sábado, julho 05, 2014

IMAGEM

Linda fotografia a preto e branco. No centro, cá em baixo, lá está ele que já percebeu que se está a passar qualquer coisa mas enquanto não lhe pisarem o seu território tudo bem. Para estas situações é que servem o Zoom.



ZECA AFONSO - PASTOR DE BENSAFRIM

Oiçam esta linda história do "pastor Florival, meu irmão de Bensafrim" terra muito antiga no Concelho de Lagos, do conhecido Algarve, no sul de Portugal. Lá estiveram os homens antigos do tempo da Idade do Ferro, com os seus menires bem reconhecidos, mais tarde os Romanos com a sua Acrópole e, finalmente, os muçulmanos com as suas noras, poços e silos escavados na rocha. 
O pastor Florival apareceu mais tarde para ser cantado pelo Zeca:
"voa andorinha
voa minha irmã
não te vás embora
volta amanhã"



Camada de Nervos - Boysiting


Piropos à moda

do Puerto, carago...









- "A tua manhe só pode ser uma ostra para cuspir uma pérola como tue."

 - "Só queria que fosses uma pastilha elástica para te andar a comer o dia tuodo."
 - "És como um helicóptero: gira e boua!"

 - "Usas cuecas TMN ? É que tens um rabinho que é um "mimo" !"


 - "Tens umas belas gâmbias, carago! A que horas é que abrem?"

 - "Ó fêbra! Junta-te aqui à minha brasa, que bais grelhar!"

 - "Ó joia! Anda aqui ó orives pra tabaliare."


 - "Ó linda, queres subir à palmeira e lamber-me os cocos..."


 - "Sabes onde ficaba bem essa tua roupa? Toda amarrotada no chão do meu quarto!"


 - "Acreditas no amor à primeira bista, ou tens que passar por aqui mais bezes ?"

 - "Andas na tropa? É que marchavas que era uma fartazana."


 - "Tantas curbas e eu sem trabões, cum caraças..."

 - "Tanta carne boa e eu em jejum, ... comia-te à fartazana."

 - "Ainda dizem que as flores num andum, carago"

 - "Tens um cu que parece uma sabola! ... É de comer e chorar pru mais!"

 - "Ó boua, com um pandeiro desses deves cagar bombons!"



 - "Ó filha, lebabas com o martelo pneumático, que fazíamos já o túnel de Ceuta."


 - "Ó filha, o teu pai devia ter a régua torta para te fazer com curbas assim."

 - "Ó filha, anda cá acima que até a varraca avana."


 - "O teu pai debe ser arquitecto, tens uma sêmea que é uma obra prima."

 - "Só a mim é que não me calha uma destas na rifa."


 - "Diz-me lá como te chamas para te pedir ao Menino Jesus."

 - "Ó morcôna, comia-te o sufixo e mais o que tu quisesses!"

 - "Ó filha, contigo era até partir os pés à cama, carago."


 - "Queria ser um patinho de borracha para passar o dia na tua banheira."


 - "Deves estar tão cansada, passaste a noite às voltas na minha cabeça."


 - "Não sou muito bom em matemática mas, 1+1 = 69 ?"


 - "Ó filha, tens carinha de "modelo" mas o teu cu é um "continente"."


 - "Com umas bóias dessas o Titanic não tinha ido ao fundo."


 - "Com um piso desses debes ser mais rodada que a Bia Circular."


 - "Ó Beibi ! Bute lá dar um giro, axandrar uns kisses e bombar uma cena fixe."
   

Difícil, difícil,
é saber ganhar...












Este Mundial tem sido o do “chorinho”. Lágrimas dos que ganham, lágrimas dos que perdem, lágrimas dos que assistem nos estádios e por esse mundo fora, não contando com os fanicos que também os deve ter havido.

A razão é a mesma: é que este ano, excepção feita a Portugal que não se ficou pelas lágrimas, foi mais fundo com a cabazada da Alemanha por 4-0, os restantes jogos têm sido decididos nas rectas finais, prolongamentos e penaltis, a provocarem emoções, respirações suspensas, angústias, até que, finalmente, tudo acaba na derradeira tristeza da derrota ou na infinita alegria da vitória no último minuto, quando não no último segundo.

Vejam o que aconteceu ontem: - aquilo que parecia uma vitória pacífica do Brasil por 2 a 0 transformou-se, nos últimos 10 minutos, depois do golo da Colômbia, no maior sufoco para os brasileiros agravada com a perda do seu craque Neimar vítima de uma bárbara agressão pelas costas de um seu adversário.

A bonita reacção do jogador brasileiro David Luís, autor de um golo para a história, consolando afectuosamente James Rodrigues que chorava no fim do jogo, leva-me a contar-vos uma história que justifica o título deste texto: difícil, difícil, é saber ganhar...

