sábado, setembro 19, 2009

CANÇÕES BRASILEIRAS

ALCIONE - NEM MORTA


DON'T WORLD - PLAYING FOR CHANGE - SOUND AROUND THE WORLD


CRENÇAS RUINS


Por que razão é tão difícil erradicar crenças ruins?

- A razão tem a ver com a natureza das próprias crenças que estão biologicamente preparadas para serem resistentes à mudança porque foram designadas para aumentar a nossa habilidade de sobreviver.

Para mudar as crenças os cépticos devem aceder às habilidades de sobrevivência do cérebro discutindo os significados e as implicações para além dos dados.

Uma noção básica do espírito crítico e científico é de que as crenças estão erradas e por isso, é muitas vezes confuso e irritante para cientistas e cépticos que as crenças de tantas pessoas não mudem diante de evidências contraditórias.

Perguntamo-nos como é que as pessoas acreditam em coisas que contradizem os factos?

Essa confusão pode criar uma terrível tendência da parte dos pensadores cépticos de diminuir e menosprezar as pessoas cujas crenças não mudam face às evidências.

Elas podem ser olhadas como inferiores, estúpidas ou até malucas. Esta atitude, resulta de uma falha dos cépticos ao não compreenderem o propósito biológico das crenças e a necessidade neurológica de que elas sejam resistentes à mudança.

A verdade é que, por causa do seu pensamento rigoroso, muitos cépticos não têm uma compreensão clara ou racional do que são as crenças e por que, mesmo as mais erradas, não desaparecem facilmente.

Entender o propósito biológico das convicções pode ajudar os cépticos a serem muito mais eficientes no desafio às crenças irracionais e na divulgação de conclusões científicas.

Embora faça muito mais do que isso a finalidade primária dos nossos cérebros é manter-nos vivos e a sobrevivência irá ser sempre o seu principal propósito e virá sempre em primeiro lugar.

Se formos ameaçados ao ponto dos nossos corpos ficarem apenas com energia suficiente para suportar a consciência ou o coração a bater mas não as duas coisas em simultâneo, o cérebro não tem problema em “apagar-se” e colocar-nos em coma (sobrevivência à frente da consciência) em vez de ficar alerta até à morte (consciência à frente da sobrevivência).

Como cada actividade do cérebro serve fundamentalmente para isso, a única maneira de entender precisamente qualquer função cerebral é examinar o seu valor como instrumento de sobrevivência.

Mesmo a dificuldade de tratar desordens comportamentais como a obesidade e vícios pode ser entendida examinando a sua relação com a sobrevivência.

Qualquer redução no consumo calórico ou na disponibilidade de uma substância na qual um indivíduo é viciado é sempre interpretada pelo cérebro como uma ameaça à sobrevivência e o resultado disso é que o cérebro defende-se criando aquelas reacções típicas da síndrome da abstinência.

As ferramentas primárias do cérebro para garantir a nossa sobrevivência são os sentidos. Obviamente, devemos ser hábeis em perceber com precisão o perigo para podermos tomar atitudes que nos mantenham em segurança.

Para sobreviver temos que ver o leão à saída da caverna e ouvir o intruso invadindo a nossa casa a meio da noite.

Apesar disso, os sentidos sozinhos são inadequados como detectores do perigo porque são limitados no alcance e na área. Nós só podemos ter contacto sensorial directo com uma pequena porção do mundo de cada vez.

O cérebro considera esse um problema significativo porque, mesmo o dia-a-dia, requer que estejamos constantemente em movimento, dentro e fora do nosso campo de percepção do mundo como é agora.

Entrar num território que nós nunca vimos ou ouvimos coloca-nos na perigosa posição de não termos nenhuma noção dos perigos possíveis. Se entrar num prédio desconhecido ou numa parte perigosa da cidade, as minhas chances de sobrevivência diminuem porque não tenho como saber se o teto está para cair na minha cabeça ou se um atirador está escondido atrás da porta.

É aqui que entra a crença.

Crença: é o nome que damos à ferramenta de sobrevivência do cérebro que existe para aumentar a função de identificação de perigos dos nossos sentidos.

As crenças estendem o alcance dos nossos sentidos de maneira que podemos detectar melhor o perigo e aumentar as nossas chances de sobrevivência em território desconhecido. Em essência, elas servem-nos como detectores de perigo de longo alcance.

Do ponto de vista funcional, os nossos cérebros tratam as crenças como “mapas” da parte do mundo que não podemos ver no momento.

Enquanto estou sentado na minha sala de estar não posso ver o meu carro. Apesar de o ter estacionado na minha garagem há algum tempo, se eu usar os dados sensoriais imediatos, eu não sei se ele ainda lá está, por isso, neste momento os dados sensoriais não são de grande utilidade para encontrar o meu carro.

Para que eu encontre o meu carro com algum grau de eficiência, o meu cérebro deve ignorar a informação sensorial actual e voltar-se para o seu “mapa” interno do local do meu carro.

Esta é a minha crença de que o carro ainda está no local onde o deixei. Se me referir à minha crença em vez de aos dados sensoriais, o meu cérebro pode “saber” alguma coisa sobre o mundo com o qual não tenho contacto imediato.

Esta faculdade “estende” o conhecimento e o contacto do cérebro com o mundo para além do alcance dos nossos sentidos imediatos aumentando as nossas possibilidades de sobrevivência.

Um homem das cavernas tem mais hipóteses de sobreviver se acreditar que o perigo existe na floresta embora ele não o veja, da mesma forma que um polícia estará mais seguro se acreditar que alguém parado por infracção de trânsito pode ser um psicopata armado embora tenha aparência de boa pessoa.

Tanto os sentidos como as crenças são ferramentas para a sobrevivência e evoluíram para se alimentarem um ao outro e, por isso, o nosso cérebro considera-os separados mas igualmente importantes como fontes de informação para a sobrevivência.

A perda de qualquer um deles coloca-nos em perigo. Sem os nossos sentidos não poderíamos conhecer o mundo perceptível e sem as nossas crenças nada poderíamos saber do que está fora dos nossos sentidos, nem sobre significado, razões e causas.

Isto significa que as crenças existem para operar independentemente dos dados sensoriais.

Na verdade, todo o valor das crenças para a sobrevivência baseia-se na sua capacidade de persistirem não obstante as evidências em contrário.

