sábado, junho 27, 2009

AUTO - RETRATO DE CÉSAR MANRRIQUE


LANZAROTE

A propósito da minha visita à ilha de Lanzarote, na passada semana, durante as minhas férias, registo este auto retrato do artista César Manrrique (1919-1992), natural daquela ilha, que revelou como se podem utilizar materiais usados para criar escultura. Esta encontra-se em sua casa, actualmente, Fundação César Manrrique.

ATENÇÃO
A Tieta decidiu descansar ao Domingo. Vamos reservar esse dia para ler algum episódio que tenha ficado para trás ou ouvir aquela música que a falta de tempo não permitiu escutar. Ir à praia, à esplanada, conviver, namorar... são outras opções.
Bom fim de semana e até 2ª feira.

VÍDEO
A GRANDE OPORTUNIDADE

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BAÚ DAS RECORDAÇÕES

J'ESPÉRE - MARC LAVOINE & QUINH ANH


CANÇÔES BRASILEIRAS

LOUCURAS DE UMA PAIXÃO - IVETE SALGADO e JORGE ARAGÃO
Música lançada no LP/CD "Sambista a Bordo" de 1997 de Jorge Aragão, cantor e compositor nascido em 1949, no Rio de Janeiro



Falando ainda dos ABBA:





A banda os ABBA é, na realidade, o resultado do trabalho de duas parelhas de grandes artistas e durou enquanto as uniões se mantiveram, como se pode perceber pelas imagens que nos são dadas pelos casais na gravação da canção I Do, I Do, I Do.


Desfeitas as uniões a banda não sobreviveria e em 1982, com a separação dos casais, o Grupo separa-se.


Agnetha embarca numa carreira a solo e lança vários albuns com bastante sucesso. Em 1990 casou-se pela 2ª vez com um cirurgião mas três anos depois divorciou-se. Afasta-se cada vez mais dos mídia e da vida pública e dizia mesmo que não queria ouvir mais música e muito menos dos ABBA sendo por isso comparada, então, a Greta Garbo.


Mas em 2008, quando foi lançado o filme musical "Mamma Mia", apareceu na premiére em Estocolmo e novamente os 4 estiveram presentes e ela própria "dançou" de roda com Frida e Meril Streep, a protagonista do filme.


Agora vive na sua quinta, num subúrbio de Estocolmo junto da filha, genro e duas netas.

ABBA - GIMME GIMME GIMME




ABBA - I DO, I DO, I DO



TIETA DO AGRESTE

Episódio Nº 167




DAS RAZÕES A FAVOR


Irrespondíveis argumentos, os de Giovanni Guimarães, na opinião do vate Barbozinha, em conversa com Leonora. Não há mais o que discutir, disseram dona Carmosina e o Comandante; o cronista de A Tarde pusera o preto no branco, os pontos nos ii. Não pensavam assim proprietários e directores de outros jornais, a prova está à frente de Ascânio Trindade, sobre a mesa do prefeito. Exemplares de dois diários da capital nos quais, em fartas matérias, as opiniões do articulista em sua Carta ao poeta De Matos Barbosa viram-se sujeitas a completa revisão, áspera crítica e desagradável confronto com as responsáveis declarações de cientistas de peso e de administradores conscientes de seus deveres.

Um desses jornais estampa a manchete agressiva, vista por Ascânio antes de embarcar na marinete onde, excitado, a releu, constatando a violência do tratamento aplicado a Giovanni: impostor, nem mais nem menos. A Gazeta não levou em conta o renome do articulista, a simpatia e a consideração a cercá-lo.

Longo editorial em negrita e corpo doze, canta loas à Brastânio, em frases e adjectivos, junto aos quais os louvores de Barbozinha no excomungado poema empalidecem. No momento em que o Governo do estado conclui as obras do Centro Industrial de Aratu, criando as condições para um surto novo na vida da Bahia, a localização na Boa Terra de uma indústria da importância da Brastânio, fundamental para o desenvolvimento do país, é a mais auspiciosa notícia do ano que termina, um inigualável presente de Natal à população do Estado – afirma o artigo de fundo. Pode proclamar-se ter sido a Bahia contemplada com a sorte grande ao ser escolhida pela ilustre directoria da empresa que se propõe aplicar em nosso Estado capitais de vulto antes aqui desconhecidos em se tratando de empreendimentos privados. Há quem fale, naturalmente, em perigos de poluição, mas os negativistas sempre existiram, em qualquer parte e ocasião, opondo-se ao progresso, pregoeiros da desgraça.

São vozes isoladas e de duvidosa procedência, servindo a escusos interesses. Se por simples curiosidade, nos detemos a examinar a biografia política dessas aves de agouro a grasnar infâmias, localizaremos de imediato ranço ideológico suspeito, a marca registada de Moscovo. Nesse tom, todo o editorial. Não cita o nome de Giovanni Guimarães mas está na cara.

