sábado, janeiro 01, 2011

No 1º Dia deste Ano de 2011 que tão ameaçador se apresenta aos portugueses, em vez de palavras uma canção de esperança... "A Conquista do Paraíso" por Dana Winner.



sexta-feira, dezembro 31, 2010

ZECA AGONSO - NATAL DOS SIMPLES
Despeço-me de 2010 com Zeca Afonso, "Natal dos Simples" e votos de um bom Ano Novo.



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS

Episódio Nº 308


Foi-lhe então mostrado o amplo local, e ele demorou-se (a pressa é inimiga da ciência) a estudá-lo: a cor, a solidez, a arquitectura, tudo em verdade de primeira. Zulmira ia deixando, risonha e encabulada: não era Cardosinho quase um puro espírito, liberto da vileza da matéria? Quase.

- Igual às montanhas de Marte, na conformação e nos abismos – revelou o geógrafo dos planetas.

Tendo saciado (em parte) a curiosidade por aquele território, e sabedor de detalhes referentes aos seios, pediu-lhe para ver tais maravilhas, as vertentes e os cumes, invocando para tanto razões estéticas, além das científicas. Habituada por Pelancchi ao culto do belo e da poesia, como recusar-se a súplica tão pertinaz quanto cortês, despida de qualquer resquício de safadeza, provinda de pessoa tão correcta? – perguntou-se Zulmira e consentiu.

Mestre Cardoso e Sª., respeitoso artista falara apenas em contemplar por um instante aquelas “obras-mestras do Supremo Artífice do Universo” mas, ao vê-las soltas, foi tão grande seu deleite estético que perdeu a cabeça de vez e por completo. Se ele, quase puro espírito imaterial, se entregou às intemperanças da matéria, como exigir de Zulmira frágil mortal, mais rígida conduta? Assim, nesse pedir e dar-se, sucedeu.

Ao demais, fosse Pelancchi Moulas realmente generoso, quisesse premiar como devido o esforço descomunal do astrólogo e alquimista a seu serviço, e daria Zulmira de presente a Cardoso e Sª., desobrigada de qualquer encargo ou compromisso para com o jogo e seu senhor, fosse de dactilografia ou de recreação, reservando-se Pelancchi apenas o grato prazer de assegurar as despesas (altas) da opulenta. Porque o Grande Capitão, cumprindo sua palavra, resolvera o problema do jogo, salvara a fortuna do calabrês, libertando-o do azar e daquela confusão de marcianos.

Uma coisa é certa e indiscutível, ao menos: naqueles dias aconteceu a deserção de Giovanni Guimarães, o último a se retirar.

O primeiro foi Anacreon. O velho patriarca, educador de gerações, homem de respeito e cãs, certa noite dirigiu seus passos para o covil de Paranaguá Ventura, e naquele centro de batota onde cada carta era marcada, de novo se sentiu um jogador. Porque o ganhar sem fim não era jogo, não era uma disputa entre ele e a sorte, uma batalha contra o banqueiro e a bola da roleta, contra a carta e o dado. Tomava da ficha, punha na carta, no número, recolhia o ganho. Que gosto tinha aquilo, mágica mais sem graça? Que fizera ele, Anacreon, o perfeito jogador, o pedagogo da roleta, para merecer o castigo dessa sorte irreversível?

Isso era ganhar, não era jogo. A emoção do jogo é o não saber, é o risco, a raiva de perder, a alegria de acertar, o ganho e a perda. É seguir a bola na bacia da roleta em seu giro louco e em seu imprevisível número de sorte, cada vez um número diferente. Quando repetia, por acaso, que emoção! Agora Anacreon nem olhava para a bola, ela ia obediente cair no número onde ele a depositara as fichas. E as cartas dos baralhos? E os dados? Que crime cometera para merecer castigo assim?

O velho Anacreon era feito de uma peça só, de honestidade e de decência, um jogador com o prazer do jogo, o prazer de não saber, de arriscar. Agora não corria risco, sabendo mesmo antes do começo. Uma vergonha.

Arrebanhou os cobres fáceis e lá se foi ao encontro de Paranaguá Ventura:

- Isso aqui – disse-lhe o negro – não é o casino do Pelancchi, não me venha com farromba.

INFORMAÇÂO ADICIONAL À ENTREVISTA Nº76 SOB O TEMA:
“EVANGELIZAÇÃO DA AMÉRICA” (4)


Os que Evangelizaram


Num processo tão prolongado e complexo como o da conquista e colonização da América houve também verdadeiros cristãos que no meio dos horrores da escravatura dos índios e da codícia dos conquistadores lutaram por uma realidade mais de acordo com a justiça do Evangelho.

