sábado, setembro 05, 2015

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Este senhor é judeu e aquele é o muro das lamentações, o local mais sagrado para os seguidores de Jeová, e o que resta do Templo depois da sua destruição  pelos Romanos no Ano 70. Como percebem, com as novas tecnologias, aquele fiel pretende melhor comunicação com o Além através  do telemóvel.





Mixórdia de Temáticas - Acordo Ortográfico



Alceu Paiva Valença (São Bento do Una, 1 de julho de 1946) é um cantor e compositor brasileiro. Seu disco de estreia foi gravado em parceria com Geraldo Azevedo.


Nasceu no interior de Pernambuco, nos limites do sertão com o agreste. Influenciado pelos maracatus, cocos e repentes de viola, Alceu conseguiu utilizar a guitarra com baixo elétrico e, mais tarde, com o sintetizador eletrônico nas suas canções.



Houve quem gastasse até ao último dez réis
Tocaia Grande
(Jorge Amado)

Episódio Nº 330


















Sem sair do lugar, as pastoras movimentavam os pés nos passos do bailado, obedecendo à orquestra de sanfona, bombo e cavaquinhos.

A Senhorita Dona Deusa evoluía com o estandarte - uma face azul, a outra cor-de-rosa. Na azul, em letras cor-derosa, o nome do reisado: na cor-de-rosa, as letras eram azuis, feitas umas e outras com retalhos de fazenda: REISADO DE LEOCÁDIA BENVINDA DE ANDRADE.

Quem tiver seu boi
Que prenda no mourão
Que eu não tenho roça
Pra boi ladrão.

Os espectadores dividiam suas simpatias entre os dois cordões na disputa do estandarte: a Senhorita Dona Deusa o entregaria, no final, à ala que recebesse, em moedas de vintém e de tostão, maiores provas da preferência do público.

Houve quem gastasse até o último dez réis colocando-o no bolso do avental azul ou encarnado dessa ou daquela pastora.

Zinho, e Balbino se bateram níquel a níquel até ficarem limpos. Zinho, patrono de Cleide, a pastora Ribeirinha do cordão azul, Balbino sustentando as cores do encarnado na pessoa de Chica, filha de Amâncio, o Temeroso, menina-moça de olhares e requebros de mulher feita, a gentil pastora Juriti.

O Caboclo Gostosinho foi buscar o Boi e o trouxe de volta ao centro das alas depois de tê-lo levado a reverenciar o Capitão e Fadul, Coroca e seu Carlinhos Silva, sia Natalina, José dos Santos e sia Clara.

O palhaço Mateus fez sua entrada, vadiando com os meninos, gracejando com as mulheres, virando cambalhotas, a cara pintada com alvaiade.

Dirigiu-se ao Caboclo, propondo comprar- lhe o Boi por três vinténs:

Eu tenho um vintém
Jaci me deu dois
Pra comprar de fita
Pra laçar meu Boi

O coro das pastoras respondia:

Oi, iaiâ, oi
O Boi que te dá

Enquanto Mateus cantava sua parte, surgiu da escuridão o Jaraguá, envergando a horrenda vestimenta de Besta-Fera, o corpo escondido numa armação de varas de bambu, revestida de chita, uma carcaça de jumento fazendo as vezes de cabeça.

Investia em pragas e bufas, espalhava o povo, dava medo. As pastoras denunciaram-no:

Lá vem o Temeroso
Que bicho feio

Feio e malvado. Saltou sobre o Boi, lutou com ele - o Boi usando os chifres, Jaraguá armado de poderes infernais – em combate tremembundo, conforme comentou Mateus dirigindo-se à assistência.

Segurando o Boi pelos cornos, Temeroso o derrubou no chão e, sem piedade, o matou.


Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)

Episódio Nº 51




















Sei do que falo, embora eu até fosse o que menos olhasse para as mouras, sobretudo a partir daquela Páscoa em Viseu.

De qualquer forma, todos sabíamos que Fátima era virgem e que nunca se amigara com um cristão, pois destilava ódio aos seguidores de Jesus.

