sábado, janeiro 23, 2010


Planos para o futuro...



Uma galinha põe um ovo de meio quilo.

Jornais, televisão, repórteres....todos atrás da galinha.


- Como conseguiu esta façanha, Sr ª Galinha?


- Segredo de família...


- E os planos para o futuro?


- Pôr um ovo de um quilo!


Então as atenções voltam-se para o galo...

- Como conseguiram tal façanha, Sr. Galo?

- Segredo de família...

- E os planos para o futuro?

- Partir os cornos ao Peru!!!!


PILOTOS




No aeroporto, o pessoal estava na sala de espera a aguardarem pela chamada para embarcar. Nisto aparece o co-piloto, todo fardado, de óculos escuros e de bengala, a tactear o caminho.

A hospedeira da companhia encaminha-o até ao avião e assim que volta, explica que, apesar dele ser cego, é o melhor co-piloto da companhia.

Alguns minutos depois, chega outro funcionário também fardado, de óculos escuros, de bengala branca e amparado por duas hospedeiras.
Uma das hospedeiras, mais uma vez, informa que apesar dele ser cego é o melhor piloto da empresa e, tanto ele como o co-piloto, fazem a melhor dupla da companhia.

Todos os passageiros embarcam no avião preocupados com os pilotos.

O comandante avisa que o avião vai levantar voo e começa a acelerar pela pista, cada vez com mais velocidade. Todos os passageiros olham-se, a suarem, com muito medo da situação. O avião vai aumentando a velocidade e nada de levantar voo. A pista está quase a acabar e nada do avião sair do chão. Todos começam a ficar cada vez mais preocupados. O avião a acelerar e a pista a terminar. O desespero toma conta de todos.

Começa uma gritaria histérica no avião.

Nesse exacto momento o avião descola, erguendo-se no céu a subir suavemente.

O piloto vira-se para o co-piloto e diz:

- Se algum dia o pessoal não gritar, estamos f*didos!!!


Conclusão: -
OUVIR OS CLIENTES É FUNDAMENTAL!!!

RITA PAVONE - SOLO TU
1964

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Rita Pavone

Os anos só fizeram melhor a esta mulher...na voz e no físico.

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BOBBY SOLO - UNA LACRIMA SUL VISO


MICHEL ORSO - ANGÉLIQUE


MICHEL ORSO - ANGELIC



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 26


Eram elas, as meninas. Rosália na máquina a pedalar, costurando para fora, cortando vestidos, bordando blusas finas. Flor, a princípio na preparação de bandejas de salgados e doces para festinhas familiares, pequenas comemorações: aniversários, primeiras comunhões. Se era a costura o forte de Rosália, era a cozinha o fraco da menina mais moça: nascera com a ciência do ponto exacto, com o dom dos temperos. Desde pequena fazia bolos e quitutes, sempre rondando o fogão, aprendendo os mistérios da arte suprema com a tia Lita, uma exigente. Tio Porto não possuía outro vício, além da pintura dominical, senão os bons pratos. Era um frequentador de carurus e sarapatéis, perdido por uma feijoada ou um cozido de muita verdura. Das bandejas de pastéis e empadas, das encomendas de almoços, partira Flor para receitas e aulas e, por fim para a Escola de Culinária.

Uma na máquina, no corte e na costura, outra na cozinha, no forno e no fogão, dona Rozilda ao leme, iam atravessando. Modestamente, mediocremente, à espera dos cavaleiros andantes a surgirem numa festa ou num passeio, cobertos de dinheiro e títulos. O primeiro arrebatando Rosália, o segundo conduzindo Flor, ambos ao som da Marcha Nupcial, para o altar e para o mundo alegre dos poderosos. Primeiro Rosália, era a mais velha.

Obstinada, dona Rozilda espreitava o dobrar das esquinas, aguardando esse genro de ouro e prata, cravejado de diamantes. Por vezes um desânimo a invadia, e se não acontecesse o príncipe encantado? Era tempo dele surgir, impossível esperar a vida inteira, as moças atingiam a inquieta idade do homem.

Rosália, vinte anos desdobrados em suspiros na janela, fartos do pedal da máquina de costura, reclamava urgente esse duque, esse conde, esse barão – quando se propunha ele a resgatá-la? Tão larga demora, tão cansativa espera – não se visse Rosália de súbito no fundo do barricão, solteirona, empedernida donzela, com aquele fedor a azedo das virgens encruadas, ao qual se referia sorrindo o bom tio Porto a mangar dos pruridos aristocráticos da cunhada.

