sábado, setembro 26, 2009


Vamos A Votos



Cartão de eleitor à mão para não perder tempo no acto da apresentação, os portugueses preparam-se para elegerem a força política que os governará nos próximos quatro anos (serão tantos?) e, principalmente, o primeiro-ministro.

Embora se espere uma maior dispersão de votos pelos partidos minoritários: Bloco, PCP e CDS a escolha será apenas entre Manuela F. Leite e José Sócrates ou seja: PS ou PSD como, de resto, em todas as anteriores eleições.

As recentes sondagens apontam para uma vitória de Sócrates, o tal que deveria ter estado no “banco dos réus” a ser julgado e condenado por todas as malfeitorias que lhe foram apontadas pelos partidos da oposição.

Pelos vistos, parece que vai sair inocentado e se o número de deputados que conseguir eleger for superior à soma dos deputados eleitos pelo PSD e CDS então, diremos que o povo para além de um juízo de inocência, também lhe atribui um outro de larga aprovação.

Em disputa, duas pessoas que não só têm concepções diferentes sobre aspectos importantes da vida e de olhar a resolução dos problemas da sociedade, como também são diferentes na atitude: uma pela negativa, pessimista, derrotista, acabrunhada, ameaçadora, lançando ao vento medos e fantasmas.

O outro: afirmativo, voluntarioso, optimista, lançando ao vento esperanças e promessas.

A primeira parece não ter contagiado grandemente as pessoas com os seus medos e asfixias democráticas, grande “cavalo de batalha” do seu discurso de campanha.

O segundo, pelos vistos, empolgou e entusiasmou até, pela razão muito simples, de que quem não esteja muito por dentro dos problemas e soluções, um discurso pela positiva é sempre mais envolvente, cativante e arrebatador.

O semblante de Manuela F. Leite não transmite fé, apenas receio, ameaça, medo… deprime e angustia.

Muitas pessoas, as tais indecisas, poderão não saber muito bem qual deles tem razão mas são sensíveis aos estados de espírito que recebem de um e de outro.

Não me ralhem, não me apontem o dedo, não me abram os olhos, não me ameacem com o futuro, transmitam-me esperança porque é dela que em grande parte vivemos.

Se eu fosse indeciso, se não percebesse nada de nada de política, votaria no candidato que mais e melhor me transmitisse essa ideia de esperança no futuro.

sexta-feira, setembro 25, 2009

VÍDEO

Você Acha Mesmo Que Sabe Guiar?

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A AFIRMAÇÃO PARA O PODER



Nesta momento da vida dos portugueses em que o poder se disputa em renhidas campanhas eleitorais e cada um se pretende afirmar como o melhor de todos os outros para exercer o poder, é oportuno contar uma pequena história relatada por um bosquímane, membro da tribo !Kung San ( o ponto de exclamação indica um estalido produzido com a língua e que não tem equivalente em línguas europeias), o povo mais antigo do mundo, o mais próximo dos nossos antepassados remotos, numa entrevista ao antropólogo Richard Lee, na década de setenta, explicando os costumes do seu povo:

- «Imagine um homem que andou a caçar. Ele não pode voltar para casa e anunciar como um fanfarrão: “Matei uma coisa grande no mato”. Primeiro tem de sentar em silêncio até eu ou outra pessoa qualquer chegar ao pé da fogueira dele e perguntar: “Que viste hoje?” Então ele responde calmamente: “Ah, eu não sou nada bom a caçar. Não vi nada de nada…talvez só uma coisinha pequena”. Depois, eu sorrio de mim para comigo porque fiquei a saber que ele matou qualquer coisa grande».

A conversa brincalhona continua enquanto vão buscar o animal morto:

- “Quer dizer que nos arrastaste a todos até aqui para nos obrigares a levar para casa o teu monte de ossos? Ah, se eu soubesse que era assim tão magro não teria vindo. E pensar que abdiquei de um belo dia à sombra para isto…Em casa podemos ter fome, mas pelo menos temos água fresca para beber.”

Qual o objectivo desta conversa?

O entrevistado explica:

- “Quando um jovem caça e consegue muita carne, passa a ver-se como um chefe ou um homem importante e pensa em nós como seus servos ou inferiores. Não podemos aceitar isso. Recusamos quem é fanfarrão, pois um dia o seu orgulho levá-lo-á a matar alguém. Por isso falamos sempre dos animais que ele caça como se fossem uma coisa insignificante. Desta maneira, esfriamos-lhe o coração e tornamo-lo simpático.”

Os bosquímanes estavam conscientes do desejo de afirmação do jovem através do animal que conseguira abater para alcançar uma posição de superioridade na sociedade, e sabiam que isso poderia torná-lo perigoso para os restantes membros do grupo.

A “receita” foi uma lição de humildade com o objectivo de garantir uma sociedade onde todos eram iguais independentemente dos animais que cada um conseguia matar.

Num deserto, onde aparentemente nada existe, este povo não só conseguiu sobreviver como, ainda por cima, ser a gente mais feliz e bem disposta do mundo.

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RITA COOLIGE - WE'RE ALL ALONE
(Da Telenovela "O Astro")


BEATLES - OH! DARLING



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 242




DE COMO OS DIRETORES DA BRASTÂNIO RECORDAM UM PROVÉRBIO


Nos escritórios da Brastânio, na sala do doutor Rosalvo Lucena, o chefe da equipa enviada a Mangue Seco apresenta relatório e ameaça demitir-se.

Conhecido como Aprígio, o Imperturbável, pela calma com que sempre enfrentara os mais árduos problemas profissionais e os ciúmes violentos da esposa, louvado pela lhaneza do trato, já não é o mesmo homem, perdeu a famosa contenção, tremem-lhe as mãos e a voz a descrever os factos:

- No comando da horda de assassinos vinha uma louca furiosa, brandindo um bastão. Foi ela quem tomou conta das mulheres, na lancha. Juro, doutor Lucena, que pensei que iam nos matar, me preparei para morrer. Entreguei a alma a Deus.

