sexta-feira, setembro 11, 2009

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SERGIO ENDRIGO - IL MONDO
(amplie a imagem)



CANÇÕES BRASILEIRAS


ELIS REGINA - O BÊBADO E A EQUILIBRISTA



Deus Existe?


Será que Deus existe?

Vejamos, sobre esta questão, como se dividem as pessoas:

Teístas - Agrupa todos aqueles que acreditam numa inteligência sobrenatural que, além de ter criado o universo, se encontra por perto para vigiar e influenciar o destino subsequente da sua criação inicial.

Em certos casos, a divindade está intimamente envolvida nos assuntos humanos, responde às preces, perdoa ou castiga pelos pecados, opera milagres e agita-se tanto com as boas como com as más acções que praticamos ou mesmo quando nos limitamos a pensar em praticá-las;

Deístas – Todos aqueles que acreditam numa inteligência sobrenatural que criou o universo e as leis que o regem e por aqui se terá ficado num aparente desinteresse pelos destinos humanos;

Panteístas - Aqueles que não acreditam num Deus sobrenatural mas usam a palavra Deus como sinónimo da natureza ou do universo ou da legitimidade que rege o seu funcionamento.

Este Deus metafórico ou panteísta dos físicos está a anos-luz do Deus bíblico interventivo, milagreiro, leitor dos pensamentos, punidor de pecados, atendedor de preces e que é o Deus dos padres, mulás e rabinos.

Como exemplo de panteístas referiremos Carl Sagan e Einstein:

Escreve Carl Sagan: “… se com “Deus” nos referimos ao conjunto de leis físicas que regem o universo, então há claramente um “Deus”, um “Deus” que é emocionalmente insatisfatório…não faz muito sentido rezar à lei da gravidade.”

Einstein, por sua vez, escrevia; “Sentir que por detrás de qualquer coisa que possa ser experimentada há algo que a nossa mente não consegue compreender e cuja beleza e sublimidade nos atinge apenas indirectamente como um débil reflexo, isso é religiosidade. Neste sentido sou religioso”.

Ateus - Agrupa os que recusam a existência de uma entidade sobrenatural e não utilizam a palavra Deus para designar o que quer que seja para que não se preste a confusões.

Agnósticos - Aparecem no fim do século XIX e representam uma corrente de pensamento que, em síntese, afirma o seguinte:

- Se o que determina a crença em Deus é a fé e esta não é baseada na razão logo, do ponto de vista racional, não se pode demonstrar a existência ou inexistência de Deus.


Há, no entanto, ainda, uma outra categoria de pessoas que se afirmam como crentes e seguidores desta ou daquela religião mas que, no fundo, não fazem mais do que “mentir” à sociedade por uma questão de conveniência pessoal. São os falsos religiosos.

O actual presidente da Royal Society confessou a Richard Dawkins que vai à Igreja como “anglicano descrente…por lealdade com a tribo.”

Mas não será só por uma questão de “lealdade com a tribo” mas também por medo das represálias da sociedade como se pode deduzir pelos resultados de uma sondagem efectuada em 1999 pela Gallup e na qual se perguntava aos americanos se eles votariam numa pessoa bem habilitada e que fosse mulher:

- 95% responderam afirmativamente; se fosse católica 94%; se fosse judia, 92%; se fosse negra, 92%; se fosse homossexual, 79%; se fosse ateu, 49%.

A mentira está, portanto, explicada e justificada como igualmente se percebe melhor os cuidados e a atenção, por vezes demasiada, com que os candidatos à Casa Branca se referem e tratam o tema religião nas suas campanhas eleitorais.

Consequentemente, os não crentes têm muita dificuldade em assumirem-se, sobretudo entre a elite mais instruída e não é só de hoje.

John Stuart Mill, já no sec. XIX afirmava: ”O mundo ficaria espantado se soubesse quantos dos seus melhores ornatos, dos que mais se distinguem pelo apreço popular, sabedoria e virtude são completamente cépticos”.

Aqui, neste ponto, levanta-se a questão de saber se para sermos bons precisamos de Deus ou se uma crença religiosa é necessária para que tenhamos preceitos morais.

Vale a pena transcrever, a propósito da razão de sermos bons, este notável pensamento de Albert Einstein:

- “Estranha é a nossa situação aqui na Terra. Cada um de nós vem para uma curta visita, sem saber porquê, por vezes parecemos adivinhar um objectivo. No entanto, do ponto de vista do quotidiano, há uma coisa que sabemos: que o homem está aqui pelos outros homens – acima de tudo por aqueles de cujos sorrisos e bem-estar depende a nossa própria felicidade”.

Há pessoas religiosas que têm dificuldade em imaginar como é que alguém sem religião pode ser bom e para que há-de querer ser bom.

E depois, há outras ainda, que desenvolvem ódio contra aqueles que não partilham a sua fé, um ódio violento, de morte sem contemplações e isto na defesa da religião que professam!

Por que é que se acredita que para se defender Deus é preciso ser-se tão feroz?

Há estudos e experiências efectuadas com ateus e crentes religiosos que permitem concluir não existirem diferenças estatísticas significativas entre uns e outros quanto a juízos morais pelo que não precisamos da religião para sermos bons ou maus.

Mas então se Deus não existe para quê ser bom?

A este propósito dizia Einstein: “Se as pessoas são só boas porque temem o castigo e esperam a recompensa, então somos mesmo uma triste cambada.”

O grande filósofo Emanuel Kant, embora religioso, como era quase inevitável à época, baseou toda a moralidade no dever pelo dever e não em função de Deus.

É verdade que a filiação num partido político nos EUA não é um indicador perfeito do factor religiosidade mas não é segredo nenhum que os estados republicanos são fortemente influenciados pelos cristãos conservadores pelo que seria de esperar uma sociedade mais saudável relativamente aos estados democratas onde a influencia do conservadorismo cristão não se faz tanto sentir.

Essa não é, no entanto, a realidade. Das 25 cidades com mais baixos índices de crimes violentos 62% acontecem nos estados democratas e 38% nos republicanos. Das 25 cidades mais perigosas 76% estão em estados republicanos e 24% nos democratas.

Na verdade, 3 das 5 cidades mais perigosas do EUA situam-se no devoto estado do Texas e dos 22 estados com índices de homicídio mais elevado, 17 são republicanos.

