sábado, setembro 05, 2009

ESPOSA INFIEL

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BELEZAS DA NATUREZA

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RAY CHARLES - ALL I EVER NEED IS YOU (1991)


PACO DE LÚCIA, JOHN MCLAUGHLIN Y AL DI MEOLA - MEDITERRANEAN




OS ENJOOS DAS GRÁVIDAS





Na década de 1950 foi receitado às mulheres grávidas um medicamento chamado Talidomida para combater os enjoos matinais e indisposições características destas situações e que se julgava, então, não ter efeitos colaterais.

O resultado foi trágico com milhares de crianças deficientes em todo o mundo.

A produção deste medicamento foi suspensa mas continuou a pensar-se que os enjoos e indisposições da gravidez eram algo que tinha de ser curado.

Hoje, sabe-se que as mulheres estão biologicamente preparadas para protegerem os seus bebés durante o seu desenvolvimento.

Repare-se:

- As grávidas evitam, instintivamente, certos alimentos;

- Os alimentos ingeridos deslocam-se durante mais tempo ao longo dos intestinos;

- O fluxo sanguíneo para os rins aumenta;

- O fígado eleva gradualmente a produção de enzimas;

- O nariz torna-se mais sensível aos cheiros;

- Até o hábito, aparentemente bizarro, de comer argila ganha sentido porquanto está provado que a argila reduz a absorção de produtos químicos tóxicos sendo usada para tratar de problemas de estômago e náuseas.


Tudo isto configura um importante “Plano de Guerra” biológico que evoluiu durante milhões de gerações, muito antes do aparecimento da nossa espécie, para resolver um problema recorrente de sobrevivência e reprodução.

É que os enjoos da gravidez ocorrem principalmente durante aquele período em que no feto se desenvolvem os principais sistemas de órgãos e que constitui um momento mais sensível às toxinas.

Em 1940, um médico investigador referia que as mulheres que sofriam de enjoos graves durante a gravidez tinham menos propensão para abortar.

Os alimentos mais condimentados e amargos são mais susceptíveis de provocar enjoos do que os alimentos insípidos sabendo-se, como se sabe, que esses alimentos muito condimentados e amargos estão implicados em abortos e deficiências do feto.

Percebe-se, assim o motivo, porque sendo os enjoos, em si mesmo, desagradáveis à mulher e ao bebé que vai nascer, pelo qual milhões e milhões de mulheres em todo o mundo ficam misteriosamente “enjoadas” quando engravidam e isto, sabendo-se, que a selecção natural elimina as coisas que são desagradáveis.

Portanto, em resumo, os enjoos da gravidez não constituem um mal que deva ser curado, mas tão-somente um mecanismo testado e aprovado ao longo de milhões de gerações, dentro do processo de selecção natural, para ajudar a resolver o problema da sobrevivência e reprodução.



“A Evolução Para Todos” David Sloan Wilson

sexta-feira, setembro 04, 2009

VÍDEOS
SIMPLESMENTE IMPRESSIONANTE
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DEAN MARTIN - THAT'S AMORE


CANÇÕES BRASILEIRAS

FAFÁ DE BELÈM - FOI ASSIM
Composição de Paulo André Barata e Ruy Barata (1977)


CARL SAGAN - UMA VOZ NA SINFONIA CÓSMICA (PARTE 6)

WHY WORRY - MARK KNOPFLER AND EMMILOU HARRIS

GERGELY ROBERT - EMANUELLE


A REMOÇÃO DO PAU




O Registo Civil de Beja recebeu o seguinte requerimento:



Beja, 5 de Fevereiro 2006.

Eu, Maria José Pau, gostaria de saber da possibilidade de abolir o sobrenome Pau do meu nome, já que a presença do Pau me tem deixado embaraçada em várias situações. Desde já agradeço a atenção despendida.



Peço Dedeferimento

Maria José Pau.



Em resposta, recebeu a seguinte mensagem:




Cara Senhora Pau:


Sobre a sua solicitação da remoção do Pau, gostaríamos de lhe dizer que a nova legislação permite a remoção do Pau, mas o processo é complicado e moroso.
Se o Pau tiver sido adquirido após o casamento, a remoção é mais fácil, pois, afinal de contas, ninguém é obrigado a usar o Pau do cônjuge se não quiser.
Se o Pau for do seu pai, torna-se mais difícil, pois o Pau a que nos referimos é de família e tem sido utilizado há várias gerações. Se a senhora tiver irmãos ou irmãs, a remoção do Pau torná-la-ia diferente do resto da família.

Cortar o Pau do seu pai pode ser algo muito desagradável para ele. Outro senão está no facto do seu nome conter apenas nomes próprios, e poderá ficar esquisito, caso não haja nada para colocar no lugar do Pau.
Isto sem mencionar que as pessoas estranharão muito ao saber que a senhora não possui mais o Pau do seu marido. Uma opção viável seria a troca da ordem dos nomes.

