sábado, abril 04, 2009

FRED ASTER / ELEONORA PARKER (1949). Ele, talvez o melhor bailarino de todos os tempos.

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LEONARDO FAVIO - FUISTE MIA UN VERANO

CREDENCE CLEARWATER REVIVAL - DOWN ON THR CORNER

CLAUDE BARLOTTI - AIME MOI


Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 91




Ideia de Ascânio contara com o apoio geral, na boca do povo Tieta era a heroína da cidade. Não a tinham ainda colocado no altar-mor da Matriz, ao lado da Senhora de Sant’Ana, como previra Modesto Pires, mas pouco faltava. Ao passar na rua, no princípio da tarde, na companhia de Leonora e de Perpétua, a caminho do cartório onde marcara encontro com o dono do trapiche, das casas saíam pessoas para cumprimentá-la, para lhe agradecer: houve quem lhe beijasse a mão. Ao sabê-la no Agreste, o coronel Artur de Tapitanga abandonou a casa grande da fazenda, andando o quilómetro a separá-lo da rua, veio abraçar a benemérita cidadã:

- Minha filha, Deus escreve certo por linhas tortas. Quando Zé Esteves lhe tocou daqui, era porque Deus a queria fazer voltar como rainha. – Punha-lhe uns olhos de bode velho e lúbrico já sem força nos ovos mas ainda com apetite no coração. – Quando vai-me visitar ver minhas cabras?

Também Bafo de Bode (na imagem) a homenageou à sua maneira, ao vê-la na porta do cinema:

- Viva dona Tieta que manda um bocado e é um pedaço de mau caminho!

Tieta, ao passar, na mão negra de sujo deixa o necessário para uma semana de cachaça farta e ao adiantar-se, na intenção de alegrar-lhe os olhos, soltou as cadeiras em requebro de proa de barco em meio de vendaval.

Concluída a escritura, lavrado o termo da compra do terreno, completado o pagamento em moeda viva, Tieta, antes de voltar para casa, passou na Agência dos Correios para abraçar dona Carmosina e despachar uma carta. Já agora acompanhada também por Ascânio e pelo bardo De Matos Barbosa, atacado de saudade e reumatismo: tua presença Tieta, é sol e medicina, basta-me fitar teu rosto para me sentir curado.

Dona Carmosina anunciou:

- De noite, vou lhe ver para a gente conversar. Tenho muitas novidades… os olhos indicavam Leonora e Ascânio, assunto predilecto.

- Não estarei. Volto hoje mesmo, daqui a pouco, para Mangue Seco. Passei para lhe ver e saber notícias de dona Milú.

- Volta hoje? Por que toda essa pressa?

- Estou levantando minha choupana, já comecei. Tu me conhece , quando quero um coisa, quero logo, tenho pressa. Desejo ver as paredes de pé antes de ir embora.

Você não pode ir embora tão cedo. Nem fale nisso.

- Por que não?

- Antes da inauguração da luz? O povo não vai deixar.

Tieta riu:

- Até me sinto candidata a deputado… Você me representa na festa. – Mas, quem sabe, talvez eu fique, prolongue as férias, não tanto pela festa mas para ver a minha casinha de pé, em Mangue Seco.

- Fica, sim, com certeza. Ficam as duas… - Fitando a face melancólica de Leonora, dona Carmosina não resistiu: - Sei de alguém que talvez fique para sempre. – Os olhos miúdos faiscavam malícia.

Em casa, a sós com Perpétua, Tieta dera-lhe notícias de Ricardo: menino bom, sobrinho querido, estava sendo de inestimável ajuda. Sob a orientação do Comandante, tomava iniciativas e providências, atravessara duas vezes para o arraial do Saco onde contratara o pessoal necessário, pedreiros e carpinas, mestre-de-obra, gente habituada a trabalhar com troncos de coqueiro sobre areia movediça. Adiantara todos os detalhes, a construção iniciara-se na véspera. Ela o prenderia em Mangue Seco ainda uns dias, nomeara-o seu lugar-tenente.

- O tempo que você quiser, mana, ele está de férias.

Por falar de férias, Ricardo mandara pedir os livros de estudo, nem na praia descuidava dos deveres escolares. Dormia na sala da Toca da Sogra, numa rede, menino de ouro, Tieta queria ajudá-lo e para tanto decidira abrir uma caderneta de poupança em nome dele, num banco em São Paulo. Na carta que deixara na Agência dos Correios, dava ordens à sua gerente para abrir a caderneta em nome do sobrinho com considerável depósito inicial – Perpétua estremeceu ao ouvir a quantia – ao qual todos os meses ela acrescentaria determinada importância, ainda não decidira quanto. Assim, quando Ricardo se ordenasse padre, somando capital, juros e correcção monetária, teria um bom pecúlio.

