sábado, abril 11, 2009

É PRECISO TER MUITA CONFIANÇA NO ANIMAL

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sexta-feira, abril 10, 2009

TUDO É POSSÍVEL

MRIZA - CHUVA

FREDDY MERCURY - I WANT TO BREAK FREE

NICOLA DE BARI - IL CORE È UNO ZÍNGARO


Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 98







Há algum tempo, no começo das prolongadas negociações para a aquisição da casa de dona Zulmira, a cunhada propusera que, realizada a compra, ali fossem morar juntos os dois casais, o Velho e a mãe Tonha, ele e Elisa: na residência vasta e confortável cabiam os quatro e sobrava espaço. A ideia não o seduzira, agradando ainda menos a Elisa. Tieta ouvira as razões da recusa e com elas concordara. Diante disso, Astério, ficara à espera de uma palavra da caridosa parenta referente à aquisição de casa própria para a mana mais nova a quem dava mostras de tanta estima. Espera vã jamais a cunhada voltara a falar com eles sobre moradia. Somente na véspera, Astério descobrira o motivo desse silêncio. Ao voltar do bilhar, à noite, comentando a escritura a ser assinada no dia seguinte, a compra da casa de dona Zulmira, finalmente decidida, Astério previra, esperançoso: quem sabe, agora vai chegar a nossa vez. Em resposta ouvira a espantosa revelação, tomara conhecimento dos alarmantes planos de Elisa. A esposa lhe explicara dever-se a reserva de Antonieta ao desinteresse demonstrado por ela, Elisa, a respeito de casa no Agreste. Do meio dos lençóis, a voz fustigara, decidida, insensível, quase agressiva:

- Eu disse a Tieta que não queria ter casa própria em Agreste. Se ela quiser fazer alguma coisa por nós dois que nos leve para São Paulo, arranje para você um bom emprego numa das fábricas, nos ceda um quarto em seu apartamento, é um apartamento enorme, duplex. Duplex quer dizer que tem dois andares, um sobrado.

Astério respondera com um gemido: a dor no estômago ressurgindo, repentina e violenta. As palavras de Elisa soaram-lhe como um cantochão de funeral. Rasgaram-lhe as entranhas. Emprego em São Paulo, no escritório de uma indústria? Monstruosa perspectiva! Sair da vida tranquila de Agreste para enfrentar a correria da cidade imensa, sentar-se diante de uma escrivaninha a fazer contas ou a anotar relatórios, das oito da manhã às seis da tarde, sem liberdade de ir e vir na hora que bem entendesse, sem amigos, sem o bar de seu Manuel, sem a mesa de bilhar, desgraça maior não podia ameaçá-lo. Em Agreste, a vida do casal decorria na pobreza, é verdade, a loja mal dava para o essencial, quando dava, mas com a ajuda de Antonieta iam atravessando sem problemas, havia o suficiente para a casa, a comida e ainda sobrava para o cinema e para as revistas de Elisa. Ademais, à excepção de meia dúzia de privilegiados, todos na cidade eram remediados ou pobres e a vida transcorria sem percalços, na maciota. Tinha o moleque para ajudá-lo na loja, Elisa tinha a moleca para ajudá-la na casa. Apenas o estômago o aperreava todas as vezes que o movimento comercial decrescia e um título a pagar começava a contar juros mas o médico na Bahia, lhe garantira não ser câncer mas sim nervosismo.

Fora disso, vivia satisfeito, na boa companhia dos camaradas, das partidas de bilhar Brunswick, com as apostas, as disputas, as vitórias, taco de ouro, a prosa agradável, poucos afazeres e a mulher bonita, a mais bonita de Agreste, à espera na cama, à disposição para as noites em que se punha nela, sempre na mesma clássica disposição, quase respeitosamente, como devem praticar tais actos esposos que se prezem.

Quando solteiro, fora freguês assíduo da pensão de Zuleika Cinderela, amarrando rabichos, sempre por mulher de traseiro atrevido, de ancas bem torneadas, vistosas. Na cama não recusava variações; constando inclusive ser por demais chegado a comer bunda de mulher; rapariga que dormisse com ele se já não sabia, logo ia ficar sabendo dessa sua preferência. Quando ele aparecia na sala da pensão, onde dançavam, corria a voz entre as pequenas: segurem o cu, Astério está na casa. Ao que consta, não se reduzira a subilatórios de mulheres-da-vida, descadeirando igualmente várias solteironas, tendo merecido em priscas eras o apelido de Consolo do Fiofó das Vitalinas.

Casado, jamais lhe passara pela cachola possuir Elisa senão como conveniente, no buraco próprio e com decência, ele por cima, ela por baixo, papai e mamãe, como classificam as putas na pensão, posição de fazer filhos, ou seja, própria para esposo e esposa. Tampouco lhe aflorara o pensamento montá-la por detrás, indo-lhe às traseiras magníficas, ancas de égua, sem igual em toda a redondeza. Não que lhe faltasse vontade: fosse ela rapariga ou moleca, roceira ou solteirona, e ele não perderia pitéu assim apetitoso, aquela sumptuosa bunda, motivo fundamental da paixão a dominá-lo, levando-o a noivado e casamento. Mas esposa não é para descaração, a mulher da gente deve ser respeitada, posta entre as santas, num altar. Quando muito, uma vez na vida ou na morte, na hora do gozo, elevando-o ao infinito, dando-lhe nova qualidade, Astério corre a mão nas ancas da mulher, em furtivo agrado.

Leitora de revistas nas quais são contados os feitos dos galãs da rádio, televisão, cinema, Elisa ressente-se do aparente desinteresse sexual do esposo, de fornicação escalonada, burocrática – burocrata do sexo, assim a fogosa actriz o ilustre comediante do qual vinha de se desquitar, em sensacionais declarações prestadas à revista Amiga – da maneira única, repetida, sem as variações tão badaladas. O próprio Astério, de quando em vez, relatando a última de Osnar ou de Aminthas, de Seixas ou de Fidélio se refere a outras curiosas formas e maneiras, sobre as quais tudo sabe dona Carmosina – ah!, infelizmente apenas na teoria, minha Elisa, quem me dera a prática! Quem dera também a Elisa, talvez por isso injusta com o marido.

Desinteresse da parte dele não existe e sim a convicção de que amor de esposo e esposa tem de exercer-se, isento de arroubos, de maus pensamentos e de extravagâncias, respeitoso. Represado, Astério contenta-se em ser proprietário daquele rabo, de espiá-lo quase às escondidas, enquanto Elisa muda a roupa, de sentir-lhe a proximidade na cama. Digno, contido esposo.


É a indocassão k bamos tendu!!??

(Reprodução na íntegra)


*As melhores frases dos piores alunos* :


*O Convento dos Capuchos foi construído no céculo 16 mas só no céculo 17 foi levado definitivamente para o alto do monte.* (claro! Com o peso demorou 100 anos para subir o monte !!!)