Cita-o, porém, na entrevista concedida ao mesmo jornal, um dos dinâmicos directores da Brastânio – Indústria Brasileira de Titânio S.A., o jovem vitorioso empresário Rosalvo Lucena, economista de reputação nacional, diplomado pela fundação Getúlio Vargas, da qual logo se tornaria professor, Managerial Sciences Doctor pela Universidade de Bóston. Começou o titular de tantas excelências levando Giovanni na gozação, “ameno cronista sem nenhum conhecimento científico, deveria manter-se no limite dos fúteis acontecimentos quotidianos, no comentário de casos de polícia e de vitórias e derrotas do futebol, ao que sabe, seus temas prediletos, não se metendo a dar palpite naquilo que ignora, transformando-se de cronista em impostor, tentando lançar a opinião pública contra um empreendimento de alto teor patriótico que significará para o Brasil economia de divisas, ampliação do mercado de trabalho, riqueza. Sobre o imaginado e inexistente perigo mortal que as fábricas da Brastânio representariam, segundo o odioso foliculário, melhor será ouvir a opinião de um técnico de competência indiscutível, o doutor Karl Bayer, nome familiar a todos quantos se interessam pelos problemas do meio ambiente.”

Num retrato a três colunas Ascânio vê, no centro da página, o dinâmico doutor Rosalvo Lucena, o ilustre cientista Bayer e o simpático doutor Mirko Stefano ao lado do nosso director quando da visita realizada à redacção desta folha.

O ilustre técnico em texto extremamente científico e ininteligível, por isso mesmo de muita força de convicção, respondendo a três perguntas – por ele mesmo redigidas pois esses repórteres são uns analfabetos em matéria de problemas ecológicos – liquidou o assunto. Com grande gasto de elmenita, cloreto, Austrália, catalizador, pentóxido de vanádio, necton e plâncton, efluentes, provou por a mais b não passar de balela toda essa conversa de perigo de poluição e contaminação de águas, “desprezível demagogia”.

Quem há-de de duvidar perante tanta ciência?

No outro jornal, não menos entusiasta da instalação da Brastânio, “indústria de salvação nacional, primordial, factor de reerguimento da economia baiana” o engenheiro Aristóteles Martinho, da Secretaria da Indústria e Comércio, deu sua penada a favor da empresa. Perigo nenhum, garante o técnico, despojado de termos difíceis e de efluentes, competência modesta se comparada à do germânico Bayer. Importante, porém, pois reflecte o pensamento da administração estadual que, tendo, segundo ele, estudado acuradamente o assunto, levando em conta os interesses vitais da população, concluíra pela “perfeita inocuidade e pela extrema importância da indústria a ser implantada no Estado pela Brastânio”. Termina afirmando que os baianos podem dormir descansados, o governo está vigilante e não permitirá ameaças às terras, às águas e ao ar nos limites da Bahia. Quando fala em governo, refere-se ao Estadual e ao Federal, “indissolúveis na defesa dos recursos naturais e da saúde do povo”,

Os jornais – alguns exemplares de cada um dos dois – vieram acompanhados de uma breve carta do doutor Mirko Stefano, dirigida ao caro amigo doutor Ascânio Trindade, na qual lhe informa ter a Brastânio contratado os serviços de uma empresa de viação e obras para realizar estudos e apresentar projecto para o alargamento e a pavimentação de cinquenta quilómetros da estrada a ligar Agreste e Esplanada. A mesma empresa asfaltará, por conta da Brastânio, a rua da entrada da cidade, conforme o prometido. Em breves dias chegarão as máquinas e os técnicos. Não se refere nem aos jornais nem a Giovanni Guimarães.

sexta-feira, junho 26, 2009

VÍDEOS
Se Gostarem de Harmónica Vocal e Acordeão vão Adorar

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BAÚ DAS RECORDAÇÕES


CHARLES AZNAVOUR - LES DEX GUITARES (1972)


quinta-feira, junho 25, 2009

CANÇÕES BRASILEIRAS


PAULINHO DA VIOLA - ARGUMENTO
Composição e Interprtação de Paulinho da Viola. Música lançada no LP "Paulinho da Viola" em 1975.




Continuando a Falar dos ABBA:








- O último Album de estúdio dos ABBA, "The Visitors", em 1981, mostra uma maturidade maior nas composições e nos temas tratados nas letras embora a qualidade musical se mantenha.

Para além da canção que dá o nome ao album, "The Visitors", que já fala do comunismo na União Soviética, as restantes canções falam sobre o envelhecer, a perda de inocência, o acompanhamento do crescimento de um filho por um pai e outros temas semelhantes.

Os arranjos e as melodias ainda eram contagiantes mas a mudança para um estilo mais sóbrio e sério, se quisermos menos "popularucho", refletiu-se negativamente nas vendas.

No verão de 1982 os elementos da Banda reunem-se para gravar um novo Album mas acabam por lançar apenas um duplo com todos os seus sucessos excepção feita só a duas novas canções: "Under Attack" e "The Day Before You Came".


Escolhemos colocar hoje "The Visitors" e "The Day Before You Came" que exemplificam a evolução registada na parte final da extraordinária carreira dos ABBA.


ABBA - THE DAY BEFORE YOU CAME




ABBA - THE VISITORS



TIETA DO AGRESTE
Episódio nº 166






Conseguem por fim chegar a um compromisso sobre o orçamento quando Jairo freia a marinete e a poeira sufoca Esperidião do Amor Divino, magricela e esporrento. Voltando a respirar, o mestre-de-obras reclama:

- Estão falando por aí em poluição como se essa desgraçada marinete não estivesse acabando com os pulmões da gente há mais de vinte anos.

