sábado, janeiro 17, 2009


Esclarecimentos Adicionais




Relativamente às considerações favoráveis que fiz às palavras do Cardeal Patriarca chamando-lhes sábias, na medida em que avisadas, um amigo e colega que muito prezo, em visita aos netos em terras do extremo oriente, enviou-me um mail decepcionado comigo porque entendeu a posição do Cardeal e a minha em seu apoio, como de reaccionárias.

Esclareci, na volta do E-mail, o verdadeiro sentido das minhas palavras e julgo que também as de D. Policarpo as quais, de resto, estão na linha daquilo que ele próprio pensa sobre este assunto.

Mas vale a pena voltar ao assunto para que não fiquem dúvidas:

- Diz-me o meu querido amigo lá das terras do sol nascente:

- “Não seria preferível falar de Diferenças Culturais que, como tal, devem ser cuidadas?”

…Mas é óbvio que sim, é precisamente disso que estamos a falar, ou a religião que professamos não será um factor importantíssimo da nossa cultura?

- Molda-nos o pensamento, o comportamento, obriga-nos a ver e a entender a vida de uma determinada maneira e não é cultura?

Vejamos:

- O casamento é uma relação de risco, anote-se a percentagem de divórcios, separações e do casa/descasa, às vezes nem dá tempo a levantar a toalha da mesa da boda e porquê?

- As pessoas são naturalmente diferentes, o sentimento do amor/paixão aproxima-as irresistivelmente mas retira-lhes discernimento e o casamento é uma relação íntima, intensa, diária, continuada, desgastante em que tudo vem ao de cima, e mesmo quando resulta bem exigiu maturidade, cedências e compromissos recíprocos que acabaram por se mostrar mais fortes que as diferenças dando até lugar a novos sentimentos de amizade que nos reconfortam e dão segurança mas, repito, foram necessárias cedências e compromissos recíprocos.

As diferenças, nos casamentos bem sucedidos, acabaram diluídas e submersas na própria relação.

Portanto, temos que ultrapassar diferenças de carácter pessoal com a outra pessoa que é, na nossa hipótese, da mesma cultura, religião, extracto social, económico e educacional, tudo factores comuns que servem os objectivos da relação casamento.

- Agora, a noiva não pertence à cultura do noivo (cultura é aquela espécie de óculos através dos quais “vemos a vida”), a religião, aspecto importantíssimo da cultura, também é diferente, neste caso concreto, é a religião de Maomé que impõe um código rígido de comportamentos que, levados à risca, e eles levam-no à risca, domina completamente a vida das pessoas que a seguem, muito diferente do catolicismo da generalidade das pessoas que se afirmam católicas.

E neste contexto cultural e religioso dos seguidores de Maomé, que estatuto está reservado às mulheres?

- Um estatuto de subalternidade que em alguns casos representa quase a anulação da própria pessoa, não é verdade?

- Se a noiva pertencer a esse contexto social essa foi a sua herança, o futuro dirá qual a evolução…

- Mas se a noiva não tem nada a ver com esse contexto, aos inevitáveis riscos de um casamento inter cultural/religioso juntam-se os outros, e não reconhecer isto é não querer ver a realidade.

- Foi para estes riscos acrescidos que o Cardeal chamou a atenção das jovens tal como eu faria se a minha filha me dissesse que ia casar com um seguidor do Corão.

- E qual de nós não chamaria?

Não estou a falar de proibições ou qualquer coisa do género… “deixas de ser minha filha”…”nunca mais contas com o teu pai”, cenas de telenovelas rascas. Ficaria mais apreensivo mas não deixaria de ir ao casamento.

Onde está o reaccionarismo ou o xenofobismo? Chamar a atenção para o risco das diferenças acrescidas, é isso?

Estamos a falar de decisões pessoais e íntimas, em último lugar das probabilidades de alguém ser feliz, se é que a felicidade se pode pesar em termos de probabilidades e eu acho que sim.

O que estaria em causa seria a felicidade da minha filha e se ela tivesse que ser feliz com um marroquino para mim seria igual a ser feliz com outra pessoa qualquer.

- O que me parece, à partida, é que seria muito mais difícil, as probabilidades de sucesso da relação muito menores e os riscos acrescidos.

Pareceu-me a mim e também ao Cardeal. Não há aqui nenhum tipo de segregação ou de xenofobia mas apenas diferenças que devem ser levadas em linha de conta numa decisão de casamento e é deste que estamos a falar.

E diz-me o meu querido colega lá das terras do Extremo Oriente:

- “Os problemas que surgem num casamento entre um cristão e um muçulmano não serão os mesmas que entre um quaker e um muçulmano?”

- “ E os problemas de um casamento entre um cristão urbano europeu e um fulano do bible belt americano, não continuam a ser os mesmos?”.

É óbvio que sim!...mas porque há-de ser reaccionarismo no particular e deixar de o ser no geral?

O Cardeal é português, estava a falar para jovens portuguesas potencialmente envolvidas numa relação de casamento com um muçulmano, e esta era a situação concreta que estava em causa e foi para as diferenças existentes entre estes grupos de pessoas que ele chamou a atenção por “constituírem riscos acrescidos” de insucesso na relação casamento, subentenda-se de infelicidade.

Será que o tema no particular é tabu e no geral deixa de o ser?

Vindas de onde vieram as palavras do Cardeal foram apontadas como sendo a expressão do “politicamente incorrecto” mas, não são verdadeiras?

Afinal, ele limitou-se a dizer… “Cautela”, e não haverá razões para dizer, “Cautela”?

Milhões de páginas negras de vil submissão, humilhação e maus-tratos físicos – que são legais! – em certos países islâmicos, como na Arábia Saudita, para dar um exemplo, não constituem motivo suficiente para o Cardeal ou qualquer pai de moça casadoira dizer, Cautela?

Entretanto, ergamos as nossas taças e bebamos à continuação da felicidade de todas as portuguesas que casaram com muçulmanos e são felizes… para o amor e para a felicidade nunca há barreiras, mas…Cautela!

Glória Gaynor - I Will Survive



Fascinação - Elis Regina




Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 22


DO SENSACIONAL ENCONTRO ENTRE PERPÉTUA E CARMOSINA, COM CERTA VANTAGEM PARA A PRIMEIRA NO ROUND INICIAL



- Quem disse foi Dr. Almiro? Ele sabe. Eu nunca havia pensado nisso… - Astério se anima, aplacam-se as dores, diminui o mal-estar, presta atenção à conversa.

Estirado na espreguiçadeira, não fosse a presença da cunhada e de dona Carmosina estaria na cama, enrolado nos lençóis; vem passando mal desde a hora em que Elisa lhe fez sinal na loja e ele soube: nem carta nem cheque.

Doente a ponto de nem tocar no cuscuz, na banana frita, contentando-se com uma xícara de café com leite, pão e requeijão. Contracções no estômago, insuportáveis.

Perpétua chegara pouco antes das sete. Deixara Ricardo preparando os deveres, na segunda-feira, o moço retornará ao seminário para as provas escritas e orais. As aulas terminadas, estando padre Mariano de passagem em Aracajú, trouxera o afilhado para o fim-de-semana em casa, com a obrigação de fazer banca, de estudar para os exames. Uma reprovação custar-lhe ia a gratuidade do curso, adverte mais uma vez Perpétua antes de sair. Quanto a Peto, fugira para o cinema, menino endemoninhado. Assistia cada filme três vezes, todas de graça, ajudava o árabe Chalita na bilheteira. Em Agreste, a censura não vigora, todas as películas são livres de qualquer idade, mães amamentam crianças de colo em plena sala, onde Peto, aos treze anos incompletos, aprende mais do que Ricardo, quase com dezassete nas aulas do seminário.