No jornal of Religion and Society (2005), Gregory S. Paul levou a cabo um estudo comparativo sistemático de 17 nações economicamente desenvolvidas, chegando à devastadora conclusão que:

“Nas democracias prósperas, índices mais elevados de crença e adoração de um criador correlacionam-se com índices mais elevados de homicídio, mortalidade juvenil e precoce, índices de contágio de doenças sexualmente transmissíveis, gravidez na adolescência e aborto”.

Estes resultados atingiram tão profundamente as propaladas pretensões de superior virtude moral por parte das pessoas religiosas que se assistiu de imediato a um acréscimo da investigação desencadeada por organizações religiosas que os tentaram refutar…mas até à data ainda nada apareceu que desmentisse os dados do estudo referido e as conclusões a que eles conduzem.

Mas, regressemos de novo à pergunta inicial acerca da existência de Deus:

- Acreditar ou não acreditar em Deus tem a ver com uma questão de fé que não é possível existir em pequenas, médias ou grandes doses, ou se tem fé ou não se tem.

Se sim, acredita-se em Deus a 100%, na modalidade teísta ou deísta.

Se não se tem fé, coerentemente, só se pode ser ateu.

As hipóteses intermédias têm a ver com a delicadeza do tema:

Todos nascemos em sociedades mais ou menos religiosas e há um grau de religiosidade que, diria, nos é insuflado logo após o primeiro choro e que cada um de nós desenvolve em maior ou menor grau em função das características da nossa própria personalidade e do contexto social em que a nossa vida decorre.

E, em certos contextos sociais, não é fácil, muitas vezes é impossível, que alguém se consiga libertar totalmente de um elemento que insuflado à nascença é como se fosse constitutivo de si próprio e por isso aquele limbo de incerteza, de cepticismo, de dúvida tão difícil de quebrar e que não é mais do que um refúgio onde escondemos todos os “diabinhos” que nos assaltam.

Eu penso que a fragilidade do ser humano, este nosso intelecto que nos superioriza tão claramente aos restantes animais mas que não chega para fazer de nós deuses, este ficar a meio caminho, nem animal nem deus, se traduz, de facto, numa fragilidade.

- Ser ateu, é um acto de coragem, é regressar definitivamente à terra e aos animais a que pertencemos e cuja evolução encabeçamos.

- Ser ateu, é um acto de humildade para com a vida, é deixar de ser pretensioso e “convencido” sobre aquilo que, de facto, não somos por muito que gostássemos de o ser.

- Ser ateu, é perceber que a vida desenrola-se à nossa volta e é nela que temos de concentrar todas as nossas energias e capacidades.

- Ser ateu é respeitar a natureza como um legado dos nossos antepassados a transmitir aos nossos descendentes com o máximo respeito por todas as formas de vida.

- Ser ateu é respeitar todas as pessoas independentemente de elas o serem ou não.

- Ser ateu, é amar a vida e os outros muito em especial “aqueles de cujos sorrisos e bem-estar a nossa felicidade depende” (Einstein).

Nesta perspectiva, eu sou ateu.

(Este texto cujas posições partilho e defendo foi extraídod do livro "A Desilusão de Deus" de Richard Dawkins, doutorado, professor de Zoologia, prémio Nobel em 1973 pelos seus estudos em Etologia)



JASON DONOVAN - SO HAPPY TOGETHER (1991)



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 230




Deus o ilumina a ponto de ter sido um argumento de Ricardo, sobre o aterro necessário à construção da fábrica e das casas de operários, provocando o fim do mangue e dos caranguejos, o único a causar um certo abalo na indiferença geral. A notícia da provável extinção dos caranguejos, base da alimentação dos habitantes – as mulheres iam pescá-los no coqueiral enquanto os homens remendavam as velas dos barcos e pintavam os seus cachimbos de barro – suscitou interesse e debate. De curta duração, porém, o velho Jonas, cuja palavra todos respeitam, observou:

- Como é que vão acabar com o mangue e os caranguejos? Não tem dinheiro no mundo que chegue para uma despesona dessa.

Balançando a cabeça em sinal de aquiescência, ouviram com atenção as explicações do Comandante que renovou a gravidade da ameaça com palavras cruas: para ganhar dinheiro fácil, uns tipos sem entranhas queriam instalar no coqueiral uma fábrica de veneno, um veneno pior que a estricnina, mata tudo, a começar pelos caranguejos.

- Caranguejo não morre fácil, não seu Comandante. Nunca ouvi falar que veneno matasse caranguejo. Quão o quê!

O que os decidiu a apoiar Ricardo e o engenheiro no projecto de correr dali o pessoal da Brastânio, quando novamente aparecesse, foi a conversa mantida por Jonas, Isaías e Daniel, os três chefes incontestados da pequena comunidade, com Jeremias, na escuna, fora da barra, em madrugada tempestuosa. O Compadre – Jeremias era compadre de todos os chefes de família, em cada casa tinha um afilhado – lhes comunicou pesaroso, que aquela secular actividade da qual viveram seus antepassados e agora viviam eles, os compadres e os afilhados, suas mulheres, os irmãos e irmãs, as tias e as avós e mais um bocado de gente espalhada rio afora e nas cidades próximas, incluindo Elieser, estava ameaçada de findar-se ou melhor dito, deveriam as escunas e os navios procurarem outro ponto onde descarregarem a mercadoria. Se a fábrica se instalar em Mangue Seco – e parece que termina por fazê-lo, pois nos outros lugares o povo se levanta e não permite enquanto aqui ninguém faz nada para impedir – isso significa o fim do contrabando, pois desaparecerão as condições indispensáveis de segurança. Perderá Mangue Seco aquela situação ideal de isolamento, de praia desconhecida, um fim de mundo, própria para o desembarque e escoamento da moamba. Instalada a fábrica, o tráfico tornar-se-á impraticável.

Essa ameaça, sim, os decidiu. De quebra, perguntam ao Compadre se é verdade que tal indústria produz veneno capaz de matar caranguejos. Jeremias tem uma profunda cicatriz no rosto e fala sem tirar o cachimbo da boca.

Homem melhor não pode haver, igual só mesmo o Comandante, mas são diferentes os laços que ligam a gente de Mangue Seco a um e a outro. O Comandante é bom amigo; o Compadre é um deles. Juntos arriscam a vida e a liberdade.

