sábado, junho 26, 2010

CANÇÕES FRANCESAS

CLAUDE FRANÇOISE - COMME D'ABITUDE
esta canção foi um sucesso na voz de outros cantores (Frank Sinatra, Elvis Presley, Adamo...) mas... o seu a seu dono: ela é francesa, do Claude François e de Jaques Revaux. Foi o seu 1º Album em 1967. Paul Anka reescreveu o texto sob o título My Way

CANÇÕES ANGLO -SAXÓNICAS

MICHAEL HOLM - TRANEN LUEGUEN NICT
não percebo uma palavra de alemão mas para quê se a canção é tão linda... é uma balada italiana - Soleado de Daniel Sentacruz Ensamble. Amanhã, que é Domingo, voltaremos a ela num vídeo lindo

CANÇÕES BRASILEIRAS

CAETANO VELOSO - LUA E CIDADE
simples e gostosa... brasileira e cosmopolita como a lua...

CANÇÕES PORTUGUESAS

CAMANÉ - SEI DE UM RIO
O fado, para ser fado, exige um cantor que reuna dentro de si todo esse ambiente, toda essa trama que gera o fado, que nos faz sentir que é fado... Camané é um desses cantores.


DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 156




No círculo das amigas em mofa e comentários sobre a gulodice de alguns convivas, dona Flor restabeleceu-se do choque, do sorriso de motejo, das palavras de escárnio do atrevido. Um cínico a convidá-la para ver o luar em noite negra como breu. Aos poucos foi participando da conversa, divertindo-se com as observações de dona Amélia e de dona Êmina. Dona Maria do Carmo nunca vira antes seu Sampaio em acção num almoço ou num jantar. Ficara aparvalhada.

Quando a conversa ia mais ruidosa e alegre, eis que o persistente galã san-franciscano surge outra vez, de braço dado com sua cunhada dona Enaide, a perguntar enxerido:

- Tem lugar para dois? Ou a conversa é proibida para homens?

- Vão se abancando…

Dona Flor não tomou conhecimento da presença do notário, o qual, no entanto, pouco depois já estava a ler a mão de dona Amélia, fazendo-as rir com suas pilhérias. Era espirituoso o tipo, a própria dona Flor sorriu uma ou duas vezes de suas graças. Anunciou viagens e riquezas para dona Amélia. Depois foi a vez de dona Êmina. Muito grave, lhe prometeu mais um filho, para breve.

- T’ esconjuro… Não bastou com Aninha, tão fora de tempo?... Vá azarar outro…

- Dessa vez vai ser menino… Não erro nunca…

Após a leitura da mão de dona Êmina, pôs os olhos em dona Flor, como se nada houvesse decorrido antes; olhos a despi-la novamente, passando ao mesmo tempo a ponta da língua nos lábios, num gesto tão descarado que ela sentiu seu coração parar; até onde pensava ir aquele tipo? Felizmente as demais não se deram conta. Estendendo a mão para segurar a de dona Flor, ele disse:

- Chegou a sua vez…

- Não quero saber disso. Tudo tolice…

Mas as demais exigiram entre gargalhadas. Que iriam pensar se ela persistisse em sua recusa? Seria pior. Numa decisão, concordou. Sorriu vitorioso doutor Aluísio, o especialista da alma feminina: nunca se enganava.

Colocou sobre a sua a mão esquerda de dona Flor, com a palma voltada para cima. Com o dedo de unha bem tratada ia marcando as linhas reveladoras, numa cócega distante e subtil, dona Flor rígida e tensa.

- Excelente linha de vida… Vai viver mais de oitenta anos… - ficava um segundo em silêncio,
como a examinar atentamente a mão da viúva – Vejo grandes novidades…

sexta-feira, junho 25, 2010

DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDI Nº 155


A casa entupida. Gente do comércio, colegas do Clube dos Lojistas, parentes, vizinhos, amigos de dona Norma, formando grupos nas salas e na varanda. Repleta também a cozinha de afilhados e comadres de dona Norma, a pobreza dos arredores. Num canto da sala de jantar, próximo à mesa principal, o aniversariante, seu Zé Sampaio, comia com avidez e pressa, lançando olhares de soslaio para a mesa, no temor absurdo de acabar a comida antes dele repetir o prato. Meio escondido para que não viessem puxar conversa, perturbando-o. Mas o argentino Bernabó, os lábios amarelos do dendê, em arrotos fartos, dava os parabéns ao dono da casa:

- Macanudo, amigo. La comida, deliciosa…

Dona Flor ajudara por algum tempo dona Norma e as empregadas (todas as empregadas da vizinhança), mas ao diminuir o movimento, obtivera uma cadeira num canto da varanda, dali acompanhando a agitação do jantar: seu Vivaldo, da funerária, ia pelo quarto prato; doutro Ives empanturrava-se de sobremesas.

Seu Aluísio, de palito na boca, veio se aproximando, como quem não quer nada, até encostar-se no muro da varanda ao lado de dona Flor:

- Festim romano… - sentenciou ele.

Dona Flor por um instante decidiu não responder, mas afinal o fez; não tinha motivos para tanta desconsideração ao tabaréu.

- Norminha, quando dá um jantar, não mede a comida…

Seu Aluísio olhava para os lados, deixando a conversa morrer, sem continuidade; dona Flor voltada para o movimento da sala. Foi quando ela ouviu o cicio da voz do notário em surdina:

- Beleza, me diga uma coisa…

- O quê? – assustou-se ela.

- O que é que você achava da gente cair fora daqui, ir ver o lugar na Lagoa do Abaeté? Você vai saindo, me espera no Largo…

Dona Flor já estava de pé, a voz estrangulada:

- O que está pensando de mim?

Doutor Aluísio ria de mansinho, como se ele bem soubesse do pouco valor daquela indignação, acostumado a essas primeiras e bruscas reacções.

- Um passeio, nada mais…

Dona Flor não pôde sequer responder, uma agonia a queimar-lhe a face, a oprimir-lhe o peito. Estavam assim estampados em seu rosto a ânsia de homem e o desatinado desejo? Quase correndo dirigiu-se à sala.