E o mais emblemático de todos eles foi o religioso dominicano Frei Bartolomeu das Casas, que chegou à América com 28 anos, no início da Conquista e ainda recebeu ofertas de terras em Cuba e os correspondentes escravos índios mas renunciou a todos estes privilégios, tomou consciência do anti-cristianismo do sistema que servia e decidiu converter-se num apaixonado defensor dos índios.

Las Casas cruzou catorze vezes o Atlântico viajando entre a América e a Espanha para denunciar na Metrópole o que se passava nas Índias e para refutar o menosprezo e o desprezo a que os intelectuais da Península Ibérica expressavam contra os índios americanos com livros, cartas, sermões e projectos de pacificação. “Prefiro um índio sem ser baptizado mas vivo do que um índio cristão morto” exclamava ele.

A sua obra mais conhecida é “Brevíssima relação da destruição das Índias” dirigida ao futuro rei Felipe II. Nela relata os horrores da conquista, as torturas e os assassinatos, os atropelos e as humilhações que sofreram os povos originários daquele continente.

O esforço tenaz de Las Casas inspirou nova leis das Índias que davam certa protecção aos habitantes da América. Contudo, os desvelos de Las Casas levaram-no a sugerir a importação de escravos negros para substituir os índios convencido que estava que aqueles eram mais fortes.

Antes de morrer, tomou consciência do seu erro e arrependeu-se de ter promovido esta horrível alternativa.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

"Atenção, senhores passageiros, estamos a sobrevoar Lisboa onde iremos aterrar dentro de minutos. Esperamos que tenham feito uma boa viagem e esperamos vê-los brevemente."
(Este vídeo foi feito pelo comandante da TAP António Escarduça apaixonado pela fotografia e a imagem com o acesso privilegiado a uma excepcional janela sobre o mundo, o cockpit do A 330. Dizem os pilotos que é uma das mais bonitas aproximações do mundo.


VÍDEO

Esta aterragem não deu direito a palmas...

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ZECA AFONSO - PASTOR DE BENSAFRIM
Oiçam esta linda história do "pastor Florival, meu irmão de Bensafrim" terra muito antiga, no Concelho de Lagos, do conhecido Algarve, no sul de Portugal. Lá estiveram os homens antigos do tempo da Idade do Ferro, com os seus menires bem reconhecidos, mais tarde os Romanos com a sua Acrópole e, finalmente, os muçulmanos com as suas noras, poços e silos escavados na rocha. O pastor Florival apareceu mais tarde para ser cantado pelo Zeca:
"voa andorinha
voa minha irmã
não te vás embora
volta amanhã"

DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS

Episódio Nº 307


As carícias cresciam, os corpos se queimavam em labaredas:

- Depressa, meu bem, que é curta a nossa noite. Vamos depressa vadiar, daqui a pouco partirei para a perdição, que é meu destino e será a hora de meu colega em ti, meu sócio, meu irmão. Para mim tua ânsia, teu secreto desejo, teu chão de impudicícia, teu grito rouco. Para ele as sobras, as despesas, e o plantão, teu respeito grato, o lado nobre. Tudo perfeito, meu bem, eu, tu e ele, que mais desejas? O resto é engano e hipocrisia, porque ainda queres-te enganar?

Quase a tomá-la ainda lhe disse:

- Pensas que vim te desonrar e, no entanto, vim salvar tua honra. Se eu não viesse, eu, teu marido, com legais direitos, diz, minha Flor, fala a verdade, não te enganes: que iria suceder se eu não viesse? Vim impedir que tomasses um amante e arrastasses teu nome e tua honra pela lama.

(Nunca sequer pensaste, jamais admitiste sequer a ideia de um amante, mulher íntegra, viúva honesta, esposa honrada, fiel a seus maridos? E o que me dizes do Príncipe das Viúvas, Eduardo de Tal, também conhecido pelo Senhor dos Passos? Já não te lembras dele junto ao poste? Ficavas na fresta da janela, e se eu não envio Mirandão às pressas, sobre o meu luto darias de comer à peladinha, um jardim de chifres em minha cova.)

Sua voz celeste, sua apetência e gosto ardido de gengibre, de pimenta, de cebola crua e o sal da vida (e a verdade verdadeira).

Meu bem, agora esquece tudo, tudo é o tempo da vadiação, e tu bem sabes, Flor, que a vadiação é coisa santa, coisa de Deus, vamos, meu bem.

Vadinho mais embrulhão, Vadinho mais herege, Vadinho mais tirano, vamos depressa.



Com a cabeça reclinada nos seios de veludo e bronze de Zulmira Simões Fagundes, o místico Cardoso e Sª…

Cardoso e Sª? Sim, não se trata de engano ou erro, de troca de nomes, mas de real e (lastimavelmente) momentânea substituição de pessoas físicas. Não era Pelancchi Moulas, o rei do jogo, o imperador do bicho, patrão do governo e de Zulmira, quem se reclinava, no uso dos seus direitos privativos, sobre os seios da cabrocha, gozando do calor e do conforto de tais prendas. Quem o fazia, aliás com certo à vontade surpreendente, era o nosso sempre insólito Mestre do Absurdo e intrépido Capitão de Cosmos, esse quase puro espírito imaterial.

