sábado, março 13, 2010

VÍDEO

A exibição perfeita

video

THE ARCHIES - SUGAR SUGAR


PEDRO ABRUNHOSA - SE EU FOSSE UM DIA O TEU OLHAR



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS

EPISÓDIO Nº 67

Só faltava encontrar mimo de valia, de encher o olho, não aquelas bugigangas de mascate. Foram encontrá-lo finalmente na Ladeira de São Miguel, no buduar – como dizia pernóstico Mirandão – de Madame Claudette, acabada cortesã sobrevivendo à custa de mínima clientela de colegiais, que a frequentavam devido à sua nacionalidade francesa e a propalados requintes, tudo muito parisiense e a baixo preço.

Colar de turquesas de um azul realmente tão famoso a ponto de Vadinho e Mirandão sentirem o impacto dessa beleza ilustre e seu fascínio. Todo em ouro trabalhado; a velha marafona o apertava entre os dedos como a defendê-lo. Era uma jóia de família, segredava, ela a trouxera da Europa, fora usada por sua mãe e por sua avó, tinha um duplo valor. Só mesmo muito dinheiro podia levá-la a desfazer-se daquela preciosidade, recordação de um mundo perdido na Lorraine e na infância. Só por muito, muito dinheiro; “le petit Vadinho, le pauvre” nunca tocara quantia tão grande e, se um dia a obtivesse, não a iria gastar em adorno de mulher. Quando fizera Vadinho caso de dinheiro, Madame? Mesmo limpo, no miserê, a nenhum, sem tostão furado, nem assim dava valor ao dinheiro, e se o buscava em insensato afã era para jogá-lo na roleta. Arrancava num ímpeto as cédulas dos bolsos cheios.

Quase ficam vazios: os olhinhos de Madame Claudette se acendiam de cobiça atrás da máscara de pó de arroz e creme, aquela múmia fremia à vista de notas de cem e de duzentos.

O táxi do cigano o deixou à porta de casa às onze e quarenta, antes da meia-noite, como ele queria. Dona Flor apenas teve tempo de fechar os olhos e ressonar de leve e já Vadinho estava no quarto, arrancando o lençol a esconder o corpo da esposa, pondo-lhe fulgurações de turquesas entre os seios túmidos, a rir numa gaitada:

- E tu não queria me emprestar dinheiro, sinhá tola… – esparzia as cédulas pela cama, ainda lhe sobrara mais de dois contos de réis.

Como dizer “torvo destino” para quem era assim alegre jogador a sorrir na sorte e no azar, cheio de alegria de viver?

Torvo destino talvez na opinião de dona Flor, de seu ponto de vista, de seu posto de observação ou, para melhor esclarecer, de seu posto de espera. Torvo para dona Flor no leito a esperar.

A esperá-lo durante sete anos, uma vida. Dona Flor chorou muitas lágrimas naqueles anos, vadiou também muita vadiação; os doces momentos de ternura e posse buscando compensar as horas amargas de ausência e humilhação.

Um dia, dona Gisa, com suas fumaças de psicologia, psicanálise, psicografia e outras invencionices norte-americanas, explicou-lhe ser ela, dona Flor, casada com um excepcional – não excepcional no sentido em que dona Flor usava o termo, como sinónimo de grande, de maior, de melhor de
todos, nada disso.

sexta-feira, março 12, 2010

DEMIS ROUSOS - SPRING, SUMMER, WINTER AND FALL


THE MOODY BLUES - NIGHTS IN WHITE SATIN



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS

Episódio Nº 66



Uma agonia, sem dúvida, quando a bola girava na roleta, o coração apertado em ansiedade, mas uma agonia gostosa. Jamais lhe ocorreu o vislumbre sequer de uma ideia suicida; nunca o nobre remordimento a devorar-lhe o peito; nunca a voz trágica da consciência a acusá-lo; imune a toda essa série espantosa de horrores a infelicitar a vida dos desgraçados que se deixam jugular ao vício da batota. É uma lástima, porém, que fazer se era assim? Impossível apresentar Vadinho sob tão simpática luz: como jogador acorrentado à sina irrevogável, odiando-se a si mesmo, querendo libertar-se e não poder, a remir-se com um tiro nas têmporas à saída do casino.

