sábado, setembro 04, 2010

ANNE MURRAY - YOU NEEDED ME
É uma canção linda, repousante, muito bem cantada por Anne Murray, nascida em 1945, cantora de música country canadense. Iniciou a sua carreira em 1968 e até hoje mantem-se no mundo da música.

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Um exemplo para meditarmos...

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INFORMAÇÕES ADICIONAIS
À ENTREVISTA SOBRE O TEMA:
ADÂO E EVA (3)



Feita de Uma Costela Curva

- No século XV, o religioso Dominicano alemão Jakob Sprenger, inquisidor geral e especialista em julgar e assassinar bruxas, argumentava assim: “Na composição da primeira mulher havia uma falha, pois foi feita de uma costela curva, curvada, como se fosse em direcção contrária à do homem. E, como por culpa dessa falha, ela é um animal imperfeito, a mulher não pode senão enganar.”

- No século XVI, o professor de Teologia francês Jean Benedicti ensinava isto:
“A mulher que inchada de orgulho da sua inteligência, da sua beleza, dos seus bens, de seu parentesco, despreza o seu marido e não quer obedecer-lhe, rebela-se contra a sentença de Deus que quer que a mulher esteja submetida ao marido, que é mais nobre e excelente que a mulher, dado que é a imagem de Deus e a mulher é apenas a imagem do homem.”

- No século XVIII, Jean Jaques Rousseau, um dos teólogos da Revolução Francesa, fazia estas considerações:
“A educação da mulher terá de ser organizada em relação ao homem: para ser agradável à sua vista, para conquistar o seu respeito e amor, para educá-lo durante a sua infância e maturidade, aconselhá-lo e consolá-lo, fazer sua vida agradável e feliz. Tais são os deveres da mulher em todo o momento e isto é o que lhe deverá ser ensinado quando é jovem.”

- No século XIX, Pierre Proudhom, filósofo francês, considerado um importante reformador social afirmava:
“A mulher é uma espécie de termo intermédio entre o homem e o resto do reino animal… Na ordem mental, como geracional, a mulher não acrescenta nada de pessoal: é um ser passivo, enervante, de conversação e carícias esgotantes. Deve fugir dela quem desejar conservar na sua plenitude as energias corporais e espirituais. A mulher é homicida.”

A excepção do pensamento oficial católico emanado do Vaticano – o Poder Institucional mais machista do Ocidente – foi no Século XX, foi cada vez mais “politicamente incorrecto” permitindo que homens famosos, escritores e pensadores, possam expressar-se tão patriarcalmente como se expressaram sábios e doutores ao longo de séculos. Sem dúvida, até hoje são muitos os que assim continuam pensando e, por isso, actuam a partir destas ideias.

DONA FLOR
E SEUS DOIS
MARIDOS

Episódio Nº 216


Entenda-se, aliás: naquela definição violenta – “tudo uma porqueira” – não incluía dona Gisa a música dita popular, expressão do povo, ardente e pura.

Aos sambas e às modinhas, aos “spirituals”, aos cocos e às rumbas tinha respeito e estima e era fácil ouvi-la a assassinar, com seu terrível assento, a letra do último samba em moda. Não tolerava, isso sim, a fatuidade dessa música sem força e sem carácter, feita, em sua opinião, para o mau gosto da classe média, incapaz de sentir a beleza e de se comover com os grandes mestres. Comovia-se dona Gisa, ao ouvi-los em gravações de qualidade, à meia-luz em casa dos amigos alemães, naquelas noitadas de tanto gozo espiritual (e, de lambugem, um bom drinque e algumas anedotas.

Doutor Ives abria a boca, num alarme: quando pernosticismo, gringa metida a sebo! Onde ficavam as óperas – me diga, professora – Il Rigoleto, O Barbeiro de Sevilha, O Palhaço, O Guarani, do nosso imortal Carlos Gomes – ouça, dona Gisa, nosso brasileiro, nasceu em Campinas – a levar o nome da pátria amada aos palcos do estrangeiro por entre aplausos? Onde ficavam essas maravilhas, com suas áreas, seus duetos, seus barítonos e seus baixos, suas prima-donas? Se isso não era música erudita, então o que era? Por acaso sambas e rumbas, modinhas e tangos?

Ora, siá dona Gisa, se assunte, porque nessa matéria (como de resto em tudo mais) doutor Ives é sumidade. Alteando a voz e o gesto de vitória ele pergunta: onde ela encontrará algo de mais refinado do que uma boa opereta como a Viúva Alegre, A Princesa dos Dólares ou o Conde de Luxemburgo?

Assente em bases concretas, a cultura musical do clínico resultava do conhecimento vivo – quando estudante, indo ao Rio numa caravana, assistira das torrinhas do Teatro Municipal, com entradas de favor, a algumas óperas montadas e cantadas pela Grande Compagnia Musicale di Napoli. Deslumbrou-se com os espectáculos, com as melodias e as vozes dos barítonos e das sopranos, dos tenores e dos contraltos. Não os ouvira em discos de vitrola, dona Gisa, e, sim, de corpo presente, vendo-os no palco a brilhar no esplendor de seu génio, a Tito Schippa, a Galli Cursi, a Jesus Gaviria, a Bezanzonui, cantando a Traviata, a Tosca, Madame Butterfly, Il Schiavo (também do nosso Carlos Gomes, minha cara). Vira depois todos os maravilhosos filmes de cinema – não perdera um só – com as melhores operetas interpretadas por Jan Kepura e Martha Egerth, por Nelson Eddy e Jeanette MacDonal. Por acaso os vira dona Gisa? Todos, sem perder nenhum?