Como chegara Cardoso e Sª. àquelas alturas e grandezas? Pois, pedindo. Enquanto se empenhava na solução dos problemas de Pelancchi, frequentando-lhe os salões de jogo, em sucessivas conferências com os chefes marcianos (entrevistas, inclusivé com o Guia Genial, o tenebroso e benemérito ditador de Marte, até então inacessível a qualquer humano), foi pedindo a Zulmira, pedindo-lhe com insistência e adulação e a velha forma demonstrou mais uma vez sua eficácia.

Pedira, de começo, e por mera e meritória curiosidade científica, para ver aquelas marcas deixadas pelos invisíveis em “vossos magnos quadris de amazona”. Já não existiam marcas, respondia ela, apenas a lembrança. Mesmo assim, quis Cardoso e Sª. ver o lugar (estudar o fenómeno “in loco”), sem o que, impossível perfeito diagnóstico. A ciência é exacta.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

PARECE UM CORAL DE BRASILEIROS MAS... É DA FRIA E DISTANTE ESLOVÉNIA. ACREDITEM!!!



VÍDEO

É de cortar a respiração... será que ele sai dali vivo?...

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ZECA AFONSO - CANTIGAS DE MAIO
Na linha da canção de "Embalar" esta é uma das suas mais belas canções. Faz doer os corações mais sensíveis...é uma jóia do nosso património musical.


DONA

FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS



Episódio Nº 306


- Você está pálido e cansado, te acho magro. É que você não tem dormido, nessa vida de jogo e de orgia. Precisa de descansar, meu amor.

Isto ela lhe disse num intervalo de carícias lentas, após o embate de fogo e tempestade. Vadinho pálido, muito pálido, como se lhe fosse o sangue, mas sorridente:

- Cansado? Um pouquinho só. Mas tu não imagina como tenho rido às custas de Pelancchi. Daqui a pouco…

- Daqui a pouco? Você vai para o jogo? Não vai ficar comigo a noite toda?

- A nossa noite é agora. Depois, meu bem, é a vez de meu colega, o outro teu marido.

Dona Flor se encheu de brios, reformulando decisões dramáticas:

- Com ele nunca mais… Como ia poder? Nunca mais, Vadinho. Agora só nós dois, tu não vê logo?

Ele sorriu na maciota, no leito estirado a la godaça:

- Meu bem, não diga isso… Você adora ser fiel e séria, eu sei. Mas isso se acabou, para que se enganar? Nem só comigo, nem só com ele, com nós dois, minha Flor enganadeira. Ele também é teu marido, tem tanto direito quanto eu. Um bom sujeito este teu segundo, cada vez gosto mais dele… Aliás, quando cheguei, te avisei que a gente se ia dar bem, os três.

- Vadinho!

- O que é meu bem?

- Você não se importa que eu te ponha chifres com Teodoro?

- Chifres? – passou a mão na testa lívida – Não, não dá para nascer chifres. Eu e ele estamos empatados, meu bem, os dois temos direito, ambos casamos no padre e no juiz, não foi? Só que ele te gasta pouco, é um tolo. Nosso amor, meu bem, pode ser perjuro se quiseres, para ser ainda mais picante, mas é legal, e também o dele, com certidões e testemunhas, não é mesmo? Assim, se somos ambos teus maridos e com iguais direitos, quem engana a quem? Só tu, Flor, enganas aos dois, porque a ti, tu não te enganas mais.

- Engano os dois? A mim não me engano mais?

Gosto tanto de ti – oh! voz de celeste acento dentro dela a ressoar – com amor tamanho que para te ver e te tomar nos braços, rompi o não e outra vez eu sou. Mas não queiras que eu seja ao mesmo tempo Vadinho e Teodoro, pois não posso. Só posso ser Vadinho e só tenho amor para te dar, o resto todo que necessitas quem te dá é ele; casa própria, a fidelidade conjugal, o respeito, a ordem, a consideração e a segurança. Quem te dá é ele, pois o seu amor é feito dessas coisas nobres e delas todas necessitas para ser feliz. Também de meu amor precisas para ser feliz, desse amor de impurezas, errado e torto, devasso e ardente, que te faz sofrer. Amor tão grande que resiste à minha vida desastrada, tão grande que depois de não ser voltei a ser e aqui estou. Para te dar alegria, sofrimento e gozo aqui estou. Mas não para permanecer contigo, ser tua companhia, teu atento esposo, para te guardar constância, para te levar de visita, para o dia a, para te levar de visita, para o dia certo do cinema e a hora exacta de dormir – para isso não, meu bem. Isso é com o meu nobre colega de xibiu, e melhor jamais encontrarás. Eu sou o marido da pobre dona Flor, aquele que vai acordar tua ânsia e morder teu desejo, escondido no fundo do teu ser, de teu recato. Ele é o marido da senhora dona Flor, cuida de tua virtude, de tua honra, de teu respeito humano. Ele é a tua face matinal, eu sou tua noite, o amante para o qual não tens jeito nem coragem. Somos teus dois maridos, tuas duas faces, teu sim, teu não Para seres feliz precisas de nós dois. Quando era eu só, tinhas meu amor e te falava tudo, como sofrias! Quando foi só ele, tinhas de um tudo, nada te faltava, sofrias ainda mais. Agora, sim, és dona Flor inteira como deve ser.

