonte de pesquisa e argumentos para a grande denúncia de Charles Moore:   

- "Gostaria que o mundo inteiro percebesse que o tipo de vida que estamos levando, atirando tudo fora, usando tantos produtos descartáveis, está a matar-nos. Temos que mudar, se quisermos sobreviver."

Um gesto despreocupado, uma simples garrafa de plástico esquecida numa praia da Califórnia. Muitas vezes ela é devolvida pelas ondas e recolhida pelas equipas de limpeza das praias, mas grande parte do material plástico que é produzido nessa região acaba embarcando numa longa e triste viagem pelo Oceano Pacifico.

O plástico jogado nas ruas é varrido pela chuva, entra nas galerias fluviais das cidades e chega até o mar; ou vem de rios poluídos que desembocam no Oceano.

No caminho, os dejectos do continente juntam-se ao lixo das embarcações e viajam até uma região conhecida como o Giro do Pacífico Norte. Diversas correntes marítimas que passam nas margens da Ásia e da América do Norte acabam formando um enorme redemoinho feito de água, vida marinha e plástico.

Mas, uma ou outra vez, uma tempestade, um vento forte e parte do lixo viaja para fora da sopa, até uma praia distante.

Estamos numa praia linda e deserta de uma região praticamente desabitada do Havaí. Não era para ser um paraíso ecológico? Mas Kamilo Beach recebe tantos dejectos marítimos que acabou virando um lixão a céu aberto. Basta procurar um pouquinho para entender a origem de todo o plástico que chega até a praia: uma embalagem com caracteres chineses. Uma bóia de pescadores provavelmente vinda do Japão. Um pouco mais adiante, há o pedaço de um tanque de plástico com ideogramas coreanos.

“O que acontece, é que as toxinas estão-se acumulando ao longo da cadeia alimentar e os predadores do topo da cadeia, que somos nós, estamos comendo plástico também”, alerta Suzanne Frazer.


Estudiosos do instituto francês Ocean Scientific Logistic (OSL) acreditam que os oceanos da Terra já estejam entupidos com algumas dezenas de milhões de toneladas de entulho boiando. O Atlântico Sul – que banha o litoral do Brasil – é um deles. Há exatamente um ano, jornalistas e pesquisadores brasileiros já haviam detectado grandes manchas de lixo próximo da ilha Ascensão, localizada no meio do Atlântico, entre a costa do nordeste brasileiro e o norte da África.
A continuar como estamos, quem sabe teremos uma grande ilha de plástico em nosso litoral no próximo verão. Se não a quisermos por perto será preciso colocar em prática urgentemente a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), acabar com os lixões, incrementar a reciclagem, nos tornar consumidores conscientes.


GABRIELA
CRAVO
E
CANELA

Episódio Nº 84


 - Inhô, sim.

Melk avistava Nacib, pilheriava:

 - Botou roça, Nacib; vem contratar alugados?

 - Quem sou eu, coronel… Busco cozinheira, a minha foi embora hoje…

 - E o que me diz do sucedido? O Jesuíno…

 - Pois é… Uma coisa assim, de repente…

 - Já lhe levei o meu abraço na casa do Amâncio.

 - É que subo para a fazenda ainda hoje, levando esses homens…

 - Com o sol, vai ser uma safra e tanto – mostrava os homens que seleccionara, agora agrupados a seu lado. – Esses sertanejos são bons no trabalho. Não é como essa gente daqui. Grapiúna não gosta de pegar no pesado, gosta é de ficar vagabundando na cidade…

Outro fazendeiro percorria os grupos; Melk continuava:

 - Sertanejo não mede trabalho, quer é ganhar dinheiro. Às cinco da manhã já estão na roça, só largam a enxada depois do sol deitar. Tendo feijão e carne seca, café e pinga, estão contentes. Pra mim não há trabalhador que valha esses sertanejos – afirmava como autoridade na matéria.

Nacib examinava os homens contratados pelo coronel, aprovava a escolha. Invejava o outro, dono de terras, montado em suas botas, contratando homens para a lavoura.

Quanto a ele, buscava apenas uma mulher não muito moça, séria, capaz de assegurar-lhe a limpeza da pequena casa da Ladeira de São Sebastião, a lavagem da roupa, a comida para ele, os tabuleiros para o bar. Nisso estivera o dia inteiro, andando de um lado para o outro.

 - Cozinheira por aqui é dureza… – dizia Melk.

Instintivamente, Nacib buscava entre as sertanejas alguma parecida com Filomena, mais ou menos da sua idade, com seu jeito resmungão. O coronel Melk apertava-lhe a mão, as canoas o esperavam já carregadas:

 - Jesuíno agiu direito, homem de honra…

Também Nacib vendia suas novidades:

 - Consta que vem um engenheiro estudar a barra.