Vou utilizar as próprias palavras do jornalista que muito prezo, Ferreira Fernandes, que ma contou no jornal Diário de Noticias de ontem:

 - “Os Chilenos viram a bola de Pirilla bater com estrondo na trave e por um triz, a segundos do final do prolongamento, não eliminar o Brasil.

Sobrenaturalmente a bola não entrou, foi-se a penáltis e aos brasileiros, em vez de serem terra-a-terra por terem ganho no substantivo e no concreto (marcaram matematicamente mais do que os chilenos) deu-lhes o chilique.

Saíram do estádio vencedores e miseráveis, a chorar.

Desde aí estamos nesta fase mariquinhas das lágrimas. Chorinho, só música, caragos!

Um dos jogadores, William, diz no Globo uma frase de auto ajuda:

- “Nenhuma dor é maior do que um sonho”.

Rapaz, o único desporto que precisa de autoajuda é a Fórmula 1: sem a ajuda da Ferrari ou da Lotus, sem auto, nada a fazer. Agora, desportistas de boa saúde e melhor conta bancária exporem, desta forma, as suas fragilidades emocionais? ... Felipão, liberte o sargento que há em você e ponha na ordem estes fanicos.

Isto não vai lá com frases tipo “Amor é...”. No futebol, um antigo filósofo português já disse o que há para dizer: “Atirem-se a eles como Tarzões”.

Um adepto ferrenho do clube da minha terra gritava para um seu jogador após o árbitro ter apitado para o início da partida: “Vai-te a ele, morde-lhe nas canelas!” ao que o jogador respondia: - “Não posso, não tenho dentes”... – “Não faz mal, dá-lhe com as genjavas - gritava o adepto entusiasmado.

E, já agora, deixem-me lembrar um exemplo adequado quando se fala num Mundial no Brasil:

 - Estávamos em 1950, estádio do Maracanã, final Brasil / Uruguai jogo de vencedor certo, os da casa. Quando o brasileiro Friaça fez o 1 a 0 confirmava-se o destino e os uruguaios conformavam-se, apagou-se-lhes um bocadinho a luz dos olhos. Menos no capitão, Obdúlio Varela.

Ele foi buscar a bola ao fundo das suas redes e dirigiu-se ao árbitro como um homem zangado. Esticou a corda quase até à expulsão. De repente, parou, já tinha visto que os seus se tinham recomposto.

O jogo recomeçou e sabe-se hoje que o Uruguai ganhou por 2 a 1.

Isto é uma homenagem à frieza? Vocês não entenderam nada. Obdulio não foi comemorar nessa noite com os seus. Andou pelos botequins do Rio emprestando o ombro aos brasileiros que choravam e não o reconheciam.

Voltou para Montevideu com o chapéu de aba rebatida e gabardina de gola levantada – como um homem que ganhou a guerra na terra dos outros e não se vangloriar.

Com quantas amarras, comandante, vamos amarrar o navio?
OS VELHOS
MARINHEIROS
(Jorge Amado)

Episódio Nº 124











Começava a animar-se o tombadilho, Clotilde apareceu conduzindo Jasmim, o calor equatorial resistia à brisa do mar. O comandante aproximou-se da baqueana com a consciência de quem se comportara à altura de seu glorioso passado.

Aquele foi um dia nervoso. Nervosos os passageiros, a arrumar as malas, a consultar os relógios na ânsia da chegada. Aquelas últimas horas eram as mais lentas de passar.

Nervosa Clotilde, pensando em como dizer de seu noivado ao irmão, como explicar a aliança agora em seu dedo. Nervoso o comandante, sem saber como enfrentar aquela importante família paraense, aqueles nobres, “dignos da maior consideração”, como chegara a ouvir do advogado. As horas se arrastavam, crescia o calor.

Na mesa, ao almoço, a pedido dos outros passageiros, o Dr. Firmino Morais brindou brevemente ao comandante pelo sucesso da viagem e as atenções a todos dispensadas.

Vasco comoveu-se e agradeceu, desejando aos passageiros, moças e rapazes, senhoras e senhores, muitas felicidades. Tocou sua taça na de Clotilde. Saiu então de sua mesa a bela mameluca, aproximou-se do comandante, deu-lhe um beijo na face.

Agora a terra estava próxima e chegou o momento em que enxergavam na distância o casario de Belém. Vasco apertou a mão de Clô, subiu para a ponte de comando.

Com a luneta ao olho examinou a cidade, as casas de azulejos portugueses, a pitoresca agitação do mercado do Ver-o-Peso, o ancoradouro da Port-of-Pará onde ia encostar o Ita.