Jairo desce segurando dois pacotes, descansado, indiferente às três horas de atraso, às paradas, à volubilidade do motor naq1uele dia de humor bastante instável:

- Duas encomendas para você, Ascânio. Essa foi Canuto quem mandou.

- Um embrulho largo, ainda na embalagem original endereçado a Canuto Tavares por uma firma da capital.

Ao recebê-lo Ascânio apalpa o pacote:

- Sei do que se trata – Volta-se para Esperidião: - É a placa da rua. Chegou mais cedo do que eu esperava.

- Esse outro, foi Miroel, da agência de passagens, quem me deu, dizendo que era urgente. Parece ser coisa importante, veio no ônibus que faz a linha directa de salvador a Aracaju. Parou em Esplanada, só para deixar esse troço. Está entregue. Rapidez e eficiência – Ri.

Entrega, ri e fica à espera. Ruído de curiosidade, aguarda a abertura dos embrulhos. O primeiro, como Ascânio previra, contém a placa para a nova rua com o nome de dona Antonieta em letras brancas sobre fundo azul. Jairo e Esperidião aproximam-se para admirá-la, Ascânio a encomendara na Baía, em firma especializada, por intermédio de Canuto Tavares. O funcionário relapso da agência de Correios e Telégrafos é uma espécie de correspondente de Agreste em esplanada, a cujos préstimos Ascânio recorre com frequência.

Apressada e decidida passageira, dona Preciosa, directora do Grupo Escolar, levanta-se e toca a extraordinária busina da marinete, espantando pássaros – Jairo não se enxerga: indiferente ao atraso enorme, ainda salta para conversar, quando estão, finalmente, na recta de chegada. O pacote, dirigido a Ascânio trindade, Dinâmico Prefeito de Sant’Ana do Agreste, URGENTE, assim em maiúsculas e ainda por cima a vermelho, contem jornais e uma carta.

Enquanto a poluição sonora da buzina põe calangos em fuga, Ascânio abre um dos jornais e seu rosto se descontrai, desaparecem a irritabilidade, a fadiga, a amargura, ao ler, em letras garrafais, manchete em primeira página: A BRASTÂNIO DESMASCARA UM IMPOSTOR e ao constatar, num relance, não ser outro o impostor desmascarado senão o cronista de A Tarde, Giovanni Guimarães.

Surgindo na porta da marinete, dona Preciosa ergue a voz ácida e ameaçadora, habituada a ralhar com meninos, reduzindo-os ao silêncio e à obediência, a verruga a tremer, indaga:

- O bate-papo vai demorar muito, Jairo?

- Já estamos indo, dona Preciosa – Quem respondeu foi Ascânio, andando para a marinete, seguido por Jairo e Esperidião. Segura os jornais como quem segura ouro, pedras preciosas,
remédio contra a morte.

VÍDEO
PAREM AS BALAS

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quarta-feira, junho 24, 2009

BAÚ DAS RECORDAÇÕES


ÂNGELA MARIA - BABALÚ (1959)


CANÇÕES BRASILEIRAS

NILTON CÉSAR - A NAMORADA QUE SONHEI

Em boa verdade, deveria pôr esta canção no Dia dos Namorados mas por que razão, um dia qualquer, não há-se ser Dia de Namorados?


Continuando a Falar dos ABBA:



- No Festival da Eurovisão da Canção de 1974 a Inglaterra, finalmente , alcança o 1º lugar com "WATERLOO" que nos EUA chegam à 6ª posição, mas o maior sucesso viria um ano depois com "MAMMA MIA" que atingiria o 1º lugar em Inglaterra em Janeiro de 1976.
Em 1978 os ABBA gozavam da fama e do proveito de super astros. Recordo-me de se contar, na altura, que como os impostos na Suécia eram progressivos os ABBA recebiam em espécie, em vez de dinheiro, batatas e cebolas, etc....
Certo, é que o album "SUPER TROUPER", em 1980, antes do seu lançamento, já estavam vendidos mais de 1 milhão de discos batendo um record em Inglaterra de pré vendas.
Entretanto, numa turné que fizeram em 1979 pelos EUA e Canadá, tocaram para públicos colossaias, com enorme sucesso os seus êxitos: "CHIQUITITA", "VOULEZ-VOUS", "I HAVE A DREAM", "GUIMME, GUIMME, GUIMME", etc.

ABBA - MAMMA MIA


ABBA - WATERLOO



TIETA DO AGRESTE



EPISÓDIO Nº 165





Que posição deve ele tomar, em definitivo? Se ficar provado exagero de Giovanni Guimarães, o problema será de fácil solução. Mas, se ao contrário, os entendidos vierem em seu apoio? Romperá Ascânio com o Magnífico Doutor, recusando-lhe a autorização e as facilidades prometidas para a instalação da Brastânio no município ou enfrentará o perigo da poluição, considerando mais importante para o futuro de Agreste a transformação económica da zona, a riqueza resultante da industrialização do que a escassa pescaria da reduzida colónia de Mangue Seco, a limpidez das águas, a beleza do rio? Como agir, que posição, que partido tomar?