As crenças não devem mudar facilmente ou simplesmente por causa de evidências que as neguem. Se elas o fizessem não tinham nenhuma utilidade para a sobrevivência. O nosso homem das cavernas não duraria muito se a sua crença em perigos potenciais na floresta se evaporasse toda a vez que ele não visse esses perigos.

Para o cérebro não há absolutamente nenhuma necessidade que os dados e as crenças concordem entre si. Cada um delas evoluiu para aumentar e melhorar a outra pelo contacto com diferentes secções do mundo.

Foram preparadas para poderem discordar e por isso é que cientistas podem acreditar em Deus e pessoas que são geralmente razoáveis e racionais podem acreditar em coisas sem evidências dignas de crédito como discos voadores, telepatia ou psicocinese.

Quando dados e crenças entram em conflito o cérebro não dá preferência aos dados e é por isso que crenças, mesmo disparatadas, ruins, irracionais ou loucas, raramente desaparecem diante de evidências contraditórias.

O cérebro não se importa se a crença concorda com os dados, ele apenas se preocupa se a crença ajuda à sobrevivência e ponto final.

Então, enquanto a parte racional e científica do nosso cérebro pode pensar que os dados deviam confirmar a crença, a um nível mais profundo ele nem liga a isso. Ele é extraordinariamente reticente em reavaliar as suas convicções.

E como um velho soldado com o seu revólver que não acredita que a guerra acabou, também o cérebro se recusa a entregar as armas mesmo que os factos desmintam aquilo em que ele crê.

Mesmo as crenças que não parecem, estão intimamente ligadas á sobrevivência porque as crenças não ocorrem individualmente ou no vácuo. Elas relacionam-se umas com as outras formando uma rede que cria a visão do mundo fundamental do cérebro e daqui a importância de manter intacta essa rede.

Pequenas que sejam e aparentemente sem importância, qualquer pequena convicção é defendida até ao fim.

Por exemplo, um Criacionista não pode tolerar a precisão dos dados que indicam a realidade da evolução, não por causa dos dados em si mas porque mudar qualquer crença relacionada com a Bíblia e a natureza da criação, quebrará todo um sistema, uma visão do mundo e, em última análise, a experiência de sobrevivência do seu cérebro.

O que está em causa, portanto, é uma questão de valor da sobrevivência da credibilidade e, perante ela, as evidências negativas são insuficientes para mudar as crenças mesmo em pessoas inteligentes em outros assuntos.

- Em primeiro lugar, os cépticos não devem esperar mudanças de crença simplesmente como resultado dos dados ou pensar que as pessoas são estúpidas porque não mudam de ideias.

Devem evitar tornarem-se críticos ou arrogantes como resposta à resistência à mudança. Os dados são sempre necessários mas raramente suficientes.

- Em segundo lugar, os cépticos devem aprender a nunca ficarem só pelos dados mas discutirem também as implicações que a mudança dessas crenças podem ter na visão do mundo e no sistema de convicções das pessoas envolvidas.

Os cépticos devem acostumar-se a discutir a filosofia fundamental e a ansiedade existencial que se estabelece quando crenças profundas são abaladas.

A tarefa é tão filosófica e psicológica quanto científica.

- Em terceiro lugar, e talvez a mais importante, os cépticos devem perceber quanto difícil é para as pessoas verem as suas convicções abaladas. É, quase literalmente, uma ameaça ao senso de sobrevivência dos seus cérebros.

É perfeitamente normal que as pessoas fiquem na defensiva em situações como essas. O cérebro acha que está lutando pela sua própria vida.

A lição que os cépticos devem aprender é que as pessoas, geralmente, não têm a intenção de serem teimosas, irracionais, nervosas, grosseiras ou estúpidas, quando as suas convicções são ameaçadas.

É uma luta pela sobrevivência e a única maneira de lidar, efectivamente, com esse tipo de comportamento defensivo é amenizar a luta em vez de inflamá-la.

Os cépticos só podem pensar em ganhar a guerra pelas convicções racionais se continuarem, mesmo contra respostas defensivas, mantendo um comportamento digno e respeitoso que demonstre respeito e sabedoria. Para que os argumentos científicos se imponham, os cépticos devem manter sempre o controle e não se irritarem.

- Finalmente, o que deve servir de consolo é que a parte realmente fantástica disto, não é que somente algumas crenças se modifiquem ou que as pessoas sejam tão irracionais, mas sim que as crenças de qualquer um podem modificar-se.

A habilidade que os cépticos demonstraram em alterar as suas próprias convicções a partir das descobertas científicas, constituiu um verdadeiro dom; uma capacidade poderosa, única e preciosa, só possível por uma alta função do cérebro na medida em que vai contra algumas das urgências biológicas mais fundamentais.

Eles possuem uma aptidão que pode ser assustadora, modificadora e que causa dor. Ao projectarem nos outros essa habilidade devem ser cuidadosos e sábios.

As convicções devem ser desafiadas com cuidado e compaixão.

Os cépticos não devem perder de vista os seus objectivos, devem adoptar uma visão de longo prazo, tentarem vencer a guerra pelas crenças racionais, não entrarem numa luta até à morte.

Não são só os dados e os métodos dos cépticos que têm que ser limpos, directos e puros, mas também a sua conduta e comportamento.


(Este texto é da autoria de Gregory W. Lester, Professor de Psicologia da Unversidade de St. Thomas em Houston nos EUA)




sexta-feira, setembro 18, 2009

PEPINO DI CAPRI - MELANCOLIE

CANÇÕES BRASILEIRAS

CLARA NUNES - NA LINHA DO MAR


PRÉ - HISTÓRIA - PALEOLÍTICO (Parte I)

VÍDEO

EXERCÍCIO MATINAL

video

TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 236


Olha através da taça pensativo:

