quinta-feira, outubro 25, 2007

Lembranças da guerra


Lembranças da Guerra (Cont.)

A Companhia 389 que estava sedeada na povoação do Pango Aluquém ficou moralmente destroçada com a morte dos camaradas vítimas da emboscada que sofreram quando faziam a protecção aos trabalhadores civis que procediam à reparação da estrada que ligava o Pango ao Úcua, onde se encontrava a minha Companhia, a 388.

Houve mesmo soldados que ficaram possuídos pelo medo de morrerem e recusavam-se a obedecer às ordens e a saírem dos seus improvisados quartéis.

Éramos todos muito jovens e não tínhamos nenhuma experiência, nem da guerra, nem de África e aquelas baixas, duas ou três semanas logo após a nossa chegada, sentimo-las como se fossem a primeira execução de uma generalizada sentença de condenação à morte faltando apenas saber quando e quais aqueles que iriam seguir-se.

À dor pelos companheiros que tinham desaparecido juntava-se agora o medo de, a seguir, sermos nós a desaparecer.

Infelizmente, nessa altura, ainda não se falava do “apoio psicológico” mas, mesmo que o houvesse, quando a dor bate fundo o remédio é mesmo sofrer e deixar que o tempo vá concertando as feridas.

O Comandante de Batalhão, o Coronel Braga Paixão, homem inteligente, fez o que estava mais indicado numa situação daquelas.

Digamos que desmontou a Companhia trocando os Grupos de Combate ou Pelotões, na denominação clássica, com os das outras Companhias do Batalhão permitindo que os soldados, na sua quase totalidade, mudassem de local e pudessem conviver com outros colegas que não tendo sido tão directamente atingidos estavam mais capazes de os ajudarem.

Agora, tantos anos depois, podemos já pensar friamente no que aconteceu e apontar o dedo ao graduado que comandava a força e que, ou foi desobedecido nas instruções dadas ou não as deu correctamente, de forma, senão a evitar, pelo menos a diminuir as consequências daquele ataque em que o inimigo actuou completamente à vontade, senhor da situação e só não conseguiu o êxito total porque o meu jeep, por mera casualidade, apareceu sem ser esperado, vindo em sentido contrário.

A guerra subversiva é uma espécie de luta entre o gato e o rato e ali, enquanto nós éramos o rato, o inimigo fazia de gato e, sendo assim, sempre que os mecanismos defensivos dos segundos não eram superiores aos do primeiro, os ratos acabavam, irremediavelmente, na boca dos gatos e foi isso que aconteceu.

A missão de proteger diariamente um grupo de trabalhadores que reparavam a estrada, passando sempre pelos mesmos sítios e sensivelmente às mesmas horas, constituía um risco demasiado grande que não foi devidamente acautelado e devia tê-lo sido pois que, pelo menos ao nível dos oficiais, o treino e a preparação recebida foram suficientes para se saber como proceder em situações daquelas.

Infelizmente, na guerra, os erros pagam-se com a vida e foi o que aconteceu…os meus camaradas foram, ingenuamente, meter-se na boca do inimigo por não cumprirem os ensinamentos dos manuais da guerra subversiva.

Acredito que tivessem procedido correctamente no primeiro dia e em alguns dos outros que se seguiram, tempo suficiente para ganharem confiança e relaxarem na atenção e nas regras de como deviam progredir no terreno pensando que, se nada tinha acontecido até então, é porque já não iria acontecer e assim, já se podia ir desatento, a ver revistas e o Unimog, demasiado afastado das restantes viaturas que o precediam, ficou isolado “na zona de morte” da emboscada.

Penso mesmo, que ela já lá estava montada há mais dias aguardando pacientemente que o erro acontecesse…

Lembro-me, como se fosse hoje, do conselho de um dos Alferes, mais velho, que no fim da sua Comissão, quando o fomos substituir, nos disse à despedida:

-“Não se esqueçam que vocês nunca os vêm mas eles vêem-vos permanentemente e só esperam pelos vossos erros.”

Erros deste género foram cometidos na última viagem de regresso a Luanda por militares que tinham acabado a Comissão na Região de Nabuangongo e iam embarcar para Portugal.
A alegria de terem chegado ao fim e os festejos que precederam a partida retirou-lhes a concentração e a capacidade para observarem todas as normas de segurança que sempre se impunham mesmo na última viagem, especialmente nessa.


