sábado, agosto 01, 2009

VÍDEOS


MOMENTOS ROMÂNTICOS

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BARBRA STREISAND - THE WAY WE WERE


CANÇÕES BRASILEIRAS

MAYSA MATARAZZO - MANHÃ DE CARNAVAL (1936-1977)



AS Raízes da

Moralidade










PRECISAREMOS DE DEUS PARA SERMOS BONS OU MAUS?



Será que existe uma consciência moral embutida nos nossos cérebros tal como temos o instinto sexual ou o medo das alturas?

Sobre esta questão o biólogo Marc Hauser, biólogo da Universidade de Harvard, realizou estudos estatísticos e experiências do domínio psicológico recorrendo a questionários colocados na Internet para investigar a consciência moral de pessoas reais.

A forma como as pessoas reagiram a estes testes de moral e a sua incapacidade para expressarem as razões que as levaram a reagir dessa forma parecem ser, em grande medida, independentes das crenças religiosas ou da falta delas.

Mas vejamos, textualmente, o que nos diz o autor destes estudos, Marc Hauser:

“Por detrás dos nossos juízos morais há uma gramática moral universal, uma faculdade da mente que foi evoluindo ao longo de milhões de anos de maneira a incluir um conjunto de princípios que construísse um leque de sistemas.”

Eis o dilema que foi colocado:

- Uma pessoa tem ao seu alcance o comando das agulhas que pode desviar o carro eléctrico para uma via de resguardo de forma a salvar 5 pessoas que estão presas na via principal, um pouco mais à frente.

Infelizmente há um homem preso na via de resguardo mas, como é só um a maior parte das pessoas concorda que é moralmente admissível senão mesmo obrigatório a mudança de agulha matando uma mas salvando cinco.

Mas, numa outra variante da situação, o carro eléctrico só pode ser parado pondo-lhe no caminho um peso grande largado de uma ponte situada por cima da via. É obvio que temos de largar o peso mas, se o único peso disponível for um homem muito gordo sentado na ponte a admirar o pôr-do-sol?

Quase toda a gente concorda que, neste caso, é imoral empurrar o homem gordo da ponte, embora de um certo ponto de vista, o dilema possa parecer semelhante ao anterior no qual se mata uma pessoa para salvar cinco.

A maior parte das pessoas tem uma forte intuição que existe uma diferença crucial nos dois casos, embora não consiga exprimi-la.

Vejamos um caso idêntico:

- Num Hospital há cinco doentes a morrerem cada um por falha de um órgão diferente e todos eles seriam salvos se fosse encontrado dador disponível para cada um deles.

- O cirurgião repara que na sala de espera está um homem saudável cujos cinco órgãos em questão se encontram em boas condições de funcionamento e são adequados para transplante.

Neste caso não há quase ninguém capaz de dizer que a acção moralmente indicada seria matar esse homem para salvar os outros cinco.

Tal como no caso do homem gordo sentado na ponte a ver o pôr-do-sol, a intuição que a maior parte de nós partilha é que um espectador inocente não deve ser arrastado para uma situação problemática e usado para salvar outras pessoas sem o seu consentimento.

Immanuel Kant, filósofo alemão, expressou de forma admirável o princípio segundo o qual um ser racional que não haja dado o respectivo consentimento nunca deverá ser usado como simples meio para atingir um fim, mesmo que esse fim seja o benefício de outras pessoas.

A pessoa que se encontrava presa na via de resguardo do carro eléctrico não estava a ser usada para salvar a vida das cinco pessoas presas na linha principal, é a via de resguardo que, propriamente, está em causa, sucedendo apenas que o homem tem o azar de se encontrar nessa via.

Enquanto isto, o homem gordo sentado na ponte e o homem saudável na sala de espera do hospital estavam nitidamente a serem utilizados e isso é que viola o princípio de Kant, para quem, não fazer esta distinção seria um absurdo moral. Para Hauser essa distinção foi-nos embutida ao longo da nossa evolução.

Numa sugestiva aventura no domínio da Antropologia o Dr. Hauser e colegas seus adaptaram as suas experiências morais aos Kunas, uma tribo da América Central que tem poucos contactos com os ocidentais e não possuem uma religião formal.

Os investigadores fizeram as respectivas adaptações à realidade local com crocodilos a nadarem na direcção de canoas e os Kunas, mostraram ter, com pequenas diferenças, juízos morais semelhantes aos nossos.

Hauser também se interrogou sobre se as pessoas religiosas diferem dos ateus quanto às suas intuições morais.

Será evidente que, se é certo que é à religião que vamos buscar a nossa moralidade, elas devem ser diferentes mas parece que o não são.

Trabalhando em conjunto com o filósofo de moral Peter Singer, Hauser centrou-se em três modelos hipotéticos comparando depois as respostas dos ateus e das pessoas religiosas:

1º No dilema do carro eléctrico 90 % das pessoas disseram que era admissível desvia-lo, matando uma pessoa para salvar cinco.

2º Vê uma criança a afogar-se num pequeno lago e não há mais ninguém por perto para ajudar. Você pode salvar mas, se o fizer, estraga as calças: 97 % das pessoas concordaram que se deve salvar a criança (surpreendentemente, parece que 3% preferiam salvar as calças).