Abrir mão de tudo, dos projectos administrativos e dos sonhos de noivado e casamento, para garantir a permanência do clima puro, da beleza clara, da modorrenta paz? A que servem o céu puro, a água clara, a beleza, a paz? Bom lugar para esperar a morte; com o correr do tempo a frase do caixeiro-viajante torna-se repetido lugar comum, verdade patente.

Antes de enfrentar o perigo, sacrificar uns poucos pescadores – e com isso pôr fim ao contrabando na barra do rio Real, que há quase um século às espaçadas incursões da polícia – sujar as águas, em troca de riqueza, do movimento, do incontido progresso. São poucos e contrabandistas os pescadores de Mangue Seco; são numerosos, sérios e trabalhadores os do arraial do Saco, do outro lado da barra, e a morte dos peixes, o envenenamento das águas atingirá toda a foz do rio, o mar em frente. Meu Deus, é de enlouquecer qualquer cristão ou marxista o contraditório universo das razões em causa. Ascânio, farto, exausto, os nervos em ponta, tenta liquidar o último argumento a perturbá-lo recordando que, localizados a praia e o arraial do Saco em terras de Sergipe, o destino dos pescadores que ali vivem não é problema dele, administrador de município baiano. Não se convenceu.

A prova de que não se convenceu foi a decisão tomada na Prefeitura, pela manhã, em relação ao indispensável calçamento do Caminho da Lama, na entrada da cidade, para as festas de inauguração da luz da Hidrelétrica. Urge dar início ao trabalho, dentro de um mês os postes chegarão às ruas de Agreste e se acenderá a luz de Tieta. Por via das dúvidas, fazendo das tripas coração, Ascânio resolve deixar de lado as mirabolantes promessas do doutor Mirko Stefano e retomar o plano anterior, modesto calçamento de pedras – pedras sobrando no rio e nas colinas, a única coisa realmente barata em Agreste além de mangas e cajus – financiados pelos apatacados da terra; correrá a lista, mendigo público, mais uma vez.

Decidido mas esmagado, desabitualmente irascível e ranheta; mantém longa e difícil conversa com mestre Esperidião, acertando prazo e preço para a empreitada. Ascânio a deseja rápida e barata, Esperidião considera inaceitáveis as magras propostas do secretário da prefeitura, levando em conta sobretudo a limitação do tempo: deverá contratar quantidade de trabalhadores, entrar pela noite adentro trabalhando, e ainda assim vai ser dureza entregar a obra na data precisa. Terminam
por ir ao local examinar de perto.

Continuando a Falar dos ABBA:
No Festival da Eurovisão da Canção em 1974, uma canção dos ABBA, "Waterloo", levou finalmente a Inglaterra ao 1º lugar.
Mas o maior sucesso viria em 1975, quando "Mama Mia" chegou ao 1º em Inglaterra, em Janeiro de 1976.
Em 1978 os ABBA gozavam da fama de super astros lançando o albumSummer Night City. Em 1979 aparecem as canções: "Chiquitita", "Voulez-Vous", "I Have a Dream", "Gimme, Guimme, Guimme". Neste ano, ainda, realizam uma turné pelos E.U. e Canadá tocando para públicos colossais com enorme sucesso.
Os "Super Tramp", em 1980, revelam uma mudança de estilo com uma presença maior de sintetizadores e letras mais de carácter pessoal. Ainda antes do seu lançamento foram reservados mais de 1 milhão de albuns batendo um record em Inglaterra relativamente à pré-venda.

terça-feira, junho 23, 2009





O BARQUEIRO
Num rio muito largo e de difícil travessia, havia um barqueiro que levava as pessoas de uma margem para a outra.
Numa dessas viagens, iam um advogado e uma professora.
O advogado, amigo de conversas, perguntou ao barqueiro se ele sabia de leis ao que este respondeu que não.
O advogado, compadecido, disse-lhe:
- Você perdeu metade da sua vida!
A professora entra na conversa e pergunta ao barqueiro se ele sabe ler e escrever ao que este respondeu que também não sabia.
- Que pena, você perdeu metade da sua vida!
Nisto, uma enorme onda vira o barco. O barqueiro, preocupado, pergunta:
- Vocês sabem nadar?
- NÃO! Respondem eles rapidamente.
- Então, é uma pena, conclui o barqueiro, perderam toda a vida.

Não Há Saberes Maiores Ou Menores. Apenas Saberes Diferentes.
(Adaptação de um texto de Paulo Freire)


CANÇÕES BRASILEIRAS

ROBERTO CARLOS - CAFÉ DA MANHÃ
Letra e Música de Roberto Carlos e Erasmo Carlos (1978)

Esta canção fez parte de um show de Roberto Carlos que percorreu todo o Brasil, talvez o show de maior sucesso do artista.


BAÚ DAS RECORDAÇÕES

DORIS DAY - IT'S MAGIC (1948)

Continuando a falar dos ABBA:


Agneta Faltskog era o elemento mais jovem dos ABBA e só por si era um fenómeno, compondo e interpretando sucessos suecos ainda na adolescência, para além de ter feito o papel de Maria Madalena na montagem local de Jesus Christ Superstar.

