sábado, março 02, 2013


 "O Roubo do Presente" do filósofo José Gil

"Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspectivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.

«O empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.

O poder destrói o presente individual e colectivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.

O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias borderline enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem.

É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).

O presente não é uma dimensão abstrata do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.

Actualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se.

Não há tempo (real e mental) para o convivio. A solidariedade efectiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.

Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim.

O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espectral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.

Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português.

Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de acção. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país."

NOTA - Este governo, pela mão da política europeia liderada pela Alemanha. Acrescente-se...

Ao som da mais linda canção ligada à revolução dos cravos, no dia em que por todo o país a população veio pacificamente para a rua manifestar o seu protesto, justifica-se regressar a este vídeo para relembrar as imagens de um povo exemplar que pode não ter os atributos de outros povos europeus mas, recusando a violência, mais uma vez, dá uma grande lição de civilização.

Afirmamos o nosso descontentamento e desespero cantando, com letreiros, palavras de ordem, desfilando pelas ruas, juntando-nos nas praças. É este o pulsar de gente pacífica, ordeira, civilizada, como o foi na Revolução do 25 de Abril de 1974 e voltou a ser hoje.

IMAGEM

Estarão a rezar a quem? - A criança, de certo, ao menino Jesus e o cão, seu fiel amigo, vai com ele...




O PAÌS
DO
CARNAVAL

Episódio Nº 36

O “Estado da Bahia “ podia ser considerado vitorioso… Mas fora uma vitória às avessas. Vencera pela antipatia. Todo o mundo comprava o Estado da Bahia para ver quem levava pancada naquele dia. Não era um jornal de escândalo. Mas falava verdade e tinha coragem. E um jornal que fala verdade, na Bahia, diz coisas piores do que o jornal mais infame do universo.

Se não fossem aquelas eternas brigas entre Pedro Ticiano e A. Gomes, tudo iria admiravelmente. Mas os dois directores tinham discussões violentas. O Gomes com a mania de enriquecer, queria exercer uma censura sobre os artigos de Ticiano, que não a admitia de modo algum. E brigavam horas seguidas. Gomes não concordava com os ataques a personagens que pudessem dar dinheiro ao jornal.

 - De um jornal de chantagens eu não faço parte – declarava Ticiano.

 - Não é chantagem, é política, homem! – e o Gomes arruinava os pulmões, gritando.

José Lopes conciliava as coisas. O artigo saía sempre um pouco mais brando. Pedro Ticiano satisfazia-se.

Gomes ainda resmungava:

 - Assim nunca havemos de ganhar dinheiro…

Só pensava em ganhar dinheiro, em ficar rico. E não o estava ficando, o canalha? Agora morava na Avenida, fumava charutos caros e (diziam mas ninguém acreditava) já frequentava casas de rameiras…

E sonhando, a olhar a fumaça que desprendia do charuto, jurava que, quando “tivesse dois mil contos, seria feliz.”

Paulo Rigger passara dias perdidos ante aquele sobrado da Ladeira do Pelourinho. Nunca conseguira ver Maria de Lourdes e a sua imagem começava a desaparecer do seu espírito quando, uma tarde, descendo de automóvel, viu Maria de Lourdes que saía de casa.

Parou o carro, saltou. Ela o olhou sorrindo.

 - Pensei não a ver mais…

 - E eu também. Se não fosse o acaso de o senhor passar aqui agora… Ia para onde?

 - Para lugar nenhum. Passava de propósito para vê-la. Tenho estado aqui dias seguidos. Não a consegui ver ainda. Não aparece nas janelas…

 - Onde eu moro não tem janelas, senhor.

 - Senhor, não. Tratemo-nos por você, está certo.

 - Está. Onde eu moro não há janelas. É um sótão. Eu sou muito pobre… E o senhor… isto é, você, parece ser muito rico. Automóvel bonito! Nunca poderá gostar de uma moça como eu. E eu que pensei que você fosse um empregado de comércio com quem pudesse ser feliz…

 - Não diga isso… Como é mesmo seu nome?

 - Maria de Lourdes Sampaio. Em casa Lourdinha. E você como se chama?

 - Paulo Rigger.

Ela interessou-se por ele. Gostava muito dos advogados, mas não simpatizava com os jornalistas.


D. SEBASTIÃO
E A SUA CRUZADA
A ALCÁCER- KIBIR

(Aquilino Ribeiro – Príncipes de Portugal – Suas Grandezas e Misérias)

Aparelhou-se, D. Sebastião, para a fatal jornada o melhor que pôde. Precisava de muito dinheiro e Gregório XIII concedeu-lhe os réditos que era de lei que escorressem para o cofre de S. Pedro, da bula da Santa Cruzada, tida por certa e caudalosa mina. Concedeu-lhe mais umas terças das Igrejas, com que os eclesiásticos deram o cavaco.

