sábado, dezembro 19, 2009

POMBO - MISSÃO IMPOSSÍVEL


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ROUBANDO DISFARÇADAMENTE...

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LIONEL RICHIE - SAY YOU, SAY ME


ERASMO CARLOS - GATINHA MANHOSA


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TIETA DO


AGRESTE



EPISÓDIO Nº 309



DA POLUÍDA VIA SACRA NA LONGA NOITE DE AGRESTE – SEXTA ESTAÇÃO: O JEJUM E A ALELUIA



- Estão dizendo que o negócio dela é pensão de rapariga – Astério chega do lar, fora de horas, desarvorado.

Elisa se alça no leito, os seios saltando da camisola curta e transparente, herdada de Tieta, meia bunda à vista. Astério desvia os olhos. Noite de novidades medonhas, própria para aflição e opróbio, nela não cabem os honestos deveres matrimoniais, muito menos depravados pensamentos.

- Mentira! Pensão de rapariga?

- Isso mesmo: castelo, randevu.

- O que é mais que soube?

- Elas estão em casa de Carmosina. Vão embora amanhã para São Paulo.

Salta do leito, enfia um penhoar também herdado, calça as sandálias, dirige-se resoluta para a porta. Astério primeiro se perturba, depois se comove: Elisa quer despedir-se da irmã, passando por cima de tudo; muito lhe devem, os linguarudos que se danem. Também ele deseja dizer adeus a Tieta. Nem por ser o que é deixa de ser boa irmã, generosa parenta.

- Tu vai ver ela? Também vou.

Elisa volta-se da porta:

- Eu vou é embora com ela.

- Embora com ela? Para São Paulo? – não compreende.

Elisa nem responde, desaparece, a casa de dona Milú fica próxima. Quando percebe Astério a segui-la, apura os passos, acelera a marcha. Corre, ao avistar Tieta chegando da rua, grita:

- Tieta! Mana!

Tieta aguarda na porta, imóvel, o rosto carrancudo, o olhar frio, hierática.

Elisa estende os braços, suplica:

- Me leve com você, mana, não me abandone aqui…

- Já lhe disse…

- Eu quero ser puta em São Paulo. Não me importo.

Astério escuta, perplexo, uma pontada no estômago, a dor aguda. Tieta desvia os olhos da irmã para o cunhado, simpatiza com ele, o bobalhão:

- Cuida da tua mulher, Astério, bota ela na linha, ensina a te respeitar. Uma vez, já lhe disse o que tinha que fazer. Por que não fez?

- Mana, por amor de Deus, não me deixe aqui – Eliza se ajoelha no chão, diante de Tieta.

- Leve ela embora e faça como eu lhe disse, Astério. É agora ou nunca – Por um momento pousa os olhos na irmã e sente pena – A casa fica com vocês. Se precisarem de alguma coisa é só dizer.

Eliza perde por completo o pundonor e a contenção:

- Me leve, Mãezinha, me bote em sua casa de raparigas.

Tieta olha para o cunhado: e então? Astério liberta-se da perplexidade, da dor de estômago, do preconceito, arranca a venda dos olhos, puxa a esposa pelo braço:

- Levanta! Vamos!

- Me solta!

- Levanta! Não ouviu?

Vibra-lhe a mão na cara. Tieta aprova com a cabeça.

- Obrigado, cunhada, por tudo. Até mais ver.

Empurra Elisa, siderada, em direcção à casa, uma das melhores residenciais da cidade, adquirida por Tieta para nela um dia vir esperar a morte, devagar, agora posta à disposição da irmã e do cunhado, em usufruto.

De empurrão em empurrão, chegam ao quarto de dormir. Elisa tenta escapar:

- Não toque em mim.

O bofetão derruba-a na cama. A camisola enrola-se no pescoço, crescem os quadris na vista turva de Astério.

- Quer ser puta, não é? Pois vai ser agora mesmo – estende a mão, arranca-lhe o trapo de nailon, a bunda inteira exposta, tanto tempo de jejum.

- Para começar, vou-te comer o rabo!

Um estremeção percorre o corpo de Elisa. Arregala os olhos. Repulsa, medo, espanto, curiosidade, expectativa? Heroína de novela de rádio, agitada por emoções contraditórias.

