sábado, abril 18, 2009


A História das
Três Fadas
A professoara pede aos alunos que escrevam uma história sobre fadas. A do Carlinhos rezava assim:



-"Era uma vez uma prinsusa..."

Aí, a professora interrompe e diz:

- "É princesa que se diz e não prinsusa!"

- "Não, Sra professora, nesta história é mesmo prinsusa."

E continua:

- "Era uma vez uma prinsusa, que vivia suzinha na turre do seu castalho e estava traste, muito traste por estar suzinha.

Resolve então enviar um bilhuto a um prinsusu que também vivia suzinho na turre do seu castalho e que também estava traste, muito traste.

Escreveu muitos bilhutos até que um dia, o prinsusu agarrou no seu cavalo e cavilgou, cavilgou, cavilgou pela florista fora, até chegar ao castalho da prinsusa!

Quando chegou à purta do castalho da prinsusa deu-lhe um pintapu e a purta caiu.

Subiu a correr até à turre da prinsusa, e arrebentou com a purta do quarto da prinsusa… ele olha
para ela..., ela olha para ele..., ele olha para ela... e pimba, deu-lhe três fadas!!!"


Assina: Carlinhos

HAKA - BARROSÃ

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JONNY HALLYDAY - NOIR C' EST NOIR


DAVID ALEXANDRE WINTER - OH! LADY MARY (1969)

GLÓRIA GAYNOR - I NEED CAN SAY GOOD BYE


BAÚ DAS RECORDAÇÕES


GLEN MILLER - MOONLIGHT SERENADE


Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 105




ONDE O LEITOR ENCONTRA O SEMINARISTA RICARDO, ANJO DECAÍDO, SOBRE O QUAL HÁ BASTANTE TEMPO SÃO FEITAS APENAS VAGAS REFERÊNCIAS (QUASE SEMPRE ELOGIOS NA BOCA LASCIVA DA TIA) E DE COMO ELE SE ATIRA AO MAR



Do alto dos cômoros, Ricardo observa o rio na impaciência de assinalar a lancha de Elieser ou o barco de Pirica, talvez a canoa a motor do Comandante, e vislumbrar o vulto de Tieta.

Como prosseguir ali sem ela, tendo o pecado por única companhia? Assim os viu desembarcar de uma canoa que eles próprios manobravam. Não estavam todos os que haviam acampado nas proximidades do arraial do Saco, apenas dois casais e uma criança pequena, de dois anos quando muito.

Curioso, Ricardo acompanha cada movimento. O rapaz escuro, de cabelo esgrouvinhado, levanta a improvisada âncora, pedra disforme amarrada a uma corda, atira-a ao mar prendendo a canoa. Toma a criança ao colo. O outro, alto e magro, segura um violão. Das duas moças, uma exibe longos cabelos doirados escorridos sobre as costas, provavelmente a mãe da menina pois desce junto com o rapaz que leva a criança; a outra, com flores nos cabelos, é miúda e ágil, atravessa correndo por entre a casa dos pescadores, perseguida pelo moço do violão. O som do riso sobe os cômoros e chega até Ricardo. Estão descalços os cinco e andam para a parte mais bela da praia, a que fica exactamente em baixo da duna mais elevada, de onde Ricardo espia. A mais bela e a mais perigosa, a arrebentação violenta impedindo o banho do mar. Somente quem nasceu e se criou em Mangue Seco atreve-se a nadar naquele trecho do mar erguido em fúria contra as montanhas de areia.

Nas férias anuais em Mangue Seco, quando o Major era vivo, Ricardo acompanhara algumas vezes os filhos de pescadores, aventurando-se entre os vagalhões, mas o pai, tendo-o pegado em flagrante, proibira tal loucura, sob ameaça de castigo severo. Mais de um banhista ali deixara a vida por ignorância ou desejo de exibir-se, derrubado e arrastado pela violência das ondas, massacrado de encontro aos cômoros. Bravio mar de tubarões, sombras cor de chumbo em meio à água revolta.
Inesperados e soberbos, alçam-se em meio às vagas, rondam a praia, esfomeados, multiplicando o perigo. Pouco antes, Ricardo enxergara os vultos de um bando ameaçador, saltando na tormenta. Foram-se mar fora, já não se dis tinguem as manchas de chumbo e morte.

Do alto, Ricardo vê os dois casais e a menina correndo pela praia, brincando. Sentam-se depois na areia e logo ressoa o som do violão, trazido pelo vento. Trechos rotos de melodia, parece música religiosa, lembra cantochão ouvido no convento dos franciscanos em São Cristóvão. Na véspera, tendo ido ao arraial do Saco tratar de compra e transporte de material para a construção, Ricardo soubera do acampamento dos hipies. Um grupo de mais de vinte moças, rapazes e crianças, novidade recente e provocante.

Os dois filhos do dono da cerâmica onde adquirira os tijolos – o pedreiro errara no cálculo, levando a tia a comprar a quantidade bem menor que a necessária – rapazolas mais ou menos da
sua idade, convidaram-no a ir espiar, ele aceitou.

sexta-feira, abril 17, 2009

MEMÓRIAS DE UM MÉDICO

Carlos Barreira da Costa, médico Otorrinolaringologista da mui nobre e Invicta cidade do Porto, decidiu compilar no seu livro "A Medicina na Voz do Povo", com o inestimável contributo de muitos colegas de profissão, trinta anos de histórias, crenças e dizeres ouvidos durante o exercício desta peculiar forma de apostolado que é a prática da medicina e dele não resisti a extrair verdadeiras jóias deste tão pouco conhecido léxico que decidi compartilhar convosco:

O DIÁLOGO COM UM PACIENTE COM PATOLOGIA DA BOCA, OLHOS, OUVIDOS:

"A minha expectoração é limpa, assim branquinha, parece, com sua licença, espermatozóides".

"Quando me assoo dou um traque pelo ouvido e enquanto não puxar pelo corpo, o nariz não se destapa".

"Não sei se isto que tenho no ouvido é cera ou caruncho".

"Isto deu-me de ter metido a cabeça no frigorífico. Um mês depois fui ao Hospital e disseram-me que tinha bolhas de ar no ouvido".

"Ouço mal, vejo mal, tenho a mente descaída".

"Fui ao Ftalmologista, meteu-me uns parafusinhos nos olhos a ver se as lágrimas saíam".