*A História divide-se em 4: Antiga, Média, Momentânea e Futura, a mais estudada hoje* (a Futura é particularmente estudada pela "Maya" certamente)

*A Bigamia era uma espécie de carroça dos gladiadores, puchada por dois cavalos.* (será que este é Bígamo e sabe por experiência ?)

*O metro é a décima milionésima parte de um quarto do meridiano terrestre e para o cálculo dar certo arredondaram a Terra! * (Ups! Até eu me vi atrapalhado para fazer o cálculo. Imaginação tem ele)

*O cérebro humano tem dois lados, um para vigiar o outro.* ( o dele de certeza, só que estão ambos os lados com avaria)

*O cérebro tem uma capacidade tão grande que hoje em dia, praticamente, toda a gente tem um. (ora aí está uma que é lógica: praticamente, note-se, ele até tem razão!!)

*Pergunta: Em quantas partes se divide a cabeça?
Resposta: Depende da força da cacetada.
* (Obviamente)

*Quando o olho vê, não sabe o que está a ver, então ele amanda uma foto eléctrica para o cérebro que lhe explica o que está a ver.* (nada mal pensado. Somos uma máquina fotográfica em potência e em funcionamento contínuo)

*O nosso sangue divide-se em glóbulos brancos, glóbulos vermelhose até verdes! * (acho que faltam os Azuis !!)

*Nas olimpíadas a competição é tanta que só cinco atletas chegam entre os dez primeiros.* (outros cinco chegam nos 10 últimos!!!)

*O piloto que atravessa a barreira do som nem percebe, porque não ouve mais nada.* (claríssimo !! Se passou a barreira o som quando chega já ele passou, por isso não o ouve. Será?)

*O teste do carbono 14 permite-nos saber se antigamente alguém morreu.* (Hoje em dia acho que basta verificar se o coração parou ou se respira)

*Antes mesmo da guerra a Mercedes já fabricava Volkswagen (e depois da Guerra? A Mercedes passou a fabricar o quê?)

*O pai de D. Pedro II era D. Pedro I, e de D. Pedro I era D. Pedro 0* (e antes foi o Pedro -1, já agora)

*Nos aviões, os passageiros da primeira classe sofrem menos acidentes que os da classe económica.* (claro. Pagam mais têm mais regalias)

*Em 2020 a caixa de previdência já não tem dinheiro para pagar aos reformados, graças à quantidade de velhos que não querem morrer.* (São uns chatos os velhos o melhor é dar um tiro a cada um!)

*O verme conhecido como solitária é um molusco que mora no interior, mas que está muito sozinho.* ("tadinho.. este gajo deve é ter um verme no cérebro")

*Na segunda guerra mundial toda a Europa foi vítima da barbie (queria dizer, decerto, barbárie) nasista.* (isto é que é barbárie mental)

*Cada vez mais as pessoas querem conhecer a sua família através da árvore ginecológica.* (esta árvore é muito conhecida )

*O hipopótamo comanda o sistema digestivo e o hipotálamo é um bicho muito perigoso.* (e a tua mãe também pá)

*A Terra vira-se nela mesma, e esse difícil movimento chama-se arrotação.* (não consigo encontrar melhor definição)

*Lenini e Stalone eram grandes figuras do comunismo na Rússia.* (exactamente, principalmente o Stalone)

*Uma tonelada pesa pelo menos 100Kg de chumbo.* (Diabos me levem !!!)

*Quando os egípcios viam a morte a chegar, disfarçavam-se de múmia.* (olha que boa ideia. Vamos começar a seguir o princípio)

*Uma linha recta deixa de ser recta quando encontra uma curva.* (esta tem lógica !!!!)

*O aço é um metal muito mais resistente do que a madeira.* (e também divide o cérebro em várias partes conforme a força da pancada)

*O porco é assim chamado porque é nojento.* (tem a sua razão de ser)

*A fundação do Titanic serve para mostrar a agressividade dos ice-bergs.* (claro, nem a experiência podia ter sido feita de maneira diferente; tinha de ser usado um dos animais mais agressivos que se conhece)

*Para fazer uma divisão basta multiplicar subtraindo.* (esta não entendi a lógica mas que é complicado lá isso é)

*A água tem uma cor inodora.* (nem mais)

*O telescópio é um tubo que nos permite ver televisão de muito longe.* (o tipo deve ser "espião" da vizinhança)

*O Marechal António Spínola é conhecido principalmente por estar no dicionário.* ( se calhar ...)

*A idade da pedra começa com a invenção do Bronze.* (tu é que deves ser da idade da pedra)

*O sul foi posto debaixo do norte por ser mais cómodo.* (obviamente que sim. Tinha algum jeito o contrário?)

*Os rios podem escolher desembocar no mar ou na montanha.* (é isso ! Ao nascerem podem escolher)

*A luta greco-romana causou a guerra entre esses dois países.* (por isso surgiu a fisga)

*Os escravos dos romanos eram fabricados em África, mas não eram de boa qualidade.* (e eu é que sou racista!)

*O tabaco é uma planta carnívora que se alimenta de pulmões.* (aí está uma maneira de ver o problema que tem alguma razão de ser)

*Na Idade Média os tractores eram puxados por bois, pois não tinham gasolina.* ( ele seria tractor nessa época e reincarnou?)

*A baleia é um peixe mamífero encontrado em abundância nos nossos rios.* (todos os dias me cruzo com baleias ao atravessar o rio)

*Newton foi um grande ginecologista e obstetra europeu que regulamentou a lei da gravidez e estudou os ciclos de Ogino-Knaus. * (Não consigo ter palavras)

*A trompa de Eustáquio é um instrumento musical de sopro, inventado pelo grande músico belga Eustáquio, de Bruxelas. * (pois e as tuas trombas também)

*Ecologia é o estudo dos ecos, isto é, da ida e vinda dos sons.*

*A Biologia é o estudo da saúde. E para beneficiar a saúde é que foi inventado o biotónico.*

*As constelações servem para clareficar a noite.*

*Ao princípio os índios eram muito atrasados mas com o tempo foram-se sifilizando. (tal qual como quem escreveu!!)

*As aves teem na boca um dente chamado bico.*

*A Terra é um dos planetas mais conhecidos e habitados do mundo.* (tanto quanto se sabe...)

*A Latitude é um circo que passa por o Equador, dos zero aos 90º.* (os "circos" deste são mais pequenos que o habitual, mas está bem, é uma opinião a ser estudada!!)