De quando em quando, Rosália o antevia, ao ansiado pretendente: nas festas de dança, vasqueiras; nos passeios à casa da tia, no Rio Vermelho; em matinês de cinema, ou ao volante de uma baratinha, todo de branco num domingo de regatas, académico trocista ou estudioso sobraçando grossos volumes de ciência ou curvado no malabarismo de um tango argentino de todo capricho; romântico ao som de uma serenata pela noite.

Dona Rozilda também esperava, ia crescendo em impaciência: quando, quando surgiria ele, esse anunciado genro, esse milionário, esse lorde, esse fidalgo, esse doutor de borla e de capelo, esse atacadista da Cidade Baixa, esse fazendeiro de cacau ou de tabaco, esse dono de loja ou mesmo de armarinho, em último caso esse suado gringo de armazém de secos e molhados, quando
?

sexta-feira, janeiro 22, 2010

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Quando a sorte está do nosso lado... veja.

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SIMONE - SANGRANDO


CLIFF RICHARD AND THE SHADOWS - THE YOUNG ONES LIVE (1962)



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 25





Já não podia ele, porém, arruinar seus reformulados planos, amadurecidos nos dias de nojo. Nesses novos projectos a chave mestra, a abrir as portas do conforto e do bem-estar, era o matrimónio, o de Rosália e o de Flor.

Casá-las (colocá-las, dizia dona Rosália) o melhor possível, com moços de nome, rebentos de famílias distintas, filhos de coronéis fazendeiros, ou com dinheiro e crédito nos bancos. Se era esta a meta a alcançar, como expor as meninas aos empregos vagabundos, como exibi-las pobretonas, cuja graça e juventude mal vestidas iriam despertar nos ricos e importantes apenas os baixos instintos, os pecaminosos desejos, merecendo-lhes propostas, certamente, mas outras que não as honestas de noivado e casamento?

Dona Rozilda queria as filhas em casa, recatadas, ajudando-a com o trabalho e com o comportamento, a manter aquela aparência de conforto, a afivelar aquela máscara de gente senão opulenta pelo menos remediada e de boa educação.

Quando as moças saíam para visitas a famílias conhecidas, para matinês dominicais, para alguma festinha em casa amiga, iam nos trinques, bem vestidas, no ilusório aspecto de herdeiras de fino trato. Dona Rozilda era económica, contando os vinténs na tentativa de equilibrar as finanças domésticas e seguir adiante, mas não tolerava desmazelo das filhas no vestir, nem mesmo na intimidade do lar. Exigi-as impecáveis, dignas de acolher a qualquer momento o príncipe encantado quando ele de repente surgisse. Para isso dona Rozilda não media esforço.

Certa vez Rosália foi convidada para uma dancinha no aniversário da menina mais velha do dr. João Falcão, um graúdo: palacete, lustres de cristal, talheres de prata, garçons a rigor. Os outros convivas tudo gente fina, podre de rica, da melhor sociedade, uma lordeza, só vendo. Pois bem: Rosália fez sensação, era a mais bem apresentada, a mais chique, a ponto de a louvar dona Detinha, a bondosa anfitriona:

- A mais linda de todas…Rosália, um mimo, uma boneca…

Parecia, sim, a mais rica e aristocrática. No entanto, lá estavam as meninas mais afortunadas e mais nobres da nobreza local, sangue azul de bacharéis e médicos, de funcionários e banqueiros, de lojistas e comerciantes. Com sua tez mate de cabo-verde, suave e pálida, era a branca mais autêntica entre todas aquelas finíssimas brancas baianas apuradas em todos os tons de moreno; aqui entre nós, que ninguém nos ouça, mestiça da mais fina e bela mulataria!

Ninguém, ao vê-la tão elegante, diria ter sido aquele vestido, o mais louvado da festa, obra dela própria e de dona Rozilda, o vestido e tudo o mais, inclusivé a transformação de um velho par de sapatos numa obra prima de cetim. Entre as prendas de Rosália, era a costura a mais destacada, cortava e cosia, bordava e tricotava.

