sábado, junho 06, 2009


A Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº 155


A princípio, cauteloso, disse que ia tirar o assunto a limpo, não podendo devido a uma simples crónica, mesmo assinada por Giovanni Guimarães condenar projecto assim vital para a comunidade: a implantação em terras do município de fábricas de uma indústria cuja importância é inegável. No distante e abandonado coqueiral, em Mangue seco, em terras desabitadas, sem nenhuma espécie de serventia.

Distante e abandonado? Sem qualquer serventia? Cresceu a indignação do Comandante: para Ascânio os pescadores de Mangue Seco não existiam, nem eles nem os cidadãos de Agreste que possuíam casas de veraneio na praia.

Impacientou-se Ascânio. Não se referia à praia de Mangue Seco e sim ao coqueiral. O projecto da Brastânio – ele vira plantas e desenhos – localizava-se bem mais para baixo e mais para dentro e não ao lado da praia. Mesmo se alguma poluição pudesse haver – e não existe indústria sem poluição – não atingiria nem os pescadores nem os veranistas.

Pouco a pouco, curiosos foram se juntando na porta e no passeio da agência, a ouvir o empolgante debate. Dona Carmosina, animada com a presença de público, retrucou com cerrada argumentação, superando as ânsias da gripe: não se trata de uma indústria qualquer, de tolerável percentagem de poluição. Estava em jogo a produção de dióxido de titânio, Ascânio sabe por acaso o que isso significa?

Convidou-o a ler o artigo publicado em O Estado de São Paulo, a sentença do juiz Viglietta, o Comandante guardara o recorte. Uma fábrica situada no coqueiral não somente atingiria a praia, tornando impraticáveis a pesca e o banho do mar, como destruiria a povoação de Mangue Seco ao envenenar as águas e o ar, transformando, como escrevera o juiz italiano na corajosa sentença, o oceano numa lata de lixo.

Ascânio revidou já esquentado, reduzindo às devidas proporções os evidentes exageros de dona Carmosina. Para começar não existe em Mangue Seco nenhuma povoação de pescadores, apenas um aldeamento composto de meia dúzia de casas de desocupados a serviço de contrabando, puníveis por lei se a lei fosse cumprida. Os veranistas não passavam de quatro a cinco casais, a maioria preferindo ir para o arraial do Saco onde o banho de mar não oferece perigo e existe muito mais conforto, inclusive armazém e igreja. Quanto ao volume da poluição, compete aos técnicos opinar e não a um simples jornalista sem formação científica.

De tão ofendida, dona Carmosina curou-se da gripe: Giovanni Guimarães, ficasse Ascânio sabendo, não era um simples jornalista e sim um grande jornalista, homem probo e culto, com um nome a zelar. Ascânio andava pela faculdade quando ele ali estivera em inesquecível visita, por isso não o conhece. Dona Carmosina não admite que se tente diminuir-lhe a figura, pôr em dúvida a capacidade e a honradez de um amigo sincero do Agreste. Reafirmou, veemente, sua disposição, a dela e a do Comandante, de lutar por todos os meios contra o que haviam passado a denominar de a fumaça da morte, que, aliás, conforme esclarece, douta e precisa, a própria dona Carmosina, é amarela e não negra, nisso Giovanni se enganara.

Logo se arrependeu do desastrado exibicionismo pois Ascânio montou no erro do jornalista, apontado por quem? Por um adversário? Não. Por sua maior admiradora e amiga. Se até a cor da fumaça ele desconhece, imagine-se o resto. Onde melhor prova da incapacidade científica de Giovani, óptima pessoa, agindo de boa fé, acredita Ascânio, mas em matéria científica um perfeito ignorante? Não basta ser autor de crónicas brejeiras…

A história da cor da fumaça provocou risos, Ascânio marcara um ponto. Dona Carmosina ficou uma fúria. Ao apegar-se a detalhes sem importância, em meio à volumosa massa de dados concretos apresentada por Giovanni em sua crónica, Ascânio age de forma desonesta. Acusou, repetindo violenta e ofensiva:

- Você está a ser desonesto! – soletrava a palavra rude: - de-so-nes-to!

Ao ver do Comandante havia pior. Apontou algo que lhe parecia imperdoável atitude de Ascânio: sabedor há muito, dos projectos da Brastânio, devido à sua condição de secretário da Prefeitura, escondera-os da população, mentira, referindo-se a planos turísticos, fazendo-se assim cúmplice com o exercício de um cargo de confiança. Uma traição à comunidade.

Foi demais. Levantando-se, Ascânio despejou o saco cheio até à borda, lançou as citadas frases sobre a meia dúzia de privilegiados e as delícias que o comandante deseja gozar sozinho, tentando egoisticamente impedir o progresso do município, a instalação da indústria redentora estende o braço e o dedo:

- O progresso de Agreste passa por cima seja de quem for! – afirmação solene e agressiva.

Atravessa por entre os curiosos, dirige-se para a Prefeitura. Aminthas, espectador mudo e aparentemente respeitoso, define a frase e a situação:

- Uma declaração de guerra! – Volta-se para Osnar: - Começou a guerra da fumaça, mestre Osnar. Em que batalhão você se alista? No da fumaça amarela ou no da fumaça negra?

Osnar não ri, apenas abana a cabeça, aquele assunto não lhe agrada.

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COMO SE DANÇA O BOOGIE

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CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS


NANA MOUSKOURI - YOUR LOVE, MY LOVE




FRANÇOISE HARDY - PARLA MI DI TE


CANÇÕES BRASILEIRAS


PAULINHO DA VIOLA - ARGUMENTO
Música lançada no LP "Paulinho da Viola" 1975. Paulinho da Viola (Paulo César Batista de Faria) um dos maiores e mais talentosos compositores brasileiros, nascido no Rio de Janeiro em 1942.


