sábado, setembro 22, 2012

IMAGEM
Pedra bolideira na aldeia de Monsanto


Claro que me lembro dos desenhos animados do Tom & Jerry. Eles apareciam quase sempre antes dos filmes que a minha mãe me levava a ver nas matinés do Eden, aos Restauradores, em Lisboa,na década de 40. Aquele simpático ratinho que fazia "picadinho" da cabeça do gato... quem o pode esquecer? Cada meninice tem os "seus" desenhos animados. Ainda bem que a minha teve estes..


Passou-se em GOIANA, cidade no interior de  Pernambuco.
 O Delegado registava a queixa de uma moça que dizia ter sido desflorada pelo namorado. Na ausência de médico na cidade,  pediu um laudo, por escrito, a uma parteira afamada da região para  anexar ao  processo.

Eis o laudo proferido pela profissional:
 

 - "Eu, Maria Francisca da Conceição, parteira oficial do destrito de Jenipapo, declaro para o bem do meu ofício que, examinando os baixos fudetórios de Maria das Mercedes, constatei manchas arrôxiadas na altura da crica, que para mim, ou foi supapo de rola ou solavanco de pica.
Por ser verdade e dou fé."


ENTREVISTA FICCIONADA
 CO JESUS Nº 70 SOBRE O TEMA: 
“COBRAR OS SACRAMENTOS”


RAQUEL -  Emissoras Latinas cobrindo a segunda vinda de Jesus Cristo à Terra. Nesta ocasião, afastamo-nos de um templo pentecostal e nos aproximamos de outro templo cristão... Como vê, Jesus Cristo, abundam as igrejas na terra onde o senhor viveu.

JESUS - Nesta também cobram o dízimo, Raquel?

RAQUEL - Não sei, acho que não, mas provavelmente cobram outras coisas. Um momento, Jesus Cristo, deixe ver o que está acontecendo… um casamento! Estão celebrando um casamento.

JESUS - Que bom. Sempre gostei de casamentos. Como vocês os celebram agora?

RAQUEL - Quer ver? Entremos nesse escritório e digamos que o senhor e eu queremos nos casar.

JESUS -  Sim, vamos.

RAQUEL - Atenção, nossa audiência a esta reportagem do melhor jornalismo de investigação. Quando o sacristão sair, o senhor diz que é o noivo. Fale o senhor, primeiro.

SACRISTÃO -  Em que posso ajudar?

JESUS - Sabe, amigo, esta moça e eu vamos nos casar e queremos saber o que é necessário…

SACRISTÃO -  Vocês têm todos os documentos em ordem, certidões de nascimento originais, exame médico pré-nupcial, documento de identidade, comprovante de residência?

JESUS -Temos.

SACRISTÃO -  Certidão de baptismo, certificado de crisma, cursinho de noivos, duas testemunhas?

RAQUEL - Temos tudo.

SACRISTÃO - Muito bem. Então, como querem se casar? Com missa ou sem missa? Com cantos ou só acompanhamento musical? Adorno floral completo ou só parcial? Trabalho fotográfico ou não? Temos diferentes ofertas e os preços variam muito. Quanto os senhores podem pagar?

JESUS - Nada. Não temos dinheiro. Temos amor. Não é mesmo, Raquel?

SACRISTÃO -  Mas o que é que vocês querem, hein?

RAQUEL - Nós queremos nos casar. Nada mais. Sem flores, sem altar, sem música. Que Deus bendiga nosso amor. Só isso.

SACRISTÃO -  Mas… isso não pode.

JESUS - Por que não pode, amigo?

SACRISTÃO -  Não me façam perder tempo. Aí fora estão as tarifas de casamento, baptizados, missas rezadas e cantadas, missas de defuntos, responsórios, primeiras comunhões, confirmações…

JESUS - E se não temos dinheiro, não nos casam?

SACRISTÃO - Mas quem vocês acham que são? Você, senhorita, parece decente. Mas seu noivo, não sei, parece hippie… ou rastafári… ou palestino da Intifada! Longe daqui!

RAQUEL - Ponto final a nossa investigação jornalística. Viu, Jesus Cristo? Aqueles com os dízimos e estes com as tarifas para cada sacramento.