"Tenho a língua cheia de Áfricas".

"Gostava que as papilas gustativas se manifestassem a meu favor".

"O dente arrecolhia pus e na altura em que arrecolhia às imidulas infeccionava-as".

"A garganta traqueia-me, dá-me aqueles estalinhos e depois fica melhor".

AS PERTURBAÇÕES DA FALA IMPACIENTAM O DOENTE:

"Na voz sinto aquilo tudo embuzinado".

“Não tenho dores, a voz é que está muito fosforenta".

"Tenho humidade gordurosa nas cordas vocais".
"O meu pai morreu de tísica na laringe".

OS "PROBLEMAS DA CABEÇA" SÃO MUITO FREQUENTES:

"Há dias fiz um exame ao capacete no Hospital de S. João".

"Andei num Neurologista que disse que parti o penedo, o rochedo ou lá o que é...".

"Fui a um desses médicos que não consultam a gente, só falam pra nós".

"Vem-me muitos palpites ruins, assim de baixo para cima...".

"A minha cabecinha começa assim a ferver e fico com ela húmida, assim aos tombos, a trabalhar".

"Ou caiu da burra ou foi um ataque cardeal".

OS APARELHOS GENITAL E URINÁRIO SÃO OBJECTO DE QUEIXAS SUI GENERIS:

"Venho aqui mostrar a parreca".

"A minha pardalona está a mudar de cor".

"Às vezes prega-se-me umas comichões nas barbatanas".

"Tenho esta comichão na perseguida porque o meu marido tem uma infecção na ponta da natureza".

"Fazem aqui o Papa Micau (Papanicolau)?"

"Quantos filhos teve?" - pergunta o médico. "Para a retrete foram quatro, senhor doutor, e à pia baptismal levei três".

"Apareceu-me uma ferida, não sei se de infecção se de uma foda mal dada".

"Tenho de ser operado ao stick. Já fui operado aos estículos".

"Quando estou de pau feito... a puta verga".

"O Médico mandou-me lavar a montadeira logo de manhã".

AS DORES DA COLUNA E DO APARELHO MUSCULAR E ESQUELÉTICO
SÃO DIFÍCEIS DE SUPORTAR:

"Metade das minhas doenças é desfalsificação dos ossos e intendência para a tensão alta".

"O pouco cálcio que tenho acumula-se na fractura".

"Já tenho os ossos desclassificados".

"Alem das itroses tenho classificação ossal".

"O meu reumatismo é climático".

"É uma dor insepulcrável".

"Tenho artroses remodeladas e de densidade forte".

"Estou desconfiado que tenho uma hérnia de escala".

O PORTUGUÊS BEBE E FUMA MUITO E DESCULPA-SE COM FREQUÊNCIA:

"Tomo um vinho que não me assobe à cabeça".

"Eu abuso um pouco da água do Luso".

"Não era ébrio nato mas abusava um pouco do álcool"

"Fujo dos antibióticos por causa do estômago. Prefiro remédios caseiros,
a aguardente queimada faz-me muito bem".

"Eu sou um fumador invertebrado".

O APARELHO DIGESTIVO ORIGINA SEMPRE MUITAS QUEIXAS:

"Fui operado ao panquecas".

"Tive três úlceras: uma macho, uma fêmea e uma de gastrina".

"Ando com o fígado elevado. Já o tive a 40, mas agora está mais baixo".

"Eu era muito encharcado a essa coisa da azia".

"Senhor Doutor a minha mulher tem umas almorródias que com a sua
licença nem dá um peido".

"Tenho pedra na basílica".

"O meu marido está internado porque sangra pela via da frente e pinga
pela via de trás".

"Fizeram-me um exame que era uma televisão a trabalhar e eu a comer papa".

"Fiz uma mamografia ao intestino".

"O meu filho foi operado ao pence (apêndice) mas não lhe puseram os trenos (drenos), encheu o pipo e teve que pôr o soma (sonda)".

OS MEDICAMENTOS E OS SEUS EFEITOS PRESTAM-SE ÀS MAIORES CONFUSÕES:

"Ando a tomar o Esperma Canulado"- Espasmo Canulase

"Tenho cataratas na vista e ando a tomar o Simião" - Sermion

"Andei a tomar umas injecções de Esferovite" - Parenterovit

"Era um antibiótico perlim pim pim mas não me fez nada" - Piprilim

"Agora estou melhor, tomo o Bate Certo" - Betaserc

"Tomo o Sigerom e o Chico Bem" - Stugeron e Gincoben

"Ando a tomar o Castro Leão" - Castilium

"Tomei Sexovir" - Isovir

"Tomo uma cábulas à noite".

"Tomei uns comprimidos "jaunes", assim amarelados".

"Tomo uns comprimidos a modos de umas aboborinhas".

"Receitou-me uns comprimidos que me põem um pouco tonha".

"Estava a ficar com os abéticos no sangue".

"Diz lá no papel que o medicamento podia dar muitas complicações e
alienações".

"Quando acordo mais descaída tomo comprimidos de alta potência
e fico logo melhor".

"Ó Sra. Enfermeira, ele tem o cu como um véu. O líquido entra e nem actua".
"Na minha opinião sinto-me com melhores sintomas".

O QUE OS DOENTES PENSAM DO MÉDICO:

"Também desculpe, aquela médica não tinha modinhos nenhuns".

"Especialista, médico, mas entendido!".

"Não sou muito afluente de vir aos médicos".

"Quando eu estou mal, os senhores são Deus, mas se me vejo de saúde
acho-vos uns estapores".

"Gosto do Senhor Doutor! Diz logo o que tem a dizer, não anda a
engasular ninguém".

"Não há melhor doente que eu! Faço tudo o que me mandam, com
aquela coisa de não morrer".

EM RELAÇÃO AO DOENTE O HUMOR DEVE SEMPRE PREVALECER SOBRE A SISUDEZ E O DISTANCIAMENTO.

Senão, atentem neste "clássico":

"Ó Senhor Doutor, e eu posso tomar estes comprimidos com a menstruação? Ao que o médico retorque: "Claro que pode. Mas se os tomar com água é capaz de não ser pior ideia. Pelo menos sabe melhor."

P.S. O caricato desta linguagem revela o grau de instrução do nosso povo. Desse ponto de vista, em vez de rir deveríamos chorar...