 - Ouvi falar, tempo perdido, esta barra não tem conserto.

Nacib saíu andando entre os sertanejos. Velhos e moços lançavam-lhes olhares numa esperança. Poucas mulheres quase todas com filhos agarrados nas saias. Finalmente reparou numa de seus cinquenta anos, grandona, robusta, sem marido:

 - Ficou no caminho, inhô…

 - Sabe cozinhar?

 - Pra mesa posta, não.

Meu Deus onde podia arranjar cozinheira? Não podia ficar pagando fortunas às irmãs Dos Reis. E logo em dias de movimento, hoje assassinatos, amanhã enterros… E, ainda pior, ter de almoçar e jantar no hotel Coelho, aquela porcaria de comida sem gosto.
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sexta-feira, abril 27, 2012

IMAGEM
A natureza a vestir-se de branco... como as noivas.


VÍDEO
Haka Barrosã
Os povos são assim: cada um com o seu estilo...


DIZERES...



"QUEIMAR AS PESTANAS"


Significado:
- Estudar Muito


Origem:
- Aqueles que estudavam antes da electricidade não tinham a vida muito facilitada. Pelo contrário, estudavam e trabalhavam à luz de velas ou de lamparinas e para verem melhor colocavam-nas muito perto da vista com risco de queimar as pestanas.


OS AUTORES MAIS IMPORTANTES
DO SÉCULO XX E O QUE APRENDEMOS
OU DEVÍAMOS TER APRENDIDO" COM ELES
Texto de José Mário Silva



HERMAN HESSE (1877 – 1962)

Escritor alemão naturalizado suíço, é o autor de Siddharta (1922), um livro que nasceu das experiências vividas durante uma viagem à Índia, onze anos antes.Ao narrar a história de Siddharta, e de como ele se torna o Buda, Hesse cria uma espécie de guia para a
conversão espiritual, aliando ideias místicas com uma atitude pacifista. Durante os anos 60, transformou-se numa espécie de bíblia dos movimentos hippies e o seu impacto manteve-se até hoje, continuando a ser um dos mais procurados nas livrarias.

O que nos ensinou:

 -  A procura da sabedoria através do despojamento.


Conta-se que no século passado, um turista americano foi à cidade do Cairo no Egipto, com o objectivo de visitar um famoso sábio.

O turista ficou surpreso ao ver que o sábio morava num quartinho muito simples e cheio de livros.

As únicas peças de mobília eram uma cama, uma mesa e um banco.

- Onde estão seus móveis? Perguntou o turista.

- E o sábio, bem depressa, olhou ao seu redor e perguntou também:

- E onde estão os seus...?

- Os meus?! Surpreendeu-se o turista. Mas estou aqui só de passagem!

- Eu também... - Concluiu o sábio.

 "A vida na Terra é somente uma passagem...No entanto, alguns vivem como se fossem ficar aqui eternamente, e esquecem-se de serem felizes."

GABRIELA
CRAVO
E
CANELA
Episódio Nº 83


Coração romântico, as histórias terríveis que ele contava nada significavam. Nem o revólver que conduzia no cinto como qualquer homem em Ilhéus, naquele tempo.

Hábitos da terra… Ele gostava mesmo era de comer bem, bons pratos apimentados, beber sua cerveja geladinha, jogar uma apurada partida de gamão, atravessar uma madrugada chorando cartas no pocker, receoso de perder no jogo os lucros do bar que ele ia depositando no banco na esperança de comprar terras. De falsificar a bebida para ganhar mais, aumentar cuidadosamente uns mil-réis nas contas dos que pagavam por mês, de acompanhar os amigos ao cabaré, acabar a noite nos braços de uma Risoleta qualquer, xodó de alguns dias. Dessas coisas e das morenas queimadas na cor, ele gostava. De conversar também e rir.

De Como Nacib Contratou Uma Cozinheira ou dos Complicados Caminhos do Amor

Deixou para trás a feira, onde as barracas estavam sendo desmontadas, as mercadorias recolhidas. Atravessou por entre os edifícios da Estrada de Ferro.

Antes de começar o morro da Conquista ficava o “mercado de escravos”. Alguém assim apelidara, há tempo, o lugar onde os retirantes acampavam à espera de trabalho. O nome pegara, ninguém chamava de outra maneira. Amontoavam-se ali os sertanejos fugidos da seca, os mais pobres entre quantos deixavam suas casas e suas terras no apelo do cacau.

Fazendeiros examinavam a leva recente, o chicote batendo nas botas. Os sertanejos gozavam de fama de bons trabalhadores.

Homens e mulheres, esgotados e famélicos, esperavam. Viam a feira distante, onde havia de um tudo, uma esperança enchia-lhes o coração. Tinham conseguido vencer os caminhos, a caatinga, a fome e as cobras, as moléstias endémicas, o cansaço. Atingiam a terra fértil, os dias de miséria pareciam terminados.

