sábado, novembro 08, 2014

Casamento Real


Eu não disse que era mesmo um casamento real?




Camada de Nervos - Não Gosta de Ler


Bonnie Tyler It's - A Heartche


Conseguiu a proeza incrível de ser a única artista a conseguir pôr uma música  em nº 1 no Reino Unido e nos Estados Unidos ao mesmo tempo.

Mas onde é que ela foi descobrir esta voz?...


                       

Manhãs tranquilas

numa aldeia Alentejana.






Um dia...

O padre estava em frente da igreja quando viu passar  a Antónia de uns 9 ou 10 anos, pés descalços, franzina, meio subnutrida, ar angelical, conduzindo umas 6 ou 7 cabras.

Era com esforço, que a criança conseguia reunir as cabras e fazê-las andar. 


O padre observava o seu trabalho.

Começou  a imaginar se aquilo não seria um caso de exploração, de trabalho infantil, e foi conversar com a menina.

- Olá, Antónia. O que estás a fazer com essas  cabras?


- Vou levá-las ao bode para as cobrir, Sr. Padre. Vou levá-las para o monte do Ti Chico Carlos.

- És capaz de me explicar uma coisa, Antónia! Porque não é o teu Pai ou os teus irmãos a fazerem isso?

- Já fizeram... Mas elas não emprenham... Tem que ser mesmo um bode!...



Impossível não olhar...
O CELIBATO

DOS 

SACERDOTES















O celibato pratica-se em muitas tradições religiosas. Nos mosteiros do Budismo, no Jainismo, no Hinduísmo… e foi também praticado no Judaísmo pelos essênios, no tempo de Jesus.

Os sacerdotes do Antigo Testamento, não, eles casavam-se e tinham família e também se casavam os presbíteros e dirigentes das primeiras comunidades cristãs, tal como aparece nos textos bíblicos do Novo Testamento.

O historiador e escritor chileno Ivan Ljubitic Vargas escreveu muitos textos sobre este tema e são dele os dados sintéticos que apresentamos de seguida sobre a história da lei do celibato:

- Nos séculos I, II e III a maioria dos presbíteros eram casados. A partir do século IV foi-se impondo a ideia de que o matrimónio e o sacerdócio eram incompatíveis. No Concílio de Elvira (Ano 306) aprovou-se um decreto que assinalava. “Todo o sacerdote que durma com sua esposa na noite antes de celebrar a missa perderá seu cargo” e o Concílio de Niceia (Ano 325) determinou, pela 1ª vez, que os sacerdotes não podiam ser casados mas esta disposição não foi acatada.

O Concílio de Tours II (567) estabeleceu que “todo o clérigo que seja encontrado na cama com a esposa será excomungado por um ano e reduzido ao estado laico”.

O Papa Pelágio II (575 – 590) ordenou “que não se repreendessem os sacerdotes sempre que não tenham passado as propriedades da Igreja para as suas esposas e filhos”. Este decreto (Ano 580) é revelador: pela 1ª vez expunham-se explicitamente as verdadeiras razões materiais e económicas da exigência do celibato sacerdotal: a herança das propriedades.

Desde o Concílio de Niceia até ao Séc. X tiveram lugar uma série de Sínodos Locais tocaram no tema do celibato. Em alguns exigia-se aos sacerdotes casados que abandonassem as suas esposas, noutros permitia-se que vivessem com elas e ainda noutros, a convivência sempre que o sacerdote se comprometesse a ter apenas uma mulher.

Neste período de seis séculos houve onze Papas filhos de Papa e de outros clérigos.

No Séc. VII a maioria dos sacerdotes franceses estavam casados. No 8º Concílio de Toledo (Ano 653) estabeleceu-se que as esposas dos sacerdotes podiam ser vendidas como escravas. O Papa Leão XI que governou a Igreja no Séc. XI estabeleceu que as mulheres dos sacerdotes
 podiam servir como escravas no palácio romano de Letrão.