No cinema, na beira do rio onde passa parte do dia a pescar e a observar, no Bar dos Açores torcendo, à tarde pelo tio Astério. Osnar, quando ganha oferece-lhe guaraná, sorvete, coca-cola. Peto já sabe manejar o taco. Debochado, Osnar:

- E o taco aí de baixo, Sargento Peto, já faz carambola? Tá chegando a idade de perder o cabaço…

Nem bem Perpétua tomara assento na cadeira de palha, a melhor da casa, ressoaram na porta as palmas e o sonoro com licença de dona Carmosina. Perpétua fechou a cara: que perdera ali de tão precioso a agente dos Correios para abandonar a sessão de cinema do sábado, compromisso sagrado? Vinha meter o bico onde não a chamavam, ditar razões, palpitar, exibir inteligência e astúcia, a sabichona. Elisa precipitara-se a acolher a amiga:

- Você chegou quase junto com Perpétua.

Sem esperar convite, dona Carmosina puxou o assunto, tomando a frente da conversa:

- Na rua, não se fala noutra coisa. Fui chegando em casa e Mãe foi perguntando: que é que aconteceu com Antonieta? Ouvi dizer que ela morreu. Ninguém sabe de nada, lhe respondi, só que carta e dinheiro que ela remete todo o mês, esse mês não chegou. Mãe arregalou os olhos: Não chegou?

Então ela morreu, só morta havia de deixar de cumprir obrigação. Conheci muito essa menina, quando tomava uma determinação, não havia conselho, ameaça, castigo que lhe mudasse o pensamento. Pode escrever: parou de mandar dinheiro é porque morreu. Vá lá, minha filha, e apresente os meus pêsames. – Uma pausa, dona Carmosina acrescenta: - O zunzum na rua só faz aumentar.

A intrometida viera de propósito, preferindo a conversa ao cinema; é capaz de Elisa ter pedido para ela vir, Perpétua tocou com os dedos o crucifixo do terço, no bolso da saia negra, contendo-se. Deixa para lá, talvez até seja de ajuda; a antipática passa o dia sem fazer nada, a ler revistas e jornais, artigos enormes, domina uma quantidade de assuntos, bota banca. Perpétua, não tinha dúvidas:

- Bateu a caçoleta! Disse a Elisa desde ontem, ela é que se quer enganar e enganar os outros…

- Esconder a evidência… - ilustrou dona Carmosina.

Tais demonstrações de sapiência, Perpétua não as tolera. Dominou-se devido ao grito de Astério, lançado do fundo da espreguiçadeira: - Ai! Vocês estão dizendo que ela morreu? Que Antonieta morreu? É isso?

Elisa teve pena do marido, o pobre de Deus recebera um choque; até ali a possibilidade da morte da cunhada não lhe ocorrera. Pensara em carta extraviada, em dificuldades momentâneas de dinheiro – também os ricos têm os seus apertos – em viagem, plausível explicação de Elisa. Em doença e morte, jamais. A afirmação caiu sobre ele como uma tonelada de chumbo.

- Ai! – gemeu, apertando o estômago, no rosto uma careta de dor.

- Você é o único em Agreste que não sabe que ela morreu e sua mulher a única a duvidar… - a voz sibilante de Perpétua resolvendo a chaga.

Dona Carmosina voltou ao debate:

- A bem dizer, provas não existem. Suposições, sim.

Dura adversária, Perpétua atirou-lhe na cara a munição de dona Milú:

- Que outra prova você quer, além da falta de cartas? Não ouviu o que sua mãe disse? Era assim mesmo: quando Antonieta decidia fazer uma coisa, fazia até ao fim, quem bem sabe sou eu.

- Não há dúvida… – concordou, em termos, dons Carmosina: - Suposições apoiadas em factos concretos, porém suposições…

- Estamos desgraçados! – gemeu Astério, dando-se conta da enormidade do acontecimento: - Como vai a gente viver, se ela morreu?

Contendo o choro, Elisa trouxe um comprimido e um copo de água:

- Tome Astério, o remédio para o estômago…

- Que vai ser da gente? – o comprimido caiu da mão de Astério, Elisa e dona Carmosina a procurarem pelo chão de tijolos, encontraram. Elisa o põe na boca do marido, dá-lhe água.

- Nem para remédio vai sobrar – conclui Astério num engulho.

Dona Carmosina balançou a cabeça, concordando: não será fácil. Não tanto para Perpétua, possui casa de aluguel e dinheiro guardado, mas Elisa e Astério vivem da loja mal sortida, das vendas aos sábados, lucro minguado.

Dona Carmosina tentou deixar de lado esses detalhes, insignificantes diante do facto maior da morte de Tieta, amiga de infância e adolescência, cujas confidências ouvira há tantos anos. Insignificantes? Não com o preço actual do ruge e do batom, do rímel e do esmalte, das revistas, cinco por semana – e Elisa esquecera de pagar as de hoje. Falara em pegar o dinheiro, não pagara. Se a morte se confirmar, dona Carmosina não poderá cobrar, carregará com o prejuízo. Amizade prova-se nessas horas.

Mas eis que Perpétua ergue o busto, o coque parece crescer no alto da cabeça, a voz fanhosa ganha força:

- Ela morreu e nós somos seus herdeiros…

A tal história da herança, dona Carmosina liga todas as antenas. Astério, nas vascas da agonia, não entende:

- O que é que você disse? Herdeiros? Como?

Tempo suficiente para dona Carmosina consultar seus conhecimentos jurídicos e entrar de advogada:

- Hum! É capaz que você tenha razão. Casada mas sem filhos… os parentes herdam… Já li sobre isso, deixe-me ver…

Superior, Perpétua pôs em pratos limpos:

- Outro dia conversei com doutor Almiro, quando ele esteve aqui por causa da herança de seu Lito. Metade para o marido, metade para os parentes próximos. Pai, mãe, irmãos. Nem que o morto não queira.

Foi nessa altura da conversa que se aplacaram as dores de Astério, diminuiu o mal-estar do estômago, rogou confirmação:

- Quem disse foi doutor Almiro? Ele sabe
.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Adamo - Une Meche De Cheveux



Fáfá de Belém - O Meu Coração É Vermelho



Glenn Miller - In the Mood



Maria Creuza - Voçê Abusou




Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 21


Cruzeiros marítimos… - Volta a esclarecer dona Carmosina.

… - mas digo sem convicção, já me convenci que ela morreu.

- O pior é que a notícia está correndo na rua, é só no que se fala. Barbosinha ficou desolado, o pobre. Teve um namoro com Tieta pouco antes dela ir embora. Ele pensa que eu não sei…

- Seu Barbosinha? Acabado daquele jeito…

- Faz quase trinta anos… era um rapagão, bem mais velho do que ela, é verdade, e franzino. Franzino sempre foi… Tieta não gostava de mocinhos jovens… - Suspira, como passa o tempo! – Você não deve perder a esperança. Onde está a prova de que ela morreu? Me mostre, se puder. Agora, vou indo. – Fica em dúvida, a pergunta a coçar-lhe a boca: - Você vai ao cinema? Se quiser passo para lhe buscar.

