sábado, setembro 18, 2010

Fernando Pessoa
(Lisboa, 13 de Junho de 1888 -
Lisboa, 30 de Novembro de 1935)



Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

(Fernando Pessoa)
P.S. - Devíamos ler e meditar sobre este pequeno texto de Fernando Pessoa como encorajamento quando se descrê da vida e procura ser feliz.

A RAIZ DE TODO O MAL

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Palavras para quê?

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INFORMAÇÕES ADICIONAIS

À ENTREVISTA SOB O TEMA:

“SANTÍSSIMA TRINDADE”


O DOGMA CENTRAL PROVOCOU GUERRAS

A Trindade é o Dogma Central do Cristianismo Católico, do Cristianismo Ortodoxo e de algumas descriminações protestantes. Foi fixado como dogma da fé no Ano 325, no Concílio de Niceia. Antes e depois desse Concílio a formulação desse dogma deu origem a inúmeras heresias, cismas e até guerras.

A definição do Concílio de Niceia afirmou que o Filho era “consubstancial” ao Pai, fórmula que gerou anos de debates até que o dogma de Niceia foi reafirmado no Concílio de Constantinopla em 381.

Muitos anos depois, em 1054, a procedência da “Terceira Pessoa” dessa Trindade, o chamado Espírito Santo, provocou o cisma do oriente que separou a Igreja de Roma da de Constantinopla, dando origem aos “cristãos ortodoxos”, a maioria deles na Rússia e em toda a europa oriental.

A Teologia de Constantinopla dizia que o “Espírito Santo” só procedia do “Pai” e Roma afirmava que era do “Pai” e do “Filho” e por causa disto separaram-se dando lugar à Igreja do Ocidente e à Igreja do Oriente.

Naturalmente, que nestes conflitos não havia apenas ideologia e teologia mas também interesses, grandes interesses, de domínio político sobre vastos territórios.



Um Deus em Três Partes ou Três em Um

Na Idade Média esbanjaram-se rios de tinta – para não dizer também de sangue – com o “mistério” da Santíssimo Trindade. No século IV D.C. Ário de Alexandria negou que Jesus fosse “consubstancial” com Deus, isto é, da mesma natureza ou essência.

Poder-se-á perguntar: que diabo quererá isto dizer de “substância”? Muito pouco parece ser a única resposta razoável mas o suficiente para alimentar uma controvérsia que dividiu o cristianismo ao meio durante um século até que o Imperador Constantino ordenou que fossem queimados todos os exemplares do livro de Ário.

Dividir o Cristianismo a propósito de ninharias foi sempre esse o método da Teologia.

Temos, então, um Deus em três partes ou três em um?

A Enciclopédia Católica esclarece-nos a questão naquilo que constitui uma obra-prima de raciocínio teológico apurado…

“Na medida do Divino existem três Pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo sendo todas verdadeiramente distintas umas das outras. Assim sendo, o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus e, no entanto, não existem três Deuses, mas sim um Deus”

E se isto não fosse suficientemente claro a mesma Enciclopédia cita São Gregório, o Taumaturgo, teólogo do século III:

“Nada existe, portanto, na Trindade que seja criado, nada que seja sujeito a outrem: nem existe nada que tenha sido acrescentado como senão tivesse existido anteriormente, mas antes houvesse sido introduzido mais tarde: por isso o Pai nunca foi sem o Filho, nem o Filho sem o Espírito Santo: e esta mesma Santíssima Trindade é imutável e para sempre inalterável”

Diz Richard Dawkins:

“Sejam quais forem os milagres que valeram o cognome a São Gregório, não foram concerteza milagres de pura lucidez. As suas palavras carregam aquele travo caracteristicamente obscurantista da teologia – que ao contrário da ciência ou da maioria dos restantes ramos do conhecimento humano – nada avançou ao longo de 18 séculos.

Thomaz Jefferson estava certo quando afirmou que: “o ridículo é a única arma que pode ser utilizada contra preposições inteligíveis. As ideias devem ser nítidas antes da razão poder agir com base nelas e nenhum homem, alguma vez, teve uma ideia nítida acerca do que seja a Trindade. Não passa do abracadabra dos saltimbancos que a si próprios se intitulam sacerdotes de Jesus”.


PEPPINO DI CAPRI - CHAMPAGNE
Peppino venceu os Festivais de San Remo em 1973 e 76 e o de Napoli em 1970. No Brasil teve muito êxito com a canção Roberta.



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


Episódio Nº 228




Assim, ouviu com cepticismo aquela lengalenga e, mal dona Magnólia acabara de citar os próprios seios com tanta dignidade defendidos dos pseudo-avanços do doutor, o detective meteu-lhe a mão nas fuças e lhe exigiu completa confissão.

Surra de perito, de alguém com experiência e gosto. Dona Magnólia contou o que fez e o que não fez, inclusive casos antigos, sem ligação nenhuma com o polícia, e, de lambugem, a completa verdade das suas relações com doutor Teodoro. Completa verdade, em termos, pois ao inocentá-lo não deixou de opinar sobre o doutor impotente, com muita figura e nenhuma serventia, pois jamais alguém lhe fizera a injúria de resistir à paisagem do seu traseiro levantado em guerra.

Foi um alvoroço pela rua, um bafatá. Os tapas e os gritos, os palavrões trouxeram para a frente da casa do secreta curiosa e fremente malta de vizinhos, comadres e alunos do ginásio. As comadres e em geral a vizinhança apoiavam a surra bem merecida e bem aplicada, com um único defeito: haver tardado tanto. Os rapazolas do colégio sofriam cada bofete, cada safanão como se fosse na própria carne, sendo naquela carne de ternura e dengue por todos eles possuída em adolescentes leitos solitários. Houve noites nas quais ela dormiu, ubíqua fêmea, omnipresente pastora de meninos, mestra do amor, em mais de quarenta camas juvenis num só tempo de sonho e arrebol.

Quem, no entanto, penetrou em casa do secreta, foram dona Flor e dona Norma, contentando-se os demais em aplaudir ou criticar, ninguém queria encrenca com tira de polícia.

- Seu Tiago, o que é isso? Quer matar a desgraçada? Vamos, solte ela… - gritou dona Norma.

- Bem merecia que eu acabasse com ela, essa vaca… - respondeu o desportista, aplicando uns derradeiros golpes.

Pobrezinha dela… O senhor é um monstro… disse dona Flor, curvando-se sobre a moída vítima do destino.