Houve que assentar num “modus – vivendi” de que sempre retirou 150.000 cruzados. Tomou à sua conta o trato do sal e tributou povos e mercadores a torto e a direito.

Despejou o cofre dos órfãos, defuntos e ausentes, e lançou uma derrama de 250.000 cruzados aos cristãos novos, que gemeram, mas pagaram com a condição de ficarem ao abrigo de qualquer confisco de parte do Santo Ofício durante 10 anos; pediu emprestado a cavaleiros, fidalgos e homens ricos; hipotecou rendas, bateu moeda; esportulou, em suma, Deus e os homens, tanto os seus devotos como os netos como os netos dos que o pregaram na cruz.

Com tais sangradouros encheram-se os alguidares reais de sangue, se realmente como querem os economistas, não é outra coisa o dinheiro.

Da Flandres, Itália, Alemanha, encomendou armas, até à concorrência de 400.000 cruzados, ao juro de 8%, pagamento consignado na pimenta e drogas a chegar da Índia.

Do estrangeiro vieram 2.500 quintais de pólvora, 1.000 de bombarda, 1.500 de arcabuz, uma partida de salitre, 500 mosquetes, mastros, breu, velame.

Contratou 60 bombardeiros para servirem de condestáveis na artilharia que também veio de fora no montante de seis peças com seus reparos, mais 2.000 pelouros. Importou ainda carros e suas peças, 3.000 arcabuzes de um calibre, 4.000 de outro, e 12.000 morrões.

Além disto, veio tudo o mais que respeita à equipação, desde as gamelas de pau para o rancho às botifarras de carda que haviam de calçar os expedicionários. Que mais, santo Deus?

Mandou então trazer gente da província e do estrangeiro, Alemanha, Itália e Espanha, que emissários percorreram às suas ordens.

E Luís da Silva, seu pagem querido, partiu para pedir a Filipe II o cumprimento da sua palavra. Declarou o homem, prudente, que mantinha o compromisso, mas que sabia não haver em Portugal, por então, maneira de efectuar uma expedição susceptível de êxito; quando isso fosse, que falassem.

E foi um balde de água fria? Nada disso, um incentivo ao despeitado.

Posta ao Conselho de Estado a questão de ir a África, ou não, a maioria desaprovou. D. Sebastião retorquiu-lhes com o seu real e absoluto arbítrio.

 - «Não venho pedir-lhes conselhos, venho pedir-lhes que tomem as devidas providências para dar cumprimento à minha vontade.»

Quanto ao modo de trazer gente escreve Baião:

- «Era muito para chorar ver a lástima dos pobres homens, lavradores casados, que traziam como carneiradas com seus filhos por não terem com que se resgatar, porque todos os que tinham, a dez cruzados, a cinco, a quatro e a três, os largavam os Oficiais da Milícia, vindo a sede de dinheiro a crescer tanto neles que, moderando sua soma, já na fula fula do embarcar, a dois cruzados e a seis tostões, os deixavam escapulir. E há-de-se notar que de nenhum extravagante, nem vagabundo deitaram a mão…»
(continua)

sexta-feira, março 01, 2013

IMAGEM
A serenidade e a paz no rosto de uma velhinha...



Quem não tem história não tem que contar... nem que mostrar...

(click para aumentar o ecrã)


PENSAMENTO



A vida não se conta pelo número de vezes que respiramos… mas sim, pelos momentos em que perdemos a respiração…


O PAÍS
DO
CARNAVAL

Episódio Nº 35

 - Oh, Dr. António! Como vai?

- Vou bem. E a senhora, Dª Mercedes?

- Assim, assim…

 - E a senhorita, Dª Ruth, como tem passado?

 . Regularmente.

 - Quero apresentar-lhe o meu distinto amigo, o Dr. Ricardo Braz. Formou-se agora na minha turma. E é poeta, também.

- Oh, não, minhas senhoras! Jornalista, apenas…

Ruth sabia-o. Trabalhava no “Estado da Bahia”, não era? Pois se ela via Ricardo sempre!

 - Onde, senhorita?

Dª Mercedes, solícita, explicava:

 - Nós somos vizinhas do Dr. Pedro Ticiano…

 - Ah! O meu querido director…

 - … e o senhor sempre vai à casa dele.

 - Verdade. Ticiano tem sido um grande amigo meu.

António Mendes despediu-se. Ricardo ficou. Por coincidência, ia almoçar com Pedro Ticiano. Levou-as até ao bonde. Subiram. E a conversa correu mansa, encantando Ricardo. Ruth conhecia o seu livro de versos.

Então a senhorita faz uma triste ideia de mim.

 - Não. Ao contrário. Gosto muito do livro. Mamãe é que não gosta de um dos sonetos.