- E como era essa megera?

- Até que não era feia mas corria, gritando. Fora! Fora com os envenenadores! Ela, o padre e o barbudo. O padre é um rapazola, penso que ainda não diz missa. O barbudo me lembrou um engenheiro que eu conheço, mas como ficou na praia, não pude tirar a limpo, com certeza não era quem eu pensei. O resto, uns esfarrapados, um bando de criminosos.

- Quantos? Muitos?

- Quantos? Não sei. Uns trinta ou mais, contando com os meninos. Parecia gente da idade da pedra. Tivemos de ficar de pé, no passadiço; foi horrível. Só de me lembrar, fico outra vez doente.

Uma das secretárias, à beira da piscina, gozando oito dias de licença – prémio, refazendo-se do susto, confidencia ao Magnífico doutor:

- Tinha um que até… O que segurou Mário José e lhe deu um tranco – referia-se a Budião – era um doce. Não adiantou nada rir para ele, queria era acabar com a gente. Nos matar. – Lembrando, estremece: - A mulher apontava os tubarões com o cajado. Fechei os olhos para não ver.

Apesar do traumatismo – jamais voltaria a ser o mesmo – o chefe da equipa reconhece:

- Não queriam nos matar, no fim eu me dei conta. Só nos assustar. Mas deixaram claro que, de outra vez, não vão ficar na ameaça. Em minha opinião, doutor Lucena, não se pode construir seja o que for nesse lugar. A não ser que antes se mande a polícia… A polícia, não… Força do exército para terminar com esses bandidos, com todos eles, sem deixar nenhum. Ameaçaram nos atirar aos tubarões. Kátia desmaiou, ainda guarda o leito, diz que nunca mais irá ao banho de mar.

A outra secretária, pobrezinha, linda e vibrátil, um feixe de nervos, na cama um torvelinho, passou três noites acordada: se adormecia, voltava a ver os tubarões saltando em torno à lancha. De tão impressionada, aderiu à religião dos Hare Krishna.

O chefe da equipa conclui:

- Se for para voltar a Mangue Seco, doutor Lucena, prefiro apresentar minha demissão agora mesmo.

Doutor Rosalvo e doutor Mirko Stefano escutaram de ânimo forte a espantosa narrativa, as lamentações e os relatórios, não por acaso ocupam cargos de direcção numa Companhia da grandeza da Brastânio. Tais reacções de desagrado não chegam a surpreendê-los, são as primeiras mas não serão as últimas, certamente. Pedem aos participantes da espaventosa peripécia que falem do caso o menos possível, recomendam silêncio, impõem segredo. Ainda assim a notícia transpirou, repercutiu na imprensa.

Em A Tarde, apresentada sob um ângulo simpático: colérica e vigorosa reacção popular contra a ameaça de poluição da praia de Mangue Seco que, pela beleza da paisagem e amenidade do clima, é património a ser defendido e preservado a todo o custo. Nota redigida pelo próprio Giovani Guimarães. Não lhe bastando o comentário, enviou um telegrama de felicitações ao poeta De Matos Barbosa. Num outro jornal. Num outro jornal, os factos eram apresentados como prova da extensão e perigosidade da rede subversiva instalada no país, sob comando estrangeiro, agindo em recantos os mais distantes, para impedir o progresso da pátria.


VINTE SÁBIOS CONSELHOS


As universidades de Harvard e Cambridge publicaram recentemente um compêndio com 20 conselhos saudáveis para melhorar a qualidade de vida de forma prática e habitual:



1- Um copo de suco de laranja diariamente para aumentar o ferro e repor a vitamina C.

2- Salpicar canela no café (mantém baixo o colesterol e estáveis os níveis de açúcar no sangue).

3- Trocar o pãozinho tradicional pelo pão integral que tem quase 4 vezes mais fibra, 3 vezes mais zinco e quase 2 vezes mais ferro que tem o pão branco.

4- Mastigar os vegetais por mais tempo:

Isto aumenta a quantidade de químicos anti - cancerígenos liberados no corpo. Mastigar libera sinigrina. E quanto menos se cozinham os vegetais, melhor efeito preventivo têm.

5- Adoptar a regra dos 80%: servir-se menos 20% da comida que ia ingerir evita transtornos gastrointestinais, prolonga a vida e reduz o risco de diabetes e ataques de coração.

6- O futuro está na laranja, que reduz em 30% o risco de câncer de pulmão.

7- Fazer refeições coloridas como o arco-íris:

Comer uma variedade de vermelho, laranja, amarelo, verde, roxo e branco em frutas e vegetais, cria uma melhor mistura de antioxidantes, vitaminas e minerais.

8- Comer pizza. Mas escolha as de massa fininha:

O Licopene, um antioxidante dos tomates pode inibir e ainda reverter o crescimento dos tumores; e ademais é melhor absorvido pelo corpo quando os tomates estão em molhos para massas ou para pizza.

9- Limpar sua escova de dentes e trocá-la regularmente:

As escovas podem espalhar gripes e resfriados e outros germes. Assim, é recomendado lavá-las com água quente pelo menos quatro vezes à semana (aproveite o banho no chuveiro), sobretudo após doenças quando devem ser mantidas separadas de outras escovas.

10- Realizar actividades que estimulem a mente e fortaleçam sua memória:

Faça alguns testes ou quebra-cabeças, palavras-cruzadas, aprenda um idioma, alguma habilidade nova... Leia um livro e memorize parágrafos.

11- Usar fio dental e não mastigar chicletes:

Acreditem ou não, uma pesquisa deu como resultado que as pessoas que mastigam chicletes têm mais possibilidade de sofrer de arteriosclerose, pois tem os vasos sanguíneos mais estreitos, o que pode preceder a um ataque do coração. Usar fio dental pode acrescentar seis anos a sua idade biológica porque remove as bactérias que atacam aos dentes e o corpo.