3º No dilema do transplante de órgãos já descrito: 97% dos sujeitos concordaram que é moralmente condenável pegar na pessoa saudável da sala de espera e matá-la para lhe retirar os órgãos, salvando com isso cinco outras pessoas.

A principal conclusão deste estudo é que não existe diferença estatisticamente significativa entre ateus e crentes religiosos quanto à formação destes juízos o que é compatível com o ponto de vista segundo o qual não precisamos de Deus para sermos bons – ou maus.

No entanto, Steven Weinberg, físico norte-americano galardoado com o Prémio Nobel é mais pessimista:

- “A religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, haveria sempre gente boa a fazer o bem e gente má a fazer o mal. Mas é preciso a religião para pôr gente boa a fazer o mal.”

Blaise Pascal (1623-1662), filósofo, físico e matemático francês disse algo semelhante:

- “Os homens nunca fazem o mal tão completa e alegremente quando o fazem por convicção religiosa.”


Um padre e uma freira....





Certa vez, um padre e uma freira regressavam para o convento.
Ao cair da noite, avistaram uma cabana a meio do caminho, e decidiram entrar para pernoitar e prosseguir viagem no dia seguinte.

Ao entrarem na cabana, viram que havia apenas uma cama de casal.

O padre e a freira entreolharam-se e, depois de alguns segundos de
silencio, o padre disse:
- Irmã, pode dormir na cama que eu durmo aqui no chão.

E assim fizeram. No entanto, a meio da madrugada a irmã acordou o padre:
- Padre! O senhor está acordado?

O padre bêbado de sono: - Hã?! Ah, irmã, diga, o que foi?
- Ah... é que eu estou com frio. Pode ir buscar-me um cobertor?

- Sim, irmã, com certeza!

O padre levantou-se, foi buscar um cobertor ao armário e cobriu a irmã com muita ternura.

Uma hora depois, a irmã acorda o padre novamente:
- Padre! Ainda está acordado?

O padre: - Hã? Irmã... O que foi agora?

- É que ainda estou com frio. Pode dar-me outro cobertor?

- Claro irmã, com certeza ! Mais uma vez, o padre levantou-se cheio de
amor e boa vontade para atender o pedido da irmã.

Outra hora passou e, mais uma vez, a irmã chamou pelo padre:

- Padre. O senhor ainda está acordado?

O padre: - Sim irmã! O que foi agora?!

- É que eu não estou a conseguir dormir. Ainda estou com muito frio.

Finalmente, entendendo as intenções da irmã, o padre então disse:

- Irmã, só estamos aqui nós dois, certo?

- Certo!

- O que acontecer aqui, ou deixar de acontecer, só nós saberemos e mais
ninguém, certo?


- Certo!

- Então tenho uma sugestão... Que tal se fingirmos ser marido e mulher?


A freira então pula de alegria na cama e diz: - SIM! SIM!


Então o padre muda o tom de voz e grita: - ENTÃO, PORRA! LEVANTA-TE E VAI BUSCAR A MERDA DO COBERTOR!


(Se pensaste que iria ter um final erótico, reza 10 ave-marias e 20
pai-nossos ...)






sexta-feira, julho 31, 2009

VÍDEOS
MOMENTOS ROMÂNTICOS
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CANÇÕES BRASILEIRAS
ZECA PAGODINHO - CAVIAR


UM CASAMENTO DIFERENTE


FADO DA ALMA LUSITANA

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TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 195




DE COMO DEUS ATENDE A UM PEDIDO SACRÍLEGO


Ainda bem que Deus veio em seu auxílio, o Deus dos namorados, actualmente o preferido de Ricardo, segundo tudo indica. E o fez de forma aparentemente violenta, a ponto de se poder considerar, em julgamento apressado, cruel e injusta a acção da divina Providência. Para logo constatar-se a precisa sabedoria da medida posta em prática. No caso, vale a pena repetir o refrão popular citado por dona Milú a propósito da expulsão de Tieta: Deus escreve certo por linhas tortas.

Reflectia o esforçado aprendiz de padre e de homem sobre a empreitada em que se metera, buscando maneira de resolvê-la, saindo airosamente da difícil encruzilhada, trilhando caminhos a conduzi-lo primeiro aos braços juvenis de Maria Imaculada, depois aos balzaquianos de Tieta. Não via jeito, beco sem saída.

Na noite passada, ao voltar dos fogos, acompanhando a mãe e Leonora, quando reinou silêncio na casa, transpusera o corredor e tocara o corpo nu da tia. Com os primeiros beijos, Tieta acordou e o prendeu nos braços, cingindo-lhe a cintura:

- Meu cabrito!

- Minha cabra!

Disse cabra com o pensamento na cabrita a pedir: me beije de novo, bem. A voz desfalecendo em dengue ao tratá-lo de bem, e ele se esvaindo ao ouvi-la pronunciar. Se pudesse contaria a Tieta: hoje te encontrei, tia, no tempo de antanho, molecota, de tocaia sob a mangueira, no escuro. Me perdoa mas preciso saber como era teu gosto de pastora, sem perfume francês, sem cremes nem unguentos, sem perucas, negligês, colares de ouro, anéis de brilhantes, quando cheiravas a jasmim-do-cabo e vestias organdi azul-celeste.