Apesar de tudo isto, no Séc. VIII, San Bonifácio informou o Papa que na Alemanha quase nenhum bispo ou sacerdote era celibatário. No Concílio de Aix-La-Chapelle (Ano 836) admitiu-se que em conventos e mosteiros realizavam-se abortos e infanticídios para encobrir as relações sexuais entre os clérigos.

Há que ter em conta que, desde o Séc. V a Igreja se convertera na entidade mais poderosa da Europa e a maior latifundiária e os espaços económicos de maior poder foram os mosteiros e, entre estes, sobressaía o Mosteiro de Cluny, no Séc. X, que serviu de modelo a centenas de outros por toda essa Europa.

À cabeça desta rede de mosteiros estava o Papa de Roma como proprietário de imensas riquezas e latifúndios. Naquele tempo, Papa, Cardeais, Arcebispos, Bispos e Abades pertenciam todos à nobreza feudal que ampliava permanentemente as suas propriedades graças aos laicos que faziam doações e testamentos às autoridades religiosas para obter o perdão para os seus pecados.

Quando nos séculos X e XI se iniciaram as sublevações dos servos contra os senhores, a Igreja temeu pela sorte de tantos bens e por isso, os dirigentes do “Movimento Cluny” esforçaram-se por imporem regras severas e, entre elas, incluiu-se o celibato. Em 1073 chegou a Papa o monge Hildebrando, chefe do Movimento Cluny, que tomou o nome de Gregório VII.

Ele concebeu um Estado Mundial encabeçado pelo Papa como soberano absoluto e para o conseguir requeria que as terras propriedade da Igreja não se desmembrassem. Daí, esta sua frase:

- “A Igreja nunca se verá livre das garras do laicado enquanto os sacerdotes não se libertarem das garras das esposas.”
Em 1095, o Papa Urbano II ordenou a venda das esposas dos sacerdotes como escravas deixando os filhos ao abandono tendo, mais tarde, decretado como inválidos os matrimónios clericais.

Apesar de todos estes esforços, não foi fácil impor o celibato de tal forma que, no Séc. XV, 50% dos sacerdotes estavam casados incluindo oito Papas.

Era tão normal que os sacerdotes tivessem concubinas e não cumprissem com a lei do celibato que os bispos instauraram a chamada “renda de putas” que o sacerdote pagava ao bispo sempre que tinha relações sexuais. Esta cobrança terminou em 1435.

É só no Concílio de Trento (1545-1563) que se implantou definitivamente a disciplina do celibato obrigatório para os sacerdotes e proibida a ordenação de homens casados.

Celibato Opcional
Recentemente, nos anos 70, surgiu em Espanha e noutros países da Europa e do mundo o Movimento para o Celibato Opcional (MOCEOP), integrado por sacerdotes católicos casados, que continuam vinculados a comunidades cristãs “de iguais”, sem hierarquia e que trabalham com suas famílias para uma Igreja integrada por comunidades de pessoas corresponsáveis todas elas para levar ao mundo a boa notícia da justiça e da equidade de Jesus da Nazaret.



Nota - Na sociedade onde Jesus viveu e pregou era muito estranho que as pessoas adultas não vivessem acasaladas. Para os homens não era admissível  e para as mulheres era uma desgraça. Não passaria pela cabeça de Jesus proibir aos seus seguidores de casar.

O texto explica o que aconteceu e porque aconteceu. Hoje, já não faz qualquer sentido esta proibição mas os meios reaccionários e conservadores da Igreja nunca o permitirão. 


Talvez porque o amor proibido é o mais desejado...


Vai me querer ou arrenegar de mim?
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)



Episódio Nº 93

















- É verdade? Vai cuidar da loja? Tomar conta de mim?

-Fique descansada. - E mais não disse.

5

Ela viera no interesse de marido, convenceu-se Fadul ao ouvi- la em desespero. Marido que pusesse termo ao incómodo do estado de viuvez e assumisse a loja, garantindo os lucros.