- Pobrezinha? – o tira não podia com tamanha injustiça – Pois sabe o que esta pobrezinha inventou sobre o seu marido?

- Sobre o meu marido?

- Pois me veio contar que o doutor estava atrás dela e que quis pegar ela hoje na farmácia, a pulso. Quando eu apertei, confessou que era tudo mentira, que queria me intrigar com ele, para eu ir tomar satisfação, que foi ela quem deu em cima e ele não topou. Isso sem falar no resto.

Numa voz soturna perguntou:

- A senhora sabe como estavam me chamando? “A vergonha da polícia”.

Naquela noite, ao saírem para o cinema, enquanto se aprontavam, dona Flor ante o espelho, pondo pó-de-arroz, disse sorrindo ao doutor Teodoro:

- Então o senhor doutor anda querendo pegar as clientes que vão à farmácia tomar injecção… Quis agarrar dona Magnólia…

Ele a fitou e se deu conta da pilhéria: dona Flor não mantinha o sério, lhe parecendo cómico tudo aquilo. Por mais que quisesse se enternecer com a lealdade do marido, não conseguia afastar a imagem do doutor Teodoro de seringa na mão e a peituda Magnólia, descaradíssima, a tentar beijá-lo. Marido direito estava ali, correcto de toda a correcção. Mas, que fazer se aquela história se lhe afigurava divertida, mais ridícula do que heróica?

sexta-feira, setembro 17, 2010

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Enganou-se na mudança... ou não gostou de ser multado?

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ENTREVISTAS FICCIONADAS
COM JESUS CRISTO


Entrevista Nº 62


Tema – SANTÍSSIMA TRINDADE


Raquel – Continuamos no cimo do Monte Tabor. Na entrevista anterior, o senhor, Jesus Cristo não parecia muito entusiasmado com o privilégio de ter duas naturezas, uma humana e outra divina, numa só pessoa.

Jesus – Não é isso, Raquel, é que não compreendi bem…

Raquel – Não me venha com rodeios dizendo que todos os seres humanos são criados à imagem e semelhança de deus. Isso já o sabemos. Mas o senhor… o senhor chamou-se a si mesmo Filho de Deus.

Jesus – Eu sempre me chamei filho do homem. Eu sou um homem, Raquel. Um homem verdadeiro.

Raquel – Mas também um Deus verdadeiro. Senhor… o senhor é deus.

Jesus – Detém-te Raquel. Horroriza-me o que estás dizendo… Só Deus é Deus.

Raquel – Creio que é hora de falar claro. Eu estou-me referindo à Santíssima Trindade. Quero falar sobre isso. Sobre isso quero ouvir a nossa audiência. Sobre a Santíssima Trindade.

Jesus – Pois falemos.

Raquel – Este dogma da Santíssima Trindade foi estabelecido no Concílio de Niceia (325). Deus: três pessoas numa só natureza: Deus Padre, Deus Filho e Deus Espírito Santo. É ou não assim?

Jesus – Falas-me de três deuses?

Raquel – Falo-lhe de três naturezas numa só pessoa. Ao contrário, de três pessoas numa só natureza. É que estes temas são difíceis, complicados, tem que o compreender. Falo de três pessoas divinas.

Jesus – E quem são essas três pessoas?

Raquel – Bem, o senhor é uma delas.

Jesus – E as outras duas?

Raquel – O Pai e o Paráclito.

Jesus – Quem é o Paráclito?

Raquel – O Espírito Santo. Um pai, um filho e um paráclito. Essa é a família divina.

Jesus – Uma família só de varões?

Raquel – As brincadeiras para mais tarde… Eu volto a pedir-lhe que se concentre porque este tema é crucial. É o dogma dos dogmas.

Jesus – Então, diz-me tu quem sou eu.

Raquel – O senhor vem sendo a segunda pessoa de uma só natureza divina, ainda que, como recordará, o senhor conta com duas naturezas em uma mesma pessoa. Entende agora?

Jesus – Não.

Raquel – Luz de luz, deus verdadeiro de deus verdadeiro, engendrado, não criado, consubstancial ao pai.

Jesus – Mas, Raquel, como é que eu vou ser uma pessoa com duas naturezas e uma natureza com três pessoas?

Raquel – A solução disto tudo é a união hipostática. Três que não são três e sim um. E um que não é um, são dois.

Jesus – Acredita que me esforço por seguir-te mas isso parece-me uma geringonça, um imbróglio... Não entendo nada.

Raquel – Bem, são assim os mistérios divinos.

Jesus – Ou melhor, os mistérios dos enredos humanos porque a mim, desde criança, meu pai e minha mãe me ensinaram que Deus é uno e que ninguém jamais viu seu rosto

Raquel – Bibliotecas inteiras explicam o dogma da Santíssima Trindade, triângulos, sermões, pinturas, catedrais… e agora vem o senhor dizer-nos…

Nina – Ei!... Os senhores são daqui?

Jesus – Vem cá, jovem, como te chamas?

Nina – Maryam.

Jesus – Que bonito nome, como o de minha mãe. Vem, senta-te aqui connosco. Que queres?

Nina – Um gelado.

Jesus – Um gelado, não, vamos comprar “três” gelados… Olha-a, Raquel, fala para ela. As crianças são as que mais sabem de Deus. Deus não se revela aos sábios nem aos teólogos.

Raquel – E os demais…?

Jesus – Os demais são o menos. Vamos, Maryam… põe outra cara, Raquel… A natureza está aqui, perante os nossos olhos e as três pessoas somos nós: tu, eu… e a Maryam.

Raquel – Pois… pois… os três despedimo-nos no programa. Até à próxima… Desde O Monte Tabor, Emissoras Latinas.

MINA - TINTARELLA DI LUNA

Lembram-se da Tintarella di Luna (bronzeados da lua)? Grande sucesso da canção italiana de 1959. Ana Maria Quaini, nascida em 1940 e conhecida por Mina. Foi figura dominante dos anos 60 e 70 e este foi o seu 1º grande êxito.



DONA FLOR
E SEUS DOIS
MARIDOS


Episódio Nº 227



- Saia! – disse o doutor em voz baixa mas de rude assento.

- Meu mulato lindo e o atracou.

- Saia! O doutor repelia aqueles braços ávidos, aquela boca voraz, plantado em seus princípios, em suas convicções inabaláveis – Fora daqui!