- Há quem se levante e proteste contra a instalação no país de uma indústria de dióxido de titânio, tachando-a de poluidora. Os motivos são vários, quase sempre inconfessáveis, mas os agentes estrangeiros que comandam essa campanha antinacional conseguem iludir e arrastar muitas pessoas honestas, que ficam alarmadas e se colocam contra nós. Não vou lhe dizer que a indústria de dióxido de titânio não polui. Polui, sim, tanto quanto outra qualquer, talvez um pouco mais. No entanto ninguém se coloca contra uma fábrica de tecidos ou de electrodomésticos. Mas, contra as indústrias fundamentais, os interessados em que continuemos subdesenvolvidos, dependentes, inventam os maiores absurdos. Dizem, por exemplo que vamos destruir a fauna do rio e do mar. Não há nada disso. Teremos tubulações submarinas que levarão os rejeitos poluidores para lançá-los vários quilómetros adiante, onde já não oferecem nenhum perigo. Mandei preparar uma pasta onde todo esse problema da soi-disant terrível poluição da indústria de dióxido de titânio é completamente esclarecido, colocado nos devidos termos. Assim você ficará preparado para desmascarar os embusteiros e esclarecer os que se deixam enganar, todos os que tentam impedir o progresso agitando o fantasma da poluição. São Paulo não passaria hoje de uma reles capital de província, se essa gente pudesse impor sua opinião. Você viu o Centro Industrial de Aratu. Que batalha, meu amigo, contra os imbecis! Por detrás dos imbecis, movendo os cordéis, os inimigos do Brasil – Não esclareceu quais, não tendo ainda tomado o pulso político de Ascânio. Assim se fosse de direita, pensaria na União Soviética, se fosse de esquerda, nos Estados Unidos.

O telefone soa, é Bety, do outro lado. O Magnífico doutor ouve, desliga:

- Tenho de ir ao enterro do juiz. Não tenho jeito, vê a que você me obriga? – Ri, cordial: - Amanhã terminaremos esta nossa conversa. No hotel, na minha suite, onde ninguém irá nos incomodar.

Ascânio abre a boca para falar, vacila, doutor Mirko o anima:

- Alguma coisa? Pode dizer, não se constranja – No fundo do peito uma esperança: quem sabe ele vai pedir dinheiro?

Ascânio aponta o desenho sobre a mesa, maravilhosa visão do futuro:

- Se eu pudesse levar este trabalho para Agreste, seria óptimo. No jornal mural que coloquei na Prefeitura tem um desenho de Lindolfo mas este aqui é um quadro, uma obra de arte, um monumento!

Bety é convocada por telefone: venha e traga Rufo. Assim Ascânio não reviu apenas a ruiva de mecha agora azul, reencontrou também o mancebo de cabeleira à Jesus Cristo, autor do desenho. Caloroso, felicitou-o, o senhor é um grande artista e agradeceu-lhe em nome de Agreste.

No dia seguinte, promete o Magnífico Doutor, ele receberá no hotel, junto com a documentação, a obra-prima devidamente acondicionada em tubo adequado.

Para o jantar Nilsa escolheu um restaurante situado no solar do Unhão, lugar belíssimo junto ao Museu de Arte Moderna, no qual se realizava o concorrido vernissage de uma exposição de fotos, gravuras, quadros, objectos; o pátio repleto de automóveis.

Quando terminaram de comer, Nilsa o levou a visitar a mostra, Ascânio sente um choque, o que é isso? Esperava ver paisagens, nus artísticos, naturezas mortas, pinturas bonitas, arregala os olhos diante de fotos absurdas, imorais, gravuras representando igrejas deformadas e umas maluquices feitas com pedaços de objectos inúteis, parece mais um bric-à-brac: até uma latrina fora usada pelo artista. Artista? Sim, confirma Nilsa, é renomado, gozando do maior prestígio não apenas na Bahia, no país inteiro, com certeza ele já ouvira falar de Juarez Paraíso.

Nilsa o aponta, cercado de gente a felicitá-lo, mulato alto, de barbas, em frente ao cartaz da exposição: a foto de imensa bunda nua de mulher, que coisa!

- Espie aquele ali, junto do banqueiro Celestino. É Caribe, vive dando entrevistas nos jornais contra a Brastânio, falando misérias. Mas que é um coroa enxuto, isso ele é. Só pinta negras.

Acompanha-o até ao hotel, na porta deserta pendura-se no pescoço de Ascânio, despede-se com um chupão daqueles:

- Não fico porque não posso chegar em casa tarde e já passa das dez. Meus pais são muito severos, vivo num torniquete.

Num torniquete. Outros são os valores das palavras, Ascânio dá-se conta. Severidade, arte, noivado. Outros valores, outro mundo em cuja porta se encontra, pronto para atravessá-la com o pé direito. Por que aquela sensação incómoda, aquele sentimento obscuro, a persistir? Como senão entrasse pelos seus próprios pés, como se estivesse sendo conduzido. No quarto vazio deplora a ausência de Nilsa, em seus grandes seios encontraria segurança. O telefone soa:

- Alô!

- Amor?

- Aqui, Ascânio Trindade.

- Por que não veio falar comigo na exposição, amor?

- Reconhece a voz em desmaio de Bety, Bebé para os íntimos:

- Não vi, me desculpe. Posso lhe servir alguma coisa?

- Pode, sim, amor. Estou falando da portaria e vou subir. Deixe a porta aberta.


quinta-feira, setembro 17, 2009

VÍDEO

Observe o Tráfego Aéreo em Todo o Mundo

video

RUI VELOSO - ANEL DE RUBI



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 235



Devo acrescentar que me bati por sua terra, gostei muito de Agreste, especialmente da praia. Outros centros, dotados de maior infra – estruturas, tentaram ganhar nossa preferência, oferecendo vantagens diversas, inclusivé isenção de impostos. Não é o que nos interessa. Sendo uma empresa pioneira, a Brastânio preferiu uma zona mais distante, desamparada até agora, da qual seremos a alavanca do progresso. Como você disse muito bem: a Brastânio será a redenção de Agreste. Custa-nos mais dinheiro porém atingimos o nosso maior objectivo: servir.

Toca o botão de uma campainha, em cima da mesa, levanta-se, vem até Ascânio, estende-lhe a mão:

- Em sua qualidade de prefeito, ou de representante do prefeito do município de Sant’Ana do Agreste, receba minhas calorosas felicitações.

Ascânio põe-se de pé, o aperto de mão parece-lhe insuficiente, parte para o abraço. Bety surge, seguida pelo boi: bandeja de acrílico, vermelha, taças de cristal, escura garrafa de champanha. Vendo apenas taças, o Magnífico ordena uma terceira, corre o boi a buscá-la. Enquanto desarrolha a garrafa, com extremo cuidado, quase devoção, doutor Mirko, em seu elemento, esclarece:

- Don Perignon. Conhece certamente…

Teve vontade de dizer que sim, mas confessa:

- Não, dessa nunca bebi. Uma vez provei uma chamada… Viúva…

- Veuve Clicquot.