12- Rir:

Uma boa gargalhada é um 'mini-workout', um pequeno exercício físico: 100 a 200 gargalhadas equivalem a 10 minutos de corrida. Baixa o estresse e acorda células naturais de defesa e os anticorpos.

13- Não descascar com antecipação:

Os vegetais ou frutas, sempre frescos, devem ser cortados e descascados na hora em que forem consumidos.
Isso aumenta os níveis de nutrientes contra o câncer.

14- Ligar para seus parentes/pais de vez em quando:

Um estudo da Faculdade de Medicina de Harvard concluiu que 91% das pessoas que não mantém um laço afectivo com seus entes queridos, particularmente com a mãe, desenvolvem alta pressão, alcoolismo ou doenças cardíacas em idade temporã.

15- Desfrutar de uma xícara de chá:

O chá comum contém menos níveis de antioxidantes que o chá verde, e beber só uma xícara diária desta infusão diminui o risco de doenças coronárias. Cientistas israelitas também concluíram que beber chá aumenta a sobrevivência depois de ataques do coração.

16- Ter um animal de estimação:

As pessoas que não têm animais domésticos sofrem mais de stresse e visitam o médico regularmente, dizem os cientistas da Cambridge University. As mascotes fazem você sentir-se optimista, relaxado e isso baixa a pressão do sangue. Os cães são os melhores, mas até um peixinho dourados pode causar um bom resultado.

17- Colocar tomate ou verdura frescas no sanduíche.

Uma porção de tomate por dia baixa o risco de doença coronária em 30%, segundo cientistas da Harvard Medical School.

18- Reorganizar a geladeira.

As verduras em qualquer lugar de sua geladeira perdem substâncias nutritivas, porque a luz artificial do equipamento destrói os flavonóides que combatem o câncer que todo vegetal tem. Por isso é melhor usar á área reservada para ela, aquela caixa bem em baixo.

19- Comer como um passarinho.

A semente de girassol e as sementes de sésamo nas saladas e cereais são nutrientes e antioxidantes.
E comer nozes entre as refeições reduz o risco de diabetes.

20- E, por último, um mix de pequenas dicas para alongar a vida:


- Comer chocolate:

Duas barras por semana estendem um ano a vida. O amargo é fonte de ferro, magnésio e potássio.

- Pensar positivamente:

Pessoas optimistas podem viver até 12 anos mais que os pessimistas, que ademais pegam gripes e resfriados mais facilmente.

- Ser sociável:
-

Pessoas com fortes laços sociais ou redes de amigos têm vidas mais saudáveis que as pessoas solitárias ou que só têm contacto com a família.

- Conhecer a si mesmo:

Os verdadeiros crentes e aqueles que dão prioridade ao “ser” sobre o “ter”, têm 35% de probabilidade de viver mais tempo.

Uma vez incorporados, os conselhos, facilmente tornam-se hábitos...

É exactamente o que diz uma certa frase de Séneca:

- Escolha a melhor forma de viver e o costume a tornará agradável!

quinta-feira, setembro 24, 2009

VÍDEO
MARIONETE CONGOLESA

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HOJE - GAIVOTA - AMÁLIA - SÓNIA TAVARES THE GIFTH



CANÇÔES BRASILEIRAS

MARISA MONTE - BEM QUE SE QUIS



Foi Almoçar a Casa



Numa galeria de arte, uma mulher está parada em frente de um quadro
muito estranho, cujo nome era: "Foi almoçar a casa".

Nele, estão representados três negros, nus, sentados num banco de jardim, com os seus pénis em primeiro plano mas, curiosamente, o homem do meio tem o pénis cor de rosa...

- Desculpe-me - diz a mulher ao funcionário da galeria:

- Eu estou curiosa a respeito desses negros. Porque é que o homem do meio tem o pénis cor de rosa?

O funcionário responde:
-Receio que a senhora não tenha interpretado bem o quadro. Esses homens não são negros; eles trabalham numa mina de carvão, e o homem que está sentado no meio foi almoçar a casa.

ALEXANDRE PIRES - USTEDE SE ME LEVE LA VIDA



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 241





Pouco habituado à bebida, um tanto eufórico devido ao conhaque e à estima e admiração demonstrada pelo Magnífico Doutor, Ascânio faz-lhe confidências, cita o nome de Leonora, exalta-lhe a beleza, lastima-lhe a fortuna, obstáculo antes intransponível. Agora, quem sabe, prefeito de município industrial e próspero, com o caminho aberto em sua frente, encontrará coragem para lhe falar.

- Ascânio, caríssimo, além de tudo você é um homem de bem. Vai assumir um compromisso comigo; de volta a Agreste o seu primeiro gesto será pedir a mão dessa moça em casamento. Pedir a mão, já não se usa nos dias de hoje. Simplesmente comunique a ela que vocês os dois vão se casar. Por que não no dia da posse? – Levanta o bojudo copo onde o conhaque brilha, ouro e brasa.

- Bebo à felicidade dos noivos.

Ainda bebem à felicidade dos noivos quando o telefone toca. O doutor atende:

- Está de pé, é claro. Daqui a cinco minutos mando levá-lo aí.

Desliga, explica a Ascânio:

- É um jornalista nosso amigo, o mesmo que fez aquela entrevista com o doutor Lucena, que tanto lhe agradou. Ele gostaria de ouvir você sobre Agreste e as perspectivas que a cogitada instalação da Brastânio abre para a região. Se você não vê inconveniente, de nossa parte não temos nada a opor. Assim, você começa a se projectar.

- Inconveniente nenhum. Com prazer.

- Vou mandar lhe levar à redacção do jornal. Quando voltar, me encontre na piscina. Almoçaremos juntos.

Está Ascânio, na porta da suite, saindo, quando o Magnífico doutor lhe recorda:

- Não deixe de repetir aquela frase de ontem, uma beleza! A Brastânio é a redenção de Agreste! Deixou-me com inveja, mon vieux.