Já a sua irmã Zaida, apesar de também intocada, era meiga e carinhosa, e dizia sempre que herdara o espírito sensível e caloroso dos haréns de Sevilha, do tempo do seu bisavô e rei Al-Mutamid, onde as mulheres se beijavam umas às outras, na aprendizagem constante dos prazeres mais profundos, que depois praticavam com os homens.

Ela e a mãe dormiam na mesma cama, mas Fátima nunca participava nessas distracções, parecia fechada à festa dos sentidos.
Em comum, as irmãs só tinham o negro dos olhos e dos longos cabelos.

Enquanto Fátima apresentava um perfil agreste, cheio de arestas no rosto, Zaida era redonda de cara e de corpo, parecida com Zulmira, que topava os olhares gulosos que cristãos e moçárabes deitavam à filha mais nova, bem como os piropos com que homens e mulheres a brindavam!

Em família, como anos mais tarde me confessou, Zaida pagava um preço pela sua popularidade. Com ciúmes, Fátima chamava constantemente de gorda ou balofa, acusando-a de comer de mais e não fazer exercícios.

Todavia, ela não parecia importar-se. Não nascera para ginástica nem para a guerra. “Não sou nenhuma amazona, sou assim e tu és como és, nenhuma está mal ou bem”, proclamara um dia, e a partir dessa data a irmã nunca mais a chamara para treinar com espadas ou punhais.

A minha Maria Gomes diria certa vez que Zaida era um pote de mel, enquanto Fátima era uma vespa impetuosa. Com um carácter fluido e volúvel, Zaida nunca se enfurecia contra os outros ou contra o destino e parecia sempre contemplativa e em paz com o mundo.

Contudo, faltava-lhe a energia primária e bruta da irmã, e talvez por isso fosse dada a doenças. Por isso ou porque lia de mais, apanhando pouco sol e muito pó.

O seu maior prazer era correr para as bibliotecas da Sé de Coimbra ou do Mosteiro de Guimarães, onde passava os dias a devorar páginas, a ponto de preocupar a mãe, a quem ela parecia muitas vezes aluada, a viver num eterno mundo de fantasia e com demasiada curiosidade pelo velho Testamento.

Nove anos depois daquela manhã em Coimbra, em que perdera as esperanças de que o marido Taxfin, as salvasse do cativeiro, Zulmira mantinha como imperativo moral da sua existência a fidelidade ao Corão, o seu fascínio pela Génesis levava a mãe a temer que ela cedesse a essa interdita tentação.


Joana Amaral Dias e o seu companheiro
O Nu de Joana
Amaral Dias












Enquanto Joana Amaral Dias, cabeça de lista por Lisboa, do partido Agir, de extrema esquerda, ela que já foi deputada do Parlamento pelo Bloco, se deixa fotografar abraçada pelo namorado, dez anos mais novo, de quem vai ter um filho, mostrando toda a sua nudez  na capa da Revista Cristina, Passos Coelho, ao contrário, esconde-se.
Não é só não dar o corpo ao manifesto, como a Joana Amaral, é não ir conversar com os Gato Fedorento, não aceitando o convite como fez em anos anteriores, é boicotar a entrevista colectiva de líderes na TV e, vamos ver, se será entrevistado pela SIC e RTP.
É um apagamento voluntário, as sondagens animam-no, quem sabe se neste último mês, com ele escondido, os portugueses não vão esquecer o que ele lhes fez nos últimos quatro anos?
Sempre comedido, meneando a cabeça numa concordância perpétua, sem elevar o tom de voz, ele mantêm-se impassível em obediência à estratégia delineada para a campanha.
Eles sabem que os portugueses apreciam este estilo. Com excepção dos comunistas, o povo, no antigamente, respeitava e apreciava a figura do Salazar, exactamente porque ele era uma pessoa distante, superior, desprendida das coisas, sempre com um ar austero.
Filipe La Féria não o quis quando ele se lhe ofereceu para tenor porque não o considerou bom de palco, ficando-se a saber hoje que tinha razão porque as sondagens favoreceram-no quando ele desaparece de cena.
A estratégia da campanha está delineada ao pormenor pela Coligação, tudo pronto, até o local onde terá lugar o discurso da vitória a 4 de Outubro.
Entretanto, as rotundas do país, continuam a aguardar o plakar com o rosto de Passos Coelho que aparecerá, certamente, nos últimos dias de campanha.
“Um rosto com os cantos da boca caídos e botox mental que lhe permite o ar grave, com os olhos que se esvaziam à medida que a voz se torna colocada”, no dizer de Ferreira Fernandes.
Passos coelho é um estereótipo de político. Tudo nele é estudado e ensaiado e agora percebemos melhor porque tirou um curso inferior em vez de um superior. O que ele estudou verdadeiramente, foi Ensaio para Político e, no grupo dele, efectivamente, ninguém desempenhava melhor esse papel pelo que, a escolha de José Relvas, foi automática e sem hesitações: é este que vai mandar no partido e depois no país.
Agora, ele espera e acredita na falta de memória de populações envelhecidas e ameaçadas insistentemente pela banca rota do Sócrates, que já foi das outras eleições mas que também serve para estas à falta de qualquer outra coisa.
Nesta sociedade, cada vez mais fora da compreensão das pessoas, em que acontecem coisas tão estranhas como a falência do Espírito Santo, o Dono Disto Tudo, como não ter medo?
Se o Ricardo E. Santo está preso em casa, e José Sócrates saiu ontem da prisão de Évora para a domiciliária, como não ter medo se os poderosos são tratados desta maneira?
Salva-nos, Passos Coelho, prometemos-te não ser mais piegas!