O tempo passou e o Quartel-General em Luanda decidiu que o exército devia, em colaboração com os donos das roças de café que continuavam abandonadas desde os ataques de Março de 1961, proceder à reocupação dessas explorações de forma a que a produção do café, principal riqueza de toda aquela zona norte de Angola, fosse novamente relançada.

Coube-me a mim e ao meu Pelotão, na zona que pertencia ao meu Batalhão, reocupar a fazenda Rainha Santa, abandonada desde o início da guerra que começou por ser de catanas mas que então, dois anos mais tarde, já contava com muitas armas automáticas algumas delas do próprio exército português caídas em seu poder nas acções de combate.

E lá fomos, com um cozinheiro, o panelão, mais uns tachos e panelas, um jeep, um Unimog e um atrelado, reconquistar território ao inimigo…

Devo confessar que, pela minha própria natureza, nunca me consegui imbuir de espírito guerreiro tendo-me mantido sempre como um empedernido civil, ainda que vestido de camuflado, com a única preocupação de sair dali vivo juntamente com o resto da rapaziada.

Esta circunstância ajudou-me, tornou as “coisas mais leves” e, por outro lado, ao fim de uns meses, aquela massa verde de vegetação omnipresente, quase asfixiante e que ao princípio me aterrorizava, já não me era estranha, a pouco e pouco fui-me apercebendo de que perigoso era estar fora dela, principalmente nas estradas e caminhos.

A mata, como lhe chamavam, afinal era protectora, escondia-nos, protegia-nos e se nos soubéssemos deslocar nela, sem ruídos, até podíamos surpreender em vez de sermos surpreendidos embora nunca tivesse sido essa a minha preocupação.

Assumi, para comigo, como objectivo, defender-me e aos meus soldados, deixando que a guerra, se a houvesse, passasse ao lado… do género, se eles estivessem para a esquerda iria para a direita, isto, claro, se dependesse só de mim e assim foi muitas vezes.

Aquela guerra nunca me convenceu e a confrontação com o inimigo, que também só acontecia se ele quisesse, reduzia-se a encontros com gentes indefesas que viviam refugiadas no mato procurando sobreviver, muitas vezes entre o medo que a tropa aparecesse e a necessidade de agradar aos guerrilheiros.

No entanto, de acordo com as instruções do Quartel-General, tudo quanto mexesse no mato era para matar ou então, se possível, apanhá-los à mão para os interrogar obrigar a confessar onde se encontravam os quartéis dos guerrilheiros.

Mas a circunstância da guerra ser quase toda ela feita por milicianos pôs em causa o cumprimento de certas directrizes dos senhores que comandavam a guerra de Luanda instalados em gabinetes com ar condicionado.

Um Alferes de outro Batalhão, disseram-me que era professor, não tive o prazer de o conhecer, encontrou na mata, fortuitamente, um grupo dessas pessoas.

Teve com elas um diálogo esclarecedor sobre o que as esperava se regressassem com ele de novo para o convívio com as autoridades portuguesas face às dificuldades porque também passavam vivendo fugidos no mato obrigados a apoiar os guerrilheiros que supostamente os deviam proteger.

Não os obrigou a acompanhá-lo e eles decidiram continuar a viver no mato e o Alferes regressou à base, só, com os seus soldados, sem direito a medalha mas satisfeito consigo por ter actuado de acordo com aquilo que lhe ditava a sua consciência.

A Guerra Colonial teve os seus horrores como todas as guerras mas tê-los ia tido muito mais senão fosse o comportamento dos oficiais subalternos milicianos que foram, no terreno, os grandes protagonistas daquela guerra.

Não tenho mesmo dúvidas de que, em matéria de horrores, e os testemunhos trazidos agora a público na série do Joaquim Furtado ajudaram a desfazê-las, as grandes atrocidades, injustas e completamente gratuitas, cometidas sob a psicose do medo, ódio e vingança, pertenceram aos portugueses que viviam em Angola e que muitas vezes censuravam os militares por serem demasiado brandos na sua actuação.

Recordo, a este propósito, muitos meses mais tarde, já na região do Alto-Zambeze, concretamente no Lumbala, distrito de Cazombo, um camionista português que convidei para almoçar quando me pediu para lhe vender pão.