- O que é que você tem, Flor? – perguntou-lhe Marilda, ao vê-la assim nervosa, as mãos trémulas.

- Não sei, tive uma palpitação… Não é nada…

- Sente aqui… Vou lhe buscar um copo de água…

_ Não precisa, vou sentar ali com sua mãe…

CANÇÕES ITALIANAS

GIGLIOLA CINQUETTI - GIRA L'AMORE (1972)
o grilo canta somente por amor, a chuva cai quando uma flor morre...é lindo o rio quando a água é pura mas nisto o homem não pensa nunca.

CANÇÕES ANGLO-SAXÓNICAS

JOHN TRAVOLTA and OLÍVIA NEWTON JOHN - YOU ARE THE ONE
Nesta interpretação, Travolta não esconde as suas origens italo-americanas. O filme Saturdey Night Fever lançou-o no estrelato mundial sagrando-se como uma lenda de Hollyood e o galã dos anos 70. Neste momento factura 20 milhões por cada filme.

CANÇÕES FRANCESAS

LES CHAT SAUVAGES - DERNIERS BAISERS (1962)
quase meio século depois, - 48 anos - que recordações não despertará esta canção aos jovens que a viveram... As canções da nossa juventude são um dos melhores legados do tempo...

CANÇÕES BRASILEIRAS

CHICO BUARQUE - VALSINHA
o ritmo pega-me pela mão, a voz delicada convida-me a bailar e eu saio flutuando nas notas desta canção... maravilhoso!

CANÇÕES PORTUGUESES

KATIA GUERREIRO - SAIA RODADA
tem um percurso geográfico atribulado. Nasce na África do sul, cresceu nos Açores e licenciou-se em medicina em Lisboa. Estreou-se em 2001 com o disco Fado Maior.


ENTREVISTAS

FICCIONADAS

COM JESUS CRISTO
Entrevista Nº 34


Tema – O Baptismo das Crianças




Raquel – A nossa Unidade Móvel mudou-se agora para o sul do país, até ás margens do rio Jordão onde, há 2.000 anos João baptizava multidões. Ouvem o rio?... A nosso lado, Jesus Cristo.

O senhor recordará aquele dia tão especial quando foi baptizado por João. Foi aqui, não é verdade?

Jesus – Sim, creio que sim… é que havia tanta gente… estou vendo João, vestido com pele de camelo, metido na água até à cintura… João Baptista, grande profeta aquele!

Raquel – No seu tempo as pessoas baptizavam-se em adultas. No nosso, pelo contrário, o baptismo é o mais cedo possível, quase em recém nascidos.

Jesus – Vocês baptizam as crianças?

Raquel – Sim, claro, é o costume.

Jesus – Mas para quê? Como é que um menino ou uma menina pequeninos se vão converter a uma nova vida se ainda não viveram nada?

Raquel – Não entendo por que nos dizes isso.

Jesus – O baptismo é para aprender a partilhar. João gritava: quem tenha duas túnicas dê uma a quem não tenha nenhuma. É para isso que serve o baptismo: para mudar de vida.

Raquel – Pois os seus seguidores dizem outra coisa. Dizem que o baptismo serve para apagar o pecado original.

Jesus – O pecado original?

Raquel – Sim, o que cometeram Adão e Eva no paraíso. A serpente tentou-os e… comeram a maçã.

Jesus – Essa história já a sei mas que tem ela a ver com o baptismo?

Raquel – Isso lhe perguntamos a si, que saberá melhor do que ninguém porque veio a este mundo para nos limpar desse pecado.

Jesus – Que vim para limpar o quê?

Raquel – O pecado original. O senhor não sabe que esse pecado se herda, passa de pais para filhos, de netos para bisnetos?... Assim nos ensinaram. Todos nascemos com essa culpa. Por isso temos que nos baptizar para a limpar e quanto mais cedo melhor.

Jesus – E explica-me por quê?

Raquel – Porque as crianças não podem entrar no céu sujas, com a mancha de Adão e Eva.

Jesus – Que voltas da vida. Repara, Raquel, também no meu tempo os sacerdotes diziam que a gente sofria por culpa dos pecados que haviam sido cometidos pela nossa família. Uma vez trouxeram-me um cego de nascença e me perguntaram quem tinha pecado: ele ou os pais?

Raquel – E o senhor que respondeu?

Jesus – Nem ele nem os pais, porque a doença não é filha do pecado. Eles vêm pecado nos doentes e vocês agora vêm pecado nos filhos. Que horror tão grande.

Raquel – Agora sou eu quem te pergunta, por quê?

Jesus – Porque nenhum pecado se herda. Nenhum. Se os pais comem uvas verdes não é aos filhos que lhes azeda a boca e isto já era dito pelo profeta Jeremias mais de seis séculos antes de eu nascer.

Raquel – Não podemos evitar a pergunta. Se as crianças, como o senhor diz, não nascem com pecado, para que os baptizam então?

Jesus – Não sei. O que te asseguro é que, com água ou sem água serão os primeiros a entrarem no reino de Deus.

Raquel – E os adultos?

Jesus – Aqueles que estão dispostos a mudar de vida, a lutar pela justiça, que se baptizam receberão o espírito de Deus como aquele que eu recebi aqui, das mãos do profeta João.

Raquel – Das margens do rio Jordão, testemunho, faz 2.000 anos, do baptismo de Jesus e testemunho hoje estas polémicas declarações.

Despedimo-nos, Emissoras Latinas, a repórter Raquel Lopez.



NOTA

O rio Jordão é praticamente o único rio que rega as terras de Israel. Nasce a norte, junto do monte Hermon e desagua nas águas salobras do Mar Morto, o lugar mais baixo do planeta, 400 metros abaixo do nível do mar.

O vale do Jordão é o prolongamento do vale do Rift, formado há 10 milhões de anos que fracturou o continente africano e, como evento geológico, foi decisivo para o aparecimento da espécie humana.

