sábado, fevereiro 06, 2010

VÍDEO

Última volta do G. Prémio Del Mugello. É de suspender a respiração... e com a pista encharcada...

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GLÓRIA ESTEFAN & MIAMI SOUND MACHINE - WORDS GET IN THE WAY

NAZARETH - LOVE HURTS



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS

MARIDOS

EPISÓDIO Nª 38



Chimbo estimava Vadinho, não só pelo distante e espúrio parentesco como também devido às qualidades do jovem companheiro de roletas e cabarés. Assim, ouvindo certa ocasião alguém tachar Vadinho de vagabundo, sem ofício nem meio de vida, arranjou-lhe modesto emprego de fiscal de jardins da Prefeitura, pois “um Guimarães deve ter posição definida na sociedade”.

- Nenhum Guimarães é um vagabundo…

Contradições desse simpático Chimbo, tão pouco preso a convenções e protocolos e, ao mesmo tempo, com profundo sentimento de família, zeloso do poderoso clã dos Guimarães.

Pois, naquela tarde, encontraram Chimbo em São Pedro, quando o Delegado Auxiliar dirigia-se à Chefatura da Polícia. Um Chimbo aporrinhado da vida, metido em roupa escura e quente, de cerimónia, roupa de enterro ou matrimónio – colarinho de ponta virada, plastrão, colete, polainas, bengala de castão de ouro – um Chimbo a rigor naquele dia escaldante de Fevereiro, o mormaço a asfixiar, canícula mortal, as bocas ávidas por uma cerveja bem gelada.

- Só uma bramota polar nos pode salvar a vida… - disse Vadinho abraçando o parente e protector.

Chimbo arrenegou da sorte, em plástica e forte língua, dando nomes, num azedume. “merda de vida mais escrota aquela, emprego mais filho da puta aquele, obrigado a acompanhar o Governador a todos os cantos, a todas as cerimónias, a todas essas merdolências e porcarias…Não o viam assim fantasiado de comendador português? Naquela noite tinha de comparecer, por força do cargo, à instalação solene de um congresso científico – Congresso Nacional de Obstetrícia – na Faculdade de Medicina, com discursos e teses, debates e pareceres sobre partos e abortos, paulificação monumental, Chimbo emborcava rápido seu copo de cerveja, tentando aplacar calor e raiva, seu pai com aquela eterna mania de utilizá-lo na política…

E ainda por cima – imaginassem eles a urucubaca! – o tal Congresso decidira instalar-se logo na noite da festa do Major Pergentino, o Major Tiririca, do Rio Vermelho, certamente eles sabiam de quem se tratava. Fizera um favor ao militar, soltara um desordeiro a seu pedido, e agora o Major não o largava, querendo a todo o custo obsequiá-lo, preparando-lhe grossa homenagem.. A festa de Tiririca, segundo diziam, era de arromba, valia a pena, nela comia-se e bebia-se à farta. E ele, Chimbo, convidado de honra, imaginem a pagodeira!

- Em vez disso vou ter é de ouvir médico falando em parto… meu pai me arranja cada prebenda…

Como convencer o Senador a deixá-lo em paz, em seu canto, se o velho era um sátrapa ante o qual até o Governador tremia? Brilharam os olhos de Vadinho, sorriu Mirandão, Chimbo acabava
de abrir-lhes as portas da glória e
da casa do Major.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010


ALBERTO
JOÃO
JARDIM
E A CRISE




Confesso que sou suspeito: não sou madeirense com fortíssimas probabilidades de ter sido mais um dos muitos "empregados" do Sr. Alberto João e ao fim de tantos anos já estou cansado das suas atitudes descaradas e atrevidamente provocatórias e desafiadoras, “…dos senhores Silvas” e “…desses senhores do cont’nente”, que é a sua linguagem corriqueira para todos aqueles que o desafiam e não lhe aparam os golpes.

Nesta história da actual crise política que estamos vivendo (ou talvez não) há algumas coisas que não jogam:

- Como é que sobre um assunto de alguma relevância política, partidos de direita e da esquerda estão unidos contra o governo - mais uma vez!.

- Por que é que o governo, sobre os montantes em causa, se baralhou tanto vindo a falar de importâncias diferentes, 120, 80, 60, até se ter fixado, finalmente, nos 50 milhões de euros?

- Por que razão, não obstante ser uma questão de princípio, ou melhor, de péssimos sinais para o exterior, o governo deixou antever uma crise governativa que seria, em termos de sinais, muito pior ainda?