*Caudal de um rio, é quando um rio vai andando e deixa um bocadinho para trás!* (é claro. Caso contrário ficava vazio depois de passar. Deve ser uma forma de o encontrarem)

*Princípio de Arquimedes: qualquer corpo mergulhado na água, sai completamente molhado. * (aí não há dúvida nenhuma)


Deus X Harley-Davidson





Os factos a respeito da motocicleta Harley-Davidson:



O inventor da motocicleta Harley-Davidson, Arthur Davidson, morreu e foi para o céu.

Nos portões do céu, São Pedro disse a Arthur: 'Como você foi um homem tão bom e as tuas motocicletas mudaram o mundo, o seu premio é que pode se encontrar com quem você quiser'
Arthur pensou um pouco, depois disse: 'Eu quero me encontrar com Deus'

São Pedro levou Artur até a sala do trono e o apresentou a Deus.
Deus reconheceu Arthur e disse: 'Então você é a pessoa que inventou a Motocicleta Harley-Davidson? '
Arthur disse: 'É, sou eu. . . '

Deus então fez o seguinte comentário: "Grande coisa inventar a motoca: tão instável, faz muito barulho e poluição e não pode se locomover sem uma estrada?'

Arthur ficou meio sem jeito, mas finalmente disse: 'Desculpe-me mas não foi você que inventou a mulher?'


Deus respondeu: Sim fui eu'


'Bem', disse Arthur, 'de profissional para profissional, você também tem grandes defeitos na sua invenção!'

1. Há muita inconsistencia na suspensão dianteira;



2. É muito barulhento e tagarela em altas velocidades;


3. Na maioria dos casos, a suspensão trazeira é muito macia e vibra demais;



4. A área de recreação está localizada perto demais da área de reciclagem;


5. Os custos de manutenção são exorbitantes!




Deus ficou pensando, depois disse: 'Você pode ter bons argumentos, mas espere um pouco'.

Deus foi até o supercomputador celestial, digitou algumas palavras e esperou pela resposta

O computador imprimiu a resposta e Deus leu o mesmo: 'Sim, é verdade que o meu invento tem defeitos, mas de acordo com estes resultados, tem mais homens montados na minha invenção do que na sua!'

UMA RECORÃÇÃO DOS BEATLES

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GLÒRIA GAYNOR - I LOVE YOU BABY

ANDREA BOCELLI - CUANDO ME ENAMORE

NICOLI DI BARI - CHITARA SUONA PIU PIANO (1971)


Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 97


DA FAMÍLIA REUNIDA NO CARTÓRIO PARA A SOLENIDADE DA ESCRITURA


Para assistir à solene cerimónia da escritura definitiva de compra e venda da casa antes propriedade de dona Zulmira, que passará a pertencer, após tais formalidades e o respectivo pagamento, a dona Antonieta Esteves Cantarelli, a família Esteves encontra-se reunida no cartório do doutor Franklin Lins, à excepção do moço Ricardo, seminarista em férias em Mangue Seco, ocupado com encargos da tia paulista rica (e louca).

Apoiado no bordão, a mascar fumo de corda, de tão contente, o velho Zé Esteves não cabe no larguíssimo terno de festa, feito sob medida nos tempos da abastança, cortado em boa casimira de contrabando, mandado tingir de negro para o casamento de Elisa, retirado do baú para a chegada de Tieta.

Pela segunda vez o veste em poucos dias, volta a ser alguém. Muito em breve estará habitando casa de qualidade, em artéria central, retirado pela filha pródiga do casebre de canto de rua, de moradia e endereço desmoralizantes.

Se dependesse dele, mudaria hoje mesmo, apenas dona Zulmira acabasse de retirar os seus teréns. Antonieta, porém decidira fazer alguns reparos na casa, consertar banheiro e latrina, pintar as paredes, retelhar, luxos de paulista; ele resmungara mas não discutira: quem paga manda.

Sob o comando da filha, sua vida se refaz. No cartório, ouvindo doutor Franklin ler os termos da escritura, controlando as horas no relógio de ouro, marca Ómega, sinal de sua restaurada importância, Zé Esteves escuta berro de cabras que se aproximam aos saltos sobre os cabeços dos morros, enxerga terra e rebanho. Junto a ele, humilde sombra do marido, Tonha, silenciosa e conformada. Casebre acanhado e pobre, vivenda ampla e rica, rua de frente ou beco lamacento, tudo lhe serve e basta, desde que esteja em companhia do amo e senhor. Há muito aprendeu a obedecer e conformar-se.

Perpétua, rígida no luto inapelável, traja vestido caro, reservado para a festa da Senhora de Sant’Ana; na cabeça a mantilha por Leonora. Atenta, disposta a impedir que na escritura seja introduzida cláusula capaz de prejudicar os interesses de seus filhos, sobretudo os de Ricardo, herdeiro presuntivo. Com o Velho todo o cuidado é pouco: passa o tempo bajulando Tieta, insinuando misérias contra as outras duas filhas, pedinchando. Ainda na véspera a arrastara para um canto da casa, fora resmungar segredos, intrigas certamente, na tentativa de jogá-la contra as irmãs. Perpétua não perde uma palavra sequer das cláusulas e adendas.

Pela mão mantém seguro o filho Peto. Esgrouvinhado maldizendo os sapatos – usa alpergata aberta quando não pode andar descalço – o menino não entende por que motivo a mãe o obriga a estar ali, parado, envergando meias, camisa limpa, a ouvir o doutor Franklin ler, com a voz mais descansada do mundo, um rol de páginas de nunca acabar. Se a tia e a prima Nora ao menos estivessem à vontade, nos robes colantes, mal fechados, a vista ajudaria a passar o tempo. Mas uma e outra puseram-se nos trinques, tão compostas nunca as vira. Um saco!

Elisa e Astério escutam, reverentes: ela, o olhar de adoração posto em Tieta; ele de cabeça baixa, fitando o chão. Nem mesmo Leonora, semi-escondida no fundo da sala, pode competir com o porte majestoso de Elisa: a massa de cabelos negros, o busto erguido, as ancas altaneiras, elegante como se fosse desfilar numa passerela, o ar entre modesto e altivo, um deslumbre. Casa em Agreste, tenha quem quiser, ela não. Da generosidade da irmã rica, aguarda mercê muito diferente: convite para acompanhá-la a São Paulo, para ir de muda, para irem ela e o marido, pois sozinha Tieta não a levará. Emprego para Astério numa das empresas da família Cantarelli; para Elisa, um lugar no coração e no apartamento da irmã, se possível o ocupado até agora pela enteada Nora.