sexta-feira, setembro 04, 2015

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Tempos vão... tempos vêem.




Mixórdia de Temáticas - Anita vai às Compras


Elvis Presley - No More


Em calções de banho ou fato com lantejoulas, a voz é sempre a mesma e única.



Chegou as moreninhas, oi que dança almofadinha
Tocaia Grande
(Jorge Amado)




Episódio Nº 329




















Os habitantes do lugar que não participavam do reisado nem por isso mostravam-se menos orgulhosos. Misturados à malta de forasteiros, arrotavam importância e gabolice no louvor do Reisado de Sia Leocádia, ostentação de Tocaia Grande.

Em Taquaras um bumba-meu-boi saía à rua nas festas dos Reis Magos. Desanimado e pobre, meia dúzia de pastoras esfarrapadas, figuração de merda: sacos velhos de aniagem fazendo as vezes do couro do Boi, o Vaqueiro esmolambento, a Caapora vestida de folhagem trazida do mato e se acabou.

Comparado com o reisado de Tocaia Grande, uma lástima.

Ao desembocar no descampado, os figurantes do pastoril haviam atingido o auge da animação no calor da dança já dançada e dos tragos já emborcados: o suor escorrendo pelos rostos, os pés descalços, negros de poeira, o bodum solto no ar, inebriante.

Montada em seus sapatos comprados na loja de seu Américo, em Estância, a alta travessa no cocuruto da cabeça -  coroa inconteste de rainha! - sia Leocádia equilibrou-se em cima de um caixão de querosene, vazio, trazido do armazém do turco.

Com suas ossudas mãos de octogenária bateu palmas e pediu silêncio: o reisado ia iniciar suas jornadas.

Balbúrdia, barafunda, gritaria, gargalhadas, dichotes, palavrões, diabruras dos moleques com toda a corda, tremenda barulheira: o rogo de sia Leocádia, velhinha frágil e miúda, mais do que um absurdo, era perda de tempo, tolice sem tamanho.

Pois bem: mal ela bateu palmas e anunciou o começo da função, cessou todo e qualquer bulício, o silêncio foi total, absoluto.

Nem o mais leve rumor, apenas as respirações ansiosas, o palpitar dos corações.

A apresentação se iniciou com o Canto da Pedição e os benditos, as danças dos cordões e as das pastoras, jornadas já vistas e ouvidas nas casas particulares, nem por isso menos aplaudidas:

Chegou as moreninhas
Oi que dança almofadinha.