CASAL DE GATOS DISCUTINDO

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FRANÇOISE HARDY - TOUS LES GARÇONS E LES FILLES


JOE DOLEN - SHE

JÚLIO IGÉSIAS - EL AMOR

BAÚ DAS RECORDAÇÕES
CARMEM MIRANDA - MAMÃ EU QUERO


Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº104




- Vou falar com ela, não vai ser fácil. Mas você tem toda a razão, não se pode arriscar. Já pensou? Ai, meu Deus!

- A vida é uma confusão, não dá para se entender. Elisa só pensa em ir para São Paulo. Leonora agora deu para falar que quer viver em Agreste, não quer sair daqui, nunca mais.

Um sorriso aparece, clareando o rosto anuviado de dona Carmosina, aquele era um tema exaltante. Aproximou-se do rio, cresce o rumor da correnteza sobre as pedras, rolam estrelas do céu, desfazem-se nas sombras.

- É verdade, ela me disse que decidiu não ir mais embora. Conversamos muito, Nora e eu, nesses dias que você passou em Mangue Seco. Ela está gamada, morta de paixão. Coisa mais linda, Tieta. Dois desiludidos, dois… – busca na memória a palavra moderna, lida há poucos dias no artigo da revista … - carentes que se encontram, dão-se as mãos e se completam. Está disposta a ficar aqui.

- E você pensa que ela vai se acostumar nestes confins? Por ora, está feliz porque no namoro com Ascânio esquece o que sofreu e ela sofreu como cabrito desmamado. Mas, depois? Eu nasci aqui e aqui quero terminar meus dias mas só voltarei de vez quando estiver velha, coroca. Antes, só a passeio. Para quem chega da cidade grande, acostumar em Agreste não é fácil. Mesmo quem nunca arredou os pés daqui se queixa da pasmaceira, veja Elisa. Se eu imaginasse o que ia acontecer, não teria trazido Nora. É uma tolona, sentimental, acaba perdendo a cabeça, afeiçoando-se a Ascânio, vai dar problema.

- Eu sei. – Dona Carmosina suspira, dramática que nem autor de folhetim em cena de culminante, de novela de rádio em fim de capítulo. – Ela é milionária e ele é pobre! Mas…

- Não é por isso, Carmô, todos os dias a gente assiste a casamento de rico com pobre. Você pensa que eu ia me preocupar se o problema fosse esse? Já estaria cuidando do enxoval.

- Qual é então?

Tieta detém-se na beira do caminho para dar maior ênfase à confidência, persiste o clima de melodrama, o suspense. Dona Carmosina espera, tensa, incapaz de esconder a impaciência:

- O quê?

- Você sabe que ela foi noiva de um vigarista que só queria o dinheiro dela. Botou máscara de engenheiro, fachada não lhe faltava mas era tudo. Ela, cega de paixão, querendo financiar uns projectos do tipo, só não largou o dinheiro porque eu manjei a coisa e manerei. Foi quando a polícia apareceu atrás dele e se ficou sabendo da ficha completa do patife. A pobre caiu de cama, quase morreu. A mim não me surpreenderam as revelações da polícia, não me engano com as pessoas, bato os olhos num fulano e já sei o que vale, a qualidade do carácter e o tamanho do cacete…

Dona Carmosina, descontraindo-se, explode numa gargalhada:

- Mulher mais maluca, nem depois de morta vai tomar jeito. Inventa cada uma: a qualidade do carácter, o tamanho do cacete… Essa é boa! – perdida em riso, refaz-se aos poucos, volta ao amor de Nora e Ascânio. – Disso tudo eu já sabia, você mesma tinha me contado. E é por isso que eu digo: dois feridos que convalescem, dois carentes – Dona Carmosina aproveita para repetir a palavra recém-aprendida – que se completam. Se o problema da diferença de fortuna não atrapalha, então…

- Acontece que ela foi noiva desse tipo uns bons seis meses, Carmô. Noivado em São Paulo não é como em Agreste. Lá, namorados e noivos têm muita liberdade, saem sozinhos para festas, para boates, fazem passeios que duram dias e dias… noites e noites… As moças andam com a pílula na bolsa, junto do batom.

- Estou entendendo…

- Pois é. Esse negócio de noiva casar virgem, já era, como dizem os cabeludos. Só vigora em agreste. O facto dele ser pobre não tem nenhuma importância, Nora não a mais mínima para isso. Nem ela nem eu. Mas você acha que nosso amigo Ascânio… - uma pausa. . – É por isso que estou preocupada, Carmô.

- Agora, quem fica preocupada, sou eu. Preocupadíssima. Por que a vida é tão complicada, Tieta?

- Sei lá! E podia ser tudo tão fácil, não é? Porca miséria!, como dizem meus patrícios, os italianos de São Paulo.

Voltam a andar, dona Carmosina digerindo a incómoda revelação, ai, meu Deus, o que fazer? Tieta completa antes que alcancem as margens do rio:

- Agora que comprei a casa, mandei arrumar e pintar, instalo os velhos, deixo dinheiro com Ricardo para acabar de construir o barraco em Mangue Seco, pego Leonora e vou embora.

_ Você não pode ir embora antes da inauguração de luz, já lhe disse. De jeito nenhum.

- Tinha pensado em ficar mas não posso. Não é tanto por mim, se bem não deva me retardar demais, deixei em São Paulo tudo o que é meu na mão dos outros…

- Na mão de gente de confiança…

- Mesmo assim. Quem engorda o porco é o olho do dono. Eu ficaria para a festa se não fosse por Nora. Preciso tirar ela daqui enquanto é tempo. Ela não aguenta outro baque, pode até morrer…

- Não se precipite. Espere uns dias, quando você voltar de Mangue seco eu lhe direi alguma coisa.

- Sobre? - Ascânio e Leonora…

- A vida pode ser tão fácil, a gente mesmo é que complica tudo.

Atingem a beira do rio, as canoas descansam no ancoradouro. Um pouco além, na Bacia de Catarina, os pés de chorão debruçam-se sobre os penedos, aumentam a escuridão. A brisa traz um leve gemido, vem daquelas bandas. As amigas avançam uns passos com pés de lã. Vultos nos esconsos; sussurros, ais, sob os chorões. A vida pode ser tão fácil, repete Tieta. Sorriem as duas comadres, a bonita e a feia, a que conhece o gosto e a carente (para usar a palavra da moda, tão do agrado de dona Carmosina) Tieta anuncia:

- Já escolhi o nome para a minha cabana em Mangue Seco:

- E qual é?