O vellho e a isca


Um casal idoso estava num cruzeiro e o tempo estava tempestuoso. Eles estavam sentados na traseira do navio, a olhar a lua, quando uma onda veio e levou a velha senhora.

Procuraram por ela durante dias, mas não conseguiram encontrá-la.
O capitão enviou o velho senhor para terra, com a promessa de que o notificaria assim que encontrasse alguma coisa.

Três semanas passaram-se e finalmente ele recebeu um fax do navio.

Ele leu:

- “Senhor: lamento informar que encontramos o corpo da sua esposa no fundo do mar. Nós a içamos para o barco e, presa a ela, tinha uma ostra. Dentro da ostra havia uma pérola que deve valer 50.000 euros. Por favor, diga-nos o que fazer.”

O velho homem respondeu:

- “Mande-me a pérola e atire de novo a isca.”

terça-feira, dezembro 28, 2010

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
À ENTREVISTA Nº 76 SOB O TEMA:

“EVANGELIZAÇÃO DA AMÉRICA” (3)


“Bárbaros, Incapazes, Inferiores”

Todo o dominador despreza sempre o dominado e para justificar o seu domínio tira-lhe valor, desumaniza-o. Isso mesmo sucedeu também quando a América foi conquistada pelos europeus. Os conquistadores espanhóis validados por pensadores importantes de Espanha, sustentaram durante as primeiras décadas do Séc. XVI que os “índios” – assim foram chamados os habitantes do continente recém-descoberto – careciam de alma e nem sequer pertenciam à espécie humana. Por esta condição bestial podiam ser despojados da sua liberdade e das suas terras.

O afamado jurista e teólogo espanhol frei Francisco de Vitória, ainda que reconhecendo-lhes alma, alegava que não tinham inteligência e com isso justificava que fossem dominados e tutelados:

- “Esses bárbaros, ainda que, como disse, não sejam de todo incapazes, distam, no entanto, tão pouco dos atrasados mentais que parecem não ser idóneos para constituir e administrar um república legítima dentro dos limites humanos e políticos. Pelo que, não têm leis adequadas, nem magistrados, nem sequer são suficientemente capazes de governar a família.

Carecem de ciências e artes, não só liberais mas também mecânicas e de uma agricultura diligente, de artesanatos e de muitas outras comodidades que são necessárias para a vida humana.”

Outro frade e teólogo desse tempo, frei Ginés de Sepúlveda, defendia a “guerra justa"
contra os índios por serem idólatras e pecadores e, considerando-os seres inferiores, defendia a obrigação dos espanhóis em tutelá-los.

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Gesto de amor...

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Meus amigos:

Digo-vos isto com imensa tristeza mas este ano não há presépio:


- A vaca da economia está louca e não se segura nas patas;


- Os Reis Magos não podem vir porque os camelos estão no governo;


- A Nossa Senhora e o São José foram meter os papeis para o rendimento mínimo;

- A ASAE fechou o estábulo por falta de condições;

-E o Tribunal de Menores ordenou a entrega do Menino ao pai biológico...

ZECA AFONSO - CANÇÃO DE EMBALAR
Compositor, foi o mais famoso e notável cantor de intervenção política de esquerda contra o fascismo vigente em Portugal de 1926/74 tendo, uma das suas composições, "Grândola, Vila Morena", sido utilizada como senha pelo MFA (Movimento das Forças Armadas) que, comandada pelos capitães de de Abril, instaurou a democracia em Portugal em 25 de Abril de 1974. Zeca Afonso terá sido igualmente, como músico, para mim e muitos mais com certeza, o melhor cantor de baladas e da música popular portuguesa. Primeiro, uma balada, "Canção de Embalar."



DONA

FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


Episódio Nº 305


- Onde posso encontrar esse cavalheiro?

Velho de mais de oitenta anos, desde os vinte e poucos a anunciar o fim do mundo, resistindo à descrença e à perseguição, à cadeia e ao hospício, jamais vencido, implacável profeta do Velho Testamento, Teobaldo príncipe de Bagdá esclareceu:

- Onde menos se espera ele se encontra… - e tendo dito, fechou os olhos e pegou no sono.