Inevitavelmente, nas turnês que fazia pela Suécia, acabou por encontrar-se com os Hotnanni Singers e apaixonou-se por Bjorn. Casaram-se em 1971, naquele que foi considerado o casamento do ano na Suécia.

Anni-Frid, Frida Lingstad, era uma cantora que decidiu participar numa competição de talentos e venceu-a. Na época, A Suécia estava a mudar a direcção do trânsito, da esquerda para a direita e a Televisão, para que as pessoas ficassem em casa, resolveu apresentar uma série de concertos.

Frida foi convidada para um desses concertos com a canção com que tinha ganho a competição de talentos e a sua carreira musical descolou a partir daí.

Pouco tempo depois conhecia Benny Anderson e começaria uma relação.

ABBA - FERNANDO




TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 164







DO CALÇAMENTO DA RUA, DA PLACA E DA MANCHETE NO JORNAL, QUANDO SACÂNEIO TRINDADE REASSUME A AMEAÇADA FUNÇÃO DE LÍDER, CAPÍTULO TODO EM FLASHBACK



Encontra-se Ascânio Trindade na entrada da cidade, entre a Praça do Mercado e a curva da estrada, acertando com o mestre-de-obras Esperidião do Amor Divino detalhes do calçamento da rua, por onde fios e postes da Hidrelétrica penetrarão em Agreste, quando a atrasadíssima marinete busina – espantoso som! – e logo surge numa nuvem de poeira, aparição ao mesmo tempo familiar e surpreendente, fulgurante. Ao perceber o secretário da Prefeitura, Jairo freia o veículo, ouvem-se guinchos e explosões, a marinete estremece, salta, dança, ameaça derrapar, desconjuntar-se, partir-se ao meio, estanca. O velho e indomável coração do motor prossegue descompassado a pulsar – Jairo não é besta de desligá-lo – quem garante que ele voltaria a pegar? Naquele dia já lhe fez poucas e boas.

Até aquele momento, quando Jairo usou os freios provando-lhes não apenas a existência mas também a qualidade das peças de fabricação antiga, as de hoje não valem nada, o dia fora extremamente desagradável para Ascânio. Desde a primeira leitura da crónica de Giovanni Guimarães sua vida tem sido um pesadelo. A partir da conversa com doutor Mirko Stefano, o Magnífico Doutor – assim o designara a secretária executiva, a mesma que depois apareceu vestida de Papai Noel, na ocasião que viera à frente de um batalhão de técnicos – até a explosão da crónica, Ascânio erguera maravilhoso, imenso castelo, prevendo sensacional futuro para Agreste e para ele próprio. As chaminés das fábricas construídas em Mangue Seco propiciam o progresso: estrada asfaltada, larga, quem sabe de duas pistas, quase auto estrada, cidade modelo, no coqueiral, para operários e empregados, moderno hotel em Agreste em edifício de vários andares, comuna próspera e rica. A Brastânio, pioneira, abre o caminho para várias outras indústrias desejosas todas de se beneficiarem das condições ímpares do município. À frente de tudo isso, comandando, administrador competente, profícuo, incansável, pleno de ideias e capaz de executá-las, um estadista, Ascânio Trindade, prefeito de Sant’Ana do Agreste, ora marido, ora noivo da bela e virginal, não, de bela e cândida herdeira paulista Leonora Cantarelli. Por vezes prolonga o tempo de noivado, período de doçuras quando o desejo vai conquistando direitos e territórios corpo afora, pouco a pouco; por vezes casa logo, na urgência de enxergá-la no lar e de imaginá-la grávida, o ar angelical amadurecendo com o crescer do ventre.

Castelo de cartas, a explosão o levou pelos ares, a ele e à segurança do moço. Viu-se de súbito em meio a um vendaval igual aos que se abatem em certas ocasiões em Mangue Seco, arrancando coqueiros pela raiz, desfazendo as cabanas dos pescadores, revolvendo o oceano, levantando incríveis redemoinhos de areia, mudando a posição e altura das dunas. Quando termina e a paz retorna, a paisagem modificou-se, lembra a anterior mas já é outra, diferente.

Ascânio recusa-se a aceitar as afirmações de Giovanni Guimarães sobre os malefícios da indústria de dióxido de titânio, apegando-se à condição de jornalista, leigo na matéria, incompetente a respeito de questões científicas. Mas, se for verdade o que ele assegura e denuncia, assessorado quem sabe por físicos e químicos? A crónica ressuma extrema segurança, como se o autor tivesse absoluta certeza de tudo quanto afirma. Tudo não, pois a própria dona Carmosina, apaixonada partidária do artigo, nele descobrira erro primário, relativo à cor da fumaça. Se errou nesse detalhe, pode ter Giovanni errado em todo o resto. Mas, se à parte a cor da fumaça, no restante ele tiver razão?

Sendo assim tão perigosa essa indústria, mortal para os peixes, acabando com a pesca e os pescadores? A verdade é que actualmente há uma verdadeira mania de se ver poluição em toda
a parte, de se atribuir às chaminés das fábricas as desgraças deste mundo.