Perpétua elevou os olhos gratos para o céu, o Senhor começava a cumprir sua parte no trato feito. Depois de agradecer a Deus, fitou Tieta e a ela se dirigiu:

- Não sei o que lhe dizer, mana. Deus lhe há-de pagar. – Tomou, num gesto inopinado a mão da irmã, levou-a ao peito apertando-a contra o coração. Usava corpete de tecido grosso, duro como um peitoril. Com o lenço negro enxugou os olhos lacrimosos.



sexta-feira, abril 03, 2009

PAUL ANKA - PUT YOUR HEAD ON MY SHOULDER (1959)

FRANK SINATRA - BLUE MOON

DANIEL GERARD - BUTTERFLY

MICHEL SARDOU - MALADIE D'AMOUR

TALENT 2008 - ROBOTSBOYS

TALENT 2008 FINAL


Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 90



DA LUZ E DAS VIRTUDES DE TIETA, COM CITAÇÔES EM LATIM



Plantadores de mandioca, criadores de cabras, os pescadores e os contrabandistas, na cidade do Agreste e nos povoados vizinhos, das margem dos rio às encapeladas vagas da barra, ninguém deixou de tomar conhecimento do espantoso evento e o beato Possidônio, em Rocinha, anunciou o Apocalipse e o fim do mundo, assuntos da sua particular predilecção. Apoiava-se nas escrituras, no Velho Testamento.

Eis que de repente, conforme constataram os habituês no Areópago, começavam a suceder coisas em Agreste, arrancando o burgo da pasmaceira habitual, provocando agitados comentários, suscitando discussões.

Os fios eléctricos, suspensos sobre postos colossais, caminhavam pelo sertão no rumo do município e, em obediência às ordens superiores, o faziam com rapidez anormal em obras públicas. De quando em quando, um jip com engenheiros e técnicos desembocava nas ruas tranquilas, o bar de seu Manuel ganhava animação. O engenheiro-chefe garantia que dentro de mês e meio, dois meses no máximo, os fios chegariam à cidade, trabalho concluído, podendo-se marcar a data para a festa da inauguração. Em se tratando de município de tanto prestígio federal, talvez comparecessem figuras da alta direcção da Companhia do Vale de São Francisco, quem sabe até o director-presidente vindo especialmente de Brasília.

Já não duvidava de nada o engenheiro-chefe depois que o informaram ter sido uma viúva em férias na terra natal que obtivera, por intermédio de amigos do finado, em vida milionário e influente, as ordens preferenciais mandando reformar o projecto para que nele coubesse, com prioridade absoluta, o município de Sant’Ana do Agreste. Difícil de acreditar mas sendo a afirmação unânime, o engenheiro terminara demonstrando interesse em conhecer e saudar a ilustre dama capaz de modificar projectos aprovados, removendo postes, determinando rotas para luz e força.

Pessoas dada e simples, conforme lhe informou Aminthas. Nem por ser riquíssima viúva de comendador do Papa e frequentar a alta sociedade do sul, possuindo as melhores relações – das quais a prova mais concreta era o falado engenheiro estar ali no bar do lusitano, bebericando cerveja – nem por tudo isso carrega o rei na barriga. Com dois telegramas resolvera o assunto, dera uma bofetada no director cheio de si que tratara o representante da cidade, Ascânio Trindade, secretário da prefeitura, como se ele fosse um joão-ninguém e Agreste não passasse de terra esquecida por Deus. Sem levar em consideração as credenciais de Ascânio, o facto do moço encontrar-se em Paulo Afonso em defesa de interesses legítimos de sua terra, o director-presidente deixara-o mofar à espera antes de despachá-lo com redonda negativa, recusando-se a ouvir os seus argumentos. Agreste, para ele, não passava de árido pasto de cabras e assim o disse. Indignou-se dona Antonieta ao saber do acontecido, telegrafou. Foi tiro e queda.

Aminthas enfeitara a história ao contá-la ao engenheiro-chefe, rindo-lhe nas fuças:

- Dona Antonieta Esteves Cantarelli é o nome dela. Naturalmente o amigo já ouviu falar no Comendador Cantarelli, grande industrial paulista. Empacotou recentemente.

O engenheiro, vencido, escondeu o desconhecimento: o nome lhe soava, disse, com o mesmo acento dos Mattarazzo, dos Crespi, dos Filizzola. Ergueu o copo da cerveja, em respeitoso brinde à senhora Cantarelli. Não só Aminthas o acompanhou, todos os presentes associaram-se à homenagem. O povo, agradecido, ainda no espanto da dádiva inesperada, ao referir-se à nova iluminação não a designava Luz de Paulo Afonso, Luz da Hidrelétrica ou Luz da Companhia Vale São Francisco, como seria justo e correcto e em toda a parte se dizia. Para a gente de Agreste era a Luz de Tieta.