Naquela noite, rompendo com atraso o Ano-Novo, Ricardo conheceu o singular prazer de possuir uma mulher pensando noutra. Melhor ainda do que o ipicilone duplo, executado por Tieta com sua colaboração, quando a primeira claridade da manhã penetrou pela janela aberta. Foram três no leito de dona Eufrosina e do doutor Fulgêncio: ele, Tieta e Maria Imaculada.

Como fazer para ir ao encontro da menina quando, às nove da noite, a luz se apagar? Mesmo nas suares das visitas demoradas, não tinha pretexto para tocar-se rua fora, a mãe não fazia concessões em matéria de horários. Pensou em mil desculpas, inventou dezenas de razões, todas inconsistentes. O tempo passando e ele sem saber como agir. Disposto a inventar qualquer mentira, fosse qual fosse. Aliás já mentira à tia naquela manhãzinha, pois ela notara a marca da mordida e o interrogara. Mordera-se a ele próprio, ao cobri-la de beijos e dentadas na hora extrema do ipicilone duplo.

Por cúmulo do azar, para além do inevitável Ascânio, a rodear a praça com Leonora, e do vate Barbozinha, na varanda a mentir para Tieta e Perpétua, nenhuma outra visita aparecera. Ao soar das nove, Ascânio trará Leonora de volta; descerão a rua, juntos, ele e Barbozinha. Perpétua se recolherá para as orações nocturnas. Tendo acenado da porta o último adeus, Leonora beijará Tieta desejando-lhe boa noite. Então a tia, após a longa toalete – demora o tempo da irmã e da enteada se entregarem ao sono – deitar-se-ia para gozar a boa noite em companhia dele, Ricardo.

Espia o relógio, falta pouco mais de meia hora para as nove e ele nada inventa, capaz de lhe permitir a escapada. Uma angústia atroz o possui, daqui a pouco Maria Imaculada estará atrás do tronco da mangueira, a esperá-lo.

Largando a gramática da língua portuguesa em que se recolhera para melhor pensar, Ricardo eleva o pensamento a Deus numa súplica desesperada e ímpia:

Ajudai-me Senhor Deus nesse terrível transe!

Tiro e queda pois em seguida soam passos na calçada, ouve-se a voz do padre Mariano a chamá-lo pelo nome:

- Ricardo! Ó Ricardo! Já está dormindo?

Acorre Perpétua a receber o reverendo, querendo saber o motivo da visita e do apelo. Motivo triste, cara filha,: levar a extrema-unção à velha Belarmina, viúva de seu Cazuza Bezerra, paroquiana muito da Igreja, andando a passos firmes para os noventa. Acometida por um banal resfriado há poucos dias, piorara inesperadamente, tivera uma vertigem.


quinta-feira, julho 30, 2009


JOGGING Á CHUVA




A mulher está com o amante na cama quando o marido mete a chave à porta.

- "Depressa, Fernando, sai pela janela que é rés-do-chão".


- "Assim despido? Está a chover e ainda apanho uma pneumonia!"


- "Salta já que ele está quase a chegar ao quarto e mata-nos...."

O amante salta e, na rua, encontra um casal a fazer jogging. Junta-se a eles e corre também. O homem pergunta:

- "Você faz sempre jogging assim despido?"


- "É verdade. Não suporto a roupa quando faço desporto"


- "E usa sempre preservativo?!"


- "Não, não! Só quando chove..."

VÍDEOS
ICE CREAM
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EDIT PIAF - NON, JE NE REGRETTE RIEN


DULCE PONTES - FADO PORTUGUÊS



"Mão na mão..."



Leiam com os vossos olhos como era no tempo de Salazar. Passámos do Oito para os Oitenta.



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 194






Elisa, por exemplo, não falta. Elegantíssima, aparenta ar distante e indiferente como se comparecesse apenas para cumprir dever de esposa incentivando Astério. Em realidade aproveita a ocasião para sentir o odor pecaminoso do bar onde, na parede principal, entre garrafas e bebidas, foram coladas as folhas de um calendário de mulheres nuas, loiras, nórdicas, morenas, orientais, mulatas, uma para cada mês, oferta de Aminthas ao amigo Manuel, lusitano viúvo, lúbrico e esteta, conforme se lê na dedicatória. Segundo Osnar, o sargento Peto comeu as doze, uma a uma, na punheta. Ele e seu Manuel.

Comparecem as primas de Seixas, rebanho garrido e alegre. Dona Edna não perde uma só partida, nem mesmo agora quando seus campeões já se encontram fora do páreo; o moço Leléu, que mais parece seu marido e Terto que, como se sabe de sobejo, sendo esposo de papel passado, não convence. Derrotados os dois, vacila dona Edna na escolha de um novo predilecto entre os quatro semifinalistas. Talvez se decida por Astério, para aperrear Elisa, metida a esnobe e a rainha da elegância – elegância de segunda mão, de vestidos usados, de refugos.