VÍDEO
Recoste-se, não pense, deixe-se ir...



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segunda-feira, junho 22, 2009

BAÚ DAS RECORDAÇÔES


BEE GEES - TOMORROW, TOMORROW (1969)





CANÇÕES BRASILEIRAS


MARISA MONTE - BEIJA EU

Música e Letra de Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Art Lindsay. Lançado no CD "Mais" de Marisa Monte em 1991, ela que foi uma das melhores revelações da MPB na década de 90.




Continuando a falar dos ABBA:


Benny Anderson era membro da Banda "pop/rock" HEP STARS, que foi muito popular na Suécia nos anos sessenta com direito a um séquito de fãs, especialmente adolescentes.

Enquanto isso, Bjorn Ulvaeus, era o líder de uma Banda, de um outro estilo musical, "skiffle", chamada HOOTENANNY SINGUERS.

Encontravam-se nos estúdios e um dia resolveram compor em conjunto e uma dessas canções, "Isn't It Easy To Say", tornou-se num sucesso para os Hep Stars o que levou Bjorn a participar em alguns concertos mas as duas Bandas nunca se fundiram, ainda que o empresário, Stig Anderson, acreditasse que eles teriam maior sucesso se trabalhassem juntos e por isso encorajou-os a compôr mais canções tendo então produzido o Album Lycka (felicidade) .



ABBA - CHIQUITITA




Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº163



Não encontrando Tieta, a ingrata não o informara da ida para Mangue Seco, declarou para Leonora dois dos cinco poemas redentores: os outros três, ele os considerava impublicáveis em jornais ou revistas, impróprios para recitativo, defesos a ouvidos inocentes. Para Tieta, viúva, íntima e velha amiga, musa permanente, se animaria a dizê-los. Para Leonora, não, pois retomando o estro de Gregório de Matos Barbosa, baixou o pau com vontade, em linguagem vigorosa e áspera, nos criminosos directores da Brastânio. Em certos versos, como negros e brutos diamantes, cintilam palavrões – a imagem é do próprio Barbozinha.

A chegada de Peto, com ruidoso entusiasmo de pescador bem sucedido, apressou a partida do bardo para a agência dos Correios onde ia postar os poemas e longa carta para Giovanni Guimarães. Antes, porém, declamaria poemas e carta para a amiga Carmosina. Essa, se bem donzela, pode ouvir qualquer barbaridade, não se escandaliza.

Lá se foram, primeiro o poeta, cachimbo apagado, passo lento, ardente coração; depois o garoto, sem vergonha e afectuoso, no espanto da primeira adolescência. Leonora contempla as gravuras, cabras e baleias, pedras e montes, a moça com um bastão e um estranho sol azul a nascer sobre as águas ribeirinhas, extravagância ou insolência do artista. Não a surpreendeu, porém, aquele sol azul, era-lhe familiar. Desde o desembarque em Agreste, Leonora se sentia cercada por uma atmosfera diáfana, em tons celestes, um mundo mágico, irreal, onde não cabe a maldade; nem a maldade nem a desgraça. Os lábios murmuram as duas estrofes do repudiado poema de Barbozinha, aquelas onde o vate se referiu a Ascânio Trindade, capitão da aurora.

Encurralado capitão, há dois dias e duas noites sem repouso, a face intranquila, os olhos injectados, as marcas da insónia. Na primeira noite, quase mudo. Andando com Leonora em torno da praça, tomara da mão da moça e a prendera entre as suas, em busca de apoio e segurança. A crónica no jornal deixara-o doente. Pouco a pouco, talvez porque ela não houvesse feito comentário nem perguntas, ele falou do problema. O destampatório de Giovanni Guimarães deve possuir alguma base concreta – disse – uma parcela de verdade mas ele Ascânio, sem querer adiantar qualquer afirmação, tem quase a certeza de haver imenso exagero na exaltada diatribe do jornalista, resultante, quem sabe, de obscuras razões.

Alguma poluição há de decorrer da indústria de titânio, todas as fábricas poluem, umas mais, outras menos. Não acredita, porém, naquela apavorante história de perigo mortal para a flora e a fauna, para o rio e mar. De qualquer maneira, antes de tomar posição, devem esperar que a denúncia do jornalista se confirme ou se reduza, colocada nos devidos termos pelos especialistas competentes. Leonora suspendeu-lhe a mão e a beijou: Ascânio tem razão, é preciso esperar, talvez tudo isso não passe de tempestade em copo de água.

Na noite seguinte, a da véspera, fora ainda mais difícil. Habitualmente, Ascânio arranja no decorrer do dia pelo menos dois ou três motivos para aparecer em casa de Perpétua, pedindo licença para entrar por um momento ou chamando Leonora à janela, ela dentro da sala, ele no passeio; um dedo de prosa, um sorriso, um beijo. Naquele dia, porém, não aparecera. Leonora tivera notícias, por dona Carmosina, da violenta discussão travada pela manhã na Agência dos Correios. Depois o Comandante passou com dona Laura para buscar Mãezinha e Ricardo mas não fez referência ao incidente. De Ascânio, nem sinal.

