sábado, março 06, 2010

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Vamos recordar a grande e saudosa Ivone Silva

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MARISA MONTE / ED MOTA - AINDA LEMBRO

WHITNEY HOUSTON - I WILL ALWAYS LOVE YOU



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 61


E aquela outra sicrana – o pai um mata mouros que nem dona Rozilda, trazendo as filhas num cortado, esbregues medonhos, presas em casa – surpreendida em Ondina, nos matos, a dar a um homem casado, a um compadre de seus pais? Casara depois com um pobre diabo e agora dava quanto podia, “quanto mais melhor” era o seu lema; dava a solteiros e casados, a conhecidos e indiferentes, a ricos e pobres. “Muita gente, minha filha, só não dá antes de casar porque não sabe que é tão bom ou porque o noivo não pede. Afinal. Antes ou depois, que diferença faz?”

Não apenas minimizou sua falta, devolvendo-lhe o ânimo, como assistiu e dirigiu nas compras indispensáveis para tornar a casa habitável, móveis e utensílios. Inclusive a cama de ferro, com a cabeceira e os pés trabalhados, adquirida em segunda mão a Jorge Tarrapp, leiloeiro com loja de antiguidades e velharias à rua Rui Barbosa e, como não podia deixar de ser, amigo de dona Norma. Um bom sujeito, esse Jorge, sírio alto e vermelho, quase apopléctico; ao saber do próximo casamento de Flor, ofereceu-lhe de quebra e presente meia dúzia de cálices para licor. Dona Norma concorreu com um par de toalhas de banho e de rosto, toalhas alagoanas, de primeira. E lhe cedeu, pelo preço antigo de custo ou seja quase de graça, sensacional colcha de cetim azul-hortênsia com ramos de glicínias, estampados em lilás, um monumento de chique. Dona Norma a levara em seu pomposo enxoval, peça de resistência, presentão de uns tios residentes no Rio. Pois bem, o maníaco de Zé Sampaio tomara birra da colcha, segundo ele o lindo azul-hortênsia era um roxo funéreo e aquele trapo só servia para cobrir esquifes. Por causa da maldita colcha quase brigam na própria noite do casamento. Não fosse dona Norma estar morta de curiosidade pelo que se iria passar, e teria reagido aos resmungos e às más criações de Zé Sampaio. Não se conformara ele enquanto a coberta não foi guardada e para sempre. Nunca mais teve uso, nova em folha, na Rua Chile custava um dinheirão.

Por falar em colcha, a contribuição única de Vadinho para o enxoval constou de colorida colcha de retalhos. Obra colectiva das raparigas do castelo de Inácia, todas elas admiradoras do noivo, a começar pela nobre Inácia, mulata de cara pintada de bexiga, a mais jovem casteleira da Bahia, nem por isso menos experiente. De quando em quando Vadinho apontava em seu leito, nele em xodó se demorando dias e semanas.

Não lhe cabia culpa de comparecer com tão pequena quota no total desses intermináveis bastos onde as economias de Flor, economias de anos de trabalho, se consumiam rápidas. Muito desejara Vadinho arcar com todas as despesas ou com a maior parte, para tanto muito esforço despendera. Nunca os amigos o haviam visto assim nervoso e persistente nas mesas de roleta, mas o dezassete – seu número – andava escasso, era como se houvesse sido retirado da numeração. Tentou igualmente no grande e no pequeno, na ronda e no bacará; a sorte estava arredia contra ele, urucubaca das miúdas. Esforçou-se a ponto de já não ter a quem esfaquear, a quem pedir empréstimo, obrigado a recorrer à própria noiva, afanando-lhe uma pelega de cem.

-Não é possível que o azar continue hoje, meu bem. Vou amanhecer aqui com uma carroça de dinheiro, tu compra meia Bahia sem esquecer uma dúzia uma dúzia de garrafas de champanhe para o casório.

Não trouxe nem dinheiro nem champanhe, estava mesmo azarado, quando iria acabar a má sorte?

Assim, só houve champanhe no casamento civil, realizado em casa dos tios. Thales Porto abriu uma garrafa e o juiz brindou com os nubentes e a família.