Na redacção, o jornalista, o mesmo indivíduo zarolho que no primeiro dia queria obter informações a todo o transe, ao ouvir a frase, pergunta:

- Foi Mirko que soprou essa manchete, não foi?

Ascânio não se ofende, até se sente orgulhoso:

- A frase é minha mas ele disse que gostaria de tê-la pensado.

- Não há quem possa com Mirko, é a velhacaria em pessoa. Outro dia me enrolou, a mim e aos colegas, escondeu a vinda do alemão, mas A Tarde foi na pista e deu o furo. – Suspende os ombros: - Também de que ia adiantar se ele me dissesse? Falava com o homem aí – aponta a porta da sala encimada por uma placa: Direcção – e não saía nada. Quem pode, pode.

Tudo aquilo era latim para Ascânio, não deu trela. Um fotógrafo bateu chapas enquanto conversavam. Respondeu a duas ou três perguntas – no meio de uma delas soltara a frase – o repórter se deu por satisfeito:

- Já tenho o suficiente, o resto deixe por minha conta. Vou aproveitar o carro, dar uma espiada nas fêmeas na piscina, tomar um scotch com o salafrário do Mirko.

No carro informa-se:

- Me diga uma coisa: o mulherio nessa tal praia da sua terra, vale a pena? Dá muita paulista por lá? – Brilha o único olho são, Cupido: - As turistas de São Paulo, meu chapa, já desembarcam do avião abanando o rabo.

Ascânio tem vontade de meter-lhe a mão na cara:

- Em todo o lugar, que eu saiba, existem vagabundas e mulheres direitas. As paulistas que eu conheço são honestas e decentes.

A voz zangada, quase de briga, alarma o jornalista:

- que é isso, bicho, não quis ofender sua parentela. Me refiro a umas quengas que aparecem dando sopa por aqui. Não me leve a mal.

Num dos grandes carros negros, após o almoço, o Magnífico doutor e Bety o acompanham até à estação rodoviária. Ascânio dormirá em Esplanada, em casa de Canuto Tavares e, se a marinete de Jairo se comportar, no dia seguinte, antes da uma, verá Leonora e lhe dirá: eu te amo e quero me casar contigo. Oferecendo-lhe o braço, a caminho do ônibus, Bety se aperta contra ele, carinhosa. Parece ter apreciado a noite passada em sua companhia, se bem que a ela tivessem cabido quase todas as iniciativas. Ao contrário do que pensa Osnar, não é preciso dormir com nenhuma polaca para se saber o que é mulher.

Antes do abraço de despedida, doutor Mirko Stefano, director de relações públicas da Companhia Brasileira de Titânio SA., retira do bolso um saquinho de veludo negro, onde está impresso a letras douradas o nome da Casa Moreira, joalheiros e antiquários de fama e preço:

- A Brastânio pede licença para oferecer o anel de compromisso que amanhã você colocará no dedo de sua noiva, a quem espero ter o prazer de conhecer dentro de poucos dias quando voltar a Agreste.

No ônibus, Ascânio não resiste, desata o cordão, abre o saquinho, retira pequeno estojo que contem antigo anel de ouro com roseta de diamantes, em cuja parte interna tinham sido gravadas as letras L e A, trabalho fino,
peça de gosto e de valor, digna de Leonora. Anel de compromisso.

quarta-feira, setembro 23, 2009

ORQUESTRA NO ESCRITÓRIO

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AVES QUE SE DESENHAM CONTRA O AZUL DO CÉU

CANÇÕES BRASILEIRAS

MARIA BERÂNIA - SONHO IMPOSSÍVEL


FAGNER - BORBULHAS DE AMOR


EVOLUÇÃO HUMANA



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 240



- Que deseja beber? – pergunta o Magnífico após digerir a batida da porta.

- Acabei de tomar café, não quero mais nada, não precisa se incomodar.

- Também eu venho de tomar café. Para depois do café, para começar bem o dia, nous allons prendre une goutte de Napoléon, une fine, mon chére, você me dirá.

Em cima de uma mesa, variedade de garrafas. Escolhe uma delas. Que diabo é Napoléon une fine, pergunta-se Ascânio, tem muito o que aprender. Os copos grandes , bojudos, o esclarecem: isto ele conhece, são copos para conhaque. Mas nunca imaginou que o líquido dourado, colocado ao fundo, deva ser esquentado com as mãos. Com uma das mãos, aliás, pois com a outra o Magnífico cobre a boca do copo para evitar que se evole o aroma da bebida.

Canhestro, Ascânio copia-lhe os gestos. O doutor destapa o copo, aproxima-o das narinas, aspira o olor, quelle delice! Ao imitá-lo, Ascânio entontece: as emanações do álcool penetram-lhe nariz adentro. Completa a gafe quando, emborcando de um trago o conteúdo do copo, engasga-se, tosse, vá ser forte assim no inferno! Forte mas delicioso, de quanto lhe deram a beber nesses dias, incluindo a champanha, prefere o conhaque. O doutor volta a servi-lo, não comenta nem ri, não viu nem ouviu. Ascânio agora saboreia em pequenos goles como o faz o mestre do bem- viver.

- Veja, Ascânio; as obrigações do meu cargo levam-me a tratar com uma infinidade de pessoas, uma súcia por vezes difícil. Dou-me bem com todo o mundo, é do meu temperamento e do meu ofício. Mas, no meio dessa máfia, de quando em quando deparo com alguém que me chama a atenção pelo talento, pela força interior, pela qualidade, pela fibra. Conheço os homens, não me engano, sei distinguir os que valem a pena, mesmo numa rápida convivência. Desde que conversámos pela primeira vez, na Prefeitura de Agreste, me fixei em sua personalidade: aí está um homem de verdade, un vrai homme, disse para meus botões. Naquela ocasião ainda não tínhamos decidido escolher Agreste: ao contrário, nossas vistas estavam voltadas para o Sul do Estado, uma área entre Ilhéus e Itabuna, no rio Cachoeira: estrada, porto de mar, facilidades, as autoridades locais oferecendo mundos e fundos. Tomei uma decisão: se não nos instalarmos em Agreste, vou convidar este moço para vir trabalhar connosco, na Brastânio. Ele tem fibra e competência.