Em seu entusiasmo, doutor Ives trauteava trechos das árias mais conhecidas e até ensaiou um passo de balé. Com ele era no duro, não fazia por menos, não lhe viessem com os discos e com lérias, pois no tocante a cultura musical não ficava a dever a ninguém…

- Isso, cultura! – dona Gisa estendia as mãos ao céu, ofendida não em seus brios mas em lídimos conceitos – Cultura é outra coisa, seu doutor, mais séria… Também a música, a verdadeira, a grande… Muita outra coisa.

Dona Norma, requisitada para árbitro, mantinha-se neutra, confessando:

- Não entendo nada… Saiu do samba, da marcha, da música de Carnaval – que essas eu sei todas… - sou zero-noves-fora-zero… Ópera, vi uma, quando aqui esteve catando níqueis a Companhia Billoro-Cavallaro já quase sem artistas, uma tristeza. Nem era uma ópera inteira, só uns pedaços da Aída.

Também fui… - marcou outro ponto o doutor Ives.

Uma edificante estória, envolvendo a luta pela vida, religiosidade, crença e fé.

Em São Paulo, um cara passou mal no meio da rua, caiu, e foi levado para o setor de emergência de um hospital particular, pertencente à Universidade Católica, e administrado totalmente por Freiras.

Lá, verificou-se que teria que ser urgentemente operado no coração, o que foi feito com êxito.

Quando acordou, a seu lado estava a Freira responsável pela tesouraria do hospital e que lhe disse prontamente:

- Caro Senhor, sua operação foi bem sucedida e o Senhor está salvo. Entretanto, um assunto precisa sua urgente atenção: como o Senhor pretende pagar a conta do hospital? O Senhor tem seguro-saúde?

- Não, Irmã.

- Tem cartão de crédito?

- Não, Irmã.

- Pode pagar em dinheiro?

- Não tenho dinheiro, Irmã.

- Em cheque, então?

- Também não, Irmã.

- Bem, o senhor tem algum parente que possa pagar a conta?

- Ah... Irmã, eu tenho somente uma irmã solteirona, que é freira, mas não tem um tostão.

E a Freira corrigindo-o:

- Desculpe que lhe corrija, mas as freiras não são solteironas, como o senhor disse. Elas são casadas com Deus!

- Magnífico! Então, por favor, mande a conta pro meu cunhado!

E foi então, que nasceu a expressão: "Deus lhe pague".

sexta-feira, setembro 03, 2010


INFORMAÇÕES ADICIONAIS AO TEMA:
ADÂO E EVA (2)



Um Mito de Consequências Perversas

O mito de Adão e Eva escrito há uns 3.000 anos, no qual Eva desobedece a Deus e faz pecar o Adão, esse mito com que se inicia a Bíblia hebraica e a cristã, onde Deus submete a mulher ao domínio do homem, está na origem do machismo, da descriminação e da violência contra as mulheres que chegou à história do mundo ocidental moldando a cultura judaico-cristã. Naquela mítica Eva estavam todas as mulheres e a partir desse mito original todas foram julgadas, condenadas e menosprezadas. A literatura ocidental de todos os tempos dão conta desse colossal abuso.

Vejamos exemplos:

- No século II, o doutor da igreja, Tertuliano escrevia e pregava:
“Mulher, deverás ir vestida de luto e andrajos, apresentando-te como uma penitente, alagada em lágrimas redimindo assim a falta de teres feito perder o género humano. Tu eras a porta do inferno, foste tu que rompeste os selos da árvore proibida, a primeira que violaste a lei divina, que corrompeste aquele a quem o diabo não se atrevia a atacar de frente. Tu foste a responsável pela morte de Jesus Cristo.”

- No século IV, o grande teólogo Agostinho pregava:
“A mulher é um ser inferior. É uma questão de justiça que as mulheres sirvam os homens como algo que corresponde à ordem natural da humanidade”.

- Nesse mesmo século, Jerónimo, doutor da igreja e tradutor da bíblia para o latim exclamava:
“Se a mulher não se submete ao homem, que é a sua cabeça, faz-se culpada do mesmo pecado que um homem que não se submeta a Cristo.”

- No século VI, o bispo Isidoro de Sevilha, declarado santo e considerado no seu tempo “o homem mais douto que apareceu nos últimos tempos” afirmava: “O homem foi feito a causa de si mesmo, a mulher foi criada somente para ajuda do homem.”

- No mesmo século, no Sínodo de Macon (ano 585) debateu-se se,
“na hora da ressurreição, as mulheres não teriam que se converter em homens para poderem entrar no céu.”

- No século XI, Marbode, o bispo de Rennes, França, considerado o “rei dos oradores” fazia este panegírico (discurso):
“Das inúmeras armadilhas que nos monta o hábil inimigo, a pior e mais difícil de evitar, é a mulher, planta débil, raiz daninha, fonte de vícios que propaga o escândalo pelo mundo. Oh! mulher, doce maldade, veneno com mel! Quem persuadiu o nosso primeiro pai para que provasse o fruto proibido?... Uma mulher!”