Majestoso em sua em sua virtude inflexível, de seringa e bata branca, o rosto indignado, se o doutor estivesse sobre um pedestal seria o perfeito monumento, a fulgurante estátua da moral vitoriosa sobre o vício. Mas o vício, ou seja a descomposta e humilhada dona Magnólia, não fitava o impoluto herói com olhos de remorso e contrição e sim, de nojo e ira, em fúria:

- Broxa! Capado! Você me paga, seu banana, seu xibungo velho! – e saiu para intrigar.

Pobre dona Magnólia, vítima do desprezo e do acaso, realmente em mar de urucubaca, pois foram os mais imprevistos os resultados da sua intriga, redundando em fracasso seus planos de vingança. Enfática e insultada (em seu recato, em sua honra de manceba séria) queixara-se ao secreta da “perseguição daquele bode imundo, o farmacêutico”, um completo sem vergonha a lhe fazer propostas, a lhe repetir dichotes, a convidá-la a ir com ele ver o luar nas areias de Albaeté. Estava o canalha a merecer uma lição, uns trancos pertinentes, talvez breve passagem pelo xilindró com bolos de palmatória para lhe ensinar respeito às mulheres dos demais.

Nada dissera antes para evitar barulho e para não dar desgosto à mulher dele, tão boazinha. Mas, naquele dia ele exagerara… Ela fora à farmácia tomar uma injecção e o patife quisera-lhe meter as mãos no peito, obrigando-a a sair correndo…

Em silêncio o secreta ouviu toda a história, e dona Magnólia, conhecendo-o bem constatava a raiva cada vez maior na face do seu homem: o doutor lhe pagaria caro a ofensa, pelo menos uma noite de xadrez.

Naquela tarde o policial se atritara com um colega em consequência de erros de cálculo na barganha de uns mil-réis extorquidos a bicheiros. No diálogo um tanto áspero a preceder a troca de socos e bofetões, tendo o amásio de dona Magnólia rotulado o companheiro de gatuno, dele ouviu revelações de estarrecer: “antes ladrão, disse ele, que chifrudo, corno manso como o caro amigo”. Acrescentara em seguida as provas de certas peripécias recentes de dona Magnólia. Em resumo lhe informou que, só colegas da polícia eram cinco a se revezarem na tarefa de decorar a testa do distinto. Sem falar no delegado de costumes. Se lhe pusessem uma lâmpada em cada chifre dava para iluminar meia cidade, do Largo da sé ao Campo Grande. Podia não ser ladrão mas era vergonha da polícia. Foram os tabefes.

De honra limpa na peleja, fez as pazes com o confrade e de ele e de outros escutou informações de estarrecer: já tinha ouvido falar numa tal de Messalina? Não é da zona não, é da História, e foi a tal. Pois, junto de dona Magnólia, era donzela pura…

Acabrunhado, a vergonha da polícia jurou vingança, num plágio aliás de ameaça de dona Magnólia ao farmacêutico:

- Vaca! Vai me pagar!

quinta-feira, setembro 16, 2010

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Um flagrante incrível!

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INFORMAÇÕES ADICIONAIS
À ENTREVISTA SOB O TEMA:

“DEUS E HOMEM VERDADEIRO?”



UMA CONSCIÊNCIA EM EVOLUÇÃO

Como todos os seres humanos, Jesus cresceu não apenas em idade mas também em consciência, aprendendo a vida e as realidades que o rodeavam. Na Sinagoga da Nazaré deu um passo importante na maturidade da sua consciência ao aplicar a si mesmo a frase de Isaías: “O espírito está sobre mim”.

Era uma forma de reconhecer-se como profeta, na tradição de todos os profetas que o haviam precedido. Como profeta, Jesus falava e actuava, sentindo-se herdeiro da tradição de Israel. Como profeta consolidou a sua liderança no movimento que se foi organizando à sua volta.

Depois da sua morte e de dar testemunho da sua ressurreição, a Igreja primitiva acumulou sobre Jesus títulos para descrever a sua missão: “Filho de Deus”; “Cristo”; “O Salvador”. A história que decorre dos Evangelhos mostra, sem dúvidas, que o título com que foi aclamado unanimemente pelo povo e pelos discípulos foi o de “Profeta”.

O profeta define-se em oposição à instituição. A Jesus não devemos considerá-lo como um teólogo ou um mestre religioso mais radical que outros, ainda que dentro da instituição. Não o poderia ser, faltava-lhe o que fazia os mestres do seu tempo: os estudos teológicos. A formação dos mestres era rigorosa, durava muitos anos, começava na infância. Quando chamaram a Jesus “rabi” (mestre) estavam aplicando essa expressão como sinal de respeito, como era habitual no seu tempo mas não deve traduzir-se como mestre no sentido teológico, tanto assim que, os mestres da Lei o acusaram de ensinar sem ter autorização.


Os Dogmas da Igreja Tiraram o Sabor

A teóloga brasileira Yvone Gebara, já várias vezes aqui referenciada pela clareza e qualidade das suas posições, escreve o seguinte no seu Texto “Jesus desde uma perspectiva ecofeminista”:

- Os dogmas do Cristianismo que vêm desde os Concílios de Niceia e Calcedónia com todos os “refinamentos” posteriores tiraram o paladar saboroso das palavras de Jesus, ao seu comportamento, por vezes irreverente, inesperado, desconcertante, audaz, carinhoso. O que foi conversado à beira de um poço, comida repartida, gestos de ternura, denúncia contra as injustiças, carícia dada e recebida, tudo isto foi convertido pela dogmática em “razão organizada”, “razão sistemática”, “ciência”.

Os Dogmas puseram numa “prisão” aquilo que foi um convite à liberdade, àquilo que era poesia. E ainda mais, colocou às “portas dessa prisão” soldados armados vestidos de sacerdotes para que nada saia dela em pensamentos diferentes.

A dogmática colocou mestres autorizados para contar as verdades sobre Jesus e com isso matou a criatividade dos momentos de gratuitidade, dos encontros informais, das conversas caseiras, ao longo dos caminhos ou na margem dos rios.

A dogmática, tomada numa perspectiva radical,
reduziu a “racionalidade fraterna” à obediência hierárquica, limitou os caminhos a um só caminho, os múltiplos discursos de amor a um único discurso e foi criando medo, medo de desobedecer, medo de pensar errado, de não utilizar a palavra certa ou a doutrina bem formulada, à verdadeira tradição procedente de Jesus.