Se a senhora colocar o Pau na frente da Maria e atrás do José, o Pau pode ser escondido, pois poderia assinar o seu nome como Maria P.José.
A nossa opinião é a de que o preconceito contra este nome já acabou há muito tempo e visto que a senhora já usou o Pau do seu marido por tanto tempo, não custa nada usá-lo um pouco mais.

Eu mesmo possuo Pau, sempre o usei e muito poucas vezes o Pau me causou embaraços.

Atenciosamente,

Bernardo Romeu Pau Grosso

Registo Civil de Beja

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TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 224





Mas ele próprio perguntou:

- Não vejo aqui a assinatura de dona Antonieta Cantarelli. A assinatura dela deve abrir a lista, se o Comandante deseja que o povo assine.

Barbozinha compõe poema sobre poema, já possui matéria para um livro que pretende publicar, os Poemas da Maldição, escreve cartas a Giovanni Guimarães mas como colector de assinaturas é um fracasso. Em troca, dona Milú é de rara eficiência, até agora é seu o recorde da colecta. Imprevisto aliado, Osnar, de tocaia no botequim, faz um esforço. Tudo isso soma apenas cento e dezasseis nomes, trinta e sete obtidos por dona Milú. Para os mil previstos, uma derrota. O Comandante balança a cabeça, preocupado.

- Minha boa Carmosina, não sei, não… Ou Tieta se decide a tomar a frente ou não iremos muito além disso. Volto amanhã para Mangue Seco, vou tentar convencê-la a vir nos ajudar. Não vai ser fácil: o curral está pronto, ela quer gozar um pouco da casa que lhe deu tanto trabalho e custou um bom dinheiro. Inclusive me encarregou de levar a enteada comigo. Me toco com Laura e Leonora amanhã cedo, vou suplicar a Tieta que venha nem que seja por uns dias e diga a todo o mundo, espalhe pela cidade inteira, que é contra a fábrica, que se a Brastânio se instalar em Mangue Seco nunca mais porá os pés aqui.

Dona Carmosina concorda, o sucesso da campanha depende de Tieta:

- Domingo apareço por lá para reforçar o seu pedido. Penso que entre nós dois vamos conseguir.

É lamentável. Com tanto advogado aqui, o cartório cheio de gente, toda a gente julga que se vai fartar de dinheiro com a Brastânio. Até em Rocinha o preço da terra subiu, imagine.

- Estive matutando nessa história dos advogados e dos herdeiros do coqueiral e cheguei à conclusão que tem um lado bom: enquanto eles brigam, a fábrica não tem onde se instalar. Até que o caso se resolva…

- Não se iluda, minha boa Carmosina. Esses advogados vão entrar logo em acordo, logo vai ver. Os herdeiros se unem e encarregam Modesto Pires, que é o mais sabido de todos os que estão metidos nisso, de negociar a venda do coqueiral à Brastânio. E não podemos fazer nada…

- Nesse caso, nem Tieta.

Mostra-se, à porta da agência, a figura bisonha de Fidélio. A ele, nem tinham pedido para assinar o memorial, pois o sabem um dos herdeiros das terras onde a Companhia Brasileira de Titânio S.A. cogita instalar a sua indústria, um dos que tem possibilidade real de ganhar dinheiro.

- Boa tarde, dona Carmosina. Boa tarde, Comandante. Queria trocar umas palavras com o senhor.

- Se é particular, vou lá para dentro – declara Carmosina, morta de curiosidade.

- Que é particular, é, mas não para a senhora – Devia ter pedido a Aminthas para acompanhá-lo. Calado de natureza, como há de se arranjar para expor assunto tão delicado? Não vá o Comandante se ofender: - É sobre essa história do coqueiral em que estou metido, sou um dos herdeiros, penso que o senhor sabe.

Curva-se dona Carmosina no balcão, para ouvir melhor.

quinta-feira, setembro 03, 2009

CANÇÕES BRASILEIRAS

JAIR RODRIGUES - DISPARADA (1965)
Letra de Geraldo Vandré e Música de Theo de Barros. Foi uma das principais composições da época dos Festivais da MPB. Venceu o Festival TV Record em 1965, dividindo o 1º lugar com "A Banda" de Chico Buarque.


BINO ARICO - MAMA LEONE


O DUO DOS GATOS


RAÚL SOLNADO - A BOMBA DE GASOLINA (1981)


ROGER WATERS PINK FLOYD - THE FINAL CUT



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 223




DA CAMPANHA DE ASSINATURAS E DO PREJUIZO QUE ADVEM DA AUSÊNCIA DE TIETA



O memorial, redigido por dona Carmosina com a assistência crítica porém útil de Aminthas, recolhe certo número de assinaturas muito inferior contudo ao previsto e desejado pelos promotores da iniciativa. O Comandante Dário veio expressamente de Mangue Seco, para ajudar, saiu pela rua de lista em punho, pondo em jogo o prestígio e a simpatia que o cercam. Sua presença concorre para a adesão de pessoas antes indiferentes ao problema: ouviram falar do assunto sem lhe conceder maior importância. Escutam a explicação do conterrâneo ilustre, portador de dragonas, aceitam a caneta:

- Se o Comandante pede, não me furto.