Ai, por amor de Deus! Esposa submissa, sobe de costas o abrupto passo, dobra os ombros sob o peso do lenho – entranhas de fogo e mel, vergalho desabrochando em flor, Elisa rompe a aleluia na noite de Agreste. Ai, o Taco de Ouro!

sexta-feira, dezembro 18, 2009

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MULHER NERVOSA...

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JÚLIO IGLESIAS - O AMOR


TONNY CAMPELO - TCHIN TCHIN


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TIETA DO


AGRESTE


EPISÓDIO Nº 308

DA POLUIDA VIA SACRA NA LONGA NOITE DE AGRESTE – QUINTA ESTAÇÃO: ENTRE A CRUZ E A DILIGÊNCIA


Dona Milú e dona Carmosina ocupam-se de Leonora, trocam-lhe a roupa, obrigam-na a deitar-se. Na casa da velha parteira, cresce um reboliço de tisanas e remédios – chá de erva cidreira para acalmar os nervos, gemada para esquentar o corpo e refazer as forças. Sabino chega trazendo bolsas e maletas, a bagagem maior fora levada para a marinete, na garagem.

Tieta avisa:

- Vou ali, já volto.

Dona Milú se preocupa:

- Ali onde? Fazer o quê?

- Não tenha medo, mãe Milú, não vou agredir ninguém.

Nas casas aparentemente adormecidas, os moradores estão despertos, atentos. Feixes de luz escapam pelas frinchas das portas, pelas vigias. Chega à rua uma ou outra palavra, dita em voz mais alta. Até a sentinela de Jarde ganhou animação. Discussões no bar repleto. Acento amargo na voz de Osnar:

- A porra dessa fábrica ainda nem começou e já apodreceu tudo.

Janelas se entreabrem ao passo de Tieta. Cruza a cidade, entra nos becos, vai até aos barrancos do rio, não leva pressa, talvez se despedindo. Despedindo e recrutando, não anda ao acaso, Madame Antoinette, voilà! Tem destino e objectivo.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

ENGRAÇADAS



AS MULHERES E
O CASAMENTO




1. Li recentemente que amor é um assunto de química. Deve ser por isso que minha mulher me trata da mesma forma como trata os resíduos tóxicos.
David Bissonette.

2. Quando um homem te rouba a mulher, não há melhor vingança do que deixar que fique com ela.
Sacha Guitry.

3. Após o casamento, o homem e a mulher tornam-se as duas faces da mesma moeda: não se podem ver mas permanecem juntos.
Hemant Joshi.

4. De qualquer das maneiras casa-te. Se arranjares uma boa mulher, serás feliz. Se arranjares uma má esposa, tornar-te-às um filósofo.
Sócrates.

5. As mulheres inspiram-nos para grandes coisas, e privam-nos de alcançá-las.
Dumas.

6. A grande questão... a que nunca fui capaz de responder é: O que é que uma mulher quer?
Sigmund Freud.

7. Troquei algumas palavras com minha mulher e ela trocou alguns parágrafos comigo.
Anónimo.

8. Algumas pessoas costumam perguntar o segredo do nosso longo casamento e eu lhes respondo:

- Vamos ao restaurante 1 vez por semana para um jantarzinho à luz de vela, um pouco de música e dança. Ela vai às terças, eu vou às sextas.
Henny Youngman.

9. Não estou preocupado nem assustado com o terrorismo . Já estive casado por 2 anos....
Sam Kinison .

10. Há uma maneira muito mais fácil e rápida de transferir fundos que é ainda melhor que as caixas automáticas: Chama-se casamento .
James Holt McGavran.

11. Tive pouca sorte com as minhas 2 mulheres. A primeira foi-se embora e a segunda não me quer deixar .
Patrick Murray.

12. Dois (2) segredos para manter brilhante o teu casamento:
a) Mesmo que não estejas errado, admite que estás;

b) Mesmo que estejas certo, mantém-te calado.
Nash.