Sim, eram elas, as meninas, com as suas prendas, sob a férrea direcção de dona Rozilda, os autores daquele milagre de sobrevivência: Heitor no colégio, a concluir o ginásio, o aluguel do primeiro andar pago em dia, assim como as prestações do rádio e do novo fogão, e ainda sendo postos de parte uns miúdos para a conclusão dos enxovais, para os vestidos de casamento, os véus, as grinaldas, pois lençóis e fronhas, camisolas e combinações iam-se pouco a pouco acumulando nos baús.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

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Novas Tecnologias...

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TIMI YURO - I'M SORRY


NANA MOUSCOURY - ONLY LOVE



DONA FLOR
E SEUS DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 24



A Andrés ameaçou com cadeia, atirando-lhe às fuças todo o seu círculo de relações de prestígio: fosse se meter com sua filha e veria o resultado, galego porco de uma figa, com suas imundices, sua devassidão; ela, dona Rozilda iria à polícia…

Andrés, também ele de cabelo na venta, espanhol de maus bofes, revidara no mesmo diapasão. Começou dizendo que galego o chifrudo pai de dona Rozilda: então ele, condoído com a situação da família após a morte de seu Gil, homem educado e bom, merecedor de melhor esposa, vinha oferecer um emprego à moça, a quem mal conhecia, no único intuito de ajudá-la, e a paga que obtinha era essa vaca histérica a gritar nas portas de seu estabelecimento, ameaçando deus e o mundo, inventando histórias, calúnias miseráveis? Se ela não silenciasse aquela latrina que usava como boca, que fosse se estourar nos infernos e depressa, quem chamaria as autoridades seria ele, cidadão estabelecido, cumpridor das leis, em dia com os impostos, ele, andaluz de boa cepa, e aquela bruxa a xingá-lo de galego…Indiferente à disputa o chinês limpava com um fósforo as unhas compridas como garras, unhas que segundo as más línguas…

Verdade ou não aquelas excitantes histórias, dona Rozilda não criara as filhas, não as educara, prendadas e gentis, para o bico de nenhum Andrés Gutiérrez, andaluz, galego ou chinês, pouco se lhe dava…As filhas eram agora a sua alavanca para o mudar o rumo do destino, sua escada para subir, para elevar-se. Recusou outros empregos mais bem intencionados, para Rosália e Flor, não queria as moças expostas ao público e ao perigo. Lugar de donzela é no lar, sua meta o casamento, assim pensava dona Rozilda. Mandar as filhas para balcão de armarinho, bilheteria de cinema, sala de espera de consultório médico ou dentário, era entregar-se, confessar a pobreza, exibi-la, chaga mais repulsiva e pestilenta! Poria as meninas a trabalhar, sim, mas em casa nas prendas domésticas por elas acumuladas, tendo em vista noivo e marido. Se antes prendas e matrimónio eram detalhes importantes nos planos de dona Rozilda, agora transformavam-se na peça fundamental de seus projectos.

Enquanto Gil fora vivo, dona Rozilda planejava formar o filho, fazer dele médico, advogado ou engenheiro e, apoiada no canudo de doutor, no diploma da Faculdade, ascender às elites, brilhar em meio aos poderosos do mundo. O anel de grau a resplandecer no dedo de Heitor seria sua chave para abrir as portas da gente da alta, desse mundo fechado e distante da Vitória, do Canela, da Graça. Ao lado disso, e em consequência, os bons casamentos das meninas, com colegas do filho, doutores de linhagem e de futuro.

A morte de Gil tornava impraticável aquele plano a longo prazo: Heitor ainda estava no ginásio, faltando-lhe dois anos para terminar o secundário – se atrasara, andara sendo reprovado nos exames. Como sustentá-lo durante cinco anos ou seis na Faculdade, estudos demorados e caros? Com esforço e sacrifício poderia mantê-lo no colégio – cursava ele o ginásio da Bahia, estabelecimento estadual e gratuito – até concluir o ginásio. Possuindo curso secundário completo, ser-lhe-ia possível escapar aos míseros empregos no comércio, a vida toda marcando passo, de metro na mão. Talvez conseguisse lugar num banco ou, por que não?, uma sinecura oficial, emprego público, com garantias e direitos, gratificações e aumentos, promoções, abonos e outros adicionais. Para tanto dona Rozilda contava com suas relações influentes.