- Hoje, não. Perpétua vai vir para discutir com Astério e comigo, ela inventou umas histórias de herança… mas não é por isso que não vou… Não vou, porque hoje não tenho vontade, sabe? Nem ia ver o filme direito.

- Entendo… herança, que conversa é essa?

Elisa toma-lhe a mão, suplica:

- Se você deixasse o cinema para amanhã e voltasse, para mim ia ser tão bom! Acho que para nós todos, até para Perpétua. Você entende dessas coisas…

- Pois eu volto, fique descansada. Engulo a comida, determino umas regras em casa, daqui a pouco estou aqui de novo.

Ora, se vinha! Não há filme que a faça perder aquele prato, que invenção era essa, de herança? Perpétua não é tola. Ademais, o dever de amiga mandava-a estar ao lado de Elisa nessa hora de provação. As duas coisas: o dever e o prazer, há tão pouca diversão em Agreste, mesmo para a agente dos Correios.

Pena fosse sábado, dia de cinema. O filme vinha de Esplanada, pela marinete, sendo exibido no sábado à noite e duas vezes no Domingo, a primeira às três da tarde, em matinê. A sessão de sábado reúne a melhor gente, os graúdos da cidade, vários com lugares marcados pelo hábito, naquelas cadeiras ninguém se senta: as cadeiras de Modesto Pires e da esposa, dona Aida e duas filas atrás, a de Carol. A matinê repleta de meninos a gritar, insuportável: a cada tiro ou soco de caubói uma algazarra, a cada beijo de mocinho o mundo vem abaixo. Na soarê de Domingo repete-se a barulheira. Derradeira exibição do filme, na bilheteira o árabe Chalita mercadeja lugares ao sabor da aceitação da película. Nas de pouco êxito, vende a qualquer preço. Nos grandes sucessos nem de pé é mais barato. A amizade exige sacrifícios: amanhã, em companhia de dona Milú dona Carmosina enfrentará a sessão nocturna dos domingos, o berreiro, a fumaceira.

Cabeça baixa, ar doentio, Astério chega directamente da loja, nos sábados só após o banho e o jantar vai às carambolas. Hoje terá Perpétua em vez de Aminthas, Seixas e Fidélio, em lugar de Osnar, perde na troca. Dona Carmosina o considera, com lástima: um trapo.

- Boa noite, Astério. Vou em casa mas volto para a conversa.

- A conversa?...

- Sob Tieta…

- Ah! Sim. Que coisa mais sem explicação. Não entendo…

A luz dos postes, acesa ao toque da ave-maria, apenas atinge a calçada mas a lua cheia derrama ouro e mel sobre Agreste, iluminando as ruas e o rio, a estrada e os atalhos, os últimos feirantes no caminho das roças.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Meu Coração Abandonado



Alain Barriere - Ma Vie


Midle Of The Road - Sacramento (A Wonderful Town)



Richard Anthony - J'Entends Siffler Le Train




D. José Policarpo



Palavras sábias, são palavras sábias, venham elas de onde vierem, e porque o são, é importante que o máximo de pessoas as ouçam e as sigam.

Eu não reproduziria aqui as palavras de D. José Policarpo se elas tivessem a ver com qualquer aspecto da doutrina da Igreja Católica (ou de qualquer outra) da qual ele é o máximo representante no nosso país.

Na minha qualidade de não crente não me incumbe esse papel. Respeito e compreendo todas as pessoas, crentes ou não, sigam elas esta ou aquela religião, e esse é o exemplo que devo dar.

Reconheço os malefícios das religiões, o extraordinário contributo que ao longo da história da humanidade sempre deram para a divisão entre os homens e pretexto para guerras, ódios, extermínios, em suma, sofrimento incalculável.

Mas também sei que os homens não são religiosos porque o queiram ser, apenas não conseguem deixar de o ser. O espaço da crença está inscrito no seu cérebro desde o princípio da humanidade, acreditar foi um dos factores que contribuiu para a sobrevivência da espécie quando ainda se estava muito longe das religiões… elas vieram depois, muito depois… à boleia.

Mas voltemos a D. Policarpo e às suas sábias palavras que nada têm a ver com crenças e doutrinas religiosas:

- “Cautela com os amores. Pensem duas vezes antes de casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meterem-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam;

- Sei que uma jovem europeia de formação cristã, a primeira vez que vai parar ao país deles, é sujeita ao regime das mulheres muçulmanas, imagine-se lá…

- Só é possível dialogar com quem quer dialogar, por exemplo com os nossos irmãos muçulmanos, o diálogo é muito difícil (…) porque eles não admitem sequer encarar a crítica do que pensam, que a sua verdade não seja a única e toda a verdade.

- Se queremos dialogar com muçulmanos temos de saber o bê-á-bá da sua compreensão da vida, da sua fé, portanto, a primeira coisa é conhecer melhor, respeitar.

- Nós somos muito ignorantes, queremos dialogar com os muçulmanos e não gastámos uma hora da nossa vida a perceber o que é que eles são. Quem é que em Portugal já leu o Alcorão?”

Estas palavras que servem de aviso às mulheres portuguesas e a todas as europeias não muçulmanas não significam que, na realidade, não seja possível que uma europeia católica não seja feliz casando com um muçulmano.

O que D. Policarpo quis dizer é que elas correm um grave risco para o qual devem estar alertadas, e este risco é evidente e óbvio pelo simples facto de que a cultura e a religião católica são muito diferentes da cultura e religião de Maomé.

Se o casamento em si, pelas naturais diferenças entre as pessoas, constitui já um interminável rol de compromissos e cedências recíprocas, imagine-se como será quando, entre eles, existem tão profundas diferenças culturais e religiosas.

E se a portuguesa Rute Isabel é muito feliz, pelo seu testemunho, no casamento que fez com o marroquino Abdelilah Suisse, a todos nós só nos resta congratularmo-nos com esse facto, agora, SrªDª Isabel, não fique chocada com as palavras de D. Policarpo porque a senhora, melhor do que ninguém, deve ter-se apercebido, ao longo da sua vida de casada, que as palavras do Cardeal têm toda a razão de ser, sejamos honestos e deixemo-nos de hipocrisias!

Rafael - Yo So Aquel (Eurovisão 1962)



Banda 1111 - El Rei D. Sebastião



Nico Fidenco - A casa de Irene





Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 20


DAS REVISTAS DE TELENOVELAS E DAS PROVAS DE AMIZADE: CAPÍTULO RECONFORTANTE, PREPARATÓRIO DA GRANDE DISCUSSÃO FAMILIAR



- Você esqueceu de trazer as revistas – Dona Carmosina as deposita em cima da mesa, puxa uma cadeira.

A brisa do entardecer e as cores do crepúsculo envolvem Sant’Ana do Agreste. Barbosinha costuma parodiar os versos do poeta português: Que é dos pintores desse meu país divino que não vêm pintar? Ele, De matos Barbosa, cumpre o seu dever; mais de cinquenta poemas e sonetos dedicou à paisagem do Agreste, ao rio Real correndo para o mar, às dunas da praia de Mangue Seco, onde, em distantes férias burocráticas, declamou para Tieta ardentes versos levados pelo vento. Barbosinha deixou dona Carmosina na porta da casa, não quis entrar. Coberto de dor, mastigando um poema, dirigiu-se ao Bar dos Açores.