BAÚ DAS RECORDAÇÕES


ANDREWS SISTERS - BOOGIE WOOGIE




sexta-feira, junho 05, 2009


Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 154






É necessário levar em conta, para explicar o destempero de Ascânio, que, a partir da tarde anterior, quando a notícia da crónica de Giovani explodiu na cidade, sua vida não tem sido fácil. Encheram-lhe o saco, essa a expressão justa.

Jamais a popularidade de A Tarde atingira índices tão altos na região. Todos criam tomar conhecimento da crónica, onde encontrar exemplares do jornal? Habitualmente, o único à disposição do público é o de propriedade de seu Manuel, colocado sobre o balcão do bar, folheado pelos fregueses, lido por Aminthas e Fidélio. Nessa tarde, disputado quase a tapa, andou de mão em mão antes de sumir misteriosamente. A conselho de Aminthas, seu Manuel, baseado nas leis da oferta e da procura, tentara cobrar aluguer pelo empréstimo da gazeta, provocando revolta geral. O mesmo Aminthas propôs, em revide, a imediata socialização de todo o estoque de bebidas do bar, castigo para a ganância do mondrongo. A atmosfera jocosa e inquieta participava do pânico e da galhofa.

Quantas vezes, naquele fim de tarde e princípio de noite, Ascânio tivera de repetir a mesma explicação: parecia-lhe prematuro qualquer julgamento. Prematuro e injusto pois somente conheciam – quando conheciam - os argumentos do jornalista adversário da Brastânio, fazendo-se necessário, antes de expressar opinião, de tomar partido, conhecer também as razões dos directores e técnicos da Empresa.

À noitinha, quando se dirigia para o encontro sagrado com Leonora, na casa de Perpétua – costumavam andar em volta da praça, de mãos dadas – caiu-lhe em cima o poeta De Matos Barbosa, exaltado, empunhando um exemplar de A Tarde, cedido pelo árabe Chalita, um dos cinco privilegiados assinantes. Durante horas, à tarde, Ascânio fugira dele, sabendo-o em lastimável estado de ânimo.

A princípio, o vate se considera desmoralizado para sempre, coberto de opróbio devido ao poema perpetrado em louvor da monstruosa indústria denunciada à nação pelo seu querido e grande amigo Giovani Guimarães, excelso cronista, em carta aberta dirigida a ele. De Matos Barbosa, poeta e filósofo, através das colunas ilustres de A Tarde. Honra imensa apenas superada pela desonra ainda maior resultante dos repudiados alexandrinos. Por sorte, a criança enlouquecida com os brindes – brindes vagabundos, diga-se de passagem, abaixo da crítica, umas merdolências, qualificava o bardo, um tanto quanto tardiamente – haviam impedido a audição dos renegados versos, ouvidos e aplaudidos no entanto pelos amigos presentes à tertúlia em casa de Perpétua.

Correra para junto de Tieta ao ver-se envolto em vergonha e ela a rir e a pilheriar, levantara-lhe o ânimo, reerguendo-o das cinzas, levando-o a superar o abatimento e a partir para outra. Refeito vinha informar a Ascânio, a quem não culpa pelo terrível quiproquó, na certa tão inocente das criminosas intenções da Brastânio quanto ele próprio que, atendendo ao grito de alerta de Giovani Guimarães, convertera a lira em arma de combate e estava produzindo a toque de caixa uma série de poemas satíricos e coléricos, à maneira de Gregório de Matos, os Poemas da Maldição; com os quais pensa concorrer de maneira decisiva para impedir a concretização dos maléficos planos da excomungada Brastânio, arrancando a máscara, expondo a hipocrisia e a vileza dos criminosos directores. Pelo próximo correio, enviará a Giovanni, para publicação em A Tarde, os primeiros poemas. Desfralda a bandeira da guerra. Quanto à execrável composição anterior já não existe: Barbozinha destruíra os originais e desejava pedir a Leonora o favor de queimar em fogo purificador a cópia feita logo após a leitura.

Cansado, em atraso para o seu encontro com Leonora, Ascânio não tentou demovê-lo da denúncia poética, seria perder tempo e latim. Prometeu-lhe a destruição da cópia mas não o enganou; reservava a sua opinião sobre o assunto para quando possuísse maior soma de informações. Mais informações, para quê? Inúteis, fossem quais fossem, considerou o poeta, diante dos argumentos do seu excelso amigo Giovanni Guimarães, irrespondíveis.

Nesse estado de ânimo, depois de uma noite de mal dormir, com pesadelos onde admirou arranha-céus magníficos erguidos nas dunas de Mangue Seco e reconheceu cardumes de peixes mortos, sem possuir ainda argumentos com que enfrentar e refutar as afirmações do cronista, Ascânio ouviu a leitura do malfadado artigo na íntegra, como se não o houvesse lido e relido na véspera. Ainda mais funéreo na voz encatarroada de dona Carmosina, entrecortada de tosse e de sarcásticos e corrosivos apartes; dela e do Comandante. Ao terminar, dona Carmosina lhe oferece uma cópia dactilografada, fizera três: uma para ele, outra para o Comandante, a terceira para qualquer emergência.

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Nunca esprei ver isto de uma gata, gata, ou será gato?