- Se mata caranguejo? Não vai sobrar nem um para remédio. O titânio empesteia tudo, mata até cágado que é bicho teimoso demais para morrer.

Jonas, o mais velho dos três assegura:

- Faça caso não, Compadre, a gente botou polícia para correr, quanto mais esses come-merda.

Isaías, o do meio, concorda:

- O engenheiro e o padrezinho já tinham dito que a gente devia dar uma lição neles. Vamos dar. Fique descansado, não mude o rumo, lugar como esse o Compadre não vai encontrar.

Daniel, o mais moço, recorda:

- Não esqueça o baptizado do menino, Compadre vai ser pro mês. Nunca pensei que matasse os caranguejos. O Comandante é um homem sério, assim mesmo duvidei. Tenha medo não, Compadre. Esse lugar, abaixo de Deus, só tem um dono, que é a gente. Essa areia e esse pedaço de água pertence a nós, não é de mais ninguém. O resto, quem quiser pode usar e abusar, em Mangue seco só o planta pé quem não bulir com a gente.

Cabe a Jonas a última palavra. Ergue o cotoco de braço:

- Vá com Deus, Compadre, e volte que nós damos fiança.

- Pois até o mês, meus compadres, vou sossegado. Abraços pras comadres e a bênção para os afilhados.

Noite ruim, o vento desatado, o mar raivoso, eles também: matar os caranguejos onde já se viu? A escuna desaparece na escuridão, os barcos penetram em meio às vagas e aos tubarões. Por ali só eles passam, antes passaram os pais e os avós na mesma tarefa proibida. Na praia, silenciosos, os homens desembarcaram as mercadorias, guardaram-na bem guardada, à espera de Elieser e dos outros camaradas.

A equipe técnica da Brastânio chegou a Mangue Seco depois de uma travessia demorada, desagradável, em mar agitado e perigoso. Na foz do rio Real, a ressaca cresce em vagalhões, o vento faz redemoinhos na areia, transforma a geografia da praia. Tempo tão péssimo, os pescadores do arraial do Saco não saíram para a pesca naquele dia. Na entrada da barra, houve um começo de pânico, sobretudo entre as mulheres.

quinta-feira, setembro 10, 2009

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O CARRO IDEAL

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LUÍS MIGUEL - HISTÓRIA DE UM AMOR


A Tabacaria




Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não podem haver tantos!

Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe? Nem um,


O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão o fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que não inveje só por não ser eu.


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara estava pegada à cara.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
talvez fosse feliz.)

Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah! Conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves! E o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Álvaro de Campos, 15/1/1928

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LUÍS MIGUEL - USTED BOLERO)

MARAVILHAS DA NATUREZA



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 229






DAS CONTROVERTIDAS OCORRÊNCIAS DE MANGUE SECO, CAPÍTULO NO QUAL SE TEM NOTÍCIA DE VIGOROSO MOVIMENTO DE MASSAS TRABALHADORAS (EM TERMOS) E POPULARES, FORNECENDO-SE ASSIM A ESTE FOLHETIM INDISPENSÀVEL CONOTAÇÃO REIVINDICATIVA E MILITANTE



A gente corre com eles daqui, na primeira vez que aparecerem, ameaçara o jovem seminarista Ricardo em conversa com Tieta, o Comandante e o engenheiro Pedro Palmeira, referindo-se ao pessoal da Brastânio. A frase merecera solidário aperto de mão do engenheiro. Ricardo disse e cumpriu. Viram-no de batina, à frente da massa. Ele e Tieta que se divertiu às pampas. Era como se houvesse voltado à primeira juventude, quando escapulia dos outeiros, deixando as cabras entregues ao bode Inácio, e vinha com algum parceiro, subir as dunas e se misturar à vida dos pescadores.

Ricardo cumpriu o prometido somente em parte, pois os primeiros enviados da Brastânio à região, após a peremptória jura, sobrevoaram a praia e coqueiral de helicóptero, no dia fatídico da morte de Zé Esteves, armados de binóculos, máquinas fotográficas e de filmagem. Mesmo sendo um anjo do Senhor, na opinião praticamente unânime das mulheres de Agreste, em especial daquelas mais chegadas à prática do esporte incomparável, à frente das quais se coloca Tieta por ser quem melhor conhece as qualidades celestiais do sobrinho, ainda assim faltam-lhe asas, se bem lhe sobre o desejo de voar.

Quem sabe, um dia o Senhor lhe concederá essa prerrogativa reservada aos anjos e arcanjos, premiando-lhe a vocação e a sinceridade.

Aquele aperto de mão marcara o início de crescente amizade entre o engenheiro e o seminarista; a diferença de idade – doze anos – não impediu que as relações se tornassem fraternas, consolidadas nos babas em companhia dos moleques da povoação; na travessia da barra para a pesca ao largo: Ricardo conseguira recuperar o molinete do qual Peto se apoderara; em longas conversas, algumas com Frei Timóteo, no arraial do Saco. Antigo dirigente universitário, Pedro actuara no Rio de Janeiro antes de formar-se, de entrar para a Petrobrás e ser mandado para a Bahia onde lhe acontecera a felicidade de conhecer Maria e tê-la por esposa e, em consequência, a infelicidade de conhecer Modesto Pires e tê-lo por sogro. Sabe lá o que é isso, Cardo? Meu sogro é o atraso, o reaccionarismo em pessoa. Há quem tenha o caralho na cabeça, me desculpe a expressão, seu Modesto tem na dele uma nota de mil cruzeiros.

Pedro deleitara-se contando a Ricardo as heróicas trapalhadas das agitações estudantis pelas não perdera o interesse nem mesmo quando, formado, casado, pai de filhos, delas deixara de participar. De longe as acompanha, ajuda com dinheiro, assina protestos. Revela a Ricardo que até seminaristas comparecem às manifestações, envolvem-se em brigas com a polícia.