Vacilam algumas outras espectadoras. A maioria, porém, constitui a imbatível torcida de Fidélio, animadíssima, formada por donzelas de diferentes idades, indo de jovens alunas do colégio de dona Carlota (Antunes) Alves à quase solteirona Cinira. Calado, enrustido, na aparência um monge e cheio de admiradoras: um tipo surpreendente esse Fidélio A., ou seja Antunes.

Ascânio estende o convite a Tieta. Ela recusa: acertada a escritura da propriedade de Jarde e Josafá, pouco lhe resta fazer em Agreste. No dia seguinte, sem falta, irá para Mangue Seco. Não vai pela manhã porque prometera a dona Milú almoçar com ela. Imediatamente depois o solão do começo da tarde na lancha de Elieser, levando Ricardo consigo para a arrancada final na construção do Curral do Bode Inácio: a pintura e o pavimento.

- Torneio de bilhar? Não meu filho, prefiro o banho de mar na praia e o banho da lua nos combros de Mangue Seco. – Espreguiça-se a prelibar tais delícias. – Ademais, quero gozar da minha biboca antes de ir embora.

- Ir embora? Só depois da inauguração da luz, não se esqueça – de tão eufórico, Ascânio solta a língua: - Estou preparando uma surpresa para a senhora.

- Para mim? Diga logo o que é.

- Me desculpe dona Antonieta mas não posso. Penso que a senhora vai gostar.

Gostaria, isso sim, que ele perdesse o acanhamento e agarrasse Leonora, levando-a para a cama. O jeito é empurrá-lo, precipitando os acontecimentos.

Mais uns dias e a biboca estará pronta, mando buscar Nora para ficar lá comigo.

Para ficar em Mangue Seco? – empalidece Ascânio, treme-lhe a voz, de súbito esvaziado de euforia e entusiasmo.

Exactamente como previra Tieta. Em Mangue Seco, no fim da semana, ela tirará da cabeça do rapaz a funesta ideia de permitir a instalação no coqueiral de indústria recusada em todas as partes do mundo, rechaçada com horror, ameaça mortal para o clima e as águas de Agreste. Em troca o colocará no leito de Leonora, o leito mais sumptuoso do mundo, as dunas de Mangue Seco, livres da poluição.

- Venha você também, o Curral é pequeno mas se dando um jeitinho cabem as cabras e os bodes.

quarta-feira, julho 29, 2009

TOURADA DIFERENTE

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CANÇÕES BRASILEIRAS

TITÃS - EPITÁFIO
Composição - Sérgio Brito
Música lançada no CD "A Melhor Banda de todos os tempos da última semana" de 2001 do Conjunto "Os Titãs"


ELVIS PRESLEY - CAN'T HELP FALLING IN LOVE


SHIRLEY BASSEY - I WHO HAVE NOTHING


TIETA DO AGRESTE
EPISÒDIO Nº 193




Culminando a obra de arte, desenhou enorme fábrica no centro de um panorama de felizes cidadãos empunhando festivas bandeirolas e de prodigiosas benfeitorias: arranha-céus, vila operária, hotel magnífico, cinema digno da capital, ônibus luxuoso e moderníssimo.

Primitivo ou primário, ao gosto e à cultura do freguês, o painel de Lindolfo ocupa a base da cartolina; entre ele e o elogio da Brastânio, os recortes esclarecedores.

Prenderam o jornal mural na parede da sala do andar térreo onde se reúne o Conselho Municipal quando dá na cachola do coronel Artur de Tapitanga convocá-lo. Urge, aliás, fazê-lo pois certamente vai ser necessário que os vereadores aprovem o pedido de instalação da Brastânio no município.

Ascânio conta como certa a apresentação do requerimento pela Empresa, dando por descontado o resultado dos estudos efectuados pelos técnicos. Se a Brastânio não fosse se estabelecer em Mangue Seco, por que iriam os directores contratar companhia de terraplanagem para traçar planos de alargamento e pavimentação da estrada que liga Agreste a Esplanada?

Nem sequer a insolente declaração de dona Carmosina, feita após a leitura dos jornais – na falta do Comandante, Ascânio esfregara entrevista e artigos dos jornais nas fuças da agente dos Correios – alterou as convicções, o entusiasmo e o bom humor do secretário da Prefeitura, em estado de euforia desde a chegada da carta e dos materiais enviados pelo Magnífico Doutor. Vazia de argumentos com que refutar a ciência de Herr Professor e o patriotismo dos proprietários das gazetas, Dona Carmosina contentara-se em afirmar, categórica e depreciativa:

- Tudo isso não passa de matéria paga. Está na cara. É preciso ser muito tolo ou muito safado para não ver.

Tão eufórico, o progressista Ascânio, a ponto de cobrir Leonor de beijos quando lhe exibiu os jornais e a placa da rua Antonieta Esteves Cantarelli, em fogoso descontrole. Cobriu Leonora de beijos, modo de dizer, sapecou-lhe quatro ou cinco beijos nas faces, não passou daí o fogoso descontrole, ainda assim imprevisto a quem vive a se cuidar para não parecer cínico aproveitador, da mesma indigna casa do vilão que a enganara e seduzira. Ao vê-lo em tal contentamento, ressuscitado, Leonora sente vontade de sair pela rua cantando Aleluia, para saudar o renascido sol dos namorados.