O montante do endividamento da Região da Madeira está estimado em 4.500 milhões de euros (Violante Saramago, bióloga e ex-deputada do PS e do BE à Assembleia Legislativa da Madeira) o que é muito dinheiro, estabeleçam-se as comparações que se quiserem com outras regiões de Portugal continental levando em linha de conta o número de pessoas que vivem em cada uma dessas regiões.

Parece mesmo, face aos rendimentos per capita dos madeirenses, que deveriam ser eles a ajudarem os compatriotas de outras regiões do país muito mais pobres… e não o contrário.

Mas isto das estatísticas é enganador, como todos nós sabemos…e apesar dos bons índices de riqueza per capita dos madeirenses, a realidade é que eles se confrontam com um desemprego de 11%, as desigualdades sociais são gritantes e a situação de pobreza atinge mais de 1/5 da população.

Em contrapartida, a obra feita é incontestável: um aeroporto que era indispensável e que é uma construção arrojada de engenharia e depois são auto-estradas, viadutos e aquedutos que ligam toda a ilha de uma volta à outra.

Todas estas obras e muitas outras, com certeza, terão sido todas elas prioritárias e de importância indiscutível?

Por alguma razão Alberto João pede agora aos empresários para aguentarem dois anos senão isto rebenta!!! Porque será?

A oposição parece ter medo de Jardim, medo de perder votos e medo de defender uma autonomia séria e autêntica que não esteja sistematicamente amarrada pelos interesses dos grandes grupos económicos da região.
Como será a Madeira Pós - Jardim?

VÍDEO

Se tivesse sido assim, tudo teria acabado aqui...

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CANÇÕES LATINO/AMERICANAS
JULIO IGLESIAS - GOZAR LA VIDA



RICKY MARTIN- POR ARRIBA, POR ABAJO





DONA

FLOR

E SEUS
DOIS


MARIDOS


EPISÓDIO Nº 37


Depois, Rita de Chimbo foi vista à meia-noite, na sacada da Intendência, bêbada de cair, a saudar a cidade com sua inesgotável colecção de nomes sujos. Circulavam notícias espantosas: o velho Abraão, comerciante e avô, arrastava-se ridículo aos pés de Zuleika Marron, dilapidando o património dos netos em bacanais com a barregã. Bereco, rapaz até então direito e casto, funcionário dos Correios, Presidente das Obras Pias, apaixonara-se por Amália Fuentes, descobrira suas raízes de pureza e religiosidade, oferecia-lhe aliança de noivado, levando sua preconceituosa família ao desespero. Culminou o escândalo quando a Calhudinha fez-se a bem amada de todos os colegiais, seu sonho e sua rainha, sua bandeira de luta e seu ideal. Lá ia ela toda loira nas noites de Belmonte, cercada de meninos e o poeta Sosígenes Costa dedicava-lhe sonetos. Oh!, ignomínia!

Até o xibungo do vigário, padre arrogante de fala esganiçada, pregara contra Chimbo, catilinária veemente contra a sua escandalosa incontinência. Classificara as dilectas raparigas de “lixo do meretrício metropolitano, de asseclas do demónio”, coitadinhas das meninas! Sermão incendiário, a Igreja repleta na missa dominical, e o reverendo a acusar Chimbo de estar a transformar a pacata Belmonte em Sodoma e Gomorra, os lares arruinados, desfeitas as famílias, urbe infeliz ,à qual acontecera a desgraça de tão depravado Intendente, “esse Nero em ceroulas”. Chimbo possuía senso de humor e riu da virulência do padre. Choraram as raparigas, Rita de Chimbo clamou vingança, e Miguel Turco, árabe exaltado e secretário da Intendência, incondicional dos Guimarães e chaleira notório, propôs-se executá-la: mandariam dois cabras de confiança ensinar boas maneiras ao subversivo vigário, chegando-lhe a batina ao corpo.

Chimbo enxugou as lágrimas de Rita, agradeceu a dedicação do sírio, gratificou os dois capangas, dois criminosos de morte, foragidos de Ilhéus.

Sob aparente nonchalança, era Chimbo homem prudente e hábil, não lhe faltava treita política. Imagine-se a reacção do velho senador se ele entrasse em guerra com a Igreja, surrando-lhe um cura para desagravar mulheres-dama! Ao demais, o padre tinha suas razões para tamanha birra. Ao tratá-lo de Nero em ceroulas queria referir-se à noite em que, trajando apenas listadas cuecas, tivera o ilustre Intendente de assim atravessar a cidade pois o vigário vinha de surpreendê-lo em avançado idílio com a cândida Maricota, estimável doméstica a assegurar os serviços de cama e mesa do sacerdote, sua ovelha favorita.