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BAÚ DAS RECORDAÇÕES


RAY CHARLES - I CAN'T STOP LOVING YOU (1963)




CANÇÕES BRASILEIRAS


TOQUINHO - AO QUE VAI CHEGAR
Letra e Música - Toquinho e Mutinho
Toquinho (António Pecci Filho - 1946) é considerado um dos grandes Cantores e Compositores da Moderna Música Popular Brasileira.




CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS


WHITNEY WOUSTON - STEP BY STEP




OTIS REDDING - MY GIRL LIVE RECORDING


quinta-feira, junho 04, 2009


Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 153






DE ASCÂNIO TRINDADE ENTRE A CRUZ E A CALDEIRINHA


No auge da discussão, falto de argumentos, imprensado contra a parede, Ascânio Trindade perde a cabeça, abandona a amabilidade habitual e, mandando para o inferno o respeito devido à situação social, patente e idade dos interlocutores, grita para quem queira ouvir, no Aerópago e na rua:

- Não é porque o Comandante tem uma casa em Mangue Seco e quer gozar sozinho as delícias da praia que Agreste vai fechar as portas ao progresso. Não será por causa de meia dúzia de privilegiados que recusaremos as indústrias que desejam se instalar na nossa terra. Agreste se redimirá, doa a quem doer.

Quase um discurso, sem falar na exaltação. Criatura de entusiasmo fácil mas de trato lhano e convivência agradável. Patriota às voltas com quiméricos projectos para reerguer o decadente burgo, abarrotando de cartas as sessões de turismo dos jornais da capital, Ascânio reunira até então a estima, o apoio e os aplausos dos seus conterrâneos.

O apoio e o aplauso dos importantes, pela cordialidade e deferência com que os acolhe quando têm algo a tratar na Prefeitura e pelo esforço desprendido em prol de Agreste. Secretário da Prefeitura há seis anos, Ascânio realizara milagres, entre os quais de colocar em dia o recebimento dos impostos municipais, pequenos, poucos e, ainda por cima, sistematicamente sonegados.

Enfrentando o compadrio dos prefeitos, o total desinteresse do tesoureiro Lindolfo Araújo, galante presença a enfeitar o próprio da Municipalidade, funcionário relapso e nulo, a relutância de comerciantes e fazendeiros mal acostumados, Ascânio conseguira por ordem nas magras finanças da Prefeitura, sem se atritar com ninguém – contado não se acredita.

A estima dos pobres, da cidade e do interior, pela atenção que dispensa a cada um dos numerosos e atrapalhados problemas trazidos ao chefe da comuna, em realidade em seu proposto, na esperança de solução ora simples, ora difícil, quando não impossível. Reivindicações, reclamos, queixas, desavenças, brigas de vizinhos, cercas movidas durante a noite modificando os limites e rumos de sítios e posses, animais invadindo terreno alheio, um mundo de mesquinhas questões próprias à vida de um município paupérrimo, na maioria pessoais, sem nada a ver com a administração pública. Nem por isso Ascânio deixava de escutá-las e, frequentemente de resolvê-las. Faz as vezes de prefeito, conselheiro e juiz, solucionando litígios, reconciliando desafectos, esclarecendo dúvidas, conduzindo ao casamento relutantes sedutores responsáveis pelo ventre inchado de incutas ou apressadas tabaroas, chega a receitar remédios para soltura dos intestinos, prisão de ventre e barriga d’água. Ouve com atenção infindáveis lengalengas de roceiros a propósito das manhas de um maldito jegue ou das desventuras de um septuagenário abandonado pela mulher e pelos filhos, sozinho a lavrar árido e ingrato pedaço de terra. Sendo, quando preciso, veterinário e agrónomo.

Para os assuntos de atendimento impossível, encontra uma palavra de ânimo, de consolo. Se bem o cargo de secretário da Prefeitura lhe especifique determinado número de obrigações, o facto de Ascânio funcionar como representante ou substituto permanente do prefeito não lhe deixa tempo livre. Sobretudo aos sábados, quando infindável romaria demanda a sede do executivo municipal, durante e depois da feira. Ele atende a todos sem excepção.

Assim age sem nenhum interesse pessoal, gratuitamente, sem nada pedir em troca. Não pede porém recebe. Recebe consideração e víveres. Tratam-no de doutor, não porque houvesse cursado três anos na Universidade, mas por considerarem-no como tal, sapiente sem particularizarem o título concedido, doutor disso ou daquilo. Doutor, simplesmente. Trazem-lhe pequenos presentes, mesmo quando não necessitam consultá-lo.

Vale a pena vê-lo ao fim da tarde dos sábados, a caminho de casa onde, pitando o cachimbo de barro, a velha Rafa o espera. Leva matolotagem com que se alimentar durante a semana. Dádivas trazidas pelos roceiros e sitiantes, farto e variado mafuá: pernis de porco e de cabrito, gordos capões – cevei bem cevado para o senhor mandar fazer uma canjinha e ganhar sustância, explica a velha vendedora de puba e mandioca – olorosas jacas, cachos de bananas amarelecendo, raízes de inhame e aipin – aipin cacau, doutor, mole de desmanchar na boca, garante o caboclo risonho e desdentado – a fina farinha de mandioca, beijús molhados em leite de coco, quiabos, maxixes, chuchus e jilós, tudo escolhido para o moço paciente e bondoso. Fartura de mantimentos, servindo a quatro casas pois Ascânio divide carnes, farinha, espigas de milho, frutos, raízes e legumes com o capenga Leôncio e o sonhador Lindolfo – um dia se armará de coragem e embarcará na marinete de Jairo para enfrentar em Salvador os microfones de uma estação de rádio ou as câmeras de televisão – o qual, por sua vez, reparte a quota que lhe coube com a família do amigo Chico Sobrinho, em cujo lar acolhedor janta aos sábados e almoça aos Domingos.