MAYSA - OUÇA

Esta canção, de 1958, é de autoria da própria Maysa (1936-1977) e retrata perfeitamente a simbiose que ela, melhor que ninguém, conseguiu estabelecer entre a mulher e a cantora. Mais do que cantar, ela exprime-se, revela-se em momento de intimidade.
A sua obra musical - 17 Albuns, 6 Compactos Duplos e 9 Simples - é das mais brilhantes, sensíveis e belas da Música Popular Brasileira sendo considerada pela crítica especializada e grande parte do público como uma das melhores cantoras da
MPB.
A sua vida foi um "vulcão" que a consumiu aos 41 anos num acidente, ao volante de um automóvel, na Ponte do Rio Niteroi provocado pelas anfetaminas, excesso de alcool e cansaço pelo muito trabalho que desenvolvia.


DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


Episódio Nº 226



Para manter o equilíbrio… Esses remédios novos… Que equilíbrio, minha senhora? – e sorria gentil como se achasse perda de tempo e de dinheiro aquele tratamento de injecções.

- Dos nervos, seu doutor. Sou tão sensível, o senhor nem sabe.

Tomava ele das agulhas com uma pinça, retirando-as da água quente, atento ao transpor o líquido para a seringa, calmo e sem pressa, cada coisa de uma vez e em seu lugar. Um dístico, pendurado sobre a mesa de trabalho, era uma declaração de princípios claramente exposta: “Um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar”. Dona Magnólia leu, sabia de uma coisa e de um lugar, maliciosa fitou a face do doutor; homem seguro de si, um figurão!

Após encharcar em álcool um capucho de algodão, suspendeu a seringa:

- Levante a manga…
- Voz de dengue e malícia, observou dona Magnólia:

- Não é no braço não, doutor.

Ele puxou a cortina, ela suspendeu a saia, exibindo aos olhos do doutor riqueza ainda bem maior e mais soberba do que aquela exposta diariamente na janela. Era uma bunda e tanto, das de tanajura.

Nem sentiu a picada, doutor Teodoro tinha a mão leve e segura. Agradável sensação de frio lhe deu o algodão calcado contra a pele no dedo do doutor. Uma gota de álcool correu-lhe pelas coxas, ela novamente suspirou.

Uma vez mais doutor Teodoro errou na interpretação daquele doce gemer:

- Onde lhe dói?

Ainda a segurar a borda do vestido na ostentação dos quadris até ali irresistíveis, dona Magnólia fitou o preclaro personagem bem nos olhos:

- Será que não entende, que não entende nada?

Não entendia mesmo:

- O quê?

Já com raiva, ela largou a barra do vestido, cobrindo a desprezada anca, e, por entre dentes falou:

- Será mesmo cego, será que não enxerga?

A boca semi-aberta, a face parada, os olhos fixos, o doutor se perguntava se ela não teria enlouquecido. Dona Magnólia, ante tamanho monumento de estultícia, concluiu sua pergunta:

- Ou é mesmo trouxa?

- Minha senhora…

Ela estendeu a mão e tocou a face do luminar da farmacologia, e com a voz novamente em desmaio e dengue largou tudo:

- Não está vendo, tolo, que estou caída por você, babada, doidinha? Não está vendo?

Foi se aproximando, seu intento era agarrar o cauteloso ali mesmo, pelo menos em preliminares, e nem uma criança se enganaria ao vê-la de lábios estendida, de olhar em langor.

quarta-feira, setembro 15, 2010

A malta de Cacilhas é lixada!


Uma loira boazona ia atirar-se da ponte 25 de Abril, quando aparece um marinheiro:

- Eh, pá, miúda, não faças isso!
- 'Sim! Vou atirar-me! A minha vida é uma desgraça!'
- Não faças isso! Olha, o meu navio está de partida para o Brasil. Porque é que não vens comigo e pensas melhor durante a travessia? Chegando lá, se ainda te quiseres matar, pelo menos ficaste a conhecer o Brasil.
A loira achou a proposta razoável e seguiu com ele para o porão do barco, onde viajaria clandestinamente durante duas semanas. O marinheiro visitava a loira à noite, levava-lhe comida e água e dava-lhe uma queca.
Todos os dias: comida, água e... pimba.
Um dia, o comandante fez uma inspecção ao porão do navio e descobriu a loira e ela não teve outra alternativa senão contar-lhe a verdade:
- Sabe, Sr. Comandante, eu estou aqui a viajar para o Brasil, porque um marinheiro salvou-me da morte. Todas as noites ele traz comida e água e, como agradecimento, eu deixo-lhe dar-me uma queca. Fizemos este acordo até chegarmos ao Brasil. Ainda falta muito para lá chegar?'
- Não sei, menina. Mas enquanto eu for Comandante, este barco só faz a travessia Cacilhas - Cais
do Sodré e volta.

O LEÃO E A LOIRA

O dono de um circo colocou um anúncio procurando um domador de leão e apareceram duas pessoas: um senhor de boa aparência, aposentado, beirando 70 anos, e uma loura espectacular de 25 anos.

O dono do circo fala com oscandidatos e diz :

- Eu vou directo ao ponto . Meu leão é extremamente feroz, e matou os meus dois últimos domadores. Ou vocês são realmente bons, ou não vão durar 1 minuto !

Aqui esta o equipamento - banquinho, chicote, pistola. Quem quer entrar primeiro ?

A loura fala :

- Eu vou !

Ela ignora o banquinho, chicote e pistola e entra rapidamente na jaula.
O leão ruge e começa a correr na direcção da loura. Quando falta um metro para ela ser alcançada, a loura abre o seu vestido e fica pelada, mostrando todo o esplendor do seu corpo. O leão para como se tivesse sido fulminado por um raio! Deita-se na frente da loura e começa a lamber os seus pés! Pouco a pouco, ele vai subindo e lambe o corpo inteiro da loura durante longos minutos!

O dono do circo, com o queixo caído até o chão diz:

- Eu nunca vi algo assim na minha vida!

Ele se vira para o velhinho e pergunta:

- Você consegue fazer a mesma coisa ?

E o velho responde:

- Claro ! É só tirar o leão...


ENTREVISTAS FICCIONADAS


COM JESUS CRISTO


Entrevista Nº 61



TEMA – DEUS E HOMEM VERDADEIRO?