A capacidade de purificação da água em rituais religiosos é aceite praticamente em todos os cultos religiosos do mundo.
O ritual do baptismo que João popularizou e que Jesus recebeu significava um reconhecimento público de estar disposto a preparar o caminho a Messias. O baptismo de Jesus foi o ponto de partida para a sua vida pública, o momento em que ele sentiu que queria fazer algo para mudar a situação do país, para compartilhar com os seus conterrâneos a ideia que ele tinha de Deus, diferente da que prevalecia e que estaria na base de uma vida terrena justa e em liberdade.

O ritual de João Baptista era colectivo e simbólico. Depois de confessar as suas faltas, João juntava as pessoas nas águas do rio como sinal de limpeza e renascimento: “a água purifica, é das águas que nasce a vida.”

A palavra “baptismo” vem de uma outra palavra grega que significa “submergir”, “submergir na água”. Os primeiros cristãos submergiam nas águas do rio Jordão, mais tarde, com a sua disseminação para outros lugares da terra submergiam nos rios que aí houvessem ou em tanques. Hoje, restam umas gotas de água que o sacerdote derrama na cabeça do novo cristão.

quinta-feira, junho 24, 2010

VÍDEO

Deve ter sido dos calores do motor...

video

CANÇÔES ITALIANAS

CLÁUDIO VILA - MANUELA

a canção é de 1951 e vamos supor que a Manuela, que segundo reza a letra era de Barcelona, se manteve imune ao tempo e continua bela como esta linda música...


CANÇÔES FRANCESAS

RICHARD ANTHONY - TCHIN, TCHIN
a canção, que foi um êxito, é de 1964 mas o brinde continua válido... então ... à vossa!

CANÇÕES ANGLO-SAXÓNICAS

LOBO - I'D LOVE YOU TO WANT ME
simplesmente deliciosa, esta canção... ouve-se por uma vida inteira!

CANÇÕES PORTUGUESAS

TERESA SILVA CARVALHO - AMAR de Florbela Espanca
se houvesse dúvidas sobre o resultado do "casamento" da poesia com o fado elas acabam, agora mesmo, de serem desfeitas...


CANÇÕES BRASILEIRAS

MIGUEL FLABELA - FLOR BELA ESPANCA - AMAR
nascida em Portugal, filha de Antónia da Conceição Lobo, empregada de João Espanca que não a reconhece como filha. Porém, com a morte de Antónia em 1908, João e sua mulher criaram a menina mas o pai só anos mais tarde reconhece a paternidade. Por duas vezes tentou o suicídio, Outubro e Novenbro de 1930, nas vésperas da publicação da sua obra prima: "Charneca em Flor". Matou-se em Dezembro, no dia do seu aniversário. A sua vida foi tumultuosa, inquieta, transformando os seus sofrimentos íntimos em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização e feminilidade.



DONA

FLOR

E SEUS

DOIS

MARIDOS



EPISÓDIO Nº 154




Doutor Aluísio conhecera outras assim de modesta aparência, no esconso das casas, nas malhas de um código de honra, medieval. No entanto, surgindo ocasião propícia, contornavam com incomparável engenho óbices e temores, revelando-se peritas na tarefa de plantar chifres nos terríveis ferrabrases; de quando em vez um esposo traído impunha a lei com uns tiros ou umas punhaladas.

Em suas horas de ócio – a maior parte do seu tempo, pois o cartório pouco o exigia – o notário dedicava-se às mulheres, ao seu estudo e conhecimento (se possível, íntimo) levando o juiz de direito de Pilão Arcado, doutor Dival Pitombo, a classificá-lo como “emérito psicólogo, arguto confidente da alma feminina e erudito leitor das letras clássicas”.

As letras clássicas reduziam-se a traduções nacionais ou portuguesas, da mitologia grega, e de aspectos, em geral frascários da vida do Império Romano. Quanto às mulheres tinha o olho clínico, o que lhe rendera algumas aventuras e vasta fama de terror dos maridos, de sedutor irresistível. Apesar de careca e de narigão, algumas mulheres por enfrentaram o pecado, o código feudal, as leis da vingança.

Pois bem, esse olhar de lince do Casanova do rio São Francisco vasculhara de entrada o íntimo de dona Flor, varando-lhe o pensamento, apossando-se de seus segredos, após tê-la despido de roupas e adornos. Tão deslavado olhar não tinha outro sentido: seu Aluísio a desnudava por fora e por dentro e, em conclusão, achando-a a seu gosto, achava-a também desfrutável e até fácil. Para ele, dona Flor não era a viúva mais direita e honesta da Bahia, aquela eleita pelos bebedores no bar do Cabeça, aquela por quem até a mais maldosa das comadres botava a mão no fogo na certeza de retirá-la ilesa.

E por falar em mão, o rábula mantinha a que dona Flor lhe estendera presa entre as suas, apertando-a ligeiramente numa carícia quase insensível. Dona Flor deu-se conta de como a despia o tipo, do conceito em que a classificava, e da mão tomada como um penhor de posse. Tabaréu atrevido, cheio de empáfia e confiança: se dona Flor não reagisse logo, não lhe cortasse as asas em seguida, seria ele capaz mais adiante de qualquer intolerável ousadia. Brusca, fechando o rosto, retirou a mão. Não se deu por achado o sedutor das caatingas:

- Permita-me uma confissão minha estimada… Tendo interesses a discutir na capital, referentes à repartição que dirijo, e parentes a visitar, foi antes de tudo o desejo de conhecê-la que me trouxe a Salvador… Enaide, em suas cartas…

Mas dona Flor, vendo aparecer na sala dona Dagmar, sua aluna e amiga dos Sampaios, plantou ali mestre Aluísio:

- Com sua licença… Tenho de falar com aquela amiga…

Dona Dagmar, desinibida e boquirrota, foi logo perguntando:

- Quem é aquele papagaio pelado? Um pretendente?...

- Me deixe em paz, mulher… Aquele é o cunhado de Enaide, o tal doutor Aluísio, chefe político não sei onde…

- Ah!, é esse… Já ouvi falar nele… Dizem que manda um bocado no são Francisco… Menina, deixa eu comer qualquer coisa…

Na sala de jantar as mesas eram assaltadas pelos convivas num ruído de pratos e talheres, travessas de comida chegando cheias, voltando vazias para a cozinha. Um sucesso o jantar de aniversário de seu Sampaio.