Muitos, porém se furtam, desaparecem à sua aproximação. A par do significado polémico daquelas folhas de papel, somem das vistas do Comandante ou claramente recusam-se a assinar por se encontrarem convencidos das vantagens provenientes da instalação de uma grande fábrica nas vizinhanças da cidade, em terras do município. Os argumentos sobre os terríveis malefícios da poluição não os abalam nem os comovem. Esperam, não sabem ainda de que maneira, obter proveitos, um lucro qualquer com a vinda da Brastânio; a palavra progresso significa com certeza melhoria de vida.

A grande maioria, não obstante, é composta de indecisos que se retraem. As duas frases do memorial onde predominam palavras assustadoras – podridão, crime e morte – são lidas, relidas analisadas. Sucedem-se perguntas:

- Será mesmo assim? Nos jornais pregados na Prefeitura, a gente lê coisa muito diferente.

O Comandante argumenta, educado e paciente. Na Agência dos Correios dona Carmosina explode com facilidade quando encontra resistência, olhares de dúvida, interrogações:

- Quer viver na podridão, no chiqueiro pois que viva!

- Não é bem isso dona Carmosina, não se exalte. É que uns falam umas coisas, outros negam. A senhora é instruída, sabe o que diz. O Comandante, que correu mundo, diz a mesma coisa. Já Ascânio, que ninguém pode negar o ser devoto de Agreste e que não deveria querer um negócio tão ruim aqui, diz o contrário. Seu Modesto Pires também. Dona Carlota, professora dos meninos, essa nem se fala. Fica braba, igual à senhora.

Tanto o Comandante quanto dona Carmosina ouvem, da boca dos indecisos, a mesma repetida declaração:

- Sei não… Se pelo menos soubesse o que dona Antonieta acha disso tudo Ela é uma pessoa competente, o lado onde ela estiver deve ser o lado certo.

Não adianta dona garantir pela posição de Tieta, o comandante Dário afirmar-se conhecedor do pensamento da viúva paulista, tendo chegado de Mangue Seco onde ela é sua hóspede. Desejam ouvir dito por ela:

- Ela ainda não falou nada. Vou esperar o que ela vai dizer.

- Na agência dos Correios, os dois líderes principais da campanha dão um balanço no trabalho, contam as firmas recolhidas, o número lhes parece insuficiente prova da afirmativa contida no memorial: todo o povo de Agreste repudia a pretensão da nefanda indústria de dióxido de titânio. Sentem um começo de desânimo.

A ideia do memorial foi de dona Carmosina, partidária da acção. Bate-boca oral ou através dos murais, não conduz a nada. Aminthas, apesar do cepticismo habitual, aprovou e colaborou na redacção. O Comandante se encheu de entusiasmo, fez cálculos, tirou conclusões. Se recolhesse pelo menos mil assinaturas dentro dos nove mil habitantes do município, levando em conta as crianças e a imensa maioria de analfabetos, poder-se-ia dizer que a quase totalidade das pessoas capazes de reflectir sobre o problema tomara posição contra a Brastânio. Mas tinham colectado pouco mais de uma centena de nomes, após um trabalho estafante. Nomes importantes, poucos. Os comerciantes, na previsão de bons negócios com a instalação da fábrica, reservaram-se. Padre Mariano declarar-se neutro, as funções de pároco não lhe permitindo tomar partido em tão melindroso assunto.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Uma empresa de telefone móvel, inglesa, promoveu esta mobilização na Trafalgar Square em Londres reunindo mais de 13.000 pessoas. A Empresa mandou um convite pelo celular: "esteja na Trafalgar Square no dia tal a tal hora" e nada mais. No dia e hora distribuiram microfones, muitos, e o resultado foi este: momentos em que sentimos que a humanidade poderia ser feliz...


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CANÇÔES BRASILEIRAS

CÉU DE SANTO AMARO - CAETANO VELOSO E FLÁVIO VENTURINI

CARL SAGAN - UMA VOZ NA SINFONIA CÓSMICA
- PARTE 5


PAUL ANKA - TELL ME THAT YOU LOVE ME - (1957)



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 222



Depois do almoço, no luxuoso restaurante do hotel, Patrícia o deixou para que ele repousasse, tendo ela própria compromisso. Mas voltaria às três para levá-lo a passear ou às compras, conforme preferisse.

No fusca dirigido por Patrícia, Ascânio percorreu a cidade onde não punha os pés há mais de sete anos, agora cortada por novas avenidas, estendendo-se pela orla marítima, pululante de movimento, a população duplicada. Mudara demais nesses anos, transformara-se. Onde a velha urbe modorrenta dos seus tempos de universitário, vivendo das glórias do passado, da tradição de cidade histórica, célula mater, berço de nacionalidade e outras retóricas, capital de um estado de economia atrasada, agro pastoril? Para definir a estagnação, a decadência da Bahia, Máximo Lima vociferava na faculdade:

- Não tem sequer fábrica de cerveja e em breve não terá mesmo ruínas antigas para mostrar.