Quando, na quarta-feira seguinte aos festivos acontecimentos de domingo, Tieta viera a Mangue Seco para assinar no cartório a escritura dos terrenos, fora surpreendida com uma faixa colocada na praça da Matriz, entre dois carunchosos postes de iluminação antiga, nas proximidades da casa de Perpétua. O povo de Agreste saúda agradecido dona Antonieta Esteves Cantarelli. Apenas um senão: a palavra Esteves havia sido acrescentada, por exigência de Perpétua e Zé Esteves, depois da faixa concluída. Colocaram-na entre os outros nomes mas acima deles, defeito pequeno, não empanava o efeito impressionante das letras vermelhas sobre o fundo branco do madrasto.

quinta-feira, abril 02, 2009

Veja Esta Jogada de Ténis de Mesa

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Quem Imita Quem


IRMANADOS NA FÉ



IMAGENS CURIOSAS












NANA MOUSKOURI - SOLEI, SOLEI

CLAUDE FRANÇOIS - COMME D'HABITUDE

SALVATORE ADAMO - ALINE


Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 89


- Vamos lá… - Concorda o Comandante.

Mas quando chegam à praça, já o casal de super heróis, cercado de curiosos está de partida, na máquina refulgente. Ascânio ainda tenta dialogar mas eles levam pressa, vão chegar a Salvador tarde da noite.

- Em breve voltarei e então aí conversaremos. Quero tomar nota do seu nome – extrai uma caderneta de misterioso bolso na perna da calça, a caneta pendurada no pescoço parece um microfone de romance de espionagem.

A máquina de retrato, pequeníssima e potentíssima, funciona nas mãos finas, de dedos longos, libertas de luvas, de Miss Vénus.

- Meu nome? Ascânio Trindade. Este aqui é o comandante Dário de Queluz.

- Comandante?

- Sim, da Marinha de Guerra.

- Reformado – esclarece o Comandante.

- Ah! – depois de uma pausa, credencia-se: - doutor Mirko Stefano. A bientôt. So long.

- Adeus paixão! – chora Miss Vénus, os olhos em orgasmo.

Parte a máquina, levantando poeira, o ruído estourando os ouvidos mais sensíveis. Doutor? Parece um astronauta, um capitão de nave espacial. Um moderno empresário desses que transformam a terra e a vida. Sobre o veículo a informação exacta foi dada por Peto – ainda não conseguiu terminar o primário, não tem pressa, já sabe tudo sobre carros e pistas. Trata-se de um Bug com rodas de magnésio, tala larga, dupla carburação, Kits 1600, a buzina incrementada. Tudo incrementado, aliás, motor envenenado, o entusiasmo de Peto não tem limites. Corre para casa, vai contar as novidades à tia Antonieta e a Leonora.

Sobre os seres superiores souberam pela boca de Elieser, de mau humor.

- O tipo estava interessado era nas áreas da beira do rio, no coqueiral, nas terras devolutas. Me perguntou de quem eram, eu disse que ninguém nunca soube que tivessem dono. Fizeram fotografias às pampas. Em Mangue Seco, tiraram as roupas e tomaram banho nus…

- Nus?

- Os dois… Como se eu não estivesse ali. A tipa é ousada, enfrentou a rebentação. – Vê você, Ascânio? Nudismo para começo de conversa. Graças a Deus eu não estava lá, não iria permitir – Igual a Edmundo Ribeiro, o comandante Dário também não é puritano mas nudismo em Mangue Seco, ah!, isso jamais! Não enquanto ele viver!

Ascânio vai responder mas Elieser não lhe dá tempo:

- O tipo perguntou quanto me devia, eu disse-lhe que não era nada, como você mandou. Quem vai pagar meu trabalho e a gasolina, Ascânio? Tu ou a prefeitura?

Osnar, a ouvir em silêncio, comenta escandalizado:

- Tu vê um mulherão daquele nua em pelo e ainda quer dinheiro, Elieser? Pois eu pagava para espiar… Tu é um degenerado!


O Meu Comentário à Resolução do Conselho dos
Direitos Humanos da ONU


Perante as evidências históricas dos malefícios das religiões que ao longo dos tempos estiveram na origem da ruptura da sociedade humana em grandes grupos que se guerrearam entre si a propósito de terem crenças diferentes ou ligeiramente diferentes, concentrando o ódio e a intolerância que explodiram em guerras e sacrifícios humanos incontáveis;

Face à realidade dos noticiários dos nossos tempos em que homens, mulheres e crianças, em nome de Deus, explodem enrolados em bombas, em casos repetidos, quase diários, provocando a morte de centenas de pessoas seus concidadãos;

Perante o espectáculo triste e degradante de pessoas que se arrastam de joelhos em Fátima, ou que se chicoteiam com correntes de ferro nas ruas de Bagdad, ou se crucificam em certos países da América Latina;

Quando o chefe máximo da igreja católica, Bento XVI, vai de visita a África e condena o uso do preservativo numa daquelas “subtilezas” da doutrina que pode, indirectamente, condenar à morte milhares de pessoas;

Perante tudo isto, que acontece nome de Deus e das Religiões, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprova uma Resolução que condena “a difamação da religião”.

Ou seja, nos termos desta resolução, não só são aprovados
todos estes comportamentos como igualmente é condenada a sua denúncia.

Vindo de um Organismo Internacional como a Organização das Nações Unidas, que deveria ser referência para todos os países do mundo, esta resolução, entre outras coisas, significa um atraso civilizacional.