Não contava mais, no entanto, com o título de doutor – o anel de formatura a rebrilhar, esmeralda, rubi ou safira – para atingir as sonhadas alturas. Uma lástima, não tinha jeito a dar, mais uma vez o bosta do marido arruinara seus projectos com aquela morte idiota.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

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Uma entrevista bem sucedida...

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WITNEY HOUSTON - GREATES LOVE OF ALL


FÁBIO JUNIOR - QUANDO GIRA O MUNDO


DONA FLOR
E SEUS DOIS
MARIDOS

EPISÓDIO Nº 23



De há muito dona Rozilda controlava com mão de ferro o parco dinheiro das comissões, entregando semanalmente ao representante comercial os estritos níqueis para o bonde e para o maço de cigarros Aromáticos – um maço cada dois dias. Pois, ainda assim, o dinheiro economizado mal deu para as despesas do enterro, das roupas de luto, para os dias de nojo. Comissões a receber das últimas vendas, quase não existiam, uma ridicularia, e dona Rozilda viu-se com o filho rapazola e ginasiano e as duas filhas mocinhas – Flor apenas adolescente – e sem fonte de renda.

Nem por ser ela quem era, agre e desabrida, de convivência desagradável e difícil, nem por isso devem negar-se ou esconder suas qualidades positivas, sua decisão e força de vontade, e tudo quanto fez para completar a criação dos filhos e para manter-se pelo menos na posição onde a deixara a morte do marido, sem rolar Ladeira do Alvo abaixo para os cantos de rua ou para os sórdidos quartos dos casarões do Pelourinho.

Agarrou-se ao sobrado com toda sua violenta obstinação. Mudar-se dali para moradia mais barata significava o término de todas as suas esperanças de ascensão social. Precisava manter Heitor nos estudos até ao fim do curso secundário, empregá-lo depois, e casar as meninas, casá-las bem. Para isso era preciso não descer, não deixar se arrastar pela pobreza sem máscara, exposta e despudorada, sem pejo nem vergonha. Ela, dona Rozilda, sentia vergonha da pobreza, ah!, muita vergonha, como de um delito a merecer castigo.

Tinha de permanecer no andar da Ladeira do Alvo, custasse o que custasse.

Assim explicou ao cunhado quando ele viera emprestar-lhe as economias de dona Lita (pagas depois por dona Rozilda, tostão a tostão, diga-se em sua honra). Nem casa de preço razoável do fim do mundo da Plataforma, nem porão habitável na Lapinha, nem quarto e sala sublocados nas Portas do Carmo; manteve-se plantada na Ladeira do Alvo, no sobrado de aluguel relativamente elevado, sobretudo para quem, como ela, não dispunha de posses, nem muitas nem poucas.

Dali, das sacadas amplas do primeiro andar, podia olhar o futuro com confiança: nem tudo estava perdido. Modificaria os planos anteriores sem desistir de suas pretensões. Se de imediato cedesse, largando a casa bem posta, mobilada, com tapetes e cortinas, indo para um cortiço qualquer, já não lhe seriam permitidas sequer esperanças e ilusões. Veria Heitor atrás de um balcão de secos e molhados, quando muito de uma loja, caixeirinho a vida inteira; veria as meninas com idêntico destino, se não fossem terminar garçonetes de bares ou cafés, no frete dos patrões e dos fregueses, caminho directo para a zona, para o horror das ruas de mulheres-damas. Dali, do sobrado, podia resistir a todas essas ameaças. Abandoná-lo era como render-se sem luta.