 Para conquistá-lo jogava cacife alto, apostava o corpo e a honra. Pura sabedoria ou santa ingenuidade? Lisura ou má fé? Paixão devoradora ou calculado embuste?

Desfalecente, Jussara, nobre e romântica, proclamava amor à primeira vista:

 -Vim porque desde o dia que lhe vi na feira fiquei desatinada, não tive mais cabeça pra pensar a não ser em si, feito uma maldita.

 Agora estou em suas mãos pra ser feliz ou me desgraçar de vez. 

- Voltou a perguntar: - Vai me querer ou vai arrenegar de mim?

O momento não era favorável à reflexão, a tirar a limpo dúvidas, suspeitas, incertezas, menos ainda a assumir compromissos.

Em lugar de responder à aflita indagação, prendeu a bugra nos braços, não podia esperar nem um minuto mais. Ela deu-lhe a boca a beijar, lábios carnudos, sumarentos, língua atrevida, dentes de morder; ele a percorreu e a atravessou.

Seria resposta positiva aquele afã desesperado, a doida posse?

Com certeza sim, pois como poderia Fadul viver daí em diante órfão da respiração, do suor, do perfume, da vertigem de Jussara?

Os corpos engalfinhados, confundidos, percorreram as areias do deserto, cruzaram as águas do oceano, atingiram o fim do mundo em ânsia e gozo, duas potências, duas potestades, um potro selvagem, uma égua em cio.

Quando ao cair da tarde Jussara recompôs o coque e montou
o cavalo pampa trazido pelo pajem - moleque sestroso e perfumado -  Fadul, por fim, comprometeu-se ao beijá-la em
despedida:

 - Daqui a uns dias a gente acerta tudo em Itabuna.

Antes de sair, Jussara colocara o derradeiro trunfo sobre a mesa, melhor dito sobre a cama. Enquanto vestia os farrapos da calça rendada, punha as anáguas e o corpinho, a blusa e a saia negras, viúva honesta e inconsolável, avisou que o acontecido jamais voltaria a suceder: quem quisesse deitar com ela para praticar a doce e perigosa brincadeira de fazer neném - assim se expressava, púdica, baixando os olhos -  teria antes de levá-la ao padre e ao juiz.

Esta terá sido apenas uma das Viragens


VIRAGEM












Ontem tive a oportunidade de ver e ouvir o nosso 1º Ministro Passos Coelho dizer em quatro momentos diferentes: 2011, 2012, 2013 e 2014 que estávamos perante anos de viragem.

Parece anedótico mas é verdade: nós vimo-lo e ouvimo-lo em todos esses momentos diferentes que foram retirados dos arquivos de televisão pelo crítico e comentador, ex-líder parlamentar do Bloco de Esquerda, Francisco Louça no seu comentário semanal das sextas-feiras.

A vida dos portugueses tem sido, portanto, nos últimos anos, no dizer de Passos Coelho uma viragem permanente de tal forma que, de tanto virar, já nem devemos saber para que lado estamos virados.

Esta manipulação grosseira dos cidadãos por parte destes jovens ambiciosos e destituídos de escrúpulos políticos que nos governam é descoroçoante.

Nunca me enganei sobre o que nos esperava após o governo de Sócrates. Quando alguém é obrigado a entregar-se nas mãos dos credores o que acontece é inevitavelmente sacrifícios e humilhações mas, o que dispensávamos bem é que entre nós e eles se intrometessem estes jovens políticos que troçam de nós com aquele ar sério e compenetrado próprio de representação teatral.

Sabe-se hoje que a austeridade vivida nestes últimos anos acabou por ser um preço inútil em vez de reparador. Não temos as reformas estruturais do Estado – veja-se o que voltou a acontecer com a colocação dos professores – de que tanto precisamos para abrir novas perspectivas de futuro, continuamos com a mesma Despesa do Estado e estamos sem saber para onde foi o brutal aumento de impostos.

O que sabemos é que as grandes empresas públicas foram vendidas, já não são nossas, restando-nos a TAP que está presa por um fio.