Reflectiram-se euforia e veemência na brilhante actuação de Ascânio no campeonato de bilhar. Apesar do pouco treino – ultimamente abandonara por completo a verde mesa dos brunswicks – estava fazendo boa figura, colocara-se entre os quatro semifinalistas. Nos quartos de finais, conseguira derrotar Osnar em sensacional partida, enquanto Fidélio, jogador calmo e ardiloso, batia o impulsivo Leléu. Permaneceram na disputa apenas Astério, Seixas, Fidélio e Ascânio, que convida Leonora para assistir às próximas partidas:

- Venha torcer por mim. Todo mundo tem torcida menos eu.

Realmente, para a fase decisiva do torneio anuncia-se a presença no Bar dos Açores de numeroso e inabitual público feminino. Somente em ocasiões excepcionais as mulheres frequentam o bar de seu Manuel, em geral abandonado à clientela masculina. A presença de moças e senhoras obriga a incómodo controle de linguagem e gesticulação, transformando a atmosfera do recinto, habitualmente debochada, sem eias nem peias.

Para o campeonato anual de bilhar, porém, quando é proclamado o Taco de Ouro do ano, tornou-se tradição o gracioso desfile de esposas, novas,
namoradas, parentas e admiradoras dos
disputantes.

terça-feira, julho 28, 2009


CORRUPÇÃO


AS ESCOLAS DO CRIME


NÃO SE TRATA DE OS FUNCIONÁRIOS SEREM HONESTOS OU DESONESTOS, TRATA-SE DA TOLERÂNCIA INSTITUCIONALIZADA DA CORRUPÇÃO


A tese é de Pacheco Pereira:

- Os partidos que são o esteio da democracia portuguesa – PS, PSD, PP – convivem sem dificuldade com práticas que dão origem a carreiras que desembocam no crime. São escolas de crime e devem ser consideradas responsáveis pelos crimes praticados pelos seus altos dirigentes.


Segundo a opinião do Fiscalista Saldanha Sanches, é estranho que tendo esta tese sido publicada ninguém tenha reagido, nenhum Telejornal se tenha referido a ela, ou seja, ninguém ligou, ninguém se indignou ou ameaçou com um processo por difamação.

Pacheco Pereira já tinha proposto que este assunto da Corrupção – um dos principais problemas da democracia portuguesa - fosse um dos temas principais das próximas campanhas eleitorais.

As carreiras criminosas começam nas “jotas”: são o primeiro passo para os grandes negócios escuros, depois do tirocínio num lugar de assessor ou vereador numa Câmara ou noutros lugares (empresas públicas municipais ou estaduais) que os partidos do governo consideram seus.

De referir, igualmente, as ferozes lutas dentro de cada partido por poder e por lugares e como essas lutas envenenam toda a gestão da coisa pública.

Como se demonstra no Relatório do Conselho de Prevenção da Corrupção, os maus hábitos instalaram-se na Função Pública. Não se trata de os funcionários serem honestos ou desonestos, trata-se da tolerância institucionalizada e generalizada da corrupção.

A corrupção ajuda a explicar o inexplicável:

- O motivo pelo qual a chegada dos fundos comunitários e de outras ajudas comunitárias não chegaram para qualquer crescimento da economia portuguesa.

O silêncio com que foram recebidas as acusações de Pacheco Pereira demonstram a eficácia que possuem os interesses instalados à volta da corrupção (e suas agências de comunicação) que não podendo impedir as discussões à volta dela conseguem, no entanto, transformar estas ondas de indignação em fogachos que pouco duram.

(Extraído de um artigo do Jornal Expresso da autoria de Saldanha Sanches)



Saldanha Sanches e Pacheco Pereira têm razão: as cumplicidades partidárias para a apropriação de lugares e poder constituem um cancro na nossa democracia e provocam atrasos irreparáveis no desenvolvimento do país.

É uma herança histórica que recebemos dos nossos ancestrais e que tem sido aproveitada para minar a democracia. Haverá, realmente a sério, alguma coisa que possa ser feito?

Saldanha Sanches, Pacheco Pereira e outros denunciam e é importante
que o façam mas parece
que ninguém tem a solução.

SOM PURO E RARO

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CANÇÕES BRASILEIRAS


MARIA BETÂNIA - DETALHES
Música e Letra de Roberto Carlos e Erasmo Carlos (1970)





TIETA DO AGRESTE

EPISÓDIO Nº 192





ONDE COM A CHEGADA DO PROGRESSO, INSTALA – SE EM AGRESTE UM JORNAL MURAL; COM BREVE NOTÍCIA SOBRE A COMPOSIÇÃO E O COMPORTAMENTO DA TORCIDA NO CAMPEONATO DO BILHAR


Não conseguira Ascânio Trindade esfregar os doutos argumentos de Herr Professor Karl Bayer nas fuças do Comandante, fazendo-o engolir o insulto e oferecer reparação. Comboiando dona Laura, o exaltado marujo, após o enterro de Zé Esteves, saíra directamente do cemitério para a canoa. Rompe o ano com os pescadores de Mangue Seco, fazendo honra à saborosa moqueca de cação e arraia com a qual os moradores lhe retribuem a ceia de Natal. Delicados, rigorosos ritos de amizade, exigem estrita observância.