A Verdade
e a
Mentira




Pedro Almodôvar, esse talentoso cineasta espanhol, quando tinha nove anos, no início dos anos 60, mudou-se com a família da aldeia da Mancha, onde nasceu, para uma outra na Estremadura, onde a maioria dos habitantes eram analfabetos, o que foi identificado como uma oportunidade de negócio pela mãe, que logo montou, em sociedade com o filho, um comércio de leitura e escrita de cartas.

Como tinha uma caligrafia muito bonita, ele escrevia as cartas, enquanto a mãe se encarregava da leitura. Cedo, Pedro começou a reparar que a mãe romanceava o que estava escrito nas cartas, e um dia não se conteve e perguntou-lhe:

- Por que lhe disseste que ela sente saudades da avó e se lembra muitas vezes dela a lavar a roupa numa bacia cheia de água à porta de casa, se na carta nem sequer fala na avó?

Ao que a mãe o calou com uma resposta desarmante:

- Mas viste como a avó ficou contente?!!!

“A realidade precisa da ficção para ser mais completa, mais agradável, mais vivida” escrevia o cineasta no dia a seguir ao da morte da mãe.

Um sábio de outro século, de outra arte e de outra geografia, Fiodor Dostoievski tinha chegado à mesma conclusão quando nos avisou:

- “Para tornar a realidade mais verosímil precisamos necessariamente de adicionar a mentira”



Jorge Fiel, jornalista que escreve no Diário de Notícias

quarta-feira, junho 23, 2010


ENTREVISTAS

FICCIONADAS

COM JESUS CRISTO

Entrevista Nº 33



Tema – A Bênção de Deus?



Raquel – Hoje estamos na antiga Sinagoga de Cafarnaum e, como nos dias anteriores, contamos com a presença de Jesus Cristo e…

Jovem – Com sua licença… poderia interromper?

Raquel – Nas E. Latinas ninguém interrompe e todos participam. É esse o nosso lema.

Jovem – A senhora não é a repórter das E. Latinas?

Raquel – Eu mesma e tu?

Jovem – Eu sou um fiel ouvinte do seu programa e para além disso…

Raquel – E para além disso?

Jovem – Pertenço à Igreja Apostólica de Jesus Cristo.

Raquel – De verdade? Pois tens agora oportunidade de falar com Jesus Cristo que está chegando.

Jesus – Aqui estou, amigo… não me vês?

Jovem – O senhor é Jesus Cristo, aquele que temos estado a ouvir na rádio nestes últimos dias?

Jesus – Me chamo Jesus. O Cristo me puseram mais tarde.

Jovem – Na verdade imaginava-o diferente…

Jesus – Com uma coroa na cabeça e lançando raios pelos dedos das mãos… ou algo assim?

Jovem – Bem… não… sim. Não se parece muito, mas… aleluia, glória a Deus! Eu não sou jornalista mestre, mestre, mas quero fazer-lhe uma pergunta, algo pessoal…

Jesus – E de que se trata, amigo?

Jovem – O pastor da minha Igreja está sempre repetindo que Deus abençoa aqueles que fazem o bem. É verdade isso?

Jesus – Diz-me, antes de mais, o que significa para ti ser “abençoado por Deus”?

Jovem – Ser abençoado é ter prosperidade, prosperar, ter negócios que corram bem… até poder ganhar a lotaria e parar de sofrer o resto da vida.

Jesus – Pois então o meu Deus nunca me abençoou… porque eu nunca tive nada, nem onde reclinar a cabeça.

Raquel – Se a nossa audiência está entendendo bem, jovem, o que tu queres saber, é se a riqueza material é a prova de uma bênção espiritual. Quanto mais rico, mais abençoado. É isso?

Jovem – Exactamente. O senhor Jesus Cristo é que disse?

Jesus – Assim pensavam no meu tempo. Assim acreditava Job, aquele homem tão honesto… Uma vez leram a sua história na Sinagoga. Job tinha filhos, rebanhos, riquezas, prosperava… e um dia perdeu tudo e Job não entendia por que Deus o castigara se ele sempre se portara bem.

Jovem – O mesmo pergunto eu. Tanto eu como a minha família somos pessoas cumpridoras, em casa, no meu trabalho, não faço mal a ninguém, até me meti a empreendedor… um fracasso. Em tudo me saio mal. Por que é que Deus não me abençoa a mim?

Jesus – Diz-me, como te chamas?

Jovem – Torcuato.

Jesus – Torcuato?

Jovem – Vês…? Até o nome que me puseram é feio… sou um desgraçado!

Jesus – Não digas isso amigo, e não acredites no que te dizem. Se a riqueza e os triunfos fossem uma prova de Bênção Divina, minha mãe, o meu pai José e eu mesmo seríamos uns malditos de Deus… porque nunca tivemos nada!

Jovem – Então?

Jesus – A bênção de Deus não é a riqueza que se tem mas sim o amor que se dá. Amar os outros, lutar por eles. Acredita, Torcuato, é mais feliz quem dá do que quem recebe.

Jovem – E… e eu?

Jesus – Deus abençoou-te. Estou certo que ele te convidará para o seu banquete.

Jovem – Jesus Cristo, deu-me muita alegria conhecê-lo. Como posso agradecer-te? Aceitaria vir a minha casa, a senhora também, posso oferecer um chá com um pão.

Jesus – Chá com um pão… quase um banquete!... vamos a tua casa Torcuato… Raquel, depois continuarás com as tuas perguntas.



NOTA

A Teologia da Prosperidade está muito em voga entre as Igrejas Neo-Pentecostes e Neo-Carismáticas evangélicas.

De acordo com esta Teologia a prosperidade económica e o êxito, especialmente nos negócios, é um sinal exterior evidente da bênção de Deus. Esta mensagem, comum aos pregadores de televisão dos E.U.A. a partir dos anos sessenta, foi transplantada para a América Latina a partir dos anos 80.