Não restou a Chimbo outro caminho senão reunir as ofendidas hóspedes, dar o braço a Rita de Chimbo, e embarcar com elas num navio da Bahiana.

Renunciou assim ao cargo, às honrarias, e à polpuda comissão de jogo do bicho. Órfão ficou Belmonte de sua capacidade administrativa e da ilhaneza das beldades da capital. Da eficiente administração de Chimbo davam testemunho a restaurada ponte de desembarque, a ampliação do grupo escolar e os consertos no muro do cemitério; das raparigas, a fugidia visão continuou por muito tempo a perturbar o sono de Belmonte.

Recolheu-se Chimbo ao anonimato do rendoso lugar de serventuário da justiça, onde ninguém lhe vigiava os passos. Reintegrou-se na vida nocturna, do Tabaris (onde Rita de Chimbo voltara a reinar) ao Palace, do Abaixadinho, à casa de Três Duques, da castelo de Carla ao de Helena Beija Flor. Da festa da noite e do cargo polpudo e anódino – escrivão de casamentos, juramentado – retirava-o de quando em quando o pai senador para usá-lo em suas manobras políticas, entregando-lhe posições e honrarias por outros ambicionadas, não por ele, Chimbo,
desejoso apenas de viver livre, à la vontê.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010


VIVA CHAVEZ!!! VIVA LA
REVOLUCION!!!




En Venezuela, un niño regresa de la escuela a su casa, cansado y hambriento y le pregunta a su mamá:

- Mamá, que hay de comer?

- Nada, mi hijo.

El niño mira hacia el papagayo que tienen y pregunta:

- Mamá, por qué no papagayo con arroz?

- No hay arroz.

- Y papagayo al horno?

- No hay gas.

- Y papagayo en la parrilla eléctrica?

- No hay electricidad.

- Y papagayo frito?

- No hay aceite.

El papagayo contentísimo gritó:

VIVA CHAVEZ!!! - VIVA LA REVOLUCIÓN !!!

VÍDEOS

Não está certo...enganarem o galo!

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DUAS CANÇÕES LATINO - AMERICANAS
ELVIS CRESPO - SUAVEMENTE

LA MAKINA - NADIE SE MUERE


DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS
EPISÓDIO Nº 36



PARÊNTESIS COM CHIMBO E COM RITA DE CHIMBO


Naquele dia, ao fim da tarde, quando maior o mormaço, uma atmosfera espessa, de cimento armado, estando Vadinho e Mirandão em São Pedro, no Bar Alameda, a tomar as primeiras cachaças do dia, discutindo planos para a noite de festa no Rio Vermelho, eis que na porta do botequim viram surgir a afogueada face de Chimbo, aquele parente importante de Vadinho, na ocasião comissionado como Delegado Auxiliar, ou seja, a segunda pessoa da polícia.

Escrivão de casamentos e filho de prestigioso político governista, sem respeito pela tradicional autoridade do pai, sem ligar para as conveniências, esse distante primo de Vadinho, Guimarães dos legítimos e ricos, era um estroina, folgazão inveterado, bom no trago, nos dados e nas putas – para tudo dizer: uma porra-louca. Ultimamente um pouco retraído, forçando sua natureza espontânea, em atenção ao cargo. Cargo no qual, por isso mesmo, pouco duraria, preferindo sua liberdade às posições, não a trocava pela mercê mais alta, por título algum.

Já anteriormente desistira do governo de Belmonte, cidade de seu nascimento, onde fora empossado intendente pelo pai, senador e feudal, após um simulacro de eleição. Abandonou o posto e título, deveres e vantagens, era demasiado o preço a pagar. Não se contentavam os belmontenses com suas reais qualidades administrativas, exigiam do seu governador ilibados costumes, em intolerável abuso.

Fora um zum-zum-zum dos diabos, um escândalo sem medida só porque ele, audaz e progressista, importara da Bahia algumas amenas raparigas, no desejo de romper a monotonia da pequena cidade e sua solidão.