No apartamento de Zulmira, na solidão propícia ao pensador, Cardoso e S.ª punha em ordem os últimos detalhes do seu plano de combate: já marcara entrevista com os marcianos, tinha amigos entre eles.

- E então? – perguntou a Pelancchi.

Cansado e pessimista, o rei do jogo ergueu os ombros:

- Por acaso você sabe onde posso achar o tal Mestre do Absurdo? Já ouviu falar?

- O Mestre do Absurdo? Quer encontrar com ele – a gargalhada do místico sacudiu a sala.

- Com urgência.

- Pois aqui o tem, em sua frente. Eu sou o Mestre do Absurdo.

No bacará, no lasquinê, no grande e pequeno, na roleta, Arigof, Anacreon, Giovanni Guimarães e a multidão a seguir os seus palpites, estouravam bancas sobre bancas, jamais perdiam. Nem uma só vez.

- Você? Pois ande depressa. Se durar mais uma semana estou falido.

- Depressa, Cardosinho – suplicou também Zulmira.

O Mestre do Absurdo sorriu ao tratamento íntimo e à zelosa secretária:

- Fiquem descansados, é para já.

“Olhar de águia, irresistível”, pensou Zulmira.



De braço dado chegaram da farmácia dona Flor e doutor Teodoro na hora do jantar. Ele, após breve repouso, voltaria ao trabalho, prolongando-se o plantão até às dez da noite, estafante.

- Pobre querido… - disse dona Flor.

- Você hoje vai dormir cedo, minha querida, ontem estava febril – recomendou o bom marido.

Dona Flor tão satisfeita, de repente inteira e uniforme, não mais contraditória, dividida ao meio, em luta o espírito e a matéria. Apenas um temor: se ele não voltasse, o seu primeiro? Se não viesse?

Mas ele veio, e apenas o doutor se foi para a farmácia (de capa e guarda-chuva, pois de novo aumentara o aguaceiro), eis dona Flor e Vadinho no leito de ferro, sobre o colchão de molas, a vadiar.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Luís M. Jorge, Um natal supé feliz. Excertos:



«[...] o país foi consumido por uma orgia salazarenga de caridade e devoção. Os sem-abrigo casaram-se em barda, as mães de Cascais fizeram soufflés aos entrevados, a Júlia e o Goucha entrevistaram manetas, tuberculosos e débeis mentais. Os alcoólicos sorveram sopa com cheirinho, muito boa, muito quentinha. Um patego da Guarda trajou de pai natal e deu chocolates do Lidl à terceira idade. [...] Portugal está em júbilo, porque bastou um ano de crise para reencontrar os seus pobrezinhos no adro da igreja, os seus velhos de pés em chaga, os meninos escalavrados a lamber o ranho e a estender as mãos. E já tinhamos todos tantas saudades. Na televisão, uma dondoca serve bacalhau aos desempregados e deseja-me um Natal supé feliz. Para si também, tia. Vemo-nos no reveillon — ou no céu, se Deus quiser.»

O MELHOR TRABALHO DE ILUSIONISMO DO MUNDO



INFORMAÇÕES ADICIONAIS
À ENTREVISTA Nº 76 SOB O TEMA:
“A EVANGELIZAÇÂO DA AMÉRICA LATINA?” (2)


Cinco Séculos Depois: Um Discurso Insultante.

No discurso com que inaugurou a Conferência de Bispos Latino Americanos e do Caribe, em Aparecida, no Brasil, em Maio de 2007, o Papa Bento XVI referiu-se ao processo de Cristianização da América sem incluir uma única palavra de crítica àqueles factos históricos.

Nesse discurso, ele expressou a visão oficial insensível da Igreja Católica daquele sangrento processo histórico.

As passagens desse discurso que mais polémica e rejeição provocaram por toda a América Latina foram estas:

-“Que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina e do Caribe? Para eles significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que os seus antepassados, sem o saberem, buscavam nas suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que ansiavam silenciosamente. O Espírito Santo veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germens e sementes que o Verbo encarnado havia posto nelas, orientando-as assim pelos caminhos dos Evangelhos. O anúncio de Jesus e do seu Evangelho não supôs, em nenhum momento, a alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura estranha…”



Um Dos Genocídio Mais Horrorosos


Entre as muitas expressões de repúdio ao discurso do Papa destacamos uma, a da “Posição da Confederação dos Povos de Nacionalidade Kichwa do Equador”, emitido dois dias apenas as palavras provocadoras do pontífice.

Eis uma passagem desse texto:

- “Se analisarmos com uma elementar sensibilidade humana, sem fanatismos de nenhuma espécie, a história da invasão a Abya Yala (nome dado ao Continente Americano) realizado pelos espanhóis com a cumplicidade da igreja católica, só nos podemos indignar.