 - Qual?

 - Um tal de “Fria”. É um pouco forte.

 - Ah, sim!... “Fria”… Foram os amigos que fizeram questão de colocá-lo ali…

Ricardo ficou a pensar nos versos. Sempre considerara Fria o seu melhor soneto. E logo esse desagradara à mãe de Ruth…

Na porta da casa elas disseram que ele “aparecesse sempre para dar uma prosa”.

 - Olhem que eu sou capaz de abusar do convite…

 - O prazer é todo nosso…

Ricardo entrou em cada de Ticiano, que morava então numa sala de frente da residência de uma família. Mas Ticiano via-se obrigado a mudar. Teria que habitar com o filho casado. Pois se já enxergava com dificuldade… E o corpo todo já lhe doía. Iria morrer em casa do filho… Pelo menos não morreria entre estranhos…

 - Ticiano, vim almoçar com você.

 - Onde come um comem dois…


A HOMOFOBIA NA AMÉRICA LATINA

Num momento em que a Igreja de Roma vive conturbados momentos com a renúncia do Papa atormentado com problemas de pedofilia e homossexualidade de muitos dos seus membros, convém recordar Luís Mott, doutor em Antropologia e professor na Universidade Federal da Bahia, autor de 15 livros e 200 artigos sobre a história da homossexualidade que faz este resumo histórico:



- «Quando se descobriu a América Latina, Portugal e a Espanha viviam o seu período de maior intolerância contra quem praticava o abominável e nefasto pecado da sodomia.

Nessa época, instalaram-se na Península Ibérica Tribunais de Inquisição que converteram a sodomia num crime tão grave como o regicídio e a traição à pátria. Era um dos poucos delitos que as primeiras autoridades do Brasil tinham capacidade para castigar com a pena de morte sem necessidade de consultar previamente o Rei de Portugal.

Um dos Tratados de Teologia da época das Conquistas “rezava” assim:

- “De todos os pecados, a sodomia é o mais torpe, sujo, desonesto e não se encontra outro mais detestado por Deus e pelo mundo. Por este pecado lançou o dilúvio sobre a terra e por este pecado destruiu as cidades de Sodoma e Gomorra.

Por causa da sodomia foi destruída a Ordem dos Templários. Portanto, mandemos que todo o homem que cometa esse pecado seja queimado e convertido em pó pelo fogo para que do seu corpo e sepultura nunca se tenha memória.”

Ao desembarcarem no Novo Mundo, os europeus encontraram uma grande diversidade de povos e civilizações cujas práticas sexuais diferiam em grande medida da matriz cultural judaica-cristã, sendo algumas diametralmente opostas como: a nudez, virgindade, poligamia, divórcio e, sobretudo, a homossexualidade, travestismo e transexualidade.

Já em 1514 se divulgava “Na História Geral e Natural das Índias” que o gosto pelo vício nefasto se encontrava presente em todo o Caribe e em alguns territórios na Terra Firme. Há notícia de que os conquistadores se escandalizaram profundamente por isto e lhe atribuíram a falta de conhecimento do “verdadeiro Deus”.

O ano de 1513 pode ser considerado o de abertura à intolerância homofóbica no Novo Mundo.

O conquistador Vasco Balboa ao encontrar um grupo de índios homossexuais no Istmo do Panamá prendeu 40 deles e atirou-os a cães ferozes para que os devorassem, conforme conta Pietro Martire, num retrato dramático gravado na época.

Em 1548, registou-se a primeira perseguição institucional contra europeus homossexuais: na Guatemala foram presos sete, quatro deles clérigos.

Salvaram-se de morrer na fogueira por causa de um tumulto que por coincidência ocorreu na altura.



No Brasil, entre 1541 e 1620, 44 homens foram acusados e processados por sodomia.

No fim do século XVIII haviam sido denunciados 283 homens e mulheres por este delito, 29 eram lésbicas, 5 delas receberam penas pecuniárias e espirituais, 3 foram desterradas e 2 condenadas a chicotadas em público. A mais famosa, Filipa de Sousa deu o seu nome ao prémio mais importante dos Direitos Humanos Homossexuais.

O México liderou a perseguição aos homossexuais durante o período colonial: em 1658 foram denunciados 123 sodomitas na cidade do México e arredores, 19 deles foram presos e 14 queimados na fogueira.

Os Tribunais da Inquisição desapareceram em 1820 no peru e no México e em 1821 no Chile e Brasil mas as mentalidades não mudam por decreto e o machismo homofóbico continuou sendo uma característica da cultura latino-americana.

No século XX, o suicídio, a marginalidade, o suicídio, a total clandestinidade, a baixa auto-estima, a marginalidade, os assassinatos passaram a ser o pão nosso década dia para milhões de gays, lésbicas e transexuais na América-Latina recusados pelas famílias, humilhados nas ruas, impedidos de aceder ao trabalho.