Daí em diante tudo foi novidade, encanto e fantasia. Do centro das alas destacou-se o Boi para fazer a sua entrada. Começou por botar a molecada para correr, ameaçando chifrar os mais ousados, enquanto o figura cantava o Canto da Entrada do Boi:

Quem tiver seu boi
Que prenda no curral
Que eu não tenho roça
Pra boi soná


Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)




Episódio Nº 50

















Fátima apontou o dedo para um curral nas traseiras dos edifícios, onde eram visíveis vários suínos a chafurdarem na lama.

. Estava a falar daqueles.

Veloz de espírito, Raimunda retorquiu-lhe:

- Os porcos deram tal susto ao vosso califa que ele se borrou de medo e há nove anos que não volta.

Fátima preparava-se para disparar nova salva de crueldades, quando Zulmira se intrometeu, evitando o azedar da polémica.

- E vós, não ides à missa? É Sexta-Feira Santa.

Raimunda enfrentou a distinta muçulmana com uma ponta de hostilidade, responsabilizando-a pelo desbragamento da filha.

- Tendes de pôr pimenta na língua da Fátima!



Nove anos depois da bulha infantil com Afonso Henriques, a mais velha das meninas mouras continuava uma fera bravia e indomável.

Contava-se que certa vez tentara convencer o moçárabe de Coimbra a organizar uma fuga, levando-a dali com a mãe e a irmã, provavelmente com destino a Córdova.

A partir de então todos andavam de olho nela e rapidamente denunciavam qualquer engenhoso plano que elaborasse para se escapulir.

Frustrada, a jovem moura vingava-se com ditos excessivos e cruéis, com os quais fustigava os cristãos.

Embora por vezes temesse as imprevisíveis consequências da linguagem da filha, recordo-me bem do orgulho que Zulmira tinha nela, tão esperta e combativa.

Além disso, e ao pé da minha prima Raimunda que era só pele e ossos, Fátima destacava-se, exuberante e vistosa.

Os longos cabelos negros, sempre desalinhados, o nariz fino e espetado, as sobrancelhas escuras e suaves, o queixo pontiagudo e uns olhos escuros, que pareciam azeitonas de Andaluzia a brilharem ao sol depois de colhidas, não faziam de Fátima uma mulher demasiado bela, como a irmã Zaida era, mas mesmo assim fascinava os machos com a forma como mexia as ancas, a maneira como se empertigava, espetando os pequenos seios para a frente, para que reparassem neles.