No seu livro “Os Banqueiros de Deus”, o pastor baptista peruano, Martin Ocana, faz a apologia da prosperidade considerando que ela constitui uma forma de avaliar se uma sociedade é cristã ou não, como no caso dos E.U.

Lendo a Bíblia fora do contexto, os teólogos da prosperidade espalham ideias tão disparatadas e mirabolantes como estas:

- O pecado de Adão foi o de ter contribuído para baixar a produtividade da humanidade;

- José da Nazaré, pai de Jesus, era um empresário do ramo das madeiras;

- Jesus rodeou-se de amigos e senhoras ricas e tinha tanto dinheiro que necessitou de um tesoureiro;

- Os discípulos de Jesus eram empresários da pesca;

- Nunca foi da vontade de Jesus que um cristão fosse pobre.

Estas pessoas convenceram os seus fiéis de que “quanto mais dessem mais receberiam”: “serão abençoados na medida em que entreguem os dízimos aos pastores e esmolas aos templos”.

A IURD, Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por Edir Macedo Bezerra, em 1977, conseguiu desta forma enormes recursos financeiros construindo templos gigantescos espalhando-se por todos os países da América Latina e muitos outros do resto do mundo transformando cinemas em Igrejas.

A IURD declara-se cristã, evangélica e pentecostal mas todas as organizações evangélicas recusaram aceitá-la como tal.

Trata-se apenas de um fabuloso negócio fraudulento em que caem pessoas incautas, necessitadas e desesperadas vivendo crises económicas e emocionais, atraídas por expectativas ilusórias e conduzidas a um fanatismo irracional.

A Teologia da Prosperidade é completamente oposta ao que foi a vida de Jesus: um fracasso económico e político terminando com a sua morte violenta.

A vida de Jesus não aparece vinculada nem ao êxito nem ao poder mas sim ao amor e ao compromisso com a justiça. A ideia de um Deus todo-poderoso e triunfador muda radicalmente com Jesus, um homem frágil que fracassa e é assassinado.

Só depois de morto e ressuscitado é que ele é convertido em rei do universo, juiz todo-poderoso, sentado no seu trono de glória.

CANÇÕES ITALIANAS

RICARDO TESI & MAURIZIO - ITÁLIA BELLA MOSTRATI GENTILE
é uma
canção de 1896 de autor desconhecido. A letra é um apelo à Itália para se mostrar gentil para os italianos, para os seus próprios filhos, para eles não a abandonarem emigrando para o Brasil e América.

CANÇÕES FRANCESAS

RICHARD ANTHONY - LE SIROP
o grande êxito de Richard em 1969. Época de contestação social, de crítica ao consumo de coisas inúteis e superficiais
sem as quais éramos bem mais felizes...

CANÇÕES BRASILEIRAS

RENATO TEIXEIRA - CAVALO BRAVO
a música e avoz do Renato Teixeira são um bom complemento das imagens de pura e harmoniosa elegância de um cavalo correndo livre num espaço aberto.

CANÇÕES ANGLO-SAXÓNICAS

ABBA - FERNANDO
falar dos êxitos dos ABBA é como que "chover no molhado". Poucos foram os músicos com tão alto grau de inspiração para criarem sucessos musicais. Agora, parece ser a China que se vai render às suas canções.

CANÇÕES PORTUGUESAS

RICARDO RIBEIRO - NOS GESTOS, NOS SENTIDOS
este jovem nasceu fadista. Tal como o Camané é a expressão pura do fado...


DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 153



Ao demais, dona Flor passara o dia praticamente em função do aniversário de seu Sampaio: em sua cozinha, e com a ajuda de Marilda, preparou o vatapá – um caldeirão – e a moqueca de peixe, uma delícia, enquanto dona Norma se ocupava com os demais quitutes. Assim, convencida, dona Flor compareceu. Antes não houvesse ido, teria evitado aborrecimentos.

Quando já estava a casa cheia, as mesas sendo servidas, dona Enaide chegou do Xame-Xame, trazendo uma bandeja de quindins, uma gravata para seu Sampaio e as desculpas do marido, que, aos sábados à noite, infalível parceiro em sua roda de póquer, recusava-se a qualquer outro compromisso. Em compensação, em sua companhia veio seu Aluísio, para muitos doutor Aluísio, o comentado rábula e notário das margens do rio São Francisco, o tal solteiro pela metade, por sua parenta proposto à mão de dona Flor.

Metido em fatiota nova em folha, de mescla escura e quente, todo pimpão, nariz adunco e forte, reluzente calva, olhos vivos e perscrutadores, envolto em água-de-colónia e em talco, manequim. Dona Enaide caprichou nas apresentações, orgulhosa do cunhado influente no sertão:

- Aluísio, quero apresentar-lhe dona Flores Guimarães, a viúva mais bonita da Bahia…

- Enaide, não brinque…

Curvava-se doutor Aluísio para beijar-lhe a mão, uma onda de perfume evolando-se no ar, envolvendo dona Flor:

- Minha senhora, este é um momento emocional em minha vida. Minha cunhada já me falara em carta a seu respeito, contando maravilhas… Vejo, no entanto, que ela ficou muito aquém do modelo; só um poeta para descrevê-la, senhora…

Ao mesmo tempo despia dona Flor com o olhar demorado e ávido, arrancando-lhe vestido e combinação, corpinho e calçola. Nunca se sentiu tão nua dona Flor, aquela mirada a medir-lhe a curva da bunda, a rigidez dos seios, a rosa do ventre. De apreciativo, tornou-se o olhar aprovador, e o amável sorriso de cortesia abriu-se em satisfeito riso.

Tudo isso sem lhe largar a mão, tendo-a presa na sua enquanto a desvestia e julgava.

Sim, porque lhe avaliava ao mesmo tempo corpo e espírito, concluindo estar diante de presa fácil e segura. Com sua experiência de don-juan do interior, classificou dona Flor de fingida e bem fingida. Conhecia essas mulheres de aparência mansa: quase todas umas impostoras, umas enganadeiras, quando, na cama, diabos soltos, desembestados.