_ NO século XIII, o teólogo mais influente de todos da teologia católica, Tomás de Aquino, escrevia: “Para bem da ordem humana, uns terão que ser governados por outros mais sábios. Por consequência, a mulher, mais débil no que respeita ao vigor da alma e força corporal, está sujeita por natureza ao homem, no qual a razão predomina. O pai tem que ser mais amado do que a mãe e merece maior respeito porque a sua participação na concepção é activa e a da mãe é simplesmente passiva e material… A mulher é um defeito da natureza, uma espécie de “homenzinho” defeituoso e mutilado. Se nasceu mulher deve-se a um
defeito do esperma ou a ventos húmidos.”

JERRY ADRIANI - QUERIDA
Nasceu em 1947, é paulista e começou a cantar na década de sessenta. Ganhou prémios e participou em filmes. Esta canção desperta saudades e nada como uma música que nos marcou na juventude para agora nos fazer reviver esses nossos tempos. É uma sensação que as pessoas da minha geração sabem melhor que ninguém... esta, é para elas...

DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


Episódio Nº 215



Vizinha recente, dona Magnólia, janeleira fixa, perita em cálculos sobre a competência dos passantes, advertia:

- Ouvi dizer que nele é tudo grande, é um pé de mesa… – Quem lhe dissera? Ninguém: ela batia o olho e pronto, ficava a par das proporções, resultado de prática constante e efectiva.

- Pois os dois empatam na figura e na bondade – era a voz de dona Amélia – Casamento mais certo quem já viu? Feitos um para o outro e levaram tanto tempo a se encontrar…

- Foi preciso que ela sofresse horrores nas unhas do primeiro, do desalmado, da coisa-à-toa…

- Assim ela pode dar mais valor ao que tem agora… Pode comparar…

Não queria dona Flor medir ou comparar fosse o que fosse, apenas viver sua vida. Finalmente uma vida no decoro e no regalo, no prazer do trato fino.

Por que não a deixavam em paz? Antes vinham lastimá-la, em ladainhas de comiseração, compadecidos com sua sorte. Agora eram loas ao acerto, à admirável decisão daquele casamento, à felicidade dos esposos exemplares.

A rua seguia de perto os passos de dona Flor: seus vestidos, suas relações de alta, a nova ordenação de sua vida, com visitas, passeios e cinemas, e o próximo pleito eleitoral na Sociedade de Farmácia. Mas, sobretudo, empolgou-se a vizinhança com a música, tema palpitante trazido à baila quase ao mesmo tempo pelo lauto ensaio da orquestra de amadores e por Marilda, a estudante de pedagogia.

A princípio a discussão se limitara a conceitos académicos e pretensiosos numa porfia arrebatada e ríspida, quando entre o doutor Ives, admirador de óperas, e a exigente dona Gisa, duas culminâncias do bairro. Contribuíra, para animá-la, desbocada e agre, dona Rozilda, por ali em visita. Mas quem pôs no debate uma nova dramática e emocionante foi a jovem Marilda, deslocando-o do plano puramente espiritual para a realidade do choque entre gerações, entre pais e filhos, entre o velho e o novo (como diria um filósofo das geração mais jovem).

Enquanto dona Gisa, após o ensaio da orquestra de amadores, repelia a classificação de música erudita (tão grata aos preconceitos antigos de dona Rozilda) empregada pelo doutor Ives em referência às valsas e as marchas militares e às romanzas, em clandestino encontro a jovem Marilda conspirava contra a paz da família e o sossego da rua, com o tal Oswaldinho e com um senhor Mário Augusto, director da rádio Amaralina, recém inaugurada e em busca de talentos a baixos preços.

Para dona Gisa, música erudita era somente a grande música imortal de Beethoven e de Bach, de Brahms e de Chopin, de alguns raros e sublimes compositores: sinfonias e sonatas, músicas para serem ouvidas no silêncio e no recolhimento, para as grandes orquestras, os regentes famosos, os intérpretes de classe internacional. Para apreciadores capazes de ouvir e de entender. Ela vinha dessa música, e no seu purismo sectário, em seu extremo formalismo, classificava
tudo o mais de
porcaria, “para quem não possui educação musical”.

quinta-feira, setembro 02, 2010

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Porque é importante o sexo antes do casamento...

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ROBERTO CARLOS - PAREI NA CONTRA MÃO

Em 1972, na Revista Contigo, R. Carlos escolheu as 15 canções do seu reportório de que mais gostava. Parei na Contramão, dele e do Erasmo, vinha em 1º lugar. Ele explica: "Tenho um carinho especial por esta música. É uma canção água com açucar, letra simples, nada de especial mas para mim representa muita coisa: foi o meu 1º sucesso nacional. A partir daí passei a ser conhecido em todo o Brasil. Compus quando ainda trabalhava numa repartição pública do Rio. É, para mim a minha moedinha número um". Vamos recordá-lo precisamente nessa época.

DONA FLOR
E SEUS DOIS
MARIDOS

Episódio Nº 214



- “Arrulhos de Florípedes”, anunciou o maestro, “com doutor Teodoro Madureira em solo de fagote”. Certamente uma beleza.