Tudo quanto Elisa deseja é dar as costas a Agreste, limpar no caminho a poeira dos sapatos, nunca mais voltar. Há-de conseguir: Tieta veio para ajudar a todos eles, transbordante de bondade e compreensão. Ademais, Elisa recorrera aos bons ofícios de dona Carmosina, amiga provada, a protegê-la desde menina, e íntima de Tieta. Pedira-lhe para interceder junto da irmã, possibilitando a realização do projecto de mudança. Em São Paulo a vida a aguarda, a verdadeira, repleta de acontecimentos e sensações, não essa apatia de Agreste, esse cansaço do sem jeito. O doutor Franklin emposta a voz nos termos jurídicos, Elisa ouve o excitante rumor das ruas atulhadas de automóveis luxuosos, num frémito ouve a fala cariciosa dos homens elevando-se à sua passagem quando à tarde comparece à rua Augusta, indo de compras com Tieta.

Astério ouve pensativo, um tanto contrafeito. O sogro vai ter onde habitar com decência e conforto, na casa da filha; será como se possuísse casa própria. Filha magnânima, Tieta. Outra qualquer guardaria ressentimento do pai que a pusera no olho da rua, da irmã que a delatara. Ela, não. Regressara com as mãos pejadas de dádivas para cada pessoa da família.

Durante dias e dias, Astério se perguntara por que, na distribuição dos benefícios, naquele esbanjamento, a cunhada ainda não se fixara na irmã mais moça e no cunhado, reduzidos aos presentes da chegada. Sendo eles os mais precisados, no entanto, pois Zé Esteves, se nada tinha de seu, recebia farta mesada e praticamente não gastava dinheiro, barraco e comida custando-lhe ninharia, enquanto ele e Elisa viviam em eterno aperto, a loja e a ajuda dando na exacta. Perpétua não precisa de auxílio, tem de um tudo, mansão onde residir, casas de aluguel, pensão do marido, dinheiro na caixa Económica, em Aracajú, e a protecção de Deus.

A protecção de Deus, sim, ria quem quiser – não lhe tem faltado. Ao que Elisa soube e lhe contou, a ricaça abrira em banco de São Paulo caderneta de poupança para os dois sobrinhos. Ele e Elisa nem filhos possuem, sobrinho a merecer protecção da tia milionária. Toninho morrera e não fosse dona Carmosina gostar tanto de Elisa não se sabe como teria terminado aquele assunto: a mentira vil, a notícia surripiada, chantagem suja.

quinta-feira, abril 09, 2009


O Presidente da República e os Caminhos de Portugal
Por: Jorge Carvalheira (escritor, democrata e anti-fascista)





Não teria sido nada mau para Portugal, se o senhor Presidente tivesse apontado os caminhos adequados, na década em que chefiou o governo.
Era o tempo em que começou a enxurrada dos fundos, e em que deviam tomar-se as decisões que haveriam de iniciar a modernização do país.

Mas trocaram-se os prazos da agricultura por dinheiro, condenando-a à inexistência; sacrificaram-se as pescas no altar da ganância; pendurou-se na forca a pouca indústria.
A incompetência dos governos cavaquistas fez de Portugal um país rico, com uma varinha de condão. Era o tempo do oásis, e do país do sucesso, em que se sabotou a ferrovia em favor da camionagem privada, e de tudo o que fosse betão e auto-estrada.
Inchou o clube dos gestores que levaram muitas empresas à ruína, e se transformaram em barões que governaram a vidinha.

Os portugueses em geral encheram o peito com os ares do tempo, deixaram-se convencer pelo milagre, acreditaram na fábula do pelotão da frente, e dispuseram-se a ser depenados pela usura dos senhores da finança.

Nada que mereça nota, e que era fundamental, se realizou na educação, nem na justiça, nem na economia, nem na cultura, nem na mentalidade indígena. Às pechas tradicionais juntaram-se vaidades, negociatas e oportunismos novos.

Quando o reinado cavaquista acabou, o país estava sufocado, como ainda se lembra quem não perdeu a memória. E o próprio presidente do conselho se deu conta de que estava rodeado dum partido de alimárias, de oportunistas e de figurões pouco sérios. Por isso os sujeitou a um tabu que durou um ano. No fim tirou-lhes o tapete, e deixou o partido numa orfandade de que ainda não saiu, para nossa actual desgraça. Resta dele um concílio de barões pouco recomendáveis, e uma clique de esquerdistas reciclados, que deixaram de mijar na cama quando aprenderam a ler as citações do Mao.

Guterres veio a seguir, inevitavelmente, porque o país estava cheio das competências do professor Cavaco. E sendo embora o governante mais bem formado, mais culto, mais humanista, mais sério e mais cosmopolita que Portugal já teve, Guterres só demonstrou que isso não chega para ser um bom governante, e evitar erros crassos, como a barragem do Côa, as portagens da CREL, e sobretudo o regabofe dos caciquismos locais, e dos homens das rotundas, e outros megalómanos que nunca faltaram na paisagem portuguesa.

As más opções anteriores e os interesses instalados já tinham a via aberta, e Guterres não quis, ou não soube, ou não pôde fazer alterações à rota. Quando viu que o saco tinha fundo, fez o que faz qualquer tipo decente e renunciou ao poder.

O rústico democrata algarvio entretanto mudou de ares, e deixou poisar a poeirada. E volta agora, do poleiro doirado e inócuo de Belém, a soltar lamentações de crocodilo, e a lançar tiradas sobre as gerações dos nossos filhos, que o deixam muito preocupado. É um bom seringador, o nosso Presidente. O que não faz de nós todos, é claro, coisas muito melhores do que ele! Mas isso já é outra questão.




INFORMAÇÃO HORÁRIA


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UMBERTO TOZZI - TI AMO

ELVIS PRESLEY - BRIDGE OVER TROUBLED WATER

JÚLIO IGlÉSIAS - TANGO ARGENTINO


Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº 96



Mas a moça pretende vida em comum, lar estabelecido, filhos. Ouvindo certa vez Tieta relatar os problemas da protegida, o desejo de largar o ofício, trocando as larguezas do Refúgio dos Lordes por medíocres limites de casa e marido – de amor como ela repetia exaltada – Felipe, experiente e blasé, a classificara de pequeno-burguesa delirante, sem solução.

- Do meio dessa pequena burguesia desesperada é que surgem os marginais, os drogados, os que matam sem razão e os que se matam, os suicidas. Não provocam minha simpatia.

Tieta ouvira a explicação, balançara a cabeça, tolice discutir com Felipe, homem de saber e entendimento, merecedor de crédito – não por acaso subira tão alto. Nem por isso deixara de simpatizar com o sonho de Leonora, romântico e piegas. Não chegava a entender inteiramente a ânsia a consumir a rapariga, esse arrebatamento, a inconformidade com a situação – aliás privilegiada – em que vivia. Tais problemas jamais se haviam colocado para Tieta., pelo menos de idêntica maneira. Mas, ao contrário de Felipe, sentia ternura e simpatia pela insatisfação da moça, dava-lhe atenção e afecto.