- Curral do Bode Inácio. Era o garanhão do rebanho do Velho, um bode que mais parecia um jegue de tão grande.

O saco arrastava no chão. Com ele aprendi a querer e a conseguir.

Multiplicam-se os ais de amor na ribanceira. Apressadas as duas amigas retomam o caminho da casa cheia em cuja sala de visitas o vate Barbozinha, em encarnação anterior, à frente do povo de Paris, assalta e conquista a Bastilha, liberta milhares de patriotas aprisionados. Magnífico episódio, com espadas e arcabuzes, fidalgos, tribunos, a carmanhola e sem perigo de cadeia.

quinta-feira, abril 16, 2009



SÓ PARA RIREM UM POUCO...


A mulher está na cama com um amigo e de repente ouve o barulho da chave na fechadura.
Fica nervosa, principalmente, porque nos apartamentos modernos não há espaço debaixo da cama, estão a 20 andares de altura, não há armários... e, de repente, ela diz ao amante:

- Querido, fica tranquilo e faz tudo o que eu disser. Fica ali de pé, como se fosses um robot, sem pestanejar.

O marido entra:

- Olá amorzinho! Olha, anteciparam o voo e eu cheguei um dia antes...
mas... quem é esse tipo e que merda está aqui a fazer nu, aí plantado?

A mulher sorri e responde:

- Como me tens abandonado com essas viagens, reuniões e pescarias, resolvi
comprar este 'robot escravo sexual modelo RTSEX-2007'.
Vem, aproxima-te... toca-o... Tem pele de verdade; é arrefecido a água;
gasta pouco, processador de 256 bites, ligação GPRS à Internet,
actualizações automáticas, etc, etc...

- Mas, amor... Havia necessidade disso?

- E o que querias? Que me enrolasse com algum vizinho ou com o
porteiro do prédio?

- Está bem, deixa-te de parvoíces e vamos para a cama - disse ele.

A mulher, que já estava satisfeita e cansada, responde:

- Ai, fofinho, é que... me dói a cabeça e além do mais eu
estou naqueles dias...

- Que má sorte a minha. Então, porque não vais arranjar
qualquer coisa para eu comer?

A mulher sai do quarto e vai para a cozinha. O marido, que
ficou a sós com o suposto 'robot', olhando-o, diz:

- Se este invento é bom para a minha mulher, também vai servir
para mim, assim como assim, também não fala....

E então, puxa-o pelo braço, atira-o para cima da cama, põe-o
de quatro e, quando está a ponto de partir para os finalmente, o robot
diz nervosamente e com a voz mais metálica e robótica que consegue:


SISTEMA, ENTRADA INCORRECTA' 'ERRO! ERRO DE SISTEMA,
ENTRADA INCORRECTA! ERRO! ERRO .

O marido mira-o de alto a baixo, sobe as calças e diz:

- Que se lixe a merda do robot moderno. Vou atirá-lo agora
mesmo pela janela fora...

O amante, assustado, ao lembrar-se dos 20 andares do prédio,
grita com a mesma voz metálica:

-
SISTEMA ACTUALIZADO! DOWNLOAD DE SOFTWARE COMPLETO!
POR FAVOR, TENTE DE NOVO!

SURPRISE...

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SERÁ QUE O PADRE VAI CASÁ-LA?


SALVATOR ADAMO - NOTRE ROMAN (1967)

ENGLEBERT HUMPERDINK - WONDERLAND BY NIGHT


BOBY SOLO - THAT'S AMORE


BAÚ DAS RECORDAÇÕES
SARA MONTIEL - MI HOMBRE (LA VIOLETERA)




Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº 103



Por isso mesmo, por causa da freguesia tão chique, não quero gente do Agreste aparecendo por lá. Imagine só, Carmô, a loja cheia, aquela nata de São Paulo, tudo podre de rico, e me aparece o pessoal daqui… Por isso nunca mandei endereço. Nas fábricas não importem que falem, que inventem o que quiserem, sabe por quê? Porque nas fábricas nada tenho, nem participação. Quando Felipe morreu, eu fiquei com os apartamentos, os imóveis e a butique que, aliás, já era minha, estava em meu nome – No caminho mal iluminado, busca enxergar na fisionomia da amiga se a explicação fora convincente ou não.

Dona Carmosina bebera-lhe as palavras, uma a uma. Assídua leitora de romances policiais, admiradora de Agatha Christie, sentia-se a própria Miss Maple perdida em Sant’Ana do Agreste. De dedução em dedução, espremendo as células cinzentas, partindo de pistas mínimas, tinha chegado à verdade: nada do que agora Tieta lhe contara constituíra surpresa para a presidenta do Areópago:

- Exactamente o que eu imaginava, butique de alto luxo, preços de arrancar o couro e a fidalguia toda de São Paulo deixando o dinheirinho lá. Você faz muito bem em guardar reserva sobre seus negócios e sua vida. Creio que, se Elisa soubesse de seu endereço em São Paulo, teria arranjado maneira de se tocar para lá. Não sonha outra coisa, a pobrezinha.

Tieta riu:

- Você já pensou a parentada de Agreste, a começar pelo velho Zé Esteves, de cajado, cuspindo fumo, em minha porta em São Paulo, invadindo a butique? Até que ia ser engraçado, só que estragava meu negócio para sempre.

Não fez referência a Elisa, como se não houvesse escutado o nome da irmã, mas dona Carmosina insiste, volta à carga:

- Você pensa levar Elisa para São Paulo, ela e Astério? É tudo o que ela deseja na vida, e me parece que…

Tema do desagrado de Tieta. Interrompeu a amiga antes que tomasse a peito a defesa da causa de Elisa:

- Levar para quê? Aqui, eles vivem direitinho com a renda da loja e a ajuda que eu dou. Sem que eu lhe perguntasse nada, outro dia ela me disse que não quer ter casa própria em Agreste. Vive falando em São Paulo, insinuando um convite, não tem outro assunto. Posso até aumentar a ajuda que dou a eles, mas levá-los para São Paulo, isso não.

- Posso perguntar por quê? Gosto de Elisa e queria vê-la feliz.