Precisava de ver Máximo antes de regressar, comentar com ele a transformação que ia atingir agora o longínquo município de Sant’Ana do Agreste. Para isso viera, para a grande decisão.

De moto próprio ou obedecendo ordens, após haver percorrido as novas avenidas, Patrícia dirigiu-se à rodagem e o conduziu ao centro industrial de Aratu, empreendimento tão badalado em todo o país, apontado como exemplo devido à infra-estrutura estabelecida à base de estudos de especialistas, planificada sob a direcção de Sérgio Bernardes, nome famoso. Um imenso canteiro de obras, no qual algumas indústrias recém instaladas começavam a produzir, enquanto muitas outras, em vias de instalação, levantavam blocos de fábricas.

Na véspera, Ascânio passara por ali no jipe mas, no escuro e no silêncio da noite, as grandes chaminés e as estruturas dos edifícios eram apenas vultos imprecisos. Agora, ele as via, as chaminés lançando fumaça, as estruturas crescendo em ritmo acelerado, um barulho de batalha. Na extensão de muitos quilómetros, enormes placas com o nome das empresas anunciavam os produtos que estão sendo ou serão em breve manufacturados no pólo industrial de Aratu. Máquinas ciclópicas e centenas de homens removem toneladas de terra nas escavações, erguem paredes de tijolos e de concreto, soldem e fundem metais brilhantes.

O fusca parou à margem da estrada. Ascânio, boquiaberto, sentiu a pressão da coxa de Patrícia contra a sua, desviou a vista das chaminés. A moça sorria:

- Mais adiante, no caminho para Camaçari, ficará a petroquímica. Um colosso, não é? – Uma afirmação, não uma pergunta.

Ascânio voltou-se para ela, os olhos brilhando de entusiasmo, Patrícia lhe ofereceu a boca. Ao beijá-la era como se beijasse a nova Bahia.

Retornaram pela orla marítima. Diante da beleza do mar e das praias, em terrenos anteriormente descampados, sucediam-se hotéis, restaurantes, bares, boates, clubes, residenciais faustosas e moderníssimas, um panorama novo e sumptuoso. Pararam num bar. Alegre e sequiosa, Patrícia reclamou cerveja – de fabricação baiana com know–how dinamarquês, a melhor do mundo, esclareceu a informada cicerone – comprou cigarros americanos. Quando Ascânio quis puxar da carteira para pagar a pequena despesa, ela já estendia uma cédula para o caixa, sem dar importância aos protestos do rapaz ofendido no seu amor-próprio masculino:

- Não seja machista, neném, isso caiu de moda e quem paga é a Brastânio.

Andaram até à praia, sentaram-se na areia, trocaram beijos.

Você é um amor neném.

Antes do jantar aconteceu o anunciado contacto com o doutor Mirko Stefano e telefónico, porém extremamente cordial. O Magnífico continuava ocupadérrimo, pardon, mon cher ami, não ia poder reunir-se com Ascânio senão no dia seguinte, enquanto isso Pat se ocuparia dele. Quis saber como transcorrera a tarde, Ascânio contou-lhe a ida ao Centro Industrial, o impacto:

- Grandioso! Eu sabia que era uma realização importante, mas superou de muito a minha expectativa. É exaltante!

- Não é? Tudo aquilo de um dia para o outro não passava de um matagal abandonado. Pior que as praias de Agreste. Já imaginou como será o coqueiral de Mangue Seco muito em breve? Bem, divirta-se porque amanhã teremos muito que fazer. Esteja na portaria às dez em ponto da manhã, quero lhe apresentar alguns amigos.

Patrícia deixara Ascânio na porta do hotel, fora a casa mudar de traje, iam jantar fora. Chegou tão chique a ponto dele sentir-se um pouco constrangido no batido e mal talhado terno azul, obra de seu Miguel Rosinha que corta e cose paletós e calças do coronel Artur de Tapitanga há mais de quarenta anos. Antes de saírem, Patrícia avisara que não se coçasse para pagar nenhum gasto, as despesas corriam por conta da Brastânio. Comeram num restaurante da orla, depois ela propôs uma boate onde dançaram de rosto colado até depois da meia-noite. As contas assombraram-no. Se lhe competisse pagar, não teria dinheiro suficiente, passaria vergonha.

Tendo estacionado o carro ao lado do passeio do hotel, Patrícia subiu no elevador junto com Ascânio, no quarto pediu-lhe que puxasse o ziper nas costas do vestido, um longo verde malva com aplicações de renda branca. De dentro dele saiu nuinha pois o tapa sexo não tapava nada. Tinha um sinal de beleza no alto da coxa. Depois do duche, Pat o esperou na cama.
Por conta da Brastânio
, pensou o aprendiz de dirigente.

terça-feira, setembro 01, 2009

ESPOSA DESCARADA

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CANÇÕES BRASILEIRAS

MAYZA - O BARQUINHO
Roberto Menescal e Romaldi Boscoli - Um dos maiores êxitos da Bossa-Nova 1961



JULIO IGLÉSIAS - ABRAZAME



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OS “PEQUENINOS” PREDADORES




A nossa imaginação guarda em lugar de destaque os grandes predadores, os leões e os tigres, estes em especial, talvez por reminiscências de um passado recuado em que fazíamos parte da dieta dos tigres “Dente de Sabre”, mas os predadores pequeninos, minúsculos e microscópicos são muito mais perigosos e mortais, para além de que nos acompanham permanentemente invadindo os nossos corpos sempre que respiramos ou comemos.