Era um destino tenso e rude, um destino de macho, isso certamente. Nenhum frouxo aguentaria aquela batalha a cada noite e a cada instante da noite, mas nunca Vadinho fizera de emocionante embate uma catástrofe de crimes e remorsos, infortúnio sinistro e irremediável. Sinistro? Era variado e divertido o seu destino. Irremediável? Sempre havia alguém para lhe emprestar dinheiro; incrível como tanta gente se decidia a fazê-lo. Quem sabe, faziam-no para assim arriscar-se no jogo sem ir aos casinos proibidos, às espeluncas mal afamadas? Destino de fundas e exaltantes emoções.

Como naquela noite de Agosto de início tão ruim: ele tentando afanar o dinheiro de dona Flor, ela resistindo, era o dinheiro das despesas, e a discussão, os desaforos, as queixas, os gritos, os insultos. Soltara, finalmente, trinta míseros mil-réis e com eles Vadinho iniciou a gloriosa marcha. No Abaixadinho os dados rolavam na “lebre francesa”. Vadinho colocou dez mil-réis no grande – só apostava no grande – e o chorrilho teve começo. Deu grande, acredite-se ou não, catorze vezes seguidas e Vadinho mantendo as apostas, rodeado por uma nervosa aglomeração de jogadores e meretrizes, disposto a sustentar o grande até o fim dos séculos. Ao saber, Mirandão veio correndo como um doido da outra onde jogava ronda, e gritou-lhe:

- Pare pelo amor de seus filhos, que a sorte vai virar.

Vadinho não tinha filhos e não ia parar, mas Mirandão que os tinha metera a mão nas fichas e as retirara ele próprio, empurrando Vadinho, levando-o dali. Com razão, pois deu o pequeno e depois deu gata, novamente o pequeno e gata outra vez, enquanto Vadinho saía a contra gosto e opulento.

Naquela noite, os bolsos abarrotados, recordando dona Flor a lhe dizer, em prantos, “você não presta mesmo, não vale nada e não gosta nem um pingo de mim”, ele desejou chegar a casa ainda cedo e com um presente, mas um presente de arromba, não uma pinóia qualquer. Um colar, um anel, uma pulseira, uma jóia de valor. Onde porém adquiri-la, se o comércio estava fechado. Quem sabe, opinou Mirandão, conseguiria ele um troço vistoso com uma quenga da zona? Mulheres damas, por vezes, recebem valiosas dádivas, quando enxodosadas com um coronel do cacau ou fazendeiro do serão aproveitam-se para encher seu pé-de-meia, algumas até deixam de fazer a vida, estabelecendo-se com salões de beleza ou armarinhos. Mirandão conhecia duas que terminaram por se casar e deram senhoras honestíssimas.

Saíram a procurar, correram ceca e Meca, de cabaré em cabaré, de castelo em castelo, de pensão em pensão, e onde chegavam iam baixando cerveja, vermute e conhaque para quem quisesse beber, as despesas por conta de Vadinho.
´
Expuseram e revolveram os pobres enfeites de dezenas de raparigas, não encontravam senão quinquilharias, metal cromado, vidro colorido, latão – e a noite a avançar.

“Quero chegar cedo, fazer uma surpresa completa” Vadinho com pressa, vexado, antegozando a
cara de dona Flor ao vê-lo antes da meia-noite, de presente na mão.

quinta-feira, março 11, 2010

VÍDEO

As crianças de hoje são perfeitamente surprendentes... ou apenas revelam aspectos da sociedade em que são criadas.

video

NANA MOUSKOURI - AMAPOULA

JULIO IGLESIAS - CAMINITO



DONA

FLOR

E SEUS

DOIS

MARIDOS

EPISÓDIO Nº 65

Nos tempos em que o jogo funcionava à tarde e à noite no Tabaris, Vadinho nem vinha jantar. Comia uma besteira qualquer, um acarajé, um abará, um sanduíche, indo cear alta madrugada, quando a última porta se fechava na derradeira arapuca… Os mais renitentes – ele, Giovani, Anacreon, Mirabeau Sampaio, Meia Porção, o negro Arigof, elegante como um príncipe de romance russo – saíam em grupo para a Rampa do Mercado, as Sete Portas, a casa de Andreza, para um fregue-mosca qualquer onde houvesse um caruru de folhas, um vatapá de peixe, cerveja gelada, cachaça pura.