As pessoas não são crentes porque o queiram ser, obedecem a impulsos de crença que estão fora do seu controle os quais, já nos foi explicado, se abriram no nosso cérebro como espaços de fé.

No início da humanidade, a sobrevivência da nossa espécie foi muito difícil e periclitante e todas as tentativas dos nossos primos humanóides falharam. Finalmente, uma sobreviveu: a nossa e isso só foi possível pelo triunfo da razão, da inteligência, do raciocínio que fizeram dos homens os únicos seres racionais.

Mas o caminho foi longo e no início qualquer pequeno contributo significava a diferença entre a extinção e a continuação.

Fisicamente éramos seres frágeis, à mercê de todos os perigos e para os evitar eram necessários cuidados, previsões de risco com comportamentos adequados, que eram ensinados às crianças pelos pais e pessoas mais velhas. Aquelas que acreditavam e seguiam escrupulosamente os comportamentos recomendados tiveram mais hipóteses de procriarem e ao longo de centenas de gerações, por questões de sobrevivência da espécie, num processo vulgar de selecção, o nosso cérebro desenvolveu essa característica.

Mas se a crença naquilo que os nossos pais e pessoas mais velhas nos diziam contribuiu para a nossa sobrevivência, foram a razão, a inteligência e o conhecimento que ditaram, mais do que o triunfo, o extraordinário sucesso da nossa espécie.

O dispositivo da crença instalado no nosso cérebro “manda-nos” acreditar mas não nos diz em quê e por isso é um mecanismo perigoso, porque é “cego”.

Repito aqui, o que o perspicaz Lutero escreveu:

- “Não se pode ser cristão sem cortar a cabeça à razão”.

E não resisto a transcrever Steven Weinberg, físico norte-americano, galardoado com o prémio Nobel:

- “A religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, haveria sempre gente boa a fazer o bem e gente má a fazer o mal. Mas é preciso a religião para por gente boa a fazer o mal”

Blaise Pascal disse algo semelhante:

-“Os homens nunca fazem o mal tão completa e alegremente como quando o fazem por convicção religiosa”

A religião não liberta, aprisiona, condiciona. Não se pode ser livre quando estamos obrigados a obedecer a imperativos que não compreendemos e repudiamos mesmo do ponto de vista da
nossa razão.

quarta-feira, abril 01, 2009

A INACREDITÁVEL RESOLUÇÃO:
GENEBRA
O Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou nesta quinta-feira, 26, uma resolução que condena a "difamação da religião" como sendo uma violação dos direitos humanos, apesar da preocupação de que isso possa ser usado como justificativa para coibir a liberdade de expressão em países islâmicos.

Comentário Exemplar:

A proposta apresentada pelo Paquistão e co-patrocinada pela Venezuela – dois países de sólidas tradições democráticas, um islâmico e outro cristão –, foi aprovada por 23 votos a favor e 11 contra, num conselho formado por 47 países.

Esta vitória muçulmana, uma religião com lúgubres tradições no respeito pelos direitos humanos, arrepia quem defende o livre-pensamento. A Liga Islâmica defende o Corão em toda a sua crueldade: lapidação, amputação de membros e decapitação de infiéis. Não Pode zelar pela igualdade de sexos, laicidade do Estado e emancipação da mulher.

Se o Islão, secundado por outras religiões, visse cumprida a resolução aprovada, nos países laicos, a democracia seria a primeira vítima. Não pode ser delito denunciar a moral anacrónica, delito é pactuar com os crimes que as religiões cometem, com a ignorância que cultivam e a superstição a que sujeitam os seus crentes.

Se o cristianismo considera o Antigo Testamento como parte da Bíblia é cúmplice do racismo, da xenofobia e da crueldade, inspirados naquele livro hediondo.

Ridicularizar o bispo que atribuiu a destruição de Nova Orleães a castigo de Deus, pelos pecados dos homens, talvez venha a ser difamação religiosa mas é um acto de higiene. Acusar o Papa Bento XVI de troglodita por mentir em relação à eficácia do preservativo e, sobretudo, por condenar a sua utilização, é um dever de quem apoia o combate contra a disseminação da epidemia e não pode intimidar os que combatem a sida.

Duvidar da cura do olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus por intercessão de santo Pereira pode virar delito e a gargalhada ser punível com prisão. Negar que o arcanjo Gabriel soubesse árabe e tivesse ditado o Corão a Maomé pode tornar-se perigoso mas a sanidade mental exige que não se acredite em anjos.

A religião que permite e impõe os casamentos combinados, que legaliza matrimónios de meninas de 9 anos, discrimina as mulheres, assassina infiéis, adúlteras e apóstatas passa a merecer respeito e a poder retaliar contra quem aprecie presunto e vinho do Porto.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU, em vez de proteger os Direitos Humanos, como lhe compete, fragilizou-os de forma beata e deu razão a extremistas violentos e perigosos.