Fizera vir Rita de Chimbo, prestigiosa animadora da noite no Tamariz. De Chimbo apelidada devido a antigo e persistente rabicho a uni-los, xodó cantado em prosa e verso pelos boémios. Brigavam, xingavam-se, separavam-se para sempre e dias depois faziam as pazes, permaneciam em seu idílio, enrabichados. Por isso juntara Rita a seu nome o apelido de seu amor, assim como a noiva adopta o sobrenome do noivo no acto do matrimónio. Ao sabê-lo intendente, senhor de baraço e cutelo a exercer direito de vida e morte sobre indefesa população, exigiu, em mensagem telegráfica, compartir de sua autoridade. Que prazer no mundo se pode comparar ao do mando, ao do poder? Queria saboreá-lo, a voluptuosa Rita. Chimbo solitário nas noites de Belmonte, longas de nada por fazer, vazias de um tudo, escutou a súplica ardente, mandou buscar a rapariga.

Chimbo intendente, rei em sua cidade, Rita de Chimbo não podia nesse império desembarcar como uma qualquer, era a favorita, a concubina real. Eis por que convidou para seu cortejo três beldades, diversas entre si mas excelentes as três: Zuleika Marron, mulata de capricho e deboche, suas ancas de saracoteio fechavam as ruas, atropelavam os pedestres; Amália Fuentes, enigmática peruana de voz macia, com tendências místicas, e Zizi Culhudinha, uma espiga de milho, frágil e dourada, sapeca como ela só.

Esta restrita e formosa caravana, pesa dizê-lo!, não teve em Belmonte a entusiástica acolhida a que fazia jus, ao contrário, foi alvo de aberta hostilidade por parte das senhoras e mesmo de cavalheiros. Se exceptuarmos certos grupos sociais – os imberbes estudantes, os escassos notívagos, os cachaceiros em geral – e alguns indivíduos, cabe
afirmar ter-se mantido a população arredia e suspeitosa.


Para Perguntas Idiotas.......
Respostas Idiotas!!!!



Fui à loja comprar veneno para ratos.


-Tem veneno para ratos?
-Sim! Vai levar?
-Não, vou trazer os ratos para comerem aqui!!!


Fui ao banco para trocar um cheque... O funcionário perguntou:



-Vai levar em dinheiro???
-Não!!!!! Dê-me antes em clips, borrachas, apara-lápis!!!


Estou abraçado a minha acompanhante e entramos num bar romântico.



-O empregado pergunta:
-Mesa para dois?
-Não, mesa para quatro, duas cadeiras são para apoiar os pés!

Depois, pego no talão de cheques e numa caneta. Então o empregado pergunta:



-Vai pagar com cheque?
-Não, vou fazer um poema nesta folhinha.


Entro no elevador de um prédio, no momento em que pára no subsolo-garagem. Um senhor pergunta:



-Vai subir?
-Não, vou prós lados!!!!


Estou a fumar um cigarro. Um amigo pergunta:



-Ora, ora! Mas tu fumas?
-Não, eu gosto de bronzear os pulmões.

Quando voltei da margem do rio com um balde cheio de peixes o meu amigo pergunta:



-Pescaste esses peixes todos?
-Não, estes são peixes suicidas que se afogaram no meu balde.



Estou no guichet do cinema. Uma senhora pergunta-me:



-Quer um bilhete?
-Não, eu meti-me na fila só para ver onde isto ia dar...


Quando a gente leva um aparelho electrónico para a manutenção e o técnico pergunta:



- Tá com defeito ?
- Não, é que ele estava cansado de ficar em casa e eu trouxe-o para passear.


Quando te acabas de levantar, aí vem um idiota (sempre) e pergunta:



- Acordaste?
- Não. Sou sonâmbulo!

O teu amigo liga para a tua casa e pergunta:



- Onde estás ?
- No Pólo Norte! Um furacão levou a minha casa pra lá!



E a melhor de todas:



-Cortaste o cabelo?
-Não, tirei pra lavar!!!