Elisa não sente o frescor do fim da tarde, não enxerga as nuanças de amarelo e roxo, de vermelho e azul a queimar o firmamento, quando o sol, levado pelas águas do rio, vai se perder no mar, na distante linha dos tubarões, e a lua nasce por detrás das dunas. Tempo de lua cheia. Elisa, desfeita, os olhos inchados de chorar, dona Carmosina se impressiona. Golpe terrível, não há dúvida, para ela e Astério, como equilibrar o orçamento sem a ajuda da irmã? Vão terminar nas minhas costas, adivinhara Perpétua, por ocasião de desespero anterior.

Perdida, nem sequer folheia as revistas, ela sempre ávida de saber de amores e desamores, casamentos e desquites, brigas, festas, a vida brilhante dos astros do cinema, rádio, teatro, televisão. Revistas, Perpétua não as pagará, nem uma só. Porcarias! Indivíduos sem temor a Deus, mulheres mostrando as vergonhas, uma indecência essas revistas. Em minha casa não entram. Se eu fosse Astério… Felizmente não era, assim Elisa está a par de todas as fofocas e delira com as fotonovelas.

O conhecimento de Elisa reduz-se aos artistas brasileiros; uma especialista, pode-se dizer. Não possui a visão universal de dona Carmosina, cuja erudição nesses apaixonantes assuntos não se limita às fronteiras pátrias. Não há minúcia que ela desconheça sobre os Beatles, antes, depois e durante a formação e dissolução do conjunto. Erudição, conhecimento, curiosidade, pelo simples prazer intelectual de saber e dar quinaus em Aminthas, tarado pelos Beatles e por todos os conjuntos de rock, desvairado pelo som moderno. Aminthas possui eletrola e gravador, gasta em discos e cassetes o que ganha e o que não ganha.

Dona Carmosina, coração romântico, em matéria de música prefere mesmo Casa de Caboclo e Luar do Sertão; isso, sim, é música com melodia e sentimento, e não essa barulheira sem pé nem cabeça dos cabeludos. Provoca a indignação de Aminthas, desmontando seus ídolos: essa tal de Yoko é horrível, e ainda tira retrato nua. Espie: a cara e a bunda são iguais.

Vou buscar o dinheiro para pagar… - neutra, a voz de Elisa, os olhos ainda húmidos.

Passou a tarde chorando, constata dona Carmosina:

- Deixe para depois.

- Para essas ainda tenho…

Os olhos buscam a amiga do peito, companheira de grandes conversas sobre galãs e estrelas de rádio e TV. Elisa só assistiu televisão durante os três dias passados na Baía, quando Astério foi consultar o médico, tirar radiografias; felizmente nada grave, apenas o susto a fazê-los gastar aquele dinheirão.

No modesto hotel próximo à rodoviária, o luxo era o aparelho de televisão na saleta de frente, franqueada aos hóspedes. Elisa não desgrudou do vídeo, maravilha das maravilhas. Agora, nem mais as revistas, dos olhos saltam as lágrimas, as palavras são soluços:

- Se for verdade, para o mês não posso mais comprar. Tire meu nome da lista.

- De todas cinco? – Dona Carmosina sabe a resposta mas faz a pergunta para ter o que dizer. Como poderá Elisa viver sem as revistas da telenovela?

- De todas…

Dona Carmosina ergue-se, magnífica, amizade se prova nessas horas:

- De todas cinco, não! Duas eu lhe garanto, pago da minha comissão. Sem nenhuma, você não fica.

Elisa se comove com o gesto mas a realidade se impõe:

- Obrigada, Carmosina, você é boa demais. Mas, nem eu aceito nem você é rica para deitar dinheiro fora…

- Tudo não passa de conjecturas. É capaz de Tieta estar mais viva do que nós duas… - Dona Carmosina, aliviada, substitui por alento, por esperança, a precipitada promessa de revistas semanais.

- É o que eu digo a todo o mundo, que ela está de passeio a bordo de um navio, como já sucedeu…

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Dolores Duran - A noite de Meu Bem




Luigi Tenco - Vedrai, Vedrai



Daniel - Pode Ser



Alcione - Meu Ébano




Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 19


Durante a leitura, chega o vate Barbosinha, fica a ouvir. O Comandante faz questão de começar de novo para o amigo não perder nenhum pormenor: na Itália aparecera por fim um juiz macho!

- Ouça com atenção este pedaço: Um dos defensores dos acusados, o advogado Garaventa, utilizou este argumento: a directoria da indústria sempre agiu com todas as autorizações administrativas necessárias. Qual será, no caso de uma condenação, a opinião dos cidadãos sobre a administração pública que concedeu as permissões?

- Bem argumentado! – atalha Barbosinha. – Os homens estavam dentro da lei, agindo de acordo com as autoridades…

- Dentro da lei, coisíssima alguma! As autoridades é que são salafrárias, em conúbio com os monstros ávidos por dinheiro. Ouça o resto: O argumento, entretanto, não intimidou o juiz Viglietta, pertence a uma nova geração de jovens magistrados que não se detêm ante os poderosos. Bravos, juiz!

- Mas se os homens estavam agindo de acordo com a lei…

- Que lei? Lei foi a que o juiz aplicou, escute e não interrompa, a gente discute depois, se você quiser: Ele se baseou numa lei italiana de 14 de Julho de 1965… – o próprio comandante interrompeu para comentar: - Bem recente, hei! Por fim, começam a aprovar as leis que se fazem necessárias… – retorna a leitura: - … raramente invocada, que prevê penalidades para todos os que lançam ao mar substâncias estranhas àquelas que fazem parte da composição normal das águas naturais, que constituem perigo para os peixes e que provoquem a alteração química ou física do meio aquático.

Prosseguiu a leitura até ao fim, dona Carmosina ouvindo com renovado entusiasmo, Barbosinha distraidamente. Com o seu veredicto, o juiz Viglietta pretendeu advertir todos aqueles que tomam o mar por uma lata de lixo, ameaçando de morte o Mediterrâneo.

- Juiz porreta! Desses estamos precisando no mundo todo, a começar por São Paulo! Seu Barbosinha, nós não nos damos conta do privilégio que é viver nesse pedaço de paraíso, criado por deus e felizmente esquecido pelos homens! – volta-se para dona Carmosina: - Posso guardar, Carmosina?

- Tirei a página para lhe dar…

Enquanto o comandante dobra a folha do jornal, Barbosinha interroga dona Carmosina:

- Que houve com Tieta? Ouvi dizer que desencarnou…

A pergunta recorda-lhe as revistas esquecidas por Elisa, dona Carmosina vai buscá-las, coloca-as ao lado da bolsa:

- Tomara que não, mas tudo indica que sim.

- Quem? – quer saber o Comandante.

- Antonieta, Tieta, sabe quem é, não?...

- É claro que sim… sucedeu-lhe alguma coisa?

- Pelo jeito morreu. Não há informação, ainda.

- Vai ver, de câncer, na poluição de São Paulo. Só os milhares de automóveis a vomitar gases…

Despede-se, dona Laura o espera:

- Obrigado pelo artigo, Carmosina. Esse juiz lavou-me a alma.

Carmosina prepara-se para fechar a Agência, ainda deve passar em casa de Elisa, antes do jantar, a pobre está agoniada. Barbosinha, cabeça baixa, distante, concentrado, enxerga no horizonte algo invisível para dona Carmosina. Barbosinha é vidente.