Aspira o conhaque, duplo prazer, paladar e olfacto. Ascânio modesto, agradece:

- Bondade sua.

- Disse para mim mesmo: se ele permanecer aqui, nesta terra decadente, sua flama se extinguirá, estiolada. Não posso permitir que isso aconteça, vou convidá-lo a vir trabalhar connosco onde estivermos. Mas, tendo nos decidido, felizmente, por Mangue Seco, creio que a Prefeitura de um município industrial poderoso, rico, pode ser o primeiro passo para uma brilhante carreira política de um jovem homem público.

Nos eflúvios do conhaque Ascânio embarca nas palavras inspiradoras, inicia a marcha. O Magnífico Doutor toma da garrafa, a hora não é a mais própria mas a circunstância exige. Prossegue abrindo caminho, despertando a ambição. Carreira política ou empresarial, pois, se após exercer a Prefeitura de Agreste, Ascânio preferir trocar a administração pública pela empresa privada, o convite que não chegou a ser feito permanece de pé: haverá sempre um posto de comando para ele na Brastânio. Homens inteligentes e trabalhadores existem muitos, homens capazes de comandar são poucos.

Parecendo-lhe chegada a hora, oferece:

- Por isso mesmo, quero dizer-lhe que estou, que estamos às suas ordens. Se necessita de alguma coisa, é só dizer, não guarde reserva, não se sinta acanhado, somos amigos.

- Basta a confiança que deposita em mim. Espero poder honrá-la.

- E para a eleição? Para a campanha eleitoral? A Brastânio gostaria de concorrer para as despesas da campanha eleitoral.

- Agradeço mas não é preciso – Finalmente encontra alguma coisa de que se ufanar: - Não haverá campanha eleitoral. Serei candidato único, isso é coisa acertada. Meu padrinho, o coronel Artur de Figueiredo, já decidiu e o povo está todo de acordo. Posso lhe dizer sem vaidade: serei eleito unanimemente. Não preciso de ajuda, muito obrigado. E assim é melhor, ninguém vai poder dizer que apoio a Brastânio por interesse pessoal. Depois, se tudo der certo, se meu sonho se realizar, talvez venha a precisar de sua ajuda. Por ora, não.

Aquela conversa, a última, a mais longa e íntima, transpôs os limites da indústria e do município para entrar pela vida pessoal de Ascânio:

- Falou em sonho. Adoro sonhar, qual o seu sonho?

terça-feira, setembro 22, 2009

MENSAGEM SURPRESA

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BELEZAS DA NATUREZA


CANÇÕES BRASILEIRAS
MARISA MONTE - AMOR I LOVE YOU



O CANCRO - (Estratégia de Vistas Curtas)




Não, o cancro não é consequência do ataque ao nosso organismo de um qualquer vírus ou bactéria como acontece em tantas outras doenças com a Imunodeficiência (HIV) ou H1N1 do actual surto de gripe.

No caso particular do cancro é o nosso organismo que se coloca contra si próprio revelando uma grande estreiteza de vistas pois dando cabo do corpo põe termo a si próprio.

Concretamente, o cancro é uma linhagem de células mutantes (resultantes de erros de cópia no processo de substituição das células chamados mutações) bem sucedidas e o facto de poderem acabar por se destruírem a si próprias juntamente com o corpo a que pertencem, é absolutamente irrelevante porque a evolução que tem lugar dentro de nós não faz previsões, é um simples processo mecânico por meio do qual algumas formas surgem, competem com outras e saem vencedoras na base de interacções imediatas.

Para compreender o cancro temos de pensar num organismo único, o nosso próprio corpo, com uma vasta população de células todas com o mesmo conjunto de genes, excepto no que respeita às mutantes (que resultam dos tais erros de cópia que ocorrem no processo de divisão das células).

A maioria destas células é rapidamente detectada e destruída pelo nosso sistema imunitário que actua como uma força policial de uma eficácia implacável.

A qualquer hora da noite batem à porta e levam os desgraçados dos mutantes.

Todavia, uma pequena fracção consegue escapar à polícia e tornarem-se heróis combatendo pela liberdade, resistindo à tirania do Estado.

Mas esta não é a melhor perspectiva para pensarmos sobre os mutantes. É preferível olhar para eles como “organismos-presas” que evoluem para evitar os predadores.

É como numa floresta: as aves retiram a maioria dos insectos, aqueles que mais sobressaem, que dão mais nas vistas e deixam os que se confundem com o meio ambiente.

No corpo humano, em lugar das aves, está o sistema imunitário a retirar as células mutantes, as que mais se destacam, deixando as que não se detectam para sobreviver e crescer em minúsculas populações.

Neste momento, no meu e no seu corpo existem centenas de populações mutantes as quais, na qualidade de “organismos-presa” se adaptaram e sobreviveram. Por isso mesmo, elas têm de competir pelos recursos com as células normais suas vizinhas.

Estas populações mutantes permanecem reduzidas e têm pouca importância para o organismo como um todo não ajudando nem prejudicando.

Contudo, o relógio mutacional (o tal que comete erros de cópia) continua a trabalhar e outros mutantes surgem em algumas das populações tornando-as mais agressivas na competição com as células vizinhas normais.

Assemelham-se àquelas plantas daninhas que se expandem produzindo uma toxina que elas conseguem aguentar mas não as plantas vizinhas e assim, as populações duplamente mutantes, expandem-se agressivamente e tornam-se tumores incipientes.

No entanto, estes tumores que evoluíram de modo a enfrentarem os predadores e competidores têm um novo factor que impede a sua continuação e expansão.