Iniciaram ampla campanha de esclarecimento junto às massas proletárias – classificação do engenheiro, antigo e dogmático redactor de manifestos – ou seja a dúzia e meia de famílias de pescadores, composta por rudes homens do mar curtidos pela ventania e por moleques bons de nado, pesca e futebol na areia. Um deles, Budião, ponta de lança com pinta de craque, tendo disputado uma partida em Estância, integrando um combinado do Arraial do Saco, foi notado por um dirigente do Sergipe Futebol Clube que lhe propôs mudar-se para Aracajú. Mas quem nasce em Mangue Seco não emigra, não sabe viver longe das vagas sem tamanho e da ventania desabrida.

A pregação ideológica do engenheiro, expondo problemas graves e profundos, imperialismo, colonialismo interno, poluição, ameaça mortal à fauna marítima, apodrecimento das águas a fazer da pesca actividade condenada a desaparecer; denunciando a existência de capitais estrangeiros majoritários na indústria do dióxido de titânio, em realidade entrave e não estímulo ao desenvolvimento do país, canalizando para o estrangeiro lucros imensos, empobrecendo o povo – nada disso, diga-se com tristeza mas a bem da verdade, causou a maior impressão sobre a reduzida massa à qual ele se dirigia, patético, veemente e honrado. Ricardo vibrava, férias
sensacionais: ruem muros diante dele, abrem-se caminhos, Deus o ilumina.

quarta-feira, setembro 09, 2009

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IL DIVO - A MI MANERA

BELEZAS DA NATUREZA

CAETANO VELOSO - DEBAIXO DOS CARACÓIS

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TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 228



Disse e mamou, com satisfação de expert, um trago largo de uísque, degustando-o. Por detrás do balcão, agitando a coqueteleira, o barman sorri, pensa no valor das aparências.

Para os simplesmente vaidosos, a retorcida garrafa de cristal, em tons verdes, sinal de alta consideração. Para os suficientes e orgulhosos, a simples garrafa original do reino Unido, fechada, selada, lacrada, sinal de respeito ainda maior. Numa e noutra, para uns e outros, idêntico uísque falsificado da reserva do hotel, diferença apenas de preço. Também, que gosto e refinamento pode ter um bebedor de uísque? Nenhum, na opinião do barman.

Durante a curta hora em que permaneceram bebericando e trocando ideias à borda da piscina, em cuja água azulada e transparente os corpos das mulheres eram visão amena e grata, Ascânio foi apresentado a uma quantidade de pessoas, todas de evidente importância, que paravam para cumprimentar Rosalvo Lucena e trocar uma palavra com o Magnífico Doutor, por vezes segredar-lhe ao ouvido. Sem falar das moças, algumas delas certamente a serviço da Brastânio, pois Mirko as encarregava de tarefas diversas: telefonemas, reserva de mesa no Chez Bernard para um jantar de seis talheres naquela mesma noite, compra de discos de Caymmi numa das butiques. Ao apresentar Ascânio, o Magnífico não informava sobre o cargo por ele exercido na Prefeitura de Agreste nem o dizia vindo de lá. Ressaltava, porém, sua condição de dinâmico dirigente, de muito futuro, destinado a desempenhar importante papel na vida do Estado, quiçá do país. Un vrai conducteur d’hommes.

Palavras agradáveis de ouvir, embalam como um acalanto, traçam uma perspectiva, dão força e ânimo. Idealismo e ambição dissera o jovem e vitorioso empresário. Idealismo, Ascânio sempre teve, a ambição nasce e cresce à beira da piscina.

Manhã de sol, ambiente cordial, a graça das mulheres, a inteligência dos companheiros de mesa, a bebida cara, isso, sim é uísque. Já não se sente tão mísero joão-ninguém ao lado de Rosalvo Lucena. Que por sinal se despede, tem almoço marcado com alta figura da administração estadual:

- Em breve, nos veremos em Agreste.

- Lá estarei às suas ordens.

Ouve a murmurada ponderação do doutor Mirko Stefano quando Lucena se levanta:

- O homem é uma parada difícil, vá com cuidado. Dele depende muita coisa. Diga-lhe que a encomenda já está a caminho.

O Magnífico ainda se demora a saborear o uísque, a roda crescendo em torno dele. Apesar de ter pela frente une journée terriblement chargée, não se apressa, preza e desfruta tudo aquilo: o dia claro de sol, o movimento da gente ociosa no bar e na piscina, a visão dos corpos seminus, as moças se oferecendo, o mexerico e adulação dos ávidos foliculários. Levanta-se, finalmente, assina a nota, marca um encontro com Ascânio para as quatro da tarde. Pat o acompanhará à sede da companhia:

- Temos muito a conversar. Bye bye.

Enfim, pensa Ascânio, a esperada conversa, motivo da sua vinda. Pat
aproxima-se, comboiando outra moça, morena magra, de busto saliente:

- Esta dondoca é Nilsa, neném. Acaba de ser nomeada tua secretária. Não posso te acompanhar hoje, é folga de Ismael na redacção, só tem de entregar a coluna, o dia é dele – Olha com ternura para o noivo que, tendo-se servido do fundo da garrafa, voltara à piscina: - Você compreende, né? Nilsa fará as minhas vezes. Você vai gostar dela e ela de você, neném.

Nilsa ri muito, fala pouco, usa qualquer pretexto para exibir o seio farto. Propõe almoço frio, é mais rápido e não pesa no estômago. Não houve sesta, ela o acompanhou directamente ao quarto. Ao despir a cueca, contemplando os seios de Nilsa, grandes, redondos, túmidos e o pequeno ventre de espessa mata negra. Ascânio considera que o atraso na conversa que o trouxera à capital tinha suas compensações. Não fossem
as saudades de Leonora, não se importaria de
demorar mais alguns dias.


O MUNDO VISTO PELO OLHAR DAS CRIANÇAS


Testes de alunos do 1º. Ciclo:


- O Papa vive no Vácuo (!?)

- Antigamente na França os criminosos eram executados com a Gelatina (pelo menos assim não doía tanto...)

- Em Portugal os homens e as Mulheres podem casar. A isto chama-se monotonia. (é frustrante que até na 2ª Classe já pensem assim...)

- Em nossa casa cada um tem o seu quarto. Só o papá é que tem de dormir sempre com a mamã. (Um destino terrível...)

- Os homens não podem casar com homens porque então ninguém podia usar o vestido de noiva. (a ver vamos....)

- Os meus pais só compram papel higiénico cinzento, porque já foi utilizado e é bom para o ambiente. (Que bom!)