Mas ensaio é ensaio, não é concerto nem mesmo exibição. Se, em outros números, nos quais já se considerava a orquestra bem afinada, o maestro ainda interrompia ora um ora outro, naquela obra inédita foram de passo a passo ou melhor de nota a nota, inclusivé doutor Teodoro a solar em seu fagote. Não era fácil acompanhar a melodia, sentir-lhe a graça, a beleza suave como a da homenageada, mansa e terna.

Ainda assim, comoveu-se dona Flor com o gesto do maestro e a devoção do farmacêutico, quase a tremer na busca da perfeita escala com que brindar a esposa. Em sua frente a partitura e ele, numa tensão de nervos, quase rígido, a testa em suor, frias as mãos, mas disposto a exprimir nos sons graves do fagote sua alegria de homem vitorioso, de vida plena e realizada: com seu dinheiro, sua farmácia, seu saber, sua oratória, sua paz e sua ordem, sua música, sua esposa linda e honesta e o respeito geral. Buscava aquele acorde, havia de alcança-lo. Dona Flor baixou a cabeça, com tanta honraria sentindo-se confusa e perturbada.

Felizmente chegou a hora do intervalo, regalou-se o maestro a comer e repetir o mungunzá, fartaram-se os demais com aquelas gostosuras, encharcando-se de cerveja, gasosa e guaraná, tudo perfeito.


RONDÓ DAS MELODIAS


Deslizou dona Flor, mansa e cortês, por aqueles mundos da farmácia e da música de amadores, outra vez nos trinques, em apuros de elegância para não fazer feio nem passar vergonha nos ambientes onde sua nova condição a introduzira. Quando jovem, antes do primeiro matrimónio, conviva pobre em casas ricas, em palacetes de graúdos, era a mais bem vestida das mocinhas, em caprichos de bom gosto, só Rosália, sua irmã, se lhe podia comparar. Nenhuma outra por mais rica e perdulária.

Outros ambientes, outros assuntos e conversas, novas relações. Exigências, compromissos, vez por outra a obrigação de um chá, de uma visita, de um ensaio. Na residência de um director da Sociedade Farmácia ou de um fidalgo da orquestra de amadores. Lá ia dona Flor por entre exclamações da vizinhança, soberba em seu esmero, a locé em seu donaire, vistosa pabulagem de mulher. Engordara um pouco e aos trinta anos, louça e chique, era um pedaço de morena, dessas de apetite:

- Um peixão… - ciciava entre dentes seu Vivaldo da funerária – as carnes assentaram, a popa arredondou… Um petisco… Esse doutor Xarope está comendo pitéu de rei…

- Trata ela como rainha, lhe dá de um tudo, passadio de nobreza – dizia dona Dinorá, que previra doutor Teodoro na bola de cristal e lhe guardara constante fidelidade – E que estampa de homem…

quarta-feira, setembro 01, 2010


INFORMAÇÕES ADICIONAIS
AO TEMA DA ENTREVISTA
COM JESUS CRISTO SOBRE O TEMA:

- ADÃO E EVA. (1)




O Antigo Testamento:

Adão e Eva, a “costela”, a “maçã”, a “arca de Noé”(que tem origem em mitos antigos da Babilónia e de outras culturas ainda mais antigas). Esta lenda, com os animais a entrarem na Arca, dois a dois, é encantadora mas a moral da história de Noé é aterradora: Deus tinha os humanos em tão fraca conta que os afogou a todos, incluindo crianças e restantes animais, presumivelmente inocentes…

Tal como Jesus Cristo que remeteu tudo isto para o “baú das velharias”, muitos teólogos afirmam também que estes relatos não são para serem levados à letra mas, de acordo com uma sondagem da Gallup, 50% dos norte-americanos acreditam na “história” da arca de Noé como tendo sido realidade. Esta percentagem de pessoas que alimentam este tipo de crenças é assustadora não só pelas formas de pensar que induzem mas também porque podem levar ao desprezo de medidas de precaução recomendadas para diminuírem as terríveis consequências destes cataclismos. Muitos “homens santos” da Ásia atribuíram a responsabilidade do tsunami de 2004, não à deslocação de uma placa tectónica mas aos pecados humanos “tão graves” como beber, dançar ou violar uma regra fútil relacionada com o 7º dia da semana. Da mesma forma, muitos clérigos norte-americanos, numa assustadora colecção de seus sermões, atribuíram a causa do furacão Katrina a pecados humanos.

O problema de fundo que é levantado pelo Prémio Nobel Richard Dawkins, ateu militante, é saber, do conjunto das Escrituras, quais as que, de acordo com Jesus Cristo, vão para o “baú das velharias” como símbolos ou alegorias e as outras (quais?) que devem continuar a merecer a nossa credibilidade.


Por Sua Culpa...

Os livros da Bíblia estão cheios de referências misóginas e patriarcais onde as mulheres aparecem como seres inferiores, subordinados, perigosos e pecaminosos. A frase que Jesus recorda como escutada ao rabino do seu povo: “Por culpa da mulher entrou o pecado e por sua culpa morremos todos” é apenas uma de entre muitas. Aparece no Livro do Eclesiástico 25,24.


Paulo, Um Misógino (que tem aversão às mulheres)

Ainda que Paulo (São Paulo) se tenha apresentado como discípulo de Jesus Cristo e pregador da sua mensagem e mesmo que tenha sido ajudado por mulheres a fundar e dirigir comunidades cristãs por todo Império Romano, são abundantes as suas cartas com pensamentos misóginos semelhantes aos dos pensadores da sua época.