Quando por acaso vinha jantar, era para sair logo depois, antes das nove, sempre apressado. Frustrando as esperanças de dona Flor de vê-lo chegar da rua como os maridos das demais chegavam do trabalho; indo pôr-se à vontade, vestir o pijama, ler os jornais, comentar os factos, convidá-la talvez para uma visita ou para um cinema. Quanto tempo ela, pois passava sem ir ao cinema? Era preciso que dona Norma a arrastasse à matiné pois com Vadinho era tão raro – raro e inesperado – decorriam meses sem saírem juntos. Nunca deixou de lhe perguntar, no entanto, ao vê-lo despir o paletó e afrouxar o nó da gravata:

- Hoje tu não sai mais, não é?

Vadinho sorria antes de responder:

- Saio mas volto logo, meu bem. Não demora nada, tenho um compromisso mas é rápido… - resposta também invariável.

Certas vezes chegava antes do jantar mas com outro objectivo. Nos dias da total derrota: quando ao cair da tarde, nada havia obtido, fracasso absoluto em todas as tentativas; falho o palpite do bicho, insensíveis os gerentes dos bancos, sumidos os avalistas, ninguém para morder. Nesses dias de caiporismo sem jeito vinha para casa azucrinado. Ele, sempre tão glutão, amando saborear os quitutes de dona Flor, suas receitas sem igual, nessas tardes comia em silêncio, inquieto, e comia pouco, às carreiras, sem ligar à comida. Lançava olhares sorrateiros à esposa como a medir-lhe o humor a sua receptividade. Porque vinha para lhe pedir dinheiro, sempre emprestado, é claro, com formais promessas de pagamento, todas até hoje por cumprir. E ela terminava entregando-lhe algum, por bem ou por mal; em certas ocasiões em doloroso e mesmo sórdido constrangimento. Eram os dias do pior Vadinho, quando ele se vestia de brutalidade e irritação, quando seu encanto e graça davam lugar a uma cruel estupidez.

Dona flor sabia, antes mesmo de ele pronunciar uma só palavra, de suas intenções malsãs. Ele chegava de molesto na rua, um surdo enfado a marcar-lhe o rosto. Naqueles anos ele aprendera a conhecê-lo nos mínimos detalhes, desde o peso e a cadencia do seu passo até ao brilho matreiro de seus olhos quando os punha numa fêmea qualquer, nas rumorosas alunas, no decote de dona Gisa, ou, indo com dona Flor pela rua, em quantas encontrava, a despi-las mais ou menos conforme mais ou menos elas o merecessem por bonitas ou feias.

Distribuía-se Vadinho no correr da tarde em busca de fundos para as apostas, vinha ou não jantar, carinhoso ou brusco, e, com a noite, rumava para seu torvo destino.

Torvo? Não se aplicavam à natureza de Vadinho nem cabiam em sua realidade adjectivos assim tão solenes e lúgubres. Destino nocturno, sim, mas torvo não. Em Vadinho não assentavam as sombras e os negrumes, as angústias e os dramas tão ao sabor das virtuosas campanhas contra o
jogo. Não lhe tremiam as mãos ao depositar as fichas nem uivava de remorso pela madrugada.