Entre os colaboradores da casa – cabritas escolhidas a dedo para alegrar o ócio de bodes ricos, poderosos, exigentes, muitos deles cheios de manias e taras – Leonora era a sua predilecta. Talvez porque sobrasse a Tieta carinho a dar, devotamente disponível, tinha para com a infeliz rapariga desvelos de mãe para filha. Ao ver de Felipe, pequeno-burguesa desesperada, sem solução, na opinião de Tieta, tola, sonhadora, sentimental. Como jamais conseguira ser sentimental e tola, apesar de sonhadora, por isso mesmo estimava a atitude da moça agarrada á ilusão de um dia poder mudar de vida, construí-la de acordo com os seus modestos desejos.

Quando, ainda há pouco, da sombra do corredor, espionava a frustrada despedida, Tieta deixara escapar um suspiro: Deus do Céu, por que tanta tolice, tanta ânsia inútil? A vida pode ser simples e fácil, agradável, excitante, quando se sabe levá-la com audácia e prudência: um marchante, um protector para companhia permanente, para fornecer dinheiro à farta, para garantir sólido pecúlio na velhice, e xodós para a cama, quantos o corpo reclamar, a boa vida, alegria e riso que tristezas não pagam dívidas.

Na Bacia de Catarina ou nos cômoros de Mangue Seco, no escuro das grutas ou diante da imensidão do mar, poderia Nora saciar a sede de amor nos braços de Ascânio. Assim Tieta estava fazendo nos braços de Ricardo, no areal, na cama do Comandante. A seu modo, também ela andava apaixonada e como! Apenas, ao contrário do que acontecia com Leonora, a paixão pelo sobrinho não a perturbava, dando-lhe apenas alegria. Paixão roxa, também: estava devorando o seminarista, esfomeada, sequiosa – não era amor, por acaso?

Mas, depois, quando passar a fúria do desejo, bastaria lavar o xibiu bem lavado para esquecer, até que novamente crescesse em labareda dentro dela a brasa acesa, inapagável, da paixão.

Paixão, amor, que diferença existe? Com Felipe fora diferente. Durara tantos e tantos anos, felizes sempre, ele superior e generoso, ela dedicada e sabida, ternos amigos, cálidos amantes, senhor e serva. Serva ou rainha? Seria isso o amor tão falado. Provavelmente. Não impedira, não obstante, as paixões, nem sabe quantas. Mundo complicado, difícil de entender, uma confusão.

Acarinha Leonora, a cabeça repousando em seu colo, a cabeleira desnastra rolando sobre o lençol. Tieta necessita tomar providências rápida para colocar nos trilhos certos a vida de Leonora, para que as férias terminem alegremente como começaram, para que esse namoro bobelo se transforme em arrebatada paixão, saia do atoleiro onde se afundou para erguer-se em chamas na beira do rio, nos cômoros de Mangue Seco. Para que o amor, como deseja Barbozinha, seja motivo de vida e não de morte.

A mão materna nos cabelos e a voz de acalanto nos ouvidos acalmam a agitação de Leonora.

- Pode dormir tranquila, cabrita, que eu vou cuidar da tua vida.

quarta-feira, abril 08, 2009

SEM COMENTÁRIOS...

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ALEGRIAS DO CASAMENTO



DE ANTOLOGIA…


ELA – Estamos casados há mais de 20 anos e nem uma jóia me compraste.

ELE – Sabia lá que vendias esse tipo de merdas…

EARL GRANT - AT THE END OF THE RAINBOW

MICHAEL BOLTON - A LOVE SO BEAUTIFUL

LUIGI TENCO - HO CAPITO CHE TI AMO


Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº 95



Tieta abandona os cremes de limpeza e o espelho, toma das mãos da moça, acaricia-lhe a crina loura, nem às irmãs queria tanto quanto àquela desditosa recolhida no trotoar, a pequena Nora, marcada pela má sorte e todavia capaz de sonho e esperança.

- Eu sei que nunca vai contar, conheço minhas cabritas, ai de mim se não as conhecesse. O que tu deve fazer? Aproveitar as férias, divertir-se. Namore o rapaz, ele é simpático e bonitão, um pedaço de homem. Um pouco ingénuo para o meu gosto mas direito. Durma com ele se tiver vontade. Tu deve estar morta de vontade, não é?

Leonora abana a cabeça afirmativamente e logo esconde o rosto nas mãos, Tieta vem sentar-se a seu lado na cama, prossegue:

- Durma com ele, passei, namore, goze a vida mas não se prenda. Tome cuidado para evitar escândalo. Só não entendo por que você ainda não dormiu com ele.

Ele pensa que sou virgem Mãezinha. Nunca vi ninguém tão crédulo e respeitador. Não tenho palavras nem coragem para contar que não sou donzela. Tenho medo que ele se desiluda, não queira mais me ver.

- É capaz. Agreste não é São Paulo, é o cu do mundo, parou no século passado. Aqui, ou bem se é moça cabeçuda ou rapariga de porta aberta. Não viu o que se passou comigo?

Pai me mandou embora, me mandou ser puta longe daqui. Faz muito tempo mas continua sendo a mesma coisa hoje. Quem sabe, com jeito…

- Que jeito Mãezinha? Ele pensa que sou donzela, que sou rica, filha e herdeira do Comendador Filipe. Fica inibido até para me pegar na mão porque ele é um pobre de Jó e eu sou milionária. Sabe que ele ainda nem se declarou? Insinua umas coisas, suspira, parece que vai falar, engole em seco, fica calado, segura em minha mão, não sai disso. Em Mangue Seco fui eu que beijou ele. Fora daí, roça os lábios no meu rosto quando se despede e nada mais.

- Eu vi, estava espiando, é de não acreditar. Coitado do rapaz, deve estar desperdiçando o ordenado na casa de Zuleika para se desforrar, ou gastando a mão se lhe faltar dinheiro – sorri para Leonora: Siga meu conselho, deixe o barco correr, dê tempo ao tempo, vá se divertindo. Pelo menos assim você não se chateia.

- Me chatear? Mãezinha vou-lhe dizer: esses dias aqui foram os únicos felizes da minha vida. Estou amando. Pela primeira vez, Mãezinha. Com Pipo e Cid foi outra coisa, nem de longe se parece. Já lhe contei, se lembra?

Diante da adolescente massacrada no sórdido cortiço, Pipo, com o nome repetido nos rádios de pilha, a fotografia nos jornais, aparecia como a personificação dos invencíveis heróis das histórias aos quadradinhos, dos filmes de aventuras, das séries de televisão. Ser sua garota causava inveja a todas as demais chivetas da rua. Quando ele a chutou, sofrera principalmente na vaidade. Vez por outra podemos dar uma metida, se quiser, dissera Pipo, cheio de si. Isso jamais. Não aceitara a humilhação, pretendendo-se a única, a inspiradora dos golos marcados pelo craque nos matches de futebol.