 Os oficiais de bordo estavam todos na ponte, mesmo o comissário. O imediato ditava ordens. O navio aproximava-se. Vasco detinha-se nas bandeiras dos cargueiros e paquetes ancorados: ia o Ita, segundo tudo indicava, ficar ao lado de um cargueiro inglês, mais adiante estava um pequeno navio do Lloyd Brasileiro, um iate vindo da Guiana Francesa, além dos gaiolas numerosos.

Do barco inglês, marujos loiros saudavam com a mão. O comandante pensou que sua missão estava finda, pois as máquinas reduziam o ritmo, quase deixavam de trabalhar.

O navio chegava a seu destino. Era só assinar documentos e poderia descer as escadas, alcançar Clotilde, receber de suas mãos aquele papel com seu nome completo e o endereço, perfumado ao contacto do seio virginal e apaixonado.

Documentos que o representante da Companhia, parado no cais, segurava na mão. Entre tanta gente a esperar os passageiros, quem seria o irmão de Clotilde? Vasco buscava adivinhá-lo na multidão a gritar para bordo, a acenar, impaciente.

Carregadores ofereciam seus serviços, mostravam os números ao peito. Tudo correra bem, pensou o comandante. Foi nesse momento, quando um sorriso de perfeita satisfação abriu-se em seus lábios, que ressoou aos seus ouvidos a voz do imediato, cercado por todos os oficiais de bordo, o comissário inclusive:

- Comandante!

- O quê?

- Agora, Comandante, chegamos ao fim de nossa viagem.

- Felizmente tudo correu bem.

- Felizmente. Agora só resta o senhor dar as ordens finais - postou-se solene diante dele, levantou a voz: - Com quantas amarras, Comandante, vamos amarrar o navio ao cais?

- Como?

- Com quantas amarras, Comandante, vamos amarrar o navio ao cais de Belém? - repetiu ainda mais solene e grave.

sexta-feira, julho 04, 2014

IMAGEM

Número de circo.




VOO TAP...




Num voo internacional, como é habitual, o comandante do avião liga o microfone e fala aos passageiros:


- "Bom dia, senhores passageiros. Neste exacto momento estamos a 9 mil Metros de altitude, velocidade cruzeiro de 860 Km/hora e estamos a sobrevoar a cidade de...aaaaaahhhhhhh... valha-me Deus!!!

Os passageiros ouvem um barulho infernal, seguido de um grito pavoroso:

- "NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOO!!!"

Depois de um breve momento de silêncio sepulcral, volta a ligar o microfone e, timidamente, diz:

- "Peço imensa desculpa, mas a hospedeira deixou cair a bandeja e uma chávena de café caiu-me no colo. 
Imaginem lá como é que ficaram as minhas calças à frente!!!"

Prontamente, um dos passageiros gritou:

- "Filho da p..... !!! Imagina lá como é que ficaram as minhas calças atrás!!!"

Mixórdia de Temáticas - Ricardo Araújo Pereira


Julga que sabe assobiar?...

Quem sabe de certeza é este senhor Roger Whittaker

O Rapaz do
Trompete





A vida é fugaz, um sopro, um suspiro, um pestanejar. Antes, o nada, depois, o nada de novo. Entre os dois nadas, a vida.
Debruço-me sobre ela, braço esticado, revolvendo com os dedos da minha imaginação as recordações que por lá existem. Puxei uma ao acaso, já amarelecida pela idade…há quantos anos!
Eu teria para aí os meus dezanove, vinte anos, estudava então na Escola Superior Colonial que em 1961 mudou para Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina por causa dos novos ventos da política internacional de então.
O meu pai alugara-me um quartinho numa casa particular pertença de mãe e filha, viúvas, que para sobreviverem arrendaram três quartos que milagrosamente conseguiram fazer sobrar do primeiro andar de um velho prédio de azulejos azuis que dava para o Jardim do Príncipe Real - tal como davam também as magníficas portas do Palacete onde, então, funcionava o meu Instituto.
Estávamos no primeiro ano da década de 60. Em Janeiro, Henrique Galvão numa operação com o nome de código Dulcineia - surripiou, em pleno alto-mar, o paquete Santa Maria para desespero de Salazar  que ficou possesso  e regozijo da tímida oposição.

 Lembro-me perfeitamente de parar no passeio para ver o cabeçalho do jornal “O Século” que relatava, com uma grande fotografia do paquete, a notícia que tinha foros de escândalo nacional.

Ri-me para dentro como o cão Mutley. Estávamos no tempo em que até o apontar para além de feio era perigoso.