VÍDEO

Coisas de gatos...

video

JÚLIO IGLESIAS - MILONGA MEDLEY


LIONEL RICHIE - DO IT TO ME


quarta-feira, março 10, 2010



DONA FLOR
E SEUS
DOIS

MARIDOS


EPISÓDIO Nº 64




Dona Flor continuava em vigília e em desejo, sentindo o corpo de Vadinho contra o seu a estremecer no sonho, persistindo em jogar e ainda perdendo. A dormir, repetia números na danação da roleta: “dezassete, dezoito, vinte, vinte e três, seus quatro números fatais. Ou reclamava com raiva: deu gata. Flor seguia as variações de seu sonho, e o via a apostar na “lebre francesa”, melhor dito no “grande e pequeno”, o banqueiro levando as fichas de todo o mundo, pois dera gata. Ela acabara por conhecer toda a nomenclatura, a gíria, a louca matemática e a secreta sedução das arapucas do jogo. E assim, pela madrugada, ela o protegia contra o mundo, contra as fichas e os dados, contra os crupiês, contra o azar. Cobria-o com o seu corpo e o acalentava, assim dormindo Vadinho era uma criança loira, um menino grande.

Sucedia também ele não vir, prosseguindo a espera dia afora, prolongando-se na noite seguinte, já apodrecida em humilhação. Ao vê-la silenciosa e triste, as alunas evitavam as perguntas molestas para não desatar confusas lágrimas de pejo. Entre si comentavam em ásperas críticas à conduta e má vida do trampolineiro. Como tinha coragem de fazer chorar tão boa esposa? Mas bastava ele surgir com sua voz matreira, suas lérias, sua velhacaria, e velas, quase todas, se derretiam assanhadas, uma coceira no rabo e no xibiu.

Durante o dia, Vadinho multiplicava-se em esforço e correria, por vezes em desespero, para arranjar numerário para o jogo; em mesa de roleta não tem fiado, ficha só se vende à vista. Rondava pelos bancos, zanzando em torno aos gerentes e subgerentes, para garantir o desconto de uma promissória; cheio de astúcias ao dobrar e convencer hipotéticos avalistas para esse prometido desconto, ou para arrancar quase à força e a juros absurdos umas centenas de mil-réis das unhas somíticas de um agiota. Capaz de levar uma tarde inteira junto a um sovina qualquer, daqueles difíceis na queda, tinha certa satisfação em vencê-los, vendo-os finalmente tomar da caneta e apor a assinatura na letra promissória, sem forças para maior resistências. Avalizar um título ou dar um dinheiro, era a mesma coisa. Aliás, alguns mais práticos, assim resolviam o assunto: Vadinho aparecia com uma letra de um conto de réis a pedir aval, a vítima soltava-lhe uma nota de cem ou de duzentos para se ver livre. Porque senão, corria o perigo de assinar e, trinta ou sessenta dias depois, encontrar-se às voltas com um título vencido e sem pagamento. Perigo sério porque Vadinho não dava sopa a ninguém. Para resistir à sua lábia mais do que avareza, era preciso um zarro de inabaláveis convicções ideológicas, um insensível aos dramas da vida, um fanático, um sectário sem coração. Como o italiano Guilherme Ricci, da Ladeira do Taboão, da lendária canguinhez. Impávido, levou anos resistindo a Vadinho.

Outro a resistir com brilho foi o livreiro Dmeval Chaves, naquele tempo ainda simples gerente de livraria, não o ricaço de hoje. Mas um dia Vadinho colou-se a ele pela manhã, almoçaram juntos, entraram pela tarde, a aperreá-lo seis horas seguidas, tempo controlado por Mirandão em seu autêntico relógio suíço. Tonto, os ouvidos cansados, rendeu-se o esperto Dmenval:

- Vadinho, eu lhe juro que esta é a primeira letra que eu avalizo em toda a minha vida…

- Pois começa bem, meu velho, não podia começar melhor. É uma estreia de primeira ordem, agora é só continuar. Aliás, quem avaliza uma vez título, não para mais, toma gosto…

Saiu correndo para o banco, deixando o gordo gerente de boca aberta, adernado sobre o balcão de livros, jururu, sem ainda entender a razão do gesto louco, de autógrafo absurdo.


terça-feira, março 09, 2010


NÂO É JUSTO...