- Eu também desejo que ela seja feliz, também gosto dela, é minha irmã e sei que ela gosta de mim, não é hipócrita como Perpétua. Mas eu gosto dela e gosto também de Astério, Carmô. Aqui Astério vive contente, para ele São Paulo ia ser um degredo. Adoro ver pessoas felizes, é tão raro no mundo. Sei o que é ser infeliz, roí beira de penico quando fui embora. Tive sorte, encontrei um homem bom, o meu marido. Família sortuda, Carmô: Perpétua com aquela cara, arranjou marido, milagre considerável, não foi o que o Comandante disse ontem? Milagre maior aconteceu comigo: eu era uma reles empregadinha no escritório de Felipe, acabei de aliança no dedo – Exibe a aliança de ouro, diferente, trabalhada peça digna de antiquário – Também Elisa deu sorte, casou, Astério é um bom rapaz, gosto dele. Em São Paulo, Astério ia ser mais infeliz do que Elisa é aqui.

- Será?

- Tenho a certeza. Aqui, ele tem amigos, de quem iria ser amigo em São Paulo? Não é homem para aquela correria, aquele Deus nos acuda. E ela ia ser feliz em São Paulo, tua amiga Elisa? Tu conhece ela melhor do que eu, tu viu ela nascer, nós duas vimos, se lembra? Tu acha que Elisa, em São Paulo, vai aguentar marido ganhando ordenadinho pequeno, que grande coisa ele não sabe fazer, vida modesta, com a estampa de rainha que ela tem? Me diga Carmô. Com aquela beleza? Sabe onde ela ia terminar? Num rendevu, fazendo a vida. Será essa a felicidade que ela procura?

Dona Carmosina estremece, as palavras de Tieta ressoam-lhe no crânio, marteladas na cabeça. Desiste de lutar pela protegida. Prometera fazê-lo quando Elisa, quase chorando, lhe suplicara: fale com Tieta, diga que eu quero ir com ela, peça um emprego na fábrica para Astério, um cantinho no duplex para nós.

- Você tem razão, não dá pé. Ia terminar mal. Como não pensei nisso, meu Deus? Você é ainda melhor irmã do que parece.

- Conheço minhas cabras. Foi bom você ter-me falado nisso, eu estava mesmo querendo lhe pedir para tirar essas ideias da cabeça de Elisa, ela lhe ouve muito. Aqui, ela e Astério podem
contar comigo. Fora daqui, nada.

quarta-feira, abril 15, 2009

APRENDA A FAZER UM NÓ DE GRAVATA

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ELIS REGINA - MADALENA

CHRIS DE BURG - SO BEATIFULL

JULLIETTE GRECO - SOUS LE CIEL DE PARIS

BAÚ DAS RECORDAÇÕES


CARMEM MIRANDA - TICO-TICO NO FUBÁ (1946)



Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 102



DA CONVERSA NO CAMINHO DO RIO



Tieta passeia os olhos pelo céu, convertera-se em minguante a lua cheia que iluminara o areal de Mangue Seco mas faíscam estrelas aos milhares, inumeráveis ela não se cansa de contemplá-las, de admirar esse firmamento como já não existe nas cidades do sul. Na cidade de São Paulo, onde vive a labuta, encoberto pela fumaça da poluição, é negrume o firmamento.

- Estou fartando a vista no céu de Agreste, Carmô. Lá não tem nada disso. Lá o céu acabou.

Para conversarem a sós, o único jeito foi fugir da casa repleta enquanto Barbozinha, invencível, atravessava o pantanal de Mato Grosso à frente de um regimento da Coluna Prestes, após ter sido um dos Dezoito do Forte, o único a escapar miraculosamente: um a mais, um a menos não aumenta o número, continuarão dezoito, essa a grandeza das legendas. Aminthas advertiu o bardo heróico:

- Cuidado com a língua, meu poeta. Que você seja o décimo nono ou o vigésimo-terceiro dos Dezoito, não vejo mal além dos arranhões na verdade histórica. Mas, ao se meter na Coluna Prestes, passa a correr perigo de cadeia. Por muito menos, andaram encanando gente em Esplanada.

Quando dona Carmosina chegou para a conversa reservada, encontrou a sala de visitas cheia de amigos, a varanda ocupada por Leonora e Ascânio, sobrando apenas o recurso da fuga. Aproveitando a deixa de dona Carmosina: aqui a gente não vai poder conversar, tenho muita coisa a lhe falar mas não na vista do povaréu, como se há-de fazer? Tieta propôs a retirada. Haviam escapado pelos fundos da casa, sem que ninguém se desse conta. Agora, andam no caminho do rio:

- Só que lá, Carmô, se ganha dinheiro. Quem quiser trabalhar, tiver disposição, pode fazer seu pé-de-meia. Aqui a pobreza é demais, eu já me tinha esquecido do tamanho.

Tieta toma o braço de dona Carmosina, as duas amigas marcham em direcção ao ancoradouro, ouve-se na sombra o rumorejar ainda distante da correnteza do rio. A brisa da noite as envolve, chegada do mar, das bandas de Mangue Seco onde Ricardo espera, certamente postado no alto das dunas, buscando, enxergar sinal de luz na distância, crucificado em medo e desejo, em pecado e saudade, dilacerado.

- Aqui a pobreza é por demais, a começar por minha gente. Vivem tão apertados…

- Perpétua até que não… - rectifica dona Carmosina – Todo o mês coloca dinheiro na Caixa, em Aracajú, não é nenhuma tola.

- Não pense que não sei, Carmô, não nasci ontem, conheço as cabras do meu rebanho e a que mais conheço é Perpétua. Sei que Ricardo estuda de graça, o padre arranjou com Dom José, sei que Peto está no grupo escolar, não paga nada, sei mais que você e ela podem imaginar. Mas nem por isso nego minha ajuda. Afinal o que ela tem é tão pouco, só é alguma coisa em comparação com a pobreza dos outros, mas para o futuro dos meninos não é nada. Os meninos são uns amores. Ricardo é estudioso, compenetrado, sério, vestido de batina fica tão engraçado, parece um anjo torto, - Fita a velha amiga – Mandei abrir uma caderneta de poupança em São Paulo em nome dele, como aliás você sabe…

- Eu sei? Que história é essa? Não sei de nada, você não me falou, como havia de saber? – dona Carmosina reage nervosa, quase insultada com a indirecta.