Ninguém sabe – outro segredo jamais revelado, esse, nem à gente dos Correios ele o confiou – ter sido Tieta a musa inspiradora dos mais belos versos dos dois livros publicados e dos inéditos, cinco volumes inéditos, do poeta De Matos Barbosa, Antonieta Esteves, paixão devoradora, fatal.

Desencarnada, num círculo astral estrela cadente. Escreverá um derradeiro poema, a morte não existe, ó bem amada, o corpo é reles envoltório e de novo te encontrarei e serás finalmente minha pois te desejo desde há cinco mil anos quando, escravo, te reconheci princesa maia e o amor custou-me a vida; quis-te livrar de um monastério na Idade Média e fui atirado ao calabouço, amarrado de correntes, preso às rodas: segui tuas pegadas nos rios do Indostão e o meu corpo apodrecido boiou nas águas; te reencontrei um dia, pastora de cabras, saltando sobre as pedras.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Rita Lee - Amor e Sexo



Epitáfio - Titãs





O MEDO CAUSADO PELA INTELIGÊNCIA




Quando Winston Churchil, ainda jovem, acabou de pronunciar o seu primeiro discurso na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu desempenho naquela assembleia de vedetas políticas.

O velho pôs a mão no ombro de Churchil e disse-lhe em tom paternal:

- “Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi demasiado brilhante neste seu primeiro discurso. Isso é imperdoável!

Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco.

Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos. O talento assusta”.

É verdade, a inteligência assusta, especialmente os oportunistas e medíocres ambicioso que se encastelaram em posições políticas e se comportam como num grupo de senhoras burguesas, bem casadas, que boicotam, automaticamente, a entrada de uma jovem bonita no seu círculo.

Têm medo que ela lhes roube os maridos… os outros, que um jovem talentoso lhes roube o poder.

Falta apenas acrescentar que, quando o talento transborda torna-se imparável e Churchil, com inimigos ou sem eles, foi o político europeu mais importante do século XX.

Com um discurso em idênticas circunstâncias, Obama foi catapultado para Presidente dos EUA.

Esperemos, igualmente, que ele venha a ser, pelas boas razões, o político mais importante do mundo no século XXI.

Dont Worry ... Be Happy



Alcione - Mulher Ideal



Armandinho - Quando Deus Te Desenhou




Tieta do Agreste
EPISÓDIO nº 18



FIM DO CAPÍTULO DUAS VEZES INTERROMPIDO. UFA!


Tão simples a advinha, levara longo tempo a resolvê-la pela falta de dados a demora em reunir aquele mínimo de informações.

Desquite, uma das maiores provas de atraso do país, do subdesenvolvimento, indignada, dona Carmosina tem-se empenhado em discussões homéricas com o padre Mariano, com a professora Carlota Alves, com o doutor Caio Vilasboas – vejam só: médico formado, com diploma de faculdade e tão retrógrado! Uma pessoa agarrada à outra a vida toda, mesmo depois de legalmente separada – corpos e bens – sem poder casar de novo! Dona Carmosina lera uma estatística sobre o número de casais em estado de concubinato – palavrão horrível – no Brasil. Milhões. Vivendo como casados, aceitos, recebidos na sociedade, o senhor e a senhora fulano de tal, mas sem os direitos da lei. Esposa, não, concubina. Dona Carmosina encontra a solução, tão simples. Com o mínimo de pistas e o poder de decisão, chega a resposta da advinha. Antonieta vive com o ricaço como casada mas sem o ser realmente.

Admitida pela família, inclusive pelas filhas dele – referia-se mais de uma vez às enteadas e às sobrinhas do Comendador – mas impossibilitada de legitimar a união por ser ele desquitado. Conhecedora dos preconceitos de Agreste, o pai a esperá-la na escuridão, ao lado da janela aberta, de cajado em punho, a surra acordando a rua inteira, Tieta se fecha em copas, envolve marido e casamento em mistério e silêncio. Faz bem.

Certa ocasião, apareceu um fiscal de rendas em Agreste acompanhado da mulher, senhora distinta, agradável, educada por demais, mãe de um casal de gémeos. De começo muito bem recebidos, até que a senhora contou ingenuamente serem desquitados, ela e o marido, vivendo juntos e felizes há mais de dez anos, As portas se fecharam, as caras também. Tiveram de ir embora, em Agreste casamento tem que ser com juiz e padre senão não vale. Faz muito bem Antonieta em reservar-se, em manter a sua vida conjugal distante dos linguarudos da cidade, a começar por Perpétua. Dona Carmosina gostaria de ver a tromba de Perpétua, se um dia viesse a saber. Ia engolir a língua.

Para dona Carmosina, se o casal vive bem é o que importa, sendo de somenos padre e juiz, véu e grinalda. Ela própria desistiu há muito de qualquer exigência: marido ou seja lá o que seja, solteiro, viúvo desquitado, casado com mulher e filhos, desde que varão com olhos postos nela e disposto a ir em frente, dona Carmosina estará de acordo. Em colchão de plumas, ou na beira do rio, nos matos. Se lhe fosse dado a escolher, Osnar seria o felizardo. Na falta, serve outro qualquer. Infelizmente, nem Osnar nem outro qualquer.

Esquece, porém, as decepções de amor e os problemas relacionados com a demora da carta de Antonieta, ao enxergar, vindo da feira, o Comandante. Levanta-se, chega à porta, acena com o jornal. Quando ele se aproxima, ela vibra:

- Guardei para você ler. Vai-lhe interessar.

O comandante Dário toma da página, dona Carmosina indica o artigo. Começa a ler para si mas o assunto sem dúvida o empolga, eleva a voz: … as transformações políticas que marcaram a Europa ultimamente fizeram passar quase despercebido um acontecimento para os defensores do meio ambiente em todo o mundo: a condenação à prisão do presidente e de quatro directores da maior indústria química italiana, a Sociedade Montedison, acusada de poluir as águas do mar Mediterrâneo…

Abre-se largo sorriso no rosto do Comandante:

- Esse juiz é dos meus! Italiano topetudo! - prossegue na leitura: … o objecto do debate: a fábrica de dióxido de titânio de Scarlino, inaugurada com entusiasmo pelos pobres moradores desta província toscana e constantemente marcada por greves e interrupções do trabalho dos seus quinhentos empregados…

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Maria Betânia - Negue



Maria Betânia - Olhos Nos Olhos



Caetano Veloso - Você Não Me Ensinou a Te Esquecer



Alcione - Você Me Vira a Cabeça




Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 17


OUTRA VEZ O CHATO, NA HORA DO DESCANSO


Um rápido parêntesis – não me demoro – para revelar factos condenáveis, iluminar com o facho da verdade detalhes obscuros, desmascarando, mais uma vez a senhorita Carmosina Sluizer da Consolação.

Não creiam que a pérsia, que não lhe tenho estima. Ao contrário, reconheço-lhe qualidades e louvo os motivos capazes de a levar a violar a lei dos homens e a lei de Deus, quando generosos ou nobres. Quanto a persegui-la, quem ousaria em Agreste? Nem o coronel Artur de Tapitanga, nem Ascânio Trindade, tão cumpridor da lei. Com Ascânio ela redige cartas aos jornais da capital, petições ao governa do Estado, reclamando ajuda para Agreste. Inúteis, cartas e petições.

Há mais de quinze anos – dos vinte e três de sua nomeação para os Correios e Telégrafos – funciona o ilegal esquema estabelecido por ela e por Canuto Tavares, o outro funcionário da Agência, proprietário da oficina de consertos em Esplanada, onde ganha bons cobres, habilidoso com ele só.