Após o jantar, na hora sagrada, ele chegou sério e triste. Leonora esperava-o na porta, Ascânio não quis entrar nem mesmo para dizer boa noite a Perpétua. Atravessaram para o jardim da praça onde moças e rapazes namoram, circulando aos pares. Houve um tempo de silêncio, pesado, depois ele perguntou:

- Já soube?

- Da discussão? Já.

- Horrível. Perdi a cabeça, destratei o Comandante, uma pessoa muito mais velha do que eu, um homem de respeito. Mas ele me acusou de desonesto.

- O Comandante? Pensei que tivesse sido Carmosina.

– Ela só me xingou, no ardor da discussão, não tem importância. Mas o Comandante falou que eu menti, que estando a par dos planos da fábrica, nada disse, enganei meio mundo. Para ele, eu me revelei indigno da confiança depositada em mim. Não sei se isso é verdade, mas o resto é: menti, escondi o que sabia, procurei tapear os outros. Mas eu juro que só fiz isso para o bem de Agreste. O doutor Mirko, você sabe quem é, me pediu segredo pois nada estava ainda decidido e se a coisa viesse a público podia botar tudo a perder. Para mim o interesse por Agreste passa por cima do que quer que seja.

Como o fizera na véspera, Leonora levou a mão de Ascânio aos lábios e a beijou. O rapaz sorriu, um sorriso tão triste que ela pode medir quanto ele estava magoado e temeroso. Então, ali mesmo em plena praça, sob uma árvore, sem se preocupar com a presença de casais de namorados, ela se deteve e, tomando-lhe o rosto, o beijou na boca. Para que ele e todos a soubessem solidária incondicional.

Na rede, admirando as gravuras, as altivas cabras, as pacíficas baleias, o grande sol azul, sonho e realidade, Leonora conta os minutos. Pela manhã, Ascânio mandara Leôncio com um recado: tem pela frente um dia muito ocupado com os problemas do calçamento da rua da entrada da cidade – Leonora se encontra a par do complô festivo, da projectada homenagem à Joana D’Arc do Sertão – mas se conseguir tempo passará a vê-la, a qualquer hora. Nos lábios de Leonora esvoaçam os versos de Barbozinha sobre o capitão da aurora.

Badala o sino da Matriz anunciando cinco horas da tarde. O capitão da aurora está cercado de ameaças e perigos. Apenas ele ou ele e ela, o idílio de Ascânio e Leonora, o sol azul de Agreste?

Onde a altivez, o entusiasmo, a certeza de triunfo do Capitão Ascânio Trindade a comandar o progresso, derrubando os muros do atraso, acendendo esperanças no burgo morto e no peito de Leonora? Murcho, inquieto, triste, quase derrotado. Vencido ou vitorioso, pouco importa, meu amor.

Ei-lo que irrompe porta adentro, sem sequer pedir licença, de novo altivo, entusiasta, triunfante, nas mãos um maço de jornais, a notícia do asfalto próximo no Caminho da Lama e a placa com o nome da rua dona Antonieta Esteves Cantarelli (cidadã benemérita).

ABBA
O nome da Banda é um acrónimo formado pelas primeiras letras de cada um deles
:

- Agnetha Falstskog
- Benny Anderson
- Anni-Frid Lyngstad (Frida)
- Bjorn Ulvaeus

É um Grupo sueco formado por volta de 1970 e até ao início dos anos 80 dominaram os Top Ten apenas superados pelos Beatles. Quando, em Abril de 1999,foi apresentado o Musical "Mama Mia", em Londres, os ABBA foram apontados como tendo vendido 360 milhões de Albuns. Hoje, serão mais de 370 milhões, à razão de 3 milhões de discos por ano.

O Musical "Mama Mia" foi visto por 35 milhões de espectadores em todo o mundo. Nos próximos dias iremos falar deles e passar o seu reportório.


ABBA - VOULEZ - VOUS




ABBA - I HAVE A DREAM



DE REGRESSO DE FÉRIAS, COMO PROMETIDO, CÁ ESTAMOS PARA CONTINUAR A HISTÓRIA DA TIETA.





TIETA DO
AGRESTE
EPISÓDIO Nº 162





DA FORMOSA LEONORA CANTARELLI, ESTENDIDA NA REDE, ENTRE CABRAS E BALEIAS, SOB UM SOL AZUL


A formosa Leonora Cantarelli, estendida na rede, na varanda da casa de Perpétua, recolhe o apressado beijo de despedida de Peto, cujas obrigações de torcedor, acrescidas do receio de receber castigo devido a imprudentes palavras, chamam-no ao bar onde, a partir das cinco, começa um torneio de bilhar disputado pelos melhores tacos da cidade. Peto não dispensa o beijo da prima quando chega e se despede. Leonora diverte-se com as manhas do garoto, a esperteza e os olhos astutos. Fora disso, terno e solícito, sempre às ordens das parentes paulistas, pronto para qualquer serviço. Pela tia Antonieta tem verdadeira idolatria, o que não impede de brechar-lhe os decotes, de alegrar a vista nos detalhes expostos.