- Adoptar uma criança é melhor! Assim os pais podem escolher os filhos e não têm de ficar com os que lhe saem.
(Com os animais de estimação também funciona assim!)

- Adão e Eva viviam em Paris. (Sim, sim, lá também é Paradisíaco )

- O hemisfério Norte gira no sentido contrário do hemisfério Sul. (Viver ao longo do Equador deve ser muito divertido....)

- As vacas não podem correr para não verterem o leite. (Que bom saber isso)

- Um pêssego é como uma maçã só que com um tapete por cima. (Nunca tinha pensado nisto!)

- Os douradinhos já estão mortos há muito tempo. Já não conseguem nadar! (Conseguem sim! No óleo da frigideira...)

- Eu não sou baptizado, mas estou vacinado. (Esta tenho que ensinar aos meus filhos!)

- Depois do homem deixar de ser macaco passou a ser Egípcio. (Mmm... esta ainda não sabia!)

- A Primavera é a primeira estação do ano. É na primavera que as galinhas põem os ovos e os agricultores põem as batatas. (Nunca mais como batatas...)

- O meu tio levou o porco para a casota e lá foi morto juntamente com o meu avô. (Bem, se o avô já lá estava...)

- Quando o nosso cão ladrou de noite a minha mãe foi lá fora amamenta-lo. Se não os vizinhos ficavam chateados. (E assim como terão ficado?)

- A minha tia tem tantas dores nos braços que mal consegue erguê-los por cima da cabeça e com as pernas é a mesma coisa. (Acho que a mim aconteceria o mesmo às pernas...)

- Um círculo é um quadrado redondo. (Esta é absolutamente fantástica!)

- A terra gira 365 dias todos os anos, mas a cada 4 anos precisa de mais um dia e é sempre em Fevereiro. Não sei porquê. Talvez por estar muito frio. (Um génio!)

- A minha irmã está muito doente. Todos os dias toma uma pílula, mas às escondidas para os meus pais não ficarem preocupados. (Sem comentários)


A IMPORTANTE
INFLUÊNCIA
DO MEIO SOCIAL



Dois homens discutem por causa de um jogo de bilhar ou porque um insulta a namorada de outro e a animosidade vai subindo até chegar ao assassínio, muitas vezes à vista de quem está perto.

A este tipo de homicídio os criminologistas costumam chamar de “altercação trivial” mas, será?

Para mim foi fácil casar e ter filhos. Tudo o que tive de fazer foi ir para a Universidade e depois garantir um bom emprego.

Eu gostaria de atribuir o meu comportamento de pessoa civilizada ao meu excelente carácter mas, acima de tudo, tenho de estar grato ao extracto social a que pertenço.

No meu caso não me envolveria em luta que me pudesse levar a um homicídio que erradamente seria chamado de “altercação trivial” porque teria muito a perder e pouco a ganhar.

Naquela luta o que estava verdadeiramente em causa era a competição entre indivíduos de sexo masculino pelo “estatuto” que pode ser tudo menos trivial.

Tenho cinquenta e seis anos, ultrapassei a idade média em que morre o homem das zonas deprimidas da cidade de Chicago e ainda estou de boa saúde.

Eu sou como os homens dos bairros sociais de Chicago mais favorecidos com muito menor probabilidade de cometerem homicídios em lutas de “altercação trivial” porque a sua frequência está relacionada com o meio social a que se pertence.

A cidade de Chicago está dividida em setenta e sete bairros para os quais as taxas de homicídio e outros dados estatísticos vitais estão compilados separadamente.

Estes bairros variam imenso quanto a qualidade de vida, incluindo a própria duração média de vida de tal forma que a esperança de vida dos bebés nascidos nos melhores bairros é vinte anos superior à dos nascidos nos piores (cinquenta e tal anos para setenta e tal anos).

Estas mesmas diferenças verificam-se em geral entre países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento.

Nos bairros com menor esperança de vida, as mulheres têm tendência a começar a ter filhos mais cedo e esta gravidez na adolescência é amplamente reconhecida como um problema social mas, quando se perguntava às mulheres de um geto porque tinham filhos tão cedo as respostas suscitavam simpatia. Diziam elas que queriam que as suas mães conhecessem os netos.

Usavam o termo de “desgaste” para descrever a deterioração de saúde que observavam à sua volta.

E a pergunta aqui fica:

- Se o meu amigo e aqueles que lhe são chegados estivessem a desgastar-se a um rito rápido não gostaria de começar a ter filhos suficientemente cedo para os conhecer e ajudá-los a criar os seus próprios filhos?

As taxas de homicídio variam imenso oscilando de 1,3 e 156 por 100.000, entre bairros de pessoas ricas e de pessoas pobres porque nestes o panorama é uns quantos bem sucedidos e muitos falhados e, nestas circunstâncias, um “zé-ninguém” assume comportamentos de riscos extremos na perspectiva de ser “alguém”. Como diz o Rapper 50 Cent no álbum e no filme: “Get rich or die tryn”.

A desvalorização acentuada do futuro pode ser uma resposta “racional” à informação que indica uma probabilidade incerta ou baixa de sobreviver para mais tarde colher benefícios, por exemplo, e correr “riscos impensados” pode ser a solução óptima quando os benefícios de uma escolha de acções mais segura são insignificantes.

A evolução tem intrinsecamente a ver com organismos que reagem a modificações ambientais sendo impossível negar a capacidade de mudança.

O Criacionismo religioso e secular sempre se baseou no medo das consequências de aceitar a evolução, mas se encararmos a teoria da evolução como um instrumento capaz de proporcionar uma modificação positiva, ela será fácil de aceitar.

No que toca à evolução o futuro pode ser diferente do passado, para melhor.



David Sloan Wilson “A Evolução Para Todos”

terça-feira, setembro 08, 2009

CANÇÕES SERTANEJAS

BRUNO e MARRONE - DORMI NA PRAÇA


LUÍS MIGUEL - JURAME

CARL SAGAN - UMA VOZ NA SINFONIA CÓSMICA Parte 7


EROS RAMAZZOTTI - PIU BELLA COSA

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BELEZAS DA NATUREZA


TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 227




- Sim, esperamos ser úteis à sua região. Pensamos dar a maior cobertura, em todos os sentidos às iniciativas que o senhor vier a tomar para levantar a economia e a cultura de Agreste. Infelizmente subsistem no Brasil grandes desníveis regionais, perduram ilhas de pobreza e atraso. Precisamos de modificar rapidamente este panorama, liquidar tais diferenças, entraves no caminho do desenvolvimento do país – Bate com a mão na coxa de Ascânio num gesto amigável – Homens como o senhor são preciosos para a comunidade. Nossa obrigação de idealistas é dar-lhes todo o apoio de que venham a necessitar. Porque o senhor também é um idealista e o nosso ideal é comum, é o progresso!