13. A maneira mais eficaz de lembrar o aniversário da sua esposa é esquecê-lo uma vez.
Anónimo

14. Sabem o que fiz antes de me casar? Tudo o que queria fazer!
Henny Youngman.

15. Eu e minha mulher fomos felizes por 20 anos. Depois encontrámo-nos...
Rodney Dangerfield.

16. Uma boa esposa perdoa sempre o seu marido quando ela estiver errada!
Milton Berle.

17. O casamento é a única Guerra onde os inimigos dormem juntos!
Anónimo.

18. Um homem colocou um anúncio dizendo: procura-se mulher. No dia seguinte recebeu centenas de cartas. Todas diziam a mesma coisa:

- Podes ficar com a minha.
Anónimo.

19. O 1ºtipo (todo orgulhoso) diz: Minha mulher é um anjo!;

O 2ºtipo diz: Tens muita sorte, a minha ainda está viva.

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Amiguinho Pocho - Um amigo muito especial...

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AGNALDO RAYOL - A PRAIA


CHICO BUARQUE - PEDRO PEDREIRO


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TIETA DO


AGRESTE


EPISÓDIO Nº 307



DA POLUIDA VIA – SACRA NA LONGA NOITE DE AGRESTE – QUARTA ESTAÇÃO: A CONDENADA À VIDA


Na lancha de Eliezer, Tieta reclama pressa. O luar reflecte-se nas águas do rio, o corpo de Tieta atirado para a frente como se assim pudesse emprestar maior velocidade ao barco.

Peto, na Praça, indicara o rumo de Leonora. Quase sem poder falar, desfeita em lágrimas, a prima o enviara à procura de Pirica, partira no bote a motor, devia estar chegando a Mangue Seco.

Eliezer chama a atenção para uma luz no rio, um barulho distante, é o bote de volta. A um sinal de Tieta, Pirica maneira o motor, as duas embarcações balouçam na água, lado a lado.

- Cadé Leonora?

- Ficou lá. Perguntei se queria que eu esperasse, disse que não, que ia demorar uns dias. O que foi que houve com ela? Não pára de chorar, é de cortar o coração.

Em Mangue Seco. Eliezer encalha a lancha na areia, acompanha Tieta que desembarca às pressas. Na luz do luar, percebem o grupo no extremo da praia, junto aos cômoros imensos. A noite é infinitamente doce e bela, as águas mansas. Tieta corre, seguida de Eliezer.

Jonas levanta a cabeça e fala:

- Se jogou dos cômoros, subiu sem ninguém ver. A sorte dela é que Daniel e Budião tinham saído para pescar. Ouviram o baque do corpo, Budião trouxe ela para a canoa.

Estirada na areia, segura por duas mulheres, debatendo-se, Leonora suplica que a deixem morrer. Tieta curva-se sobre ela:

- Idiota!

Ao reconhecer a voz, Leonora volta a cabeça:

- Me perdoe, Mãezinha. Diga a elas que me soltem, quero morrer, ninguém pode me impedir.

Tieta ajoelha-se, suspende o busto de Leonora e a esbofeteia. A mão cai, pesada, com raiva, numa e noutra face da moça, os pescadores não intervêm, deixam-na fazer. Tão pouco Leonora reage. Pela praia, aproxima-se correndo o comandante Dário, a quem acabam de avisar. Tieta suspende o castigo, procura levantar a protegida:

- Vamos embora.

- O que foi Tieta? O que aconteceu? O Comandante ajuda a pôr a moça em pé.

- Nora brigou com Ascânio, tentou se afogar – estende a mão em despedida – Diga adeus a dona Laura, Comandante.

- Adeus? Por quê?

- Volto amanhã para São Paulo.

- E a campanha, Tieta? Vai nos abandonar?

- Já não posso ser-lhe de utilidade, Comandante. Mas toque o barco para a frente, salve os caranguejos, se puder.

Na lancha, Tieta avisa Leonora:

- Se falar outra vez em morrer, eu lhe rebento de pancada.

Mangue Seco vai se perdendo na distância, águas e areias envoltas em luar.

Tieta contempla, os olhos secos.