Raquel – A Unidade Móvel das Emissoras Latinas mudou-se para o alto do Monte Tabor, na Galileia, verde e esplêndido a nossos pés. Compreende-se que tenha sido aqui o local escolhido pelo senhor para transfigurar-se ante os seus discípulos. Bom dia, Jesus Cristo.

Jesus – Bons dias, Raquel.

Raquel – Ainda que tenha mil perguntas pendentes não posso adiar mais a que a nossa audiência tanto espera. Quem é o senhor?

Jesus – Eu?... Eu sou Jesus.

Raquel – Alguns disseram que o senhor veio de outro planeta, que é um extraterrestre.

Jesus – Extraterrestre?

Raquel – Não sou eu que o digo, mas escritores como J.J. Benitez que cavalga o cavalo de Tróia… Diz ele que depois da sua morte um disco voador veio recolhê-lo e levá-lo de regresso à sua Galáxia.

Jesus – No meu tempo também se contavam histórias, como a da Arca de Noé mas são histórias para crianças. Eu nasci na terra que estamos pisando, não vim de nenhuma estrela.

Raquel – Em entrevistas anteriores, o senhor deu-nos detalhes do seu nascimento, dos seus pais, mas, sejamos sinceros, não esclareceu, contudo, a sua verdadeira identidade. Quem é o senhor, Jesus Cristo?

Jesus – Uma vez eu fiz essa pergunta a Santiago, ao João, a Pedro… Que dizem as pessoas que eu sou?... Uns dizem que és um profeta como Elias, outros como Jeremias… E vocês, o que dizem que eu sou?... Eles disseram, tu és o Messias, e vens libertar o nosso povo.

Raquel – O senhor considerava-se o Messias esperado?

Jesus – Eu sentia no meu coração um fogo… as palavras queimavam-me, amontoavam-se na minha boca. Quando fui baptizar-me com João, no rio Jordão, não tinha ideia aonde me levaria Deus…

Raquel – Mas nessa idade conhecia já a sua vocação, a sua missão divina, ou não?

Jesus – Como a havia de conhecer, Raquel? Sabe-se o caminho à medida que se vai caminhando.

Raquel – Mas, perante Caifás, no Sinédrio, aí sim, tinha o filme claro.

Jesus – Que filme?

Raquel – Desculpe a expressão… quero dizer, quando Caifás o interrogou, o senhor admitiu que era o Messias. Ou não?

Jesus – Eu disse-lhe que sim, que o Reino de Deus havia chegado.

Raquel – Mas Caifás não falou somente do Messias. Ele perguntou se o senhor era filho de Deus. E o senhor também disse que sim.

Jesus – Claro, Raquel, todos somos filhos de Deus. Tu e os teus ouvintes, todos são filhos de Deus.

Raquel – Estou referindo-me à sua natureza divina e não creio que desta vez me vá a escapar. Tenho uma marca: no Concílio de Calcedónia, em 451, o senhor foi definido.

Jesus – Como que fui definido.

Raquel – O senhor é uma pessoa que tem duas naturezas, uma divina e outra humana.

Jesus – E isso o que significa?

Raquel – Vou lhe dar um exemplo: o senhor como homem não conhece a Teoria da Relatividade de Einstein. Mas como Deus sabe, porque Deus sabe tudo.

Jesus – Que estranho… como se pode saber e não saber algo ao mesmo tempo.

Raquel – Outro exemplo: o senhor como homem não sabia que Judas o ia trair mas como Deus sabia-lo.

Jesus – Se soubesse de Judas te asseguro que as coisas seriam muito diferentes. Teríamos regressado de imediato a Galileia.

Raquel – Talvez não me tenha expresso bem porque sou jornalista e não teóloga. O que quero dizer é que…

Jesus – Deixa esse enredo para outro momento, Raquel e admira este vale… respira o ar…

Raquel – Sim, eu respiro, mas… os nossos ouvintes estarão de acordo? Eu ainda não. Assim, terei que continuar a perguntar-lhe sobre…

Jesus – Depois. Agora deixa-te inspirar por esta beleza … e irás compreender melhor as coisas.

Raquel – Pois… Do Monte Tabor e perante uma paisagem realmente maravilhosa, Raquel Perez, Emissoras Latinas.

PEPPINO GAGLIARDI - SEMPRE, SEMPRE
Nasceu em 1940 e foi um conhecido cantor popular italiano do "grupo napolitano". O seu 1º sucesso surgiu por volta de 1963 com a canção "T' Amo e T' Amero" e com as suas participações nos Festivais de Música de Sanremo chegando ao topo do sucesso. Com esta voz e estas lindas canções era inevitável...



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


Episódio Nº 225



Um esmoler às três da tarde, em ponto, sob o sol, cruzava a rua:

- Esmola para um pobre cego das duas vistas…

A melhor esmola era a visão divina na janela: mesmo com o perigo do desmascaramento, arrancando os óculos negros, patolava os dois olhos de uma vez e arregalados naqueles dons de Deus, bens da polícia. Se o secreta o perseguisse e o metesse no xadrez, sob a acusação de impostura, de falsificação da mendicância, ainda assim se daria o ceguinho por bem pago.

Apenas doutor Teodoro, todo engravatado, na pompa de seu traje branco, nem erguia os olhos para o céu exposto na janela. Cur4vando a cabeça num cumprimento de fina educação, tirava o chapéu a dizer bom-dia e boa tarde, indiferente à plantação de seios que dona Magnólia cercara de rendas para obter maior efeito, para abalar aquele homem de mármore, para destruir aquela fidelidade conjugal, insultuosa. Só ele, o morenaço, o bonitão, com certeza um pé-de-mesa, só ele passava sem deixar transparecer o impacto, a alegria, o êxtase, sem ver, sem olhar sequer aquele mar de seios. Ah!, era demais, ultraje revoltante, insuportável desafio.

Monógamo, garantia dona Dinorá, conhecedora de todos os particulares da vida do douto. Aquele não era de trair mulher, não o tendo feito sequer com Tavinha Manemolência, mulher pública se bem restrita em sua freguesia. Dona Magnólia, porém, tinha confiança em seus encantos: “minha cara cartomante, tome nota, escreva o que lhe digo, não existe homem monógamo, nós o sabemos, eu e vosmicê. Espie na bola de cristal e se ela for de confiança lhe mostrará o doutor na cama de um castelo – o de Sobrinha, para ser exacta – tendo a seu lado, toda pimpona, essa sua criada Magnólia Fátima das Neves.”