Mas, quanto ao resto, tudo era calmo naquela Lisboa pacífica e provinciana, e o meio estudantil universitário ainda tinha que aguardar uns anos pelos ventos agitados de Maio de 68.

Nunca mais regressei ao “meu” Jardim do Príncipe Real onde, nas horas de lazer, me deliciava com as leituras do Pitigrilli e nas de aperto para os exames media forças com a sebenta de Princípios Gerais de Direito para tentar perceber aquelas vinte e tal páginas em que o Prof. Adriano Moreira explicava as diferenças entre Direito Público e Privado, que mais tarde, Freitas do Amaral, tornaria muito mais fácil com um terço das páginas.

Para além disto, era o retrato rotineiro dos jardins de Lisboa, com os magalas a namoriscarem as sopeiras, o fulano que vendia a banha da cobra e que, estacionado no passeio, desertava sobre as maravilhas do produto que fazia bem a tudo e tinha a ver com uma cobra que toda a gente esperava ver quando ele abrisse a mala que estava no chão, a seus pés e que afinal só guardava os frasquinhos da poção mágica que começavam a ser vendidos quando a conversa já não dava para esticar mais e o pessoal à sua volta ameaçava desertar.

E havia também um sujeito que parava muito por ali, com ares de galã dos “pampas”, morenaço, calças justas, botas à vaqueiro e andar à Yul Brynner e, ao que diziam as más-línguas, tinha uma relação pecaminosa com a mulher do Mister Cork que tinha tanto de gordo como a mulher, muito mais nova que ele, tinha de “boa”.

E finalmente havia a minha vizinha da cave e como último personagem desta história de memórias o malfadado rapaz do trompete.

 Ela era uma jovem linda como os amores, o seu rosto, o de uma boneca que me deixava fascinado como o passarinho se fascina pelo olhar da serpente.

 Não a podia ver à janela pois a cave apenas dava para um pequeno e esconso saguão mas sempre que nos cruzávamos à saída ou entrada do prédio era um encantamento para mim.

 Segui-a com o olhar e perguntava-me como é que uma rapariga tão linda podia sair daquela cave escura, húmida e mal cheirosa em vez de um palácio a que a sua beleza lhe dava direito?

Eu era um aluno universitário, coisa rara naquele tempo, ela uma pobre rapariga que nem a 4ªclasse teria e no entanto os meus olhos enchiam-se com a sua figura e eu, tímido, sentia-me como um barco à deriva aguardando a orientação de um olhar seu que nunca veio.

Nunca trocámos palavra, nem um simples bom-dia, mas ela era definitivamente a eleita do meu coração, a musa inspiradora dos meus sonhos… até que um dia despertei para a realidade ao som de um estridente, agudo e desafinado trompete desesperadamente soprado por um não menos desafinado músico… era o namorado.

Maldito, não só se tinha apropriado da minha secreta namoradinha como, ainda por cima, fazia-se anunciar junto dela com aquele maldito trompete!

Que desperdício, junto de uma rapariga tão linda tocava-me trompete… raios o partam, como eu o invejei!


PS

A esta distância, as paixões da juventude, tal como as cartas de amor de Fernando Pessoa, parecem-nos ridículas. Em boa verdade, aos 19 anos, eu estava "descomandado" e ter-me-ia apaixonado perdidamente por qualquer linda jovem que ousasse levantar certos olhares para mim. O que eu não sabia e vim a perceber mais tarde, é que me limitava a cumprir instruções da “mãe natureza” que em código cifrado exigia que transmitisse os meus genes à fêmea mais bonita da minha tribo para que os meus filhos também nascessem lindos e tivessem, por isso, mais oportunidades de continuarem os meus genes pelas gerações seguintes.

 A beleza, entre nós, representa um trunfo para a procriação, isto antes de se inventarem as contas bancárias...

Já lá dizia o Vinicius de Morais, “… que me perdoem as feias mas eu prefiro as lindas”… E é assim, simples coisas da biologia transformadas em lindos romances de amor, pois não me consta que a Dulcineia do D. Quixote ou a Julieta do Romeu, fossem vesgas ou tivessem borbulhas na testa.

Então, meu Comandante, hoje estaremos em Belém ...
OS VELHOS
 MARINHEIROS
(Jorge Amado)

Episódio Nº 123










Parecia preocupado e inquieto o amável passageiro. Agarrava-se ao comandante como se necessitasse de uma presença a impedi-lo de pensar, de ficar só com problemas e angústias. Acompanhou-o em seu passeio:

- Então, meu Comandante, hoje estaremos em Belém do GrãoPará.. .

- Às três da tarde, doutor Morais - consultou o relógio, eram sete da manhã: - Daqui a oito horas...

- Foi uma boa viagem, agradável.