É que elas, ao alimentarem-se, produzem desperdícios que são retirados pelos vasos sanguíneos juntamente com os desperdícios das células normais o que, naturalmente, tem os seus limites a menos que o tumor incipiente consiga recrutar para si vasos sanguíneos da mesma maneira que as células normais. Até lá, não pode crescer para além de determinadas dimensões.

As instruções genéticas para recrutar vasos sanguíneos evoluíram há muito tempo como parte do desenvolvimento normal e tudo o que a célula mutante do tumor incipiente tem de fazer é activar essas instruções o que é relativamente simples e assim, desta forma, os tumores adaptam-se aos desafios, mutação após mutação, exactamente da mesma maneira que os organismos que vivem em liberdade como as aves ou os peixes se adaptam ao ambiente.

O facto de haver outras doenças provocadas por organismos estranhos ao corpo humano, como o vírus da imunodeficiência (HIV), enquanto um tumor deriva das nossas próprias células, não faz qualquer diferença. Em ambos os casos eles sobrevivem dentro do nosso corpo, não contribuem para o nosso bem-estar e vão avançando a um ritmo constante como bombas relógios mutacionais.

A evolução do cancro, como já foi referido atrás, parece o cúmulo da estreiteza de vistas. Cada “avanço” mutacional que permite a uma linha celular evitar os seus “predadores” (sistema imunitário), vencer os seus competidores (as células que funcionam normalmente) e colonizar outras zonas do corpo (metástases) fá-lo aproximar mais da sua própria morte.

Mesmo um tumor benigno, desaparecerá com a morte do organismo pois não existe nenhum mecanismo que lhe permita passar de um corpo para outro.

Esta evolução “dentro” do organismo é incapaz de impedir esta inutilidade e por isso falámos de “vistas curtas”.

Só a evolução “entre organismos” pode criar um desfecho de “vistas largas” de células que colaborem para o bem comum.

Felizmente o cancro, por força da selecção actuar de forma tão vigorosa a este nível e durante tanto tempo, é uma doença rara que se manifesta sobretudo em idades já avançadas.

Fica-nos esta observação:

- A selecção dentro dos grupos favorece as estratégias de vistas curtas enquanto a selecção entre grupos é necessária para criar o desfecho de vistas largas dos organismos que colaboram para o bem comum.

- Se a selecção entre os grupos vence a selecção dentro dos grupos de uma forma tão decisiva, da mesma forma que a selecção entre organismos vence a selecção dentro dos organismos, a uma outra escala biológica podemos dizer que se nos conseguirmos extinguir como espécie será devido ao mesmo tipo de estreiteza de vistas que leva as células cancerosas a acelerarem a sua própria morte.

David Sloan Wilson (Prof. de Biologia e Antropologia) – A Evolução Para Todos



DEOLINDA - FADO TONINHO



TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 239





EPISÓDIO FINAL DA ESTADA DE ASCÃNIO TRINDADE NA CAPITAL OU DA FORMAÇÃO DE UM DIRIGENTE A SERVIÇO DO PROGRESSO: O ANEL DE COMPROMISSO


Reservada permanentemente para ele, mesmo quando se demora no sul, a suite do doutor Mirko Stefano não é um frio apartamento, habitação impessoal de hotel para breve estadia. Sente-se em toda a parte, em cada escaninho, a presença do homem cordial, civilizado – o bom vivant, como ele próprio se classifica.

Pontual, às nove horas, Ascânio empurra a porta semi-aberta, ouve um resto da frase na voz amaneirada do Magnífico.:

- …culpa sua, eu lhe avisei que o homem é parada.

Fisionomia preocupada, o director de relações públicas da Brastânio, vestido apenas com um robe-de-chambre de seda negra, e corte oriental, lembrando um quimono de campeão de judo, conversa com doutor Rosalvo Lucena diante da bandeja com os restos do café, do mamão, do suco de grape-fruit. Os rostos sérios se distendem, abrem-se em sorrisos.

- Desculpem ter entrado sem bater, a porta estava aberta.

Há um breve momento de indecisão, durante o qual Ascânio observa e compara os dois manda-chuvas da Brastânio. Doutor Rosalvo Lucena, pronto para a manhã afanosa do escritório, veste-se com esportiva elegância, como exige a sua profissão: calça cinza, blazer azul, camisa e gravata combinando, alegres. Ainda não chegou à seriedade dos ternos do doutor Bardi, à condição de magnata. À vontade no roupão japonês, os pés descalços, doutor Mirko Stefano não parece um homem de negócios e sim um maduro galã de televisão, desses pelos quais as mocinhas se apaixonam. Dois homens de peso, na opinião de Ascânio: simpatiza com Mirko, deseja parecer-se com Rosalvo.

- Fez muito bem em entrar, deixei a porta aberta de propósito – Mirko aponta uma poltrona. Precisa chamar a atenção do garçom para fechar a porta cada vez que entra ou saia, o serviço nesses novos hotéis ainda deixa muito a desejar.

Rosalvo Lucena, antes de retirar-se, repete para Ascânio que lhe bebe as palavras, argumentos gastos na véspera, sem resultado, no almoço com a prestigiosa figura da administração estadual. Toda a zona se beneficiaria com o estabelecimento da fábrica: asfalto, pistas duplas, mercado de trabalho, especialização de mão-de-obra, formação de novos técnicos, escola para filhos de trabalhadores, assistência médica, vila operária, comércio, empregos bem remunerados para especialistas.

Tudo isso acontecendo numa área morta, utilizada apenas para o ócio de uns poucos privilegiados, transformando-se em centro vital para a economia da região. Suprimiu, é claro, qualquer referência à candente questão da proximidade com a capital, pois não era o caso, não havendo por que falar ao representante da longínqua Agreste do ponto nevrálgico, factor da inabalável intransigência do ilustre companheiro de almoço: ali, jamais! Acrescentou, em troca, o problema da falta de infra-estruturas da zona de Mangue seco e das despesas decorrentes, imensas. A Brastânio as assumirá de coração leve, por dever patriótico.