Nas pequenas cidades sertanejas, onde a mulher não tinha nenhum direito, serva circunscrita à vontade do marido, seu senhor, e aos limites do lar, seu Aluísio surpreendera por mais de uma vez, no fundo de uns olhos baixos e no escondido de uma discreta postura, ardente resposta a seu impúdico convite.

Ah!, essas águas mansas escondem tempestades; sob aparente decoro e a reserva do luto, em que
tormenta interior não se debateria dona Flor, mulher jovem e sã?

terça-feira, junho 22, 2010

VÍDEOS

já não se pode ser mal educado...

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CANÇÕES ITALIANAS

DON BACKY - LA MIA ANIMA
...é uma linda canção!

CANÇÕES ANGLO-SAXÓNICAS

OPUS - LIFE IS LIVE
....a energia desta música é contagiante!

CANÇÕES FRANCESAS

JULIEN CLERC - UNE VIE DE RIEN
Nasceu em 1947, em Paris. Seu pai era um alto funcionário da UNESCO e o jornalista Gerard Leclerc era seu meio-irmão. Festejou os seus 40 anos de carreira no palco do Casino de Paris.

MÚSICAS BRASILEIRAS

LECI BRANDÃO - ME PERDOA POETA
nascida em 1944, cantora, compositora e uma das maiores intérprtes do samba com 20 albuns e 3 compactos. Desde 2003, é também membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial e dos Direitos da Mulher... a propósito, este samba é lindo!

CANÇÕES PORTUGUESAS

PAULO DE CARVALHO - FLOR SEM TEMPO
José Calvário é o autor da música . Falecido prematuramente com 58 anos (a 17 de Julho). Paulo de Carvalho felizmente continua entre nós. Vi-o há dias na TV, pareceu-me demasiado envelhecido. Chamavam-lhe "A VOZ" num elogio justo a fazer lembrar o Frank Sinatra.


DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 152



Terrível patriota portenho, esse senhor Bernabó, a estabelecer permanente paralelo entre a argentina e o Brasil, e sempre, é claro, com vantagem para a sua pátria; a salientar em conversas e discussões o desenvolvimento argentino, as riquezas, o clima – com as quatro estações bem definidas – não esse calorão daqui o ano todo – as estradas de ferro exemplares – não essa bagunça daqui – os trens sem horário – as frutas finas, europeias, o vinho, o pão de trigo puro, a carne farta e macia, de gado de raça. Dona Nancy em pânico quando o marido desembestava em civismo, saía de seu silêncio para contê-lo:

- Pêro, Bobo, acá tambien hay cosas buenas... Mira los ananases, por ejemplo... bueníssimos... – doida por abacaxis e temerosa de ver o marido num conflito, às voltas e às tapas com um patriota brasileiro dos brabos, um militante do me-ufanismo nacional.

Assim, aliás, quase acontecera e por mais de uma vez. Certa ocasião, num desses debates geoeconómicos, seu Chalub, do Mercado (filho de sírios, brasileiro de primeira geração e, por isso mesmo, chauvinista exaltado), perdeu as estribeiras e, rebaixando a fábrica de cerâmica a olaria de telhas e tijolos, lançou no rosto do iracundo Bernabó a pergunta incivil:

- Se a indústria de lá é tão melhor, se a vida é tão melhor, por que então você veio montar aqui a sua olaria?

Também o pintor Carybé ( o tal que fizera o retrato de Dionísia de Oxóssi vestida de rainha, empunhando o ofá e o erukerê), tendo ido estudar com o argentino a possibilidade de queimar em seu forno umas peças folclóricas, viu-se envolvido numa polémica sobre tango e samba, e findou por explodir:

- Coisa nenhuma… uma terra onde não tem mulatas, tudo umas brancarronas, isso é lugar onde ninguém more… Faça-me o favor!

No aniversário de seu Sampaio, porém, o intimorato defensor da grandeza argentina esteve cordialíssimo. Se exaltou a sua terra não o fez em detrimento das coisas brasileiras. Ao contrário, teceu verdadeiro hino ao povo da Bahia, à sua maneira de ser, sua gentileza, sua bondade. Foi assim o aniversário do lojista um sucesso social, apenas toldado pelo incidente (aliás, sem repercussão fora do círculo das amigas e comadres) entre dona Flor e seu Aloísio.

Dona Flor tivera dúvidas sobre se podia ou não comparecer às comemorações. Sendo jantar de tantos convidados, não adquiria carácter de festa, incompatível com seu estado de luto? Não completara ainda um ano da morte do marido; em verdade faltavam apenas uns poucos de dias, mas uma viúva deve ser rígida em seus princípios, pois a ideologia da viuvez é sectária e dogmática.

O menor desvio lança aos calcanhares da enxerida a alcateia das comadres, em condenação e repulsa.

Dona Norma riu de seus escrúpulos: desde quando um jantar, simples jantar de aniversário, era defeso às viúvas? Não se tratava de baile, nem mesmo de assustado; e se Arthur e seus amigos, rapazes e moças estudantes, pusessem um disco na vitrola e arrastassem um samba, pura brincadeira de jovens, não ia o passatempo inocente interferir com o rigor dos prazos na etiqueta
do luto, no cerimonial da viuvez, não ia escandalizar o defunto em sua cova.

segunda-feira, junho 21, 2010


ENTREVISTAS
FICCIONADAS


COM JESUS CRISTO
Entrevista Nº 32


Tema – Para que serve a oração?


Raquel – Depois de termos saboreado o peixe do lago da Galileia, estamos novamente com Jesus Cristo que não passava por estes lugares há dois mil anos. Com ele ainda temos vários temas pendentes. Pronto, Jesus Cristo?

Jesus Cristo – Pronto. Depois de comer pensa-se melhor.

Raquel – Podemos voltar aos milagres e às orações a pedirem os milagres?

Jesus – Claro, Raquel.

Raquel – Digamos, Jesus Cristo, se Deus não faz milagres, como o senhor nos explicou para que serve rezar e andar pedindo saúde, trabalho, ficar bem no exame? Serve de alguma coisa?