Não se abalara o doutor com os olhos de desmaio da vizinha, com sua voz de convite a responder-lhe o cumprimento, com seios plantados na janela, crescendo à sombra e ao sol no desejo dos meninos, no gemer dos velhos? Ria-se dona Magnólia, tinha outras armas, ia empregá-las, entrar em ofensiva imediata.

Assim, certa tarde de mormaço, um peso no ar pedindo brisa e cafuné, agrados de cama e cantigas de ninar, dona Magnólia transpôs os batentes da farmácia, levando na mão uma caixa de injecções para a nova tentação de Santo António. Vestida de verão com um trapo de fazenda leve, ia mostrando riquezas ao passar, num desperdício.

- Pode o doutor me aplicar uma injecção?

Doutor Teodoro media nitratos no laboratório, a bata amidoada a fazê-lo ainda mais alto e a dar-lhe certa dignidade científica. Com um sorriso ela lhe estendeu a caixa de injecções. Ela a tomou, depositando-a sobre a mesa, e disse:

- Um momento…

Dona Magnólia ficou de pé a contemplá-lo, cada vez lhe agradava mais. Um tipão, na boa idade, de muita força e valentia. Suspirou, e ele, deixando os pós e a fórmula, para a vizinha ergueu os olhos:

- Alguma dor?

- Ah!, seu doutor… - e sorriu como a dizer-lhe ser de cotovelo sua dor e ele a causa.

- Injecção? – examinava a bula – Hum… Complexo de vitaminas…

terça-feira, setembro 14, 2010

INFORMAÇÕES ADICIONAIS

Á ENTREVISTA SOB O TEMA:

“DE QUE NOS SALVA JESUS?”


O CORDEIRO SACRIFICADO

Jesus foi assassinado nos dias de Páscoa, festa tradicional do povo judeu e, na qual, o centro da celebração era uma cena de família comendo um cordeiro sacrificado no Templo de Jerusalém. A imagem do Messias como “cordeiro de Deus” tem origem nos textos proféticos, imagem essa que é assumida mais tarde no Evangelho de João e fascina Paulo, tenaz propagador da Teologia Sacrificial (1 Corintos 5,7) que amplia recorrentemente o símbolo do cordeiro.

Nas manifestações artísticas das primeiras comunidades cristãs que eram perseguidas e derramavam o seu sangue por confessarem a sua fé, Jesus foi representado muitas vezes como um cordeiro com uma aura na cabeça e ferido no peito ou degolado. Esta imagem continua sendo central no rito da Eucaristia: “Cordeiro de Deus que tiras o pecado do mundo…”

UMA TEOLOGIA EMPAPADA EM SANGUE

O Novo Testamento, especialmente Paulo, herdeiro da cultura judaica em que Deus era aplacado e honrado com o sangue derramado por cordeiros e outros animais, à semelhança, de resto, de outros cultos pagãos mais antigos em que também se sacrificavam animais para agradar aos deuses, interpretava a morte de Jesus Cristo no sentido sacrificial, ou seja: o seu sangue redime a humanidade e até hoje esta Teologia predomina no cristianismo mais tradicional.

Em vida de Jesus nada indica que ele se sentisse “cordeiro de Deus” levado pela vontade divina ao matadouro. Pelo contrário, a mensagem original de Jesus é o anúncio do Reino de Deus, a alegria das coisas se alterarem na terra, onde haverá justiça, sem mais sangue, suor, nem lágrimas derramadas injustamente.

Apesar da enorme distância a que se encontra a mentalidade de Jesus dos sacrifícios sangrentos, rapidamente o cristianismo atraiçoou Jesus.

A teóloga feminista Ivone Gebara explica-nos: “A cruz ensanguentada que deveria ter gerado uma intensa luta cristã para refrear a violência injusta, gerou a falsa ideia de que o sofrimento e o sacrifício eram necessários para nos acercarmos de Deus, para nos salvarmos”.


POR ONDE SAIR DESTA TEOLOGIA?

A Teologia do Sacrifício que tem a sua principal origem nos escritos de Paulo, consiste em pensar que o mundo é um “vale de lágrimas”, que os humanos nascem em pecado e que, sendo maus e pecadores, necessitam de “ser salvos” do mundo e dos nossos pecados, é uma consequência do “dualismo”.

O dualismo está muito presente na Bíblia e no pensamento Aristotélico que tanto influenciou a teologia cristã: é uma visão dual de tudo o que conhecemos, o que cria um abismo entre Deus e o mundo, o qual, para ser contornado precisa de sacrifícios, oferendas, mediadores lugares e ritos sagrados e, em definitivo, necessita de um salvador…

Nesta perspectiva dualista, Deus reina por cima do “todo” mas não habita no “todo”. É um criador que não habita na sua criação.


COMO SAIR DESTE DUALISMO?

Para o monge Beneditino e mestre do Budismo Zen, o alemão Willigis Jager, a saída está em abandonar a religião institucionalizada e promover a espiritualidade: “Deus não quer ser adorado, quer ser vivido”.

Jager, reconhece que a religiosidade tem diferentes níveis e a humanidade permanecerá ainda por muito tempo no nível religioso em que somente poderá imaginar tanto a salvação como a redenção através de um redentor”.

A teóloga Ivone Gebara que reflectiu com audácia sobre a “salvação” de Jesus afirma:

- “Para a comunidade cristã, Jesus é o símbolo dos seus sonhos e o símbolo do que mais intensamente se deseja para a humanidade e estes desejos vão mudando para a comunidade dos seguidores de Jesus nos diferentes contextos e momentos da história humana. A partir daqui, pode-se dizer que Jesus não é o salvador de toda a humanidade no sentido tradicional e triunfalista que caracterizou as igrejas cristãs, não é o poderoso filho de Deus que morre na cruz e se transforma em Rei que domina moralmente as diferentes culturas. É apenas o símbolo da frágil fraternidade e da justiça que estamos procurando…”

SAM JO - TELL ME A LIE
Mais uma linda canção dos anos felizes e dourados da década de 70... Canta Sam Jo, de seu nome, Jane Annete Job, nascida no Kansas em 1947 e este foi o seu maior sucesso em 74. Muito precoce, começou a cantar aos 3 anos na rádio local e foi também Rainha de Beleza local enquanto estudante. Aos 19 anos mudou-se para Dallas e adquiriu o apelido de Sam, de um seu companheiro. Após terminar carreira arranjou duas lojas em Tulsa. Tem um filho e um neto.


DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


Episódio Nº 224


Ainda desculpando-se, na mão o papel recuperado, regressou o importuno à drogaria. Mirtes balançava a cabeça de cabelos soltos e platinum-blonde (na última moda): ou Inês era doida de se amarrar ou algo sucedera. Certamente a professora cansara-se das falcatruas do gigolô e lhe dera o fora, se não tivesse sido ele a partir para outra. Fosse como fosse, dona Flor se dedicara ao tipo oposto, ao homem sério e respeitável, ao ver de Mirtes inútil e impossível, o tipo vomitório: o tabacudo nem reparara, passara por ela sem sequer a ver. Também, antes assim… O idiota nem para marido lhe servia, capaz de ser daqueles cornos sem classe e sem fair play, que vingam a honra com tiros e facadas, obsoletos e melodramáticos.

Não voltou à escola, não lhe parecendo dar satisfações à professora. Ao demais era biqueira, de pouca comida (para manter-se magra, em forma, com seu tipo de vamp).

Foi bater com os dentes mais adiante e soube então da morte do fogoso garanhão de Inês e do novo casamento da viúva com aquele tipo cego. Cego, sim, senhora, e da pior cegueira, a de quem fecha os olhos para a vida, incapaz de enxergar a luz do sol e uns cabelos cor de prata.

Veio dona Flor a saber os detalhes daquela farsa através de sua amiga Enaide, por seu lado amiga de Inês Vasques dos Santos desde os tempos de estudante, e, por isso, confidente dos equívocos baianos de Mirtes Rocha de Araújo, que resumia sua decepção numa frase quase literária:

- É a minha aventura com um defunto… faltava em meu carne.

Numa frase e numa queixa: para conhecer doutor Teodoro, “aquela insipidez de homem, aquele paspalhão!”, queimara os dedos no fogão de dona Flor, na aula da frigideira de aratu. Que ridículo!

Para dona Magnólia, em sua janela a janelar, oh! janeleira mais intrépida!, o facto de ser sério e responsável não retirava ao doutor o interesse, dando-lhe mesmo certo picante, certo quê. Em sua semeadura de chifres, lavradora tão eficiente quanto a pedante carioca, a rapariga do secreta da polícia aprendera a variar os seus xodós, na cor, no aspecto e na idade, inimiga de qualquer monotonia. Enquanto Mirtes, sectária, só pensava em rapazes sem juízo, Magnólia, a antidogmática, não se reduzia a uma fórmula, a um figurino. Hoje um moreno, amanhã um louro, depois um escurinho, seguindo-se a inquieta adolescência de um cinquentão grisalho. Por que repetir pratos com o mesmo tempero, de uma só cozinha? Dona Magnólia era eclética.

Quatro vezes por dia, ao menos, ao ir e vir de casa para a farmácia e vice-versa, o “soberbo quarentão” (segundo a bola de cristal de dona Dinorá) passava sob a sua janela, onde, em robe decotado, dona Magnólia plantara uns seios insolentes, tão grandes e redondos quanto oferecidos. Os rapazes do Ginásio Ipiranga, instalado em rua próxima, mudaram seus itinerários, para unânimes desfilarem em continência sob a janela onde cresciam aqueles seios capazes de amamentarem a todos eles. Dona Magnólia enternecia-se: tão lindos com suas fardas de colegiais, alçando-se os mais pequeninos nas pontas dos pés para a alegria de ver, o sonho de apalpar. “Deixá-los penar para aprenderem”, discorria, pedagógica, dona Magnólia, dando um jeito para exibir ainda melhor seios e busto (que o mais não lhe permitiam infelizmente expor na moldura da janela).

Pensavam os garotos do colégio, gemiam artesãos da redondeza, caixeiros transportando compras, jovens como Roque, o das molduras, velhos como Alfredo às voltas com seus santos. Vinha gente de longe, da Sé, da Jiquitaia, de Itapagipe, do Tororó, do Matatu, em peregrinação, apenas para ver aquelas faladas maravilhas.

segunda-feira, setembro 13, 2010

ENTREVISTAS FICCIONADAS
COM JESUS CRISTO

Entrevista Nº 60


Tema – De Que Nos Salva Jesus?



Jesus – Bom dia, Raquel… Por que estás tão ansiosa?

Raquel – Eu, ansiosa, e o senhor parece mal dormido.

Jesus – É que passei a noite com uma família que me pôs a par da vida difícil que está agora…

Raquel – Pois então desperta, porque os seus últimos comentários sobre o pecado original despertaram as mais irritadas reacções. Entre as muitas perguntas recebidas selecciono esta:
- Se não existiu o “pecado original” porque veio o senhor ao mundo?

Jesus – Bem, eu vim ao mundo porque a minha mãe me trouxe ao mundo. Da mesma forma que se passou com o amigo que fez a pergunta.

Raquel – Seguramente, ele refere-se à redenção.

Jesus – A que redenção?

Raquel – O senhor é o redentor do mundo. O cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Jesus – Cordeiros, verdade?... Escuta, Raquel, houve um tempo em que a gente pensava que Deus, além nos céus, se irritava, se zangava com o que nós fazíamos na terra. Mandava raios e dilúvios, destruía torres, castigava-nos com o fogo e o enxofre. Havia que acalmar a ira desse Deus…

Raquel – E como o acalmavam?

Jesus – Dizem que em alguns povos chegavam a fazer sacrifícios humanos. O nosso pai Abraão também pensou que devia sacrificar seu filho Isaac mas quando tinha o cutelo levantado Deus deteve-o a tempo.

Raquel – Imagino que a Deus repugnam os sacrifícios humanos…

Jesus – Detesta-os. Depois os homens pensaram que sacrificando animais, cordeiros, cabras… Deus aplacava a sua cólera. O Templo de Jerusalém mais parecia, então, um matadouro em que o sangue jorrava pelos quatro cantos.

Raquel – E a Deus isso agradava?

Jesus – Com podia agradar? Diz-me tu, Raquel, tens algum animal de estimação em tua casa?

Raquel – Em minha casa? Bem, meus filhos têm um cão, chamam-lhe o Mocho.

Jesus – E se um dia tu adoecesses achas que melhorarias se os teus filhos matassem o Mocho ou o gato do vizinho?