Pelas frestas das janelas, na Praça, há quem observe as duas mulheres, vindas do ancoradouro. Dona Edna, por exemplo. Mas, na casa de Perpétua, portas e janelas estão trancadas. No passeio, atiradas, as malas, bolsas e sacolas de Tieta e Leonora.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

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PICA - PAU CORAJOSO

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Chega de dizer mal de nós próprios! Meditem sobre estas palavras de Vergílio Ferreira:



- «Não digas. Não digas mal do país, ou seja, de ti. Terás talvez a ideia de que o dizeres mal te separa do resto e te alça a ti a uma posição altaneira. Não penses. Fazes parte daquilo em que cospes, és pertença dessa sujidade. A grandeza de uma ofensa tem que ver com ela própria. A grandeza do cuspo é o escarrador que és tu. Aprende o orgulho de ti na grandeza ou na miséria. E se queres condenar a miséria que também é tua, fala um pouco grosso que não te fica mal. Podes talvez lamentar mas não escarnecer. Se cospes tornas visível o cuspo naquilo em que cuspiste. Como queres que os outros te respeitem se tu mesmo não o fizeres? Para o lixo há recipientes apropriados em que esse lixo não se vê. Não cuspas mais no país para que os outros não se enojem do cuspo em que revelas a terra que é tua e que, portanto, és tu»

ROBERTO CARLOS - QUERO QUE TUDO VÁ PARA O INFERNO


MÚSICA ROMÂNTICA BRASILEIRA

LINDOMAR CASTILHO - SE EU PUDESSE


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TIETA DO


AGRESTE


EPISÓDIO Nº 306





DA POLUIDA VIA SACRA NA LONGA NOITE DE AGRESTE – TERCEIRA ESTAÇÃO: A SANTA DESPOJADA DA TÚNICA E DO RESPLENDOR


Muita gente na sentinela de Jarde mas falta a animação habitual dos bons velórios. Apesar da qualidade dos salgados e doces preparados por dona Amorzinho, da quantidade de cachaça e cerveja mandadas vir do bar por Josafá, o ambiente é morno. Nos grupos reunidos na sala de frente onde repousa o corpo e na calçada, não espocam risos. Temas graves dominam as desenxabidas conversas. Tieta palestra com padre Mariano que pede notícias de Ricardo. Em São Cristóvão, no convento dos Franciscanos, a convite de Frei Timóteo? Esse seu sobrinho, minha caríssima dona Antonieta, vai ser um luminar da igreja. Com a ajuda de Deus, o exemplo materno, os ensinamentos de frei Timóteo e a generosidade da tia. O reverendo aproveita para incensar a benemérita, colocando-lhe na graciosa cabeça um resplendor de santa: figura de proa, pilar da Igreja, símbolo de preclaras virtudes. Tieta, coberta com túnica de louvores, arvora um sorriso modesto. Ah!, se o padre soubesse quais os exemplos dados pela mãe, as virtudes inculcadas pela tia! Ainda bem que restam a ajuda de Deus e os ensinamentos de frei Timóteo.

Osnar esforça-se por degelar a vigília, honrando a memória do defunto como devido. Narra para o doutor Marcolino Pitombo e para o gordo Bonaparte a manjadíssima história da polaca. Inédita para o advogado, amiúde repetida para Bonaparte, que não se cansa de escutá-la, cada versão acrescenta novos detalhes, o escrevente se regala.

No caixão, o corpo magro de Jarde, a face de cera. Numa cadeira ao lado, Josafá recebe os pêsames. Lauro Branco, capataz da fazenda de Osnar, vizinho de Vista Alegre, íntimo do falecido, veio da roça despedir-se do amigo.

- Vim por mim e pelas cabras – diz a Josafá – Tomara que ele encontre um rebanho grande no céu, para cuidar. Era só do que gostava.

Escutam-se as nove badaladas do sino, apaga-se a luz dos postes, silencia o descompassado ruído do motor. Termina o dia das famílias, começa a noite dos perdidos. Dona Amorzinho acende as placas. Da escuridão surge um vulto, está bêbado, doente ou louco?

Mesmo na obscuridade todos se dão imediata conta do estado de confusão e desordem de Ascânio Trindade. Osnar interrompe a narrativa:

- O que é que há capitão Ascânio?