Por isso recusou oferta de emprego de balconista para Heitor, arranjado por Antenor Lima. Assim com não admitiu discutir com Rosália, quando a filha lhe apareceu disposta a trabalhar, como uma espécie de recepcionista e secretária, na Foto Elegante, florescente estabelecimento da Baixa do Sapateiro, onde Andrés Gutieérrez, espanhol, moreno e de bigodinho recortado, explorava a arte fotográfica em suas mais diversas modalidades: desde os instantâneos três por quatro, para carteiras de identidade e profissionais, até “às incomparáveis ampliações coloridas, verdadeiras maravilhas” passando pelos retratos dos mais diversos tamanhos e pelos flagrantes de baptizados, matrimónios, primeiras comunhões e outros festivos eventos, dignos de amarelecida eternidade dos álbuns familiares. Onde havia uma fotografia a fazer, lá surgia Andrés Gutiérrez com sua máquina e seu ajudante, um chinês sem idade e tão velho, encarquilhado e suspeito. Rumores circulavam – haviam chegado aos ouvidos de dona Rozilda, sempre aguçados para esses falatórios – sobre Andrés, sua Foto Elegante, seu ajudante e amplitude do negócio. Diziam ser de sua produção certos postais vendidos pelo chinês em envelopes fechados, supra sumo da arte naturalista, nus artísticos de garantido sucesso. Para tais fotos, segundo as comadres, posavam mocinhas pobres e fáceis, em toca de uns magros mil-réis. De passagem, usufruía delas certamente Andrés, e, quem sabe? O chinês; as beatas contavam horrores a propósito do atelier de fotografia. Não é de admirar-se ter dona Rozilda corrido com a filha, quando ela, entusiasmada e ingénua, lhe revelou a oferta do espanhol:

- Se me falar disso outra vez, te arranco o couro, te dou uma surra de criar bicho…

terça-feira, janeiro 19, 2010

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Um espectáculo de vozes

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KETTY LESTER - LOVE LETTERS


KENNY ROGERS - LUCILLE



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 22


Tão lorde ficara seu Rosalvo a ponto de, certo dia, indo pela Rua Chile, não reconhecer dona Rozilda e quase a atropelar, quando ela, pedestre e amável, atirou-se na frente do carro na ânsia de cumprimentar o próspero colega do marido. Não só o sujeito lhe metera um susto medonho com o ruído da busina desatada como ainda a xingara, gritando-lhe desaforos:

- Quer morrer piolho de cobra?

Em três ou quatro anos, com produtos farmacêuticos, lábia e simpatia, esse grosseirão obtivera automóvel, era sócio do Bahiano de Ténis, íntimo de políticos e ricaços, um fidalgo, meus senhores, cheio de empáfia, o rei na barriga! Dona Rozilda rangia os dentes, e o toleirão do Gil?

Ah!, Gil vegetava a pé ou de bonde, com suas amostras de atilhos, suspensórios, colarinhos e punhos duros, especialista em produtos fora de moda, reduzido a uma pequena freguesia de lojas suburbanas, de antiquados armarinhos. Não saía disso, marcando passo a vida inteira. Ninguém acreditava na sua capacidade, nem ele próprio.

Um dia cansou-se de tanta queixa e reclamação de tanto se esforçar sem resultado nem alegria. Porto, cunhado de sua mulher, marido de Lita, irmã de Rozilda, dava ele também um murro safado para viver, ensinando desenho e matemática a rapazes num estabelecimento estadual para artesãos, nas lonjuras de Paripe. De trem, todos os dias, de manhã cedinho, levantando-se com o sol, regressando ao fim da tarde. Mas aos domingos, saía pelas ruas da cidade e com uma caixa de tintas e pincéis a pintar coloridos casarios e tirava daquela ocupação tanta alegria a ponto de jamais ter sido visto de mau humor ou melancólico. Também casara-se com Lita e não com Rozilda, e Lita, o oposto da irmã, era uma santa mulher, cuja boca jamais se abrira para falar mal de vivente ou criatura.

Gil nem mesmo no jogo de damas ou do gamão obtinha progressos, e Antenor Lima só o aceitava de parceiro quando outro mais forte não aparecia; quanto a seu Zeca Serra, campeão da Ladeira, nem assim, nem para matar o tempo – não tinha graça disputar com tabuleiro tão medíocre, descuidado e desatento. E ainda por cima dona Rozilda exigira sua definitiva ruptura com Cazuza Funil, quando o amigo – muito por baixo, recém-saído do xelindró, perseguido e processado como contraventor – mais carecia de solidariedade.

E ele, Gil, calhorda completo, cortava esquinas para evitá-lo, submisso às ordens da esposa.

Concluiu de nada adiantar sua sacrificada labuta, aproveitou uns dias de Inverno mais húmido para adquirir uma pneumonia barata – nem sequer uma pneumonia dupla ironizou dr. Carlos Passos – e emigrou para o astral. Silenciosamente numa tosse discreta e tímida. Fosse outro e poderia ter escapado, ter vencido a doença, pouco mais do que uma gripe. Gil, porém, estava cansado, tão cansado! Não se dispunha a esperar doença séria e grave. Além do mais não tinha ilusões: doença de qualidade, importante, moléstia da moda, cara, falada nos jornais, não chegaria para ele, o melhor seria mesmo contentar-se com sua mesquinha pneumonia. Assim o fez e, sem se despedir, faltou com o corpo, descansou.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

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Cenas...