- Pacífica, a mais pacífica de quantas comandei.

- Pacífica? - interrogou-se o advogado. - Teria sido?

- Ora, e por quê? Não caíram temporais, nem furacão.

- Talvez tenham acontecido outros temporais... Nas almas dos passageiros, Comandante.

Seria uma indirecta aos seus amores com Clotilde? Talvez maliciosa, querendo insinuar possíveis intimidades sexuais, bandalheiras no convés, como as dele, Dr. Firmino, com a moça mameluca?

- Quanto a mim, doutor, portei-me sempre com extrema correcção. E se algum sentimento me assaltou foi decente e puro, com a mais honrada das intenções.

Seria uma insinuação do comandante aos seus bordejos com Moema, os passeios na coberta à luz da lua, as conversas a sós no tombadilho, o abandono dos demais passageiros nas ruas de Fortaleza?

 Não podia o advogado esperar passassem despercebidas, sem malévolos comentários, sua intimidade com a moça, aquele proibido idílio. Que iria ocorrer agora, quando chegassem a Belém?

 Deixar de vê-la, sabia ser-lhe impossível, ela penetrara fundo no seu sangue, aquela virgem louca e impudica, não tinha cabeça para outro pensamento, olhos de ver outra paisagem além do seu rosto, nada mais desejava no mundo senão tê-la como mulher, ao menos uma vez.

Mesmo se tivesse de matar-se e matá-la depois, para não suportar a vergonha e o remorso, o choro da esposa, o espanto da filha já mocinha. Por que esse comandante não tomava do leme de seu navio e não mudava a rota singrando para o mar-oceano, partindo sem rumo numa viagem de nunca terminar?

Deu-lhe, tão desesperado estava, a necessidade de ser mau, como a vingar-se de seu aflito dilema. Certamente Tilde Chilique, a Grande Baqueana de Coração Ferido (fora ao desdobrar sua teoria predilecta que tudo começara com Moema), nada dissera ao enamorado comandante daquele ridículo assunto de seu casamento. Contar-lhe-ia, assim talvez ficasse mais leve seu angustiado coração.

- E que sentimentos senão de honra pode abrigar seu peito, Comandante? Vai casar-se, imagino. E vai casar-se muito bem, em família digna da melhor consideração. Sou amigo do irmão de Clotilde, ele é...

Interrompeu-o bruscamente o comandante:

- Por favor, não continue. - Bem gostaria de saber aqueles detalhes guardados tão avaramente por Clô. Mas prometera, e sua promessa era sagrada. - Não desejo ouvir nem uma só palavra sobre a família de Clô, de Clotilde. Nem sobre ela...

- Mas, por quê? Ia lhe contar coisas que só a enaltecem.

- Agradeço-lhe. Mas fiz um juramento e não desejo rompê-lo. E, para evitar qualquer outra indiscrição do advogado, pretextou ocupações, deixou-o só na porta de seu desgraçado desespero.

quinta-feira, julho 03, 2014

IMAGEM

As luzes e as sombras na viela...



CAMADA DE NERVOS - JESUS CRISTO


ADIOS AMIGO - JIM REEVES

Esta é daquelas vozes que já não se ouvem...




QUEM NUNCA

ERROU?







Maria Madalena estava para ser apedrejada quando Jesus intercedeu em seu favor diante da multidão que ali estava.


E então, Jesus disse:

- Quem nunca errou, que atire a primeira pedra.

O alentejano, presente em todos os lugares e épocas, empolgou-se, pegou num enorme calhau e acertou em cheio na testa de Maria Madalena que, caiu redonda no chão.

Jesus, muito entristecido, aproximou-se do alentejano, olhou-o bem nos olhos e perguntou:

- Meu filho, diz-me a verdade, tu nunca erraste na tua vida?

E o Alentejano respondeu:

- A esta distância, Senhor? Nunca!...

Quem deve gerir os bancos?

Nacionalização


da Banca?






O que está acontecer no BES e com a família Espírito Santo levanta, depois do que aconteceu também com o BPN, BPP, BCP, com toda a legitimidade, a questão de saber se no interesse da comunidade, os Bancos devem ser geridos pelo Estado ou por privados.

Não é fácil responder mas face a um passado recente no nosso país, os dados apontariam para uma gestão do Estado com todos os riscos da interferência dos partidos e dos interesses de cada um deles. Dessa não nos livrávamos, da promiscuidade entre política e dinheiro,  mas o que seria o menos mau? ela não acontece da mesma forma? 

Ainda se as entidades que têm a seu cargo a regulação e fiscalização dos Bancos regulassem e fiscalizassem, mas foi o que se viu... ou melhor, foi o que ninguém viu ou não se quis incomodar para ver.