Expressa essas brilhantes considerações, quase um discurso, com naturalidade, em tom de conversa mas de conversa convincente, ao mesmo tempo a que atende a uma loira e a uma morena, ambas de biquini, cada uma sentada sobre os largos braços da cómoda cadeira de desenho moderno – desenho igualmente do citado Lew. A voz modulada e segura, a pronúncia clara, sem hesitação, não se modifica sequer ao reclamar do garçon a qualidade do uísque contido numa requintada garrafa de tons verdes, feita de reentrâncias e saliências. Tendo se servido e provado, Rosalvo Lucena deixa escapar educada porém viva indignação: uísque mais falsificado, que horror! Chama a atenção do Magnífico: é sempre assim, bebida servida em garrafa de cristal, semelhante escultura, bela e anónima não presta jamais, torpe engodo. Entre suas várias competências, o jovem tecnocrata inclui conhecimento profundo daquele sublime licor escocês, o único verdadeiro néctar dos deuses, em sua opinião. Da qual o doutor Mirko discorda: gosta de uísque mas prefere um vinho francês de qualidade, nada se compara a uma boa champanhota. Qual a opinião do amigo Ascânio? Não tem uma opinião formada, pouco sabe de uísque, menos ainda de champanha.

Rosalvo Lucena devolve ao garçon o copo cheio e a garrafa verde:

- Jogue essa porcaria fora, companheiro, traga outro copo. Quanto à garrafa diga ao barman para guardá-la para um bêbado qualquer que não saiba distinguir uísque verdadeiro do falsificado. Quero scotch e não esse vomitório. Traga-me uma garrafa de Chivas, fechada, para examiná-la e abrir aqui. E diga que vou me queixar ao maître dessa falta de respeito.

A tranquilidade e a desenvoltura com que Rosalvo fala do desenvolvimento do país e repudia o uísque conspurcado enchem Ascânio de admiração, culminando quando o ouve comentar:

- Repare, Mirko, com que prazer teu amigo Ismael saboreia essa zurrapa. Esse tem estômago para tudo. Repugnante!

Estômago e testa, pensa Ascânio, chifrudo antes de casar-se, ciente, sem dúvida, das distracções da noiva; quem sabe, conivente. Mais que repugnante, abjecto!

O barman chega aflito, na mão a garrafa pedida, na boca desculpas humildes: se soubesse que era para a mesa do doutor… Afável e generoso, Rosalvo Lucena o despacha em paz, nada dirá ao maître.

Anima-se Ascânio e felicita o empresário pela entrevista magnífica com a qual arrasara o cronista de A Tarde, Giovanni Guimarães, possibilitando o esclarecimento da população do Agreste, afectada com a Carta ao Poeta De Matos Barbosa. É que esse tal de Giovanni andara, há alguns anos, de visita à cidade, fizera amizades, gozava de certo prestígio. Rosalvo responde, enquanto examina a garrafa de Chivas, antes de aprová-lo e ele próprio abri-la, servir-se e servir o Magnífico, a Ascânio e a uma das moças, a outra prefere Compari:

- Giovanni? Um bom rapaz, inteligente, engraçado, sabe escrever. Mas nunca passará de um jornalista provinciano, com o seu empreguinho público e salário de repórter. Não tem estofo para mais. Faltam-lhe ambição e idealismo – Prova a bebida, repete o trago: - Isso, sim, é uísque – Pousa os olhos em Ascânio, toca-lhe novamente a coxa para chamar a sua atenção para a importância do que vai dizer: - Sem idealismo e sem ambição, meu caro, ninguém pode ir adiante. Um ideal elevado: ser alguém na vida, um construtor de progresso. Servido pela ambição. A ambição é a mola do mundo.

segunda-feira, setembro 07, 2009

CANÇÕES SERTANEJAS
CLÀUDIO FONTANA - O HOMEM DE NAZARÈ

PETULA CLARK - C'EST MA CHANSON

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FLORESTA ENSOLARADA



GASTRONOMIA DARWINISTA




Neste campo pode dizer-se que o homem, ao longo da história, utilizou inteligentemente a capacidade de algumas plantas para combater micróbios e insectos invasores.

De acordo com a teoria evolucionista da culinária, a que alguns também chamam de “gastronomia darwinista” – é bem possível que os portugueses tenham tido um papel importante no aumento da longevidade de muitas populações, através do comércio das especiarias trazidas de países longínquos onde chegaram na época dos descobrimentos, no Sec. XVI (a primeira circum-navegação à terra data de 1520 e foi possível com as novas técnicas de navegação adoptadas no século XV).

E sabe-se que, entre essas especiarias, a pimenta era a “rainha” sendo paga, literalmente, a peso de ouro em balanças nas quais se punha ouro num dos pratos e pimenta no outro.

Quando os Godos cercaram Roma, em 408 D.C., pediram um resgate de 5.000 libras de ouro e 3.000 de pimenta.

Na nossa prática culinária ficaram-nos hábitos transmitidos desses tempos. Lembremo-nos, por exemplo:

- Do arroz doce polvilhado com canela, a qual tem uma acção anti microbiana;

- Da açorda de marisco com muitos alhos e coentros, bem picadinhos, que têm uma acção análoga;

- Dos camarões cozidos com muito piripiri ou caril;

- Dos orégãos espalhados sobre as pizas;

- Da carne temperada em vinha de alhos para se tornar mais tenra, sem esquecer que a presença do alho impede que a carne seja um meio para o desenvolvimento de micro-organismos.

O alho é um dos condimentos mais utilizados nos países mediterrâneos sendo um potente agente microbiano de reconhecidos efeitos terapêuticos. É muito natural que aquelas famílias que tradicionalmente mais utilizavam o alho na confecção dos seus pratos apresentassem uma menor incidência de doenças infecciosas.