Quando morremos, o nosso sistema imunitário deixa de funcionar e de imediato somos literalmente devorados por milhares de milhões de micróbios como se fossem outras tantas hienas saltando sobre a carcaça de um elefante.

É o nosso Sistema Imunitário que mantém esses predadores à distância, mas como?

- Uma possibilidade consiste num grande número de “planos de guerra” que evoluíram anteriormente. Por exemplo: o micróbio x invade o nosso corpo, é detectado por processos químicos e é imediatamente atacado com o plano de guerra x do arsenal do Sistema Imunitário.

Claro que isto é apenas uma parte da história, pois não existe apenas uma espécie de micróbios como também cada espécie evolui a uma grande velocidade.

Assim, a única forma de combater uma tal diversidade de inimigos que se modificam tão depressa é combater o fogo com o fogo, ou seja, a evolução com a evolução.

O cerne do Sistema Imunitário é a produção aleatória de anticorpos e a selecção daqueles que se associam com êxito no combate aos organismos de doenças do nosso corpo.

O Sistema Imunitário é um processo de ritmo rápido da evolução de anticorpos, criado pelo processo de ritmo lento da evolução genética.

Ele resolve o problema da “dança com fantasmas”. Suponhamos que um determinado tipo de micróbio, completamente novo, chegado de Marte ou da Galáxia mais próxima, invade o nosso corpo.

O facto de o Sistema Imunitário, em si mesmo, ser um processo evolutivo com soluções adaptativas rápidas e não à escala do tempo da evolução genética permite-lhe forjar a solução.

Supor, agora, que alguém afirma ser possível compreender o Sistema Imunitário sem nos preocuparmos em pensar na evolução, estaria profundamente errado e por dois motivos:

- Em primeiro lugar porque ignoraria o facto de o Sistema Imunitário no seu cerne ser um processo de evolução de ritmo rápido;

- Em segundo lugar, ignoraria, igualmente, o facto do Sistema Imunitário chegar a soluções adaptativas apenas porque ele se insere numa arquitectura vasta e complicada que se desenvolveu ao longo dos tempos por meio da evolução genética.

Sem se perceber que o sistema de evolução se processa em duas escalas de tempos diferentes não se consegue compreender o Sistema Imunitário.

Não será o Sistema Imunitário o único processo evolutivo de ritmo rápido. A maioria dos processos que associamos à singularidade humana, desde o desenvolvimento flexível do cérebro até ao pensamento simbólico e à diversidade cultural reflectem também processos evolutivos de ritmo rápido que se verificaram na arquitectura criada pela evolução genética.
"Evolução Para Todos" de David Slown Wilson

CELINE DION - MY HEART WILL GO ON


TIETA DO AGRESTE
EPISÒDIO Nº 221





Um dia terrível. O aeroporto de São Paulo fechado, o avião só pôde sair depois das nove, ou seja na hora em que devia estar pousando aqui. Venha comigo.

Enquanto andava, o Magnífico Doutor ia apertando mãos, acenando com os dedos, dizendo uma palavra a esse e àquele. Ao chegarem à borda da piscina, três indivíduos os acompanhavam. Um deles, cego de um olho, perguntou, num sussurro de conspirador:

- Quem chegou?

- Doutor Bardi.

- Sozinho? E os outros, quem são? Vi um grupo na recepção.

Mentira, pois os viajantes não haviam parado na recepção, entraram directamente no elevador, Ascânio os acompanhara com os olhos desde a descida do automóvel. O Magnífico Doutor sorriu para o bisbilhoteiro, passou-lhe a mão no rosto, de leve, num gesto quase feminino:

- Indiscretozinho…

Todas as moças – pelo menos um certo número – em mergulhos ou exposta ao sol eram propriedade do Magnífico Doutor (ou da Brastânio, ninguém pode ser tão poderoso a ponto de possuir tão variada colecção de vedetas; uma grande empresa, talvez). Precipitaram-se para a mesa que ele ocupou. Os três aderentes contemplaram Ascânio, curiosos, à espera quem sabe de apresentação ou notícia, mas como o Doutor Mirko esqueceu ou fez-se de esquecido, logo se entregaram a tarefas bem mais agradáveis: uísque e garotas. Bebiam com valentia, namoravam com rudeza, modos grosseiros, descorteses, na opinião de Ascânio. Jornalistas, os três, soube depois pelo próprio Magnífico. Mas as moças pareciam gostar dos palavrões e das propostas realistas.

Durou pouco o encontro, o doutor levantou-se, ocupadíssimo, deixando com os três vorazes a nova garrafa quase cheia e o mulherio.