É preciso estar atento à escalada religiosa que devora os direitos que a nossa civilização conquistou. A Idade Média durou mais do que devia e o regresso é intolerável.
De: Carlos Esperança (w.w.w.ponteeuropa.blogspot.com)

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TRAVIATA

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A IMAGINAÇÃO DENTRO DA NOSSA CASA







RICHARD ANTHONY - ARANJUEZ MON AMOUR

CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL - HAVE YOU EVER SEEN THE RAIN

SALVATORE ADAMO - PETIT BONHEUR

GILBERT BÈCAUD - QUAND IL EST MORT LE POETE



Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 88




DOS COMENTÁRIOS E DA PRIMEIRA DISCUSSÂO
AINDA AMÁVEL



Cresce a concentração na praça, pequena multidão acotovelando-se em torno ao veículo.

- Veja os pneus. Que brutalidade!

- Que beleza!

- Você ouviu a buzina? Tocou o começo da Cidade Maravilhosa.

- Cada coisa!

No bar, é grande o movimento. Os comerciantes abandonaram lojas e armazéns. Plínio Xavier orgulha-se de ter sido o primeiro a ver a máquina e a perceber os pilotos.

- Estava bem do meu, fazendo contas de uns fiados…

O riso de Osnar, ri de quê? Os olhares se desviam: na porta da Igreja, Cinira conversa com as beatas. Ainda não assentou praça no batalhão mas não vai tardar.

- …quando ouvi aquele barulho horrível, larguei tudo…

Astério e Elisa somam-se ao grupo. Na hora do perigo, ele fora correndo para casa, preocupado com a esposa: Elisa, na lua-de-mel da chegada da irmã, anda nervosa, aflita, num pé e noutro. Juntos vieram para a praça, espiar a máquina, ela tão nos trinques a ponto de quase botar no chinelo a Rainha do Espaço de mancha platinada nas ruivas melenas. A mancha platinada alucina Osnar que confidencia a Seixas e a Fidélio:

- Eu juro a vocês que se eu pegasse aquela marciana começava a lamber da ponta do dedo grande do pé. Levava bem três horas até chegar ao umbigo… Dava-lhe uma surra de língua…

- Porcalhão! Seu Edmundo Ribeiro não é exactamente um puritano mas certos hábitos sexuais lhe parecem indignos de homem macho e honrado. Pegar mulher na cama, montá-la, muito que bem. Mas por a língua… Beijos, só na boca e em boca limpa.

Edmundinho, meu filho, não venha me dizer que você nunca fez um minete na vida… nunca chupou um favo…

- Me respeite, sou homem honesto sério e asseado.

Na Agência dos Correios e Telégrafos, ferve a discussão. Ascânio Trindade apresenta minucioso relatório a dona Carmosina, na presença do comandante Dário de Queluz que prevê a voz da lástima:

- Você, meu querido Ascânio, com essa mania de turismo em Agreste, ainda vai pagar caro, você e todos nós. Um dia, um maluco qualquer lê essas bobagens que você e Carmosina mandam para os jornais, leva a sério, bota de pé um negócio para explorar a praia de Mangue Seco, a água e o clima de Agreste e nós vamos terminar mal. Em dois tempos, isso vira logo um inferno.

- Um inferno, por que, Comandante? Nunca ouvi dizer que uma estação de águas fosse um inferno. Ao contrário é um local de descanso, de repouso – intervém dona Carmosina – Você sabe bem que ninguém defende mais a natureza do que eu, a natureza, a atmosfera e a beleza de Agreste. Mas que mal existe numa estação de águas?

- Uma estação de águas na cidade, vá lá. O pior é a praia que Ascânio quer engolir de gente, de toda a espécie de porcaria…

Salta Ascânio:

- Que porcaria? Casas de veraneio para turistas, hotel, restaurantes. A praia de Acapulco, a de Saint-Tropez, a de Arembepe, são por acaso porcarias, infernos? O futuro de Agreste, Comandante, está no turismo.

- São infernos, sim, são porcarias. Ainda outro dia A Tarde publicou uma reportagem sobre Arembepe: virou a capital dos hipies, a capital sul-americana da maconha. Você já pensou Mangue Seco repleto de cabeludos e maconheiros? Deixe nosso paraíso em paz, Ascânio, pelo menos enquanto a gente viver.

- Quer dizer que o senhor prefere, Comandante, que Agreste continue a ser um bom lugar para se esperar a morte.

- Prefiro sim, meu filho. A morte aqui tarda e retarda, não desejo mais que isso. O ar puro sem contaminação. A praia limpa.

Ascânio olha para dona Carmosina, aliada, ela toma a palavra:

- Quem falou em contaminar? Hipies não digo, se bem a filosofia deles seja também a minha, paz e amor, a coisa mais bonita que se inventou neste século! O diabo é a droga. Mas turistas com dinheiro, não vejo mal, Comandante. Boas casas de veraneio, comércio animado, bons filmes, e então? Ninguém pode ser contra.