Também o acto religioso foi simples e rápido, compareceram apenas algumas amigas íntimas de Flor e seu Antenor Lima, além de tia Lita e tio Porto (e dona Norma, é claro), Dona Maga Paternostro, a milionária, não pode vir mas mandou pela manhã uma bateria de cozinha, esse sim, um presente útil. Da parte de Vadinho, apenas o Director do Departamento de Parques e Jardins da Prefeitura – a quem o relapso funcionário, aproveitando o matrimónio como pretexto, esfaqueara, assim como os colegas – Mirandão e esposa, senhora magra e loira, avelhantada, e Chimbo.

sexta-feira, março 05, 2010

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Se beber... não voe...

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GEORGE MCCRAE - ROCK YOUR BABY


GEORGE BAKER SELECTION - UNA PALOMA BRANCA




DONA

FLOR

E SEUS

DOIS

MARIDOS



EPISÓDIO Nº 61


Não assistiria nem daria o seu acordo ao casamento, conseguissem autorização com o juiz, se quisessem, revelando toda a bandalheira, exibindo a desonra da ingrata. Não contassem com ela para encobrir a patifaria, para tapar o rombo da descarada.

No dia seguinte viajou para Nazareth, onde o filho a recebeu sem entusiasmo. Ele próprio, Heitor, pensava em casar-se e só não o fizera ainda por não lhe permitir o ordenado.

Disposto a fazê-lo, no entanto, apenas fosse promovido e pudesse economizar alguns mil-réis. Já tinha noiva em vista: uma ex-aluna de Flor, aquela de olhos molhados, que atendia pelo nome de Celeste.



Indo correr no Sodré uma casa anunciada para alugar, Flor deparou com outra ex-aluna sua, dama de realce, esposa de comerciante da Cidade Baixa, dona Norma Sampaio, pessoa muito alegre e novidadeira, bonitona, de cuja bondade natural e generoso coração já se deu notícia anterior. Residia ela nas vizinhanças.

A casa estava na medida das necessidades de Flor, para morada e escola, sendo, ao demais, de aluguel relativamente barato. Pois então se considerasse desde logo inquilina, garantiu-lhe dona Norma; o proprietário do imóvel era seu conhecido, dar-lhe-ia a preferência, com certeza. Deixasse a seu cuidado, não precisava preocupar-se.

Foi dona Norma de muito conforto e consolo em todo aquele transe. Apoderou-se dos diversos problemas da moça e concorreu para a solução de todos eles, a todos deu jeito.

Para começar, levantou-lhe a moral abatida. De quanto se passara Flor lhe fez minucioso relato. Dona Norma saboreava os detalhes, não lhe viessem com a história contada às carreiras, pulando pedaços. Flor sofria com a impressão de que o mundo inteiro tivera conhecimento do seu mau passo (mau passo era a expressão usada por tia Lita, delicadamente), como se ela trouxesse o estigma da mentira estampado no rosto: mulher sem vergonha, conhecedora de homem e a bancar moça solteira.

- Ora, menina, deixe de ser tola… Quem é que sabe que você deu? Quatro ou cinco pessoas, meia-dúzia, se muito e acabou-se… Se você quiser pode até casar de véu e grinalda e quem é que vai reclamar? Sua mãe viajou; ela, sim, era capaz de vir fazer escândalo na porta da igreja…

Flor não podia ocultar a vergonha, agira mal, mas não tivera outro jeito. Para dona Norma todo aquele horror reduzia-se a nada:

- Isso de dar um pouquinho antes de casar sucede a três por dois e com gente muito boa, minha cara…

Desfiava vasto e curioso noticiário, consoladores exemplos. A filha do doutor Fulano, aquele da Faculdade, não dera a um amigo do noivo às vésperas do casamento, rompendo o compromisso, fugindo com o outro, casando com ele às pressas? E actualmente não era a nata da sociedade, com o nome nos jornais: “Dona fulana recebeu os amigos… etecétera e tal…? E aquela outra fulaninha, filha do Desembargador, não foi pegada dando ao noivo – essa pelo menos dava ao próprio noivo – por detrás do Farol da Barra? O guarda os surpreendeu em flagrante, só não levou os dois para a delegacia porque o diligente cavalheiro soltara gorjeta alta.. Mas exibira a meio mundo a calcinha da sapeca, aliás uma lindeza de rendas negras. Nem por isso, com todo esse desfile de roupa íntima, ela deixou de casar de véu e grinalda, um vestido por sinal

belíssimo, a fulana tinha gosto e dinheiro.

quinta-feira, março 04, 2010

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Ainda não é um desporto... ainda.