Ouviam contar histórias espantosas, de morte e violência, mas sabiam do preço do cacau em alta, sabiam de homens chegados como eles do sertão em agonia e agora andando de botas lustrosas, empunhando chicotes de cabo de prata. Donos de roças de cacau.

Na feira explodia uma rixa, gente corria, uma navalha brilhava nos últimos raios de Sol, os gritos chegavam até ali. Todo o fim de feira era assim, com bêbedos e barulhos.

Do meio dos sertanejos subiam sons melodiosos de harmónica, uma voz de mulher cantava toadas.

O coronel Melk Tavares fez um sinal ao tocador de harmónica, o instrumento silenciou:

 - Casado?

 - Inhô, não.

 - Quer trabalhar para mim? – Apontava outros homens já seleccionados por ele. – Um bom tocador nunca é demais numa fazenda. Alegra as festas… – Ria convincente; dele diziam saber escolher como ninguém homens bons para o trabalho. Suas fazendas ficavam em Cachoeira do Sul. As grandes canoas estavam esperando ao lado da ponte da estrada de Ferro.

Do agregado ou de empreiteiro?

 - A escolher. Tenho umas matas a derrubar, preciso de empreiteiros. – Os sertanejos preferiam as empreitadas, o plantio de cacau novo. A possibilidade de ganhar dinheiro por sua conta e risco.
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INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES
 À ENTREVISTA Nº 48 SOBRE O TEMA:
“SANTA INQUISIÇÃO?” (2)

Ser Herege era ser Traidor

Desde que o cristianismo se tornou religião oficial no século IV com a "conversão" do imperador romano Constantino, os hereges, que discordavam da doutrina cristã oficial, que neste século começou a ser a doutrina dos Papas de Roma - foram considerados traidores e inimigos do Estado,  criminosos "políticos".
No século XII, os cátaros ou albigenses questionaram o papado e não acataram o seu poder. Ao Papa chamaram-no de "o Anticristo" e à Igreja de Roma "a prostituta da Babilónia", evocando a imagem da "grande rameira” do Apocalipse.
Eles recusavam-se a usar armas e rejeitavam os altares, santos, adorar imagens e relíquias.
O Papa Lúcio III (1181-1185) determinou matá-los militarmente e emitiu a bula "Ad Abolendam". A Bula exigia que os bispos extirpassem a heresia e deu-lhes poder para julgarem e condenarem os hereges na sua diocese.  Esta disposição é o germe da "Santa Inquisição”. Nesta primeira fase, a Inquisição dependia dos bispos.  Em 1231, o Papa Gregório IX estabeleceu que a Inquisição, reportava directamente ao Papa e era administrada pelos Dominicanos. Em 1252, o Papa Inocêncio IV autorizou o uso de tortura para extrair confissões dos acusados.

quinta-feira, abril 26, 2012

IMAGEM


VÍDEO
Acontece... já aqui mostrámos uma situação idêntica de uma jornalista brasileira a propósito de uma velhinha de 80 anos apanhada na alfândega... e agora o Presidente de uma Concelhia com os bombeiros "bem dotados". O mecanismo do riso é incontrolável e contagiante... altamente contagiante.




   CHICO BUARQUE - VALSINHA

 Vinícius de Moraes, que a esta época, 1971, estava muito próximo de Chico Buarque, une-se a ele mais uma vez e faz um poema de amor lírico, bem ao seu estilo. E assim surge "Valsinha", uma das mais singelas composições de Chico e mais um clássico de seu repertório.
Luís Américo Lisboa Junior


Os Autores Mais Influente do Século XX
 e o Que Aprendemos ou 
"Devíamos ter Aprendido" Com Eles.


SALMAN RUSHDIE (1947 - )


A influência do autor de Versículos Satânicos é fácil de medir. Basta ver o estado apopléctico em que deixou os fundamentalistas islâmicos ao publicar o seu romance “blasfemo”, em 1988. A fatwa (condenação à morte) lançada contra ele pelo Ayatollah Khomeini, então líder supremo do Irão, forçou-o a uma espécie de clandestinidade durante dez anos, sem que Rushdie tenha em qualquer momento cedido
ao terror psicológico. Consciente do poder da literatura, e dos potenciais perigos que acarreta, nunca deixou de escrever. O romance Os Filhos da Meia-Noite (1981), sobre a independência da Índia, foi considerado o Booker dos Bookers, em1993.

O que nos ensinou:

- A não tolerar a intolerância religiosa.

DIZERES

"MAL E PORCAMENTE"



Significado: De modo imperfeito, muito mal.

Origem: A expressão inicial nem era esta mas nem toda a gente compreendia o que queria dizer "mal e parcamente" ou seja, com poucos recursos. Portanto este advérbio foi facilmente alterado para algo mais acessível: "mal e porcamente.