Chorara a semana inteira com a gozação da vizinhança mas dele mesmo não sentia falta.

Quando no inferninho asqueroso onde caçava o michê que lhe garantisse a comida do dia seguinte, encontrou Cid Raposeira na solidão, na droga, no abandono, amarfanhado rosto de Cristo, tão necessitado de companhia e ajuda, vibrara o coração de Leonora, sensível e solidário. Iniciou-se o trajecto do interminável desespero, alternando-se os raros dias de carinho e humildade, com os de loucura e violência desatadas. Menos que companheira e amante, sentira-se enfermeira, samaritana, irmã a cuidar de alguém ainda mais desgraçado do que ela. Casal de párias perdidos na metrópole fechada em pedra e em fumaça, sem condições de alegria e felicidade. Um e outro, o glorioso Pipo e o contraditório Cid, nada tinham a ver com o renitente sonho de lar e paz, de carinho, de amor.

- É amor, sabe, Mãezinha? Uma coisa diferente. Tudo o que eu queria era ficar aqui, com ele, nunca ir embora.

Comove-se Tieta, pobre Leonora, escorraçada cabrita. Afaga-lhe os cabelos, belisca-lhe a face:

- Não é que eu seja contra, minha filha, é que não vejo jeito.

No jantar em casa de dona Milú, observando Leonora e Ascânio em idílio, Tieta já se preocupara. Fosse simples aventura, beijos, apertos, umas quedas na beira do rio, nos esconsos das rochas, nas areias cálidas de Mangue Seco, bons lugares para descarregar a natureza, não teria maior importância, bastando manter a descrição para evitar a língua do povo de Agreste longa e afiada. Se caísse na boca do povo, paciência. Nora partiria em breve para nunca mais voltar, pouco lhe interessava
a imagem que dela guardassem aqueles tabacudos.

terça-feira, abril 07, 2009

Um Apanhado Que Vale A Pena Ver

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JÁ SE TINHA LEMBRADO DESTAS SOLUÇÕES?




MORT SHUMAN - UN ÉTÈ DE PORCELAINE

LABELLE - LADY MARMALADE

THE TOKENS - THE LION SLEEPS TONIGHT


Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 94


CAPÍTULO ONDE TIETA BUSCA DEFINIR O AMOR E NÃO CONSEGUE



Tieta deixa os namorados na porta da rua, sozinhos, livres para a despedida. Da sombra do corredor, porém, espicha o olho para ver o que se passa, onde as mãos vão parar, a força dos beijos, os lábios vorazes, as línguas se enrolando, aqueles primeiros passos no caminho do resto. Decepção completa e inquietante. Viu apenas um roçar dos lábios de Ascânio na face de Leonora, receoso e apressado, aquilo não era beijo coisíssima nenhuma, perdera o tempo a espionar o mais completo e acabado par de idiotas. Da porta, onde demora até perde-lo de vista, Leonora acena longo adeus, certamente respondido por Ascânio. Mau sinal, não agrada a Tieta o rumo do idílio.

Leonora não correrá perigo de maior se terminarem, ela e Ascânio, na Bacia de Catarina, em noite sem lua, por entre a penedia, no bem-bom. Depois, é lavar o xibiu bem lavado, acabou-se. Quando chegar a hora do retorno a São Paulo, derramará algumas lágrimas de tristeza e saudade no ônibus de volta – c’est finie la comedie, como dizia Madame Georgette e Madame Antoinette repete quando enfrenta xodós e rabichos das meninas.

O perigo reside exactamente nos leves beijos medrosos, nesse namoro tonto, de caboclo, que já não se usa mais. Em Agreste, quando se namora assim, no respeito, contendo os impulsos, é porque se tem em mira noivado e casamento. Casamento, vida em agreste: ilusões absurdas, sonhos delirantes. Em tais casos, não basta lavar a xoxota bem lavada. A separação custa duro sofrimento, não se reduz a umas poucas de lágrimas no ônibus de volta.

Naquele dia, quando Tieta chegara de Mangue Seco, estuante de vida, vibrando de animação ao falar do terreno e da casa de praia, mais magra, o corpo no ponto exacto, Leonora caíra-lhe nos braços, murmurando-lhe ao ouvido, ansiosa:

- Preciso muito de conversar com você, Mãezinha.

Durante o dia não tiveram ocasião, porém, de ficarem sós. Perpétua sempre presente, a adular a irmã, já não lhe regateava louvores. Antigo poço de iniquidades, Antonieta passara a ser poço de Jacó, misericórdia dos sedentos, turris ebúrnea. Para gabá-la gastava até as poucas expressões latinas que decorara em tantos anos de sacristia, antes reservadas à exaltação do Senhor e dos santos sendo, turris ebúrnea exclusiva de Virgem Maria. Agora, tudo era pouco para as virtudes de Tieta.

Na hora do almoço, a mesa completa: Zé Esteves e Tonha, Elisa e Astério, Peto a pedir a bênção à tia, a regalar os olhos da carnação morena e farta. Fazendo-lhe companhia na praia, quem estava bem situado para brechar até fartar-se, para bispar os mínimos detalhes, era Ricardo; mas o idiota do irmão desviava a vista para não enxergar, tirado a ermitão, a místico. Devia estar de venda nos olhos em Mangue Seco, o bobalhão; Deus dá nozes a quem não tem dentes, queixara-se Osnar. Falou, pô!

À tarde foram a casa de dona Zulmira para confirmar o acerto e de lá ao cartório, deixar os dados para a escritura e marcar o dia de assiná-la – quanto antes melhor, pedira Tieta, com pressa de voltar a Mangue Seco. As paredes da choupana – assim designava a pequena casa da praia – começavam a subir, ela curtia cada tijolo, cada pá de massa, em companhia do sobrinho contagiado pelo seu entusiasmo. De noite a sala de visitas se enchera: dona Carmosina, dona Milú, Barbozinha, a tropa do bilhar escoltando Astério; Ascânio tinha aparecido ao fim da tarde, ficava para jantar, não desgrudava de Leonora.

Também dona Carmosina anunciara necessidade imperiosa e urgente de longa conversa reservada com Tieta. Marcaram para o dia seguinte. Amanhã sem falta! – recordara a agente dos Correios ao despedir-se – mil coisas a comentar. Com os olhos apontava o par de namorados no sofá, distanciados um do outro pelo menos um palmo, a paulista com um sorriso babado de admiração, ouvindo o discurso de Ascânio sobre o radioso futuro de Agreste.

Ascânio, o último a sair, quando já Perpétua se recolhera: às seis em ponto, ajoelhada na primeira fila, a devota ouve missa na Matriz, não pode dormir tarde. Tieta abandona-os na porta, à vontade para a despedida apaixonada. Que fracasso!