Investigações realizadas no Brasil, que deve albergar mais de 17 milhões de homossexuais, revelam que de todas as minorias sexuais, os gays e as lésbicas são as mais odiadas. No México, até hoje, chamavam-se aos gays “quarenta e um” como recordação dos 41 homossexuais presos numa só noite em 1901 e submetidos a castigos humilhantes, obrigados a varrer as ruas da capital e as latrinas públicas.

Cuba destacou-se na década dos anos sessenta pela violência com que perseguiu, prendeu e obrigou ao exílio centenas de homossexuais, identificando a homossexualidade com a “decadência capitalista”.

Até meados dos anos 90 a homossexualidade continuava a ser considerada um delito no Chile, Equador, Cuba, Nicarágua e Porto Rico.

Apesar de todos os avanços e desenvolvimento dos Direitos Humanos em sociedades cada vez mais plurais e complexas, as mais recentes posições do Vaticano face à homossexualidade continuam sendo as mesmas: a orientação homossexual é considerada uma desordem grave e, em consequência, a moral oficial exige aos homossexuais uma permanente castidade.


NOTA
A intolerância da Igreja e a crueldade com que sempre puniu os pecadores, podendo, de certa maneira, ser fruto da época, o grau com que o fez foi sempre a imagem de marca da Igreja de Roma.
A quando da cruzada contra os Albigenses, levada a cabo pelos cruzados a seu mando, ela não teve limites e o Papa dizia:
 - “Matem todos. Deus, no outro mundo, reconhecerá os seus, isto é, distinguirá os católicos dos hereges”.
A Igreja Católica julgou sempre que a sua sobrevivência estava ligada ao medo, ao sofrimento e sacrifício das pessoas e a pureza da doutrina, no caso dos albigenses, e da felicidade que o amor proporciona, não serviam os seus interesses.
O sexo, no caso dos humanos, é muito mais que procriação: é a realização da pessoa pelo amor de acordo com as preferências de cada um, mas a Igreja não podia permitir isso porque, para eles, a felicidade é em Cristo, em Deus, de joelhos, dobrados a seus pés.
Foi assim que aconteceu o domínio e se manifestou o poder da Igreja: punindo, perseguindo, ameaçando com toda a crueldade, deste mundo e do outro, que a história registou durante a Inquisição e nas acções de evangelização em África, nas Américas, por esse mundo fora, destruindo culturas milenares e conquistando almas para Deus se preciso à custa da vida das pessoas.
Impossível de silenciar, esconder ou ignorar, este passado, cai-lhes agora em cima e eles, que sempre foram os juízes, estão agora a julgamento, não por Deus mas pelos homens que ficaram a saber que, afinal, o “pecado morava lá dentro". 

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

IMAGEM
Quem imita quem?

NUNO ÁLVARES PEREIRA

MESTRE DE AVIS -  
D. JOÃO I DE PORTUGAL
E O SEU CONDESTÁVEL -

Nuno Álvares Pereira



E o Condestável?

Depois da glória das armas as vestes humildes de monge. Morrera-lhe a mulher, a boa mulher e desdenhou de uma donzela, rica e bela, que romanticamente o admirava.

Deixou de manifestar o menor interesse pelos prazeres deste mundo. O seu corpo era uma árvore morta para desejos. Tão pouco a alma se lhe movia aos estímulos da glória.

Metade de Portugal era dele por força das conquistas e confirmação real mas distribuiu boa parte das terras pelos seus vassalos.

Mesmo assim, Dª Beatriz, sua filha, ficou como uma das herdeiras mais ricas de todas as Espanhas que isto, da caridade,  começa por nós e pelos nossos – era a moral comum do tempo e a santíssima moral de hoje.

Nuno Álvares, a despeito de tudo quanto se possa dizer de mal da sua vida heróica, foi o mais genuíno e perfeito dos cavaleiros.

Claro que há dúvidas e interrogações que se levantam no espírito dos que passam em frente da Igreja do Santo Condestável, em Lisboa, inaugurada em 1951.

E são elas: até que ponto um cabo - de guerra pode ganhar o céu depois de ganhar um reino, mesmo sendo para uma segunda pessoa à custa de um ror de batalhas com um ror de mortos?

Por outras palavras: será compatível o furor bélico, a febre de exterminar o inimigo que, no caso concreto - comungava até da mesma fé e moral -,  a paixão selvagem de vencer, com a brancura de alma e a bondade ingénita que são requisitos dos santos e bem-aventurados? - Contradições dos indivíduos e dos povos…

Em 1907, Júlio Dantas publicou um estudo que deu brado acerca de Nuno Álvares Pereira quando, em Roma, na Sagrada Congregação dos Ritos, começava a correr o processo de canonização.