Após a partida de Barbosinha para a Agência dos Correios, Peto permanecera fazendo companhia a Leonora, narrando-lhe peripécias da pesca. Saíra rio abaixo naquela manhã, com Elieser, na lancha. O peixe mordia que dava gosto, carapebas enormes; o molinete e a vara trazidos de presente pela tia Antonieta para Cardo revelavam-se legais paca. Voltara com o samburá cheio de carapebas e robalos deste tamanho – marcava o tamanho com as mãos – dera à tia Elisa, comeriam no jantar peixe pescado por ele, Peto, rei do isco e do anzol.

Tia Elisa é legal no tempero, de se lamber os beiços. Bonita também, a mulher mais bonita do agreste, para comparar-se com ela só mesmo Leonora.

- Entre a tia e a prima o páreo é duro. Se eu tivesse que escolher ficava com as duas.

As antenas sempre ligadas, Perpétua escuta ao passar, repreende:

- Que falta de respeito é essa, moleque? Quer ficar de castigo?

Peto capa o gato antes que a mãe o mande fazer uma hora de banca ou o obrigue a acompanhá-lo à Igreja para a chatice das devoções vespertinas; no bar os campeões devem estar se reunindo. Pisca o olho para Leonora, rouba-lhe o beijo e quando Perpétua o procura – cadê esse endemoninhado? – não lhe percebe nem o rasto. Queixa-se do filho mais moço enquanto explica a Araci como arear os talheres para deixá-los reluzindo; aproveita a presença da moleca para uma faxina geral, a casa anda um brinco.

- Esse menino me consome a vida. Ricardo não me dá trabalho mas Peto não sei a quem saiu. Parece filho de Tieta… - tapa a boca com a mão, arrependida, não vá a sirigaita contar à madrasta.

- É um menino óptimo – elogia Leonora.

- Você é que é boa, fecha os olhos às bobagens dele – desaparece no quarto do oratório.

A sós, Leonora retoma os livros da autoria do poeta De Matos Barbosa, emprestados pelo autor: dois de versos, um de pensamentos filosóficos. Empréstimo feito debaixo de muitas recomendações. Tomasse cuidado pois ele possuía apenas aqueles únicos volumes e as edições estão há muito esgotadas. De uma delas o exemplar vale hoje uma verdadeira fortuna, e ainda assim quem possui não quer se desfazer. Tiragem limitada, fora de comércio, ilustrada com dez gravuras de Calasans Neto, a cores e a preto-e-branco, financiada por amigos do poeta, fora vendida a subscritores quando a embolia o ameaçou de morte ou, pior, de mudez, de cegueira, paralisia, cadeira de rodas. Com o produto da venda directa, obtivera dinheiro para pagar quarto particular em hospital e as contas da farmácia. Médicos, tivera dos melhores, de graça; quem, em Salvador, não conhecia e estimava o poeta De Matos Barbosa e sua mansa loucura?

Ao entregar os envelhecidos tomos, folheando com Leonora a bela edição dos Poemas do Agreste, revendo as ilustrações, Barbozinha filosofara sobre a vida, os caprichos do destino. Aquele fora o último livro que conseguira publicar. Recuperado porém marcado pelo derrame, a voz presa, o passo tardo, aposentado da função pública, partira para o voluntário exílio na placidez da terra natal, distante das portas de livraria, dos animados cafés e das tertúlias, das colunas dos jornais, do sucesso e do renome. Enquanto isso, daquelas primeiras cabras e baleias, talhadas na madeira há onze anos, para ilustrar poemas sobre os
outeiros de Agreste e os cômoros de Mangue Seco, inesperadas baleias vindas do mar, em navegação no rio Real, cabras dom dengues e meneios de mulher, alteando-se sobre as rochas, disparara o jovem gravador Calasans Neto – o caboclo Calá, um porreta, assim o trata e define o vate Barbozinha – para rápida e gloriosa carreira, hoje nome nacional, com exposições inclusive no exterior, em Nova Orleans e em Londres, sim senhora, minha gentil amiga. Assim é a vida, uns subindo, outros descendo a rampa, constata ele sem amargura: tendo vivido numerosas existências, encarnado tantas e tantas vezes, esses altos e baixos não o apoquentam. Muito menos agora quando o fraterno Giovanni Guimarães, glorioso e popular cronista de A Tarde, o retira do ostracismo para lhe entregar o estandarte da luta contra a poluição.

Compusera, em duas noites de inspiração e raiva, cinco Poemas da Maldição para marcar com o ferrete candente da poesia a face podre dos vendilhões da morte. Viera com a ideia de os ler para Tieta, musa eterna e singular dos livros publicados, braço e coração a sustentá-lo quando o raio o atingiu e o vate encontrou-se soterrado sob a humilhação da versalhada em louvor à Brastânio, aquela abjeção por ele produzida devido ao engano em que lamentavelmente incorrera em companhia de Ascânio, ambos inocentes vítimas da perfídia. Aproveitou para agradecer à encantadora à encantadora síflide ter destruído, nas chamas purificadoras, a cópia do corpo de delito, apagando-se assim, para todo o sempre, a lembrança da infâmia; os originais ele os havia igualmente transformado em cinzas.

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