Leonora vem sentar-se na cama da alcova, enquanto Tieta desfaz a maquiagem. Abre o coração: apaixonada, que fazer? Paixão roxa, não banal aventura, simples chamego, ela não era disso, Mãezinha a conhecia, nesses três anos de refúgio jamais tivera um caso. Amo, pela primeira vez.

- Me diga como agir, Mãezinha. Contar a verdade, não posso.

- Não pode mesmo, nem pense nisso. Só se ficasse doida e me tivesse ódio.

- Nunca pensei, como poderia contar? Mas estou desarvorada sem saber o que fazer. Me ajude nesse transe, Mãezinha. Só tenho você no mundo.

segunda-feira, abril 06, 2009


A ELIMNAÇÃO DO SEGREDO BANCÁRIO


A Suíça tremula. Zurique alarma-se. Os belos bancos, elegantes, silenciosos de Basileia e Berna estão ofegantes. Poderia dizer-se que eles estão assistindo na penumbra a uma morte ou estão velando um moribundo. Este moribundo, que talvez acabe mesmo morrendo, é o segredo bancário suíço.
O ataque veio dos Estados Unidos, em acordo com o presidente Obama. O primeiro tiro de advertência foi dado na quarta-feira. A UBS - União de Bancos Suíços, gigantesca instituição bancária suíça - viu-se obrigada a fornecer os nomes de 250 clientes americanos por ela ajudados para defraudar o fisco. O banco protestou, mas os americanos ameaçaram retirar a sua licença nos Estados Unidos. Os suíços, então, passaram os nomes. E a vida bancária foi retomada, tranquilamente.
Mas, no fim da semana, o ataque foi retomado. Desta vez os americanos golpearam forte, exigindo que a UBS forneça o nome dos seus 52.000 clientes titulares de contas ilegais. O banco protestou. A Suíça está temerosa. O partido de extrema-direita, UDC (União Democrática do Centro), que detém um terço das cadeiras no Parlamento Federal, propõe que o segredo bancário seja inscrito e ancorado pela Constituição federal.
Mas como resistir! A União de Bancos Suíços não pode perder sua licença nos EUA, pois é nesse país que aufere um terço dos seus benefícios.
Um dos pilares da Suíça está sendo sacudido. O segredo bancário suíço não é coisa recente. Esse dogma foi proclamado por uma lei de 1934, embora já existisse desde 1714. No início do século 19, o escritor francês Chateaubriand escreveu que neutros nas grandes revoluções nos Estados que os rodeavam, os suíços enriqueceram à custa da desgraça alheia e fundaram os bancos em cima das calamidades humanas.
Acabar com o segredo bancário será uma catástrofe econômica. Para Hans Rudolf Merz, presidente da Confederação Helvética, uma falência da União de Bancos Suíços custaria 300 bilhões de francos suíços ou 201 milhões de dólares.
E não se trata apenas do UBS. Toda a rede bancária do país funciona da mesma maneira. O historiador suíço Jean Ziegler, que há mais de 30 anos denuncia a imoralidade helvética, estima que os banqueiros do país, amparados no segredo bancário, fazem frutificar três trilhões de dólares de fortunas privadas estrangeiras, sendo que os ativos estrangeiros chamados institucionais, como os fundos de pensão, são nitidamente minoritários.
Ziegler acrescenta ainda que se calcula em 27% a parte da Suíça no conjunto dos mercados financeiros "offshore" do mundo, bem à frente de Luxemburgo, Caribe ou o extremo Oriente. Na Suíça, um pequeno país de 8 milhões de habitantes, 107 mil pessoas trabalham em bancos.
O manejo do dinheiro na Suíça, diz Ziegler, reveste-se de um carácter sacramental. Guardar, recolher, contar, especular e ocultar o dinheiro, são todos actos que se revestem de uma majestade ontológica, que nenhuma palavra deve macular e realizam-se em silêncio e recolhimento?...
Mas agora surge um outro perigo, depois deste duro golpe dos americanos. Na minicúpula europeia que se realizou em Berlim, em preparação ao encontro do G-20 em Londres, França, Alemanha e Inglaterra (o que foi inesperado) chegaram a um acordo no sentido de sancionar os paraísos fiscais. "Precisamos de uma lista daqueles que recusam a cooperação internacional", vociferou a chanceler Angela Merkel.
No domingo, o encarregado do departamento do Tesouro britânico, Alistair Darling, apelou aos suíços para se ajustarem às leis fiscais e bancárias europeias. Vale observar, contudo, que a Suíça não foi convidada para participar do G-20 de Londres, onde serão debatidas as sanções a serem adoptadas contra os paraísos fiscais.
Há muito tempo que se deseja o fim do segredo bancário. Mas até agora, em razão da prosperidade económica mundial, todas as tentativas eram abortadas. Hoje, estamos em crise.Viva a crise!!!
Barack Obama, quando era senador, denunciou com perseverança a imoralidade destes remansos de paz para o dinheiro corrompido. Hoje ele é presidente. É preciso acrescentar que os Estados Unidos têm muitos defeitos, mas a fraude fiscal sempre foi considerada um dos crimes mais graves no país. Nos anos 30, os americanos conseguiram laçar Al Capone. Sob que pretexto? Fraude fiscal.


P.S. As Crises não trazem apenas coisas más. O mundo das finanças estava comprovadamente podre e, mais dia menos dia, o resultado seria este. Teve o mérito, e não foi pouco, de oferecer aos EUA e ao mundo um político da craveira de Obama. A eliminação do segredo bancário poderá ser a dádiva seguinte.

EXCELENTE GRUPO VOCAL

THE VOCALPEOPLE

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IMAGENS MUITO CURIOSAS





NANA MOUSCURY / HARRY BELAFONTE - SEPTEMBRE

MICHAEL BUBLÉ - BUENA SERA

GERGELY ROBERT - EMANUELLE

NANA MOUSKURI - I HAVE A DREAM

JOHN LENNON - WOMAN


Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº 93




Somente uma semana depois Tieta regressou a Agreste, atendendo exactamente a uma chamada de Zé Esteves, transmitindo apelo urgente de dona Zulmira disposta a rebaixar o preço da casa, a entrar em acordo. Deixara Ricardo à frente das obras, as paredes subindo, sozinho na Toca da Sogra, pois havia três dias o Comandante voltara com dona Laura para o bangalô na cidade. Três dias, ou melhor três noites, durante as quais tia e sobrinho trocaram o romântico areal das dunas pelo conforto do colchão de crina da cama de casal do quarto do marujo.

Prosseguindo na educação do sobrinho, a lhe ensinar o bem – o bem e o bom – o colchão chegara na hora exacta, quando atingiam um estágio superior no estudo da matéria em que Tieta era mestra competente, emérita catedrática, honoris causa, como dizia em latim o padre Mariano. Ensinava-lhe em aulas práticas e intensivas quanto sabia, ou seja, tudo, o alfabeto inteiro, incluindo o ipicilone.