Disseram, então, quando chamámos a troika, que estávamos falidos, que só tínhamos dinheiro para pagar aos funcionários durante mais dois ou três meses mas o que aconteceu de então para cá foram medidas punitivas que levaram ao encerramento de milhares de pequenas empresas, um aumento enorme do desemprego e à fuga de mais de 200.000 portugueses desesperados sem futuro em Portugal.

Apesar de tudo, Passos Coelho diz que estamos melhor e os portugueses sorriem de desdém sobre essas melhorias que devem dizer respeito às empresas que têm agora um campo de recrutamento de trabalhadores mais fácil, amplo e barato.

Temos um Orçamento para 2015 no qual ninguém parece acreditar porque se baseia em expectativas irrealistas em que somos peritos.

Não foi assim com as auto-estradas e as pontes que cada vez estão mais longe do tráfego que se esperava para elas?...

Falhar previsões foi sempre a nossa especialidade. Somos de um optimismo relativamente ao futuro que diz bem do irrealismo que vai por certas cabeças - se é que vai - e depois é muito fácil para os governantes sustentarem as suas decisões em metas que nunca são alcançadas e cujas consequências são pagas pelos cidadãos.

Continuamos, entretanto, a aguardar o ano da "viragem" que já não vai acontecer porque Passos Coelho já não tem espaço para prometer nada, chegou ao fim.

Resta-lhe apenas o tempo necessário para, em véspera de eleições, meter medo aos portugueses com o despesismo do Partido Socialismo, do Sócrates e dos seus acólitos.

Quem sabe se eles não irão esquecer as “viragens” que ele prometeu anos a fio e dar-lhe novamente o voto para não correrem riscos de mais bancas rotas?...

A demagogia e o embuste em política não têm limites.

sexta-feira, novembro 07, 2014

IMAGEM

Os comboios da minha infância. Viram-me crescer ao longo dos primeiros dez anos da minha vida. Eu brincava no terraço da minha  casa e eles passavam na ponte mesmo encostadinha ao prédio que estremecia todo numa convulsão diária... mas ficamos amigos, ele já fazia parte das visitas...


Aurea - Okay Alright

Impossível não gostar desta voz. Pegue-se por onde se pegar, é talento puro, não precisa de artifícios, está lá tudo mas ninguém diria que é uma alentejana de gema nascida em Alvalade, Santiago do Cacém, em 1987.


Mixórdia de Temáticas - Publicidade às crianças



HÁ VIDA DEPOIS

DA MORTE?

( Richard Dawkins)













Mark Twain, considerado por William Faulkner, o primeiro escritor verdadeiramente americano, dizia:

«Não tenho medo da morte. Estive morto durante milhões e milhões de anos antes de nascer e não senti o mais pequeno incómodo por isso».

Richard Dawkins disse precisamente o mesmo mas de uma forma mais elaborada que aqui reproduzi no meu texto de 1 de Maio sob o título “Falando sobre Religiões”, mas que vale a pena reescrevê-lo em parte novamente:

«A vida é uma extraordinária oportunidade e eu que vou morrer considero-me bafejado pela sorte porque a maior parte das pessoas nunca vai morrer porque nunca vai chegar a nascer.
…Como poderemos nós, então, os poucos privilegiados, que contra todas as probabilidades, ganhamos a lotaria do nascimento, atrever-mos a queixar-nos do nosso inevitável regresso a esse estado anterior do qual a vasta maioria nunca despertou?».

Há poucas semanas, para me poupar a um desagradável exame, submeti-me a uma anestesia geral e quando, deitado na marquesa, aguardava a injecção da anestesia, pensei que me ia sujeitar a uma simulação da morte.

Quando, pouco tempo depois acordei, fiquei a pensar que ter estado desligado da vida pouco mais de uma hora ou o resto da eternidade, teria sido precisamente o mesmo: o vazio total e, afinal, sem ter custado nada…

Contudo, as sondagens vão no sentido de que aproximadamente 95% das pessoas acreditam que vão sobreviver à própria morte.