O capitão da aurora do poema de Barbozinha entra na sala desfigurado, olhos de demente. Localiza Tieta junto ao padre, estica o braço para apontá-la, grita as palavras arrancadas com esforço, numa voz rouca, terrível, tumular:

- Sabem o que ela é? Pensam que é viúva, dona de fábricas, mãe de família? Não passa de uma cafetina, tem casa de raparigas em São Paulo, vive disso. Quem me disse foi a outra. Pedi a mão dela em casamento, me respondeu: não posso sou mulher dama. Faz a vida no rendevu dessa

nojenta que está aí, passando por santa. Duas vagabundas e um palhaço.

terça-feira, dezembro 15, 2009



Honestamente...vocês
também estrangulavam
o sujeito?...




Altas horas da madrugada, o casal acorda ao som insistente da
campainha de casa. O dono da casa levanta-se e pela janela pergunta:

- O que é que você quer?

- Olá. Eu sei que é tarde. Mas preciso que alguém me empurre. A sua casa é a única nesta região. Você precisa de me empurrar!

Louco da vida, o recém-acordado replica:

- Eu não o conheço. São 4 horas da madrugada e pede-me para o ajudar?

Ah!, vá-se catar! Você está é bêbado.

Ele volta para a cama. A mulher, que também acordou, não gostou da
atitude do marido:

- Exageraste! Já ficaste sem bateria antes. Bem podias ter ajudado
esse indivíduo.

- Empurrá-lo? Ele está é bêbado - desculpa-se o marido.

- Mais um motivo para o ajudar insiste a mulher. - Ele não vai
conseguir andar sozinho. Logo tu, que sempre foste tão prestativo...

Tomado por remorsos, o marido veste-se e vai para a rua:

- Hei, vou ajudar-te! Onde é que estás?

E o bêbado, gritou:

- Aqui, no baloiço! ...

LISBOA DEBAIXO DA TERRA - AS GALERIAS ROMANAS DA RUA DA PRATA


THE FEVERS - NINGUÉM VIVE SEM AMOR


SHEIKS - MISSING YOU


THE TEMPTATIONS - MY GIRL (1967)



TIETA DO


AGRESTE


EPISÓDIO Nº 305





- Trouxe este anel da Bahia para você, um anel de noivado. Para lhe entregar num dia especial, mas não vejo jeito de poder conversar sobre esse assunto com sua madrasta. Me diga, Nora, quer casar comigo?

Os olhos de Leonora presos ao anel, perfeito em seu dedo, jóia antiga. Pobre Ascânio, a julgá-la moça de família; quanto não lhe custara a prenda?

A voz quebrada, quase num sussurro:

- Não fale nisso…

- Em quê?

- Em noivado, em casamento. Não basta que eu seja tua?

Ascânio empalidece, a mão trémula despede-se da mão da moça:

- Não aceita? Eu devia saber. Rica como é, por que havia de querer casar comigo?

- Eu te amo Ascânio. Você é tudo para mim. Nunca amei ninguém antes. Os outros que eu conheci foram enganos meus.

- Foi o que eu pensei. Mas então, por que recusa?

- Não posso me casar contigo. Tenho motivos…

- Por ser fraca do peito? No clima daqui, fica curada num instante.

- Não, não sou doente, mas não posso.

- Já sei. Porque ela não consente, não é? Como é que sendo tão importante vai casar com um pé-rapado, ainda por cima metido a ter opinião própria…

- Mãezinha não se envolve nisso.

- Então, por quê?

Leonora cobre o rosto com as mãos, prendendo as lágrimas. Ascânio se exalta, o rosto convulso, o coração ferido:

- Um pobre diabo do sertão, sem eira nem beira… bom para uma aventura de férias, para mais nada. Para casar os ricaços de São Paulo.

- Não é nada disso, amor, não seja injusto. Eu te amo, sou doida por ti. Queres que eu seja tua amásia ou tua criada? Isso posso ser. Tua esposa, não.

- Mas por que diabo?

- Não posso contar, o segredo não é só meu…

Ascânio volta a segurar-lhe a mão, afaga-lhe os cabelos, beija-lhe os olhos húmidos:

- Não tem confiança em mim.

- Não sou rica, nem filha de Comendador, nem enteada de Mãezinha.

- Hein? Quem é você então?