Permanecesse em Agreste, não progrediria, vegetando a vida inteira, limitado ao magro ordenado de telegrafista em Agência de última classe; decidiu abandonar o emprego, mudar-se de vez, levando as ferramentas e a ambição. Ao saber da decisão do colega, Carmosina propôs-lhe barganha capaz de beneficiar os dois: Canuto iria tranquilo cuidar da oficina em Esplanada, onde ganha bons cobres deixando exclusivamente por conta dela o funcionamento da Agência dos Correios e Telégrafos de Sant’Ana do Agreste, afinal não era trabalho de matar ninguém, em troca ele lhe daria metade do ordenado. Para Canuto, disposto a demitir-se, a proposta caiu como sopa no mel. Para Carmosina nem se fala: aumentando-lhe a renda necessária ao sustento da casa – para o qual dona Milú já não podia concorrer devido à idade: parteira quase aposentada, ainda pegava menino, mas de raro em raro – deixava-a senhora única e absoluta de cartas, telegramas, encomendas, revistas e jornais, da vida, da cidade e do mundo. Funciona o arranjo há mais de quinze anos – ela saberia dizer exactamente quantos, anos e meses – e em nenhum momento passou pela cabeça de alguém denunciar o escandaloso envio do livro de ponto da repartição a esplanada para recolher a assinatura de Canuto, levado em mão própria por Jairo. Quem ousaria?

Nela, o que me desgosta é a parcialidade. Queria ver como agiria Carmosina se um dos filhos de Perpétua morresse e a mãe quisesse esconder o facto de Antonieta para conservar a ajuda pontual e íntegra. Se teria idêntico comportamento ao que teve quando Elisa entrou na Agência em desespero devido à morte de Toninho. Dona Carmosina a consolara, o inocente deixara de padecer, ruim de saúde desde o nascimento. Dona Milú ao retirá-lo do ventre de Elisa se assustara, parecia um feto em formação, verdadeiro milagre ter vivido tanto tempo. Não adiantaram médico e remédio, pagos com as remessas de Tieta, a ida a Esplanada para consultar doutor Joelson, especialista em crianças. O pediatra balançara a cabeça: nem adianta receitar. O pobrezinho descansou e você também, quantas noites sem dormir? Mas nem assim Elisa se acalma.

Além de perder Toninho – por mais enfermo e raquítico, era filho e consolo – perdia a ajuda da irmã, o dinheiro mensal destinado ao leite, aos remédios, aos médicos, à futura educação do sobrinho, e não a cosméticos, revistas, sessões semanais de cinema, pilhas para rádio. Com Toninho partia para toda a eternidade essas regalias compradas com as sobras da caridade de Tieta. Que fazer, me diga, Carmosina?

Os olhos miúdos, apertados, fitaram Elisa – Carmosina a vira nascer. Dona Milú emérita aparadeira de menino, chamada às pressas no meio da noite para atender Tonha nas dores de parto, a soprar garrafa vazia a mando do Zé Esteves, levara a filha de ajudante. Carmosina e Tieta ferveram água, auxiliaram e assistiram a delivrança. Perpétua, pudica, trancara-se a rezar. Cada qual ajuda à sua maneira.

Meninota, no caminho para a escola, Elisa vinha pedir a sua bênção à sua mãe de umbigo, dona Milú; regalava-se com queimados de goiaba e coco, uma gostusura. Carmosina foi quem primeiro recordou a Elisa a existência de Tieta, cujo nome a família jamais pronunciava. Tema escandaloso, mas Carmosina arranjava maneira de lembrar a amiga. Ao contar um caso, referia-lhe o apelido e boniteza: Tieta, tua irmã, estava comigo, bonita de dar gosto. Também Elisa crescera bonita de dar gosto, casara, parira; Carmosina a vira nascer. Elegante no vestido enviado por Antonieta, desesperada, nem sequer o filho doente para cuidar, que fazer? Desditosa era o objectivo certo. Carmosina aproxima-se, murmura:
- Não mande contar nada…

- Hein?

- Faça como se Toninho não tivesse morrido…

- E se Perpétua fuxicar? Você conhece ela, toda moralista: não tolera mentiras, vive dizendo.

- Se ela ameaçar, você ameaça também: quem tem mais podres a esconder? Ou você pensa que ela fala a Tieta das casas, dos alugueis, da herança do major? Diz que deposita na Caixa o dinheiro que Tieta manda para as despesas dos meninos porque não lhe faz falta? Diz, uma ova.

Comprove-se a falta de Carmosina a aconselhar mentira e chantagem à amiga em beco sem saída. Falta de honradez também: a par do conteúdo das cartas de Perpétua por abuso de poder não lhe cabe o direito de utilizar tal conhecimento. Mas Carmosina não liga importância aos conceitos de moral, às regras de honradez. Não somente aconselha, dirige e intriga:

- Deixe Perpétua comigo. Eu mesmo falo com ela.

Perpétua ergueu os olhos para o céu a pedir ao senhor perdão do pecado, descerrou os lábios:

- Por mim não vai saber. Se Antonieta cortar o dinheiro que lhe dá, no fim quem vai ter de aguentar com ela e o marido sou eu.

Motivo justo, correcto, Perpétua é osso duro de roer, não se deixa chantagear. Carmosina ri de leve, um riso de criança, tão inocente:

- Por isso ou pelo resto, o importante é calar o bico.

Mais um detalhe e vou-me embora. Lembram-se da carta de Ricardo pedindo bola de futebol, recomendando segredo à tia? Ao recordá-la, Carmosina por pouco deixa escapar a revelação: também ela escrevera a Antonieta, rememorando os dias da adolescência, a antiga amizade, enviando lembranças de dona Milú que não a esquece. Além de um pedido: podia Antonieta comprar em São Paulo e lhe remeter, dizendo quanto custara, um bom, o melhor Dicionário de Rimas à venda nas livrarias? Não mandava comprar em Aracajú ou na Baía, para evitar mexericos. Não tardou a receber o livro com uma dedicatória: Para a querida amiga Carmô, pálida lembrança da amiga Tieta.

Madrugada adentro, à luz do candeeiro, na calada da noite, Carmosina escreve versos, com sílabas, rima ressonar com Osnar, pejo com desejo.

Agora que os senhores sabem, eu os deixo novamente na Agência dos Correios e Telégrafos, ou melhor, no Areópago. Até breve.

domingo, janeiro 11, 2009

Alcione - Quem é Você ?



Something Stupid - Frank Sinatra





Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº16



Além das notícias, perguntas: ela, Antonieta, que fazia? Qual o endereço completo? Mandasse contar tudo, timtim por tintim.

A resposta não tardou sequer um mês. Antonieta enviou um cheque em nome do major, pedindo-lhe o favor de descontá-lo e entregar o dinheiro a Zé Esteves, destinava-se a ajudar o pai e a madrasta nas despesas. O pai podia contar com aquele auxílio mensalmente. O valor do cheque despertou atenção e cobiça: dinheiro grosso, bem mais do que o casal necessitava para pagar o casebre onde habitava, mesmo pondo em dia os alugueis atrasados, para a comida e para a cachaça medida mas indispensável à dieta do Zé Esteves. Perpétua insinuara divisão da ajuda mas um olhar do velho, o bastão erguido em arma de guerra, foi suficiente para encerrar o assunto. Para evitar a ida do Major a Alagoinhas, onde fica a mais próxima agenda do banco, seu Modesto Pires, dono do curtume, fez o favor de descontar o cheque. Esse primeiro e todos os demais.