Por isso, podemos imaginar que a existência de alguns de nós ter-se-á ficado a dever ao alho pela protecção que ao longo de muitas gerações proporcionou aos nossos antepassados.

As plantas, contrariamente aos animais, não dispõem de sistema imunitário. A sua protecção contra micro-organismos invasores reside nas fortes paredes celulares que contêm celulose e lenhina, no seu carácter ácido (baixo ph) e em certos compostos que sintetizam e que têm uma acção anti – microbiana constituindo uma defesa.

O caril é uma mistura de várias especiarias: cominhos, coentros, gengibre, pimenta preta, cártamo, cravinho, etc.

O chili é também uma mistura, mas de pó de pimentas, paprica (obtido de pimentão doce depois de seco e moído), alho, cominhos e orégãos.

O próprio sal, sendo um mineral, também se pode chamar de especiaria.

Para além do papel anti-microbiano, os condimentos têm, igualmente, uma acção anti-oxidante sobre os alimentos retardando a oxidação dos lípidos e proteínas, uma das causas da sua deterioração, tanto a nível nutricional como organolítico.

Mas como “não há bela sem senão” nem tudo são benefícios na utilização das ervas aromáticas e das especiarias que se consomem secas.

As ervas aromáticas devem ser muito bem lavadas em água corrente porque elas próprias podem ser portadoras de agentes patogénicos presentes na água da rega ou do solo.

As especiarias consomem-se secas e devem ser guardadas em frascos bem fechados para não perderem os aromas voláteis, para além de que hidratam favorecendo o crescimento de micróbios que podem conter.


PAUL SHERMAN - Prof. de Biologia da Universidade de Cornel



EROS RAMAZZOTTI - SE BASTASSE UNA SOLA CANZONE



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 226





Na piscina, bom nadador, saltando do trampolim, mergulhando, Ascânio se distende em companhia de Patrícia e Ismael, os noivos do ano, na escolha natalina de Dorian Gray Júnior, o trêfego cronista social. Bom relax, a moça tinha razão e ele estava necessitando, tenso e inseguro desde o desembarque do jipe na porta do hotel. Aos poucos começa a sentir-se à vontade, descontraído. Ali é como se todos se conhecessem de longa data. Participa de um grupo que brinca com enorme bola de plástico, conversa com um casal de jovens cariocas encantados com a Bahia, troca impressões com estranhos; acontece não entender certas locuções, uma frase inteira, mas ninguém repara, tratam-no de igual para igual, ele é parte daquele mundo em férias, rapaz rico e simpático.

Ismael sai da água, vai se estender numa chaise-longue. Patrícia nada em torno de Ascânio, provoca-o, busca afundá-lo, dá-lhe caldos, agarra-o pelos ombros e pelas pernas, monta-lhe no cangote, embola com ele, mergulha sob o seu ventre. Manhã agradável.

- Doutor Mirko já chegou. Com o doutor Lucena, avisa Pat.

Levanta-se Ismael Julião, vai saudá-los, serve-se de uísque, dose dupla, volta à piscina, com o copo na mão. Patrícia o acolhe, noiva terna. Ascânio correra a mudar a roupa, reaparece de paletó e gravata. A um aceno do Magnífico, toma lugar à mesa.

Rosalvo Lucena, cujos títulos universitários e empresariais Pat lhe soprara ainda dentro de água, pois seu dever era informá-lo, conquista Ascânio Trindade.

Diante do tecnocrata, cuja fisionomia transpira segurança e autoridade, quase tão jovem quanto ele e no entanto empresário empreendedor e arrojado, Ascânio sente-se um joão – ninguém. O relax obtido na piscina desaparece, encontra-se novamente tenso e inseguro. Aquele, sim, era um líder, um vitorioso, digno da mão de Leonora Cantarelli, para tanto possuía merecimentos, títulos e postos. Títulos em latim e em inglês, aos trinta anos director da companhia Brasileira de Titânio S. A., um portento! Não obstante a diferença de status a separá-los, Rosalvo Lucena o trata com cordialidade e consideração, amável e interessado.

- Mirko falou-me muito bem do senhor, disse-me da sua luta em prol do progresso do município de Agreste. Espero que possamos concorrer eficazmente para que suas ideias se transformem em realidade. Estou encarregado dos problemas técnicos e económicos relativos à instalação das nossas duas fábricas integradas, muito em breve irei conhecer a sua cidade e a praia tão falada, perto da qual, ao que tudo indica, se levantará o nosso conjunto industrial. No momento, deve estar chegando lá uma equipe nossa, encarregada de objectivos precisos. Passamos da fase dos estudos para a da implantação do projecto.

- Está chegando? Hoje?

- Saíram hoje pela manhã, em duas lanchas grandes e velozes. Se ainda não chegaram, devem estar chegando.

Levam todo o material necessário para acamparem uns dias na praia, quantos forem necessários. Vão resolver todos os problemas relativos à localização não só da fábrica como das residências do pessoal técnico e administrativo e da vila operária. Investimento imenso, meu caro. É necessário escolher o local ideal. Parece ser aquele onde há uma espécie de lago e um córrego, mais ou menos no centro do coqueiral – Sorri, contente de si: - Nunca estive lá mas é como se houvesse nascido ali, conheço tudo sobre Agreste e Mangue Seco, incluindo o contrabando. Um dos mais antigos entrepostos de contrabando do Nordeste. Queremos trabalhar em estreita colaboração com o senhor e as demais autoridades do município.

- Da minha parte os senhores terão todo o apoio. A instalação da Brastânio em Mangue Seco será a redenção do Agreste.

A frase merece o aplauso do Magnífico Doutor:

- Wonderful! Fine! Une trouvaille! Até parece uma frase minha. Não a esqueça, meu caro, vai ter de repeti-la em breve.

domingo, setembro 06, 2009

CANÇÕES SERTANEJAS

ZEZÉ DI CAMARGO & LUCIANO - PARA NÃO PENSAR EM VOCÊ


DEMÉTRIUS - O RITMO DA CHUVA


DEZOITO ANOS DE IDADE ...