" Depois dos 40 anos, a única coisa que o médico deixa um homem comer com gordura, é a sua própria mulher ... "

VÍDEO

Isto é que são manobras...

video

FÁBIO JR. - RIO E CANOA


JOANA - VENDAVAL

Já não falta muito...



DONA


FLOR


E SEUS


DOIS


MARIDOS


EPISÓDIO Nº 63



Sete anos decorreram entre aquelas primeiras lágrimas choradas por dona Flor na noite de núpcias e as da aflita manhã de domingo gordo quando Vadinho caiu sem vida em meio de um samba de roda, entre fantasias e máscaras. E, como bem disse dona Gisa – senhora de bem dizer as coisas, adrede e com exacto a propósito – ao ver o corpo do moço estendido nas pedras do Largo Dois de Julho, já de todo e para sempre morto; a esposa chorara naqueles sete anos por seus insignificantes pecados e pelos do marido – pesada carga de culpas e malfeitos – e ainda sobravam lágrimas. Lágrimas de vergonha e sofrimento, de dor e humilhação.

Derramadas sobretudo à noite. Noites ermas da presença de Vadinho, noites insones de espera, longas de passar como se a aurora como se a aurora recuasse para os limites do inferno. Por vezes a chuva cantava seu acalanto nos telhados, o frio a pedir corpo de homem, quentura de um peito com mata de pêlos, abrigo em braços fortes. Dona Flor em vigília, impossível adormecer; o desejo de tê-lo a seu lado era uma ferida exposta. Estremecia em arrepios, num desconforto de tristeza, naquela cama cheia apenas de ânsia e abandono.

Com Vadinho presente – ah!, com Vadinho presente nem frio nem tristeza. Dela vinha um calor alegre a subir das pernas para o rosto de dona Flor e a noite se abria em júbilo. Dona Flor sentia-se agasalhada e festiva, um pouco irresponsável como se houvesse bebido um copo de vinho ou um cálice de licor. A presença nocturna de Vadinho a embriagava, vinho de buquê inebriante, como resistir à sedução de sua boca de palavras e língua? Eram noites de exaltado ímpeto, feéricas noites de aleluia.

Escassas, porém, essas noites em que o tinha sem sair após o jantar, estirado no sofá, a cabeça em seu colo, a ouvir o rádio, a contar-lhe histórias, a mão indiscreta a cutucá-la, a bulir com ela, tentando-a; e logo cedo no leito de ferro, na longa cavalgada. Aconteciam de raro em raro. Quando ele, num enjoo repentino e imprevisível, abandonava por três, quatro dias, por toda uma semana, a estroinice, a baderna, a cachaça e o jogo e permanecia em casa.

Dormindo a maior parte do tempo, futucando nos armários, abusando as alunas, exigindo dona Flor para vadiar a qualquer hora, mesmo nas mais impróprias e indiscretas. Dias curtos e cheios esses, com o doidivanas a remexer tudo, o riso trêfego a ressoar pelo corredor, na janela em prosa com os vizinhos, ouvindo ralhos de dona norma, em longos bolodórios com dona Gisa, enchendo de movimento e alegria o lar e a rua. Contadas a dedo essas noites inteiras de vertigem e euforia, de riso incontido e cócegas, cafunés, cariciosas palavras e o baque dos corpos desatados no leito de ferro.

“Meu doce de coco, minha flor de manjericão, sal de minha vida, minha quirica pelada, tua xoxota é meu favo de mel”, que ele dizia, ai as coisas que ele dizia, nem te conto seu mano!

Repetidas com infindável rosário as noites de espera, essas sim. Dona Flor dormia sobressaltada, acordando ao menor ruído; ou de todo sem
dormir, encostada em ira e dor nos travesseiros até adivinhar-lhe o passo ainda distante e ouvir a chave na fechadura. Pela maneira como a porta era aberta ela sabia da altura da cachaça e do resultado do jogo. Fechava os olhos a fingir-se adormecida.