Nesse livro, intitulado Libelo do Cardeal Diabo, Júlio Dantas, procurou desempenhar as funções de advogado do diabo, explorando e carregando as tintas sobre suspeitas pecaminosas e quebrantos de natureza moral.

No fundo, a função do Cardeal do Diabo era articular os mais leves rumores de calúnia histórica registando até os testemunhos mais equívocos de perversidade de forma a influenciar negativamente a decisão final mas nada trouxe o menor dano à proposta de santidade do frade carmelita nem empanou a sua auréola que hoje se venera nos altares de um templo consagrado à sua glória.

Mas, balaço feito, foi justo?

No entender de Aquilino Ribeiro, Nuno Álvares é uma das figuras mais íntegras da humanidade portuguesa.

Filho do Prior do Hospital, enorme garanhão pois lhe contaram no curral nada menos do que trinta e dois filhos mas Nuno não herdaria a pujança do seu progenitor.

Não lhe fugia para o sexo aquela força de resistência física que ele demonstrou através de anos e anos de ininterrupta campanha. Como homem de combate, de espada em punho, capitão dirigindo o exército, soldado infatigável em dias e noites sucessivas, foi inigualável.

Mas temos que o ver no seu tempo, á entrada da Idade – Média, quando imperavam as leis da cavalaria e não os valores da pátria, quando os homens só eram obrigados ao seu Príncipe com um corpo jurídico de direitos e deveres.

Um dia, Nuno Álvares, tomado de despeito relativamente ao Rei, D. João I porque ele não soubera reconhecer-lhe as virtudes ou galardoar-lhe os sacrifícios, alto e bom som lançou-lhe em rosto:

 - Ai, sim, V.A., entende tratar-me desse jeito! Pois até mais ver, passo-me para o Rei de Castela e, à frente das suas hostes, ia a caminho de Espanha quando o Rei o interceptou e o fez recuar nos seus propósitos cedendo aos seus desejos.

O que demonstra que à luz daquela época, Nuno Álvares, apenas deixava de servir aquele príncipe para servir outro sem que isso afectasse o conceito de honra medieval, espelho fiel de cavaleiros.

Tudo em Nuno Álvares é equilíbrio, inteligência e dignidade. Quando ataca ou opera uma retirada estratégica, quando desafia e desiste de levar por diante o seu repto, quando se obstina e porfia contra a própria vontade do rei, os acontecimentos posteriores demonstram, em regra, que ele tinha razão.

Santo?

Segundo o conceito teológico não nos cabe discutir uma investidura que não traz prejuízo a ninguém. Dos sete pecados capitais de qual deles tem de dar contas?

 - Bastava – lhe uma côdea de pão;

 - Nunca se enamorou da mulher do próximo;

 - Soube dominar os impulsos de cólera;

 - Não era rancoroso;

 - Perdoou as injúrias;

 - Cobiçou as riquezas, sim, mas com que armar, alimentar e pagar o soldo aos seus homens, que era quase todo o exército de Portugal.

Quando se retirou e vestiu as vestes de frade declinou nos filhos e em tais e tais vassalos os cuidados de sua casa.

«Dêem-me de comer», e não se lhe ouviu outra palavra terrena.

Amassado neste barro, raro e superfino, nada mais legítimo do que oferecer-lhe os altares da Igreja Católica.

(De Aquilino Ribeiro - Príncipes de Portugal - Suas Grandezas e Misérias)


O PAÍS
DO
CARNAVAL

Episódio nº 34

Tomaram o último chope. Paulo Rigger distribuiu esmolas entre os mendigos e vagabundos que, na frente da Igreja da Sé, estendiam papéis no chão – a mais macia cama onde podiam descansar o corpo doente…

Jerónimo deu parabéns a Paulo pela caridade: - E você que sempre combateu a esmola, hein? Qualquer dia desses você irá ao Bonfim…

Depois construiu uma frase:

 - Aqueles homens sofrem a única tragédia verdadeira… A da fome…

 - Nada. A nossa é muito maior – atalhou José Lopes – A nossa fome é a fome do espírito.

Paulo Rigger sonhou com Maria de Lourdes.

Na manhã do dia seguinte sentiu um prazer imenso em brincar com os pintinhos e em dar milho às galinhas na chácara…

Tão boa a vida burguesa da família…

E se casasse? Teria um filho a quem ensinaria que a Felicidade consiste no amor…

Sentou-se na cadeira de balanço e ficou a cismar. Pensou em Maria de Lourdes, em casamento, filhos, em Pedro Ticiano.

Levantou-se.

 - Eu termino me suicidando…

Um gato coçou-se nas suas pernas. Deu-lhe um pontapé. Mas logo após, arrependido tomou-o no colo e, levando-o para uma janela contou-lhe as suas indecisões.