Seguramente que o Papa desconhece que os representantes da igreja católica desse tempo, com honrosas excepções, foram cúmplices, encobridores e beneficiários de um dos genocídios mais horrorosos que a humanidade podia presenciar.

Mais de 70 milhões de mortos em campos de concentração de minas (a actividade de mineração foi a mais importante da América Espanhola). Nações e povos inteiros foram arrasados e para substituir os mortos trouxeram povos do continente africano que sofreram a mesma desgraçada sorte.

Usurparam as riquezas dos nossos territórios para salvar economicamente o sistema feudal. As mulheres foram cobardemente violadas e milhares de crianças morreram por desnutrição e doenças desconhecidas. Tudo isto foi feito debaixo do pressuposto filosófico e teológico que os nossos antepassados “não tinham alma”.

Junto dos assassinos dos nossos heróicos dirigentes estava sempre um sacerdote ou um bispo para doutrinar o condenado ou condenada à morte, baptizando-os antes de morrer, renunciando, assim, às suas concepções filosóficas e teológicas…

Não é concebível que em pleno Séc. XXI se acredite na Europa que só pode ser concebido como Deus um ser definido com tal na Europa. O Papa devia saber que antes de chegarem aos nossos territórios os sacerdotes católicos com a Bíblia, nos nossos povos já existia deus e a sua Palavra é aquela que sempre sustentou a vida dos nossos povos e a da Mãe Terra. A palavra de Deus não pode estar contida num só livro e muito menos se pode acreditar que uma religião possa privatizar um Deus.

Os nossos povos originários eram civilizações que tinham governos e organizações sociais estruturadas de acordo com os nossos princípios. Naturalmente, também tínhamos religiões com livros sagrados, ritos, sacerdotes e sacerdotisas que foram os primeiros a serem assassinados pelos que se afirmavam ser servidores do Deus do Amor de que falava Jesus Cristo mas não passaram de servidores do “deus da codícia”.

É importante comunicar ao Papa que as nossas religiões jamais morreram. Aprendemos a sincretizar nossas crenças e símbolos com as dos invasores e opressores. Continuamos assistindo nos nossos templos porque sabemos que debaixo dos principais templos católicos estão os cimentos dos nossos templos sagrados que foram destruídos no pressuposto de que as novas construções sepultariam as nossas crenças.


Mas não é assim, já que os nossos templos foram edificados em lugares onde se concentram grandes Forças que reflectem a Força, Sabedoria e Amor do Grande Espírito Pai e Mãe de todos os seres que habitam neste maravilhoso planeta”.


Que dizer mais? Notável este texto pela saberdoria e humildade inteligente em resposta à sobranceria das palavras do pontífice.

JULIO IGLESIAS - ABRAZAME
É verdade... os abraços sem palavras valem mais que os outros. Por que será?



DONA

FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


Episódio Nº 304


O Arcanjo São Miguel de Carvalho, envolto numa espécie de lençol, turbante na cabeça, não descreveu fisionomias nem citou nomes, mas foi positivo e imediato. Tomando as mãos de Pelancchi, fitara-lhe os olhos: no espaço sideral um inimigo cruel o perseguia, homem a quem o calabrês ofendera gravemente, desencarnado há pouco tempo. O Arcanjo logo o percebeu com seu faro angelical:

- Está de pé, bem nas suas costas.

Houve um movimento geral de recuo, e o próprio Máximo Sales, por via das dúvidas, colocou-se junto à porta.

Faz pouco que morreu?

- Sim. E a briga foi por causa de mulher… - prosseguiu o Arcanjo, tendo respirado fundo seus poderes mágicos.

Pelancchi identificou Diógenes Ribas. Tomara-lhe a esposa, mulata mais pedante, um descalabro de boniteza, manceba esplêndida e matreira. Diógenes, proprietário lesado e inconformado, exibiu punhal e ameaças. Pelancchi, já poderoso senhor da jogatina, para lhe calar a boca e a pedido da mulata – a quem Diógenes perseguia com xingos e calúnias – mandou-lhe aplicar uma surra, encarregando do trabalho uma equipa de especialistas. Ao sair da mão dos médicos, Diógenes Ribas sumiu para sempre, Pelancchi só por acaso veio a saber de sua recente e triste morte, na miséria. Quanto à mulata, pivô do drama, com o passar do tempo revelou-se insuportável. Pelancchi a trocou por uma grosa de baralhos com um suíço.

Com sua flamante espada, o arcanjo varreu Diógenes, muita prosa e pouca acção, um pobre espírito, de terceira, um cornuto. Não cobrou muito, pois não era explorador de crentes e, sim, benfeitor da humanidade, como lhes disse.

O cornuto retirou-se com seus chifres, mas o azar manteve-se cada vez maior.