Por vezes ele chegava de madrugada e ela o recolhia em sua ternura, agasalhava seu sono tardio. O rosto fatigado, um sorriso vencido, ele se enrolava como um novelo na concha do seu corpo. Dona Flor engolia as lágrimas para Vadinho não se dar conta do choro e da tristeza: ele já tinha muito com que se amofinar, os nervos rotos na emoção da batalha contra a má sorte. Quase sempre bebido, várias vezes bêbado, adormecia de imediato, não sem lhe correr a mão numa
carícia e murmurar:”Minha negra pelada, hoje me enterrei mas amanhã tiro a forra…”

segunda-feira, março 08, 2010


A minha próxima vida

Woody Allen


Na minha próxima vida quero vivê-la de trás pra frente.

Começar morto para despachar logo esse assunto.

Depois acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.

Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a aposentação e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.

Trabalhar durante 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo, e depois estar pronto para o secundário e para o primário, antes de virar criança e só brincar, sem responsabilidades.

Aí viro um bebê inocente até nascer.

Por fim, passo 9 meses flutuando num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quarto a disposição e espaço maior dia a dia, e depois - Voilà! - desapareço num orgasmo!

VÍDEO

A NOSSA CASA, O PLANETA TERRA.

video

ROBERTO CARLOS - ABRAZAME ASÍ

WILSON PHILLIPS - DANIEL



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 62




A presença do Delegado Auxiliar levou Thales Porto a comentar para dona Lita: nem tudo era balela na história tramada pelos capadócios para debicar de dona Rozilda. O parentesco de Vadinho com o importante Guimarães, isso pelo menos não era invenção.

Celebrou a cerimónia religiosa dom Clemente, capelão de Santa Tereza, graças a um pedido de dona Norma, Vadinho exibia a sua vistosa elegância de cabaré, Flor toda em azul e em sorrisos, os olhos baixos. Dona Norma não conseguira convencê-la a ir de branco, com véu e grinalda, a boba não tivera coragem. As alianças foram as de Mirandão, emprestadas na hora. Na véspera, no Tabaris, haviam feito uma colecta e juntado o dinheiro necessário para Vadinho pagar as alianças já escolhidas na joalheria de Renot. Meia hora mais tarde Vadinho perdeu até ao último tostão em casa de Três Duques. Ainda assim poderia tê-las obtido fiado, se as tivesse ido buscar. O joalheiro, se bem com fama de esperto, não conseguia resistir à lábia de Vadinho, por mais de uma vez lhe emprestara dinheiro. Tresnoitado, porém, o noivo dormira toda a manhã, seguindo às carreiras para o Rio Vermelho no táxi do Cigano.

Quando já deixavam a igreja, surgiu o banqueiro Celestino empunhando um ramalhete de violetas. Foi apresentado a Flor – dona Flor, a partir de agora, como compete a uma senhora casada. Beijou-lhe a mão, desculpou-se com o atraso, acabara de saber, acabara de saber, nem tivera tempo de comprar uma lembrança. Passou discreto uma cédula a Vadinho, os convidados a começar por Chimbo e dom Clemente, vinham pressurosos cumprimentar o manda-chuva português.

Os recém-casados despediram-se no pátio do convento, apenas dona Norma os acompanhou até à nova residência, em cuja fachada já fora suspensa a tabuleta da Escola Sabor e Arte. Na porta de casa, dona Flor convidou a vizinha:

- Entre para conversar um pouquinho…

Dona Norma riu, maliciosa:

- Só se eu fosse bronca… - apontou as nuvens escuras no mar – Está chegando a noite, é hora de dormir…

Vadinho concordara:

- Falou pouco e disse tudo, vizinha. Aliás, para esse assunto eu tenho disposição a qualquer hora, com sol ou de noite, não faço diferença e não cobro extraordinário… - abraçou dona Flor pela cintura, saiu andando com ela pelo corredor e, numa pressa, a ia desabotoando e despindo.

No quarto, derrubou-a em cima da colcha azul-hortênsia, arrancava-lhe combinação e calça. Dona Flor nua, estendida no leito, as primeiras sombras de crepúsculo caindo-lhe sobre os seios erguidos.