O gato, muito prudente, preferiu não dar conselhos… Suspendeu a cabeça aristocrática, mirou-o atentamente e lambeu as patas. Sábio e profundo gato. Lavava as mãos no caso de Paulo Rigger…


Ricardo Braz gostava de ir à missa das dez horas, na Catedral, aos domingos. Levantava-se cedo, vestia-se o mais elegantemente possível para, como lamentava José Lopes, perder a manhã.

Chegava à Igreja, a missa já por acabar. E se colocava fora da porta a admirar o desfile das moças elegantes que vinham macerar os joelhos nas lajes da igreja.

Uma vez estava a contemplar o talhe perfeito de uma senhorita, quando o puxaram pelo braço. Voltou-se.

 - Você, António?

Abraçaram-se. Era o advogado António Mendes, seu companheiro de turma, rapaz rico e social que conhecia meio mundo.

- António, você que conhece essas moças todas, sabe quem seria aquela ali de preto?

 - Sei, sim. Uma moça pobre… quero dizer que não é rica. Mas muito elegante. Você quer uma apresentação?

 - Quero, sim

Caminharam até onde estava a senhorita – muito bem vestida, pálida, olhos semicerrados, preguiçosos. Não chegava a ser bonita. Muito simpática, apenas.


Dª Claudete



Na terça-feira. D. Claudete, 92 anos, saco de compras na mão, vinda do supermercado, finou-se em pleno passeio público, com um AVC fulminante.

D. Claudete vivia sozinha. A irmã, um pouco mais nova, está moribunda no hospital há meses. Resta uma sobrinha, desempregada.

Foi ela que tratou do enterro. D. Claudete tinha uma reforma de 200 euros e nenhuma poupança. O subsídio de funeral foi cortado. A sobrinha, sem dinheiro, teve de optar pelo funeral em campa rasa.

No Alto de São João, vai D. Claudete em seu caixão de pinho, quando um funcionário do cemitério tenta pregar um número identificativo no esquife. O homem da funerária impede-o. "O caixão é para devolver", diz. O funcionário acompanha então o escasso cortejo, de quatro pessoas, com um pau na mão e em cima o número identificativo.

O padre, por sua vez, pergunta se as quatro pessoas presentes são católicas praticantes. Nenhuma é. O padre decide então que não vai acompanhar o féretro. Um dos presentes explica ao padre, com alguma irritação, que ele está ali por causa da senhora, católica praticante, e não pelos presentes, e que é sua obrigação acompanhar D. Claudete à sua última morada.

O padre permanece na sua recusa, até que a mesma pessoa lhe pergunta quando custa ir até à campa rasa. 150 euros, responde a santa alma. Recebido o dinheiro, o padre decide-se então a avançar.

Há uma escavadora que vai abrindo buracos, que hão de servir de campas rasas, uns a seguir aos outros. Há terra revolvida e, com a chuva, muita lama. Os sapatos enterram-se na lama que há de cobrir os mortos sem posses.

Chegada à sua última morada, D. Claudete é retirada do caixão e colocada no fundo da campa, através de cordas. O padre, contrariado, lembra que do pó viemos e ao pó voltaremos. Os coveiros cobrem rapidamente de terra D. Claudete. O funcionário espeta o pau com o número da campa de D. Claudete.

Ao lado, outras cinco covas esperam os seus destinatários. A escavadora não para. Paf! Paf! Paf! Contas por alto, só nesse dia havia 45 covas aguardando os donos a quem o progresso da nação não bafejou.

O homem da funerária leva o caixão para futuros interessados. Um amigo da sobrinha desempregada paga parte dos 1100 euros que custa, ainda assim, um funeral em campa rasa.

Está uma chuva miudinha. Os sapatos estão cheios de lama. Os quatro acompanhantes de D. Claudete regressam lentamente à vida.

Entre eles, não está o ministro das Finanças, que não foi ao enterro porque não conhecia D. Claudete, nem conhece milhares de outras D. Claudetes que, um dia destes, se vão finar subitamente no passeio público ou em casa na solidão. E que só poderão ser enterradas em campa rasa, porque o subsídio de funeral foi cortado e já nem chega para tanto.
 (Nicolau Santos do Semanário Expresso)


NOTA

Não me parece justo fazer recair sobre o Ministro das Finanças o odioso das circunstâncias em que ocorreu o funeral da Dª Claudete.

No nosso país, a sociedade está em retrocesso. Corta-se no subsídio de funeral como se corta em todos os outros subsídios pela simples razão de que não há dinheiro e os apoios sociais não são prioritários.

Prioritários, são os juros da dívida monstruosa a que chegamos e a grande injustiça está no facto da Dª Claudete, completamente alheia a essa dívida, ser agora vítima dela a favor dos credores.