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E Vivam os protestos a favor do povo...

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quarta-feira, junho 03, 2009

BAÚ DAS RECORDAÇÕES


DEMÈTRIO - O RITMO DA CHUVA

Versão do próprio Demétrio gravada originalmente em 1962 e que, desde então, não deixou de se vender em todo o Brasil. Entretanto, enveredou mais pela carreira de compositor:"Chega";"Esta Tarde Vi Chover";" Ei, Meu Pai";"Nas Voltas do Mundo"; O Menino e o Pião" são canções suas. Nasceu em 1942 e hoje o seu passatempo é a pesca onde se inspira e passa os seus melhores momentos.




CANÇÔES BRASILEIRAS


GERALDO VANDRÉ - CAMINHANDO (Música e Letra - Nascido em 1935 em João Pessoa)




CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS


JÚLIO IGLÉSIAS - EL AMOR




FREDERIC FRANÇOISE - UN CHANT D'AMOUR, UN CHANT D'ÉTÉ



Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 152






O Velho Parlamentar, tranquilizado com a retirada das moças, mas sempre contido como compete a um britânico (seu ar britânico, sua elegância londrina, definira um cronista parlamentar que lhe devia pequenos favores), concordou com um aceno de cabeça e reforçou a afirmação de Sua Excelência:

- Uma trabalheira.

Sua Excelência ia falando e despindo-se ao mesmo tempo, as meninas à espera no quarto:

- O Senador pode dizer também quanto tivemos de gastar…

Um gesto apenas, mas significativo, do Velho Parlamentar para demonstrar a enormidade da quantia despendida. Sua Excelência de camisa e cuecas, a cinta dobrada sob o volume da barriga, levanta o copo, os demais o acompanham no brinde:

- Hoje ninguém faz favores de graça, tudo é muito arriscado. Na situação actual ninguém pode se considerar seguro – Conta nos dedos: - Trabalho, dinheiro e risco. Muito risco. Apesar disso obtive a autorização para o funcionamento da indústria de vocês. Mas, já sabem: Vão poluir longe daqui, São Paulo não aguenta mais tanta fumaça – Os olhos gananciosos passam do Magnífico Doutor para o Audacioso Empresário. – Outro não conseguiria, só mesmo eu. Sabem o que isso significa?

- O país há-de agradecer a Vossa Excelência – pronunciou afoito e ingénuo o Audacioso Empresário.

- O país uma porra! – impulsivo como se sabe, Sua Excelência. Fita o Audacioso Empresário: esse sujeitinho pretende por acaso gozá-lo? Desaparece a figura de caipira bonachão, ergue-se novamente o maioral, senhor de baraço e cutelo, aquele que põe e dispõe.

Imóvel, britânico, o Velho Parlamentar pousa o olhar confiante no Magnífico Doutor cuja voz melíflua, em tom menor porém audível, coloca a gratidão em seus devidos termos:

- O país e a Brastânio, Excelência: O Natal das crianças pobres de São Paulo a quanto subiu? Recorda-se Excelência?

O Audacioso Empresário estremece ao ouvir a quantia absurda. Quer falar, obter uma redução, mais uma vez o gesto quase imperceptível do Magnífico Doutor o retém: com Sua Excelência não vale a pena pechinchar, é perigoso; a concessão da licença ainda não foi publicada e certamente não o será antes de tudo estar em ordem, a maquia depositada num banco, na Suiça, como nos folhetins sobre vendas de armas e poços de petróleo. Adianta-se o Magnífico Doutor, numa pergunta cuja resposta conhece:

- Como sempre?

- Exacto.

Ao sair pela porta que leva ao quarto onde as duas moças o aguardam, resignadas, Sua Excelência, dirigindo-se ao Magnífico Doutor, aponta o Audacioso Empresário:

- Mudo ele é melhor do que falando. Quando abre a boca, caga tudo. Mas você, no dia que deixar esses ladrões, me procure, tenho colocação para você no meu gabinete.

Apressada, uma das raparigas volta à sala em busca da roupa de Sua Excelência. Apenas ela fecha a porta, o Velho Parlamentar eleva o guarda-chuva e pigarreia. O Magnífico Doutor entende, estende a mão para a pasta. Não pergunta o custo de Natal dos pobres do Senado, acertara preços e valores com o Jovem Parlamentar no início da longa e custosa operação, ali mesmo, no refúgio dos lordes.

Abre a pasta, preenche um cheque (ao portador, naturalmente). Para cada situação, um lance, para cada parceiro, uma gorjeta, mais gorda ou menos gorda, sempre ponderável. O Magnífico doutor pensa em termos de gorjeta, gorjeta é o que se dá a um criado mesmo se ele enverga esmo quingue, fraque ou casaca. Excitante partida de xadrez. Algumas vezes, raras, terminando em escândalo, em processo. Em xadrez, medíocre jogo de palavras. Suspende os ombros: no Brasil, ao que se lembre, nunca. De qualquer maneira, há sempre um risco a correr quando se deseja gozar a vida ao máximo. Além de ser estimulante diversão, empregar a inteligência que deus lhe deu a mover as peças: a calhordagem de Sua Excelência, a hipocrisia de Velho Parlamentar, a presunção do Audacioso Empresário. Tudo perfeito, não fora ter perdido a ruiva, jogada suja de Sua Excelência.