Aqui estão 10 razões a favor da nacionalização da Banca apresentadas no Jumento. Concorda com elas?




"O capitalismo europeu de inspiração asiática, com a overdose de liberalismo promovida por economistas ambiciosos como Gaspar com a corrupção, o oportunismo e uma democracia refém de manipulações da opinião pública feita com os orçamentos publicitários de grandes grupos está a conduzir ao uma grave crise do sistema. O que se passa com a banca portuguesa é um bom exemplo quando o PCP defende a nacionalização da banca tem toda a razão. O país teria mais a ganhar com a nacionalização da banca do que manter um sistema bancário gerido por incompetentes, corruptos e selvagens. Aqui ficam dez boas razões em favor de uma nacionalização da banca:


1. Os bancos privados têm sido pior geridos do que sucedida com a banca nacionalizada.
  
A banca portuguesa é um bom exemplo de má gestão e bastaria deduzir dos seus resultados os juros abusivos conseguidos num mercado que durante muito tempo foi protegido da concorrência, os montantes de impostos que ficam por pagar por via da evasão ou dos favores políticos ou os ganhos com a especulação em dívida soberana para se perceber que os lucros da banca não são o resultado de uma boa gestão como muitas vezes se tentou fazer crer. A banca não é o caso de sucesso de que Cavaco tanto gostava de referir.

2. Tendo absorvido uma boa parte dos prejuízos financeiros do BPN.

Ao mesmo tempo que se elogia a boa gestão dos bancos privados usa-se a CGD para apoiar os seus negócios ou para se associar aos negócios de outros bancos, como é o caso do agora badalado BES. Os defensores da iniciativa privada não se dispensam de usar um banco público para ajudar os bancos privados.

3. Os bancos privados têm sido geridos contra o interesse da economia nacional

Os mesmos bancos que hoje apoiam a política de empobrecimento e concordam com o governo na tese de que os portugueses consomem em excesso são os bancos que antes da crise penalizavam e dificultavam o crédito às empresas para concentrar os seus recursos financeiros no sector mais lucrativo do crédito ao consumo. Mais do que as políticas públicas têm sido as estratégias de lucro fácil da banca a orientar a economia portuguesa no sentido do consumo e do endividamento.

4. Os bancos privados favorecem a evasão fiscal

A banca privada não só tem comprado políticos para a favorecer com esquemas de fuga aos impostos como colabora activamente com os seus clientes em esquemas de reengenharia finceira que visam apenas a evasão fiscal.

4. Os banco privados têm estado envolvidos na fraude fiscal

Em todos os grandes processos envolvendo fraudes fiscais a banca tem estado presente, é o caso, a título de exemplo, da operação furacão.
6. A banca privada colabora com a fuga de capitais através de operações nas suas off shores.

Os capitais que abandonam o país fazem-no com a colaboração da banca privada.

7. A banca é uma fonte de corrupção na sociedade portuguesa.

A máxima do antigo patriarca do BES era que "o BES é como as putas, está sempre ao lado do poder" e tem sido esta a prática dos bancos. O caso do BES é emblemático, o BES está no poder e o poder está no BES, mas a generalidade dos bancos conta nos seus quadros de administração com políticos que servem apenas para gerir influências. Esta prática não se limita aos políticos, as relações com a banca generalizam-se a altos quadros do Estado. A banca é hoje uma verdadeira central de corrupção da vida pública portuguesa.

8. A banca usa os seus recursos para manipular a opinião pública

Nenhum órgão de comunicação social ousou criticar a banca privada nas últimas das décadas e isso explica-se pelo recurso à chantagem dos bancos sobre os jornais e televisões. O caso mais evidente foi o do mensalão, quando Ricardo Salgado ameaçou o Expresso de cortar a publicidade ao grupo Impresa. O Expresso deixou de noticiar o mensalão.

9. Os prejuízos que a banca privada provoca ao Estado cobriria uma parte dos custos da nacionalização

O custo do caso BPN, as perdas em receitas fiscais aos bancos, as perdas de capitais privados, a perdas de impostos sobre a actividade económica destruída pelos bancos seria suficiente para pagar uma boa parte do valor da banca em bolsa.

10. A banca privada põe em causa a democracia e a soberania nacional

Os acontecimentos dos últimos anos provam que a banca privada gerida por gente sem escrúpulos e estando na posse de empresários sem princípios é inimiga do interesse nacional, põe em causa a soberania nacional e destrói a democracia, argumentos só por si suficientes para se decidir a sua nacionalização, senão mesmo a expropriação.