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EDDY GRANT - BABY COME BACK


CLIFF RICHARD - WE DON'T TALK ANIMORE



DONA


FLOR


E SEUS


DOIS


MARIDOS



EPISÓDIO Nº 60



Vadinho, numa exigência crescente, reclamava passar uma noite inteira com ela, não mais lhe bastando tê-la a seu lado e possui-la; queria adormecer em sua respiração, dormir em seu sono. Também Flor desejava essa noite completa, essa posse mais além dos limites do relógio, da hora contada e cada vez menor para seu anseio.

- Mas… - disse-lhe uma tarde quando ele novamente reclamou - … se eu passar a noite fora não posso mais voltar para casa…

- E para que voltar? A gente se amarra e acabou-se. Tu é que ainda não quis botar tudo em pratos limpos… Não sei por quê.

- E onde é que vou ficar até ao casamento?

Fixaram-se em tia Lita e tio Porto, a casa do Rio Vermelho era um segundo lar para Flor. Tendo assim resolvido, ele, no dia seguinte, após a aula, trancou-se no quarto e arrumou seus teréns, encheu duas malas e um baú. Depois fechou a porta, pôs a chave na bolsa e saiu dizendo que ia ao mercado de Yansã, na Baixa dos Sapateiros. Ali, Vadinho a esperava com o táxi, mais uma vez Cigano os conduziu mas, dessa vez, só na manhã seguinte retornou a buscá-los.

A uma conhecida, vinda por novidades e costuras, dona Rozilda contou:

- Flor saiu para fazer compras, volta já. Felizmente não fala mais do tipo, anda menos assanhada…

- Acaba esquecendo… É sempre assim…

- Tem de esquecer, queira ou não queira…

A visita demorou-se, a conversar, dona Rozilda contando coisas de uma família recente na ladeira, uma gente de Amargosa.

- Bem, Flor está tardando, vou embora. Lembranças para ela.

Sozinha, dona Rozilda à espera. Primeiro levemente em dúvida, logo inquieta, pela noite sabendo de certeza absoluta que Flor perdera o juízo e fugira de casa. Forçou com um canivete a fechadura do quarto, viu as malas feitas, o baú repleto. A fingida estivera a enganá-la, comportando-se como se houvesse rompido com o canalha, para poder sair desatinada a desgraçar-se.

Dona Rozilda ficou de luz acesa a noite toda, a taça ao alcance da mão. Ah!, se ela tivesse a audácia de voltar…

Quando, no outro dia, antes do almoço, a irmã e o cunhado apareceram, Porto todo cheio de dedos, ela fez uma cena daquelas, arrancando os cabelos, fora de si:

- Não quero saber de nada… Aqui não entra mulher-dama, lugar de puta é em castelo…

Dona Lita subiu nos azeites:

- Faça favor de me respeitar. Flor está em minha casa e minha casa não é castelo. Se você não se importa com a felicidade de sua filha isso é com você. Eu e Thales nos importamos e muito. Vim aqui para lhe dizer que Flor vai se casar. Se você quiser, o casamento sai daqui, tudo direito e em ordem como deve ser. Se você não quiser sai de minha casa e com muito gosto.

- Rapariga não casa se ajunta…

- Escuta mulher…

De nada adiantaram a dialética de tia Lita e a silenciosa presença de tio
Porto.

quarta-feira, março 03, 2010



Eu tive um
sonho...





Um artigo de de 11 de Dezembro de 1984 de autoria do madeirense Cecílio Gomes da Silva, Eng. Sivicultor, publicado no DN do Funchal de 13 de Janeiro de 1985.



Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constituem as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira.


Tive um sonho:


-"Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria.
Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou.
A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda.
As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores."


Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas.
Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente para o segundo.


Oxalá que nunca se diga que sou profeta, mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.

Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).
Dei o alarme - pensem nele.


O DR. Alberto João não leu, com certeza, este sonho premonitório do seu conterrâneo Eng. Cecílio Gomes da Silva. De resto, mesmo que o tivesse lido, nada se teria alterado no seu pensamento. Navegam em águas diferentes:

- Um, preocupado com o bem estar e segurança das pessoas, o outro com o poder, o dinheiro e as grandes obras que perpetuam para sempre o nome dos políticos que as mandam realizar.

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Ainda não é um desporto... ainda!