Jesus – Serve de nada e de muito. Recordo um dia aqui em Cafarnaum. A sogra de Pedro estava muito mal. Não havia como aliviá-la, estavam rezando por ela. Eu fui, dei-lhe a mão, conversei, contei-lhe umas graças, fi-la rir… e ela melhorou. Tanto, que se levantou e até nos preparou a ceia… por certo uns peixes como aqueles que comemos.

Raquel – Mas… curou-se?

Jesus – Aliviou por uns dias. Já era muito velha. Teve uma morte rápida. Era o seu tempo.

Raquel – Mas se a sua família rezava e o senhor não fez o milagre de curá-la, para que nos conta essa história?

Jesus – Para que entendas que a oração não é para pedir milagres mas para pedir forças. Deus não altera as leis da natureza para fazer milagres. Não as vai alterar por ti, pelas tuas orações. Deus é justo, tê-las-ia que alterar para todos os seus filhos, incluindo os que não rezam…

Raquel – E se eu não consigo o milagre para que peço forças?

Jesus – Para que levantes a cabeça, te enchas de coragem e deixes de te lamentar, entendas que a vida prossegue e tudo isso te dará ânimo, talvez até te cure.

Raquel – E se não me curo?

Jesus – Se não te curares, não te sentirás só. Saberás que Deus está contigo, que te dará a mão numa má hora. Naquela tarde, com a sogra de Pedro, eu fui a mão de Deus para ela. Dei-lhe forças para ela se levantar e depois, quando morreu, também lhe dei a mão até ao fim. É para isso que serve a oração, para te sentires acompanhado, aconteça aquilo que acontecer.

Raquel – Muita gente encontra essa energia em amuletos, pedras, imagens, relíquias, escapulários… que pensa o senhor de tudo isso?

Jesus – Se isso os ajuda… Vi crianças que só conseguiam adormecer agarradas a um boneco.

Raquel – Então não pedimos nada a Deus? O senhor pedia-lhe o pão de cada dia.

Jesus – Pois pedia, mas logo a seguir saía a procurá-lo. Porque não basta rezar. Minha mãe ensinou-me que. “ajuda-te que Deus te ajudará” e o meu pai sempre nos repetia: “a Deus rogando com o martelo dando”.

Raquel – Uma última pergunta. Dizem que o senhor orava nos montes. Era alguma invocação misteriosa?

Jesus – Não, nenhum mistério… se eu já te disse que falava com Deus. Tu não falas com a tua mãe, com o teu pai, com os teus amigos sobre aquilo que se passa? Se estás triste falas com alguém que te escute e repartes com esse alguém a tua tristeza. Se estiveres alegre conversas e multiplicas a tua alegria. Também para isso serve a oração.

Raquel – E os ouvintes que pensam de tudo isto? Com que “amuleto” seguem na vida? Ou com que oração?

Emissoras Latinas estão à vossa disposição e Jesus Cristo também… desde que não seja para fazer milagres.

De Cafarnaum, Raquel Perez


NOTA

No tempo de Jesus, as pessoas simples de Israel, viam Deus como um rei longínquo, distante, e rezar era uma forma de lhe prestarem homenagem. Por esta razão, orava-se segundo fórmulas rígidas, solenes, estabelecidas em antigas tradições.

Jesus ensinou aos do seu grupo a oração do Padre-Nosso chamando, inclusivé, papá a Deus e com tanta espontaneidade e confiança criou uma novidade. Com o Padre-Nosso, mais do que uma fórmula rígida para ser
repetida em oração, Jesus propunha uma nova relação de confiança
e
proximidade com Deus.


UMA HISTÓRIA DE FREIRAS







Um soldado chegou a correr a uma encruzilhada na estrada e encontrou uma freira.

Sem fôlego, ele pediu:

- Por favor, irmã, posso esconder-me por baixo das suas saias por um momento, eu explico-lhe o motivo mais tarde.

Um instante após, dois soldados da Polícia do Exército chegam a correr e perguntam à freira:

- Irmã, a senhora viu um soldado por aqui, a correr?

A freira respondeu:
- Ele foi por ali!
Após os dois PE desaparecerem na curva, o soldado saiu debaixo do hábito da Freira e disse:

- Não lhe posso agradecer o suficiente, irmã, mas é que eu não quero ir para o Iraque.

A irmã responde:


- Acho que posso compreender inteiramente o seu temer.

O soldado então disse:

- Espero que a senhora não me ache impertinente, ou rude, mas a senhora tem um belo par de pernas.

Ao que a freira disse:

- Se você tivesse olhado um pouco mais para cima, teria visto um belo par de tomates... É que eu também não quero ir para o Iraque !!!

CANÇÕES FRANCESAS

GILBERT MONTAGNIER - ON VA S'AIMER
nasceu em Paris, em 1951, cantor, pianista e organista. É cego de nascença e o seu sucesso está ligado a uma outra canção, "The Fool"

CANÇÕES ITALIANAS

ADRIANO CALENTANO - SOLI
A necessidade de estar só neste mundo confuso e barulhento.
... é inútil tocar a campainha aqui não abrirá ninguém...
...deixámos fora o mundo com as suas confusões...

CANÇÕES ANGLO -SAXÓNICAS

QUEEN - CRAZY LITTLE THING CALLED LOVE
um grande cantor... um grande músico...dos maiores.

CANÇÕES BRASILEIRAS

DORIVAL CAYMMI - O MAR
O tema da canção coincide com o autor. Caymmy é gigantesco como o mar. Simples e grandiosa esta canção que desperta saudades aos mais velhos....

CANÇÕES PORTUGUESAS

KATIA GUERREIRO - PONHAM FLORES NA MESA
uma linda combinação dos sons da guitarra, da voz da Katia... e das rosas, que ela quer em cima da mesa porque hoje não lhe apetece chorar....