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

VÍDEO

A claque mais organizada do mundo

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ARAKETU - TÁ NA CARA


CAMANÉ - ESQUINA DE RUA



DONA FLOR
E SEUS DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 35




Mirandão olhava complacente os dançarinos, aplaudia com a cabeça a execução de Joãozinho – batuta! – sorrindo para a vizinha, constatando a absoluta ausência de qualquer outro penetra, além dele e de Vadinho. Nenhum outro herói! – penetrar na festa do Major Tiririca (como os moleques do Rio Vermelho haviam apelidado o bravo Pergentino) era proeza impossível, motivo de apostas e desafios. Mirandão confessava-se realizado: finalmente havia conseguido, ele e Vadinho, furar a barreira estabelecida pelo Major e obter que a pesada porta de carvalho, trancada a chave, única passagem a abrir-se para os convidados e só para os convidados – todos eles de rostos familiares para os donos da casa, amizades de longa data – obter que se abrisse para e para Vadinho e lhes desse entrada. E não só isso; sendo os dois acolhidos aos braços do Major e por dona Aurora, sua esposa, ainda mais ciosa da qualidade e identidade dos convivas do marido. Lá fora, no sereno animadíssimo, os gabirus amargaram a derrota ao vê-los penetrar, após breve troca de palavras com o Major Tirica, cruzando a intransponível soleira por entre ruidosas exclamações de dona Aurora. Como o haviam conseguido?

Mirandão suspirou de bucho farto, num sorriso beato. Lá ia Vadinho pela sala, a bailar, a dama linda em seus braços, morena rechonchuda, servida de carnes – e quem gosta de ossos é cachorro – com uns olhos de azeite e uma pele cobreada, cor de chá, formosa de ancas e de seios.

- Pedaço de descaminho, perdição de morena! – louvou Mirandão apontando a moça a dançar com o amigo.

O estupor pôs em guarda, alteou o busto seco, ganiu com voz batalhadora:

- É minha filha…

Mirandão nem se alterava:

- Pois receba meus parabéns, minha senhora. Vê-se logo que é moça direita, de família. O meu amigo…

- O moço que está dançando com ela é seu amigo?

- Se é meu amigo? Íntimo, minha senhora, fraterno…

- E quem é ele, eu poderia saber?

Mirandão endireitou-se da cadeira, puxou do bolso o lenço perfumado, enxugou umas gotas de suor na testa larga, cada vez mais sorridente e feliz: nada havia que ele tanto gostasse como de armar uma patranha, uma história bem divertida.

- Permita-me que antes me apresente: doutor José Rodrigues de Miranda, engenheiro agrónomo, requisitado no Gabinete do Delegado Auxiliar… - estendia a mão, cordialíssimo.

Num último assomo de desconfiança, dona Rozilda mediu o interlocutor com um olhar hostil. Mas a fisionomia pachola e o franco sorriso de Mirandão apagavam qualquer suspeita, rompiam qualquer resistência,
desarmava e conquistavam qualquer adversário, mesmo maligno e ranheta como dona Rozilda.

terça-feira, fevereiro 02, 2010


UM PAÍS
EM
SITUAÇÃO
DE
PRÉ-
FALÊNCIA


Qualquer cidadão português que tenha seguido com atenção o último programa dos Prós e Contras sobre a situação económica/financeira do país não pode ter deixado de sentir-se apreensivo e receoso sobre o nosso próximo futuro colectivo.

Não eram quaisquer pessoas que opinaram sobre a situação: no primeiro painel estavam três ex-ministros das Finanças e um Prof. de Economia da Faculdade e se estas pessoas não nos merecem crédito então, pergunto eu, quem o merece?

E o mais grave é que elas em tom ou palavras um pouco diferentes estavam todas de acordo no essencial:

- Estamos num autêntico “buraco” sem se vislumbrar como vamos sair dele ou melhor, sem sabermos a que preço isso vai acontecer.

De há duas ou três décadas a esta parte, depois de crescimentos económicos de fazer inveja nos primeiros anos após o 25 de Abril, o que não foi muito difícil tal era a situação de atraso que trazíamos dos 40 anos da ditadura, a situação das nossas contas têm vindo progressivamente a agravar-se e ameaçam agora conduzir-nos a uma situação de falência, segundo nos foi dito pelo exuberante Medina Carreira e não contrariado por nenhum dos outros convidados.

- E o que é isso de falência de um país?

Se for uma empresa, todos sabemos: fecha as portas, os trabalhadores vão para a rua e o empresário pode ter destinos diferentes conforme a natureza das falências…

Mas um país não pode fechar as portas e mandar para a rua os seus cidadãos e os governantes responsáveis pela falência não mudam de ramo ou vão governar outros países…

O que acontece é que a falência de um país tem como consequência a perda da sua independência. É como numa guerra que perdemos, ficamos à mercê do exército vitorioso e são responsáveis políticos das tropas vitoriosas que vão passar a mandar em nós. Sabemos isso da história…

Esta situação de pré-falência em que parece encontrarmo-nos equivale também a uma guerra que perdemos ou estamos em vias de perder, sendo que o “exército vitorioso” serão os nossos credores ou as entidades que eles nomearem para discutirem connosco os termos da derrota.