Judeu de religião, fariseu (facção mais radical) de formação, Paulo considerava a mulher subordinada ao homem, inferior (1 Coríntios 11,3).

Paulo elaborou toda a sua doutrina da salvação sobre o mito do pecado de Adão e Eva. “A cabeça de todo o homem é Cristo e a cabeça da mulher é o homem”, frase que Raquel recorda a Jesus Cristo, da autoria de Paulo, estabelece uma rígida hierarquia na sociedade dos humanos… Um dos textos mais patriarcais de Paulo aparece na sua primeira carta a Timóteo (2, 11-15).

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A mulher perfeita.... (esta é de um "machista")

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GIANNI MORAND - CAPRICIO
1970, anos de ouro da música italiana da qual este jovem foi um dos seus grandes representantes. Iniciou-se em 1962 e venceu tudo quanto eram festivais: "Canzonissima" (1969); "Eurovisão" (1970); "Sanremo" (1987). Vendeu 30 milhões de discos, participou em 18 filmes para além de uma Série na TV.



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


Episódio Nº 213



Em fraterna intimidade, tratavam-se todos, inclusivé o Pobre Homem que ali era o Violino Genial, pelos prenomes e apelidos: Lalau, Pinhozinho, Azinhavre, Raul das Meninas, Cavalo Pampo, o mesmo se dando entre as senhoras ou quase o mesmo. Diziam-se Heleninha, Gildoca, Sussuca, Toquinha, chamavam dona Flor de minha santa, morena linda, belezoca, e lhe pediam conselhos culinários.

Não lhes cabia culpa se em algumas ocasiões dona Flor sobrava na conversa, sem assunto, desconhecendo certos temas gratos e constantes naquele meio. Afinal, ela não jogava bridge, não era sócia dos clubes nem presença obrigatória na sociedade. Nesses hiatos de silêncio, dona Flor procurava com os olhos o marido a soprar o seu fagote, a fisionomia plácida e feliz. Sorria então, pouco lhe importando a conversa das senhoras, sem que lhe pesasse o isolamento.

Ao lhe anunciar doutor Teodoro ter sido sua casa escolhida para o próximo ensaio, pôs-se dona Flor em brios: não ia ficar atrás de ninguém. Quando o marido se deu conta, já ela estava convidando Deus e o mundo, disposta, inclusivé, a gastar as suas economias num esparrame de comida e de bebida. Foi um custo contê-la. Queria mostrar àquelas ricaças que também em casa de pobre se sabe receber.

Tentou doutor Teodoro reduzir o rega-bofe: servisse no máximo uns doces e salgados, além de cerveja obrigatória. Se quisesse ser gentil e agradável ao maestro, preparasse um gostoso mungunzá, prato de especial predilecção de seu Agenor:

- Aliás ele merece… Tem uma surpresa para você… E que surpresa!

Ainda assim, apesar das advertências do marido, dona Flor serviu um lanche opíparo e superlotou a casa. A mesa era soberba: acarajás e abarás, moquecas de aratu em folhas de banana, cocadas, acaçás, pés-de-moleque, bolinhos de bacalhau, queijadinhas, quanta coisa mais, iguarias e pitéus, muitos e diversos. Além do caldeirão de mungunzá de milho branco, um espectáculo! Do bar de Mendez vieram os engradados de cerveja, as gasosas de limão e de morango, os guaranás.

Foi um sucesso o ensaio. Se bem só duas as esposas dos amadores tivessem aparecido, apenas dona Helena e dona Gilda, a casa se encheu de gente, os vizinhos num assanhamento, nervosas as alunas, as comadres em delírio (dona Dinorá quase morreu depois, de indigestão).

A orquestra foi instalada na sala de aulas, onde, além dos músicos, sentaram-se apenas algumas pessoas gradas: dom Clemente, dona Gisa, dona Norma, os argentinos (dona Nancy se vestiu de gala, numa elegância que só vendo), doutor Ives, muito palpiteiro, como sempre metido a entender de um tudo, cagando regras sobre música, citando óperas e Caruso, “aquilo sim que era voz!”.

Houve um instante de suspense: quando o maestro Agenor Gomes, de batuta em punho, disse ter algo a revelar, uma surpresa para a dona da casa, uma oferenda. Naquela tarde, pela primeira vez, iriam ensaiar composição de sua autoria, romanza inédita e recente, especialmente criada “em homenagem a dona Florípedes Paiva Madureira”. Um arrepio percorreu toda a assistência e o silêncio, até então bem pouco respeitoso, perturbado de risos e conversas, fez-se completo.

Sorriu o bom maestro: para ele, aqueles músicos amadores eram como o prolongamento de sua família, e com pavanas e gavotas, valsas e romanzas, comemorava os faustos de suas vidas, as grandes alegrias, as fundas tristezas. Se morria pai ou mãe de um deles, se lhes nasciam filhos, se alguém se alguém tomara esposa, com sucedera com o farmacêutico, desatava o maestro a inspiração
e para o amigo em riso ou choro compunha sua solidária página de música.

terça-feira, agosto 31, 2010

ENTREVISTAS
FICIONADAS

COM JESUS CRISTO

Entrevista Nº 58

TEMA: “ADÃO E EVA”


Sacerdote – E disse Deus à mulher por haver escutado a serpente, parirás filhos com dor, irás atrás do teu marido que te dominará. Palavra de Deus!