Quanto às perguntas nem sombra de resposta, resumindo-se Antonieta a informar que graças a Deus gozava de saúde, casara-se e era feliz apesar de não ter filhos. Sobre o marido, nome, profissão, idade, nenhuma palavra. Endereço? Nenhum melhor, mais seguro, do que a Caixa Postal 6211, toda a correspondência para ali dirigida chegaria às suas mãos.

No transcurso de mais de um decénio, as relações epistolares entre Tieta e a família mantiveram-se absolutamente regulares; uma carta por mês de cada lado, a de São Paulo, poucas linhas, papel e envelope de cor, perfumados. Variando a cor de ano para ano, o perfume mudara uma única vez. Mais suave e discreto o último, estrangeiro com certeza.

A quantia do cheque crescendo, não somente por causa da inflação. Quando Elisa teve menino e dona Carmosina acentuara as dificuldades de Astério, Tieta somou à ajuda ao pai certa quantia mensal para o leite do menino e sua futura educação. Fazendo o mesmo quando Perpétua lhe escreveu dramática e, por uma vez na vida, sincera, chorando a morte do marido perfeito, a deixá-la viúva com dois filhos nos braços, necessitada. Boca de siri sobre as casas de aluguer, as economias no banco, mas Tieta já se dera conta da diferença de sorte das irmãs pois mandava para uma e outra importância igual: se Perpétua tinha dois filhos, bem maiores eram as dificuldades de Elisa. Começaram a chegar os pacotes de roupa usada, os presentes de Natal e de aniversário, mas dela e do marido pouco mais soubera.

Muito pouco, quase nada, mas o suficiente para dona Carmosina juntar as peças e desatar o nó.

Há uns nove anos – nove anos e nove meses, exactamente – num número de Carnaval da revista Manchete, dona Carmosina reconheceu, apesar dos cabelos oxigenados, numa fotografia de foliões em plena animação no baile do Teatro Excelsior, na capital paulista. Ali estava ela, bem no centro da foto, feliz, aconchegada e amorosa nos braços de senhor de certa idade, a se acreditar nos cabelos brancos. Infelizmente do cavalheiro via-se apenas as costas, pois dançavam; ela sim, estava de frente, a boca aberta em riso, o rosto franco e brejeiro, uma gentil senhora, não mais a jovem estabanada cuja partida de boleia num caminhão Carmosina testemunhara. Crescera em formosura, opulenta de formas. Jamais fora magricela, sua beleza tinha onde pegar-se.

Dona Carmosina convocou a família inteira, foi uma sensação. Perpétua balouçou a cabeça, concordando. Antonieta, não havia dúvida; engordara e oxigenara os cabelos. Também o velho Zé Esteves reconheceu a filha:

- Tá pimpona, de cabelo pintado, na moda. Deus te acrescente. Minha filha! – olhava as outras duas em desafio. Queria ver quem se atreveria a criticar. Na sua vista, ninguém.

Elisa ficou feito doida, não tinha ideia de como fosse a irmã, de agora em diante podia imaginá-la melhor, tão linda na fantasia de Odalisca. A notícia da descoberta da revista, transmitida em carta de Elisa, trouxe a primeira pista, pois Tieta, na resposta, revelou o pronome do marido: quem a tinha nos braços, no ritmo do samba carnavalesco, era Filipe, seu bem-amado esposo. Filipe de que não disse.

Não muito depois, em carta datada de Curitiba, fez referência aos negócios de Filipe, industrial com interesses no Paraná. De outra feita, desculpando-se, atribuiu a demora do envio do cheque – uma semana de atraso – à enfermidade do comendador a cuja cabeceira a dedicada esposa dera tempo integral. Filipe, industrial e comendador.

Para Perpétua bastava; aliás bastava-lhe o cheque, sendo o resto supérfluo. Elisa, ao contrário, desejava saber mais, muito mais. Durante horas inteiras comentava com Carmosina as reservas da irmã: tem vergonha de nós, medo que a gente abuse da bondade dela. Esquiva-se, no fundo com razão.

Com razão, dona Carmosina é quem mais sabe. Tieta saíra corrida – aqui não é casa de puta! – moída com pancada por denúncia de irmã mais velha. Boa demais, isso é o que ela é, pois esquecera vexame, delação, a surra, o cajado de marmelo para vir em socorro da família. Boa demais, um anjo, concordava dona Carmosina. Quanto ao motivo das reservas e das reticências a agente dos Correios e Telégrafos silenciava: sobre esse assunto traçara, em segredo, teoria própria.

Reuniu dados, indícios, pistas, mistério digno de Hercule Poirot. Dona Carmosina o resolveu em definitivo quando começaram a chegar as encomendas postais com os elegantes vestidos, as saias e blusas finas, de medidas diversas.

Antonieta, em breve frase, explicara a razão dos diferentes talhes: estou mandando uns vestidos quase novos, meus e de minhas enteadas. Enteadas, notem bem, filhas do comendador Filipe mas não dela, que não tinha filhos. Claro, como a luz do dia, dona Carmosina Sherlock Holmes. Quem, em Agreste, a iguala, suplanta em inteligência?

Dissolução do vínculo conjugal com separação de corpos e bens, oito letras, divórcio.

Divórcio ou desquite, no Brasil não há divórcio, este país mais atrasado!, e eis a explicação certa e correcta, não há outra.

E aqui façamos nova pausa, um pouco de suspense, próprio dos folhetins.

Voltaremos após os comerciais, como dizem os locutores quando, no melhor da intriga, no momento mais empolgante, interrompem as novelas radiofónicas para anunciarem sabão em pó e marcas de cigarro, deixando Elisa trémula e vibrante.

Eu Não Existo Sem Você - Maisa



Perry Como - It's Impossible




Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 15

CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO INTERROMPIDO


Quando Perpétua casou, dona Carmosina teve um alento de esperança. Se Perpétua, mais velha, mais feia – pois simpatia também marca ponto em concurso de miss – mas com aquela cara de prisão de ventre crónica, sem graça, ressentida, encontrara quem a quisesse, quem lhe pedisse a mão em casamento e a levasse ao altar de véu e grinalda, figura ridícula!, cabia a Carmosina, mais moça, inteligente, culta, cultíssima! risonha e cordial, ao demais cozinheira de mão cheia, o direito a sonhar, a não cair em desespero.

Ah!, Major Cupertino Batista existiu um só, milagres não se repetem. Reformado por motivos de saúde, cinquentão asmático e cardíaco, curto de entendimento, duro de cabeça, obtuso, um bobo alegre, nem por tudo isso partido desprezível. Solteiro, tinha economias, reservas monetárias e físicas: ao partir para o reino dos céus deixara Perpétua com dois filhos e herdeira de três casas, além da pensão e do dinheiro a render juros. A herança, Carmosina dava de barato mas – suspira – durante seis anos e um mês, setenta e três meses, duas mil duzentas e vinte e uma noites, contando a do ano bissexto, a bruaca, a desinfeliz – a sortuda, a felizarda! – dormira em cama de casal com um homem ao lado, sob as mesmas cobertas, marido válido até à última gota, pois Perpétua tivera aborto pouco antes do Major bater continência e a festa terminar.