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LISBOA DEBAIXO DE TERRA - O TEATRO ROMANO


KENNY ROGERS - LADY


TIMI YURO - HURT



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 21



Ao partir desta para a melhor, o relembrado Gil, o tal molengas sem vontade, deixou a família em sérias aperturas, em precária situação. No seu caso não se tratava apenas de uma frase feita – partiu desta para melhor – de um lugar comum; e sim da expressão da verdade. Fosse o que fosse a esperá-lo nos mistérios do além – paraíso de luz, de música, de anjos luminosos; tenebroso inferno com caldeirões a ferver; o húmido limbo; as peregrinações pelos círculos siderais; ou o nada, o não ser apenas – qualquer coisa seria melhor se comparada à vida em comum com dona Rozilda.

Magro e silencioso, cada dia mais magro e mais silencioso, seu Gil sustentava sua tribo com modestas representações comerciais, produtos de reduzida aceitação, parco lucro apenas suficiente para as despesas; a gororoba diária, o aluguel do primeiro andar na Ladeira do Alvo, as roupas dos meninos, os arrotos de burguesia de dona Rozilda com seus caprichos de grandeza, a ambição de conviver com famílias importantes, de penetrar nos círculos de gente apatacada.

Embirrava dona Rozilda com a maioria dos vizinhos, desprotegidos da sorte – balconistas de lojas e armazéns, empregados de escritório, caixeiros e costureiras. Desprezava essa gentalha incapaz de esconder sua pobreza; dava-se ares, carregada de basófia, atenciosa apenas para com alguns habitantes da Ladeira, as “famílias de representação” como repetia irada ao finado Gil quando o pegava em flagrante chupitando uma cervejinha na pouca recomendável companhia de Cazuza Funil, bicheiro e facadista, metido a filósofo, um dos mais discutíveis locatários do Alvo. Funil não era nome de família, será necessário esclarecer? Apenas significativo apodo, caracterizando-lhe a goela sempre aberta, a sede insaciável.

Por que Gil não frequentava o dr. Carlos Passos, médico de clientela, o engenheiro vale, mandachuva na Secretaria de Viação, o telegrafista Peixoto, senhor de idade, às vésperas da aposentadoria, tendo alcançado o cume da carreira postal, o jornalista Nacif, ainda novo mas arrecadando um dinheirinho apreciável com o Lojista Moderno, publicação dedicada, a acreditar em seu expediente “à intransigente defesa do comércio baiano”, todos eles igualmente vizinhos na Ladeira, “os de representação?” O parvo do marido não sabia sequer escolher suas amizades; quando não estava com Funil no Ponto Fino, na Baixa dos Sapateiros, metia-se na casa de Antenor Lima, a jogar gamão ou damas, talvez a única alegria verdadeira da sua vida. Antenor Lima, comerciante estabelecido no Taboão e um dos mais destacados fregueses de Gil, mereceria classificar-se na lista dos vizinhos representativos, não fosse sua pública e notória mancebia com a negra Juventina, inicialmente sua cozinheira. Instalada agora na janela da casa própria do lojista, como empregada para varrer e arrumar, insolente e respondona, seus bate-bocas com dona Rozilda fizeram época na Ladeira do Alvo.

Pois bem: no passeio desse rebotalho sentava-se Gil, todo cheio de salamaleques, tratando a ordinária como se ela fosse senhora casada no padre e no juiz.

De nada adiantavam os esforços de dona Rozilda na direcção das amizades influentes: a família Costa, descendente do velho político; dona de imensa roça no Matatu – o político virara até nome de rua e o neto Nilson era banqueiro e industrial; os Marinho Falcão, de Feira de Sant’Ana, em cujo armazém Gil fizera seu aprendizado quando jovem – fora seu João Marinho quem lhe emprestara dinheiro para iniciar-se no capital; o dr. Henriques Dias Tavares, director de repartição, um cabeça de ouro, assinava artigos nos jornais, nome sonoro a rolar em sua boca com um gosto de parentesco: “é meu compadre, baptizou o meu Heitor”.