O Velho Parlamentar embolsa o cheque, depois de constatar-lhe o montante: apenas o combinado, nem um centavo a mais, correctos porém avaros. O rosto impassível não demonstra a decepção. Afinal, quem se empenhou, correndo risco foi Sua Excelência, por isso mesmo recebe aquela imensa bolada, em divisas, a salvo na Suiça. Belo país a Suiça, longe todavia da perfeição da Inglaterra. Vai levantar-se – há uma menina, uma só, a mais novinha de todas, a esperá-lo – quando o Magnífico doutor coloca outra questão, abrindo inesperadamente perspectivas:

- Sua Excelência retirou-se antes que pudéssemos tratar do problema da localização…

- Em São Paulo, já sabem, não pode ser. Aliás, em todo o Sul.

- Já nos decidimos pela Bahia. O problema é onde, na Bahia… O magnífico Doutor expõe os dados do que ele chama de “pequeno porém importante detalhe”.

O Velho Parlamentar permite-se sorrir britanicamente, no fleumático rosto de lorde uma nuança de satisfação. Ah! os poderosos e necessitados empresários terão de pagar caro, desta vez não tratam com a sôfrega inexperiência do Jovem Parlamentar. Preço elevado, sirs. Para começar, pela informação confidencialíssima, circunscrita aos altos escalões: consta que estão pedindo a cabeça de Sua Excelência. Falam em cassação, nada mais nada menos. Sim, exactamente por corrupto. Depois, o estabelecimento de novos contactos para resolver “o pequeno porém importante detalhe”, importante e grande problema, nem pequeno, nem detalhe, “God save the King!”

Tudo tratado com descrição e finura, entre cavalheiros. Sua Excelência é um grosso, um porcalhão, um asco, o oposto de um lorde.


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O QUE VALEU É QUE ERA A BRINCAR...

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terça-feira, junho 02, 2009

BAÚ DAS RECORDAÇÕES

RAQUEL MELLER (de seu nome Francisca Marquês Lópes - 1888-1962) - El RELICÁRIO (1914)

Diz-se que foi a artista espanhola com mais êxito internacional no Sec.XX, especialmente nos anos 20 e 30.




CANÇÕES BRASILEIRAS


ALTEMAR DUTRA - ESTÃO VOLTANDO AS FLORES
Música - PAULO SOLEDADE

Altemar Dutra de Oliveira nascido em 1940 e falecido precocemente em 1983 em Nova York. Foi considerado o maior cantor romântico de música popular brasileira.




CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS


CELINE DION and BÁRBARA STREISAND - TELL HIM




JEAN FRANÇOISE MAURICE - MÓNACO, 28º À L'OMBRE



Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 151







DE NOVA E DISCRETA CONVERSA NO ELEGANTE AMBIENTE DO REGÚGIO DOS LORDES, DISCRETA APESAR DA GROSSURA (EM TODOS OS SENTIDOS DE SUA EXCELÊNCIA)




- Meus caros, o que vocês estão pleiteando é de lascar. O que eu devia fazer era meter vocês na cadeia.

Assim falou, para começo de conversa, Sua Excelência. Havia retirado o paletó; a rapariga nua sentada sobre as suas pernas brincava com os suspensórios negros que sustentavam as calças do eminente estadista, resguardando-lhe as banhas da barriga. No rosto avelhentado de Sua Excelência, placas vermelhas. Os olhos astutos, os gestos laços, a voz arrastada, a vulgaridade e a prepotência.

O Magnífico Doutor não responde, apenas sorri, espera que as meninas acabem de servir as bebidas e se retirem. Uma delas lembra Bety, toda ruiva, desperta-lhe o apetite. Quem sabe, ao fim da entrevista.

Tão pouco o Velho Parlamentar se sente confortável na presença das raparigas. Nada tem contra elas nem contra o facto de estarem nuas, o Velho Parlamentar frequenta a casa há séculos, habitue desde os tempos de Madame Georgette, quando o actual Refúgio dos Nobres ainda se chamava Nid D’Amour. Gosta de raparigas e vê-las nuas, não existe melhor colírio para a vista cansada segundo afirma. Mas tudo tem sua hora e seu lugar e se o lugar é o adequado para o nu artístico, o assunto não o é para ouvidos estranhos, não se devendo misturar alhos com bugalhos. Uma das nudistas apoia-se no elegante guarda-chuva negro de propriedade do Velho Parlamentar.


Educado em Oxford, o Velho Parlamentar adquiriu hábitos e feições de lorde inglês: alto e magro, bem escanhoado, bigode branco e altivo, traje cortado em alfaiate londrino, roseta na lapela, a aparência fleumática. Os modos populacheiros de sua Excelência certamente lhe desagradam. Sua Excelência é o oposto de um lorde inglês e não fora a posição alcançada – pobre São Paulo! – dada de mão beijada por Vargas nos tempos da outra ditadura, posição renovada e mantida à custa dos mais variados e discutíveis recursos e alianças, jamais lhe seria permitida a entrada em círculo tão distinto e reservado.

Tendo Sua Excelência falado em cadeia, o Velho Parlamentar permite-se tossir, para adverti-lo da inconveniência de tratar assuntos de monta, de altos interesses e patrióticas ilações, na presença de garotas de indiscutível graça e tentador apelo mas decididamente impróprias para a ocasião e o elevado debate socio-económico. Pigarreia com cautela, a medo: Sua Excelência, impulsivo, ao ser interrompido, por vezes reage com ofensiva brusquidão. Costuma tratar os auxiliares directos, secretários, oficiais de gabinete, de ladrões – empregando aliás termo próprio pois o são e como! – e não respeita nem idade provecta nem mandato parlamentar dos correligionários, sobretudo agora com o poder legislativo tão por baixo.