A Televisão










Há uns anos atrás, já bons, um amigo meu, engenheiro numa fábrica de fazer azeite, hoje uma grande marca de azeites comercializada em Portugal, e a que eu, em rapaz, chamava simplesmente de lagar de azeite, porque o meu avô tinha um que fazia as minhas delícias durante as férias de Natal.
Lá passava os dias, entretido, entre seiras, capachos e o bagaço da azeitona. Mas, o que eu mais gostava, era quando me sentava para almoçar com os trabalhadores, a sopa de couves com feijão que a minha avó tinha posto a cozer ao lume da lareira logo de madrugada e que, à hora da comida, era despejada sobre um grande prato de lata, base de uma medida de 10 litros, de onde todos comíamos, depois do mestre a regar com azeite acabado de fazer, a saber ainda à oliveira, e ele próprio começar a comer, por uma questão de respeito. Coisas de outros tempos…
Mas, dizia-me esse amigo engenheiro, que em casa dele não tinha televisão e que as filhas, se quisessem, fossem vê-la a casa das amigas. Tinha sido uma opção dele.
Passados todos estes anos não sei se o meu amigo engenheiro, de então, já tem televisão ou continua fiel à opção feita.
Eu tenho televisão, daquelas 3D, com uma imagem tão nítida e perfeita que até parece bruxedo, mas a utilização que hoje lhe dou é diferente.
Para não me alongar muito, direi que migrei. Não consegui acompanhar os gostos dos meus concidadãos que alimentam os canais generalistas e fui-me embora, ver algum desporto, dois ou três desafios de futebol ao fim de semana, os grandes torneios de ténis e de atletismo e os canais temáticos, perfeitamente inofensivos, da Odisseia, National Geografic e História.
Fujo, principalmente, dos telejornais cujas notícias já li, logo de manhã, no meu Diário de Notícias, enquanto no Café tomo o pequeno almoço.
As imagens da televisão que acompanham as notícias são escolhidas para nos ferirem a sensibilidade, chocarem-nos, como se fôssemos todos masoquistas e gostássemos de sofrer.
Quem se fixe muito nelas, corre o risco de ter pesadelos e ver a sua casa a arder quando, na época dos fogos, que entre nós entra pelo Setembro dentro, recebe, na sua televisão da sala, "overdoses" de mato e árvores a arderem, com os bombeiros em segundo plano e um senhor em destaque, com um microfone nas mãos, que nos repete por várias vezes e quase sempre de forma atrapalhada, a descrição do que, nós próprios, estamos a ver.
Pior, agora, é o de podermos acordar com pesadelos de rostos de pessoas, homens, mulheres e crianças, elas de cabeça coberta com um lenço, e todos de feições inexpressivas que espreitam do quintal da nossa casa para o quarto onde dormimos e nos dizem, na indefinição do seu olhar: “estamos aqui e queremos entrar”.
Eu tive um pressentimento mau a quando das “primaveras árabes” vividas em 2010 por quase todos os países do Norte de África de onde agora fogem, em reportagens de então cheias de optimismo, como era documentado.
- Como iriam eles concretizar os sonhos que estavam a festejar? – Foi este o pressentimento que tive, mau, perigoso, mas não nada disto. Era impossível.
O que está a acontecer é muito pior que tudo aquilo que de mau se pudesse pensar. Só um catastrofista o poderia imaginar e, mesmo esse, tenho muitas dúvidas que tivesse imaginação suficiente.
Será deste mundo imagens de homens a cortar pescoços de outros homens ajoelhados a seus pés e a televisão fazer a transmissão dessas cenas para as nossas casas?
Não há palavras, não há pensamentos, apenas a vontade de não acreditar, aquilo não podia ser verdade, não podia ter acontecido.
Mas, se aconteceu, por que não partiram no outro dia os exécitos dos países ocidentais: ingleses, franceses, americanos, em perseguição daqueles criminosos?
- Porque continuam eles a matar e a destruir sem que ninguém os afronte directamente?
- Julgavam que o Mar Mediterrâneo seria obstáculo suficiente para impedir que as pessoas fugissem daqueles loucos perigosos?
Não! É tudo demasiado mau. Para salvaguarda da estabilidade do nosso espírito, para podermos dormir sem pesadelos, temos mesmo que migrar dos canais generalistas e de notícias da televisão.
Fiquemo-nos pela leitura do jornal enquanto tomamos o pequeno almoço porque este é o mundo que existe e nós estamos nele. Só por isso.

quinta-feira, setembro 03, 2015

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Não sei se os peixes ela atrai... Os cisnes adoram ouvi-la.


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A Laurinha


Mixórdia de Temáticas - Experiência pós Morte


Putas, nem se fala
Tocaia Grande
(Jorge Amado)

Episódio Nº 328























Acordado pela cantoria e pelo baticum do bombo, o papagaio
Vá-Tomar-no-Cu alvoroçou-se no poleiro: sacudia as asas, gritava palavrões enquanto todo o figurá se reunia para entoar as estrofes finais:

Eu vou embora
Pra minha terra
Vou voltar meu pessoal

A última volteada na sala, o reisado acenava adeus:

Quitariô, quilariá
A Estrela-D Alva
quilareia lá no mar

Vacilante luz de vaga-lumes, as lanternas das pastoras na descida da colina, atrás a população de Tocaia Grande, acrescida do capitão Natário da Fonseca, de sia Zilda e dos filhos do casal, os de sangue e os de criação.


13


Dançaram e cantaram, comeram e beberam, folgaram à la vonté, em diferentes casas e locais, homenageando pessoas que
haviam concorrido para a saída do reisado: os tamanqueiros Guaraciaba e Elói Coutinho, Guido, Lupiscínio, o Turco Fadul, sai Natalina, dona Valentina e Jucá Neves, donos da Pensão Central, sem esquecer Coroca: a casa de madeira, na Baixa dos Sapos.