DONA FLOR

E SEUS DOIS

MARIDOS


EPISÓDIO Nº 151



Glutão, porém parcimonioso, seu Sampaio discutira (como fazia todos os anos), propondo à esposa nada preparar em casa, saindo para comer, com ela e o filho, num restaurante: comeriam bem e muito em conta, sem barulho e sem confusão, sem maiores despesas. Como também o fazia todos os anos, desde o casamento, dona Norma reagiu ao prudente e parco alvitre: um jantar americano era o mínimo que podiam oferecer sem desdouro a seu vasto círculo de relações.

Na cama, o dedo grande enfiado na boca, seu Zé gastara os últimos argumentos numa exposição a seu ver irrespondível:

- Sou contra por todas as razões e todas elas válidas.

- Diga-me lá suas razões, mas não me venha com a velha história que a venda dos sapatos está baixando, porque eu vi as estatísticas…

- Não é nada disso… Ouça sem me interromper. Primeiro eu não gosto desse negócio de jantar americano, todo o mundo em pé. Gosto de comer sentado na mesa. Nesse troço americano que vocês inventaram agora, fica todo o mundo cercando a mesa, e eu, que sou encabulado, acabo comendo as sobras; quando vou me servir já comeram toda a frigideira; só tem asa de peru, o peito já se foi. Terceiro: ainda pior sendo aqui em casa. Como dono da casa tenho de me servir por último e aí não encontro nada, fico na mão. Como pouco e mal… Quarto: no restaurante, não. A gente senta, escolhe os pratos – e, como é dia de aniversário, cada um pode comer dois pratos…- esses dois pratos eram sua comovente concessão à família e à gula.

Dona Norma mal aguentava ouvir até ao fim:

- Zé Sampaio, faça favor, não seja ridículo. Primeiro: somos convidados para tudo quanto é aniversário…

- Mas eu nunca vou…

- Vai pouco mas às vezes vai… E quando vai come por cinco… Segundo: não me venha com essa conversa que em jantar americano você se serve pouco, que é encabulado. No aniversário de seu Bernabó, a que você foi só porque o homem é estrangeiro, você botou em seu prato quase metade do suflê de camarão, sem falar nas empanadas… Uma esganação…

- Ah! – gemeu seu Sampaio – a comida de dona Nancy é uma beleza…

- A minha também… Não fica a dever nada… Terceiro: aqui em casa você nunca se serviu por último, é o primeiro a se servir, uma má educação, nunca vi igual. Uma feiura, o dono da casa… Quarto: em jantar meu não falta comida, benza Deus. Quinto: comida de restaurante…

- Basta… - suplicou o comerciante, envolvendo-se todo nos lençóis – eu não posso discutir, estou com a pressão alta…

Jantar de dona Norma era banquete; se convidava vinte, fazia comida para cinquenta; com razão, pois toda a pobreza em redor vinha limpar os fundos das panelas, beber as sobras das garrafas.

Naquele ano, o aniversário de seu Sampaio trouxe toda a vizinhança à sua casa; inclusive os Bernabós, dona Nancy buscando entrosar-se na roda das amigas, seu Hector a falar de negócios e
a alardear o progresso da Argentina.

domingo, junho 20, 2010



O EVANGELHO
segundo
JESUS CRISTO


José Saramago


Por uma coincidência, concerteza muito invulgar, estava de férias na praia, a ler, creio que A Jangada de Pedra de José Saramago, quando a comunicação social anunciou a atribuição ao escritor do Prémio Nobel.

Lembro-me que segurei com força o livro entre as minhas mãos enquanto sentia invadir-me por um misto de enorme orgulho e alegria.

Eu era um admirador de José Saramago desde a leitura do Memorial do Convento. Aquela forma de escrita, aquele enredo, aquela enigmática e misteriosa personagem da Blimunda, deixaram-me surpreendido, encantado.

Recordo, que em determinadas passagens da leitura me levantava, livro nas mãos, dirigia-me à secretária do meu amigo Cláudio e dizia-lhe:

- "Cláudio, ouça-me aqui esta passagem…"

Mas foi o Evangelho segundo Jesus Cristo o livro que mais me tocou e enterneceu.

Um “ayatola” qualquer da religião católica de Roma, que então era secretário de Estado, proibiu a candidatura desta obra a um prémio literário europeu. Triste e revoltado, José Saramago saiu de Portugal e foi residir para Espanha, para a ilha de Lanzarote, que já tive a oportunidade de conhecer e cuja beleza, de uma riqueza agreste no geral e delicada no pormenor, contudo surpreendente, ainda a lembrar a violência das erupções vulcânicas que estiveram na sua génese, parece ter alguma coisa a ver com o autor e a sua obra.

Um pequenino trecho (pags. 363) de uma passagem deste livro, já na sua parte final, livro que a intransigência, o sectarismo e as muralhas que nascem em alguns espíritos, tornaram polémico. Inútil, estúpido, e despropositadamente polémico…:


- “Manhã de nevoeiro. O pescador levanta-se da esteira, olha pela fresta da casa o espaço branco e diz para a mulher, Hoje não vou ao mar, com uma névoa assim até os peixes se perdem debaixo de água. Disse-o este, e, por iguais ou parecidas palavras, também o disseram os demais pescadores todos, duma margem à outra, perplexos pela extraordinária novidade de um nevoeiro impróprio da época do ano em que estamos. Só um, que pescador de ofício não é, ainda que com os pescadores seja o seu viver e trabalhar, assoma à porta da casa como para certificar-se de que é hoje o seu dia, e, olhando o céu opaco, diz para dentro, Vou ao mar. Por trás do seu ombro, Maria de Magdala pergunta, Tens de ir, e Jesus respondeu, Já era sem tempo, Não comes, Os olhos estão em jejum quando se abrem de manhã. Abraçou-a e disse, Enfim, vou saber quem sou e para o que sirvo, depois, com uma incrível segurança, pois o nevoeiro não deixava ver nem os próprios pés, desceu o declive que levava à agua, entrou numa das barcas que ali se encontravam amarradas e começou a remar para o invisível que era o centro do mar.”
Aos 88 anos, a morte interrompeu agora, definitivamente, a produção literária de José Saramago... um grande prejuizo para todos nós, independentemente
da nacionalidade, convicção religiosa ou ideologia política.

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