Ao ouvir o tímido pigarro, Sua Excelência faz uma careta, a pique de abrir a boca para dizer o que pensa do Velho Parlamentar e da sua mania de prudência e discrição mas se contém. De facto, o gracioso gesto da menina sentada em suas pernas, a lhe massajar sabiamente o cangote, é incompatível com a reunião de trabalho: um estadista nem sequer num rendevu pode se entregar ao relax. Tratará de fazer a conversa concreta e breve. Com uma palmada no doce traseiro, desaloja a menina e a despede recomendando:

- Esperem no quarto – Sorri para a outra, a picante ruiva que despertou o interesse do Magnífico Doutor, a seguir a cena, conformado. Nem tudo na vida são flores, não é mesmo? Muitas ruivas existem por aí. Seja tudo pelo bem da Pátria!

Saem as raparigas, garrido séquito, deixando as garrafas e os copos servidos. Uísque daquela marca não existe no Palácio dos Campos Elíseos, somente encontrado no Joquei Clube e no Refúgio dos Lordes. Sua Excelência, conhecedor:

- Isso, sim, é uísque, o resto é porcaria. Mando comprar do melhor, os ladrões compram uísque falsificado, embolsam o troco. Devia meter todos na cadeia. Vocês também. A directoria inteira.

O Audacioso Empresário, orgulhosa e árdega juventude, saído de famosa Escola de Administração e Economia onde hoje dita conferências, após brilhante curso de executivo nos estados Unidos, competentíssimo tecnocrata, um dos cérebros mais dotados da nova geração, ameaça abrir a boca para replicar mas o Magnífico Doutor o impede com um gesto quase imperceptível. Se ele protestar, vai pôr tudo a perder: assusta-se o testa-de-ferro pago também para evitar impensadas gafes dos senhores directores, técnicos formidáveis, políticos desastrados e – muito em particular – aos militares.

Ao ver Sua Excelência sorrir, baixando os suspensórios, num gesto bonacheirão, parecendo um caipira, o Audacioso Empresário reconhece a experiência e a habilidade do Magnífico Doutor; para tais missões, imbatível em esperteza e tino. Sua Excelência inicia a cobrança:

- O Senador pode dizer o trabalho que tivemos.

BAÚ DAS RECORDAÇÕES


CANTORES DE ÉBANO - GREENFIEDS (1961)





CANÇÕES BRASILEIRAS


LEILA PINHEIRO - GOSTAVA TANTO DE VOCÊ (1973)
LETRA E MÚSICA de EDSON TRINDADE




CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS


BYRON LEE & MIGHTY SPARROW - ONLY A FOOL




DI QUINTO ROCO - JE T'AIME BIEN PAPA












Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 150








“Sabes tu, meu poeta, que no mundo inteiro existem apenas seis fábricas de dióxido de titânio? Que recentemente um juiz condenou à prisão os directores de uma delas, na Itália, pelo mal causado ao Mediterrâneo, pela poluição das águas e destruição da flora e da fauna marítimas? Sabes que nenhum país civilizado aceita no seu território essa monstruosa indústria? Que a empresa cuja presença ameaça o Brasil, não obteve autorização para erguer as sua chaminés malditas na Holanda, no México, no Egipto? Vade retro! Exclamaram os governantes recusando os imensos capitais, não somente por estrangeiros mas sobretudo por assassinos da atmosfera e das águas”.

Dona Carmosina descansa o jornal sobre o lençol, de alguma dessas coisas ela sabe, delas tomara conhecimento, lera nos jornais, mostrara inclusive ao Comandante Dário artigo em O Estado de São Paulo e juntos aplaudiram a sentença ditada por um juiz italiano, um porreta.

“Teus maravilhosos versos, poeta, sobre a praia de Mangue Seco serão amanhã os únicos testemunhos da beleza das límpidas águas, da areia fina, da riqueza dos cardumes de peixe, da valentia dos bravos da pesca, quando a Megera, elevando-se das chaminés das fábricas ali construídas, estender seus gadanhos de fumaça sobre as dunas. Toda a paz e beleza que cantaste em tantos poemas de amor vai apodrecer e acabar nos efluentes de sulfato ferroso e de ácido sulfúrico, nos gases do dióxido de enxofre, na poluição desmesurada.”
Meu Deus! sussurra dona Carmosina, sentindo um peso no peito, falta de ar.

"Apesar de ainda não terem obtido a necessária autorização do Governo Federal para o estabelecimento de tal indústria no país, os directores da recém organizada Brastânio: Indústria Brasileira de Titânio S.A. – de brasileira bem pouco ela tem, meu poeta, afora os testas-de-ferro – sabem de antemão que não lhes será permitido erguer suas fábricas nos estados do Sul. Voltam-se para o desditoso estado da Bahia, onde quatro zonas estão sendo objecto de estudo da Empresa, em busca de local onde instalar suas fatídicas chaminés. Técnicos e agentes espalham-se nas plagas grapiúnas, entre Itabuna e Ilhéus, no Recôncavo, para as bandas de Valença e há quem diga que até aos subúrbios da capital, nas imediações da Aremberque, estão sob sua mira. Tudo indica. Porém, que as preferências dos reis da poluição pendem para a região do litoral do estado, os coqueirais de Mangue Seco, a foz do rio Real.”

Todo o calor da tarde cai sobre dona Carmosina, lá fora o céu escurece.

Pobre Barbozinha: seu amigo Giovanni Guimarães a alertá-lo publicamente enquanto ele rima louvores aos donos da Brastânio, aos reis da poluição. Suprema ironia do destino! Clama dona Carmosina espantando as moscas.

- Precisa de alguma coisa, Carmô? – a voz de dona Milú da porta da rua.