Dever patriótico, uma zorra! Pensa Rosalvo enquanto recita seu apurado texto para Ascânio, bêbado de admiração. Se o velho parlamentar não obtiver sucesso em suas démarches, o que bem pode suceder apesar do optimismo do doutor Bardi, eles serão obrigados a enfrentar os problemas colocados pela localização em Agreste em matéria de perspectiva, puta-que-os-pariu! Sorri para Ascânio:

- Falei ontem a seu respeito a uma alta figura da administração, homem de força política. Disse-lhe do seu valor.

Despede-se, sabe que Ascânio viaja naquela tarde:

- Penso que só nos veremos agora em Agreste. Boa viajem e ganhe essa eleição. Já foi marcada a data, Mirko? – cobra ao Magnífico.

- Só para a semana. O juiz presidente empacotou ontem. Enfarte fulminante. Estive no enterro.

O sorriso cortês de Rosalvo Lucena cresce em riso zombeteiro:

- Cada qual carrega sua cruz, meu velho.

Acena da porta, vingado, bate-a com força para fechá-la bem e recordar a Mirko que deixá-la
aberta é uma imprudência. Cada qual com suas leviandades e com seus recalques.

segunda-feira, setembro 21, 2009

FAÇAM ESTE VÍDEO TER ECO PELO MUNDO FORA

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CANÇÕES BRASILEIRAS

JOSÉ AUGUSTO - AGUENTA CORAÇÃO


RAÚL SOLNADO - FOI AGRADECER O AUMENTO DA SALÁRIO A SALAZAR (1981) (Solnado Sempre ... )


NUNO DA CÂMARA PEREIRA - CAVALO RUÇO


TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 238



Doutor Baltazar Moreira aproveita para recuperar a palavra, afinal a ideia é sua e esse rapazola, mal saído da faculdade, está brilhando às suas custas. Ficara de apoiar e nada mais:

- Tem razão o doutor Gustavo. É diante desse comprador que nos temos de apresentar unidos, inteiramente de acordo. Se começarmos a lutar entre nós, teremos questão para mitos anos e a Brastânio, que não pode esperar, irá procurar noutra parte localização mais fácil para a sua indústria.

- Por isso mesmo – interrompe doutor Marcolino Pitombo – não adianta nada discutir sem a presença de um dos herdeiros. Como saber a sua opinião? Como conhecer seu pensamento?

Na porta do cartório, parado a ouvir sem que se dessem conta, o comandante Dário de Queluz eleva a voz:

- Vão saber agora mesmo meus caros senhores. Boa tarde doutor Franklin, permita-me tomar parte no debate.

Voltam-se todos, o Comandante não sendo nem bacharel em direito nem Antunes, que faz ali e por que deseja participar na discussão? Doutor Marcolino Pitombo conhece a posição do Comandante em relação à Brastânio: adversário militante da instalação da indústria de dióxido de titânio no município, anda exibindo pelas ruas o memorial das prefeituras de Ilhéus e Itabuna, publicado nos jornais do Sul. Felizmente não sabe quem o redigiu – e o advogado arvora um sorriso, cordial, surpreso e perspicaz.

- O prazer será todo nosso, Comandante, mas antes permita que por minha vez lhe pergunte em que qualidade deseja o senhor tomar parte nos debates?

Na face do doutor Franklin esboça-se também um sorriso, ele próprio lavrara o termo de opção de venda, não querendo deixar em mãos de Bonaparte assunto tão urgente, nem nas mãos nem no conhecimento, pois Bonaparte anda muito amável com o doutor Pitombo e tem chegado tarde a casa, mau sinal. Sorri igualmente o comandante Dórea de Queluz:

- Na qualidade de herdeiro. Fidélio Dórea Antunes de Arroubas Filho concedeu-me uma opção de venda sobre a sua parte no coqueiral, está registrada no cartório… - volta-se para doutor Franklin.

- É certo. Hoje pela manhã – confirma o tabelião.

- E posso desde já comunicar aos senhores que, de minha parte, não penso vender meus direitos, nem entrar em acordo, nem fazer sociedade, nada, três vezes nada. Agora, que já sabem, dêem-me licença, devo voltar para Mangue Seco. Passem bem meus caros senhores.

Indo em busca de dona Laura e Leonora, para no bar onde a malta reunida ouve, entre gargalhadas e bravos, os detalhes do acontecido na reunião.

- Devem estar quebrando a cabeça para descobrir um jeito de deserdar Fidélio. Mas Franklin me disse, nos disse, aliás, hoje, de manhã, que de todos os herdeiros, Fidélio é o de linha mais directa, ele e Canuto Tavares. Não é isso caro Fidélio?

Mesmo Seixas, apesar da decepção que a notícia causará ao coletor, pretendente à compra do terreno, se diverte. Diverte-se também Barbozinha que chega com novidades:

- Os jornais estão dizendo que as eleições para a Prefeitura vão ser marcadas hoje.

O Comandante já sabia, dona Carmosina mostrara-lhe o novo tópico de A Tarde reafirmando o interesse da Brastânio e a pressão sobre o Tribunal.

Despede-se, no começo da semana voltará, em companhia de Tieta, se tudo correr como ele espera.

O poeta senta-se, pede um trago de cachaça com limão, não anda com a garganta boa, precisa limpá-la. Pergunta:

- E as eleições, que me dizem vocês?

- Você é meu candidato… - responde Osnar.

- A prefeito? Deus me livre e guarde…

- Não. A padrinho de Peto na cerimónia do descabaçamento. Vai ser sábado. Nós queremos lhe pedir para escrever um poema para a festa.