Os bancos e os seus gestores têm-se comportado como inimigos do país e da democracia, promovendo a distorção da economia, a corrupção, a evasão e a fraude fiscais e a fuga de capitais. Já nem vale a pena recordar as velhas denúncias vindas dos EUA em relação ao branqueamento de capitais. Os banqueiros portugueses e os gestores da banca, incluindo os políticos envolvidos, têm-se comportado de forma criminosa e como tal deviam ser tratados."

Foi nesse momento que a ideia do roubo lhe atravessou o espírito
OS VELHOS
MARINHEIROS

(Jorge Amado)

Episódio Nº 122









Muitas histórias lhe contaria, aflições de S.O.S., perigos em portos de ópio e contrabando, tinha uma vida excitante a entregar-lhe, a depositar em seu seio a dividir com ela.

No dia seguinte seria apresentado à sua família, jantaria em sua casa, faria o pedido oficial.

Do completo e divinatório conhecimento da ciência da marinheiraria na manhã daquele dia da etapa final, quando as barrentas águas do rio Amazonas já penetravam pelo mar e na distância ouvia-se o rumor da pororoca, o Comandante Vasco Moscoso de Aragão pela primeira vez, em sua longa e movimentada vida, cometeu um furto; para logo depois, aliás, agir com a maior correcção, calcando aos pés a intensa curiosidade, mantendo íntegra sua promessa de discrição.

Aconteceu o roubo no salão, ainda deserto na hora matinal quando o comandante iniciou sua última inspecção do navio. Tomara amizade àquele Ita.

Não acumulara a viagem incidentes dignos de nota, não houvera ameaça de naufrágio, nem motim da tripulação, nem graves problemas de navegação a resolver, enlouquecida a bússola, desvairado o sextante; não descobrira sequer revolucionários a bordo, como ameaçara o deputado paraibano.

 Mas mantivera a disciplina, conduzira o navio, e ali encontrara a mulher de sua vida. Voltaria com ela para Periperi, para a convivência dos amigos, sua crista levantada como jamais, pois quem poderia agora duvidar de seu título e de seus feitos?

 Foi nesse momento que a ideia de roubo atravessou-lhe o espírito.

Amava aquele Ita, queria ter, em meio aos instrumentos náuticos na grande mesa da sala em sua casa, uma recordação daquela sua última viagem a comandar. Quando regressasse, seria na condição de passageiro, de passageiro de honra, é certo, tratado com a consideração devida a um capitão-de-longo-curso, credor de tão grande obséquio à Companhia, mas já não lhe estariam entregues o destino do navio, da tripulação, dos passageiros.

 Uma recordação simples, uma tolice qualquer, cinzeiros, por exemplo, com o escudo da Costeira e a fotografia do Ita gravados na cerâmica.

Fora um deles destinado a prémio na víspora, outros se encontravam sobre as mesas servindo aos fumantes. Vasco relanceou o olhar pelas circunvizinhanças, não viu ninguém. O cinzeiro desapareceu no bolso direito da túnica.

 E, como para habituar-se basta começar, outro cinzeiro foi parar no bolso esquerdo. Não fora súbito ataque de cleptomania e sim a lembrança daquele bom e leal Zequinha Curvelo.

Que melhor presente poderia levar-lhe, que melhor prova de amizade?

Efectuado o roubo, com tanta presteza e eficiência, não sentiu remorsos o comandante. Era rica a Companhia Nacional de Navegação Costeira, nada significariam em seu orçamento dois cinzeiros a mais ou a menos.

 Não os teria afanado, no entanto, se outros iguais a eles existissem à venda, no navio. Informara-se do próprio comissário e soubera ter sido destinado ao prémio o último exemplar da remessa recebida.

 Remorso causara-lhe a peça de biscuit, oferta um tanto forçada do falso Dr. Sténio. Não se tratara de roubo, no entanto. E dera tamanha satisfação a Clotilde, ela lhe dissera, ainda na véspera à noite, quando foram olhar a lua e mar em despedida, ter percebido o seu amor no momento exacto em que ele lhe trouxera o sofá de porcelana com o romântico casal de namorados.

Ia nesses pensamentos pelo tombadilho, quando encontrou o advogado paraense, Dr. Firmino Morais. Estava o causídico debruçado à amurada, o olhar perdido em meditação, profunda. Voltou-se ao rumor dos passos do comandante, saudaram-se, ficaram a conversar.

quarta-feira, julho 02, 2014




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O monstro veio à praia...



ANGELA MARIA - TANGO PARA TEREZA


Consagrou-se como uma das grandes intérprtes do samba-cãnção ao lado de Maysa, Nora Ney e Dolores Duran. Está agora com 85 aninhos. Longa vida para ela. Matem saudades da sua voz.


O sábio distraído, vai à rua comprar cigarros e deixa um papel na porta:

- “Saí por instantes. Volto já.”