A rolha salta no festivo ruído habitual, o Magnífico serve, entrega uma taça a Bety.

- Ela e eu fomos os primeiros a pisar em Agreste. Os descobridores.

- Houve quem pensasse que fossem marcianos, gente do espaço – conta Ascânio.

Riem, recordando o assombro do povo de Agreste. Bety tem boa memória:

- O lindo me perguntou se eu era marciana ou polaca. Uma graça.

- Boa gente – conclui doutor Mirko, erguendo a taça – Bebo à prosperidade de Agreste e do homem valoroso que comanda seu destino, meu amigo Ascânio Trindade. Tchim – Tchim.

Tocam-se as taças no brinde, sons de cristal. Assim é o riso de Leonora. Ela ficaria orgulhosa se estivesse ali, naquele momento, e modularia o verso do poema renegado de Barbozinha: Ascânio Trindade, capitão da aurora. Bety se aproxima e o beija nas faces: parabéns, amor. Depois, retira-se.

Doutor Mirko volta a servir, senta-se na borda da mesa, faz sinal para que Ascânio se acomode na cadeira. Expõe ideias e planos:

- Queremos que, quando entrarmos com nossa proposição, você já esteja eleito, se possível. Tratamos de apressar a data da eleição, doutor Bardi interessou-se pessoalmente, o Tribunal Eleitoral colocou em pauta, ontem doutor Bardi falou com amigos em São Paulo, por telefone, para garantir que a resolução fosse tomada sem falta na sessão de hoje – o Tribunal se reúne uma vez por semana. Tudo certo, tudo OK. Pois não é que o juiz presidente resolveu ter um enfarte hoje de manhã e capotar? Resultado: não há sessão hoje, agora só na próxima semana. Mas, viagem descansado: daqui a oito dias teremos a data.

Serve novamente com delicadeza; o champanha lhe merece respeito e estima. Realmente aprecia e conhece:

- Bebo uísque quando estou em companhia de amigos, num bar, numa festa. Mas do que gosto mesmo é de champanhe – Jamais pronuncia champanha, parece-lhe um palavrão grosseiro – Como Rosalvo lhe adiantou, seguiu uma equipa de técnicos para Mangue Seco. Ao mesmo tempo estamos preparando toda a documentação necessária para requerer ao Governo do Estado e, em seguida, à Prefeitura do Agreste, a autorização para dar início às obras. Pensamos em recrutar trabalhadores em toda a região, inclusive em Sergipe. Em breve, receberemos os estudos para a rectificação e pavimentação da estrada que liga Agreste a Esplanada. Está tudo em marcha, mon
vieux.

BELEZAS DA NATUREZA

CANÇÕES BRASILEIRAS


MARIA BETÂNIA - COMEÇARIA TUDO OUTRA VEZ



REFLEXÕES





A história não se escreve duas vezes, em cada momento as opções, conscientes ou meramente fortuitas, marcam em definitivo o futuro.

É assim na vida dos homens e das mulheres e é assim na vida dos países.

Se aquela senhora, já de idade, que vai a passar no outro lado da rua tivesse casado com o outro namorado, aquele que foi o primeiro amor da sua juventude e com quem rompeu por causa daquela zanga estúpida e sem jeito, teria sido mais feliz?

Nas suas cogitações mais profundas ela gosta de pensar que sim, por vezes, agarra-se mesmo a essa hipótese, vive-a em sonhos porque sabe que a sua história nunca conhecerá versão diferente da que foi na realidade.

Também eu gosto de cogitar sobre o que teria sido a vida dos portugueses e a minha própria, se à saída da 2ª G.G. Mundial o meu país não estivesse casado com Salazar tendo como companheira, na Península Ibérica, a Espanha casada com Franco.

Mas quando eu penso no que poderia ter sido a vida dos portugueses fora daquele casamento não só tenho a certeza de que teria sido diferente como, igualmente, teria sido melhor.

Um dia, Salazar, foi de férias à sua terra natal e um seu vizinho e amigo de infância contou-lhe com orgulho que o filho conseguira comprar um tractor e que, futuramente, o amanho das terras seria melhor e mais fácil, ao que o ditador reagiu dizendo-lhe que isso não era bom, o que ele queria era fugir ao trabalho que o pai e os avós sempre fizeram.

Este pequeno episódio, revelador do pensamento e do carácter daquele homem, não deixa qualquer dúvida de que o nosso futuro teria sido diferente, para melhor, fora daquele casamento.

Parece, às vezes, que certas coisas nada têm a ver com as outras mas na vida dos homens, tal como na natureza, tudo tem a ver com tudo, tudo está interligado e interdependente.

Um mau casamento pode fazer com que, quem tenha nascido doce morra azedo mesmo que, ou talvez por isso mesmo, nunca tenha emitido um grito de descontentamento ou de revolta.

Os portugueses saíram do casamento com Salazar pior do que eram, por muitas toneladas de ouro que ele tivesse deixado no Banco de Portugal.

As personalidades e os comportamentos são moldáveis, há até quem tenha dito que ao nascer somos como que páginas em branco nas quais alguém, posteriormente, irá escrever, o que eu acho ser um nítido exagero especialmente depois de conhecer a minha neta que fez agora 4 anos.

Mas não tenho dúvidas de que o pensamento de Salazar, difundido e propagandeado ao longo de 40 anos pela competentíssima máquina de apoio à sua pessoa e à sua política, deixou marcas profundas, especialmente visíveis após o 25 de Abril.

Perdidas as grilhetas parecíamos um barco à deriva, um órfão à procura de um pai, abríamos a boca de espanto e fixávamos o olhar admirado em todo aquele que de cima de um púlpito improvisado arengava às massas e gritávamos, gritávamos muito, em desfiles e reuniões como se nos quiséssemos vingar pelo silencio de tantos anos.

No entanto, as pessoas apenas queriam ser felizes e ao gritarem todos aqueles chavões demonstravam que não sabiam o caminho e estavam desorientadas.

Salazar, se pudesse ter observado do seu túmulo todas aquelas cenas em que foi pródigo o pós 25 de Abril teria pensado, mais uma vez erradamente, que afinal era ele que tinha razão.

A impreparação para viver em liberdade, para assumir de forma competente e responsável o futuro, as dificuldades para impedir assaltos ao poder por novos candidatos ao lugar do ditador, tudo isso foi uma consequência de 40 anos em que aos portugueses foi coarctada uma vida normal porque sem liberdade democrática a vida não é normal e os cidadãos também não o podem ser.