Fiéis – Te louvamos, senhor!

Raquel – Novamente, entrevista exclusiva com Jesus Cristo nesta 2ª vinda à terra. Continuamos em Nazaré, hoje na igreja do Convento de Santa Clara.

Que lhe parece o que acabamos de ouvir, Jesus Cristo, o castigo divino contra Eva?

Jesus – Ainda que esteja na 1ª página da Bíblia nunca gostei dessa história. Nunca a mencionei, nunca falei de Adão e Eva.

Raquel – Por que motivo?

Jesus – Porque não faz justiça ao coração de Deus.

Raquel – Não fará justiça mas está escrito. O senhor sabe quem escreveu esse relato do Génesis?

Jesus – Não sei quem o terá escrito mas o que sei é que foi um homem, um varão.

Raquel – Por que está tão seguro?

Jesus – Todo o mundo sabe que é a mulher que dá à luz. São elas que fazem o milagre da vida mas essa história de Adão e Eva põe o mundo ao contrário: o homem parindo a mulher!

Raquel – Refere-se à costela…

Jesus – Sim, essa costela… é uma parábola muito feia que estabelece a confusão.

Raquel – Depois aparece a serpente e o fruto proibido…

Jesus – Ainda pior, porque põe a mulher no papel de má, a tentadora… Recordo o rabino de Nazaret, um velho muito “azedo” que repetia sempre a frase da Bíblia: “Por causa da mulher entrou o pecado e por sua culpa morremos todos.” Deus tapa os ouvidos quando escuta estes disparates.

Raquel – Então o relato de Adão e Eva não foi inspirado por Deus? Não é a palavra de Deus?

Jesus – Palavra de homem será porque Deus não quer ninguém dominado pois todos, homens e mulheres, valem o mesmo perante Deus.

Raquel – Então, o que fazemos com a “costela”, com a “maça” e toda essa história do Adão e Eva. Tiramo-las da Bíblia?

Jesus – Deixá-las lá, guardadas no baú das velharias.

Raquel – E com que é que ficamos?

Jesus – Com a boa notícia de que não serpentes tentadoras, nem frutos proibidos e que o paraíso existirá na terra quando ninguém dominar ninguém.

Raquel – Não creio que os nossos ouvintes estejam muito de acordo com as suas palavras e vários já nos contactaram para nos dizerem que estas entrevistas são breves e que o senhor os deixa sempre com mais perguntas do que respostas.

Jesus – Pois ainda bem, Raquel. Quem tem perguntas pensa, quem só tem respostas obedece.

Raquel – Os nossos ouvintes das Emissoras Latinas em que grupo estão? Têm perguntas ou conformam-se com as respostas?

Da Nazaré, a repórter Raquel Perez.

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"Brincadeiras" de gosto duvidoso com o touro que às vezes se "vinga". Infelizmente, se estas "bricadeiras" acabarem, o mesmo é dizer acabarem as touradas, acabarão também os touros, cavalos e cavaleiros tauromáquicos porque sem o espetáculo que paga a existência de tudo isso será o vazio e o desemprego para milhares de pessoas. Um touro destes, o chamado "touro de lide", leva 4 anos a criar, ao ar livre, sem lhe faltar nada e só serve para isto... é a sua bravura que justifica a sua existência... para comer são outros.

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RUI VELOSO - LADO LUNAR

".... eu hei-de amar-te por esse lado escuro... o teu lado lunar..." As letras, o "2º prato"forte do reportório de Rui Veloso, são da responsabilidade de Carlos Tê, licenciado em filosofia. Sem as suas palavras a música de Rui Veloso não seria a mesma...

DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


Episódio Nº212



Doutor Venceslau Veiga, o cirurgião egrégio, após os primeiros acordes sorria contente com a vida e com a humanidade.

Toda a canseira da semana na sala de operações, a abrir peitos e barrigas, a atender enfermos, debruçado sobre a morte, numa luta de todos os instantes, cruel e vã, toda a canseira acumulada ia nos primeiros acordes, apenas vibrava o arco do violino. Doutor Pinho Pedreira rompia os elos da sua solidão, solteiro e misantropo, reencontrando em sua flauta a lembrança de um amor de adolescência, de uns olhos fulvos e fingidos. Adriano Pires, o Cavalo Pampa – panos brancos de vitiligo pintalgavam-lhe as mãos e o rosto – o milionário, o grande atacadista, o sócio de bancos, o director de empresas e indústrias, o comendador do Papa, ficava humilde ao lado do poderoso violoncelo, compensando-se ali da semana de ambições ferozes e de ferozes golpes, da labuta com os fregueses, os concorrentes, os empregados – todos eles uns ladrões! – no afã de ganhar cada vez mais, no medo de ser furtado, na agonia do tempo curto para tanta ânsia de dinheiro e de poder, e também da obrigatória convivência com dona Imaculada Taveira Pires, uma catástrofe. Ficava não só humilde mas generoso e humano, sorrindo para o paupérrimo caixeiro a seu lado, liberto um da excelentíssima dona Imaculada, o outro de siá Maricota.