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ELVIS PRESLEY - ONE NIGHT


DYANGO - ALMA, CORAZON Y VIDA


DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 59


- T’esconjuro, Vadinho, não seja herege… – Flor enrolava-se numa colcha vermelha. Tudo naquele quarto era excitante; quadros de mulheres nuas nas paredes, reproduções de desenhos onde faunos perseguiam e violentavam ninfas, um espelho imenso em frente ao leito, o tal Mário era um lorde, criara uma atmosfera pecaminosa, perfumes na penteadeira, bebidas no gelo. Flor sentia um frio no ventre.

- Se ele quisesse que a gente não vadiasse, fazia logo o povo todo capado e os meninos nasciam órfãos de pai e mãe… Não seja tola, deixa essa coberta…

Suspendeu o trapo vermelho, Flor desabrochou na brancura do lençol, Vadinho teve uma exclamação de alegre surpresa:

- Mas tu é pelada, quase pelada…Que coisa doida mais linda…

- Vadinho…

Com o seu corpo cobriu-lhe o pudor, ela cerrou os olhos. Rompeu a aleluia sobre o mar de Itapoã, a brisa veio pelos ais do amor e, num silêncio de peixes e sereias, a voz estrangulada de Flor em aleluia; no mar e na terra aleluia, no céu e no inferno aleluia!

Na manhã daquele dia Flor saíra a ajudar dona Maga Paternostro, aquela ricaça sua antiga aluna, num almoço de aniversário, rega-bofe para mais de cinquenta pessoas e ainda mesa de doces e salgados pela tarde. Dali partiu para encontrar-se com Vadinho e aconteceu o que tinha que acontecer. Dona Rozilda a fazia no fogão de dona Maga, ela estava empernada com Vadinho em Itapoã.

Daquele dia em diante a vida de Flor foi inventar pretextos para voltar com Vadinho à casinhola da praia. Recorria a amigas e a alunas: “Se mamãe perguntar se eu saí com você diga que sim”. Diziam, todas lhe tinham afeição e muitas simpatizavam activamente com a causa. Após a aula, uma delas anunciava:

- Vou levar Flor comigo à matiné, a pobre precisa esquecer…

Parecia estar esquecendo, rejubilava dona Rozilda. Nos últimos dias Flor já não mantinha a cara tão amarrada, desistira de ficar metida no quarto à espera de vê-lo surgir na rua – ao cafajeste – para então assumir ostensiva a janela, em franca provocação. O não-sei-que-diga demorava-se a tirar prosa no passeio da negra Juventina. Aquela peste e outras descartadas da vizinhança serviam de espoleta para o namoro, de leva-e-traz, dona Rozilda as tinha de olho, um dia lhe pagariam com juros. Flor atirava bilhetes a Vadinho, beijos com a ponta dos dedos. Até dona Rozilda perder a cabeça e explodir em desaforos contra a filha e o tratante, o patife a rir na esquina.

Nos últimos dias, no entanto, dona Rozilda sentira prenúncios de mudança. A atitude de Flor já não era a mesma, já não cantava modinhas tristes, não tinha na boca o tempo todo o asqueroso apelido do namorado e ele deixara de mostrar-se na rua. Reaparecera o sorriso de Flor, voltara a dar bom-dia e boa-tarde, a responder quando dona Rozilda lhe dirigia a palavra.

Na Baixa dos Sapateiros a eventual amiga recomendava despedindo-se:

- Juízo, hein! – e ria cúmplice.

Riam-se também Flor e Vadinho, enfiavam-se num táxi – sempre o mesmo, pertencia ao Cigano, chofer de praça e velho companheiro de Vadinho – a toda a velocidade a caminho de Itapoã, as mãos agarradas, roubando-se beijos pelo caminho.
Cigano ia buscá-los de volta ao crepúsculo, vinham sem pressa, a cabeça de Flor repousando no ombro de Vadinho, os negros cabelos ao sabor da brisa, e uma lassidão, uma ternura – o desejo
de continuarem juntos, por que se despediam?

terça-feira, março 02, 2010

AS NOTÍCIAS EM AUTO- TUNE



PELA BOCA
MORRE O
PEIXE...




Há pouco mais de dez anos, quando Timor era palco da destruição provocada pelas milícias pró-Indonésia e em todo o mundo se multiplicavam as manifestações de solidariedade e o envio de ajuda financeira, Alberto João Jardim garantia que a Madeira não daria um tostão, que cada um se deve governar por si.