E a este propósito, reafirmemos o nosso obrigado a Mário Soares que se bateu e ganhou a sua luta pela liberdade dentro da democracia.

Tivesse ele perdido na Fonte Luminosa a marcha pela liberdade e a favor da democracia e anos mais tarde não tivesse concretizado a decisão, já afirmada no seu discurso proferido no Porto, na cimeira dos Partidos Socialistas Europeus, em 1976, de integrar Portugal na Comunidade Europeia, e tudo se teria complicado ainda mais para os portugueses.

E agora, cá estamos nós, em 2009, com a crise, o desemprego e as dificuldades…sempre as dificuldades, e logo alguns saudosistas do passado são capazes de pensar que com Salazar esta bagunça nunca aconteceria porque para essas pessoas liberdade é sinónimo de bagunça.

Eu não penso assim e sou de opinião de que se os portugueses têm a dívida que têm o melhor a fazer é começarem a pagá-la de forma a diminui-la embora, o ideal, era não terem permitido que ela tivesse chegado ao ponto a que chegou e aqui, provavelmente, estaremos a bater no ponto.

Mas a extrema dependência do petróleo que infelizmente não temos e os preços exorbitantes a que recentemente chegaram, ano após ano, foram agravando a dívida e o investimento em energias alternativas, verdadeira solução para um problema estrutural, só foi bandeira e levado a sério no governo de Sócrates.

Falar de disciplina do consumo num momento em que mais de um milhão de portugueses vive dependente de pensões ou outros rendimentos tão baixos, parece mesmo falta de sensibilidade social mas eu pergunto-me se, apesar de tudo, esta situação não é melhor do que aquela que existia no tempo da minha juventude em que nem sequer havia pensões.

A diferença estará na estrutura da sociedade que por um lado perdeu a sua ligação à terra, vivida nas aldeias e pequenos lugares que povoavam todo o país e em simultâneo, a família alargada, solidária, que se desfez com o êxodo para as cidades dando lugar às pequenas famílias.

Alterou-se, em definitivo, a forma de viver e também aqui foram as pessoas da minha geração que mais sofreram os traumas dessas mudanças.

As pessoas que como eu nasceram ainda fora da sociedade de consumo lembram-se perfeitamente de como era possível viver bem e ser-se feliz quando as prateleiras das lojas não ostentavam mais que 10 ou 20% da quantidade e variedade de bens e produtos que hoje temos à nossa disposição, muitos deles inutilidades que nem sequer sabemos para que servem.

Mas, também é preciso reconhecer, que foi esta mesma sociedade de consumo que gostamos de condenar que criou riqueza e milhões de empregos por todo o mundo.

Estudei economia como disciplina acessória e enriquecedora do meu Curso mas, por me ter sido dada por um excepcional professor, Alfredo de Sousa, infelizmente estúpida e prematuramente desaparecido por atropelamento quando atravessava a rua numa passadeira de peões, os seus ensinamentos ainda hoje recordo.

Lembro-me que, da mesma forma que há produtos que se destinam a satisfazer necessidades já existentes, outros há que visam satisfazer necessidades que eles próprios irão procurar criar.

O exemplo que nos dava eram sapatos, sapatos que tinham molas e permitiam que as pessoas se deslocassem aos saltos.

A nova necessidade era “andar aos saltos” e para a satisfazer ali estava o produto indicado “ o sapato equipado com molas”.

Este exemplo, meramente académico, (atenção que já vemos sapatilhas com rodas e jovens que sobre elas, com toda a destreza, tanto andam com rolam) velho de 45 anos, dá-nos a ideia de que é possível endividarmo-nos para satisfazer uma necessidade que nem sequer existe.

Hoje em dia são cada vez mais os produtos que procuram criar as suas necessidades, especialmente no campo das novas tecnologias, mas como nem sempre é fácil descobrir novas necessidades, partiu-se então para os artigos “de marca” que se completam com os “da moda”, para não falar das lojas grumete e dos produtos biológicos que satisfazem necessidades já preenchidas mas têm aquilo que os outros produtos não têm: estatuto, qualidade, o dom de serem preferidos por pessoas que invejamos, com as quais gostamos de nos parecer, pessoas que nos são apresentadas como de referencia porque as vemos em todo o lado e sabemos quase tudo das suas vidas.

Um dos princípios da sociedade de consumo é o de que ele, o consumo, é a chave para a felicidade e através dele, sem qualquer esforço de outro tipo, auto promovemo-nos, melhoramos a nossa imagem, não só aos nossos próprios olhos como, principalmente, aos olhos dos outros.

Tive esta lição comigo próprio quando comprei, há muitos anos, o meu primeiro automóvel.

Lembro-me bem de qual era o meu estado de espírito quando viajei para Lisboa para levantar no Stand o meu Renault 8S, todo amarelinho, com 4 faróis, 1100 cm de cilindrada e, vejam lá, carburador de Corpo Duplo!

Não foi num automóvel mas em felicidade pura que regressei a casa pela auto-estrada Lisboa-Porto que terminava em Vila Franca de Xira.

A pouco e pouco, com o tempo, aprendi que afinal não passava de um meio de transporte que se transformaria numa inestética sucata caso chocasse com ele contra uma das numerosas árvores que ladeiam a estrada para Almeirim.

A felicidade que se obtém através de certo consumo é uma fraude em que todos podemos incorrer mas perigoso, perigoso, será não nos apercebermos disso e insistirmos no erro uma vida inteira.

A felicidade ou a sua procura tem outros caminhos que não os do consumo, não vão dar a nenhum Stand nem à porta de nenhuma loja por mais chique que ela seja, seria demasiado fácil se assim fosse, como as pessoas ricas poderão confirmar em momento de sinceridade.

Pior ainda, é que não temos nenhuma receita para lá chegar e a sua procura faz-se dento de cada um de nós, com equilíbrio, ponderação e bom senso.

E se me permitem um conselho, uma pista, um palpite, o que quiserem chamar-lhe, procurem-na no amor, apostem mais nele, mesmo correndo algum risco. A vida, ela própria, não será um risco?