Tieta enche o caminho com uma risada alegre, divertida, aperta o braço da companheira afectuosamente:

- Sabe porque leu a carta que eu escrevi à gerente do meu negócio mandando ela ir ao banco, abrir a caderneta, fazer o depósito. Não me diga que não leu, Carmô, porque eu não acredito. Se eu fosse a você, também lia.

A princípio confusa, sem resposta, dona Carmosina termina contagiada pelo riso da amiga, reclama:

- Também nunca vi cartas mais discretas, mais reservadas do que as suas. Não contam nada, nem as que você escrevia para a família nem as que escreve para São Paulo. Nunca vi tanta avareza de palavras: faça isso, faça quilo, como vão as coisas, a clientela, firme? E as meninas como se comportam? Até agora não descobri que espécie de negócio você tem, além das fábricas. Dessas todos sabem.

- Não há segredo, Carmô, apenas sou ruim de escrita, quanto menos escrevo menos erro. Além disso, não gosto que meus assuntos andem na boca do povo, ninguém precisa de saber dos ganhos da gente; eu acredito em mau-olhado. Mas a você, não tenho nada que esconder. O que eu possuo em São Paulo é uma butique de luxo, com preços muito caros, para gente da alta sociedade, a clientela é de primeira ordem, rende um bom dinheiro. As meninas são as vendedoras, bonitas, elegantes, ganham bem.

terça-feira, abril 14, 2009

BEETHOVEN SYMPHONY Nº5 (PARODY)

VAUGHN MONROE - GHOST RIDERS IN SKY ( OS CAVALEIROS DO CÉU)


ANDY WILLIAMS - THEMA FROM SUMMER PLACE (1962)

CRHIS DE BURG - LADY IN RED (1996)

BAÚ DAS RECORDAÇÕES
IVON CURI E HERBE CAMARGO



Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº 101






O Comandante nem parece ouvir a insinuação, explicando que Ricardo, estando onde está, em férias no próprio paraíso terrestre, só tem razões para sentir-se feliz. Enquanto ouve o Comandante, empolgado, a perorar, sobre o seu tema predilecto, a beleza da praia de Mangue Seco, Tieta pensa no pequeno Ricardo abandonado no colchão de crina, na imensidão selvagem das dunas sobre o mar. No paraíso, Comandante, mas curtindo as penas do inferno! Deve estar plantado no cômoro mais alto, buscando descobrir nas lonjuras do rio sinal de lancha, ouvir ruído de motor. Ela tampouco deseja outra coisa senão descer a correnteza, atravessar a arrebentação da barra, desembarcar em Mangue Seco, correr para os braços do seu menino, no peito adolescente, o calor, a vibração do corpo, a timidez ainda não de todo vencida, o ímpeto, o mastro do saveiro erguido, as velas desatadas. As últimas noites, rolando sozinha no leito da alcova, tinham sido insones e agoniadas. Para acalmar-se, findara por deitar-se na rede, no antigo gabinete do doutor Fulgêncio, onde Ricardo dormira. Buscando a lembrança do sobrinho, encontrou sinais evidentes da batalha travada com o demónio na rede onde ele a desejara contra a própria vontade, onde a tivera nua, em sonho voluptuoso, e não conseguira possui-la, por não saber como agir, pesadelo horrendo. Ali o donzelo seminarista começara a perder a castidade. Tieta espojou-se na rede, tocou a mancha branca, gemeu, cabra em cio.

Outro a aparecer para a prosa regalada, impedindo a conversa íntima e essencial: Ascânio. Chega acompanhado por Aminthas e Seixas. O Comandante não perde a ocasião de criticar as iniciativas do patriótico secretário da prefeitura, ameaçadores projectos turísticos, felizmente mirabolantes.

- Mirabolantes, uma conversa – protesta Ascânio – A qualquer momento, o homem volta…

- Com a boazuda, espero… - corta Aminthas.

- … para definir os planos, tenho a certeza.

Comandante Dário eleva as mãos ao céu:

- Para terminar com o sossego da gente. Vou cavar trincheiras em Mangue Seco, armar barricadas. Quando esses nudistas aparecerem lá, recebo à bala, como Floriano ameaçou receber os ingleses.

- Nudistas? - interessou-se Tieta.

- Soube do casal que esteve aqui e foi a Mangue Seco…

- … e lá chegando, tiraram a roupa e bumba! Na água, nuzinhos como Adão e Eva. Correndo praia afora…

Irreprimível frouxo de riso sacode Tieta, não se contem. Pensa em Ricardo já tão violentado, ainda por cima à volta com nudistas. Era capaz de confundi-los com diabos, vindos dos infernos, para sacrílegas bacanais em Mangue Seco, missas negras, para consumar a definitiva condenação de sua alma. Reduzindo a zero os efeitos da longa pregação da tia, empenhada em acalmar seus temores, restaurando-lhe o ânimo e a confiança.

- Será que Ricardo viu essa gente nua? – pergunta, quando consegue controlar o riso.

Ao imaginar o seminarista em companhia do incrementado casal, todos riem, inclusive Ascânio, Comandante Dário conclui, vitorioso.

- É o que eu digo: Perpétua e os padres, o bispo Don José, você, Tieta, todo o mundo cuidando da inocência do menino e os amigos de Ascânio liquidando todo esse esforça numa tarde. De que adianta você zelar pela castidade de seu sobrinho? Ascânio importa a devassidão, entrega Mangue Seco aos proxenetas, nosso destino é o lenocínio…

Ascânio não se comove com o trágico panorama traçado pelo Comandante.

- Quando os terrenos valorizarem, a Toca da Sogra valer uma fortuna, o Comandante vai me agradecer, e a senhora também, dona Tieta. Fez negócio na hora certa, os preços dos terrenos vão subir.

- Não há preço que pague a minha paz! – conclui, insensível, o Comandante. Volta-se para Tieta. – Então, amanhã logo depois do almoço, então por volta da uma da tarde, de acordo? Vamos aproveitar estes últimos dias, antes que Ascânio transforme Mangue Seco em Sodoma e Gomorra.

- Vai amanhã, dona Antonieta – pergunta o acusado secretário da prefeitura. – Não esqueça que no outro sábado é a inauguração da praça e a senhora é a madrinha da festa.

- Não esqueço, não. Pode contar, não faltarei. Volto a tempo.