- Nada, Mãe.

"A região grepiúna é rica, meu poeta, pesa nos destinos da economia nacional, tem forças para impedir a ameaça a seu mar, ao rio Cachoeira, a própria lavoura do cacau, fonte importante de divisas. O mesmo pode dizer-se do Recôncavo, menos rico mas defendido pelos restos do prestígio político dos barões da cana-de-açucar, decadentes, porém barões.

Quanto a Arembepe, seria sem dúvida o local perfeito do ponto de vista dos empresários, devido à proximidade da capital, às vias de comunicação, ao lado do Centro Industrial de Aratu, mas nenhum governo, por mais discricionário, se atreverá a conceder autorização para que seja poluída a cintura da cidade, acabando com a pesca, tornando as praias impraticáveis, expulsando os turistas, empestando a própria capital do Estado. Ah! meu poeta, resta apenas o município de agreste, esquecido de Deus e dos homens, desprotegido da sorte. O habitat da Maldita será Mangue Seco. Atenção, poeta! Vão aparecer por aí, se já não apareceram, os emissários da poluição, prometendo mundos e fundos, falando em progresso e riqueza, mas é a morte que eles conduzem em sua pasta repleta de moedas estrangeiras."

Empapada de suor, dona Carmosina chega ao fim da crónica de Giovanni Guimarães. Escuta ao longe a voz de dona Milú conversando na porta com uma vizinha. Lê as últimas linhas:
“ Ergue a
voz, poeta, toma da lira e desfere um grito de protesto, defende a paz e a beleza do teu rincão de sonho, desperta a cólera do povo e impede que a poluição se instale sobre as colinas e praias, desça ao fundo das águas, cubra de negro o céu diáfano de Agreste.”
A crónica termina repetindo a mesma grave
advertência do começo:
Teu paraíso está ameaçado de morte, poeta!”

Dona Carmosina, as mãos trémulas, o coração descompassado, levanta-se, esquecida da gripe, veste-se às carreiras e, sem dar qualquer explicação a dona Milú, além do aviso: volto logo, sai porta fora, o jornal em punho, em busca de Barbozinha. A essa hora o poeta costuma estar no bar, peruando o jogo de bilhar ou a partida de gamão entre Chalita e Plínio Xavier. Mas quem ela encontra no começo da rua da Frente é o comandante Dário que pergunta ao avistá-la:

- Aonde vai assim correndo, minha boa Carmosina? – aproximando-se constata a alteração da amiga, lembra-se que ela devia estar na cama, se assusta – sucedeu alguma coisa?

Dona Carmosina estende-lhe o jornal:

- Leia.

- Com mil demónios!

Ali mesmo, parado, no meio da rua, o Comandante devora a crónica. Interrompe a leitura, pragueja:

- Com mil demónios!

segunda-feira, junho 01, 2009

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Hoje, nas ruas, amanhã, nos estádios...

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BAÚ DAS RECORDAÇÕES


CRISTINA MOTA - ASSUM PRETO
COMPOSIÇÃO DE LUÍS GONZAGA/HUMBERTO TEIXEIRA (1950)





CANÇÕES BRASILEIRAS


TAIGUARA - GENTE HUMILDE (CHORO)
MÚSICA DE GAROTO (ANÍBAL AUGUSTO SARDINHA - 1952- Grande violinista e compositor paulista, filho de imigrantes portugueses. Após a sua morte, em 1969, Vinícius de Morais e Chico Buarque escreveram a letra)





CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS

CELINE DION - THINK TWICE





DUSTY SPRINGFIELD - IF YOU GO AWAY



Tieta do Agreste


EPISÓDIO nº 149





GRITO DE ALERTA,
CAPÍTULO ONDE SE RESUME A FAMOSA CRÓNICA



Em capítulo anterior, o nome de Giovanni Guimarães foi referido na condição de amigo do poeta Barbozinha, parceiro de boémia, de vida airada nos castelos e nos cafés de subliteratos, sem que houvesse no entanto alusão às qualidades e ao conceito do foliculário, redactor de A Tarde desde os tempos distantes de calouro na faculdade de Medicina, assinando há vários anos na popular gazeta da capital baiana, quotidiana e quase sempre risonha coluna, muito lida e apreciada. Por vezes, o tema tratado levava o articulista sem maldade mas enfurecido a trocar a leveza e a graça do comentário pela áspera denúncia das injustiças sociais, substituindo o sorriso trocista e bonacheirão por impetuosa ira. Quando apontava violências e dizia da opressão e da miséria.

“Teu paraíso, poeta, está ameaçado!” Com esta frase de advertência, o articulista inicia a dramática missiva dirigida ao poeta e cidadão do município de Sant’Ana do Agreste, Gregório Estáquio de Matos Barbosa. Dona Carmosina tenta adivinhar: o que será, meu Deus? Recorda a gostosa gargalhada do jornalista, ecoando na agência dos Correios quando visitara Agreste. Homem mais alegre, logo amigo de todos, sobretudo de Osnar.

No começo da crónica, Giovanni Guimarães reporta-se exactamente à visita a Agreste, havia alguns anos, a convite do poeta que “ao aposentar-se da função pública exercida com exemplar dedicação na Prefeitura de Salvador, abandonara a vida agitada da capital, os hábitos notívagos de boémio, os círculos literários, retornando aos ares saudáveis, ao clima admirável do torrão natal”.