Acreditem que na velhice o que mais recordamos foi quem amámos e mesmo as coisas que amámos e o que lamentamos foi o que ficou por amar.

quarta-feira, setembro 16, 2009

DEOLINDA - FON FON FON


CANÇÔES BRASILEIRAS

GILLIARD - AQUELA NUVEM


STAND BY ME - PLAYING FOR CHANCE - SONG AROUND THE WORLD



BELEZAS DA NATUREZA




TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 234







TERCEIRO EPISÓDIO DA ESTADA DE ASCÂNIO TRINDADE NA CAPITAL OU DA FORMAÇÂO DE UM DIRIGENTE A SERVIÇO DO PROGRESSO: ELEIÇÕES, TRIBUNAL, INIMIGOS DO BRASIL; AGENTES ESTRANGEIROS, ARTE E BETY, BEBÉ PARA OS ÍNTIMOS




Na sede da Brastânio, espectacular, um andar inteiro num dos modernos edifícios da cidade da Baixa, temperatura primaveril, uma deusa de peruca na mesa telefónica, Ascânio Trindade renova antigo conhecimento: Elizabeth Valadares, Bety para os amigos. Quando a deusa grega, tendo anunciado sua presença, indicou-lhe uma cadeira, ele não chegou a ocupá-la pois imediatamente Bety surgiu numa das portas. Demonstrando memória e eficiência, ela o recebe com efusiva simpatia:

- Alô, amor! Estou feliz de vê-lo aqui em nossa modesta tenda de trabalho. Venha comigo o doutor o espera. E o lindo como vai?

- O lindo?

- O varapau, aquele engraçado. Charmoso como ele só.

- Ah!, Osnar. Vai se roer de inveja quando souber que estive com você.

- Diga-lhe que mando um beijo e morro de saudades – Fez um sinal a Nilsa ordenando-lhe esperar ali mesmo.

Sobre uma mesa de vidro, na sala do doutor Mirko Stefano, estende-se um grande desenho a cores, Ascânio reconhece a paisagem de Mangue Seco, as dunas, a foz do rio e o coqueiral. Parte do coqueiral desaparecera, substituído por imponente conjunto industrial, altas construções, da chaminé se eleva reduzida e alva fumaça. Entre a fábrica e as dunas, umas duas dúzias de residências amplas, com varandas e jardins, para os administradores, engenheiros e técnicos.

Do outro lado, na direcção de Agreste, uma pequena cidade, centenas de casas alegres, conjugadas duas a duas, todas iguais, moradias para os trabalhadores. Um ancoradouro moderníssimo, quase um porto, com grandes lanchas a motor. Deslumbra-se Ascânio com aquela visão do futuro. A voz afectada do Magnífico o traz de volta ao presente.

- Está vendo essa casa separada de todas, a mais perto da praia? É a minha. Aí irei descansar quando tiver tempo para o lazer. Adoro Mangue Seco é o local mais lindo do mundo. Vai continuar a ser o mais bonito, sendo, igualmente, um centro de riqueza. C’est ça.

Senta-se à mesa de trabalho, aponta uma cadeira a Ascânio, em frente. Esfrega as mãos uma na outra, satisfeito:

- Pedi que viesse até salvador para lhe transmitir pessoalmente a grande notícia, meu caro Ascânio. Permita que o trate por você, abandonando a cerimónia.

- Pois não, doutor Mirko.

- Nem doutor, nem senhor. Seu amigo Mirko Stefano, seu admirador. Mas vamos à notícia auspiciosa: a Brastânio decidiu em definitivo instalar em Sant’Ana do Agreste sua indústria de dióxido de titânio que, como você sabe, é uma das mais importantes de quantas foram projectadas e criadas no país, nos últimos anos. Do ponto de vista do desenvolvimento nacional e da economia de divisas. Uma indústria benemérita. Benemérita!

A voz amaneirada faz-se categórica, a afirmação é uma resposta, esmaga dúvidas, ataques, condenação.

A decisão foi tomada na direcção de directoria que só terminou ontem ao fim da tarde. Mas como eu sabia por antecipação qual o resultado, apressei-me em pedir que viesse para conversarmos, acertarmos os nossos relógios, c’est bien nécessaire. Confio que a espera não lhe tenha sido pesada.

Ao contrário, muito agradável. Só tenho a lhe agradecer.

- Rien mon cher. Tornaremos pública nossa decisão em poucos dias. Apenas terminemos uns últimos trâmites junto aos poderes estaduais, dos quais o doutor Lucena está se ocupando, nos dirigiremos à Prefeitura de Agreste para dar conta oficialmente de nosso projecto e
obter a necessária autorização.

terça-feira, setembro 15, 2009

VÍDEO

Tem truque, veja se descobre.

video

OS PANTERAS - LÁ VAI A CARROÇA


CANÇÕES BRASILEIRAS

RITA LEE - BANHO DE ESPUMA

IMAGEM
MARAVILHAS DA NATUREZA


RUI VELOSO - PORTO SENTIDO

IMAGEM
No Aconchego dos Afectos da Mãe


TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 233




Não tomam o rumo habitual da barra onde a arrebentação, mesmo quando muito forte em dias assim de mau tempo, não oferece maior perigo além do susto. Embicam em direcção aos vagalhões, na esteira do contrabando.

Fazem esse caminho nas noites de tráfico e o fizeram também conduzindo polícias de punhos atados. Um polícia perdera a cabeça de tanto medo, se soltara das mãos que tentaram retê-lo e se atirara à água, os tubarões o estraçalharam num minuto; o sangue durou pouco varrido pelas vagas. Por isso Jonas mandara amarrar os homens uns aos outros em dois grupos, um em cada lancha, e colocou as quatro mulheres sob a ameaça do bastão de Tieta:

-Não se movam cabritas, senão o pau vai cantar.

Nas lanchas ouvem-se gritos, choros, pedidos de socorro, de piedade pelo amor de Deus. Indiferentes os pescadores penetram por entre as ondas descomunais, atravessam no espaço mínimo onde elas se alteiam imensas e se rebentam furiosas contra as dunas. Encharcados, chegam com as embarcações onde só mesmo eles, os ali nascidos e criados, conseguem chegar. Eles e os tubarões.

Erguem os remos, silenciam os motores, estacionam na porta da morte. Lanchas e saveiros rodopiam, sobem e descem, ameaçam virar, emborcar, soçobrar, a duras penas os pescadores mantêm os lemes e o precário equilíbrio.