Doutora Nair Sabá, médica de clínica geral e cirurgiã, diplomada com distinção e louvor pela Universidade de Júpiter, quarentona feia como a necessidade, curava enfermos com passes magnéticos. Na conjugação dos astros, e a preço conveniente, descobriu pelo menos seis inimigos de Pelancchi logo identificados sem a menor possibilidade de erro. A doutora de Júpiter liquidou os seis em prazo recorde, e, de lambugem, curou a Pelancchi de uma úlcera do duodeno e a Propalato, de pertinaz reumatismo. Só não venceu o azar do jogo.

Madame Deborah, sessentona, na opinião de Máximo não valia o dinheiro nem como espectáculo: pouco afirmativa, queixando-se de dores no ventre (grávida há mais de trinta anos, concebera e ia parir o Apocalipse), um bafo evidente de cachaça e um catarro crónico, metida nuns trapos de cigana. De sério só constatou uma tal de Carmosina, amor antigo de Pelancchi, por ele abandonada sem dó nem piedade, o rei do jogo não mantinha estrepes. Teve Madame Deborah dificuldades em despachar a tipa, mas por fim o conseguiu, ajudada por uns tragos de parati tomados de um vidro de remédio para tosse. Depois quis vender a Pelancchi palpites para o bicho, infalíveis. O azar, é claro continuou.

O único a não cobrar foi Teobaldo Príncipe de Bagdá, velhinho mirrado, todo de branco, os olhos azuis e fixos, a face de bondade, a boca de enigmas. Não quis dinheiro nem, espórtula de qualquer espécie, não revelou tampouco inimigo visível ou invisível, macho ou fêmea. Se os viu em torno ao rei do jogo ou na distância do infinito, guardou segredo. Apenas disse, com lágrimas nos olhos, tocando o ombro de Pelancchi:

- Só o Mestre do Absurdo pode lhe salvar. Só ele e mais ninguém.

domingo, dezembro 26, 2010

Uma Boa Invenção


O inventor da moto Harley-Davidson, Arthur Davidson, morreu e foi para o céu.

Ao chegar às portas do céu, São Pedro disse-lhe:

- Meu filho, como foste um bom homem e as tuas motos mudaram o mundo, o teu prêmio é poderes encontrar-te com quem quiseres!

Arthur pensou um pouco e depois disse:

- Quero encontrar-me com Deus!

São Pedro levou Artur até a sala do trono e apresentou-o a Deus.

Deus reconheceu Arthur e disse-lhe:

- Então foste tu que inventaste a Harley-Davidson?

Arthur respondeu:

- É verdade, fui eu ..

Deus comentou:

Não foi uma boa invenção...

É um veículo instável, barulhento e poluidor.. Manutenção complicada, alto consumo...

Arthur ficou aborrecido com o comentário e retrucou:

- Desculpe-me, mas não foi o senhor que inventou a mulher?

- Sim, fui eu! - Responde Deus.

- Bem, aqui entre nós, de profissional para profissional, você também não foi nada feliz na sua invenção!

- Há muita inconsistência na suspensão dianteira;

- É muito barulhenta e tagarela em altas velocidades;

- Na maioria dos casos, a suspensão traseira é muito macia e vibra demais;

- A área de lazer está localizada perto demais da área de reciclagem;

- Os custos de manutenção são exorbitantes.


Deus refletiu e respondeu:

- Sim, é verdade que o meu invento tem defeitos, mas de acordo com os dados que levantei, há
muito mais homens montados na minha invenção do que na tua...

VÍDEO

We No Speak Americano

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INFORMAÇÕES ADICIONAIS

À ENTREVISTA Nº76 SOB O TEMA:


“A EVANGELIZAÇÃO DA AMÉRICA”




A Cruz veio com a Espada

Durante a conquista da América e dos séculos de colonização espanhola e portuguesa em terras americanas houve duas posturas face às culturas e religiões indígenas na América.

Uma de total rejeição com campanhas para estripar as idolatrias, eliminar santuários, abolir ritos e costumes e satanizar a experiência cosmológica de Deus.

A outra, que consistiu na substituição calculada dos elementos religiosos autóctones por elementos cristãos mais ou menos equivalentes: livros sagrados, festas, espaços, ritos, imagens…

Partindo de uma ou outra postura, cometeram-se abusos de todo o tipo e crimes horrendos. A cruz veio com a espada e atrás da espada estava a ambição do ouro e da prata, de terras e de poder, dos conquistadores e dos colonizadores… e isto mancha todo o processo de cristianização do continente americano o mesmo sucedendo nos processos mais recentes de colonização do continente africano no qual a “evangelização” cristã e a rejeição das religiões e espiritualidades africanas foi ampliada pelo despojo, a exploração e o genocídio.

De uma forma sintética e lúcida o Bispo Desmond Tutu expressou o que pensava através das seguintes palavras:

- “Vieram. Eles tinham a Bíblia e nós as terras. E disseram-nos: fechem os olhos e rezem. E quando abrimos os olhos eles tinham as terras e nós a Bíblia.”