Esta é a sociedade a que chegamos e não podemos esperar nada de diferente. Fez a Dª Claudete muito bem em morrer, assim, de repente, no meio da rua, atirando-lhes no rosto a sua vida.

A Dª Claudete não cantou a Grândola Vila Morena em sinal de protesto. Não tinha forças, estava esgotada. As pessoas que poderiam ter chorado de tristeza no seu funeral há muito que já cá não estão. A Dª Claudete tinha-se esquecido de morrer.

Aos 92 anos, só e na miséria, teve que ser a morte a apiedar- se dela. O corte no subsídio de funeral já não lhe diz respeito. Ela é apenas um corpo em deterioração. O ritual fúnebre que lhe fizeram revela a pouca dignidade que demonstramos para com os nossos velhos mas, se não somos capazes de cuidar deles em vida, em especial as famílias, como havíamos de lhes proporcionar funerais dignos?

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

IMAGEM

O encanto de Portugal


E eu a julgar que sabia guiar... É de tirar a respiração!

RIO GRANDE - A FISGA

Mais uma para os conterrâneos matarem saudades...


O TEMPO

Cito o maior cineasta português, Manoel de Oliveira, que com mais de cem anos, profere esta frase tão simples e óbvia como tocante de humildade e de verdade:
- «Em casa falta-me espaço e na vida falta-me Tempo» e eu digo que, se calhar, Deus é o Tempo.
É verdade, se eu tivesse que indicar uma qualquer entidade que correspondesse ao conceito de Deus, no seu significado de criador da vida, essa entidade, para mim, só poderia ser o Tempo porque, de facto, foi ele que a gerou.

Quando, no início da Terra, apareceu uma molécula à qual os cientistas chamaram de Replicador pela extraordinária capacidade de fazer cópias de si própria dando começo ao longo processo de evolução da vida, a probabilidade de ela ter surgido era tão remota como a de sair a qualquer um de nós, o Jackpot do Euromilhões.
Mas, o Planeta Terra esperou, esperou dezenas de milhões de anos porque Tempo era aquilo que não lhe faltava.
É este Tempo, que se revelou como a verdadeira “chave da vida”, de que Manoel de Oliveira se queixa que lhe falta, o que parece irónico quando se trata, talvez, do mais idoso português.
 Mas, no que ao Tempo diz respeito, só o planeta Terra tem o seu exclusivo… É todo dele. E é pena porque o património da humanidade seria muito maior se a alguns de nós, Manoel de Oliveira incluído, lhes sobrasse um pouco mais de tempo. 
E como seria muito mais rico o património da humanidade se para alguns, pelo menos a alguns que podemos apontar a dedo, tivesse sobrado um pouco mais de tempo de vida… mas parece que entre nós, o Planeta Terra tem o monopólio exclusivo do Tempo e não o reparte com ninguém.

Portanto, há algo de verdadeiro na afirmação de que foi o Tempo que gerou a vida e continuou a ser o Tempo que a fez e fará evoluir, até quando? … Mais uma vez é um segredo do Tempo que ele revelará a seu tempo e isto, para mim, que não partilho da convicção da fé, é o que mais se aproxima de Deus.

Uns dizem: “Só Deus o sabe”, e eu direi: “Só o Tempo o sabe" 


O PAÍS
DO
CARNAVAL

Episódio Nº 33

Compreendi e discordo. Tudo é muito pouco. A filosofia, o conhecimento filosófico, sim, talvez console um pouco. Talvez mesmo resolva o problema. Eu penso resolvê-lo assim…

 - Que filosofia, que nada! Só as coisas naturais, o amor, os instintos, a fé, o trabalho podem nos satisfazer…

 - Não. Só a filosofia.

 - Eu falhei procurando-a no instinto, na carne – explicou Rigger – Sou capaz de procurá-la no amor-sentimento. Chegarei até à religião… Só não irei à filosofia. A filosofia deve fazer uma confusão horrível. Mostrar-nos-á cinquenta caminhos. E cinquenta caminhos imprestáveis…

 - Isso mesmo!

 - E como você poderá chegar à religião, sem a filosofia? Ao amor eu admito que você chegue pelos sentidos. Mas, à religião?

 - Chegarei pelo sentimento. Sem ler tratados. Sem travar conhecimento com Maritain e São Tomás… Serei católico, nunca tomista…

 - Isto é blague, Paulo. Você não chegará ao amor, quanto mais à religião! Você será um Ticiano na vida. Sem coragem para realizar. Vivendo, existindo apenas…

- Não. Tentarei. José Lopes está irritado hoje. Por quê?