Dois brancos e um negro estão num andaime, a lavar os vidros de um grande edifício.

De repente, o negro dá um gemido, vira-se para um dos brancos e diz:

- Ai, ai, ai! Preciso cagar, vou cagar aqui mesmo!

- 'Tás maluco, pá! Vais sujar toda a gente lá em baixo!

- Mas não aguento mais, meu! Não vai dar tempo para descer!!!

- Então, bate na janela e pede à senhora que te deixe usar a casa de banho, aconselha um dos brancos.

E é o que ele faz.

Assim que a velha permite a entrada, ele voa p'rá sanita.

Está o negro tranquilo e aliviado, quando ouve uma gritaria sem fim.

Quando sai, vê que o andaime se tinha partido e os dois brancos que trabalhavam com ele se tinham espatifado no chão.

No dia seguinte, no velório, estão lá os amigos, as viúvas inconsoláveis e o negro acompanhado da esposa, quando chega o dono da empresa onde trabalhavam.

Imediatamente todos se calam.

O empresário começa o seu discurso, dirigindo-se às viúvas:

- Sei que foi uma perda irreparável, mas vou, pelo menos, tentar aliviar tanto sofrimento. Como sei que as senhoras vivem em casas alugadas, darei uma casa a cada uma. Também sei que as senhoras dependem dos autocarros, por isso, darei um carro a cada uma. Quanto aos estudos dos vossos filhos, não se preocupem mais, pois tudo será por conta da empresa até que terminem a Faculdade. E, para finalizar, as senhoras receberão todos os meses 1000 Euros, para as compras.

E a mulher do negro, já meio arroxeada, não se conteve mais e diz ao ouvido do marido:

- E tu a cagar, né, seu preto de merda???
  

    


GABRIELA CRAVO E CANELA
Episódio Nº 82


Porque toda aquela fanfarronada de Nacib, suas histórias terríveis da Síria, a mulher picadinha à faca, o amante capado à navalha, era tudo da boca para fora.

Como poderia ele achar que mulher moça e bonita pudesse merecer a morte por ter enganado homem velho e bruto, incapaz certamente de um carinho, de uma palavra terna?

Essa terra de Ihéus, sua terra, estava longe, realmente de ser civilizada. Falava-se muito em progresso, o dinheiro corria solto, o cacau rasgava estradas, erguia povoados, mudava o aspecto da cidade, mas conservavam-se os costumes antigos. aquele horror.

Nacib não tinha coragem de dizer tais coisas em voz alta, só mesmo Mundinho Falcão se podia dar a esse atrevimento, mas nessa hora melancólicas de sombras caindo, ele ia pensando, e uma tristeza o invadia, sentia-se cansado.

Por essas e outras, ele, Nacib, não se casava. Para não ser enganado, para não ter de matar, derramar o sangue alheio, enfiar cinco tiros no peito de uma mulher. E bem gostaria de casar…Sentia falta de um carinho, de ternura, um lar, casa cheia com uma presença feminina a esperá-lo no meio da noite quando fechasse o bar.

Pensamento a persegui-lo de vez em quando como agora no caminho do “mercado de escravos”. Não era homem para andar atrás de noiva, não tinha sequer tempo, o dia inteiro no bar. Sua vida sentimental reduzia-se aos xodós, mais ou menos longos, com raparigas encontradas nos cabarés, mulheres ao mesmo tempo dele e de outros, aventuras fáceis nas quais não cabia o amor.

Quando mais jovem, tivera duas ou três namoradas. Mas, como então não podia pensar em casar-se, tudo não passara de conversas sem consequências, bilhetinhos marcando encontros nos cinemas, tímidos beijos trocados nas matines.

Hoje não lhe sobrava tempo para namoros, o bar o ocupava o dia inteiro. Queria era ganhar dinheiro, prosperar para poder comprar terras onde plantar cacau. Como todos os Ilheenses, Nacib sonhava com roças de cacau, terras onde crescessem as árvores de frutos amarelos como ouro, valendo ouro.

Talvez então pensasse em casamento. Por ora contentava-se em botar olhos compridos nas belas senhoras que passavam na praça, em Glória inacessível em sua janela, em descobrir novatas como Risoleta, deitar-se com elas.

Sorriu ao recordar a sergipana da véspera, seu olho um pouco vesgo, sua sabedoria na cama. Iria ou não vê-la novamente naquela noite? Ela o esperaria certamente, no cabaré, mas ele estava cansado e triste. Novamente pensou em Sinhàzinha: muitas vezes ficara parado em frente do bar, vendo-a passar na praça, entrar na igreja. Os olhos cobiçando o bem do fazendeiro, manchando a honra alheia com o pensamento, já que não podia manchá-la com actos e desatinos.