Enquanto aguarda ocasião de exibir entrevista e editoriais ao Comandante, Ascânio pensa na melhor maneira de levar o descaramento do cronista de A Tarde à população abalada com a leitura da Carta ao Poeta De Matos Barbosa, seguida de incontrolável disse–que–disse incentivado pela diabólica dona Carmosina e pelo vate Barbosinha elevado aos píncaros da glória. Nem a morte de Zé Esteves, com a pompa do enterro de primeira classe, conseguira diminuir a comoção provocada pelo dramático grito de alerta lançado por Giovanni Guimarães.

Aqueles que conheciam o jornalista pessoalmente, tendo privado com ele durante sua recordada visita a Agreste, tomavam de imediato partido a seu favor, saíam em missão de catequese, aliciando os demais, levantando a opinião pública contra a Brastânio. Ascânio quebra a cabeça: como colocar ao alcance da opinião os artigos e as declarações, as páginas esclarecedoras dos jornais, pondo a questão em pratos limpos, demonstrando o exagero da crónica, a inexistência de perigo maior, nada além da poluição normal, reduzindo ás suas verdadeiras proporções o problema da instalação da fábrica de titânio? - afinal que espécie de merda era esse tal de dióxido? Procurara informar-se na entrevista do professor Bayer, não conseguira. Tudo quanto sabe refere-se à importância do produto, indispensável ao desenvolvimento pátrio e isso basta. Precisa de levar a verdade a todos, convencê-los das vantagens da Brastânio, do que ela significa em termos de riqueza e de progresso para o Brasil e para Agreste. Como fazê-lo?

Sair mostrando os jornais pessoa por pessoa, impraticável. Deixá-los no Bar dos Açores, à disposição dos fregueses, não resolve, pois somente uma parte dos habitantes, intelectualmente ponderável, numericamente desprezível, os lerá, sem contar o perigo das gazetas sumirem ou serem rasgadas, destruídas.

Convocar o povo para lhes dar conhecimento do conteúdo da matéria publicada, em praça pública, numa espécie de leitura colectiva? Ideia tentadora mas complicada, difícil e perigosa. Em se tratando da Brastânio, os pobres – e os outros também, conforme experiência anterior – poderiam pensar em nova distribuição de brindes e não os recebendo, se decepcionarem, saindo o tiro pela culatra.

Por fim, recordando os tempos da faculdade, decide-se pelo jornal mural, exposto na Prefeitura. Pela primeira vez, em vários anos de sinecura (mal paga), o tesoureiro Lindolfo revela-se de real utilidade. Habilidoso proprietário de uma bateria de lápis de cor, colou os recortes e em vistosas letras, reproduziu as principais afirmações das entrevistas e dos editoriais, tudo encimado por um dístico indo de uma extremidade à outra da cartolina: A BRASTÂNIO É PROGRESSO E
RIQUEZA PARA AGRESTE!

segunda-feira, julho 27, 2009

O QUE DIZEM A ESTE CASACO...?

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Diário de um Padre:





Eu estava tão nervoso na minha primeira missa, que no sermão não conseguia falar.

Antes da segunda missa, dirigi-me ao Bispo perguntei como
devia fazer para relaxar.

Este, por sua vez, recomendou-me o seguinte:

Coloque umas gotinhas de vodka na água, vai ver que da
próxima vez estará mais relaxado.

No domingo seguinte apliquei a sugestão do
meu Bispo, e estava tão relaxado, que podia falar alto até
no meio de uma tempestade, de tão descontraído que estava.
Ao regressar a casa, encontro um bilhete do meu Bispo, que
dizia o seguinte:

Caro Padreco:

1º - Da próxima vez, coloque umas gotas de VODKA na água e
não umas gotas de água na VODKA;

2º- Não há necessidade de por limão e sal na borda do cálice;


3º- O missal não é, nem deverá ser usado, como apoio para o
copo;

4º- Aquela casinha ao lado do Altar é o confessionário e não
o WC;

5º- Evite apoiar-se na imagem de Nossa Senhora, e muito
menos abraçá-la e beijá-la;

6º- Os mandamentos são 10 e não 12;

7º- 12 são os apóstolos, e nenhum deles era anão;

8º- Não nos devemos referir ao nosso Salvador e seus
apóstolos como "JC & Companhia";

9º- Não deverá referir-se a Judas como "filho da puta";

10º- Não deverá tratar o Papa por "O Padrinho";

11º- Judas não enforcou Jesus, e Bin Laden não tem a ver com
esta história;

12º- A água Benta é para benzer e não para refrescar a nuca;

13º- Nunca reze a missa sentado nas escadas do Altar;

14º- Quando se ajoelhar, não utilize a Bíblia como apoio ao
joelho;

15º- Utiliza-se o termo ámen e não "ó meu";

16º- As hóstias devem ser distribuídas pelos fiéis. Não
devem ser usadas como aperitivo antes do vinho;

17º- Procure usar roupas debaixo da Batina, e evite
abanar-se quando estiver com calor;

18º- Os pecadores vão para o inferno e não para "a puta que
os pariu";

19º- A iniciativa de chamar os fiéis para dançar foi
plausível, mas fazer um "comboio" pela igreja...