- Amanhã ou depois terei notícias para vocês. Antes, nem uma palavra. Ninguém chegou, reina a paz na City e em Wall Street.

- E se A Tarde der o furo? – reclama o zarolho.

- Melhor, assim vocês terão notícia e desmentido.

Tomou Ascânio pelo braço, arrastando-o consigo até aos elevadores. Obedecendo a um gesto seu, uma das moças os acompanhou.

- Hoje estarei reunido a tarde toda. A você posso dizer: reunião decisiva da directoria. Somente no fim da tarde, antes do jantar, poderei lhe ver e lhe falar. Mas vou-lhe deixar em boas mãos. Patrícia vai ficar às suas ordens, vai lhe servir de secretária e de chofer. Passei, divirta-se. Antes do jantar conversaremos – Da porta do elevador, dirigiu-se à moça: - Cuide dele, Pat, com carinho. Um dia você se orgulhará de tê-lo acompanhado, de ter sido sua cicerone.

Patrícia sorriu e tomou posse de Ascânio:

- Almoçaremos aqui no hotel ou quer ir a um restaurante? Vou enfiar o cafetã, volto num segundo.

Patrícia também era loura mas não se parecia com Leonora. O verso do trigal maduro não se aplica aos seus cabelos, Barbozinha não a compararia a uma síflide. Bonita, sim, porém não aquela formosura única, incomparável, aquela distinção a denotar classe e família, filha de pai milionário e comendador do Papa, nascida em berço de ouro, educada nos melhores colégios, flor da alta sociedade paulista. Elegância e finura reveladas não apenas no bom gosto dos trajes mas em cada gesto, na delicadeza, no recato, na graça infinita. Na boniteza chamativa de Patrícia há um quê de vulgaridade e em sua inegável gentileza
transparece vestígio de serviço prestado, um toque
profissional.

segunda-feira, agosto 31, 2009

SERRA DA ARRÁBIDA


CANÇÕES BRASILEIRAS


ERASMO CARLOS - FESTA DE ARROMBA Rock - 1964
Erasmo Carlos e Roberto Carlos



HERVÈ VILARD - ON VERA BIEN + MOURIR OU VIVRE

O HOMEM ORQUESTRA

IMAGENS INSÓLITAS



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº220


EPISÓDIO INICIAL DE ASCÂNIO TRINDADE NA CAPITAL OU DA FORMAÇÃO DE UM DIRIGENTE A SERVIÇO DO PROGRESSO: PISCINA, CENTRO INDUSTRIAL E PATRÍCIA, DITA PAT


Somente ao término da estada na capital, no terceiro dia, por ocasião da última conversa com o Magnífico Doutor, quando um certo calor humano se fez presente por os eflúvios do conhaque, deixou Ascânio Trindade de sentir-se incómodo, possuído por uma vaga impressão de dependência, de não se encontrar em plena posse da sua liberdade. Sensação em realidade indefinível e sem razão aparente, devida talvez ao ambiente para ele completamente estranho. De súbito, hóspede de hotel de luxo, convivendo com pessoas de um mundo desconhecido, desconcertante e envolvente com o qual jamais mantivera qualquer espécie de contacto.

No primeiro dia, chegara a pensar que o doutor Mirko Stefano o fizera vir com tamanha urgência apenas para lhe oferecer drinques e moças à beira da piscina. Desembarcara do jip à noite, mais fatigado talvez das anedotas do engenheiro Quarantini do que da sacolejante travessia. Cumprindo sem dúvida ordens anteriores, o chofer o conduziu a um grande hotel onde lhe entregaram um recado do Magnífico Doutor; ocupe os aposentos reservados em seu nome, amanhã nos veremos.

Realmente encontraram-se, meio-dia passado, quando Ascânio já se preparava para ir almoçar, depois de ter ficado toda a manhã à espera, primeiro no quarto, na expectativa do telefone; em seguida, trocando pernas no saguão e nas imediações: admirando as butiques, a galeria de arte e antiguidades, as tapeçarias de Genaro, o painel em cerâmica de Carybé, esculturas de Mário Cravo em fibra de vidro, os turistas de bermudas e camisas floridas; arriscando olhadelas ao bar e à piscina onde mulheres lindas, em provocantes duas peças, tomavam banho de sol, corpos à mostra.

Vira o Magnífico Doutor de um dos dois imponentes carros negros para os quais se precipitaram bois e porteiros, disputando bagagens e gorjetas.

Dos automóveis desceram três outros passageiros, sumiram como que por encanto, com pastas e valises, num dos elevadores. Doutor Mirko permaneceu no hall, e se dirigia à recepção quando enxergou Ascânio. De braços abertos marchou na sua direcção, efusivo, a lhe pedir desculpas por havê-lo abandonado.


O MITO DO FILHO PRÒDIGO




A natureza é a nossa casa e não nos podemos comportar sucessivamente como na história do Filho Pródigo que, depois de estouvadamente ter desbaratado a herança, regressa a casa arrependido e envergonhado pedindo para ser tratado apenas como criado pois ele próprio sente que não merece mais.