No entanto agora, depois da tragédia que se abateu sobre a ilha, a Madeira vai contar com muita ajuda, de dentro e de fora, e, entre essa, com 750 mil dólares oferecidos pelo governo timorense. Não sei se os ecos dos dislates de Jardim terão nesses tempos idos chegado a Timor. Se sim, isto é uma bofetada de luva branca; se não, é apenas a demonstração do provérbio que afiança que pela boca morre o peixe.

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jugular.blogs.sapo
Nota: -
O registo da memória é importante para mostrar a verdadeira natureza das pessoas...

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Você conhece-os...

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SIMONE - O QUE SERÁ


CARMEN LUNDY - THE WINDMILLES OF YOUR MIND



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS

EPISÓDIO Nº 58



Referia-se ao passado de Porto, cuja mocidade decorrera no Rio de Janeiro, no meio teatral, com excursões pelo interior do país, varando cidades, cenarista e coreógrafo de mambembes, tendo sido também, por força das circunstâncias, actor e ponto, director e figurinista. Depois do casamento, assentara a cabeça, obtivera colocação na Bahia. De sua vida na ribalta restaram apenas um álbum de recortes e um punhado de anedotas. Não perdia ocasião de exibir o álbum e de contar as anedotas.

- E não deu certo? – reagia dona Lita, no fundo orgulhosa do passado boémio do marido. – Você sabe de casamento mais feliz? Ademais não tenho nenhuma vergonha do trabalho dele no teatro. Não estava roubando. Não estava roubando ninguém, nem enganando, nem deflorando donzelas…

- E como havia de deflorar, se era tudo meretrizes, tudo de fiofó arrombado. Onde ia ele arranjar donzelice para comer? Vontade não havia de lhe faltar, boa bisca ele não era…

Amigueira e bondosa, sob certos aspectos o contrário da irmã, dona Lita não suportava no entanto, insultos ao esposo e, se a esporeavam, subia-lhe o sangue às narinas:

- A senhora faça o favor de meter sua língua no rabo e não falar mal de meu marido, não vim aqui para ouvir desaforo seu…

Dona Rozilda obediente, enfiava língua no rabo, a resmungar desculpas. Dona Lita era a única pessoa no mundo por quem nutria estima e respeito, com ela jamais brigava.

- Vim aqui porque quero bem a Flor, como se ela fosse minha filha… Por que diabo não deixa você a menina casar, ela gosta do rapaz e ele está caído por ela. Porque ele não é um todo-poderoso como você meteu na cabeça?

- Não meti nada na cabeça, você está cansada de saber, eles abusaram de mim os miseráveis – A lembrança do monstruoso debique a enfurecia – E sabe de uma coisa? É melhor a gente dar essa conversa por finda. Com aquele traste ela não casa enquanto estiver sob minha guarda. Depois dos vinte e um anos, se ainda quiser, pode ir embora e se desgraçar. Antes eu não deixo e acabou-se.

- Tu está procurando sarna para se coçar… Tu vai ver…

E assim era, após o fracasso dessa derradeira embaixatriz, Flor resolveu atender à voz da razão. Ou seja: aos cochichados argumentos de Vadinho a tentar convencê-la da única da única solução prática, viável, possível, e, ao mesmo tempo deliciosa, terna e doce prova de amor e confiança. Convencida, precipitou-se a atender: abriu as coxas e deixou que ele a comesse como há muito lhe pedia e suplicava. Para referir toda a verdade, sem escamotear detalhes (nem mesmo escamoteando-os na simpática intenção de manter íntegros aos olhos do público a inocência e o recato da nossa heroína, fazendo-a ingénua vítima de irresistível dom-juan), deve-se dizer que Flor estava doidinha para dar e dar-se, entregar-se por inteira, um fogo a queimar-lhe as entranhas e o pudor, desatinada labareda.

Um amigo endinheirado, Mário Portugal, solteiro e estroina naquele tempo, emprestou a Vadinho oculta casinhola para os lados de Itapoã. A viração desatava os cabelos lisos e negros de Flor, punha-lhe o sol azulados reflexos. No marulho das ondas e no embalo do vento, Vadinho arrancou-lhe a roupa, peça a peça, beijo a beijo. A lhe dizer, rindo, enquanto a despia e dela se apoderava:

- Não sei vadiar nem coberto de lençol quanto mais vestido com roupa. Tu tem vergonha de quê, meu bem? A gente não vai se casar, não é para isso mesmo? E mesmo que não fosse, a vadiação é coisa de Deus, foi ele que mandou que se vadiasse.