Sentados à mesa ele reparou nos inúmeros jovens que residiam nas aldeias circunvizinhas e que de dia estavam por ali, dentro do aquartelamento, convivendo com os soldados, a alguns dos quais prestavam serviços na lavagem da roupa, como era hábito, e também porque frequentavam uma escola que pus a funcionar com a colaboração de um cabo que desempenhava muito bem as funções de professor.

Pois o camionista, branco, português, sem que nada o fizesse esperar, sentado à minha frente, virou-se na direcção para onde estavam os miúdos e simulando o disparar uma espingarda metralhadora disse-me com uma fria crueldade no olhar: “matava-os todos!”

Sem querer acreditar no que ouvia levantei-me e disse-lhe, calmamente, para sair dali e nunca mais me aparecer.

_Que tinha acontecido na cabeça daquele homem?

_Que distúrbios se tinham produzido?

_ A circunstância de pertencer a uma minoria de brancos acossada e em risco de perder privilégios podia ajudar a explicar alguma coisa?

Mas quais privilégios se o trabalho dele era dos mais duros, agarrado ao volante de um camião que, provavelmente, nem direcção assistida tinha e conduzindo em estradas em que se saía de um buraco para entrar noutro, consecutivamente durante quilómetros e quilómetros, horas e horas seguidas?

Qualquer coisa de verdadeiramente doentio se apossou e desenvolveu no espírito daquele homem encorajado e estimulado por um ambiente social de rutura entre brancos e negros em que as posições se estremaram e os instintos mais primários se impuseram tendo em vista a sobrevivência de uma forma irracional e desumana.
(cont.)






































terça-feira, outubro 23, 2007

Lembranças da guerra colonial


Lembranças da Guerra Colonial

As guerras têm uma componente humana que não interessa à análise política ou histórica e que na sua quase totalidade se esquece com o desaparecimento dos seus protagonistas ou descendentes quando, por vezes, alguns deles, ainda recordam as histórias da guerra que o pai ou avô contavam.

Esta componente humana determina que cada guerra se desmultiplique em tantas guerras quantos aqueles que nela participaram porque ela constitui uma experiência única, diferente em função da sensibilidade de cada um que a vive ou melhor, lhe sobrevive.

Na manhã do dia 9 de Novembro de 1962 a marginal de Luanda regurgitava com as centenas de militares, mais de mil, que tinham desembarcado do Paquete Vera Cruz.

Três Batalhões, para além de Companhias Independentes, desciam pelo portaló do convés do navio sendo certo que as expressões dos soldados demonstravam mais alívio pelo fim da viagem do que medo daquilo que os esperava.

Eram poucos, aqueles que antes da mobilização tinham saído da sua aldeia natal num Portugal acentuadamente rural e em grande parte analfabeto.

Mas a juventude é uma fonte de vida e de esperança e quem ouvisse o cruzar de tantos gritos e falatório perguntaria, senão soubesse, se eles iam para a guerra ou para uma festa, ou talvez fosse apenas uma maneira de se animarem uns aos outros para não pensarem no destino que os esperava e que eles também não sabiam bem qual era.

Para já, iria ser o Campo do Grafanil, nos subúrbios de Luanda, onde as GMC e as Berliettes, estas construídas na Fábrica do Tramagal, ali para os lados de Abrantes, levariam cada Batalhão ao seu destino sem que antes, porém, nessa noite, exércitos de mosquitos, plenos de energia própria da época das chuvas, não partisse ao assalto dos nossos corpos ávidos de sangue fresco acabado de desembarcar, num primeiro teste de adaptação a esse misterioso continente Africano.

Nós, os Alferes, e aqui ficam os seus nomes no desejo de que todos se encontrem ainda vivos e de saúde, Matos, Ataíde, Rocha, Melo e Dória Nóbrega, tivemos direito a um jantar no Grande Hotel Universo oferecido pelo Capitão, Comandante da Companhia, pessoa que então vimos pela primeira vez e que tinha chegado primeiro que nós a Angola, provavelmente em missão de reconhecimento.

Deixem-me recordar este senhor, de cujo nome não me lembro, porque ele correspondia à regra (haveria excepções) do que eram os capitães milicianos a quem o Exército concedia, face às necessidades, a oportunidade de uma carreira militar depois de falhadas que foram as suas vidas académicas e profissionais.