Concluíram o percurso da amizade no deposito de cacau seco onde, ao som do bombo oferecido por Koifman & Cia, o pastoril agradeceu a seu Carlinhos Silva o apoio e o interesse: o comprador de cacau não perdera um só ensaio, de tudo tomando nota quando não estava batendo coxa nos assustados.

A apoteose, porém, o nunca visto, cujo registro se faz obrigatório, ocorreu no descampado, diante do barracão, no local da feira, já noite fechada.

Não faltara um único vivente, à exceção de Altamirando, conforme se contou. Das Dores, sua mulher, esteve presente, mas demorou-se pouco; desde que deixara o sertão não tornara a ver um terno de pastoras: gostava tanto! Vieram os moradores dos dois lados do rio, os do arraial e os dos roçados: velhos, adultos, moços e meninos, os pequeninos da última parição escanchados nas ancas das mães.

Quem visse aquele mundão de gente reunido no descampado poderia até pensar que Tocaia Grande era uma vila populosa, pois das fazendas haviam chegado levas de alugados e mateiros e o tráfego das tropas crescera nas noites de Reis.

Putas, nem se fala.


Diálogo entre
um homem
e uma mulher




Mulher:
- Você bebe?

Homem:
- Sim.
Mulher:
- Quanto por dia?
Homem:
- 3 uísques.
Mulher:
- Quanto paga por um uísque?
Homem:
Cerca de €10.
Mulher:
- Há quanto tempo você bebe?
Homem:
- Há 20 anos.
Mulher:
- Se um uísque custa €10 e você bebe 3 por dia = € 900 por mês = €10.800 por ano, certo?
Homem:
- Correcto.
Mulher:
- Se num ano você gasta €10.800 sem contar com a inflação, em 20 anos você gastou €216.000, certo?
Homem:
- Correcto.
Mulher:
- Você sabia que com esse dinheiro aplicado e corrigido a juros compostos durante 20 anos você poderia comprar um Ferrari?
Homem:
- Você bebe?
Mulher:
- Não.
Homem:


- Então ... onde está a porra do seu Ferrari ?

Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)

Episódio Nº 49


















Não só se amigava com o primo Tougues, como tempos antes, em ponte de Lima, se amigara com Ramiro! E agora, descarada, fazia olhinhos de corça ao pai dele!

Aquelas pequenas nódoas na reputação da vivaça moça, sussurradas a ouvidos atentos e espalhadas por línguas palradoras, aniquilariam qualquer possível enlace com Afonso Henriques.

O príncipe jamais casaria com uma tola que rodava de mão em mão.

“Jumenta, vou dar cabo de ti”, foi o que pensou a minha prima Raimunda, cada vez mais brava. Só depois olhou para Ramiro e teve pena dele.

Estarrecido, o pobre rapaz, não conseguia balbuciar palavra enquanto vira o pai partir, de braço dado à beldade.

Raimunda também sentiu uma certa cumplicidade de estatuto. Ramiro e ela eram semelhantes: os ilegítimos, os bastardos, cujo futuro seria a guerra ou o mosteiro.

 - Ninguém nos quer para casar - lamentou-se depois minha prima.

Ao longo da vida, dei-me conta de que o infortúnio de nascença é razão de muitos ódios, e há quem nunca se liberte da sua condição de partida.



Viseu, Sexta-Feira Santa, Abril de 1126



- Quem andais a espiar outra vez, ó vara de virar tripas?

Rodando os pés no chão, Raimunda deu de caras com Fátima e com Zaida, as filhas de Zulmira, que as seguia coberta por um manto roxo.

 - Julgava-vos em Coimbra – exclamou minha prima surpreendida.

Fátima libertou uma gargalhada desdenhosa, enquanto a irmã se refugiava na sombra da mãe. As três mouras continuavam prisioneiras dos cristãos, uma década depois de terem sido apanhadas.

Fátima contava já dezanove anos, enquanto Zaida ia nos dezasseis.

Por vezes acompanhavam a corte de Dona Teresa e haviam conhecido Guimarães e o Porto, Tui e Lamego, Braga e agora Lamego.