Mas o que é que aconteceu de tão grave que nos conduziu a esta situação?

A minha avó responderia muito simplesmente: “mau governo” ou como se dizia então: “desgoverno”.

Durante muitos anos fomos um país de pessoas muito pobres, assumidamente pobres, quando a pobreza não era vergonha mas até uma maneira de ganhar o céu…

Depois, de uma geração para a outra, quisemos ser todos ricos, doutores e engenheiros, aspirações legítimas mas não fundamentadas numa base sustentada de trabalho sério, rigoroso, disciplinado, estruturado. Em vez disso, negócios e falcatruas e obras, muitas obras, com os dinheiros dos Apoios Comunitários Europeus.

Mas, porque é que os governos não conseguem inverter esta situação?

- Não podem, não têm condições para isso, diz Medina Carreira. Estão de tal forma comprometidos com esta situação que envolve votos dos eleitores, interesses de grandes empresas, elites partidárias e teias de cumplicidade, que a única coisa a fazer é retocar e arrastar a situação até ao momento do colapso final.

Mas, como é que vivemos a nossa democracia para ela produzir estes resultados?

Já uma vez aqui neste blog me referi à “partidocracite” como o maior vírus da nossa democracia. Os nossos partidos confundiram os seus interesses com os interesses do país numa lógica errada de que o que é bom para o partido é bom para o país.

Esta lógica tem sido aquela que mais resultados tem produzido na conquista e manutenção do poder e a arte de governar tem sido, no nosso país, a arte de agradar aos eleitores para conquistar os votos que conduzem ao poder.

Depois daquele governo “esquisito” de Santana Lopes com as consequências que todos sabemos, fui assistir, aqui em Santarém, ao comício da campanha de José Sócrates rumo à maioria absoluta que o esperava e na qual tantas pessoas depositavam esperanças.

Ouvi o discurso do líder com atenção do princípio ao fim, da primeira à última palavra e nem uma sobre trabalho, rigor, disciplina, sacrifício, seriedade. José Sócrates não apelou a nenhum destes valores, não porque desconhecesse o seu valor e importância mas pela simples razão de que podiam desagradar a uma população de votantes acomodada às facilidades e às dádivas do Estado.

Será que podemos concluir que temos vindo a ser governadas pelas pessoas erradas?

Mas se são elas que se apresentam a votos que podem fazer os eleitores?

Desde 1968 trabalhei na Função Pública e foi possível observar como as clientelas políticas se foram, paulatina e progressivamente, apoderando da máquina do Estado aos níveis da Administração Pública, Autárquica e das Empresas Públicas e aí criaram para eles, umas vezes uns outras vezes outros, nichos de excelência em termos salariais, prémios, mordomias e vantagens de toda a espécie.

Desfazer este imbróglio num país que não consegue produzir riqueza para suportar tão “maus costumes” é o grande problema a que estamos remetidos.

Daí, Medina Carreira, dizer que quanto mais depressa desembarcarem no aeroporto os representantes dos nossos credores para imporem aos nossos homens de Estado a redistribuição dos sacrifícios que vamos ter que fazer, melhor para o futuro do país. A actual classe de políticos que nos têm vindo a governar nos últimos tempos, demasiado comprometida, não tem possibilidade de o fazer só por si. Esta a opinião contundente de Medina Carreira que não mereceu o desacordo dos colegas de painel.

Os próximos anos vão ser decisivos. Aos pobres deste país, que são muitos, não se lhes pode tirar muito mais embora seja possível retirar-lhes ainda alguns benefícios que os separam do limiar da fome, o que será um péssimo caminho mas…pensões de 10.000 euros,(?) reformas milionárias por meia dúzia de anos de trabalho (?) … “valha-nos Deus!” como dizia a minha avó alentejana quando se escandalizava com qualquer coisa.

VÍDEO

Tal como as pessoas, há cães com mais expediente do que outros. Oram vejam...

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DUAS LINDAS CANÇÔES A PARTIR DE TEXTOS DE CARLOS DRUMON DE ANDRADE. PARA SEGUIR COM ATENÇÃO
SOLIMAR MARIZ - DEFINITIVO

Letra - CARLOS DRUMOND DE ANDRADE


SOLIMAR MARIZ - MENSAGEM
Letra de Carlos Drumond de Andarde




DONA
FLOR
E SEUS DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 34




Ficava delicado, conversador, a imaginação extravasando, sem limites. A figura do estudante pobre, “perpétuo estudante e perpetuamente sequioso”, imagem por ele criada e da qual vivia, cedia lugar ao homem moço, importante e vitorioso, promovido a engenheiro agrónomo, quando não a livre-docente da Escola, enumerando vantagens, galgando cargos e conquistando mulheres. Danava-se a contar histórias, e como as contava! Era um mestre da narrativa oral, criador de tipos e de suspense, um clássico da boa prosa.