- T’esconjuro! – disse Vadinho – Essa coberta que tu arranjou, meu bem, parece mortalha de defunto. Tira isso da cama, minha peladinha, trás aquela de retalhos, em cima dela tu vai parecer ainda mais porreta. Essa a gente guarda para botar no prego, deve dar um dinheirão…

Sobre a colorida colcha de retalhos, muda seu recato, coberta apenas com a meia sombra do crepúsculo, dona Flor finalmente casada. Dona Flor com seu marido Vadinho: ela mesmo o escolhera sem dar ouvidos aos conselhos das pessoas experientes, contra a expressa vontade de sua mãe, e, mesmo antes de casar-se, a ele se entregara sabedora de quem ele era. Podia estar a fazer uma loucura, mas, se não a fizesse, não tinha motivo para viver. Um fogo a consumia, vindo da boca de Vadinho, de seu hálito, e seus dedos queimavam-lhe a carne como chamas. Agora casados, com todo o direito ele a despia, e a seu lado, no leito de ferro, a olhava a sorrir. Seu marido bonito, penugem doirada a cobrir-lhe braços e pernas, mata de pêlos loiros no peito, a cicatriz da navalhada no ombro esquerdo. Estendida junto a ele, dona Flor parecia uma negra, negra e pelada. Nua por dentro também, amargando de desejo, fremente, com pressa, muita pressa, como se Vadinho lhe despisse a alma. Ele dizia coisas, maluquices.

Vadiaram até mais não poder, quando ela então puxou da colcha, se cobriu, adormeceu. Vadinho sorriu e lhe catava o cafuné, Vadinho seu marido. Belo e másculo, terno e bom.

Pela madrugada dona Flor acordou, o despertador à cabeceira marcava duas horas da manhã. Vadinho não estava na cama, dona Flor pôs-se de pé, saiu a procurá-lo pela casa. Vadinho sumira, fora arriscar com certeza os cobres dados pelo banqueiro. Na própria noite de núpcias, era demais. Dona Flor chorou as primeiras lágrimas de casada, rolando no
colchão, roída de desgosto
, rangendo os dentes de desejo.

domingo, março 07, 2010

APRENDER
COM OS
ERROS




O Dr. Alberto João é, em definitivo, “um produto acabado”, irá morrer como sempre viveu: soberbo, autoritário, arrogante, a roçar o prepotente, sem pingo de humildade.

As autoridades regionais conheciam perfeitamente a situação dos riscos que a Ilha da Madeira corria: relatórios de técnicos altamente qualificados, depoimentos de especialistas, estudos elucidativos mas ignorados ou mandados arquivar, tudo foi apelidado, há dias, pelo “grande líder”, como “canalhas” e “abutres”.

Claro, que ninguém de seu perfeito juízo irá afirmar que nada de mal se teria passado na Madeira perante aquelas chuvas diluvianas se as recomendações dos técnicos tivessem sido seguidas, o que se deve dizer é que as autoridades têm a obrigação de adoptar todas as medidas recomendadas nas conclusões desses relatórios e estudos, alguns avalizados pela União Europeia, para tentar diminuir ao mínimo o número de potenciais vítimas quando estas tragédias acontecem.

Mas não haja ilusões: Alberto João já afirmou que tudo irá ser reconstruído tal como estava porque “a sua obra era perfeita”,o que caiu já vinha do tempo da outra senhora” e para assegurar que assim será admite voltar a recandidatar-se… e a solidariedade para com os madeirenses bem pode acabar por ser a solidariedade para com o líder.

Mais de trinta anos a governar a Madeira, Alberto João confunde-se com ela, um e outro são a mesma coisa, e desta forma muita boa gente ficará na dúvida se a reconstrução que terá de ser feita - e ela é uma obrigação do país - irá servir os interesses e a segurança dos nossos compatriotas daquela linda mas perigosa ilha ou, mais uma vez, “promover vaidades e alimentar
egos” como afirma Áurea Sampaio da Revista Visão desta semana num texto de Opinião exactamente intitulado: Aprender com os Erros.

Site Meter