Não sabia palavras bonitas como versos, não tinha melenas ondeadas, não dançava o tango argentino no Clube Progresso. Se o fizesse talvez fosse ele a estar estendido no meio do sangue, o peito furado de balas, ao lado da mulher calçada de meias pretas.

Nacib marcha no crepúsculo, de vez em quando responde a uma “boa tarde”, seu pensamento longe. O peito furado de balas, os seios alvos da amante rasgados de balas. Via a cena, os dois cadáveres lado a lado, nus, em meio de sangue, ela de meias pretas. Com ligas talvez, ou sem ligas, como seria? Sem ligas parecia-lhe mais elegante, meias de fina malha prendendo na carne branca sem ajuda de nada. Bonito! Bonito e triste. Nacib suspira, já não enxerga o dentista Osmundo ao lado de Sinhàzinha. Era o próprio Nacib que ele via, um tanto quanto mais magro e menos barrigudo, estendido morto, assassinado ao lado da mulher. Uma beleza! O peito rasgado de balas. Suspirou novamente.

INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES
 À ENTREVISTA Nº 48 SOBRE O TEMA:
 “A SANTA INQUISIÇÃO?” (1)






Para Investigar e Punir as Heresias

Inquirir significa investigar. A Inquisição investigava, sancionava, castigava e punia as heresias na igreja. Durou séculos e tinha características diferentes em fases diferentes e em diferentes países, embora o denominador comum sempre foi a intolerância e crueldade. A Inquisição na Idade Média começou em 1184 no Languedoc, sul da França, para combater a heresia dos cátaros (de "katharoi", o "puro"), também chamados de albigenses, a primeira heresia organizada e confinada a um território particular que desafiou a igreja romana.

No Concílio de Latrão (1215), reunião convocada e presidida pelo Papa Inocêncio III, o foco eram os hereges da época, que não aceitaram as doutrinas oficiais impostas pelo Papa de Roma. O decreto contra esses hereges começava assim: “excomungamos e anatematizamos todo o tipo de heresia que se levante contra a santa fé católica e ortodoxa que acabamos de discutir. Condenamos todos os hereges, seja qual for o nome porque ele é conhecido. Porque, embora se apresentem de forma diferente à luz do dia, na clandestinidade todos estão muito próximos: o orgulho torna todos iguais”.

Em 1249 a Inquisição foi introduzida em Aragão, Espanha. E juntando Aragão e Castela, foi criada em 1478 a Inquisição Espanhola, que durou até 1821, sempre sob o controle da monarquia espanhola. De Espanha, a Inquisição foi instalada nas colónias espanholas da América. A Inquisição portuguesa teve uma duração semelhante à espanhola (1536-1821). A Inquisição Romana, dirigida a partir do papado durou de 1542 até 1965 do século xx.

quarta-feira, abril 25, 2012

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Comemora-se hoje mais um ano sobre a Revolução do 25 de Abril e, na minha opinião, a revolução verdadeiramente merecedora de ser comemorada até porque era óbvia num regime político apodrecido de velhos jarretas.

Desse dia, há 38 anos atrás, não ficaram viúvas para lamentarem os seus homens, nem mães a chorarem os filhos, nem a Nação empobrecida por ter visto abalar os seus melhores cidadãos envolvidos numa luta fratricida ou simplesmente vítimas de balas perdidas.

Nesse dia, não houve balas a cruzar os ares, o sangue não correu pelas ruas, o ódio e a vingança não ditaram as suas leis e à noite os portugueses deitaram-se cansados de festejar e adormeceram sem remorsos a pesarem-lhes na consciência.

Nesse dia, os portugueses transformaram em sorrisos o que poderiam ter sido lágrimas e em vez de barricadas o que se viu foram gritos de vitória, beijos e abraços, a confraternização de um povo feliz.

Inverteu-se um destino, mudou-se um rumo, caiu um regime e não rolaram cabeças que, em vez disso, foram amavelmente convidadas a seguir para destinos turísticos.

Revolução como esta não consta dos manuais da história e se antes dela alguém tivesse falado em “Revolução dos Cravos” no mínimo teria sido entendida como uma piada de mau gosto.

 Mas também é verdade que Carros de Combate que descem à capital com tropas para tomar o poder e param aos sinais vermelhos do trânsito aguardando disciplinadamente que surja o verde para seguirem a sua marcha, só é entendível numa “Revolução de Cravos”…!!!

E quando, obtida a vitória, ao fim do dia, o principal responsável operacional, Capitão Salgueiro Maia, regressa ao Quartel para continuar no dia seguinte as suas funções como se nada de importante se tivesse passado, mais reforçada fica a ideia que a Revolução era mesmo de Cravos.