Se a bebedeira se prolongava, no entanto, ao fim da noite esse optimismo e essa euforia se esfumavam, e, ao término da esbórnia, envolvia-se Mirandão em lástima e lamento, a flagelar-se, lancinante, em impiedosa autocrítica, recordando a esposa vítima de sua degradação, os quatro filhos sem comida, toda a família ameaçada de despejo, e ele ali, nos antros de jogos e nos prostíbulos. “Sou um miserável, um crápula, um canalha” alardeava um Mirandão pungente, com remorsos e sem malícia, um moralista. Mas essa segunda e lamentosa fase só de raro em raro acontecia, só em ocasiões de porres monumentais.

Às vinte e três e trinta, porém, na casa em festa do major Pergentino Pimentel, aposentado da Polícia Militar do Estado, encontrava-se Mirandão contente com o mundo, disposto a cordial e proveitoso intercâmbio de ideias com dona Rozilda.

Acabara de comer e beber à tripa forra na sala de jantar, provando todos os pratos, repetindo alguns deles. Num desperdício de comida, ali se exibiam os quitutes baianos, vatapá e efó, abará e caruru, moquecas de siri mole, de camarão, de peixe, acarajá e acaça, galinha de xinxim e arroz de haussá, além de montes de frangos, perus assados, pernis de porco, postas de peixe frito para algum ignorante que não apreciasse o azeite de dendê (pois como considerava Mirandão de boca cheia e com desprezo, há todo o tipo de bruto nesse mundo, sujeitos capazes de qualquer ignomínia). Toda essa comilança regada a alua, a cachaça, a cerveja e a vinho português. O Major realizava sua festa há mais de dez anos, cumprindo severa obrigação de candomblé, desde quando os orixás haviam-lhe salvo a esposa ameaçada de morte com pedra nos rins.

Não media despesa, juntando dinheiro o ano todo para gastá-lo satisfeito naquela noite. Mirandão se atolara, garfo respeitável e copo mais ainda. Agora, empanzinado, afrontado de tanto comer e beber, só mesmo um bom cavaco para ajudar a digestão.

Na sala, os pares desdobravam-se no tango argentino, ao piano Joãozinho Navarro. Dizendo-se Joãozinho Navarro, para os entendedores já se disse tudo, não havia pianista mais requestado na Bahia, e certa gente, como o juiz de nome Coqueijo muito entendido em música, ligava o rádio só para ouvi-lo a dedilhar num programa de canções populares. E, pela madrugada, no Tabaris, não era seu piano o motivo da maior animação? Festa particular dificilmente o obtinha, não lhe sobrando tempo para tais amadorismos. Indefectível, porém, na brincadeira em casa do Major, a
quem Joãozinho não podia enfonar, era-lhe devedor de gentilezas antigas.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010


A LIÇÃO
DO
CAVALO



Um dia, o cavalo de um camponês caiu para o fundo de um poço e embora não se tenha ferido percebeu logo que não conseguiria sair dali por si. Por isso o animal chorou durante horas enquanto o camponês pensava na maneira de o tirar de lá.

Finalmente, o camponês tomou a cruel decisão de enterrar vivo o cavalo.
De qualquer forma, ele já estava velho e o poço seco teria que ser tapado.
Pediu a ajuda de uns vizinhos e começaram a deitar pás de terra para cima do cavalo que percebendo o que lhe estavam a fazer chorou ainda mais desesperadamente.

De súbito, para surpresa de todos, o animal depois de receber umas quantas pás de terra aquietou-se. O dono, intrigado, espreitou para o fundo do poço e viu que o cavalo sacudia a terra que lhe caía nas costas e sobre ela dava um passo. Assim, pouco a pouco, tirando vantagem da terra que atiravam, chegou à borda do poço e dali saiu a trotar.


A ti, também irão atirar-te muito tipo de terra, especialmente se estiveres no fundo de um poço. O segredo, ficaste a saber:

- Sacudir a terra que te atirarem sobre as costas e sobre ela dares um passo para cima até poderes seguir novamente em frente, livre para continuares a tua vida.