 - Não estou irritado. Um bocado mais desiludido, somente. Já não acredito nem na Serenidade… Ticiano diz que nós somos os “mendigos da Felicidade”…

 - Tem razão, Para mim. Ticiano resolveu o caso de nossa inquietação, da inquietação de todo o mundo de hoje e guarda avaramente o segredo… Ele não se preocupa com a vida… Feliz!

 - Feliz nada! É um céptico. Coloca-se sobre a vida. Faz-se espectador. Não vive. Comenta. Ironiza. Satiriza. Destrói. Apenas. Isso não é felicidade. Ticiano acha que só a dor é estética. Só a dor é bela. E como sobrepõe a beleza a todas as coisas, ama a dor. Adora ser vencido. Gaba-se de ser um fracassado.

Escreveu no outro dia “A Balada Cinzenta da Minha Vida”.

Um Voltairiano meio epicurista. Não. Epicurista, não. Ele não sente mesmo alegria na vida. Sente indiferença… E ele garante que ficaremos como ele. Às vezes, eu acredito. E fico como vocês viram hoje. Contradigo as minhas próprias opiniões. Fico somente um disco a repetir o que Pedro Ticiano desperdiça pelas mesas dos bares…

 - É interessante - notou Rigger – como nós combatemos Pedro Ticiano, apesar de ele ser nosso mestre. Nós aprendemos com ele a indiferença e o cepticismo. Depois combatemos esse cepticismo… Ticiano nota isso.

 - Nota. Mas ri-se da gente, sabendo que, por fim, nós veremos que ele tem razão…

- E afinal, nós devemos o que somos a ele, que, antes de tudo, é amigo. Céptico, indiferente, mas amigo até ali.

 - A norma da vida de Ticiano é “saber ser amigo e saber ser inimigo”.

 - José Lopes lamentou-o. Quase cego, coitado! Que tragédia não sofreria aquele homem de tanto talento, que terminaria sem poder sair de casa, sem poder ler… Uma coisa horrível!


O MESTRE DE AVIS – D. JOÃO I de PORTUGAL
E O SEU CONDESTÁVEL

 - A Ínclita Geração -

(continuação)


E assim foi. Veio uma primeira expedição de trezentos homens, archeiros, aventureiros. Depois veio ele próprio à testa de um garboso esquadrão de cavalos.

O Duque de Lencastre era irmão do Príncipe Negro, “A flor de toda a cavalaria do mundo”, segundo Froissart, e casara em segundas núpcias com Dª Constança de Castela, daí a sua pretensão em suceder no trono de seu sogro, D. Pedro o Cruel.

Mas este homem, vivo, empreendedor, ambicioso, não podia ostentar as armas limpas e imaculadas de seu irmão. Sem respeito à mulher e às filhas, vivia em manifesta mancebia com Misse Katherine Rouet, casada, que para ali entrara na qualidade de governanta e mestra das meninas.

Parece que ao tempo a corte inglesa não primava por uma grande pureza de costumes. Constança, que era uma senhora simples, fechava os olhos à devassidão que ia de portas a dentro.

Um cronista da época escrevia em latim a respeito do Duque de Lencastre para as pessoas castas não tomarem conhecimento da libertinagem que ia na pudica nação.

Quando chegou a Lisboa a expedição aviada sob o signo deste homem, as cortes de Coimbra elevavam a rei de Portugal o Mestre de Avis a despeito do padre, bastardo e ter costados de vilão.

Era uma vitória do povo, de resto tão bem compreendida e aceite que o Conselho se compunha de nomes, indigitados, uns, pelas corporações, de nomeação os outros das quatro cidades capitais, Lisboa, Porto. Évora e Coimbra.

Com a vinda do Duque de Lencastre, entre as alíneas da aliança que havia de ligar Inglaterra a Portugal até à data de hoje, de modo mais ou menos platónico, foi pactuado o casamento de D. João I com Filipa de Lencastre, filha primogénita do Duque.

No entanto, D. João I, futuro esposo, obrigava-se a invadir a Espanha para satisfazer os anseios do seu sogro, mas ele não pôs pressa nenhuma em cumprir o estipulado.

Filipa fartou-se de esperar o bergantim doirado que a havia de trazer ao país do sol.

 - Porquê?

Entre outras hipóteses, é a de que ela, a julgar pelo seu retrato em alto relevo no Mosteiro da Batalha e o silencio de Fernão Lopes, deixava muito a desejar como beleza.

Por outro lado, D. João tinha tomado votos e só o Papa os podia desatar mas, tratando-se de príncipes, a operação era sumária.

Seja qual tenha sido a inibição, o pai é que não esteve pelos ajustes, Mandou vir a menina, apresentou-a ao aliado e futuro genro:

 - Aqui a tem. Case!

E casou. Deste consórcio derivou Aquela a que se chamou a Ínclita Geração que derramou lustro sem par na História de Portugal.

Site Meter