Se não voltar irei buscá-la à força, anuncia Aminthas. Ele e Seixas ali presente, com Astério, Osnar e o grumete Peto estão armando uma expedição punitiva para raptá-la na praia, trazê-la de volta. Mangue Seco é aquela maravilha, ninguém pode negar a evidência, praia óptima para passeios, piqueniques, uiquendes, o banho do mar, o banho, as dunas, as vistas, mas daí a demorar-se lá semanas inteiras quem vem a Agreste com tempo medido, isso seus concidadãos não podem tolerar. Dona Carmosina concorda e aplaude a ideia: uma expedição, quem sabe, no próximo Domingo? Que diz a isso Seixas?

- Bom, muito bom. Vou e levo minhas primas – aprova Seixas, opinando pela primeira vez na discussão.

A conversa reservada fica para a noite. Dona Carmosina suspira: mas, sem falta, heim! Se houver outro adiamento ela vai espocar, está inflada
de assuntos, graves e excitantes. Não lhe passa pela cabeça, porém, que maior interessada é Tieta, apenas não o demonstra.

segunda-feira, abril 13, 2009

CUIDADO COM ESTA RAPARIGA

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CELLY CAPPELO - BANHO DE LUA (1960)

PROCOL HARUN - A WHITER SHADE OF PALE

SHIRLEY BASSEY - THE IMPOSSIBLE DREAM

ALAIN BARRIÈRE - MA VIE


Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 100


DO FIM DA TARDE NO AREÓPAGO




Tieta, depois de se despedir dos parentes e ter contratado os serviços de mestre-de-obras Liberato, recomendado como excelente por Modesto Pires, consegue chegar sozinha à porta da Agência dos Correios para a conversa reservada, conforme prometera na véspera a dona Carmosina. Finalmente as duas amigas irão passar em revista os últimos acontecimentos; as duas interessadas em ouvir e contar, ruminando ideias e planos, escondendo, uma e outra, segundas intenções.

Ao ver Tieta subir o degrau da porta, dona Carmosina larga o jornal e exclama:

- Enfim, sós! – ri, estendendo os braços para acolher visita ilustre, figura importante. – Salve, minha líder!

Por demais ilustre e importante. Não demoram sem companhia nem por cinco minutos. Ainda ajeitam cadeiras, trocam palavras de afecto, Tieta perguntando como vai passando mãe Milú – costuma dizer que dona Milú é sua segunda mãe – quando surgem os primeiros conhecidos e na porta do areópago juntam-se curiosos. Todos querem ver e saudar a conterrânea donatária da capitania de São Paulo, manda-chuva no país. Ficam parados, sorrindo para ela.

Pedintes que não a encontraram em casa, de faro aguçado pela necessidade, descobrem-na na Agência, cada qual recita história mais triste. Triste e verídica. Com dois deles, Tieta marca encontro para a manhã seguinte, em casa. Dona Carmosina abana a cabeça, assim não dá. Ao mesmo tempo deixam-na alegre a gentileza e paciência de Tieta a ouvir e a ajudar os pobres, a dialogar com os ociosos que apenas desejam falar com ela, felicitá-la pela luz. Rindo, Antonieta desabafa:

- Essa história da luz já me está enchendo…

- Não fale assim, minha negra. O povo manifesta sua gratidão, é uma gente boa, ainda não está corrompida pela civilização.

Do passeio a voz do Comandante Dário vem liquidar as últimas esperanças de dona Carmosina. Ainda não será desta vez que conversarão a batons rompus – de quando em quando Tieta utiliza uma expressão francesa; no sul, conquistou, certamente sob influxo do marido, nível de cultura desabitual nos cafundós destes sertões, fez-se realmente uma senhora, não apenas pela elegância e riqueza, também pelo intelecto; dona Carmosina sente-se orgulhosa pela da amiga e assim devem sentir-se todos os cidadão de Agreste.

Tomando de uma cadeira e nela escachando as pernas, o Comandante demonstra sua decisão de ali se demorar batendo papo. Deseja saber quando Tieta deseja voltar a Mangue Seco. Ele e dona Laura regressarão no dia seguinte, logo depois do almoço, não quer aproveitar a canoa? Aproveitará, sim. Concluída a compra da casa, assinada a escritura, efectuado o apagamento, nada de especial a prende a Agreste. O velho se encarregará de dirigir a limpeza e a pintura da vivenda, alguns concertos indispensáveis, antes de tudo a construção do banheiro e latrina decentes. Os que existem estão inservíveis. Há muito dona Zulmira toma banho em bacia, faz cocó em penico.

O Comandante escuta a relação das obras, dos tais pequenos consertos, prevê:

- Um mês de trabalho, daí para mais… Liberato é descansado.

Não com pai de fiscal em cima dele… - garante Antonieta. – O Velho está doido para mudar-se, seu Liberato vai andar de rédea curta.

- Fez empreitada ou vai pagar pelos dias de trabalho?

- Comandante, por amor de Deus, não esqueça que eu nasci aqui. Empreitada é claro.

- Nesse caso, um mês. E Liberato o que tem de descansado tem de competente. Nesse particular, pode ficar tranquila.

- Veja como são as coisas Comandante. Considero que fiz uma boa compra, adquirindo a casa de dona Zulmira…

- Cara para os preços daqui…

- Ainda assim. Custou um bocado de dinheiro, é uma casa óptima, vai entrar em obras, mas eu só penso na cabana de Mangue Seco. Minha cabeça está lá. Essa sim, me apaixona. Não quero viajar sem que ela esteja de pé.

O povo de Mangue Seco ainda é mais descansado do que o daqui. Praia, sabe como é. Com aquele ventinho não dá para se trabalhar muito…

- Por isso quero voltar logo para dar um empurrão. Cardo não é o Velho, não é de dar bronca em ninguém… O pobre deve estar pensando que a tia o abandonou e foi embora para São Paulo. Menino de ouro, esse meu sobrinho, Comandante.