Em vez disso, com surpresa sua, é recebido com grande alegria, como alguém renascido para uma vida mais sustentável.

Hoje mesmo, voltei a ler a notícia, recorrente, de que as comunidades indígenas de toda a Malásia, maior exportadora do mundo de madeira tropical, desencadeiam guerra aos madeireiros que lhes destroem as florestas.

O colapso repetido de civilizações passadas e o destino incerto da nossa é como o desbaratar da nossa herança numa vida de dissipação.

Antes de ficarmos verdadeiramente empobrecidos e envergonhados, como o filho pródigo, talvez seja a altura, depois de regressarmos a casa, vermo-nos como parte integrante da natureza que insistimos em destruir.

O filho pródigo só passou por esta mudança de atitude depois de ter sido vencido pelos antigos hábitos.

É duvidoso acreditar que temos capacidades especiais dadas por Deus que nos tornam mais felizes em todos os aspectos.

Para deixar os velhos hábitos que trouxeram a casa o filho pródigo arrependido e envergonhado, entre outras coisas, é preciso abandonar as explicações sobrenaturais como um primeiro passo na vasta estrada que temos de percorrer com vista à recuperação.

Esta convicção secular de que ocupamos um lugar à parte em relação ao resto da natureza deveria traduzir-se em capacidades que nos permitissem reger por regras diferentes das das outras espécies. É verdade que gostamos de comer e de sexo, e aí não nos diferenciamos, mas a riqueza da nossa diversidade cultural permite-nos escolher o nosso destino porque, ao contrário das outras espécies, o nosso comportamento não está geneticamente determinado.

E, no entanto, estes nossos atributos únicos evoluíram ao longo de um período de milhões de anos, 6 aproximadamente. Representam modificações dos grandes símios que têm cerca de 10 milhões, dos primatas, 55, dos mamíferos, 240, dos vertebrados, 600 milhões e, finalmente, a partir da evolução dos atributos das células nucleadas, aproximadamente há 1500 milhões de anos.

Mas será necessário recuar tanto para compreender os nossos atributos? Se julga que não, pense apenas, com um pouco de humildade, que o gene que controla o nosso apetite é partilhado pelos nemátodos que são pequenos seres semelhantes às minhocas.

Quando muito, os nossos atributos únicos, assemelham-se apenas a um anexo de uma enorme mansão com muitos quartos construídos pela evolução, a maioria dos quais partilhamos com outras espécies.

Pensar que podemos ignorar tudo com excepção desse anexo é pura estultícia.

Relativamente às antigas maneiras de pensar, temos que cultivar a humildade própria dos programas dos Alcoólicos Anónimos para nos podermos preparar para as novas maneiras de pensar.

Vamos rever os passos que temos de dar no longo caminho rumo à recuperação:

- Em primeiro lugar, abandonar a noção de que possuímos qualidades especiais que nos foram instaladas pelo Criador;

- Em segundo lugar, reconhecer que vivemos numa mansão com muitos quartos, a maioria dos quais partilhados com outras espécies;

- Finalmente, admitir que o nosso quarto especial requer a mesma compreensão pormenorizada da evolução que opera a múltiplas escalas de tempo que é necessária para compreender o nosso sistema imunitário que abordaremos num próximo texto.

Estas conclusões decorrem da teoria da evolução a um nível tão fundamental que é muito pouco provável estarem erradas.



"A Evolução Para Todos" de David Sloan Wilson

domingo, agosto 30, 2009

VÍDEO

É difícil resistir a uma olhada...

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MARIAH CAREY - HERO

IMAGENS INSÓLITAS


RAUL SOLNADO - A GUERRA de 1908

IMAGEM


JULIO EGLÉSIAS - JE N'AI PAS CHANCÉ


TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 219



ONDE O AUTOR, NÃO SATISFEITO COM A CRETINICE HABITUAL, EXIBE ESTULTA VAIDADE


Não resisto à emoção e interrompo o relato para perguntar: ouviram os senhores o que eu ouvi, naquela nobre língua? Áspera para os tímpanos delicados de Ângelo Bardi, habituados a la dolce vita, soa harmoniosa a meus ouvidos de autor inédito a lidar com acanhada humanidade de perdidos arraiais, de incultos sertanejos, duvidosos pescadores. Soa e ressoa como heróica clarinada, wagneriana, conclamando a conquista do mundo. Atrevo-me a pensar que um dos grandes da Europa, patrão de multinacional, herói de nosso tempo, desceu da grandeza onde habitualmente decide e comanda, para fazê-lo nas humildes páginas deste folhetim. Falou pouco, é verdade, mas ouviu com atenção. O pouco que falou foi definitivo, liquidou vacilações, esclareceu dúvidas.

Perdoem-me, necessito de desabafar: encontram-se em festa estas páginas, cumuladas de honra e eu me sinto realizado. Com personagem de tal grandeza, não há-de me faltar editor. Sobretudo se o grande herói ainda voltar, em outro capítulo, com seu soberbo cabelo cortado à escovinha e a magnífica luz dos olhos baços. Se acontecer, o editor será até capaz de pagar-me direitos autorais, não que eu os exija: contento-me com ver o volume nas vitrinas das livrarias. De coração ao alto, bandeiras despregadas, trombetas e clarins, eu o saúdo e aguardo em ânsia seu retorno.