“Vão vadiar por aí, meus filhos, vão fazer neném” que ele disse e foi das
coisas mais direitas que ele fez.

segunda-feira, março 01, 2010


A ILHA da
MADEIRA


No Rescaldo do Desastre






Contados os mortos - 42 mais 8 desaparecidos - calculados os prejuízos materiais e os respectvos apoios financeiros no montante de 1.400 milhões de euros, feitas as pazes entre o Dr. Alberto João e o Eng. José Sócrates, é a altura de uma reflexão.

Desculpem, mas o que aconteceu não foi, em grande medida, uma questão de desrespeito pela natureza. O que aconteceu na Ilha da Madeira, na componente de mortos, feridos, desaparecidos e avultados prejuízos materiais, foi uma questão de falta de respeito pelas pessoas.

A ganância, a vaidade, a procura de prestígio a qualquer preço, ditaram as decisões que estiveram na base de muitas das perdas humanas e materiais. Alguém se lembrou de perguntar por que razão a zona onde estão instalados os Hotéis nada sofreu e o seu funcionamento tão pouco foi interrompido?

A ilha da Madeira é um local de risco para se viver, especialmente na parte mais ocidental onde as vertentes da montanha mais se aguçam e por razões que os especialistas sabem explicar: maior queda de chuvas com a tendência para ser muita e em pequenos períodos de tempo num terreno com elevado grau de inclinação.

Era, portanto, do mais elementar bom senso que os vales que trazem até ao mar, numa distância relativamente curta, a água e todos os detritos que ela arrasta estivessem livres e completamente desimpedidos.

Ora, eu não acredito que os responsáveis da Madeira não possuam esse senso: vivem lá, conhecem a sua terra e o seu passado histórico, as grandes chuvadas sempre aconteceram estando registadas no papel ou na memória dos homens e não se pode falar em surpresa apenas porque elas não caem todos anos com aquela intensidade… surpresa era se assim fosse!

As decisões foram conscientes e deliberadas, decisões de risco, alto risco, muito à portuguesa, levadas a cabo por políticos ambiciosos que vivem inebriados de si próprios e se justificam em altos berros com as grandes vantagens do desenvolvimento económico produzido pelas receitas dos turistas.

De resto, tudo foi feito a pensar nesses senhores, ou melhor, no seu dinheiro e por isso, se um hospital, as instalações dos bombeiros ou de um grupo de futebol “atrapalham”, atiram-se com elas para o local das ribeiras e leitos de cheia porque, bem vistas as coisas, também já não há mais locais disponíveis…

As construções que estavam autorizadas até aos quinhentos metros de altitude já vão nos seiscentos porque é preciso agradar ao povo e o “grande chefe” espera os seus votos no dia das eleições.

Tudo isto obedece a uma estratégia de obtenção de dinheiro sem se respeitar os limites de segurança das vidas da população madeirense.

O Dr. Alberto João dirá que em todo o lado morrem pessoas vítimas de desastres naturais mas o que ele não diz é que era e é da sua estrita obrigação minimizar o número de vítimas dessas calamidades através de medidas que há anos lhe vêm sendo recomendadas e que ele olímpicamente desprezou.

O povo da Madeira, o mesmo que não deixa entrar nas igrejas o antúrio por considerar aquela flor símbolo de erotismo e pecado, confia cegamente nele. As maiorias absolutas obtidas em todas as eleições comprovam-no de forma indiscutível e afirmam-no como o líder que pensa e decide por eles…

O Chile não pode evitar os terramotos mas as regras anti-sísmicas impostas para a construção dos prédios permitiu que o número de vítimas deste último abalo, o maior de sempre, se contem por muitas centenas e não por muitos milhares. Esta, a grande diferença entre aquilo que o homem pode fazer para minimizar as vítimas de terramotos em centros urbanos e a outra que é ignorar essas medidas nas construções das casas e permitir que elas se construam como no Haiti.

É da responsabilidade das autoridades impor essas regras como obrigatórias como acontece, de resto, também no Japão onde os sismos são frequentes.

O que não se compreende é que na ilha da Madeira não só se tenha autorizado a construção de casas de habitação em locais de cheia, como o próprio governo edificou Serviços Públicos em ribeiras e alterou, estreitando, as linhas do relevo por onde deveria correr a água e os detritos demolidores no caso de grandes precipitações como aquela que ocorreu.