20º- Não deve sugerir que se escreva na porta da Igreja
"HOSTIA BAR".



P.S.: Aquele que estava sentado no canto do Altar ao qual se
referiu como "paneleiro travesti de saias" era eu!!...espero
que estas suas falhas sejam corrigidas no próximo Domingo.

O Bispo

DON McLEAn - VINCENT (STARRY, STARRY NIGHT)




TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 191



- Ouvi falar: Bonaparte, que é muito de Mangue Seco, me disse que dos milagres que a senhora praticou aqui, nesses poucos dias, e foram vários, o maior de todos foi a rapidez com que levantou essa casa de veraneio. Botou aquela gente da praia, preguiçosa como quê, na cadência do nosso Josafá, a de Itabuna.

- De Itabuna, doutor? A cadência de dona Antonieta é a de São Paulo, com ela é a jacto – A risada forte de Josafá.

- Devo a meu sobrinho Ricardo, ele tomou a frente, tocou fogo no pessoal, um menino que vale seu peso em ouro. A ele e ao Comandante Dário, um amigão.

Ainda bem que Bonaparte não vale seu peso em ouro, seria soma considerável; nem por isso é mau rapaz, apenas não quer nem pode correr. E para que correr? – pergunta-se o tabelião.

Em passadas largas, aberto em riso, Osnar invade o cartório à frente da malta do bilhar, Aminthas, Seixas e Fidélio, e de quebra seu Manuel:

- Cadê o fazendeiro? Capitão Astério, agora que você é proprietário de terras e criador de cabras, eu lhe promovo a major.

Cercam o amigo e companheiro, o campeão, o Taco de Ouro – manterá o título no actual torneio? Jarde e Josafá despedem-se, Josafá aperta a mão de Tieta:

- Fique sabendo, dona Antonieta, que tive muito prazer em lhe conhecer pessoalmente. Se tem uma pessoa direita em Agreste, é a senhora. Com a senhora é pão pão, queijo queijo.

- É verdade – concorda doutor Franklin – Dona Antonieta é um exemplo de bondade e correcção. Mas antes de sair, Josafá, ouça a resposta a uma pergunta que vou fazer aqui a nosso amigo Fidélio – Retira os óculos, volta-se para os rapazes em torno a Astério: - Fidélio, como é mesmo seu nome?

- Fidélio de Arroubas Filho.

- O nome completo, por favor.

- Fidélio Dórea A. de Arroubas Filho.

- E o A o que é?

- Fidélio Dórea Antunes de Arroubas Filho.

- Obrigado – agradece o tabelião e, brandindo os óculos, se dirige a Josafá, que espera parado na porta – Está vendo, Josafá? Outro Antunes.

Ainda tem mais: dona Carlota Alves… Sabe que é? A directora da escola particular. Ela não assina mas também é Antunes. Pelo lado da mãe.

Josafá não se altera, solta uma risada de quem nada teme:

- Uns Antunes que nem usam o nome. Não são como meu pai e eu, Jarde e Josafá Antunes, só e com muita honra!

Para não expor publicamente seu maior trunfo, controla a vontade de repetir alto e bom som o nome e as manhas do advogado a quem telegrafara e com cujo concurso espera contar: doutor Marcolino Pitombo, especialista máximo em litígios de terras na região cacaueira, famoso em Itabuna e Ilhéus desde tempos imemoriais, quando Uruçuca se chamava Água Preta e Itajuípe era a famigerada vila de Pirangi, onde se matava gente por um dê cá aquela palha. Doutor Marcolino Pitombo ganha no direito e, se for necessário, no caxixe.

Grapiúna esperto, Josafá está certo de obter-lhe a aquiescência pois, sabendo-o sergipano, em atenção à idade avançada e ao lugar de nascimento do causídico, mandara por à sua disposição passagens aéreas de Ilhéus a Aracaju e vice-versa. Agreste encontra-se mais próximo da capital de Sergipe do que Salvador, menor quilometragem a enfrentar de carro. Josafá irá receber o advogado em Aracajú, assim, além dos honorários, doutor Marcolino ganhará provas de consideração e de lambujem visita gratuita aos parentes e à terra natal.

Pensa em tudo, o diligente Josafá. Jarde pensa apenas nas cabras, em seu Mé e nos entrevistos urbes de dona Antonieta, preciosos haveres perdidos para sempre.

domingo, julho 26, 2009

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"BIG" PIANO

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Medicina Tradicional
KIMBANDA OU CURANDEIRO







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CELIN DION - I SURRENDER


CANÇÕES BRASILEIRAS

DJAVAN - MEU BEM QUERER

Letra e Música de Djavan Caetano Viana nascido em 1949. Esta música integra o LP "Alumbramento" de 1980. Djavan foi considerado pela Associação Paulista de Críticos o melhor compositou dos Anos 1981/82.