Escreve luxúria letra a letra nos quadrados de jogo das palavras cruzadas, o pensamento voa de Perpétua para Elisa (a pobre, agoniada, esquecera as revistas); de Elisa para Antonieta.

Antonieta, essa sim, merecera a vida conjugal e a fortuna: alegre, divertida, bondosa, um encanto de criatura. Muito chegada à casa de Carmosina, colegas na escola primária; dona Milú, dedicava-lhe particular estima e a defendia quando as más-línguas vinham tosar na pele da moça, melhor dito nas carnes da rapariga. Moça falada, na boca das comadres:

- Aquela já perdeu os tampos há muito…

- Já foi chamada às ordens…

- Moça, aquela sujeitinha? Rapariga é o que ela é… dá para Deus e o mundo…

Dona Milú punha fim à conversa, dispersava o elenco;

- Se ela está dando, dá o que é dela e eu nunca soube que se deitasse com homem por dinheiro, é o corpo que pede. Que pede a ela e a todas, não é mesmo Roberta? As outras não dão, trancam com sete chaves mas só a caixa da periquita. O resto não faz mal, não é isso, Gesilda? Do sovaco ao fiofó, tudo vasculhado.

Parecia mudar de assunto:

- Que apelido mais bonito os rapazes botaram nas tuas gémeas, Francisca. Não sabe? Pois lhe informo: Mãos de Ouro e Prata, achei lindo… - Dona Milú era uma parada!

Quando Tieta, surrada e expulsa partiu no caminhão, Carmosina viera se despedir, a única. Vá dizer adeus a sua amiga, a mãe ordenara. Visíveis as marcas da véspera, o bordão atingira-lhe o rosto, roxas equimoses nas pernas, Tieta não se queixou. Pode ser para meu bem, disse. Acertara.

Nos últimos onze anos e sete meses, raro o dia em que dona Carmosina não recorda Antonieta. Desde a chegada da primeira missiva, acompanhara, carta a carta, a correspondência trocada entre Sant’Ana do Agreste e a Caixa Postal 6211 da Capital de São Paulo. Está por dentro de tudo, sabe mais que as próprias irmãs de Tieta, muito mais. Por conhecimento directo e por dedução.

Vira o cheque engordar ao passar do tempo, com a desvalorização do cruzeiro e as lamúrias das irmãs. Corrigira – na prática redigira – as cartas de Elisa, fraca na gramática; lera as de Perpétua, as de Perpétua e as demais. As irmãs, após a morte do Major, haviam dividido o dever e o prazer das respostas, como dividiam o conteúdo das encomendas postais, vestidos, blusas e saias, camisolas. Perpétua, quando lhe competia escrever, vinha com o envelope fechado, tolice! Dona Carmosina não merecia o ordenado e o privilégio do cargo se não fosse perita em descolar envelopes, ler as páginas num piscar de olhos e por tudo em ordem novamente. Só lhe custava conter o desejo de emendar os erros de português.

Além da indefectível bênção do velho Zé Esteves. Deus te abençoe e te aumente, minha filha, cada carta continha queixas da filha, louvores à querida mana e a curiosidade das irmãs e do cunhado. Antonieta respondia com bilhetes curtos – a letra graúda, o papel caro e chique com um A gótico em alto-relevo – que Elisa e dona Carmosina devoravam juntas, ali mesmo na repartição.

Dona Carmosina lera também a carta de Ricardo, a de Ricardo e outras. Aliás, fora a ingénua epístola do rapaz, pedindo à tia bênção, bola de futebol e discrição que… nada, isso não interessa a ninguém – dona Carmosina afasta a lembrança, retorna às palavras cruzadas: fruta brasileira de origem asiática, cinco letras, fácil demais.

Essa longa correspondência, agora de repente encerrada sem explicação válida, a não ser doença grave ou morte de Tieta, revestia-se de aspectos dignos de atenção e estudo, a começar pela falta de endereço completo da destinatária de São Paulo, rua, número da porta e do apartamento, se vivesse em edifício; apenas uma caixa postal, fria e anónima. Apesar de Agreste não passar de um ovo onde todos se conheciam, tanto Perpétua quanto Elisa apressaram-se a enviar endereços completos. Perpétua Esteves Batista, Praça Desembargador Oliva, número 19; Elisa Esteves Simas Rua do Rosado, 28; inclusive endereço do pai: José Esteves Filho, Beco da Matança, s.n.

E o marido? Sem idade, sem rosto, impalpável. Pronome, comendas, vagas indústrias, os cabelos brancos na foto da revista. Dona Carmosina dedicou grande parte do seu tempo à análise e ao esclarecimento da apaixonante advinha. Reunindo dados, pistas e conjecturando.

O Major, ainda vivo, encarregara-se da resposta inicial mas não chegou ao fim sem pedir auxílio a dona Carmosina. Ela pôs ordem nas notícias, dando ênfase aos factos, quando necessário. Carta longa, relatório abarcando cerca de quinze anos de acontecimentos.

Notícias de toda a família, detalhadas. Do pai, Zé Esteves, beirando os oitenta mas sempre rijo, e de Tonha, a segunda esposa (mais moça do que Perpétua, da idade de Tieta, mas acabada na pobreza e no desleixo, simples apêndice do Velho). Vivia o casal da caridade de filhas e genros, nada possuindo de seu, nem bens nem rendas. Zé Esteves, trapalhão a julgar-se sabido, na ânsia de enganar os outros pusera fora terras , rebanhos de cabras, plantações de mandioca, a casa própria, tudo. Abençoava a filha e a perdoava, pedia-lhe uma esmola. Dona Carmosina modificou a redacção, a forma e o conteúdo, em lugar de Zé Esteves perdoar, pediu perdão à filha, falou da velhice e da pobreza, insinuando ajuda; um pai pode pedir perdão mas não pode pedir esmola aos filhos. Trecho tão comovente, na bela letra do Major, ia tocar o coração de Tieta, a própria dona Carmosina ficara com os olhos húmidos. Sempre tivera jeito para escrever, jeito e vontade. Mas, cadê coragem?

Relato do casamento de Perpétua, nome e título do marido, Major Cupertino Batista, oficial reformado da polícia Militar do Estado, seu cunhado às ordens. Deus abençoara o matrimónio, dera-lhe dois filhos, Ricardo, de cinco anos, Cupertino, dito Peto, de dois, e agora novamente fecundara o ventre de Perpétua, grávida daquele que seria o terceiro se houvesse nascido.

O Major, bom de espoleta, não negava fogo, constatara dona Carmosina, mas não tocou nesse trecho, não queria histórias com Perpétua. Encarregou-se, sim, de descrever o casamento de Elisa, a noiva mais linda já vista em Agreste, com Astério Simas, filho e herdeiro de seu Ananias, aquele da loja de fazendas da Rua da Frente, só que a loja nem parecia a mesma.

Na longínqua e decadente cidade de Sant’Ana do Agreste o comércio reduzira-se a metade naqueles quinze anos. Também a população diminuíra, composta por uma maioria de velhos, pois o clima continuava admirável, prolongando a vida dos que ali se deixavam ficar apesar da pobreza, da falta de recursos e de futuro. O povo só não morria de fome porque o rio e o mangue forneciam com fartura peixes, guaiamus, caranguejos, pitus incomparáveis, e sobravam frutas o ano inteiro: bananas, mangas, jacas, mangabas, pinhas, abacaxis, goiabas e araçás, sapotis e melancias e o coqueiral sem fim e sem dono.

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