Arranha-céus, hotéis, a corrida imobiliária, o fim do coqueiral, das árvores, do sossego, da paz!
Deus me livre e guarde! Felizmente isso não passa de delírio de vocês…

terça-feira, março 31, 2009

A OUTRA FACE DO TANGO

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O leão macho foi feito para lutar e não para caçar. Ir ao "talho" é trabalho das fêmeas, ele aparece no fim para comer.

O que ele gosta mesmo é de perseguir uma hiena atrevida e matá-la partido-lhe a "espinha" com uma dentada.

Pneus de jeep, para ele é pastilha elástica.






LOS PAYOS - MARIA ISABEL

LOS MARCELLOS FERIAL - QUANDO CALIENTA EL SOL

JUANES - LA CAMISA NEGRA


Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 87


Pode dizer que eu pago bem…

Ascânio sai em trote rápido em busca de Elieser. Terá de convencê-lo; em matéria de bom sujeito, Elieser é exemplo discutível, mas Ascânio tem prestígio. Nada dirá sobre hotéis e asfalto, o outro pode considerar tais planos grave ameaça aos seus legítimos interesses. Ascânio já compreendeu que não se trata de simples visitantes ocasionais e sim de empresário estudando a possibilidade de inverter dinheiro grosso para fazer de Agreste o almejado centro turístico, projecto tantas vezes discutido na Agência dos Correios e Telégrafos.

Falta infra-estrutura dizia dona Carmosina. Falta alguém com dinheiro para estabelecê-la, o Município não tem condições, completava Ascânio. Pelo jeito, dinheiro ia sobrar.

Calados, sem tema de conversa, Osnar e seu Manuel sorriem bestamente para os estranhos. Não tarda Aminthas se junta a eles, interrompera um concerto dos Rolling Stones. A rainha do planeta Vénus freta com o olhar os três humanos, um a um, e a cada um sorri em particular, a revelar que teria prazer enorme em dormir com ele – só com você, amorzinho, e mais ninguém no mundo. Osnar está em vias de perder o fôlego. Ascânio volta a tempo. Elieser passou directo para o pequeno ancoradouro onde a lancha espera.

- Thanks! Andiamo, bela, não temos muito tempo. Arrivederci…

Quantas línguas falam no espaço? Osnar se engasga em português. O marciano estende a mão, Aminthas ainda está em dúvida se ele desmunheca ou não.

- É melhor deixar o veículo na praça, ir a pé, o caminho é ruim. Eu os acompanham…

Todos acompanham, mesmo seu Manuel, o bar vazio.

- Quanta gentileza… - agradece Miss Vénus num gemido.

No caminho, Ascânio busca comprovação:

- Diga uma coisa… o senhor pretende estabelecer-se aqui?

- Quem sabe? Vai depender dos estudos… É possível.

- Com um hotel? Pode explorar-se a água mineral, não há melhor.

- Hotel? Também. Vai ser indispensável. Água? Talvez. Mas serão apenas inversões secundárias, diversificação de capital. Água, depois pode-se pensar nisso.

Chegam ao ancoradouro. Projectos ambiciosos, reflecte Ascânio, grande empreendimento turístico, está na cara. Os seres magníficos embarcam na lancha, Elieser ao leme.

- Mais uma vez, merci, frère, Ciao! – acena adeus.

- Ascânio Trindade, secretário da prefeitura, às ordens.

- Secretário da prefeitura? E o prefeito, quem é?

- Doutor Mauritônio Dantas. Está enfermo, eu respondo pelo expediente. Qualquer coisa pode conversar comigo.

- OK, iremos conversar, com certeza. Brevemente e muito

A lancha parte, a da ruiva crina, da mecha platinada, lança um beijo, com o olhar se entrega; Elieser nem assim desamarra a cara. Ascânio Trindade sorri, parece um sonho: finalmente eles haviam desembarcado.

segunda-feira, março 30, 2009

Um Extraordinário Momento de Ilusionismo

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CHRISTOPHE - ALINE

SAVATORE ADAMO - VIENS MA BRUNE

THE BEATLES - LOVE ME DO


Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 86




Vou acreditar em tudo o que você me disser, paixão, se me arranjar alguma coisa para beber… - a voz do ser fêmea desmaia em promessas.

- O que quiserem, com prazer. Vamos até ao bar.

Da mesa, Osnar constata:

- Estão vindo para cá Almirante. Me segure pois sou capaz de perder o juízo e agarrar essa visão aqui mesmo. Sempre tive vontade de comer uma marciana na falta de uma polaca, pois igual a uma polaca não existe em nenhum planeta. – A célebre história da polaca de Osnar.

O grupo aproxima-se, boas tardes de lado a lado, tomam mesa. Manuel atende, solícito, enquanto Osnar não desgruda os olhos do ser fêmea que, à falta de água de coco – não pode faltar coco mole no bar, anota Ascânio – aceita guaraná.

- Para mim whisky on the rocks… pede o ser provavelmente macho.

- Scotch, naturalmente… Quero dizer, escocês.

- Só tenho nacional mas é do legítimo – orgulha-se seu Manuel.

Não, por favor não! Traga-me então, uma mineral sem gás. Bem gelada.