No inverno do ano anterior haviam mesmo peregrinado até ao mosteiro de Sahagún, passando de caminho por Astorga e Zamora, mas depois Zulmira adoecera de forma inesperada durante a descida para Toledo, a última cidade que estava previsto conhecer naquele longo passeio, e regressara mais cedo a Coimbra com as filhas, enquanto Dona Teresa seguia até à antiga capital visigótica.

Viemos festejar a Páscoa com os porcos – disparou Fátima.

A filha bastarda de Ermígio Moniz semicerrou os olhos, irritada.

- Vede como falais, não tenho medo de vós.

Francisco Seixas da Costa
Francisco Seixas da Costa
(Embaixador)





O curioso debate ontem entre Catarina Martins (Líder do Bloco de Esquerda) e Jerónimo de Sousa (líder do Partido Comunista Português) constatou uma realidade insofismável: o verdadeiro adversário que ambos se propõem abater é, como já se suspeitava, o Partido Socialista.

Amáveis um com o outro - longe parecem idos os tempos de um ódio figadal, quando PCP pensava ter a sua existência em perigo pelo crescimento do Bloco -, os simpáticos representantes da "esquerda da esquerda" há muito perceberam que é na disputa das franjas de simpatizantes do PS (o Bloco debate-se ainda com a "cissiparidade" histórica da extrema-esquerda) que estão as suas margens possíveis de crescimento. Ou os riscos de diluição de apoios.


Um governo de esquerda moderada é o mais perigoso cenário para a progressão eleitoral do PCP e do Bloco, partidos cuja contribuição objectiva para a construção de uma qualquer alternativa política é pouco mais nula, porquanto alimentam posturas sobre questões tidas por essenciais para o posicionamento identitário do país no plano externo que não são compatíveis com nenhuma outra força política com condições de governar, desde logo o PS. PCP e Bloco não gostam do conceito de "arco da governação", que consideram excluí-los.

O curioso e óbvio é que são eles próprios quem cuida em se pôr de fora desse "arco".
Imagina-se que, na noite de ontem, os espíritos para os lados da Santana à Lapa e do Caldas devem ter estado bem altos. Têm razões para isso.

Nas quatro semanas que aí vêm, PSD, CDS, PCP e BE reencontrar-se-ão nessa frente comum contra esse temível adversário que os ameaça - o PS. Como nunca deixarei de lembrar, esta "santa aliança", este "bloco lateral" direita/esquerda, não traz essencialmente nada de novo: foi precisamente o mesmo que derrubou o governo do Partido Socialista em 2011.

O Partido Socialista está assim sozinho "no meio da praça". Só me custa dizer "orgulhosamente só" para não trazer outras memórias a quem já as tem.



Nota - A democracia portuguesa está marcada pela existência de um partido comunista que vem dos tempos da clandestinidade, que se bateu galhardamente contra a ditadura de Salazar e que hoje tem uma expressão eleitoral excessiva, marcada por esses tempos, como uma espécie de pagamento pelos serviços então desempenhados...
A ele junta-se o Bloco, partido de protesto, de causas, urbano, que, colocando-se, tal como o PCP, numa posição que em vez de ser de crítica construtiva é de ruptura com a União Europeia, da qual fazemos parte por opção do país, se excluem, naturalmente, da área do poder, deixando ao PS a tarefa de disputar sozinho o poder com a direita.

Mas eu acrescento: quem veja a televisão portuguesa, qualquer canal, nesta fase já eleitoral, não é só o PS que está "orgulhosamente só" é  António Costa,  ao qual não há "gato sapato" da direita: ministros, vice- 1ºs ministros, deputados, comentadores, simples defensores dos lugares que ocupam, que não lhe "bata" quando ele diz, seja o que for, na sua campanha eleitoral pelo país.

Sócrates, que já foi julgado pelo povo em eleições, que perdeu, continua novamente a ser massacrado pela Coligação, perseguindo Costa como um fantasma, numa campanha infame e desconfio que nas próximas eleições continue a ser ele o visado pela direita.

Para o PCP, é-lhe indiferente que o país continue a ser governado à direita, pelo o homem da Tecnoforma, especialista em "abrir portas". Fechado dentro de si, orgulhoso de seu passado, o PCP recusa-se a ser presente.

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