Quase tenho vontade de dizer, por brincadeira, que os homens vivem durante tantos anos que se habituam a estar vivos e depois… não querem morrer.

Claro que a natureza dotou os animais e naturalmente, o homem também, do instinto da sobrevivência, mas do ponto de vista evolutivo, para quê estar vivo durante tantos anos?

O arquitecto Niemeyer faleceu em 2012 com 105 anos  o nosso Manuel de Oliveira com 104 continua a trabalhar nos seus filmes.

São exemplos relativamente aos quais me apetece dizer que deviam ficar cá para sempre mas a maioria esmagadora dos nossos velhos limitam-se a aguardar a morte sentados, por aí, nos bancos dos jardins, tristes, inúteis, abandonados como se não tivessem préstimo algum.

O meu vizinho do 5º esq. que lá vai suportando os seus noventa anos com a ajuda da bengala e tendo por companhia a solidão, as dores e os desgostos da vida desabafou comigo aqui há tempos:

«No dia em que morrer vai ser o mais feliz da minha vida…»

Mas a natureza sabe o que faz e não é por acaso que após a idade da procriação continuamos a poder viver o dobro dos anos. É que as nossas crianças não só precisam dos pais como, igualmente, precisam dos avós, mais disponíveis para os proteger e ensinar assegurando-lhes uma oportunidade para chegarem a adultos que, sem eles, provavelmente não teriam.

Mas querer estar vivo é uma coisa, continuar a viver depois de morrer é outra…

Bertrand Russel, no seu ensaio de 1925 «What I Believe» escrevia:

«Acredito que quando morrer vou apodrecer e nada do meu ego irá sobreviver. Não sou jovem e amo a vida mas desdenharia tremer de medo ante a perspectiva da aniquilação.
Apesar de tudo, a felicidade só é verdadeiramente felicidade porque tem que ter um fim do mesmo modo que o pensamento ou o amor não valem menos por não serem eternos.
Muitos foram aqueles que pisaram o cadafalso com orgulho; esse mesmo orgulho deveria, por certo, ensinar-nos a pensar, verdadeiramente, o lugar que o homem ocupa no mundo»

Para quem teme a morte, acreditar que tem uma alma imortal pode ser consolador – a menos, evidentemente, que esteja convencido que vai para o inferno ou para o purgatório.

As falsas crenças podem ser tão consoladoras como as verdadeiras, até ao momento do desengano. Se um médico mente ao doente dizendo-lhe que ele está curado o consolo é idêntico ao de outro homem a quem seja dito, com verdade, que ele está curado.

A mentira do médico só é eficaz até os sintomas se tornarem inequívocos mas um crente na vida depois da morte nunca poderá, em última análise, ser desenganado.

As pessoas religiosas que dizem acreditar na vida depois da morte se fossem realmente sinceras deveriam reagir como o abade Ampleforth quando o cardeal Basil Hume lhe disse que estava a morrer:

«Parabéns! Que bela notícia. Quem me dera ir com Vossa Eminência».

Este abade era um verdadeiro crente mas é exactamente porque esta história é tão rara e inesperada que prende a atenção e quase diverte.

Por que razão todos os cristãos e muçulmanos não dizem a mesma coisa ou algo parecido?

Quando um médico diz a uma mulher devota que não lhe restam senão alguns meses de vida por que razão não sorri ela, emocionada, como se tivesse ganho umas férias nas Seychelles?

Por que razão é que os amigos e familiares, crentes como ela, não a sobrecarregam de mensagens para os que já partiram?

«Dá saudades ao tio Alberto quando o vires…».

Por que não falam assim as pessoas religiosas na presença dos que estão à beira da morte?

Será que não acreditam em todas as coisas em que era presumível acreditarem?

Ou talvez acreditem mas têm medo do “processo” de morrer que pode ser doloroso e desagradável com a agravante de que, ao contrário de todos os outros animais, não podem ir ao veterinário pedir uma morte indolor.