Com esse único objectivo interrompi a narrativa: para comunicar aos senhores minha emoção, para que dela possam participar. Mas já que interrompi, aproveito o ensejo para responder a novas restrições assacadas contra este agora orgulhoso folhetim por meu colega e amigo Fúlvio D’Alembert.

Desta vez protesta ele contra ausência de Tieta, cuja figura anda desaparecida. Esqueço-me que seu nome figura no título, ocupando o alto da página; abandono regra comezinha da novelística ao abandoná-la. Personagem principal não pode ser relegada a segundo plano, ensina-me Fúlvio D’Alembert.

Da ausência de Tieta, não me cabe a culpa e, sim, a ela própria. Enquanto a discussão sobre a Brastânio pega fogo em Agreste, a cidade infestada de advogados, dona Carmosina recolhendo assinaturas em patético memorial às autoridades, protestando com vigor e pânico contra a instalação de uma fábrica de dióxido de titânio no município; quando o comandante Dário, contrariando arraigados hábitos de verão, abandona sua vilegiatura em Mangue Seco para colaborar com a agente dos Correios convencendo os indecisos, Tieta permanece na praia, bem do seu nome, entregue à devassidão. Palavra forte, sei, mas que outra empregar para caracterizar relações ilícitas de tia quarentona (quarenta e quatro, pouco falta para os cinquenta) com sobrinho de menor idade?

Osnar afirma que cidadão brasileiro alcança a maioridade sexual aos treze anos mas os discutíveis valores morais do troca-pernas não devem prevalecer sobre a moral corrente, cristã e ocidental – dizem-me, aliás, que os orientais, se por orientais entendemos socialistas, são extremamente puritanos, não admitindo tais libertinagens nem nas praias nem na literatura. Não tendo o que contar sobre Tieta, além do deboche, lúbrico e terno, voraz e lírico, permaneceu ela um tanto à parte mas nem por isso deixou seu nome ser citado pois, como constatou o Comandante, em todas as conversas pergunta-se qual a posição assumida por dona Antonieta Esteves Cantarelli no debate em torno da instalação da indústria de titânio. Mais uma vez o Comandante comprova a importância e do gesto de Tieta junto à vacilante maioria. Ao regressar a Mangue Seco, o bravo marujo pretende falar a sério com Tieta: venha assumir, minha boa amiga, seu posto de combate, chefiar a campanha, impedir o crime.

Aí ficam explicações e notícias, sirvam-se. Ah!, não me referi a um último (último mas não derradeiro) reparo de Fúlvio D’Alembert, crítico minucioso a quem nada escapa. Não perdoa o menor cochilo.

Reclama a propósito da descrição, páginas atrás, da chegada a Agreste do doutor Marcolino Pitombo. Reportando o bom conceito por ele expresso sobre a marinete de Jairo, escrevi que, atento ao som do rádio russo, o causídico elogiara a firmeza de carácter do aparelho. Sem esclarecer – aí o erro – o motivo do louvor. Que forte carácter é esse, do tal rádio, capaz de merecer gabo e admiração do ilustre advogado, um dos mais doutos personagens deste folhetim? Na opinião de Fúlvio D’Alembert, deixei o leitor no ar, desinformado.

Não seja por isso a reprimenda, aqui vai o esclarecimento. Tendo sabido que o rádio era de fabricação soviética, made in URSS, curiosa coincidência despertou a atenção do velho bacharel. Ao retransmitir músicas de países de terceiro mundo, latino americanas, brasileiras, sambas, tangos, boleros, rumbas, batuques, guarânias, o aparelho fazia-o com relativa limpidez e sonoridade. Tratando-se, porém, de melodias francesas, alemãs, italianas, inglesas, de nações desenvolvidas, o som piorava muito. Para tornar-se ininteligível, transformar-se em barulheira a doer nos ouvidos, intolerável estática, quando as estações de rádio obstinavam-se na difusão dos modernos rocks norte-americanos ou de qualquer som proveniente dos Estados Unidos.

Desterrado no sertão da Bahia, cruzando poeirento de crateras e pedregulhos, a serviço da derradeira marinete do universo, mantinha-se fiel aos rígidos princípios anti imperialistas. Demonstrando, inclusivé, se considerarmos a actual contingência política do mundo, acerbo sectarismo.

Mas que perfeição de som, que nitidez, que transparência quando uma estação de ilhéus difundiu, no programa Cantigas Inesquecíveis a canção intitulada Olhos Negros. Popular melodia russa – se não sabem, informo – tocou as entranhas do aparelho, recordando-lhe a nacionalidade, transportando-o de volta á romântica nostalgia das estepes. Mais límpido do que qualquer som estereofónico, o do rádio soviético, ressoando alto e puro no agreste serão da Bahia – indomável
carácter.

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