Ao citar tais relações de categoria, espinafrando as de Gil, interrogava dramática os interlocutores, a vizinhança, a ladeira, a cidade e o mundo: que mal fizera ela a Deus para merecer o castigo daquele esposo, incapaz de dar-lhe padrão de vida condigno, à altura de sua linhagem e de seu meio?

Tudo quanto era representante comercial prosperava, ampliando freguesia e escritório, vendo crescer o montante mensal de vendas, conseguindo novas e valiosas corretagens.

Muitos compravam casa própria, quando nada terreno onde mais tarde construir. Alguns davam-se até ao luxo do automóvel, como um conhecido deles, Rosalvo Medeiros, alagoano arribado de Maceió há poucos anos, as mãos uma na frente outra atrás, ambas agora na
direcção
de um Studebaker.

domingo, janeiro 17, 2010


Manuel
Alegre




A um ano de distância, Manuel Alegre, que não é homem para tabus, anunciou este fim de semana que está disponível para se candidatar novamente à presidência da república disputando o lugar ao actual presidente Cavaco Silva que, naturalmente, irá, como todos os anteriores, pretender fazer dois mandatos.

Qualquer outro que venha a aparecer só poderá ser uma figura simbólica do Partido Comunista para marcar presença e ganhar tempo de antena numa primeira volta.

Nas últimas eleições o eleitorado centro esquerda dividiu-se entre Mário Soares e Manuel Alegre ajudando, dessa forma, a eleger Cavaco Silva.

Desta vez, não se perfilando nenhum outro candidato na área do PS (Gama, Guterres, Sampaio), os eleitores vão ter mesmo que optar entre estas duas personalidades tão distintas como são Cavaco Silva e Manuel Alegre e, neste aspecto, a escolha ficará mais facilitada embora se perceba que, por razões de antipatia e recentes divergências política-partidárias por parte de alguns notáveis do PS relativamente a Alegre, alguns votos nesta área ir-se-ão perder na abstenção ou nos votos nulos.

Quanto ao resto, tudo claro como a água:

- De um lado, um poeta, homem de rupturas que desertou da guerra em discordância política com os seus mentores e escolheu o exílio para lutar contra eles. Regressado ao país a 2 de Maio de 1974, vindo da Argélia, manteve-se sempre em actividade política defendendo a liberdade e a democracia ao lado de Mário Soares, na Fonte Luminosa, em Lisboa, contra a extrema-esquerda.

- Do outro, uma personalidade cinzenta, que teve um rasgo político no Congresso do PSD na Figueira da Foz, em Maio de 1985, conquistando o poder de forma intempestiva com o apoio de Dias Loureiro com quem estabeleceu, desde então, uma firme relação de amizade.

Casado, pai de filhos, bom chefe de família, católico, disciplinado, de índole conservadora, deu-se a conhecer ao longo de dez anos, de 1985/95, período durante o qual chefiou o governo numa fase favorável correspondente à entrada no país de muitos milhões oriundos dos apoios comunitários. É ele o candidato natural de toda a direita portuguesa.

Será, Manuel Alegre, o candidato natural de toda a esquerda portuguesa da mesma forma e na mesma medida em que Cavaco o é da direita?

Se assim for, aquele dos dois que mais votos conseguir ganhar ao centro será, daqui a um ano, novo presidente.

O Partido Socialista deverá emendar a mão e apoiar desta vez com empenho e total determinação o seu candidato e Mário Soares, de oponente das últimas eleições, esperamos que agora esteja ao seu lado reeditando antigos combates.

Manuel Alegre está diferente, mais político, moderado e consensual e o país precisa, em tempos de dificuldade, de ouvir a sua palavra de encorajamento, de esperança, de acreditar, porque a vida e o futuro não se constroem sobre discursos e estatísticas ameaçadoras, deprimentes e catastróficas.

Os discursos martelados não empolgam ninguém, cansam, causam-nos fastio e agonia, não predispõem à esperança. O governo lá estará para governar e não vai ser fácil como já não o é hoje. Por isso, tratemos de arranjar um Presidente que nos estimule, empolgue, que nos fale daquilo que já fomos, do muito que já fizemos, do orgulho de sermos aquilo somos e nos diga isso, se for preciso, com uma voz que nos acorde e em verso que nos toque a alma… eu votarei Manuel Alegre.

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