Mas se ainda subsistissem dúvidas, sabe-se hoje, trinta e oito anos depois, que todos os oficiais vitoriosos, promotores da Revolução, recusaram promoções próprias de uma qualquer República das Bananas, não tendo beneficiado nada com ela. O ideólogo da revolução, major Melo Antunes, já falecido, se Major era assim continuou, o Capitão Salgueiro Maia, que também já não está entre nós, o grande operacional que interviu com inteligência, determinação e sensibilidade no nevrálgico Terreiro do Paço, foi mais prejudicado que beneficiado na sua carreira e por aí fora… de acordo com a ideia concertada previamente pelos então “Capitães de Abril” de que a “vitória”, a acontecer, não deveria conduzir “a uma onda de promoções, graduações ou condecorações.”

Percebo que era difícil ao Movimento dos Capitães ter enviado para todos os países do mundo um convite para que um pequeno grupo de pessoas, seus representantes, tivesse estado presente a assistir à Revolução dos Cravos.

Eles perderam um belo espectáculo e uma grande lição dada por um pequeno país de pessoas que eram tristes porque há muito tinham perdido a liberdade mas que guardavam dentro de si a esperança de um dia a reencontrarem e então, pelo menos nesse dia, serem felizes, muito felizes, com aquela felicidade que só a liberdade reconquistada proporciona.

Se a vida de um país pudesse ser comparada com a de uma pessoa que nasce, cresce, vive e morre, eu não teria dúvida nenhuma em afirmar que o dia 25 de Abril do ano 1974 da vida dessa pessoa, foi o mais fascinante de todos porque congregou, em doses de volúpia, sentimentos de amor e de esperança no futuro como ela nunca viveu nem viverá em um só dia.

Comemora-se a Revolução a qual, muito apropriadamente, se chamou dos Cravos, mas poder-se-ia, com a mesma propriedade, ter sido chamada da Alegria, da Esperança, da Felicidade.
Tudo o que aconteceu de então para cá, de bom ou de mau, foi apenas da responsabilidade dos portugueses porque a liberdade e a democracia é isso mesmo, um processo de responsabilização dos cidadãos.


UMA BALA 


Um soldado perdeu uma bala
E
Que nem um tiro
O cabo disparou
A levar a notícia ao furriel
Que
De imediato
A transmitiu ao sargento
e estava na latrina a latrinar
mas puxou as calças correu a informar
o oficial de dia
embora fosse de noite


o capitão
ciente da má nova
foi acordar o major
que estava a sonhar
com as mamas da Sofia Loren
e praguejou
porra
o que é que se passa
que horas são
já um gajo não

foi ele quem alertou o tenente-coronel
que via rádio comunicou
meu coronel
há uma bala perdida não se sabe
exactamente onde nem porquê
nem por quem nem quando
eu até penso que
chega
o que é preciso é avisar o nosso brigadeiro
disse o coronel em pijama de flanela
às riscas
vai ser o bom e o bonito
quando o nosso general souber


uma ba-la per-di-da
uma ba-la per-di-da
gritou o general
procurem-na imediatamente
mensagem urgente
a todos os comandos
encontrem-me essa bala
viva ou morta
está em causa a honra do nosso batalhão
a minha carreira
a minha condecoração
quem perde uma bala
também perde uma guerra
faça-se um inquérito
levante-se um auto
vírgula
palavras do general
convoque-se o conselho de guerra
cancelem-se todas as saídas
as licenças as guias de marcha
apaguem-se as luzes das casernas
constitua-se o tribunal militar
decrete-se o alerta geral
e o estado de sítio
em que sítio meu general
perguntou o alferes
aqui minha besta onde é que havia de ser
quero sentinelas reforçadas
até ordem em contrário está tudo proibido
excepto o que não está
que a filha da puta dessa bala
há-de aparecer
a senha é
cherchez la balle
e a contra-senha é
a contra-senha é sei lá
que se lixe
agora não há tempo para essas merdas

dias depois
a bala
foi finalmente encontrada

dentro da cabeça do soldado

terça-feira, abril 24, 2012

IMAGEM
Nazaré


VÍDEO
Onde é que ele se meteu?


Uma mulher está vendo um programa de culinária na TV e o marido diz- lhe, com aquela sua indelicadeza de sempre:
- Porque estás a ver isto se não sabes cozinhar ?!!!
 Ao que ela responde com sua franqueza de sempre: 
- Tu também  vês filmes pornográficos e eu não digo nada ...

CHICO BUARQUE

O ano era 1967 e o mundo girava em torno de "era um garoto que como eu amava os Beatles e os Roling Stones". A guerra do Vietnã era o assunto do dia entre os pacifistas. Os sinais de que o Brasil iria mergulhar numa restrição total de direitos individuais pareciam cada vez mais próximos, os festivais de música popular faziam a juventude intelectualizada da época extravasar suas ideologias, o rei Roberto Carlos seguia à frente de sua corte, e Millor Fernandes dizia que a única unanimidade nacional era Chico Buarque.
 E isso iria fazer a diferença muitos anos depois quando o amadurecimento musical desse artista fundamental da música brasileira reforçaria essa afirmativa indiscutível. Chico é realmente uma unanimidade! 