Como siá Maricota, a comendadora vinha raramente aos ensaios. Não por falta de vestidos e conversa, é claro. Por falta de tempo, suas horas comprometidas com mil obrigações sendo ela a primeira em importância entre as damas de alta sociedade, e também porque achava aqueles ensaios de uma sensaboria, paulificação infinita, eterna repetição de acordes, as mesmas músicas durante meses, insuportável.

Antes assim, sem sua presença, sem a triste visão da sua carantonha angulosa, coberta de cremes, o busto de jóias e pelancas, e o infecto lornhão. Assim, era mais fácil a seu Adriano apagá-la dos olhos e da memória. A ela, às filhas e aos genros. As filhas, uns fracassos: duas pobres infelizes para quem a vida se reduzia aos vestidos e aos bailes. Os genros, uns gigolõs, cada qual mais inútil e salafrário, um esbanjando no Rio, outro pondo fora na Bahia o dinheiro de seu Adriano, seu suor, seu sangue, sua vida. De tudo isso repousava o atacadista: dos milhões acumulados, dos concorrentes em concordata e em falência, do vazio, do egoísmo, da tristeza de sua gente. Ali, ao violoncelo, repousava. Ao lado de seu Urbano, os dois iguais, como iguais eram, em sua verdade, a excelsa dona Imaculada e a esmulambenta siá Maricota, ambos acerbos tribufus.

Aos sábados, infalíveis, reuniam-se aqueles conspícuos cavalheiros, abandonando-se à música e à cerveja, monchalantes e risonhos. Cada sábado numa casa diferente e a dona da casa oferecia lauta merenda, mesa bem posta pelo meio da tarde. Vinham sempre duas ou três esposas, alguns amigos e outros tantos admiradores pois “há gosto para tudo” (como rosnou seu Zé Sampaio, ao voltar de uma dessas sabatinas à qual comparecera para atender às instâncias musicais do farmacêutico). Dona Flor, efectiva e firme nos primeiros tempos, fora acolhida com gentil cordialidade e ali brilhou mansa e afável.

No soleto mundo da música erudita – e aqui vai o adjectivo pelo que vale, dele discordava dona Gisa como mais adiante se verá – nesse ambiente impregnado de insignes sentimentos, não tinham vez e lugar desigualdades de dinheiro e origem social, ali se diluíam as diferenças de
classe e de fortuna para que se formasse a supercasta dos Filhos de Orfeu, irmãos na arte.

segunda-feira, agosto 30, 2010

VÍDEO

Uma política de verdade...

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INFORMAÇÕES ADICIONAIS
AO TEMA:

“ANJOS e ARCANJOS”
(2)


Uma Crença Actual

Na actualidade a “Angeologia” ganhou cada vez mais terreno como expressão de revigoramento religioso em que confluem, misturam e potencializam todo o tipo de carências, antigas e novas. Na Internet podem encontrar-se milhares de “sítios” que promovem a crença nos anjos dando a este mito fundamento “científico”.

Explicam, por exemplo, como estabelecer comunicação com estes seres dizendo coisas como estas:

- “A sua fala é espiritual mas o som espiritual chega-nos pelos ouvidos. Quando nos falam, activa-se um centro energético que está no cocuruto da cabeça, também denominado “chácara da coroa” que tem uma relação física com a glândula pituitária. Quando os anjos nos falam é este centro que se activa e é um som espectacularmente claro. Não existe na terra nenhum aparelho de som que consiga semelhante nitidez e impressão na memória”. (Não há limites para as baboseiras desta gente!)


Uma Crença Baseada em Hierarquias

É muito significativo que tanto a crença tradicional nos anjos como a “Angeologia” pós moderna mantenham uma clara hierarquia entre os anjos, igual à que já existia nos tempos antigos e que é a base actual do poder em hierarquias do género, políticas, sociais, culturais e religiosas.

A classificação hierárquica dos anjos que mais tem influenciado o imaginário e a fantasia das gerações até aos dias de hoje foi elaborada por um autor desconhecido entre os séculos IV e V e que expôs a sua doutrina angeológica num livro “A Hierarquia Celeste”. Este teólogo dividiu os anjos em nove coros e três grupos: O superior, composto de serafins, querubins e tronos; o intermédio composto de denominações, virtudes e potentados; e o mais próximo dos seres humanos composto por principados, arcanjos e anjos.

O autor deu nomes aos sete arcanjos: Miguel, Gabriel, Rafael, Uriel, Chamuel, Jofiel e Zadkiel, nomes todos masculinos e todos terminados em “el”, uma forma de se referirem a Deus sem pronunciarem o seu nome.

A Teologia católica aceita a hierarquia angélica em nove coros mas não chegou a fazer, neste particular, uma doutrina de fé. Sobre os sete nomes tradicionais só aceita os de Miguel, Gabriel e Rafael por serem os únicos que aparecem citados nos livros da Bíblia.

Na sua entrevista com Raquel, Jesus resume toda a doutrina oficial e toda a angeologia de ontem
e de hoje numa frase de sentido comum: “Os Anjos são Poesia”.

RODRIGO - O FADO DO 31
Já muito velhinho mas saboroso... este fado pretendia ser, com graça, o retrato do lisboeta de então: brigão, marialva,machista, que batia em toda a gente, especialmente na mulher, nos filhos e até na sogra quando estava com os copos. Quase todos o cantaram... o Rodrigo, melhor que ninguém.