Entre soluços, conta tudo. O bairro miserável, o cortiço, a fome, a sordidez, o trotoar, o Refúgio. Ascânio vai-se afastando, levanta-se, a máscara de espanto e morte, como pudera ser tão imbecil. Ouve siderado, bebe a taça de fel. Pior do que da primeira vez, quando soube por uma carta. A lama se derrama no quarto, encobre a cama, cresce em vaga imensa, a afogá-lo. Daquela boca que imaginara pura, inocente, escorre pus.

Leonora silencia, afinal. Eleva os olhos súplices para Ascânio, pronta para se oferecer novamente de amásia, de criada. Mas um urro lancinante, de animal ferido de morte, escapa da boca de Ascânio. Leonora compreende que tudo terminou, na face do amante enxerga apenas ódio e nojo. O dedo apontado para a rua:

- Fora daqui sua puta! Lugar de pegar macho é na rua.

Mesmo sem nada ter ouvido do conversado lá dentro, quando Leonora passa desvairada, em pranto, e se perde na noite, Rafa cospe, negra saliva:

- Tipa imunda.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

SALSA ACROBÁTICA AOS 75 ANOS



O Âmago da Crise


"Uma média de dez empresários por semana estão a abandonar o Reino Unido para evitar o novo imposto de 50% sobre os seus prémios anunciou ontem o Sunday Times. Entre os que estão de debandada contam-se banqueiros e empresários dos sectores imobiliário e turístico, que se queixam não só do aumento dos impostos sobre os prémios decretado pelo 1º Ministro Gordon Brown, como também pelo aumento da contribuição para a Segurança Social. Entre nós o Governo também "prometeu" uma taxa especial sobre os prémios já no Orçamento de 2010."


O que aconteceu e ainda está a acontecer, em termos de crise, mergulha no âmago do que é nossa própria natureza.

O antigo Presidente da Reserva Federal Americana, Alan Geenspan, que esteve durante 18 anos à frente daquele poderoso organismo e cuja voz era ouvida religiosamente por todos os que tinham de tomar decisões importantes no mundo das finanças, prestou declarações no dealbar da crise, numa Audiência na Câmara dos Representantes, reconhecendo que, afinal, sempre esteve enganado sobre a capacidade dos responsáveis das entidades bancárias de defenderem os interesses dos respectivos accionistas e da própria sobrevivência das instituições que superintendiam, admitindo que errou por ter confiado na auto regulação dos mercados.

O testemunho deste homem, profundamente envelhecido, durante muito tempo o todo poderoso do mundo da finança nos EUA, foi algo de patético e se esta crise tem um rosto, era aquele, certamente.

Acreditou-se num “homem” que, na realidade, não existe nem nunca existiu e uma sociedade que se estrutura numa base irrealista está destinada a surpresas muito desagradáveis.

Foi assim nos regimes comunistas com os resultados conhecidos e está a ser agora quando se deixou “à rédea solta” pessoas que foram praticamente livres para actuarem e decidirem num sector de actividade que era vital para todos nós.

O “homem” é intrinsecamente egoísta e desonesto, que é uma das formas de ser egoísta e portanto não se espere dele aquilo que não está na sua natureza. Por isso, em sociedade, o homem tem de se defender de si próprio.

Richard Dawkins, no seu livro “O Gene Egoísta” escreve a páginas 23:

“Este livro pretende, acima de tudo, ser interessante, mas se alguém quiser extrair dele uma moral, que seja lido como um aviso.

Saibam que, se desejarem, tal como eu, construir uma sociedade na qual os indivíduos cooperem generosa e desinteressadamente para o bem-estar comum, não poderão contar com a ajuda da natureza biológica.

Tentamos ensinar generosidade e altruísmo porque nascemos egoístas.

Compreendamos o que pretendem os nossos próprios genes egoístas, para que possamos ter a oportunidade de frustrar as suas intenções, uma coisa que nenhuma outra espécie alguma vez aspirou a fazer.

Os nossos genes podem programar-nos para sermos egoístas, mas não somos obrigados necessariamente a obedecer-lhes, simplesmente, ser-nos-á mais difícil aprender o altruísmo do que seria se estivéssemos geneticamente programados para sermos altruístas.”