Apareceu-nos no Hotel numa figura que antecipava aquela que viria a ser a do Rambo, com a faca de mato e granadas penduradas à cintura e um desembaraço que nos impressionou.

Durante a viagem para o Úcua dormitava, ou fingia, ao lado do condutor do jeep numa atitude misto de confiança e displicência própria dos heróis do Western, tipo John Wayne.

Chegados ao Úcua, de noite, decidiu “brindar-nos” com uma volta de reconhecimento à povoação mas fê-lo de forma tão desastrada que senão o tivéssemos agarrado por um braço teria caído do jeep.
Era o homem mais medroso da Companhia e para não ser visado pelo inimigo quando estava no mato em operações, gritava para os soldados: “não me chamem de Capitão, eu sou o 120”e lá ficou, na história da “minha guerra”, com a alcunha do 120.

Tivemos sorte, apesar de tudo, porque dos três Batalhões que viajaram connosco o nosso terá ficado no local menos perigoso pois em quase um ano em que ali estivemos não se registou a explosão de uma única mina nas estradas da nossa área de intervenção.

Mas houve quem pagasse o preço supremo por aquela guerra e eu lembro o meu amigo “Setúbal” que, tal como muitos outros, tinha como alcunha o nome da sua terra, casos do “Tabuaço”, “Chaves”, “Matosinhos”, “Maia”, etc.

Foi o melhor soldado da recruta que dei em Évora, no Regimento de Infantaria 16.

Era casado, tinha a 4ª Classe, uma filha, trabalhava como empregado de mesa, e eu só lhe dava autorização para responder às perguntas quando nenhum dos seus camaradas sabia a resposta.

Era um primor de simpatia, educação e inteligência mas, infelizmente, quando foram divididos pelas três Companhias do Batalhão, ficou na 389 quando a mim me calhou a 388.

Por esta razão fiquei no Úcua e ele foi parar ao Pango Aluquém, cerca de 50 a 60 km para leste.

Creio que foi em Março, eu seguia de jeep do Úcua para o Pango e já relativamente próximo do destino apercebi-me que, na estrada, mais à frente, algo se estava a passar.

Um Unimog, com uma metralhadora Breda para dar protecção a um grupo de trabalhadores que reparavam a estrada, tinha caído numa emboscada montada numa curva e o inimigo, julgando que o meu jeep, que se aproximava em sentido contrário, fazia parte de um reforço de tropas chamado pela rádio para socorrer os camaradas em apuros, fugiram em debandada deixando para trás um cadáver e uma pistola metralhadora.

O meu amigo “Setúbal” e mais cinco colegas estavam mortos. Uma bala disparada a curta distância acertou-lhe a meio da testa…felizmente não sofreu.

Os restantes foram igualmente mortos à queima-roupa com excepção de um que sobreviveu apenas porque se atirou da viatura e fingiu estar morto, deitado de barriga para baixo, no meio do capim.

Essa simulação valeu-lhe a vida e um louvor.

Nem sempre os heróis se fazem de coragem e valentia. Neste caso, a astúcia e o sangue frio mostraram ser decisivos para a sobrevivência.

Com uma perna partida em consequência da queda do Unimog conseguiu manter-se imóvel não obstante as dores que sentia que não eram, no entanto, tão fortes como a sua vontade de se manter vivo.

A chegada inesperada do meu jeep como factor surpresa pôs termo à situação em que, para ele, cada segundo parecia uma eternidade.

A bala que atingiu o “Setúbal” em cheio, na cabeça, perfurou-me, a mim, a alma. A minha tensão arterial baixou para 4/8 e as noites seguintes passei-as junto dos sentinelas, em silêncio, como se cada um deles fosse o meu amigo de quem não me queria separar.

Na verdade, não conseguia dormir, todos nós tínhamos morrido um pouco com os nossos camaradas falecidos.

Este texto é dedicado ao “Setúbal”, um jovem cheio de qualidades, decerto um cidadão exemplar, mais um que aquela guerra privou da vida a que tinha direito subtraindo-o ao seu país, à sua família e a todos nós.

Não vale a pena perder tempo a odiar os culpados tantos foram e são os “senhores das guerras” em todo o mundo. O nosso, caiu de uma cadeira e morreu uns tempos depois…

Prefiro recordar com saudade e amizade o meu amigo “Setúbal” de quem nunca me esqueci ao longo de quarenta e quatro anos!
















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