Raquel – Ai, não me diga uma coisa dessas.

Jesus – Por sorte, falaram então os profetas: Oseias disse: “Deus não quer sacrifícios mas sim misericórdia”.
Isaías disse: “O sacrifício que agrada a Deus é romper o jugo da injustiça, partilhar o pão, ajudar os órfãos e as viúvas”. Deus não necessita de sangue, Raquel. Deus não quer sangue.

Raquel – Tão pouco o seu sangue?

Jesus – O meu sangue?

Raquel – Sempre nos ensinaram que o seu sacrifício na cruz foi do agrado de Deus.

Jesus – isso que disseste ofende a Deus. Como pode Deus sentir-se feliz vendo derramar sangue inocente? Deus é meu pai, também é teu pai. Como pode um pai querer que matem as suas criaturas? Esse seria um monstro pior que aquele Moloch que devorava os seus filhos.

Raquel – Vejamos o que diz a audiência… Alô?... alô?...

Mulher – Olhe, eu estou muito confundida com tudo o que oiço no seu programa. Eu só quero que Jesus me esclareça uma coisa: Ele veio para salvar-nos? Sim ou não?

Raquel – Que responde?

Jesus – Claro que sim. Eu falei de salvação e preguei a salvação.

Mulher – A salvação do pecado?... dos meus pecados?

Jesus – Do pecado não, porque cada um dará contas a Deus daquilo que faz, do mal que faz aos seus semelhantes, do mal que faz a si próprio…

Mulher – Então de que nos salvou o senhor?

Jesus – De acreditarem num Deus sanguinário. Em verdade te digo, Deus é amor e somente o amor nos salva.

Raquel – Escutou, amiga?... Alguma pergunta mais?... Está a ouvir-me amiga?... Não sei se desligou ou ficou muda.

Vamos para uma interrupção comercial de breves minutos e continuaremos com outro tema candente.

Na Nazaré, Raquel Perez.

MAYSA - EU SEI QUE VOU TE AMAR

Os versos do grande poeta Vinícius de Moraes na voz de Maysa, cantora incrível que deverá ser sempre lembrada... porque ela era a exacta noção do que significam sentimento e a ilimitada e total entrega de si mesma nas canções.

DONA FLOR
E SEUS DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO nº 223


Inês, coração volúvel porém eficiente conhecera em nua intimidade rapazes a granel. “Pois vou lhe dizer, menina: não encontrei até hoje, nenhum igual a ele, ainda guardo o gosto da sua pele e sinto atrás da orelha a ponta da sua língua, ouço o seu riso ao me tomar dinheiro.”

- A tomar dinheiro? – Mirtes sempre desejara conhecer um gigolô.

Deu-lhe Inês informações e endereços, magnânima. Escola de Culinária Sabor e Arte, entro o Cabeça e o Largo Dois de Julho. A professora, mulher dele, boa moça, não era feia, com seus cabelos lisos e cor de cobre. Entrasse Mirtes de aluna, as aulas ajudavam a matar o tempo e logo assanhado lhe botaria em cima o0 olho, a mão e seu canto de sereia, ai.

Não se esquecesse de lhe escrever depois, contando e agradecendo. Inês não tinha dúvidas sobre as deleitosas consequências do conúbio, úteis aliás, a todos os parceiros, inclusivé ao marido festejado: com seu diploma de doutora em culinária, Mirtes podia lhe servir quitutes baianos do melhor sabor. A professora era de primeira, mestra na arte, tinha mãos de fada.

Jamais dona Flor desconfiara, nem antes nem agora, de chamego entre o finado e aquela Inês, no tempo sisuda magricela, curiosa de temperos. Não fosse a posterior indiscrição da revoltada Mirtes e talvez nunca viesse a conhecer mais aquela estripulia do falecido. Mais uma menos uma, tinham sido tantas, e agora esta dona Flor casada com homem de outro estofo, com outras normas de procedimento, impoluto.

Quanto a Mirtes, apenas instalada na Bahia, buscou a Escola para nela se inscrever. Quis dona Flor convencê-la a esperar o início de nova turma, já se encontrando a actual no caruru, tendo dado o efó e o vatapá, sem falar em algumas sobremesas como doce de coco, beiju e ambrosia.

Mirtes tinha pressa, impossível esperar. Inventou próxima volta ao Rio, tempo curto em salvador, não lhe sobrando outra oportunidade para aprender ao menos uns quantos pratos, seu marido era maluco por comida de dendê. Dona Flor, a boba, ainda prometera nas folgas do tempo lhe ensinar ao menos o vatapá, o xinxim e o apeté.

Não lhe ensinou aqueles nem outros pitéus, pois foi rápida a passagem de Mirtes pela escola. Não tendo visto o marido da professora nos dois primeiros dias, no terceiro perguntou por ele a uma colega que lhe disse ser difícil avistar-se o doutor durante as aulas, preso á farmácia naquele mesmo horário. Doutor? Na farmácia? Não sabia que fosse farmacêutico, aquela louca Inês só lhe falara nas qualidades desportivas do baiano, de seu trabalho fora da cama nada lhe dissera. Mirtes até se enchera de esperanças: ia finalmente conhecer um verdadeiro gigolô.

Por acaso, naquele mesmo dia, logo depois desse diálogo, necessitou doutor Teodoro de um documento, veio buscá-lo. Pedindo milhares de desculpas, muito solene e cheio de dedos, atravessara entre as alunas.

- Quem é? – quis saber Mirtes.

- Doutor Teodoro, o marido. Eu lhe dizia ser difícil de aparecer e em seguida quem se vê? O próprio…

- O marido dela? Da professora? Esse?

- E de quem havia de ser?

domingo, setembro 12, 2010

BOM DOMINGO A TODOS
GIGLIOLA CINQUETTI - LA PIOGGIA
SANREMO 1969



CRENÇAS E
CONVICÇÕES





Fernando Gil (1937-2010), um dos nomes maiores do pensamento e do ensino filosófico português, estabelecia, entra Crenças e Convicções a seguinte distinção:

Crenças – Baseiam-se numa aceitação “alucinada” de um fundamento que não se discute;

Convicções - São construídas sobre fundações sólidas e racionalmente partilháveis.

A Crença também pode ser partilhada mas é essencialmente ideológica enquanto a Convicção diz respeito à categoria da verdade.

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