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


Episódio Nº 211



Aqueles grãos-senhores transformavam-se aos sábados à tarde em crianças alegres e despreocupadas, livres de compromissos e obrigações, de clientes e negócios, do dinheiro a ganhar com pressa e apetite. Punham de lado as distâncias Sociais, confraternizando o atacadista com o engenheiro da Prefeitura de magro salário, o cirurgião famoso com o modesto farmacêutico, o meritíssimo juiz ou dono dos Empórios Nortistas – oito armazéns na cidade – com o caixeiro da pequena loja.

Também as senhoras tão gradas e chiques abriam a intimidade de suas casas às esposas dos demais musicistas sem lhes medir a fortuna e a origem social, recebendo todas elas com a mesma afabilidade, inclusivé siá Maricota (por que siá e não dona? Porque ela mesmo alardeava: “eu não sou dona, sou somente siá Maricota e por muito favor”).

Aliás, siá Maricota quase nunca aparecia pois não tinha vestidos nem conversa à altura daquelas”fidalgas de merda” como explicava à vizinhança num canto de rua, nos limites da Lapinha com a Liberdade.

- Que é que vou fazer lá? Só se fala de festa, de recepções, de almoços e jantares, uma comilança que até dá agonia na gente. Fico pensando nos meninos aqui em casa sem poder encher barriga direito… Quando não falam de comida e bebida, é só conversa de descaração: que a mulher de sicrano está metida com fulano, que a outra está a Deus e ao mundo, que beltraninha foi pegada num castelo. Pelo jeito essas donas só sabem comer e rebolar na cama nunca vi…

Em sua revolta, dona Maricota (“não sou dona de nada, diga-me quando muito siá Maricota como a qualquer criada, não passo disso”), siá Maricota não media palavras, boca áspera e realista:

- Tudo no luxo, na seda, na estica… Que fiquem para lá no alto de sua merdolência, com seus cocores, que eu passo sem elas… Urbano vai, porque não pode viver sem o tal ensaio… Se fosse por mim ele não ia em casa de ricaço nenhum, tocava aqui mesmo, na venda de seu Bié, com Mané Sapo e seu Bebe e-Cospe – abria os braços num gesto de impotência – mas que posso fazer…? Ele é mesmo um pobre homem…

De tanto ela repetir o mote depreciativo, seu Urbano ficara conhecido como Pobre Homem, dela lhe viera o apodo humilhante. Quanto a Mané Sapo, era mestre na gaita, e seu Bebe-e-Cospe dono da velha sanfona: os dois aos domingos tocavam suas modas e engoliam sua cachaça na venda de seu Bié, ponto de encontro da mais elegante sociedade daqueles becos. Seu Urbano também aparecia e por várias vezes fizera-se ali aplaudir com seu violino, se bem aquele público desse clara preferência `gaita de Mané Sapo, à sanfona de Bebe-e-Cospe. Siá Maricota, nada entendendo de música, resmungava por ter de passar a ferro a roupa azul do marido única e antiga (as calças começando a puir nas nádegas), para os ensaios:

- Se não podem ensaiar sem ele, pelo menos deviam pagar a engomadeira… Essa tal de orquestra só dá despesa, não vejo o pobre homem ganhar nada com ela…

Ganhava paz de espírito, evolando-se na música a agre Maricota, com seu odor a alho, suas verrugas e seu falatório. No ensaio, aos sábados, repetindo as mesmas músicas de sempre, iniciando o estudo de uma ou outra nova melodia para o escolhido reportório, Urbano Pobre Homem repousava da mesquinhez da vida e, como ele, todos os demais senhores da orquestra, os graúdos, os homens ricos. Mantendo uns a gravidade dos modos, despindo-se outros de toda a solene compostura ao se colocarem em mangas de camisa para o ensaio, ao tomarem dos instrumentos, todos eles revelavam a mesma alegria interior, uma pura
inspiração a lhes varrer do pensamento o quotidiano mísero e mesquinho.

domingo, agosto 29, 2010


HOJE É DOMINGO


ORAÇÃO DE AMIZADE



Que as pulgas de mil camelos infestem o cu daquele que estragar o teu dia e que os braços sejam demasiado curtos para o poder coçar.


Ainda Relacionado Com
a Morte de Luigi Tenco



Em baixo, as duas canções apresentadas no Festival de Sanremo 67 "responsáveis" pelo suicídio de Luigi Tenco que não aceitou a preferência que o público e juri lhes atribuiu em detrimento do seu "Ciao Amore Ciao".

Das três canções, eu que não sou entendido em música, e já não falando das vozes que são difíceis de desasossiar, e aqui Luigi, para mim, leva vantagem porque gosto do género da voz dele, não me escandaliza que o público tenha escolhido "Lo Tu e Le Rose" (tem o truque do ritmo da valsa).

"La Revoluzione" é, relativamente às outras duas, nitidamente inferior.

Que o público tenha relegado para um 12º lugar a canção de Luigi, mesmo desconhecendo as restantes, parece-me de uma injustiça gritante... mas nunca para dar um tiro na cabeça... no máximo, não mais poria os pés em Festivais... até porque também tinha o amor de Dalida, poderoso argumento para estar vivo... caramba!

FESTIVAL DE SANREMO 67

LO TU E LE ROSE - ORIETA BERTI

FESTIVAL DE SANREMO DE 67

LA RIVOLUZIONE - GIANI PETTANETI

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