Os vagalhões tentam atirar os barcos contra as montanhas de areia. Estão diante da morte. Da morte multiplicada, pois os vultos de chumbo se aproximam, sombras sob a água revolta.

De repente um deles salta, não tem tamanho tão grande, eleva-se no ar, a dois metros da lancha comandada por Isaías. Um grito uníssono e o choro das mulheres. Saltam mais três, juntos, e mais dois e outro mais, quantos serão? Abertas em fome as bocas monstruosas, exibindo os dentes pontiagudos, ávidos, sinistros. Jonas é coto de um braço, não precisa contar como o perdeu, todos se dão conta. Ouvem e sentem o baque dos tubarões contra o costado das lanchas. Quanto tempo demoram ali, diante da morte, face a face? Talvez apenas uns minutos, foi uma eternidade, espaço de tempo de pavor abissal.

Kátia grita para o marido: quero morrer contigo e desmaia nos braços de Tieta. Vários vomitaram e pelo menos dois fizeram feio, se borraram. Mesmo os mais valentes entenderam.

Lanchas e saveiros novamente em marcha, rompem os vagalhões, rumam para o largo, os tubarões os acompanham durante certo trecho, ainda na esperança; depois se vão. A chuva cai, começa a lavar o céu. Antes de devolver o comando da lancha e embarcar no saveiro, Jonas eleva a voz mansa e terminante de profeta pobre:

- Não voltem nunca mais e avisem os outros.

A chuva lavou completamente o céu, amansou as ondas, a noite desce leve e cálida, noite para conversa sem compromisso, boas recordações e festejos.

Reunidos em torno às choupanas, sentados na areia, emborcam uns tragos de cachaça. Não se referem ao acontecido, como se nada se houvesse se passado. Apenas o engenheiro ri sozinho; contente, fortalecido em sua confiança nas massas: por um momento duvidara.

Daniel traz a harmónica, Budião é bom de bola e bom de dança; exibe-se com Zilda, sua prometida nos passos do xaxado. O engenheiro rodopia com Marta. Pena seminarista não poder dançar, besteira, não é? Ricardo fita o céu, limpo de nuvens, pontilhado de estrelas: os caminhos do mundo estão abertos à sua frente, sabe do mal e do bem, atravessou a maldição e aprendeu a desejar. Ao lado de Tieta, atento à conversa com Jonas, sente o chamado que dela se evola e o cerca, exigente. Talvez por lhe restar pouco tempo em Agreste, pois partirá após a inauguração da luz nova, a tia o quer junto a ela, em permanência, noite e dia.

Jonas e Tieta recordam tempos passados. Histórias de conflito com a polícia, detalhes, nomes, a valentia do mascate, lembra-se dele, dona Tieta? Era um macho. Na sombra dos cômoros, Tieta enxerga a figura de mascate, aspira na maresia seu cheiro forte de cebola e alho. Morrera de
bala, na Vila de Santa Luzia, enfrentando os soldados.

segunda-feira, setembro 14, 2009

MÚSICA À VOLTA DO MUNDO - UM CONVITE À PAZ
(amplie a imagem)


ESPETÁCULO SOBRE PISTA DE GELO

video

ALCIONE - MEU VÍCIO É VOCÊ



Fernando Pessoa





Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se casar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser,
Viverei fugindo
Mas vivo a valer

LUÍS MIGUEL - SABOR A MI


BELEZAS DA NATUREZA



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 232



Exceptuando o fulano que fora convocar carregadores, os demais funcionários da Brastânio não chegaram a desembarcar. Formavam um grupo relativamente numeroso, umas vinte pessoas, entre as quais quatro mulheres: uma cartógrafa, duas secretárias e a esposa do chefe da equipe, robusta e romântica senhora ciumentíssima, que se incorporara à caravana para não deixar o marido à mercê das secretárias, umas sirigaitas, e no desejo de tomar banho do mar em Mangue Seco. Desejo generalizado. Especialistas bem remunerados, técnicos competentes, vinham todos na doce esperança de unir o útil ao agradável: nas folgas do trabalho, o lazer da praia cuja fama corre na Companhia levada pelos que ali estiveram antes para os estudos preliminares. Passado o susto da travessia da barra, encontram-se animados e alegres.

- Quando fizer sol, vai ser um esplendor! – exclama feliz, Kátia, a esposa.

Jamais se viu no mundo pessoas tão assombradas. A princípio não se dão conta exacta do significado do que está acontecendo. A primeira visão foi surrealista: de longe, por entre coqueiros, surge correndo uma mulher vestida de calça e capa de borracha negra, dessas de marinheiro, na mão um cajado longo. Não ouvem o que ela grita, devido ao vento, mas sentem no bastão erguido um gesto de ameaça. Seguem-na um padre e um tipo de barbas. Em seguida os pescadores: velhos, moços e meninos. Logo depois a surpresa transformou-se em medo, susto sem tamanho.

Na praia, dando um balanço nas lanchas, contando as quatro mulheres, Jonas decide trazer Tieta:

- Venha com a gente, dona Tieta. Não tenha medo.

- Está-me desconhecendo, Jonas?

- Me desculpe, não falei por mal.

Ricardo vai seguir a tia, o engenheiro também. Jonas impede:

- Vocês são dois, não – Explica ao engenheiro: - Seu Modesto, se vier a saber, vai ficar fulo, doutor Pedro. É melhor que o senhor espere aqui, a gente cuida de tudo – Diz a Ricardo: - O que nós vamos fazer não é do agrado de Deus, meu padrezinho – Não propõe, ordena; nem parece o mesmo Jonas bonacheirão, caçoando com o seminarista na travessia para o arraial.

Pedro concorda, afasta-se. Por amor a Marta e aos filhos, quer viver em paz com o sogro. Mas Ricardo, replica, a voz tão firme quanto a de Jonas:

- Quem lhe disse que não é do agrado de Deus? Deus lança o raio quando é preciso. Quem mais vai sou eu.

Jonas coça a barba:

- Pois venha mas depois não se queixe. Quem sabe, assim tu vai acabar sendo um bom padre-mestre.

Embarcam nos saveiros, alguns levam rolos de corda. Aproximam-se das lanchas, saltam na agua, sujeitam passageiros e tripulação – dois marinheiros em cada lancha – numa rapidez inacreditável para quem os viu somente na praia, na indolência, e ignora as travessias nocturnas, aproveitam-se da surpresa, não chega a haver luta tal o susto e o medo. Jonas assume o comando de uma das lanchas, Isaías o da outra.