Resta aos madeirenses promoverem louvores à Virgem e Santos devotos, não que eles interfiram no número das vítimas, embora se diga que essas coisas do tempo têm a ver com o São Pedro… mas sempre consolam os espíritos devotos daqueles que cá ficaram para chorarem os que partiram.

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Este árbito ou é gay ou imita muito bem...

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PAUL ANKA - CRAZY LOVE


ROBERTO LEVI - PARABÉNS QUERIDA



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 57


No lar e no carinho da tia Lita e de seu marido Thales Porto, no Rio Vermelho, procurou e obteve abrigo a perseguida Flor, quando fugiu de casa para desposar Vadinho.

Porto ainda vacilara: não queria encrencas com dona Rozilda, mulher de cabelo na venta e ousada; era homem de bom viver. Tranquilo em seu canto, com seu pequeno emprego e sua mania de pintura. A cunhada já o acusara, e a dona Lita, de se oporem os dois ao namoro da sobrinha, isso quando, nas férias, ela enxergava em Vadinho um poço de virtudes, um deus-me-acuda, um Jesus-menino, só lhe faltando para santo da igreja, o resplendor. Uma tola metida a sabichona, enganjenta, cheia de birras e calundus: eis dona Rozilda; Porto não queria embeleco com mulher tão confusa e petulante. Mas que fazer, se Flor aparecera descabelada e em prantos, trazendo de escolta um Vadinho sério e solene muito cônscio de suas responsabilidades? Vinham confessar o irremediável; ele tinha-lhe tirado os tampos, comido o cabaço, necessitavam casar. Quisesse ou não dona Rozilda, com ou sem maioridade, tinham de casar, Flor deixara de ser moça donzela e só o matrimónio lhe restituiria a honra agora no bucho de Vadinho.

Flor, num pranto deslavado, pedia perdão aos tios. Se a tanto chegara desprezando os rígidos princípios familiares, rompendo o medo e o pudor, entregando sua virgindade ao pertinaz fiscal de jardins, a única culpada verdadeira era dona Rozilda, com suas artimanhas, sua intransigência, a proibir-lhe qualquer contacto com o namorado, aferrolhando-a dentro de casa, como se ela, mulher feita, quase de maior pouco faltava, fosse uma criança. Até bater lhe batera, quem suportaria tanto carrancismo? Afinal Vadinho não era nenhum celerado, nenhum facínora, foragido da justiça ou cangaceiro do grupo do Lampião; nem ela, Flor, tinha quinze anos, inocente de tudo, sem nada saber da vida. E as despesas da casa não era Flor quem as assegurava, pagando aluguel e comida? A mãe pouco contribuía, sem Rosália o atelier de costura se reduzira a uma ou outra encomenda. Em compensação desenvolvera-se a escola de culinária, dela viviam mãe e filha. Por que então se arrogava dona Rozilda o direito de resolver sozinha, de condenar sem apelação? Recusando-se a ouvir pessoas sensatas como a tia Lita, seu Antenor Lima e o próprio doutor Luís Henrique, padrinho de Heitor, cuja opinião sempre acatara antes. Dessa vez repelira seus conselhos com veemência. Thales Porto sacudira a cabeça: a parenta perdera de todo a tramontana.

Nem Flor nem Vadinho podiam suportar tal situação. Para o rapaz o caso se transformara em definitiva e emocionante parada. Como na roleta ou nos dados, de frente para o azar. Um desejo de Flor o possuía por completo, da cabeça aos pés, turvando-lhe o juízo, como se não existisse outra mulher no mundo, como se ela – com seu corpo rechonchudo e suas bochechas redondas – fosse a mais bela e apetecível fêmea da Bahia, única capaz de saciar sua fome e sua sede, de conter sua solidão. “Não, nunca, jamais, enquanto eu tiver vida” repetia dona Rozilda repelindo as renovadas propostas de casamento de Vadinho, transmitidas por parentes e amigos.

A própria tia Lita tinha intervindo dias antes, como lembrava Flor. A outra saíra com quatro pedras nas mãos e uma ladainha de pragas:

- Enquanto Deus me der vida e saúde esse canalha não casa com minha filha. Não que ela mereça esse cuidado, é uma sonsa, uma ingrata, nasceu para sujeitinha. Mas eu não consinto, enquanto estiver na minha dependência. Prefiro ver ela morta do que casada com esse vagabundo…

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