 Considerada uma obra-prima de nossa canção popular, a música foi encaminhada aos censores por João Carlos Muller Chaves, advogado da gravadora Polygram, e escaldado como estava em ver vetadas várias letras de Chico Buarque resolveu utilizar uma estratégia arriscada a fim de liberar a música, solicitando aos censores que a proibissem. E estes, a fim de contrariá-lo, liberaram o texto na íntegra e "Construção" pode ser gravada sem cortes ou emendas.
CHICO BUARQUE - A CONSTRUÇÃO


DIZERES…

Calcanhar de Aquiles

Significado:

 - Ponto Fraco

 - Origem:

 - Segundo a mitologia grega, Tétis, mãe de Aquiles, quis tornar o seu filho indestrutível. Para que isso acontecesse, mergulhou-o num lago mágico segurando-o pelo calcanhar.

Alguns anos mais tarde, durante a guerra de Tróia, Aquiles foi atingido no único sítio do corpo que não tinha sido mergulhado nas águas mágicas, precisamente o calcanhar. Descobriu-se, assim, o único ponto capaz de enfraquecer o temível guerreiro. 


Os Autores Mais Importantes do Século XX e
o Que Aprendemos ou “Devíamos ter Aprendido”
com Eles.
Texto de José Mário Silva


ENIDE BLYTON  (1897 – 1968)

Foi uma espécie de J. K. Rowling da primeira metade
do século XX, mas muito mais prolixa e menos talentosa. Em 40 anos publicou mais de 800 títulos, divididos em16 séries que acompanhavam as várias idades do seu público infanto-juvenil: desde Noddy, o taxista do País dos Brinquedos (para os mais pequenos,hoje viciados na versão televisiva), até às aventuras dos Cinco e dos Sete (clássicos da leitura na pré-adolescência).
Edições recentes têm suavizado o racismo e sexismo dos textos originais de Blyton, uma autora que continua, apesar do estilo conservador e antiquado, a vender a rodos (cerca de 10milhões de exemplares por ano).

O que nos ensinou: o segredo infalível para chegar ao coração das crianças e adolescentes.


GABRIELA CRAVO E CANELA
Episódio Nº 81


O bar começava a despovoar-se. O coronel Ribeirinho partira no rasto dos artistas.

Tonico Bastos vinha encostar-se ao balcão, junto à caixa. Nacib vestia o paletó, dava ordens a Chico Moleza e a bico Fino. Tonico contemplava absorto o fundo quase vazio do cálice.

Pensando na dançarina? Aquilo é comida de luxo, é preciso gastar os tubos… A concorrência vai ser grande. Ribeirinho já está de olho…

 - Estava pensando em Sinhàzinha. Que horror seu Nacib…

 - Já tinham me falado dela com o dentista. Juro que não acreditei. Era tão séria.

 - Você é um ingénuo – Servia-se ele mesmo, íntimo do bar, enchia novamente o copo, mandava botar na conta, pagava no fim do mês – Mas podia ter sido pior, bem pior.

Nacib baixou a voz assombrado.

 - Você também navegou naquelas águas’

Tonico não teve coragem de afirmar, bastava-lhe criar a dúvida, a suspeita. Fez um gesto com a mão.

 - Parecia tão séria… – a voz de Nacib se acanhava. Vai-se ver e debaixo dessa seriedade toda… Você, hem!

 - Não seja má-língua, árabe. Deixe os mortos em paz.

Nacib abriu a boca, ia dizer qualquer coisa, não disse, apenas suspirou. Então o dentista não tinha sido o primeiro… Esse danado do Tonico, com sua faixa de cabelos brancos, mulherengo como ele só, também a tivera nos braços, tomara daquele corpo.

Quantas vezes, ele, Nacib, não a acompanhara com olhos de cobiça e respeito quando Sinhàzinha passava frente ao bar para a igreja.

É por isso que não me caso nem meto com mulher casada.

 - Nem eu… disse Tonico.

- Cínico…

Encaminhava-se para a rua:

 - Vou ver se encontro cozinheira. Chegaram uns retirantes. Quem sabe se tem alguma que sirva.

Na janela de Glória, o negrinho Tuísca contava-lhe as novidades, detalhes do crime, coisas ouvidas no bar. Agradecida, a mulata afagava a carapinha do moleque, beliscava-lhe o rosto. O Capitão, tendo ganho a partida, olhava a cena.

 - Êta negrinho feliz!