E, neste caso, por que são as pessoas religiosas as mais ferozes opositores à eutanásia e ao suicídio medicamente assistido?

Não seria de esperar que as pessoas mais religiosas fossem menos inclinadas a agarrarem-se despudoradamente à vida seguindo o exemplo do abade Ampleforth?

A razão oficial é de que provocar a morte é sempre pecado mas por quê considerar isso pecado se se acredita sinceramente que, desse modo, está a acelerar uma ida para o céu?

Para quem acredita numa vida depois da morte morrer é apenas a transição de uma vida para outra vida e, sendo assim, se ela for dolorosa porquê prescindir da anestesia quando não se prescinde dela para tirar o apêndice?

Daqueles que vêm na morte não uma transição mas sim o fim é que se poderia, francamente, esperar resistência à eutanásia e ao suicídio medicamente assistido, no entanto, são esses que são a favor.

Uma enfermeira com longos anos de trabalho à frente de um lar de idosos pôde verificar que as pessoas religiosas eram as que mais medo tinham da morte.

Se este comportamento for comprovado estatisticamente poder-se-á perguntar, afinal, qual o poder da religião como reconforto na hora da morte?

No caso dos católicos será o medo do purgatório, uma espécie de Ellis Island (um dos principais pontos de entrada dos emigrante para os EUA) divino, uma antecâmara para onde vão as almas se os seus pecados não são suficientemente graves para as lançarem logo no inferno mas, por outro lado, precisam ainda de alguma reciclagem antes de poderem ser admitidas no céu.

Na Idade Média a Igreja dava indulgências a troco de dinheiro o que, na prática, significava menos dias de purgatório antes de entrar no céu.

A Igreja Católica desenvolveu muitos esquemas para arranjar dinheiro mas a venda das indulgências deverá figurar, seguramente, entre os maiores contos-do-vigário de toda a História.

Em 1903 o Papa Pio X ainda tinha uma tabela para calcular o número de dias de remissão do purgatório que cada membro da hierarquia tinha direito a conceder:

- 200 dias os cardeais;
- 100 “ “ arcebispos;
- 50 “ “ bispos;

E, desta maneira, controlando as auto-estradas de acesso a Deus, um Bispo na Idade Média poderia ficar milionário como aconteceu com o de Winchester que fundou em 1379 o New College.

Quem fosse muito rico garantia para sempre o futuro da sua alma até porque o pagamento poderia ser também em orações que podiam ser rezadas por terceiras pessoas a favor das almas dos ricos que, naturalmente, lhes pagavam para isso.

Mas o que é curioso e constitui a chave de todo este negócio é, realmente, o «purgatório» que, no caso de não existir e as almas irem todas directamente para o céu ou para o inferno, já não se justificavam as rezas porque, ou eram desnecessárias, na eventualidade das almas terem ido para o céu, ou as almas tinham ido para o inferno e já não tinham salvação dispensando as rezas por idêntica razão.

No mínimo, engenhoso…mas a vida, a nossa vida, é tão significativa, tão plena e maravilhosa que se basta a si própria e dispensa bem todas estas manigâncias. 


Nota - Acrescentaria o caso dos "narcisos", aquelas pessoas que gostam tanto de si própria e têm-se em tão elevada conta, que não admitem desaparecer para sempre...

BOCAGE

















Conta-se que Bocage, ao chegar a casa um certo dia, ouviu um barulho estranho vindo do quintal.


Chegando lá, constatou que um ladrão tentava levar os seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com os seus amados patos, disse-lhe:


-Oh, bucéfalo anácrono! Não te interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo acto vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo... mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.

E o ladrão, confuso, diz:

-Doutor, afinal levo ou deixo os patos?

Fui a culpada. Não fugi a tempo.
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)

Episódio Nº 92



















Não parou de incriminar-se enquanto o homenzarrão levantava-se da cama, fechava a porta e se despia: nu, crescia de tamanho, tornava-se ainda maior.