A água daqui é melhor do que qualquer mineral, já foi examinada na Bahia e aprovada com os maiores elogios – esclarece Ascânio.

- Desde que gelada…

Seu Manuel serve o guaraná com canudinho, um requinte, e o copo com, água e gelo. O marciano aprova: realmente muito boa água, dê-me um pouco mais, por favor, e diga quanto devo.

A um sinal de Ascânio, seu Manuel curva-se:

- Não é nada… Foi um prazer…

- Muito obrigado… Aceito por esta vez mas de futuro… É o único bar da terra?

- Bem, no Beco da Amargura tem uma espécie de boteco, do negro Caloca. Mas em qualquer armazém se pode vender um trago de cachaça.

- Precisa melhorar o sortimento, my friend… Boas marcas de whisky, bons vinhos… E hotel frère – frère era Ascânio, caíra-lhe na simpatia – tem algum bom? Com banho privativo?

- Hotel propriamente não. Mas tem uma pensão muito boa, a de dona Amorzinho, comida de primeira, quartos limpos. Não tem banho privativo. Mas o torneirão do banheiro vale uma ducha.

Vai ser preciso construir logo um bom hotel… - Falou o ser macho e o dizia como se construir ali, em Agreste, um hotel de primeira, fosse a coisa mais simples do mundo. Exactamente a partir dessa informação – dessa decisão do super-herói – Ascânio Trindade começou a divagar.

- O pior é a estrada – constatou o ser fêmea, miando – esse último pedaço, então… Nunca levei tanto tranco nem engoli tanta poeira… - afofa os cabelos poeirentos, ruivos com aquela mecha platinada. – Chego em Salvador, vou direita ao salão de Severiano lavar os cabelos e pentear….

- É só alargar e asfaltar, darling. Quantos quilómetros frère?

- Daqui à Bahia, à capital?

- Não só o último trecho, o carroçável.

- Quarenta e oito quilómetros…

- Amorzinho, não minta! – rogou Miss Vénus a Ascânio. – Tem mais de cem… Estou descadeirada. – Levou a mão `bunda espacial.

- Ai! – gemeu Osnar, mas se alguém ouviu não demonstrou.

- Deve ser isso mesmo, uns cinquenta quilómetros. Num instante se asfalta.

Hotel, estrada asfaltada, o sonho prossegue, o coração de Ascânio se dilata.

- Me diga uma coisa, frère: uma lancha para descer o rio até à praia de…Como é mesmo o nome?

- Mangue Seco…

- C’est ça… É fácil alugar uma?

- Bem… Tem a lancha de Elieser. Não é de aluguel mas eu falo com ele, peço
para levá-los. É um
bom sujeito.

domingo, março 29, 2009

ANDREA BOCELLI & DULCE PONTES

O MAR E TU... uma prenda de Domingo.

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E uma grande parte dos utentes da Caixa não são mesmo assim?!...





Jesus Cristo, cansado do tédio do Paraíso, resolveu voltar à Terra
para fazer o bem. Procurou o melhor lugar para descer e optou pelo
Hospital de S. Francisco Xavier, onde viu um médico a trabalhar há
muitas horas e a morrer de cansaço.



Para não atrair as atenções, decidiu ir vestido de médico. Jesus
Cristo entrou de bata, passando pela fila de pacientes no corredor,
até atingir o gabinete do médico.

Os pacientes viram e comentaram:

- Olha, vai mudar o turno...

Jesus Cristo entrou na sala e

disse ao médico que podia sair, dado que ele mesmo iria assegurar o serviço.

E, decidido, gritou:

- O PRÓXIMO!

Entrou no gabinete um homem paraplégico que se

deslocava numa cadeira de rodas.

Jesus Cristo levantou-se, olhou bem para o homem, e com

a palma da mão direita sobre a sua cabeça disse:



- LEVANTA-TE E ANDA!

O homem levantou-se, andou e saiu do gabinete

empurrando a cadeira de rodas.

Quando chegou ao corredor, o próximo da fila perguntou:

- Que tal é o médico novo?



Ele respondeu:



- Igualzinho aos outros... nem exames, nem análises, nem
medicamentos... Nada! Só querem é despachar...

Em 1985 Michael Jackson reune alguns artistas famosos para gravar um disco tendo em vista uma campanha contra a fome na Etiópia e em África. Vinte e quatro anos depois a fome e a doença continuam a afectar aquelas populações responsabilizando os países desenvolvidos e os responsáveis políticos dos países africanos. De acordo com a F.A.O. são 186 milhões e a desnutrição das crianças é crónica. A percentagem de crianças com uma altura abaixo do normal varia entre 15% e 45% mesmo em países onde não há conflitos ou secas graves. A longo prazo, o seu desenvolvimento irá ficar afectado física e mentalmente.