- Pensem naquelas centenas ou milhares de pessoas que em todo o mundo tinham a liberdade de tomar decisões, legais ou de legalidade duvidosa, no desempenho dos seus cargos nas instituições bancárias onde trabalhavam;

- Pensem nos muitos milhões de clientes de bancos que aceitam empréstimos porque lhos concedem mas admitindo, interiormente, que têm pouca probabilidade de os pagarem.

- Pensem nos muitos outros milhões que vivem permanentemente endividados porque não aceitam um nível de vida com despesas dentro dos seus orçamentos apenas porque se julgam com direito a terem e a usufruírem daquilo que vêm no vizinho.

Em todos estes casos temos manifestações de egoísmo e não estamos, de certo, a pensar nos outros… apenas a obedecer à nossa natureza egoísta.

É preciso saber isto, a ciência da biologia e da genética ensina-nos sobre o homem, não apenas para vivermos mais tempo e com mais saúde, mas também para nos conhecermos melhor naquilo que é a nossa verdadeira natureza e o Aviso feito por Richar Dawkins.

Parece, no entanto, que nas coisas importantes da vida só conseguimos aprender à nossa custa, a nível individual, muitas vezes já tarde de mais, no que respeita à sociedade, parece que aprendemos no momento mas, normalmente, mais tarde voltamos ao erro.

Não está ao nosso alcance corrigir a nossa própria natureza que é o resultado de um processo evolutivo de muitos milhões de anos, mas somos dotados de inteligência e conhecimentos que nos permitem defender do risco que representamos para nós próprios.

LOS DIABOS - UN RAYO DE SOL - SOL AMOR Y MAR - CANTAR Y CANTAR - OH OH NADA MAIS


DUO OURO NEGRO - SILVY


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TIETA DO

AGRESTE



EPISÓDIO Nº 304




DA POLUIDA VIA SACRA NA LONGA NOITE DE AGRESTE – SEGUNDA ESTAÇÂO: O ANEL DE COMPROMISSO E A TAÇA DO FEL




Quer tomar um banho, antes de comparecer no velório. Sentada no batente da porta, pitando o cachimbo, Rafa informa:

- Tem gente.

- Em casa? Quem?

- Uma tipa. Foi entrando.

Leonora? Quem pode ser senão ela?

Há dias, Leonora vem tentando convencê-lo a se encontrarem em casa dele, cansada na certa da imprudente e incómoda incursão nocturna aos barrancos do rio. Mas Ascânio deseja que a bem – amada transponha a porta da tradicional residência da família na qualidade de senhora Ascânio Trindade, em pleno dia, vinda do altar, esposa. Naquela cama de jacarandá onde dormiram seus pais, pretende que ela se deite somente quando as leis dos homens e de Deus tiverem consagrado suas relações.

Eis que Leonora o coloca diante do facto consumado. Levantando-se da cama onde se estendera, atira-se em seu pescoço, oferece-lhe a boca para o beijo:

- O ônibus estava demorando, Mãezinha foi para o velório, vim te esperar aqui. Se fiz mal me perdoe. Estava morrendo de saudade, amor.

- Eu também. Não via a hora de voltar. Mas, você não…

- O que é que tem? – interrompe a repreensão com um beijo.

Os beijos se repetem, tornam-se mais longos e ardentes, Ascânio sente o corpo de Leonora estremecer, colado ao seu. Gostaria de tomar um banho, livrar-se da poeira e do enfado da viagem mas ela mas ela o puxa para a cama, acaricia-lhe o rosto fatigado.

- Você está triste, meu amor. Não conseguiu acertar o que queria?

Ascânio descansa a cabeça sobre o ombro de Leonora:

- Não consegui falar com doutor Mirko. Não está na Bahia, pelo menos foi o que me disseram. Uma história muito atrapalhada que me deixou muito cabreiro.

Mais do que cabreiro – ofendido, soturno, de moral baixa. Leonora cobre-lhe a face com beijos, tentando animá-lo. Ascânio toma as mãos da moça:

- Só tenho você no mundo, Nora. Mais ninguém.

Tocando-lhe os dedos, lembra-se do anel de compromisso, oferta da Brastânio naqueles dias alegres de intimidade e confiança entre ele e os directores da Companhia. Ficara no bolso da outra roupa, vai buscá-lo.