Regressa, sobe a escada, lê o papel, senta-se no patamar e diz:

- Bem, espero um pouco. Oxalá que não demore...

Mixórdia de Temáticas - Ricardo Araújo Pereira


Nova era de informação
A política está a 

mudar.

Habituem-se!
   










«O país tem vindo a assistir a um novo fenómeno que pode indiciar que algo de profundo está a mudar no panorama politico-partidário.

A situação insólita actualmente vivida no Partido Socialista é um sinal de que podemos estar a assistir a uma alteração da tradicional correlação de forças entre o espaço público e a esfera de intervenção partidária.

Os factos são conhecidos.

É sabido que António José Seguro depois de ascender ao lugar de secretário-geral do PS alterou os estatutos do partido de forma a “blindar” qualquer tentativa de “ameaça” à sua liderança até às legislativas de 2015.

Muita gente dentro e fora do PS dava como adquirido que António José Seguro se manteria aos comandos do partido e seria candidato a primeiro-ministro, depois de frustradas as tentativas da oposição interna em apresentar uma alternativa, em tempo útil, isto é, dentro dos calendários previstos pelos estatutos.

Sabia-se que mesmo tendo que enfrentar períodos de turbulência interna, Seguro tinha um mandato legítimo para quatro anos, resultado da alteração estatutária por si promovida, que instituiu o alargamento dos mandatos de secretário-geral para o dobro, estando, por essa via, “amarrado” à liderança do partido e à condição de candidato a primeiro-ministro.

Ademais, sob a liderança de Seguro, o PS ganhara duas eleições – autárquicas e europeias – e em circunstâncias normais essas vitórias, mesmo que para muitos pouco convincentes, teriam sido suficientes para que a máquina partidária, controlada por Seguro, impedisse qualquer tentativa de mudança de rumo.

Perante estas permissas, cumpre perguntar: o que se passou, então, para que o quadro de funcionamento do sistema partidário não se tivesse comportado de forma prevísivel?

Na minha perpectiva, o que aconteceu foi que pela primeira vez em Portugal a intervenção no espaço público extravasou e rompeu com as barreiras do espaço político formal. A crise no PS não é apenas uma crise interna, é uma crise sistémica. É o efeito das “ondas de choque” provocadas pelo crescente descrédito dos cidadãos no sistema politico.

As formas de intervenção política formal estão em acelerado processo de deslegitimação democrática e já não conseguem disfarçar a fraca representatividade que o actual sistema político revela, espelhado quer nos níveis-recorde de abstenção, quer no aumento da base eleitoral dos partidos anti-sistema.

É hoje claro que com o advento da Sociedade da Informação e com a dissiminação da Internet e das tecnologias móveis, uma nova forma de intervenção cívica, acelerada pelo espaço público virtual e pelas redes sociais, está a germinar e a emergir progressivamente e com isso a reconfigurar a própria democracia.

O campo da cidadania alarga-se e autonomiza-se e as organizações políticas formais, que atravessam uma crise de identidade e de legitimação, respondem reactivamente e dessa forma tentam readaptar-se e reinventar-se numa lógica de sobrevivência.

Em vários momentos da nossa história as inovações tecnológicas produziram efeitos de mudança fundamentais e permanentes nas estruturas de poder das sociedades humanas.

O pensador americano de origem australiana McKenzie Wark fala da eclosão de um novo fenómeno que designa por “terceira natureza”, explicando:

 - "Entrámos numa nova era em que a informação passou a estar um passo à frente do movimento das pessoas e das coisas, acabando por dominar e coordenar os seus movimentos, fazendo com que a 'terceira natureza' exerça ainda maior domínio sobre a 'segunda natureza', que é a do contexto humano e do processo produtivo, que, por sua vez, domina a nossa relação com a natureza, os recursos e as matérias-primas."

As novas formas de intervenção no espaço público estão a permitir aos cidadãos desestruturar os velhos modelos de organização centralista e substituí-los por processos de comunicação baseados no diálogo em rede, muitas vezes desenvolvidos em canais que escapam ao controlo dos dirigentes. Esta é uma nova realidade e quem quiser ter lugar na política do futuro vai necessariamente ter de se adaptar a ela.

A emergência de António Costa como candidato à liderança do PS não teria sido possível, atentas as crcunstâncias e os condicionalismos inerentes ao modelo partidário vigente, se não tivesse encontrado na sociedade civil uma “câmara de eco” que soou de forma ruidosa no espaço público, impondo-se ao partido.

António José Seguro foi apenas a primeira vítima. Habituem-se!»  no Jornal Público
   
Autor:
  
Daniel Adrião.
      

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