- Todas as mulheres, nessa lancha aqui: - ordena Jonas: - dona Tieta, fique de olho nelas. Ricardo venha comigo.

As cordas servem para amarrar os pulsos dos homens, ligá-los uns aos outros, em duas fileiras, uma em cada lancha. Siderados, os funcionários da Brastânio protestam, reclamam, exigem explicações. Perguntas inúteis, inúteis os argumentos, as razões, as ameaças. Ninguém parece ouvir. Apenas um jovem técnico em electrónica, de olho numa das secretárias, tenta passar das palavras aos actos, demonstrar bravura para impressionar a moça: investe contra Isaías. É contido por Budião e pelo ponta esquerda Samu (ruim de drible mas dono de um chuto indefensável, um canhoto) e amarrado aos outros. São levados para os passadiços onde ficam sob a guarda do pessoal mais jovem. Precisam de sentir e ver bem de perto. Jonas dá o sinal de partida, as lanchas se movimentam lentamente, os saveiros acompanham.

CANÇÕES SERTANEJAS
AGNALDO RAYOL - CHRISTIAN E RALF - MIA GIOCONDA


domingo, setembro 13, 2009

RAÚL SOLNADO - O CABELEREIRO

BELEZAS DA NATUREZA


ALEXANDRO SANZ - CORAZON PARTIDO



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 231





Vieram em duas potentes lanchas, moderníssimas, traziam de um tudo, desde cinco grandes barracas de campanha até abundante lataria, fartura de comestíveis, de água mineral e refrigerantes, colares do Mercado Modelo para presentes ao gentio. Apesar do cansaço e do nervosismo, mesmo em condições atmosféricas tão desagradáveis, ao se encontrarem ante a paisagem de Mangue Seco, a visão dos altos cômoros enfrentando a fúria do oceano, a imensidão da praia estendendo-se de lado a lado da península, o coqueiral prolongando-se nas margens do rio, a perder de vista, sentiram-se pequenos e consideraram que pagara a pena vir. O céu coberto ameaçava chuva.

Parados os motores, as lanchas permanecem a certa distância da praia. Um dos passageiros salta na água que lhe bate na cintura, anda, chega ao chão de areia, dirige-se às choupanas de roncos e palmas de coqueiro, meio soterradas, propõe a Isaías ocupado a remendar uma vela rota no temporal da outra noite:

- Ho! Você aí! Você e os outros – Os outros estão muito ocupados em não fazer nada, conversam sentados numa roda larga, picam fumo, cachibam: - Venham todos ajudar a desembarcar umas coisas. Depressa.

Isaías olha, não responde. O velho Jonas levanta-se, pergunta:

- O moço é da fábrica?

Quase arrastado pelo vento mas vaidoso da sua condição, o galhardo concorda e reclama:

- Somos da Brastânio, sim. O que fazem aí parados? Vamos, dêem-se pressa.

Jonas examina as duas lanchas ancoradas próximas à praia, joguetes na maré bravia, calcula o número de passageiros, as mulheres quantas serão? Mulher é um perigo. O velho pescador coça a barba rala. Recorda outras ocasiões, quando a polícia ainda se atrevia. Em geral, em começo de governo, os políticos roncando honradez, agitando a lei: vamos acabar de vez com o contrabando! Faz tempo que desistiram. Também onde encontrar soldados ou secretas dispostos a vir a Mangue Seco?

Método usado apenas em último recurso, há muito não o utilizam, por desnecessário. Os mais jovens sabem somente de ouvir dizer, vão se divertir. Quem gostava era o Mascate, participara em mais de uma expedição.

Isaías, prepare os barcos. Daniel, reúna o povo. Budião vá correndo avisar dona Tieta, diga que eles já chegaram. Fale também com Cardo e com o engenheiro. Não demore que o homem está com pressa – Volta-se para o emissário dos viajantes: - Vá indo que a gente já vai.

Enquanto observa o homem da Brastânio marchando curvado contra o vento, felicita-se pela ausência do Comandante, ocupado em Agreste. Um amigão o Comandante Dário. Fecha os olhos para as nocturnas e clandestinas incursões, simula ignorar a presença de escunas, cargueiros e lanchas, o transporte da muamba. Apesar, no entanto, de intransigente má vontade demonstrada para com a tal fábrica de veneno e a amizade que dedica ao povo de Mangue Seco, ainda assim talvez se opusesse à operação projectada, criando um problema dos demónios.

Não a praticam desde o acontecido com o sargento; nunca mais a polícia voltara, ainda bem. Agora tornou-se novamente indispensável, mas quando a decidiram Jonas recomendou a todos o maior cuidado. Tieta, o estudante de padre e o engenheiro ficarão na praia, não é coisa para eles.

Nem sequer para Tieta, tão disposta. Quando Jonas era o mais jovem dos três chefes, havia muitos e muitos anos, molecota atrevida, pastora de cabras nos outeiros de Agreste, Tieta costumava aparecer na praia, subindo os cômoros, sempre acompanhada, namoradeira como ela só; também uma boniteza daquelas, tinha que ser. Em São Paulo dobrou a boniteza, se enfeitou, virou um pancadão, um pedaço de mulher. Antigamente, mocinha, andava sempre em companhia de homem feito., mais velho do que ela, agora está preparando o sobrinho para fazer dele um bom padre mestre, cumprindo assim com a sua obrigação de tia.

Uma vez, tendo vindo divertir-se na praia, coincidiu Tieta desembarcar no meio de uma briga feia: dois soldados, uns secretas e o delegado de Esplanada querendo apreender a mercadoria e encanar o velho receptador vindo de Estância.

O acompanhante de Tieta, um almofadinha, ao saltar e deparar com o fuzuê, perdeu a animação e a cor, ficou de cera, enfiou o fogo no rabo e capou o gato, correu para o bote, se tocou a toda, sozinho, largando a namorada, coisa mais triste! Tieta nem ligou, olhou e riu, ergueu o cajado de pastora e se juntou aos pescadores, ajudando-os a botar a polícia para correr. Baixou o bordão no delegado, sem respeitar nem o revólver nem o apito com que ele transmitia as ordens, uma novidade. Tieta não nascera em Mangue Seco mas merecia ter nascido. Quem sabe Jonas será obrigado a levá-la para que ela cuide das mulheres.

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