JÚLIO IGLESIAS - JURA-ME

Uma canção, campeã do seu vasto reportório de canções românticas, ele próprio campeão como o artista latino mais bem sucedido de todos os tempos com uns impressionantes 250 milhões de discos vendidos, 2.600 de ouro e platina e 4.000 espetáculos em mais de 500 cidades em todo o mundo. A sua voz, o detalhe das suas canções e um enorme carisma estão na base do êxito que começou a trabalhar na cama de um hospital... Fez duetos com muitos outros artistas entre eles Simone e Roberto Carlos de quem era grande fã. Vive em Miami com a esposa onde cuida da sua carreira. Lá, também vive o seu filho Enrique Eglesias, que herdou do seu pai o talento musical e já vai com mais de 43 milhões de discos vendidos.



DONA

FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


Episódio Nº 303


A saleta onde os recebeu onde os recebeu tinha flores num vaso e escarradeiras. Depois de ouvi-los, ali os deixou com seu marido e ajudante; foi orar na sala da levitação e da vidência. O marido, Mister Marcos, também jovem, com ar simpático de malandro diplomado, explicou nada cobrar Josete pelos benefícios distribuídos aos pobres por intermédio de sua mediunidade. Tudo gratuito, os espíritos não aceitavam nada e Josete recebia apenas o estritamente necessário para as injecções e os remédios (tudo tão caro hoje, a vida subindo de tal forma) com que refazer a saúde abalada após cada sessão, ao despender ectoplasma – e ela não fazia economia, como os senhores constatarão pessoalmente – seu organismo, já de si frágil, atingia o extremo da debilidade, com perigo de vida, Pelancchi, cheio de esperança e pena, foi generoso, e Mister, e Mister Marcos embolsou.

Na outra sala – a dos fenómenos – forrada cortinas roxas, era quase total a escuridão. De robe branco, estendida numa cadeira, Josete com seus fluidos, o marido ordenou aos quatro – Pelancchi, Zulmira, Domingos Propalato e Máximo – que se dessem as mãos para estabelecer a corrente do pensamento. Assim fizeram e uma pequena lâmpada, única na sala, se apagou.

Logo tiniram campainhas, ouviram-se guinchos com miados, e uma luz andou nos ares em volta das cortinas, arrancando um grito histérico de Zulmira.

Quanto a Pelancchi, nem gritar podia, e Propalato, trémulo, suava, os dentes apertados. Aquela luz e aqueles guizos eram o próprio Irmão Li U, sábio chinês da dinastia Ming, absolutamente autêntico. Segundo Máximo Sales, incorrigível, em vez do sábio Li U, luz e som não passavam do sabidório Marcos, um vivo a gozar boa vida às custas daquele lindo ectoplasma. Mas, sendo Máximo Sales língua de trapo e incréu, suas opiniões não têm valor nem merecem maior crédito e aqui as consignamos tão-somente para manter a exactidão da narrativa.

Crédito e confiança merece Josete, toda dissolvida em ectoplasma e falando uma língua estranha, como de menino, talvez chinês antigo ou mais possivelmente de Macau, pois dava para se entender com certo esforço. Segundo o sábio Li U, a causa de toda a confusão era uma dona, itálica e rancorosa, a quem Pelancchi fizera uma falseta.

- Loira ou morena? – perguntou o calabrês.

- Morena e bonita, uns vinte e cinco anos…

- Vinte e cinco? Quase quarenta, e era uma víbora. Não me cabe culpa… Por favor, cara amiga, diga ao chinês que eu não tive culpa…

Se chamava Anunciata, parecia perseguida e ingénua signorina, buscando protecção: oh!, que putana mais putana. Ele, sim, Pelancchi, era então um ragazo, povero ragazo de dezessete anos…

e as quNo ímpeto desses ludibriados dezassete anos, marcara com uma flor de sangue o rosto da traidora, acrescentando uns cortes pelo queixo, de quebra e malvadez. Sendo menor, escapou Pelancchi da cadeia, enquanto Anunciata, no hospital, jurava vingança, viva ou morta. Agora, tantos anos depois, vinha cumprir sua promessa de ódio naquele dramalhão italiano. Anunciata, seu primeiro amor: tão carina, tão putana.

Pelancchi, ainda hoje, não se arrepende do que fez. Mulher sua não é para ser também de outro, é sua e demais ninguém. Zulmira se encolhe no escuro: cada perigo nesse mundo!

O sábio chinês, por mais algumas caixas de injecção, livrou Pelancchi da lembrança de Anunciata e de seu ódio. Para os detalhes materiais, como preço e pagamento, serviu de intermediário Mister Marcos, mediador das almas e gerente espiritual daquela tenda. Foi-se Anunciata com sua flor de sangue ebras pelo queixo, mas não se foi o azar.

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