Da Hora Triste do Crepúsculo

Andando para a Estrada de Ferro na hora triste do crepúsculo, o chapelão de abas largas, o revólver na cinta, Nacib recordava Sinhàzinha. Do interior das casas vinha um ruído de mesas postas, risos e conversas. Falariam, certamente de Sinhàzinha e de Osmundo. Nacib a recordava com ternura, a desejar no escondido do coração, fosse esse miserável Jesuíno Mendonça, sujeito arrogante e antipático, condenado pela justiça, coisa impossível, bem certo, porém merecida. Costumes ferozes, esses de Ilhéus…
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ENTREVISTA FICCIONADA COM
 JESUS CRISTO Nº 48 SOBRE O TEMA:
 “ A SANTA INQUISIÇÃO?”


RAQUEL -  Continuamos em Jerusalém e continuamos também a receber protestos e até ameaças. Alguns ouvintes fundamentalistas dizem que, se Jesus Cristo continua a falar como vem falando, retaliam contra a nossa estação.

JESUS -  Por quê que tão duro o coração desses ouvintes? 

RAQUEL - O senhor sofreu também com a intolerância. Intolerância e religião têm andado de mãos dadas de há um longo tempo… Como prova, eu trouxe hoje um documento gravado e gostaria que o senhor ouvisse para começo do nosso programa.

JESUS -  ​​Sim, deixa-me ouvir. 

O NARRADOR - Pés atados e as mãos esticadas para quebrar os seus ossos. Sentar-se em cadeiras com pontas afiadas, atirar água a ferver para a boca e as orelhas…

INQUISIDOR - Confessa, bruxa maldita, confessa que tiveste relações sexuais com o diabo! 

NARRADOR - Perfuravam o corpo com ferros, cortaram a língua, seios, quebraram as mãos, estupraram diante de seus maridos e seus filhos… E depois, queimaram-na na fogueira. 

JESUS -  Não. Por que tenho de ouvir essa abominação? 

RAQUEL -  Porque… os carrascos eram os seus representantes. 

JESUS – Meus? O que estás dizendo, Raquel? 

RAQUEL - O que o senhor acabou de ouvir foi um caso nos tribunais da Santa Inquisição. 

JESUS -  Como chamas de santo a uma coisa dessas?

RAQUEL - É assim que a chamam, Santa. Tenho aqui os dados.  Quer ver?

JESUS -  ​​Diz-me, mesmo que doa. 

RAQUEL -  Muitas pessoas concordam que a Inquisição é a página mais vergonhosa da história da igreja. Há uns mil anos atrás começou com o Papa, Inocêncio III, para perseguir os hereges... O mesmo que impôs o "sacramento" da confissão.  Os Papas que vieram depois criaram os Tribunais, autorizaram as torturas mais horrendas, aprovaram o assassinato em massa de mulheres em todos os países cristãos. Acusavam-nas de bruxas. 

JESUS ​​E quem eram essas filhas de Deus que foram chamados de bruxas?

RAQUEL -  A maioria eram mulheres pobres, do campo, parteiras… também havia mulheres sábias que conheciam os segredos da natureza… Eles disseram que elas estavam possuídas e as torturavam para lhes extrair o diabo do corpo…

 JESUS – E o diabo eram eles…

 RAQUEL - Lemos nas crónicas que o acusado nunca sabia quem o acusava ou do que era acusado. Se ele negava as acusações era a tortura mais cruel.  Se reconhecesse pelo medo de que estava possuído, concediam – lhe a graça de a estrangularem antes de a jogarem no fogo. Também torturaram e mataram homens, agricultores, aldeãos... As famílias das vítimas tinham que entregar os seus bens para os sacerdotes. E tudo isso em seu nome, Jesus Cristo.

JESUS - ​​Não em meu nome! ...

 RAQUEL – Diz-me, Raquel, quanto tempo durou essa abominação?

 RAQUEL - Durou séculos.

JESUS -  ​​E quantas filhas de Deus morreram nas mãos desses demónios? 

RAQUEL -  Alguns falam de centenas de milhares, outros de milhões ... 

JESUS -  ​​Amém. Em verdade vos digo: foi a hora do poder das trevas.

RAQUEL -  Bem, o Papa João Paulo II pediu desculpas para os erros cometidos pela Inquisição.

JESUS -  Erros?... Desculpas?... Para milhões de mulheres torturadas e queimadas vivas? Esse crime não se apaga nem com lexívia de lavadeiro.

RAQUEL - Quer dizer que o senhor não lhes perdoa?

JESUS -  Teriam de arrancar o mal pela raiz.
RAQUEL -  Arrancar o quê? 

JESUS -  ​​A árvore da fé no diabo. Essa é a árvore que deu os frutos mais podres que me contaste até hoje.  Eles teriam que arrancá-lo pela raíz.  Dizerem, claramente, que o diabo nunca existiu, que os demónios eram eles.  Só assim seriam perdoados.

RAQUEL - De Jerusalém, Raquel Perez, Emissoras Latinos. 

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