Os olhos brilham quando ela fala do sobrinho. Dona Carmosina e o marujo concordam com o elogio. Deus fora extremamente generoso com Perpétua: não apenas a retirara do barricão, milagre considerável, dera-lhe bom marido e bons filhos. Exercendo a arte subtil de falar da vida alheia, dona Carmosina e o Comandante regalaram-se durante alguns minutos considerando a bondade de Deus na premiação das virtudes eclesiásticas de Perpétua. Eclesiásticas? O adjectivo para as virtudes de Perpétua devia-se a Barbozinha e dona Carmosina o encontra poético e perfeito. Assim, em prosa e riso corre o tempo. Não adiante Tieta dizer que viera por uma noite e já se encontra há três dias – e ainda, imagine! Não tivera tempo para conversar uns assuntos urgentes com Carmô. Para fazê-lo se encontra ali, na Agência, mas amanhã retornará sem falta a Mangue Seco.

domingo, abril 12, 2009

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CAMILO FELGEN - SAG WARUM

MORT SHUMAN - SORROW

ODE À ALEGRIA - LUDWIG VAN BEETHOVAN / FRIEDRICK VON SHILLER


Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº 99





Bastavam-lhe Agreste, a vida pacata da cidade, os prazeres, mínimos, a boa companhia, não queria mais. São Paulo? Emprego em escritório, bom ordenado, horário rígido? Quarto em casa da cunhada? Deus o livre e guarde. Noite de discussão áspera e desagradável, Elisa perdera a cabeça e o acusara de indiferente e molengas, de egoísta, a pensar unicamente nos próprios interesses, sem ligar aos dela. Para ele, um pamonha, o marasmo de Agreste podia ser o ideal de vida, mas ela, moça e viçosa, tinha ambições maiores: a cidade grande, plena de possibilidades, vida digna de viver-se. Onde, aliás, Astério se quisesse poderia progredir, tornar-se alguém, ganhar dinheiro, afirmar-se. Mas ele não a compreendia, não fazia caso dela, tratando-a como se ela fosse um pedaço de pau, um animal sem serventia, um trapo.

Segurando a barriga para conter as dores, Astério fugiu para a sala. Elisa terminou vindo buscá-lo, ao ouvir os gemidos pungentes. Encontrou-o esvaído, pálido, cor de cera, numa daquelas violentas crises de estômago. Dera-lhe remédio, pedira desculpa pelas más palavras da exaltação passou às lágrimas. Não recuara, no entanto de usar de todos os recursos junto da irmã para que ela os levasse a viver em São Paulo. Verde a boca de fel, ele nada respondera mas entre os engulhos decidira tomar medidas urgentes para impedir a concretização do projecto, sem que Elisa viesse a saber e a responsabilizá-lo pelo fracasso dos monstruosos planos. Enquanto ouve doutor Franklin, medita e resolve

Discreta, junto a uma estante onde se acumulam papéis, encontra-se a formosa Leonora Cantarelli, enteada da promitente compradora. Um sorriso suave no rosto delicado, talvez, entre todos os presentes, seja ela quem mais deseja possuir casa em Agreste, mesmo modesta, em rua sem calçamento, mas com um pequeno jardim plantado de cravinas e resedás, um coqueiro carregado no quintal, varanda onde estender a rede no calor da tarde. Ninho para ela e seu marido, marido com ou sem papel passado, não impunha exigências desde que fosse Ascânio Trindade. Mãezinha prometera se ocupar do caso dar jeito em sua vida, Madame Antonieta não é mulher de falar em vão. Leonora sente-se confortada, espera; escuta a leitura com paciência, virtude aprendida em duro aprendizado.

Do outro lado da barricada, ouvindo a interminável lengalenga da escritura, dona Zulmira, velhíssima, ar de ave de rapina, óculos fora de moda escanchados no nariz adunco, o terço emrolado no punho magérrimo, no pescoço um medalhão com o retrato do finado marido quando jovem e noivo. Sorri contente, a casa convertida em dinheiro, servirá à salvação da sua alma e à glória da Senhora de Sant’Ana, não irá parar às mãos excomungadas de João Felício, amaldiçoado sobrinho. O coisa ruim não poderá fazer com suas últimas vontades o que estavam fazendo com o testamento de seu Lito os maus parentes, discutindo-lhe a validade na justiça, tentando roubar a Santa Madre Igreja.

Acolitando-a padre Mariano: o dinheiro resultante da venda da casa destina-se a missas no altar-mor da Matriz diante da imagem da padroeira e em benefício da alma da doadora, mas somente após a sua morte. Antes depositado em mãos de Modesto Pires, renderá juros mensais que ajudarão às despesas de dona Zulmira, servirão para médico e remédios, conforme consta de documento anexo à escritura que o doutor Franklin está terminando de ler.

Emboscado no passeio em frente, o sobrinho João Felício espia. Pequeno comerciante de secos e molhados, o rosto semelhante ao da tia, nariz curvo, queixo duro, gavião pronto a atacar a presa. A presa acaba de lhe escapar, levada céu afora pela Santa, ídolo e superstição dos católicos romanos. Na casa confortável que esperara ocupar em breve – a Velha não pode durar muito – com a mulher e o filho pequeno, irá viver Zé Esteves, com a presunção, a arrogância e a mulher, pobre infeliz. Também de quem a culpa se ele, João Felício, se casara contra a vontade da tia com moça protestante, filha do pastor da Igreja Batista de Esplanada? Católica à maneira antiga, desconhecendo as teses ecuménicas, para dona Zulmira, protestante é sinónimo de herético, inimigo, raça perdida e condenada, com pés de bode. Os crentes são filhos do demónio aos quais os bons católicos devem negar pão e água, já que, infelizmente, se acabou a Santa Inquisição.

Terminada a leitura, doutor Franklin convida as partes interessadas, para o acto de assinatura. Como testemunhas, apõem suas firmas Astério e o Padre e depois apertam-se as mãos, em mútua felicitação. Dos fundos bolsos da saia negra de gorgorão de seda, Perpétua, depositará provisória, saca rolos e rolos de dinheiro, entregando-os ao doutor Franklin, todos os olhos acompanhando a operação. O tabelião conta nota por nota, antes de passá-las para a mão de dona Zulmira.

Sorridente, Tieta remói uma apreensão: terreno e casa, comprados e pagos, escriturados em nome de Antonieta Esteves Cantarelli, pertencem sem sombra de dúvida a Antonieta Esteves, simplesmente? O advogado consultado em São Paulo, antes da viagem, garantira que sim, desde que existissem testemunhas de compra e pagamento, tratando-se, então de simples engano de nome, facilmente corrigível. Quem o dissera não fora um corrigível qualquer, de porta de xadrez, e sim o Procurador-Geral do Estado, freguês constante do Refúgio, consultor jurídico de Madame Antoinette.

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