Da cama, estirada, olhava-o de soslaio, um marido e tanto!

Trabalhador e cobiçoso, presumido e tolo, igual a Kalil Rabat, bobo alegre nascido para cabresto e chifre. Com a vantagem de ser grandão, bem-parecido e possuir aquele pé-de-mesa.

Jussara chegava com as mãos cheias: o resplendor do rosto, a tentação do corpo, dinheiro a rodo, a mais sortida loja de tecidos de Itabuna, a insolência e o dengue, o fogaréu.

Que mais podia desejar um tabacudo bodegueiro confinado em remota caixa-pregos?

Não lhe parecendo ser aquela hora a mais apropriada para dialogar sobre a honra perdida da viúva e de como restaurá-la, o turco escutava em silêncio, impaciente, a magoada ladainha, interminável. Jussara não se calou sequer quando ele a libertou das botas, grata providência.

 Patética, assumiu a responsabilidade do fatídico descaminho:

 - Fui a culpada, não fugi a tempo. Não me importo, se acabou.

Antes que de repente ela decidisse dar por findo o pagode penas começado, Fadul estendeu-se ao lado da cabocla, com a mão disforme e delicada acariciou-lhe os seios, apertando-os de mansinho; cutucou-lhe a bunda e a beliscou de leve, correndo os dedos pelo rego.

Jussara estremeceu e suspirou, aninhou-se no peito veludoso, sentiu a borduna contra as coxas, prosseguiu entre desmaios:

 - Abusou de mim, eu deixei, agora pensa que sou uma perdida, como há de querer casar comigo?

  - Elevou a voz fazendo-a clara e precisa ao afirmar:

- Juro pela alma de minha mãe que foi a primeira vez que pequei em toda a minha vida.

 Nunca tive outro homem fora de meu marido. Perdi a cabeça, pobre de mim!

As pernas nuas se cruzaram, entreabriram-se as coxas de Jussara e a voz desfaleceu de novo:

 - Perdi minha honra... Estou em suas mãos...  - acariciou o rosto de Fadul, pôs mel na voz para confessar: ... mas nem assim me arrependo, homem malvado! Cegou meus olhos, me seduziu mas nem desonrada me arrependo - palavras boas de ouvir: inflamam o peito, inflamam o coração, incendeiam os quibas de um macho bom de cama.

Apesar da prudência com que costumava agir em assuntos assim relevantes e melindrosos, Fadul decidiu-se a prometer; para cumprir, quem sabe, depois de esclarecer e comprovar certos pormenores:

 - Não se importe: Vou por esses dias a Itabuna e lá a gente conversa e resolve. Não se preocupe com a loja.


quinta-feira, novembro 06, 2014

IMAGEM


Este foi o famoso Mapa Côr de Rosa. Portugal, com a sua mania das grandezas, pretendeu exercer a soberania sobre os territórios entre Angola e Moçambique, nos quais hoje se situam a Zâmbia, o Zimbábue e o Malawi, numa vasta faixa de território que ligava o Oceano Atlântico ao Índico.

Tal pretensão chocou com o interesse da Inglaterra em criar uma faixa de território que ligasse o Cairo, a Norte, à cidade do Cabo na África do Sul.

Este choque de interesses custou-nos a humilhação do Ultimatum britânico de 1890 que nos obrigou, pela força, a deixar livre todo o corredor entre Angola e Moçambique. O sentimento de raiva sentido então pelos portugueses está expresso na letra do Hino Nacional: "contra os canhões marchar, marchar!"

....Nessa altura ainda não sabíamos da humilhação da troyka...




CAMADA DE NERVOS -  A PRIMEIRA VEZ


Roberto Carlos - Mulher de 40.


A carreira de Roberto Carlos está recheada de êxitos musicais de muito difícil escolha... este é apenas um deles.



