sábado, junho 27, 2009


TIETA DO AGRESTE

Episódio Nº 167




DAS RAZÕES A FAVOR


Irrespondíveis argumentos, os de Giovanni Guimarães, na opinião do vate Barbozinha, em conversa com Leonora. Não há mais o que discutir, disseram dona Carmosina e o Comandante; o cronista de A Tarde pusera o preto no branco, os pontos nos ii. Não pensavam assim proprietários e directores de outros jornais, a prova está à frente de Ascânio Trindade, sobre a mesa do prefeito. Exemplares de dois diários da capital nos quais, em fartas matérias, as opiniões do articulista em sua Carta ao poeta De Matos Barbosa viram-se sujeitas a completa revisão, áspera crítica e desagradável confronto com as responsáveis declarações de cientistas de peso e de administradores conscientes de seus deveres.

Um desses jornais estampa a manchete agressiva, vista por Ascânio antes de embarcar na marinete onde, excitado, a releu, constatando a violência do tratamento aplicado a Giovanni: impostor, nem mais nem menos. A Gazeta não levou em conta o renome do articulista, a simpatia e a consideração a cercá-lo.

Longo editorial em negrita e corpo doze, canta loas à Brastânio, em frases e adjectivos, junto aos quais os louvores de Barbozinha no excomungado poema empalidecem. No momento em que o Governo do estado conclui as obras do Centro Industrial de Aratu, criando as condições para um surto novo na vida da Bahia, a localização na Boa Terra de uma indústria da importância da Brastânio, fundamental para o desenvolvimento do país, é a mais auspiciosa notícia do ano que termina, um inigualável presente de Natal à população do Estado – afirma o artigo de fundo. Pode proclamar-se ter sido a Bahia contemplada com a sorte grande ao ser escolhida pela ilustre directoria da empresa que se propõe aplicar em nosso Estado capitais de vulto antes aqui desconhecidos em se tratando de empreendimentos privados. Há quem fale, naturalmente, em perigos de poluição, mas os negativistas sempre existiram, em qualquer parte e ocasião, opondo-se ao progresso, pregoeiros da desgraça.

São vozes isoladas e de duvidosa procedência, servindo a escusos interesses. Se por simples curiosidade, nos detemos a examinar a biografia política dessas aves de agouro a grasnar infâmias, localizaremos de imediato ranço ideológico suspeito, a marca registada de Moscovo. Nesse tom, todo o editorial. Não cita o nome de Giovanni Guimarães mas está na cara.

Cita-o, porém, na entrevista concedida ao mesmo jornal, um dos dinâmicos directores da Brastânio – Indústria Brasileira de Titânio S.A., o jovem vitorioso empresário Rosalvo Lucena, economista de reputação nacional, diplomado pela fundação Getúlio Vargas, da qual logo se tornaria professor, Managerial Sciences Doctor pela Universidade de Bóston. Começou o titular de tantas excelências levando Giovanni na gozação, “ameno cronista sem nenhum conhecimento científico, deveria manter-se no limite dos fúteis acontecimentos quotidianos, no comentário de casos de polícia e de vitórias e derrotas do futebol, ao que sabe, seus temas prediletos, não se metendo a dar palpite naquilo que ignora, transformando-se de cronista em impostor, tentando lançar a opinião pública contra um empreendimento de alto teor patriótico que significará para o Brasil economia de divisas, ampliação do mercado de trabalho, riqueza. Sobre o imaginado e inexistente perigo mortal que as fábricas da Brastânio representariam, segundo o odioso foliculário, melhor será ouvir a opinião de um técnico de competência indiscutível, o doutor Karl Bayer, nome familiar a todos quantos se interessam pelos problemas do meio ambiente.”

Num retrato a três colunas Ascânio vê, no centro da página, o dinâmico doutor Rosalvo Lucena, o ilustre cientista Bayer e o simpático doutor Mirko Stefano ao lado do nosso director quando da visita realizada à redacção desta folha.

O ilustre técnico em texto extremamente científico e ininteligível, por isso mesmo de muita força de convicção, respondendo a três perguntas – por ele mesmo redigidas pois esses repórteres são uns analfabetos em matéria de problemas ecológicos – liquidou o assunto. Com grande gasto de elmenita, cloreto, Austrália, catalizador, pentóxido de vanádio, necton e plâncton, efluentes, provou por a mais b não passar de balela toda essa conversa de perigo de poluição e contaminação de águas, “desprezível demagogia”.

Quem há-de de duvidar perante tanta ciência?

No outro jornal, não menos entusiasta da instalação da Brastânio, “indústria de salvação nacional, primordial, factor de reerguimento da economia baiana” o engenheiro Aristóteles Martinho, da Secretaria da Indústria e Comércio, deu sua penada a favor da empresa. Perigo nenhum, garante o técnico, despojado de termos difíceis e de efluentes, competência modesta se comparada à do germânico Bayer. Importante, porém, pois reflecte o pensamento da administração estadual que, tendo, segundo ele, estudado acuradamente o assunto, levando em conta os interesses vitais da população, concluíra pela “perfeita inocuidade e pela extrema importância da indústria a ser implantada no Estado pela Brastânio”. Termina afirmando que os baianos podem dormir descansados, o governo está vigilante e não permitirá ameaças às terras, às águas e ao ar nos limites da Bahia. Quando fala em governo, refere-se ao Estadual e ao Federal, “indissolúveis na defesa dos recursos naturais e da saúde do povo”,

Os jornais – alguns exemplares de cada um dos dois – vieram acompanhados de uma breve carta do doutor Mirko Stefano, dirigida ao caro amigo doutor Ascânio Trindade, na qual lhe informa ter a Brastânio contratado os serviços de uma empresa de viação e obras para realizar estudos e apresentar projecto para o alargamento e a pavimentação de cinquenta quilómetros da estrada a ligar Agreste e Esplanada. A mesma empresa asfaltará, por conta da Brastânio, a rua da entrada da cidade, conforme o prometido. Em breves dias chegarão as máquinas e os técnicos. Não se refere nem aos jornais nem a Giovanni Guimarães.

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