Barbozinha amarra a tromba: voltam os amigos a gozá-lo por causa da versalhada para a Brastânio. Nada disso, bardo! Queremos apenas que Peto tenha tudo do melhor pois bem merece. Zuleika Cinderela, uma ceia sensacional, música e flores e uns versos que imortalizem o acontecimento. Desanuvia-se o rosto de Barbozinha: é um tema novo, um tanto escabroso mas que, tratado com delicadeza, pode resultar num soneto em cujos versos se misturem a malícia e a inocência, vai pôr mãos à obra. Cobra direitos autorais:

- Outro trago, Manu, por conta do soneto.

domingo, setembro 20, 2009

VÍDEO

O BARCO DO AMOR

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CANÇÕES BRASILEIRAS

CIBELI GERLACH - BANDOLEIRO


PAMAP – PORTAL ATEU – MOVIMENTO ATEÌSTA PORTUGUÊS



Este mês surgiu entre nós um Movimento que tem como objectivo lutar contra a superstição e fazer um estudo sobre a religiosidade em Portugal.

O Portal já existe na Internet há cerca de um ano mas a Associação só este mês ganhou forma.

Hélder Sanches, um dos fundadores, diz acerca dos objectivos da Associação, ajudar as pessoas a pensarem por elas próprias.

A existência de um ateísmo militante é importante para combater os dogmas que influenciam a vida das pessoas que acreditam. Para além de planearem conferências e debates pretendem também fazer um documentário sobre as diferenças entre um crente e um ateu e trabalhar igualmente num estudo sobre a religiosidade no nosso país pois não existem estatísticas fiáveis sobre religião.

As designações utilizadas nos Censos são pouco precisas e daí a necessidade de elaborarem um Questionário para um estudo em colaboração com uma Faculdade.

O Portal Ateu (w.w.w. portalateu.com) continuará a servir como espaço de debate, reconhecendo-se que a Internet veio dar novo impulso ao movimento ateísta permitindo não só uma partilha rápida da informação como também a discussão em vários espaços de intervenção que se têm multiplicado graças ao trabalho de autores de referência como: Richard Dawkins, Sam
Harris, Christopher Hitchens e Daniel C. Dennet.

JÚLIO IGLÉSIAS - MAMMY BLUE


TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 237



DO HERDEIRO IMPREVISTO E DE NOVA ENCOMENDA DE POEMA AO VATE BARBOZINHA


Aproximadamente à mesma hora em que os pescadores do Mangue Seco com o apoio de Tieta e Ricardo e o fundamento ideológico fornecido pelo engenheiro Pedro Palmeira, expulsavam os técnicos da Brastânio, reuniram-se no cartório do doutor Franklin os diversos interessados nos terrenos do coqueiral. Encontro promovido pelo tabelião atendendo a pedido do doutor Baltazar Moreira, adiado mais de uma vez devido à ausência do doutor Marcolino Pitombo a tramar em esplanada, por fim aconteceu.

Na sala do cartório juntaram-se, depois do almoço, os três advogados e os seus clientes: doutor Marcolino Pombo, ladeado por Jarde e Josafá Antunes, o velho sentado, abatido, o moço de pé, exultante; doutor Baltazar Moreira a oferecer a melhor cadeira a dona Carlota Antunes Alves; cochichando com Modesto Pires; doutor Gustavo Galvão, por uma vez de paletó e gravata, recomendando calma a Canuto Tavares. Como se prolonga a demora de Fidélio, também convidado na sua condição de Antunes e pretenso herdeiro, resolvem começar a reunião, mesmo em sua ausência, estranho litigante, até aquele momento sem advogado a representá-lo.

Exactamente para comentar tal procedimento, Marcolino Pitombo inicia os debates:

- Esse moço está fazendo uma jogada que não deixa de ser inteligente. Está esperando que cheguemos a uma solução para intervir. Podem escrever o que estou dizendo.

Lápis em punho o robusto Bonaparte, convidado a secretariar a reunião e a estabelecer a acta dos trabalhos, prepara-se para anotar a intervenção numa folha de papel almaço, mas o causídico o impede:

- Não vale a pena colocar isso na acta, meu filho.

Bonaparte obedece. Apesar de contraditório – escreva o que estou dizendo, não coloque isso na acta – o velho é simpático e solta uns cobres. Os outros uns pães duros, uns canguinhas.

- Pergunto se, nesse caso, vale a pena tratar alguma coisa sem sua presença – prossegue doutor Marcolino, interessado em transferir a reunião para depois da volta do secretário da Prefeitura, após ter com ele conversado e obtido a precisa informação sobre o local exacto onde a Brastânio erguerá seus edifícios.

- Não vejo porque devemos ficar à sua mercê. Proponho que discutamos os problemas pendentes, sem esperar esse moço que me parece um leviano – declara doutor Baltazar Moreira do alto da papada, sorrindo, ora para dona Carlota ora para Modesto Pires.

- Esse rapaz é serventuário da justiça, oficial do registo civil. Como tem muito pouco que fazer, passa o dia no bar quando não fica em casa ouvindo essa barulheira que os moços de hoje chamam música. Não penso que ele vá aparecer. Mandei sondá-lo há dias a respeito dos terrenos, nem me respondeu. Não digo que seja mau rapaz, mas é um desses que não liga para nada – informa o dono do curtume.

- Então, comecemos – diz doutor Franklin para ganhar tempo – O senhor, doutor Baltazar, que pediu a reunião, abra a reunião dizendo o motivo que o levou a tomar essa iniciativa.

Doutor Baltazar Moreira tempera a garganta:

- Pois muito bem. Tendo me detido no estudo deste complexo assunto, cheguei à conclusão que se impõe um acordo entre as partes interessadas, ou seja, entre todos os pretensos herdeiros, os diversos descendentes de Manuel Bezerra Antunes, para que possamos ir juntos `justiça sem problemas, em disputas entre nós.

A ideia parece-me válida – apoia o doutor Galvão, a par da proposta e com ela de acordo desde a véspera, quando mantivera conversa reservada com Doutor Baltazar. Repete então os argumentos usados pelo colega: - Afinal por que os herdeiros, tendo se desinteressado por completo dos terrenos durante todos estes anos, voltam-se agora para a defesa dos seus interesses, para se integrarem na posse da herança? Porque existe um comprador valioso para essas
terras, como é do domínio público, a Brastânio. Não é isso?

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