O Livro do Universo 



















A Bíblia não é um livro de história. Muito menos é um livro de ciência, um livro que relate o início do universo, como argumentam com fanatismo, ignorância e arrogância, os criacionistas. 

O geneticista Richard Dawkins faz esta analogia: Se a história do Universo fosse escrita à razão de um século por página, que espessura teria o livro? Do ponto de vista de um criacionista, toda a história do universo, nessa escala, caberia confortavelmente num livro de bolso. E a resposta científica para a mesma pergunta? Para acomodar todos os volumes desta história, na mesma escala, exigiria uma prateleira de 16 milhas de comprimento. Isto mostra a magnitude da diferença entre a verdadeira ciência e o ensino do criacionismo. 


Ricardo sorridente.
Nunca  Fernando Pessoa
imaginou  que serviria de
inspiração para estes versos...





"Ó Ricardo Salgado, quanto do teu sal

  São inquietações de Portugal?!?


Quantas das tuas acções nos enganaram?
Quantas obrigações nos arruinaram
Quantas dívidas ficaram por pagar,
Apenas para que fosses tu a mandar?

Valeu a pena? Dividem-se as opiniões…
Tudo vale a pena se só pagares três milhões!


Deus à Banca o risco e a glória deu...,
Mas foi o Espírito Santo que de lá, sacou o seu!!!"
 

Ai, me desgracei!
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)

Episódio Nº 91



















Sombrearam-se os olhos de Fadul, escuros de impaciência e de tesão. Sem sequer dar-se ao trabalho de fechar a porta, andou para Jussara e a tomou nos braços. Ela não se esquivou nem o repeliu, apenas disse com aquela voz enlanguescente de quem necessita de apoio e protecção:

 - Tenha pena, não abuse de mim. Não vê que sou viúva e preciso me casar de novo? Se eu perder a cabeça, depois como vai ser? Pobre de mim que não posso nem mesmo querer bem...

Fadul não respondeu, guardou silêncio: a conversa podia esperar, não ele. Estava tomado de fúria, os olhos ofuscados, sentindo o corpo da cabocla estremecer. Arrancou-lhe a blusa, o corpinho - ah, os peitos opulentos, bons de agarrar com as mãos

 - Jussara gemeu de leve. Fadul tirou-lhe a saia, as anáguas. Rasgou as rendas das calças amarradas com laçarotes nos joelhos: também as calças eram negras.

Dobrou aquela realeza, aquele despropósito de mulher, sobre o colchão de capim e percevejos, vestida apenas com as altas botas de montar. Fadul não perdeu tempo em despir-se: desabotoou a braguilha libertando a estrovenga que, de tão impaciente e rígida, doía. Cobriu Jussara.

Desfez-se o coque no alto da cabeça da cabocla, libertos soltaram-se os cabelos, lençol negro de cetim, cobrindo a cama.

 A boca do mundo, húmida e gulosa, acolheu a borduna do cacique libanês, a folia durou a tarde inteira.

4

 - Ai, o que foi que eu fiz, meu Deus, idiota que sou? Viúva sem juízo, vim por marido e saio desonrada. Ai, pobre de mim!

Olhou em lágrimas para o turco estendido sobre ela, esmagando-lhe os seios e as coxas, quando arfantes retornaram da primeira travessia do deserto e do oceano.

Antes que ele lhe retirasse as botas, se despisse e finalmente fechasse a porta. Jussara tinha fácil falar, acentuado por um choro contrito, dorido queixume com que se acusava e se afligia:

 - Agora que conseguiu o que quis, pode escarnecer de mim, me desprezar, me chamar de vagabunda, me tocar pra fora.

A culpa é minha, tava bem do meu em Itabuna, o que é que vim fazer aqui? Me desgraçar, quando preciso de marido pra olhar por mim e pra tomar conta da loja. Esconjuro o dia em que lhe vi em Taquaras e perdi o siso. Fiquei maluca, bronca da cabeça, não mando mais em mim. Não tive forças pra resistir, me desgracei. Ai, me desgracei!

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