Recorda os dias, poucos, porém felizes, de permanência na “bucólica cidadezinha, reino feliz da paz, recanto idílico” e os passeios no rio, o banho na Bacia de Catarina, as idas à praia de Mangue Seco, “obra prima da natureza, paisagem de começo do mundo, única e incomparável”. Em companhia de Barbozinha, cicerone perfeito, Giovanni pudera conhecer e desfrutar as delícias “desse paraíso na terra. Éden de beleza e harmonia, onde o homem – em que pese a língua ferina das beatas – ainda é próximo do homem.”

Durante a curta estada em Agreste, escandalizava as beatas fazendo, no adro da Igreja, na hora da bênção, o elogio do pecado e do inferno, repleto de mulheres belas e dadivosas, enquanto o céu não passa de uma chatice eterna de santos barbudos e hinos monótonos. Mas, nem mesmo as velhas xeretas resistiam ao riso comunicativo, ao calor humano que se desprendia do estroina, riam com ele. O único céu onde vale a pena viver é Agreste, paraíso na terra, conluia. Ali, ao respirar aquele ar fino e puro, sentia-se rejuvenescer, limpo os pulmões e o coração. Um
pândego, cumutucavam-se as comadres.

Pois bem: “Teu paraíso está ameaçado de morte, poeta, a Magra busca instalar-se nas águas do rio Real, nas ondas de Mangue Seco, corveja sobre campos e dunas. Para transformar o diáfano céu azul em poluída mancha negra, para envenenar as águas, matar os peixes e os pássaros, reduzir os pescadores à miséria, substituir a saúde por enfermidades novas de imprevisíveis consequências”.

Dona Carmosina suspende a leitura para respirar: ai, meu Deus, por que tão terrível profecia?

Uma vez, na prosa do Areópago, Giovanni perguntara-lhe por quantos anos ainda o povo de Agreste gozaria em paz a delícia do clima perfeito, a doce convivência, distante dos males da sociedade de consumo? Mais dia menos dia, ele mesmo respondera, os horrores da civilização aportariam na Bacia de Catarina, nos cômoros da praia, adeus felicidade!

domingo, maio 31, 2009

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INIMIGOS QUE ELES ERAM....

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BAÚ DAS RECORDAÇÕES


BOBY SOLO - ZÍNGARO




CANÇÕES BRASILEIRAS


ROBERTO CARLOS & ERASMO - SENTADO Á BEIRA DO CAMINHO





CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS


FAUSTO LEALI - PER UN MOMENTO, NO PERSO TE




AGNETHA FALTSKOL - PAST, PRESENT and FUTURE


Tieta do Agreste - Episódio n.º 148



Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 148


Tieta, precavida, trouxera de São Paulo pequenos presentes de Natal para a família mas, além disso, agradecida pela forma como a receberam e tratam, deu dinheiro a Zé Esteves e Tonha, a Astério e Elisa e cadernetas de poupança a Ricardo e a Peto, abertas em nome dos sobrinhos em banco de São Paulo. Ademais, a Ricardo, pela inestimável ajuda na construção do Curral do Bode, ofertou aquele anel, jóia do acervo do finado Comendador Filipe. As mãos carregadas, chegam, ela e Leonora, à casa de dona Milú. - Mais presentes? Não se contenta com o que nos trouxe de São Paulo? - Dona Milú abana a cabeça ao receber o leque japonês – Você não toma jeito, Tieta. - Até melhorei da gripe… - declara, animada, dona Carmosina admirando o broche de fantasia, vistoso. Não se demoram, Leonora tem encontro marcado com Ascânio, vão à matiné, e dona Carmosina, o rosto abatido, a voz rouca, ainda não está em condições de prosa longa. - Volte para a cama – ordena Tieta. – E não pense em sair amanhã. Se quiser, eu fico de plantão no correio. O Comandante propõe uma comissão de pelo menos cinco pessoas para assumir a responsabilidade de substituir a boa Carmosina: - Uma só não chega… - Não é necessário ninguém; amanhã é dia de pouco movimento, só tem mala depois de amanhã. Mãe dá um pulo lá, não precisa mais. No dia seguinte, depois do almoço, dona Milú foi entregar o resto do correspondência e os jornais, demorou-se a ver se aparecia alguém com cartas a enviar, matando o tempo a conversar com Osnar e Aminthas até por volta das quatro horas, quando fechou a porta e, levando consigo o exemplar de A Tarde voltou para casa. Quem por acaso precisasse de enviar telegrama, sabia onde encontrar a agente dos correios e Telégrafos. Bem mais disposta mas ainda guardando o leito, dona Carmosina ajeita os travesseiros, pondo-se cómoda para a leitura da gazeta. Relanceia os olhos pelos títulos de primeira página, reportagem sobre a carestia da vida, as dificuldades da população praticamente impedida de comemorar o Natal devido à alta dos preços. Não somente das castanhas, das avelãs, das nozes, das amêndoas, do queijo de cuia, do bacalhau; também do feijão, do arroz, da carne-seca, tudo pela hora da morte. Virando a folha, na página nobre de A Tarde, a do editorial, dos tópicos e artigos importantes, matéria da sua especial predilecção: a coluna diária de Giovani Guimarães. Ao ver de dona Carmosina, ninguém supera esse cronista na graça do comentário galhofeiro ou no ferrete da crítica aguda às mazelas da sociedade de consumo. Bate os lhos miúdos no título da matéria e o que vê? Carta ao poeta DE Matos Barbosa, em letras negras e gordas, encimando as duas colunas em grifo, assinadas por Giovanni. O rosto da enferma se ilumina, exclama: oba! Mas a alegria de ver o nome do amigo no alto da página transforma-se em agitada agonia apenas lê a primeira linha da crónica: Teu paraíso, poeta, está ameaçado!

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