- Quero te dar uma coisa…

Pensara oferecê-lo em festiva cerimónia, na presença da madrasta, dos parentes e de alguns amigos, ao pedir a mão de Leonora em casamento. Resolve desistir da solenidade e protocolo. Para ter o direito de entrar naquela casa, Leonora deve ser ao menos sua noiva. Por outro lado, ele bem merece uma alegria que compense o menosprezo dos funcionários da Brastânio.

Coloca o anel no dedo anelar da mão direita de Leonora, o dedo certo para o anel de noivado. Pela segunda vez executa o mesmo gesto de amor e compromisso. Na primeira, depositara anel e confiança, promessa e coração em mãos de noiva indigna. Pagara caro pelo erro, destroçado pela traição, morto para o amor. Mas um dia acontecera o impossível: da marinete de Jairo desceu a
mais bela e pura das mulheres, essa que a partir de agora é
sua prometida:

domingo, dezembro 13, 2009

JOHN LENNON - IMAGINE





Ora aqui está um
exemplo de uma
proposta laica
imbecil



Mais um lúcido texto de Isabel Moreira sob a forma de um "Parecer Jurídico".

Então não é que anda para aí um senador belga com uma proposta de "neutralidade estrita" em matéria de separação de laicidade do Estado que vai ao ponto de pretender obrigar a retirada de cruzes nas campas nos cemitérios?

Este é o exemplo perfeito de um entendimento desastroso da laicidade do Estado, na verdade de um entendimento que passa pela violação da liberdade religiosa e, cumulativamente, no caso, do direito à propriedade privada.

É tão evidente o desastre desta concepção totalitária da laicidade do Estado que custa explicá-la. Ao contrário da proibição da colocação de crucifixos nas escolas públicas, que são edifícios públicos destinados à função de ensinar sem qualquer ideologia ou religião subjacente aos programas escolares, os cemitérios são espaços públicos, nos quais encontramos campas e jazigos, particulares ou atribuídos, por um acto de direito público a particulares, por um determinado número de anos, para a finalidade evidente.

O ritual da morte e a ornamentação de uma campa ou de um jazigo integra, na sua simbologia, o exercício da liberdade religiosa de cada um. E essa simbologia varia muito, como é sabido, de religião para religião. A única coisa que compete ao Estado assegurar é que cada um possa exercer a sua liberdade religiosa, neste aspecto que aqui é narrado, em condições de igualdade com os demais.

As cruzes nas campas dos cemitérios não põem em causa a liberdade de ninguém, ao contrário dos crucifixos nas escolas públicas.

Esta proposta é um atentado à liberdade religiosa.

Dito de um modo ajurídico, esta proposta é imbecil. É isso.

PS - Alguém está a ver um cemitério, dos milhares que existem na nossa terra, sem cruzes?

- Se a estupidez pagasse imposto o autor desta proposta, por acaso é belga e não português, iria ter que contribuir para a diminuição do nosso déficit... é que a estupidez não tem pátria!


SARA McLACHLAN - IN THE ARMS OF THE ANGEL


AUTO - RETRATO











JOAQUIM SOROLLA
Y BASTIA











Joaquín Sorolla y Bastida (27 de Fevereiro de 1863, Valência - 10 de Agosto de 1923, Cercedilla), na fase inicial da sua carreira, foi dos mais tradicionais. Ele cumpriu toda a trajetória considerada necessária na época para o pintor que se valorizasse como acadêmico. Entretanto, a partir de 1900, seu estilo se revelou de forma espetacular, manifestando-se em pinceladas rápidas e carregadas de tinta, que em poucos traços plasmavam a rica e vibrante gama de cores das praias e transeuntes que ocupavam suas telas.

Em poucos anos sua técnica notável o tornaria mundialmente famoso, chegando a pintar um enorme friso para a Hispanic Society de Nova Iorque, recriando diferentes regiões da Espanha, embora com um resultado irregular. Conhecido como o Pintor da Luz, foi o mais prolífico dos pintores espanhóis, com mais de 2 200 obras em seu poder, além de ser um retratista notável.
Entre essas deve-se ressaltar seu retrato de Juan Ramón Jiménez.

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