Aprende com o cavalo!

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A sorte estava com eles...

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SALVATORE ADAMO - COMME TOUJOURS


I SANTO CALIFÓRNIA - UN ANGELO



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS
EPISÓDIO Nº 33



Numa breve e polida curvatura, Mirandão, o rosto resplandecente de simpatia, pediu licença, sentou-se ao lado de dona Rozilda. As cadeiras de palhinha circundavam a sala, encostadas à parede. O estudante crónico (perseverante, corrigia ele, se lhe recordavam seus sete anos de Escola de Agronomia) estendeu as pernas, ajustou cuidadoso o vinco das calças, analisando os pares no tango argentino caprichado, figurações difíceis, passos quase acrobáticos, sorriu aprovativo: nenhum dançarino podia comparar-se a Vadinho, nenhum com sua classe, benza-te deus e te livre do mau olhado, t’esconjuro!, Mirandão era supersticioso. Mulato claro e pachola, de seus vinte e oito anos de idade a mais popular figura dos castelos e das casas de jogo da Bahia.

Sentindo o olhar de dona Rozilda a acompanhar o seu, para ela voltou-se, abrindo ainda mais o cativante sorriso, a examiná-la com olho crítico e apreciador. Bucho definitivo, sem serventia, concluiu com pesar. Não devido à idade. Há muito Mirandão inscrevera em seu código de procedimento com as mulheres um parágrafo afirmando jamais a nenhuma dever-se desprezar por madura ou velha, caso contrário podia cair-se em erros fatais. Mulheres já além dos cinquenta anos por vezes mantinham rara e admirável forma e juventude, capazes de surpreendentes performances, de recordes imprevisíveis. Ele o sabia por viva experiência, e ainda agora, ao fitar as ruínas de dona Rozilda, recordava-se do esplendor crepuscular de Célia Maria Pia dos Wanderleys e Prata, todos esses nomes para designar uma tampinha desse tamanho, senhora da alta sociedade, mulherzinha espevitada, levada da breca. Com mais de sessenta anos confessados, e a pôr florestas de chifres no marido e nos amantes, insaciável. Com netas balzaquianas e bisnetas casadoiras, e ela a fazer caridade – e que caridade!, era árdega e magnânima fêmea – a jovens estudantes necessitados. Mirandão semicerrou os olhos: para não ver a vizinha, carcaça sem recurso nem escapatória e também para melhor recordar o uterino e inesquecível furor de Célia Maria Pia dos Wanderleys e Prata e as notas de cinquenta e cem mil réis que ela, grata, rica e desperdiçada lhe enfiava às escondidas no bolso do paletó. Ah!, bons tempos aqueles, Mirandão a iniciar-se nos estudos e nos mistérios da vida, calouro de agronomia, cascabulho da noite e Maria Pia dos Wanderleys gastava legítimo perfume francês nas rugas do pescoço e nos baixios.

Reabriu os olhos para a sala, a sentir nas narinas a fragrância da inolvidável tetravó; a seu lado, o xaveco com cara de bruxa – argaço vil, pelancas nas bochechas, coque nos cabelos – continuava a fitá-lo com seus olhos miúdos. Era um espantalho, devia feder sob as anáguas, um aftim de carne passada; Mirandão aspirou rápido as sobras do perfume francês na memória distante – ah!, nobre Wanderley, onde andarás agora septuagenária? A velha na cadeira, que estrepe mais sem misericórdia!

Educado, porém, como se honrava de ser, o permanente estudante de agronomia não deixou de sorrir para dona Rozilda. Uma bruaca, uma catraia, resto de peixe seco e salgado, inútil para qualquer acção ou pensamento lúbrico, nem assim deixava de merecer respeito e atenção: exausta mãe de família, pelo jeito viúva; e Mirandão era, no fundo, um moralista extraviado nas casas de tavolagem. Ao demais, chegara seu momento de euforia.

Festinha animada, não acha? – perguntou a dona Rozilda iniciando o histórico diálogo.

Era sempre assim, em cada um dos seus frequentes pileques. Primeiro tinha aquela fase de esfuziante júbilo. Parecia-lhe o mundo perfeito e bom, a vida alegre e fácil, e naquela hora Mirandão tudo podia compreender e estimar, estabelecia-se entre ele e as demais criaturas um clima
de comunhão total, mesmo entre ele e a fedida arraia mijona, sua vizinha de cadeira.

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