Tieta voltou a Agreste na manhã do dia do primeiro desembarque dos seres de espanto projectados do espaço, mas não os viu e deles só veio a ter noticias no fim da tarde por Ascânio exaltado, no auge do entusiasmo:

- Capitalistas do Sul, estudando a possibilidade de empregar capital aqui, no município, em empresas de turismo, coisa de grande vulto, querem asfaltar a estrada e construir hotéis. Que lhe parece dona Antonieta? Que diz a isso Leonora?

Empresa de turismo? Em Agreste, aproveitando água, o clima, a praia de Mangue Seco? Quem sabe, tudo é possível, por que não? Fizera bem em comprar terreno na praia, devia aceitar a proposta de dona Zulmira, abandonando a posição intransigente, os preços da terra e dos imóveis podem sofrer súbita valorização, em São Paulo, Tieta, assistiu a coisas de espantar. Com seu faro único, Felipe adquiriu a preço de banana terrenos e mais terrenos em áreas pelas quais ninguém oferecia nada. Poucos anos depois, ganhava fortunas na revenda. Tieta pediu a Perpétua papel e caneta, escreveu um bilhete a dona Zulmira fechando o negócio, mandou Peto levar.

Decidiu demorar-se em Agreste o tempo necessário para concluir o trato, lavrar escritura, tomar posse da casa. Mesmo sentindo o apelo ardente do corpo a reclamar a urgência do retorno, sabendo que o moço sofreria o fogo do inferno na noite insone, ainda assim resolveu cuidar antes do negócio. Aprendera a não perder a cabeça, a não permitir que xodó, por mais forte e exaltante lhe causasse prejuízo.

Ascânio prosseguia a traçar as vias do radioso futuro do Agreste. A mudança começara com a chegada das duas paulistas à cidade, tudo se fazendo agora mais fácil, devido à decisão da Companhia do Vale de São Francisco de incluir Agreste entre os municípios com a energia de
Paulo
Afonso, a Luz de Tieta.

domingo, abril 05, 2009

CHARLES AZNAVOUR - QUE CEST TRISTE VENICE

CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL - BAD MOON RISING

ELIS REGINA / TOM JOBIM - ÁGUAS DE MARÇO

O Toque do Silêncio é universal. Toca-se em quase todas as Forças Armadas do Mundo. As modulações podem variar mas esta é a versão completa. É um toque lúgubre mas muito bonito. Quem, há muitos anos, viu o filme "Até à Eternidade" lembra-se dele como o momento mais dramático da história. A garota tem um fôlego imenso e é acompanhada pela orquestra de André Rieu.

O TOQUE A SILÊNCIO

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Tieta do Agreste


EPISÓDIO Nº 92


Antes de regressar no fim da tarde a Mangue Seco, fugindo às manifestações dos seus conterrâneos, cercada pela família, Tieta ainda recebeu a visita do padre Mariano. O reverendo agradeceu-lhe, em nome dos fiéis, a graça da iluminação nova que ia modificar a fisionomia da cidade, mudar-lhe os hábitos, imenso serviço prestado à comunidade. Beneficiando a todos, dona Antonieta criara, no entanto, sério problema para a paróquia, pois a instalação eléctrica da Matriz encontrava-se em petição de miséria, incapaz de suportar o impacto da energia de Paulo Afonso. Um engenheiro da Hidrelétrica que ele consultara dissera-lhe ser absolutamente necessário mudar toda a instalação para impedir um curto-circuito e evitar grave perigo de incêndio. Onde buscar o dinheiro necessário? A quem recorrer senão a ela? Muito já lhe devia a Matriz, a começar pela imagem nova da Padroeira, o ostensório trazido de São Paulo, o padre era quem mais sabia mas sabia também da generosidade da dona Antonieta, alma de escol, ademais viúva de comendador de Papa, ou seja, pessoa graduada na hierarquia da Igreja. Com um sorriso ambíguo, Tieta ouviu em silêncio, na presença do pai, da madrasta, das irmãs e de Leonora. Perpétua repetiu as palavras do pároco, pensando na caderneta de poupança:

- Alma se escol, o senhor disse tudo, padre Mariano.

O reverendo não conseguia ler resposta positiva no sorriso equívoco a entreabrir os lábios carnudos; apenas podia constatar que Tieta remoçara nesses dias em Mangue Seco, o ar satisfeito, bonito como nunca, o sol pusera tons de ouro no cobre da pele.

- Não se aflija, padre, pode mudar os fios.

Tranquilizado, ia o cura agradecer quando ela prosseguiu, a voz se abrindo em riso, em tom de brincadeira:

- Faço isso em pagamento à Senhora Sant’Ana por lhe ter roubado o sacristão por alguns dias, meu sobrinho Ricardo, que está em Mangue Seco me ajudando.

Estremeceu Perpétua dentro do vestido negro, do luto fechado, da compostura devida ao sacerdote, não conseguindo esconder a satisfação de súbito reflectida do rosto carrancudo, num olhar de vitória. Ligando o sobrinho aos donativos feitos à Igreja, designando-o intermediário nas suas relações com Deus e os santos. Tieta dava largo passo no caminho a conduzir à adopção e à herança. Deus acabara de passar à categoria de devedor, ao receber, pela mão de Ricardo, a doação das novas instalações eléctricas da Matriz.

Igualmente radiante, padre Mariano ergueu a voz, escolhendo os termos do louvor:

- Deus não esquece quem ajuda a Santa Madre Igreja, multiplica cada óbolo em perenes benesses. As bênçãos da Virgem, dona Antonieta, protegerão a si e aos seus familiares – elevou a mão, abençoando os Esteves e as Cantarelli, sorriu beatificamente. – De parte da Senhora Sant’Ana posso adiantar que ela lhe cede de bom grado o escudeiro. Estando Ricardo em companhia tão sacrossanta, só poderá aprender a praticar o bem.

Ao despedir-se, o reverendo referiu-se à aparência de Tieta: louça, garbosa. Os dias na praia, disse, tinham sido para ela um verdadeiro tónico, ressumava saúde e júbilo, aprazimento, a beleza do rosto reflectindo a pureza da alma, tota pulchra, benedicta Domini. Que Deus assim o preserve.

Zé Esteves foi o único a demonstrar insatisfação, remoendo críticas ao peditório e ao atendimento!

- Esse urubu de batina é um sabido: com a língua doce e o latinório vai arrecadando um dinheirão para a Igreja, os tolos caem como patinhos. Me perdoe, minha filha, mas você precisa de prestar mais atenção ao seu dinheiro. Não se esqueça que vai comprar casa, não pode estar desperdiçando.



JÚLIO IGLÉSIAS - LA PALOMA

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