Com o passar dos dias sempre iguais
Perdi a noção do tempo.
Não sei que idade tenho,
esqueci o ano, o mês, o dia em que nasci
até ao dia em que te vi…

Estavas imóvel, serena e absorta á espera do elevador.
Olhei para ti, primeiro, normalmente, depois com atenção,
finalmente encantado.

Senti dentro de mim uma enorme ebulição,
estava apaixonado!

Apercebi-me, então, que acabara de fazer dezoito anos de idade.

Lamento, meu amor, não o poder comprovar com a apresentação do Bilhete de Identidade.

Mas se olhares para dentro dos meus olhos, com atenção,
verás dezoito estrelinhas, cada uma brilhando para ti.

E se visitares o meu jardim, encontrarás á tua espera
dezoito lindos botões de rosa que aguardam o conforto do teu olhar, a carícia dos teus dedos e o roçar dos teus lábios.

É falso dizer que o amor não tem idade.
Aquele de nós, que alguma vez se apaixonou, em qualquer momento da sua vida, fez nesse dia, precisamente, dezoito anos de idade…

LAURA PAUSINI - SE FUE


TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 225






SEGUNDO EPISÓDIO DA ESTADA DE ASCÂNIO NA CAPITAL OU DA FORMAÇÂO DE UM DIRIGENTE A SERVIÇO DO PROGRESSO: AMBINÇÃO; IDEALISMO, UISQUE E NILSA, A DOS PEITOS GRANDES


De prontidão desde as nove e meia, á espreita, Ascânio se aproxima quando o grupo sai do elevador. Apressado, um dos senhores passa diante dele, desaparece num dos dois automóveis negros. Ascânio jamais ficou a saber de quem se tratava, se director ou não da Brastânio, notando apenas, de relance, o cabelo escovado á escovinha como se usou há muito tempo atrás. Doutor Mirko Stefano apresenta-lhe os outros dois, ali mesmo ao pé. A cerimónia dura apenas um instante pois estão de partida para o aeroporto, em cima da hora.

- Doutor Ângelo Bardi, nosso director-presidente.

O magnata – evidentemente era um magnata – estende a mão, esboça um sorriso:

- É esse o nosso homem? Muito bem – O sorriso se amplia, aprovativo, recomenda ao Magnífico: - Encarreguem-se de que nada lhe falte, resolva de vez os problemas pendentes, veja essa história da eleição. Falei ontem pelo telefone com São Paulo. A essas horas, o Tribunal Eleitoral já deve ter recebido um telegrama – Aperta novamente a mão de Ascânio: - Prazer, passe bem.

O outro, ainda jovem – doutor Rosalvo Lucena, também director, um crânio, segundo doutor Mirko – fica de vê-lo com mais tempo ao voltar do aeroporto para onde seguem todos, inclusive o Magnífico Doutor. Ascânio os acompanha até á porta, assiste á partida dos dois possantes automóveis negros.

Outra vez encontra-se no saguão sumptuoso, sem saber o que fazer. Turistas saem para visitar as igrejas, o Pelourinho, gastar dinheiro no Mercado Modelo, bandos palradores e eufóricos, velhas espantosas, anciãos artríticos, balzaquianas indóceis, moças deslumbradas. Ascânio afunda numa das muitas poltronas de couro, dedica-se à leitura de um prospecto de propaganda do hotel, impresso em cinco línguas, fica sabendo que o design daquela poltrona e dos demais móveis foram concebidos, sob encomenda, com exclusividade, por Leo Smarchewski – não sabe quem seja mas o nome do artista e a palavra design o impressionam. Relanceia o olhar em torno, enfia o prospecto no bolso, pensa exibi-lo no Aerópago. Ultimamente nem tem comparecido á Agência dos Correios. Para quê? Para ouvir desaforos de dona Carmosina? Vai estender a mão para um jornal quando Patrícia aparece – deixara-o por volta das oito, após café e ducha – pendurada no braço de um dos três fulanos que, na véspera, estiveram bebericando com o Magnífico á beira da piscina. Dessa vez houve apresentações:

- Doutor Ascânio Trindade, um amigo do doutor Mirko. Ismael Julião, o temido colunista dos grandes furos, com ele ninguém pode – declama, gaiata, conclui séria: - Meu noivo.

Estava Ascânio apertando a mão do rapaz, toma um susto. Noivo? Com certeza mais uma piada da jovem, mas Pat, muito romântica, encosta a cabeça no ombro do jornalista de barba por fazer, enfia-lhe os dedos na despenteada cabeleira e, como se adivinhasse a dúvida de Ascânio, comunica:

- Vamos nos casar daqui a pouco mais de um mês.

- Dois, benzoca. Depois do Carnaval – Adverte Ismael: - Lua-de-mel e Carnaval, ao mesmo tempo, não dá pé.

- Carnaval, cada qual para seu lado – concorda Pat – Ele é dos Internacionais, eu sou do Bloco do Jacu.

Ascânio não entende a graça nem ela explica, em compensação convida:

- Vá botar uma sunga e venha fazer um relax na piscina com a gente.

Doutor Mirko não vai aparecer antes do meio-dia, isso se vier directamente do aeroporto para aqui. Com ele nunca se sabe.

- Je suis l’imprevisible! – O jornalista imita a voz afectada do director de relações públicas.

É que eu não trouxe calção – Ascânio tenta furtar-se ao convite.

- Por isso não. Aqui alugam, venha comigo, vou lhe mostrar. – Pisca o olho para o noivo: - Te encontro no trampolim, carinho.

- É seu noivo, de verdade? – Ascânio ainda se imagina vítima de um gracejo.

- Havia de ser mentira? Já tenho o vestido de noiva, presente do Magnífico. Ele trouxe do Rio, da Lais Modas, um barato! A grinalda é um luxo, só vendo.

- Véu e grinalda! – Nascida do espanto, a exclamação sai sem ele querer. Pat, ri bem humorada:

- Véu, grinalda e flores de laranjeira, ao som da Marcha Nupcial, adoro!

Tu é um atrasado, neném, um careta. Um careta mas um pão, um pão doce. Ismael também é um pão, não acha? Um pedaço de mulato de ninguém botar defeito, hein? – Morde o beiço, ao elogiar os predicados físicos do rapaz:

- E tem a cuca limpa, não é cafona como você. Nós estamos em 1966, neném. Ou a notícia ainda não chegou à tua terra? Precisas actualizar o calendário.

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