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 190







DA IMPORTÂNCIA DO SOBRENOME ANTUNES E DA PROMOÇÃO DE ASTÉRIO AO POSTO DE MAJOR


- Estou virando o maior freguês do seu cartório, doutor Franklin – pilheria Tieta ao cumprimentar o tabelião, na tarde do dia 2 de Janeiro. Chega acompanhada de Astério para ali encontrar-se com Jarde e Josafá.

- Será que a senhora também quer saber se é herdeira das terras do coqueiral? Quase meia cidade já desfilou nesta sala nos últimos dias para examinar os livros antigos, tive de trancá-los no cofre com medo que rasurassem as folhas ou as rasgassem. Nunca vi uma coisa assim em toda a minha longa vida de tabelião.

- Olhe que sua pergunta não deixa de ter propósito, doutor. Não vim ver se meu nome está nos livros mas estou comprando uma propriedade dos Antunes, do velho Jarde e do filho Josafá, para minha irmã e meu cunhado, e eles estão vendendo por causa dessa questão do coqueiral.

Doutor Franklin, a par do assunto, concordou num aceno de cabeça enquanto sorria para Astério: felizardo, beneficiando-se da cunhada milionária, presente de terras e cabras, bendito seja! O mundo é assim: uns nascem empelicados, de bunda para a lua, encontram o prato feito, a papa dada na boca. Para os demais é o que se vê e sabe.

- É, o nome dos Antunes consta dos livros, eu disse a Josafá, mas avisei logo que ele não está sozinho, tem muita gente…

- Antunes aqui, em Agreste, seu doutor Franklin, nunca ouvi falar que houvesse outros, fora de mim, de meu pai e de minha falecida mãe que Deus haja.

Interrompendo o tabelião, ressoa na porta a voz potente de Josafá. Atravessa o batente, Jarde a reboque:

- Nós temos um papel, lhe mostramos e foi o senhor mesmo quem falou do nome dos livros. Telegrafei para Itabuna ao meu advogado, ontem de manhã, assim dona Antonieta me deu sua palavra. Fui incomodar dona Carmosina em casa dela no dia de ano. Comigo é assim, na rapidez, na cadência grapiúna, não é essa lazeira daqui. Lá, se o fulano dormir no ponto, quando acordar está em sua roça de cacau. Tomara que a fábrica venha logo, para mudar esses usos daqui, para dar pressa ao povo.

- Você teve sorte de dona Antonieta manter a palavra dada por José Esteves. Não fosse assim, muito havia de penar para conseguir comprador e, se conseguisse, o negócio ia se arrastar na malemolência de nossa batida descansada.

O tabelião retira os óculos, limpa-os no lenço, sem pressa, tem todo o tempo do mundo diante de si, prossegue:

- Vou lhe dizer uma coisa, meu amigo. Pode ser que, com a vinda dessa indústria tão falada, meu cartório que é um dos menos rendosos do Estado, aumente o movimento e eu ganhe um pouco mais de dinheiro, de que bem preciso. Contudo, prefiro que essa tal de Brastânio não se instale aqui. Li o artigo de A Tarde, a carta ao nosso poeta, me arrepiei todo. Antes já tinha ouvido falar na poluição causada pela fábrica de titânio, o comandante me contou do acontecido na Itália ou na França, não me lembro mais. Prefiro nossa cadência, devagar e sempre, a água pura, o bom peixe, os usos daqui – Repondo os óculos, faz um gesto com a mão para impedir qualquer réplica, terminara com aquele assunto: - Vamos à vaca-fria: Bonaparte, tome nota. A Escritura de compra e venda da propriedade de nome…

- Visa Alegre…murmura Jarde, taciturno. No cartório não tem sequer o consolo da visão das mamas de dona Antonieta, opulentas nas rendas abertas do quimono.

Josafá retira do bolso pequena agenda de capa azul, dita medidas, demarcações, datas, números, entrega as públicas formas do inventário dos haveres de dona Gercina da Mata Antunes, reduzidos, aliás a um único bem, a Vista Alegre, plantação de mandioca e milho, criatório de cabras. Bonaparte, filho do doutor Franklin, cabeçorra e baixote, uma pipa de banha, escrivão juramentado, anota os dados, recebe os documentos. Doutor Franklin marca a data da assinatura e do pagamento para daí a três dias; feliz ou infelizmente, caro Josafá, Bonaparte não lavra um termo de compra e venda na cadência grapiúna. Tieta paga o sinal, Josafá trouxe o recibo pronto: a filha sabe onde pisa, não é como o velho tonto a largar dinheiro em mãos alheias recusando comprovante. Tieta guarda o papel, dirige-se ao tabelião:

Minha presença não vai mais ser necessária pois a escritura é passada em nome de Astério e Elisa, são eles que têm de assinar. Me toco amanhã para Mangue Seco, estou dando a última demão de cal na choupana que construí.

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