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MATT MONRO - BORN FREE

LOS BRAVOS - BLACK IS BLACK


Richard CLAYDERMAN - BALLADE POUR ADELINE



Tieta do
Agreste
EPISÓDIO Nº85




DA NAVE NA PRAÇA DA MATRIZ, QUANDO SE ESTABLECEM OS PRIMEIROS CONTACTOS ENTRE OS SUPER- HERÓIS E OS HUMANOS, COM REFERÊNCIAS A HOTÉIS E A SFALTO, ENQUANTO MISS VÉNUS FRETA CADA UM DOS HOMENS, INCUSIVÉ SEU MANUEL PORTUGUÊS



Deserta e silenciosa a praça da Matriz quando a nave, num espaventoso clamor de gases soltos, ali se deteve e o ser provavelmente macho – em razão dos cabelos longos, sobrando do capacete, e das olheiras violetas, houve quem lhe discutisse o sexo – saltou por cima da porta da extravagante máquina, circulou o olhar em torno, não enxergou ninguém. Nas mãos, exibia grossas luvas de exótico material. Envergava flamante vestimenta, espécie de macacão azul com zíperes e bolsos nas pernas e braços, ilhoses e tachas de metal, a fulgurar.

Observação mais detalhada, demonstrava tratar-se de calça e blusão, os bolsos repletos de objectos estranhos, armas mortais, imprevisíveis. Vestido de maneira absolutamente igual, sem outra diferença além do volume do busto, o ser fêmea suspendeu o capacete e revelou-se óptima. Retirando as luvas, com os longos dedos afofou a cabeleira ruiva – não mais longa que a do companheiro – com uma faixa platinada ao centro a denunciar-lhe a origem venusiana ou carioca, de qualquer forma apaixonante.

Do escondido do bar, Osnar observava, estupefacto; presentes apenas ele e seu Manuel Português.

- Oh! Luso Almirante! Venha ver e me diga se é verdade ou delírio alcoólico o que estou vendo. Ontem bebi demais em casa de Zuleika.

Seu Manuel abandonou os copos nos quais passava água – também não precisa abusar da imundice, Vasco da Gama, dizia-lhe Aminthas apontando as marcas de sujeira em pratos, copos e talheres – veio até à porta. Abriu a boca, coçou o queixo:

- Quem são esses valdevinos?

- De tanto Ascânio falar em turistas, eles apareceram… - arriscou Osnar – A não ser que sejam os tripulantes do disco voador de Mangue Seco.

Constatada a ausência de terráqueos, o ser provavelmente macho regressou à nave, a venusiana enfiou as luvas; os abomináveis ruídos sinistros recomeçaram, a negra fumaça soltou-se por canos e orifícios, o veículo decolou num salto e se perdeu num beco. Durante certo tempo ouviu-se na cidade a barulheira, acordando em susto os que tiravam uma pestana como Edmundo Ribeiro, o colector, e o árabe Chalita; trazendo à porta das casas os surpresos, assombrados habitantes. Houve comerciante a fechar portas de loja e de armazém, quem sabe Lampião voltara dos infernos, motorizado. Lampião nunca chegou a Agreste mas certa feita estivera perto, a três léguas de marcha, ainda hoje o facto é recordado.

Quando os super-heróis, percorridas ruas e becos, retornaram à praça da Matriz e outra vez aterrizaram, já Ascânio Trindade que os vira da janela do sobrado da Prefeitura, descia a escada a correr, vindo-lhes ao encontro. Osnar falara em turistas gozando o amigo, mas Ascânio se o tivesse ouvido, aprovaria: turistas, por que não? Os primeiros a atender ao convite redigido por ele (com a preciosa ajuda de dona Carmosina) e enviado ao jornal A Tarde, da Capital, sugerindo aos turistas “esticar de Salvador até à mais saudável cidade do Estado, Sant’Ana do Agreste, para conhecer a mais bela praia do mundo, a praia das dunas de Mangue Seco”. A gazeta publicara a carta na coluna dos leitores, lastimando, em pequena nota de redacção, o péssimo estado da rodovia a impedir na prática a aceitação do convite. Ninguém de bom senso se disporia a jogar a sorte do seu automóvel nas crateras da estrada cada vez mais esburacada somente para conhecer Agreste, “recanto realmente paradisíaco”. Quem escapasse ileso da buraqueira da via principal teria de enfrentar ainda os “indescritíveis cinquenta quilómetros de barro, a partir de Esplanada.

Ascânio arvora vitorioso sorriso no rosto em geral sério: mesmo assim, com a estrada de crateras e de sobra os quarenta e oito quilómetros – quarenta e oito e não cinquenta – fatais, surgiam corajosos dispostos a atender ao chamado.

Empoeirados, suarentos, os estranhos seres acenaram gestos cordiais e sequiosos. A fêmea deu pressa, com a enorme pata de corno.

- Boa tarde… Sejam bem-vindos a Agreste! – saudou Ascânio alegremente.

- Bonjour, frère! Respondeu o espacial tirando a luva para tomar de um lenço lilás e limpar a testa – Que calorzinho, hein!

- Daqui a pouco refresca. As tardes, a partir das quatro, são fresquíssimas, de noite
chega a fazer frio
. Clima seco, ideal – Ascânio Trindade inicia sua pregação.

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