JESUS -    E onde aprenderam estes maus costumes, hein? Porque eu disse claramente: dêm grátis o que grátis receberam.

RAQUEL -  Mas se os padres não cobram, do que viveriam, então?

JESUS - Que trabalhem, como todo mundo.

RAQUEL - Seus discípulos trabalhavam?

JESUS - Claro. Se não trabalhavam, não comiam. Nunca alguém cobrou por anunciar o Reino de Deus.

RAQUEL - Pois se eu não me engano, creio que foi o próprio apóstolo Paulo que o disse “quem prega o evangelho viva do evangelho”.

JESUS - Pois se não se enganaram os que me contaram, Paulo nunca cobrou nada, porque trabalhava com suas mãos, fazia tendas para pagar suas viagens.

RAQUEL - Então, o senhor é contra cobrar pelas missas e os sacramentos?

JESUS - Eu creio que quem faz isso não é pastor, é mercenário. Não serve às ovelhas, serve-se delas.

RAQUEL - E se são as próprias ovelhas são que contribuem voluntariamente e dão esmola à Igreja?

JESUS - É a Igreja que tem que dar a esmola, não recebê-la. Em nosso grupo, quem tinha um pouco mais, compartilhava com quem tinha menos. E sempre era suficiente.

RAQUEL - Então?

JESUS - Então, vamos embora daqui também, Raquel. Creio que não podemos nos casar!

RAQUEL -  Matrimónio frustrado. Investigação reveladora. De Jerusalém, Raquel Pérez, Emissoras Latinas.




GABRIELA
CRAVO
E
CANELA

Episódio Nº 199

Comprimiam-se na ponta do Unhão, sob o sol cada dia mais tórrido. Chegava-se ao fim da safra, o cacau secando nas barcaças e estufas, enchendo os armazéns das casas exportadoras, os porões dos pequenos navios da Baiana, da Costeira e do Lloyd.

Quando um deles saía ou entrava do porto, os rebocadores ou dragas afastavam-se da barra. Para logo voltar, os trabalhos progrediam rapidamente. Os escafandristas foram a grande sensação daquela temporada.

Gabriela explicava a D.ª Arminda e ao negrinho Tuísca:

 - Diz que no fundo do mar é mais lindo do que na terra. Tem de um tudo, só vendo. Morro mais grande que a Conquista, peixes de toda a cor, e pasto para eles pastar, jardim com flor, mais bonito que o jardim da Intendência. Tem pé de pau, plantação, até cidade vazia. Sem falar em vapor afundado.

O negrinho Tuísca duvidava:

 - Aqui só tem mesmo areia. E baraúna.

 - Tolo, falo do meio do mar, das profundas. Foi um moço que me contou, era estudante, vivia com os livros, sabia das coisas. Numa casa onde tive empregada, numa cidade. Contou cada coisa… – sorriu a lembrar.

 - Que coincidência! – Exclamou Dª. Arminda. – Sonhei com um moço batendo na porta de seu Nacib, com um leque na mão. Escondia a cara no leque. Perguntando por você.

 - T’esconjuro, Dª. Arminda! Até parece assombração.

Ilhéus inteiro vivia os trabalhos da barra. Além dos escafandristas, as máquinas instaladas nas dragas causavam admiração e espanto. A remover a areia, a rasgar o fundo da barra, a abrir e a ampliar canais.

Num ruído de terramoto, como se estivessem revolvendo a própria vida da cidade, modificando-a para sempre. Com a sua chegada já se modificara a correlação das forças políticas. O prestígio do coronel Ramiro Bastos, bastante abalado, ameaçou ruir sob aquele golpe colossal: dragas e rebocadores, escavadoras e engenheiros, escafandristas e técnicos.

Cada dentada das máquinas na areia, segundo o Capitão, significava dez votos a menos no coronel Ramiro. A luta política tornara-se mais aguda e áspera desde o crepúsculo em que os rebocadores haviam chegado, no dia do casamento de Nacib com Gabriela.

Aquela noite fora tumultuosa: os correligionários de Mundinho a cantar vitória, os de Ramiro Bastos a rosnar ameaças. No cabaré houve pancadaria. Dora Cu de Jambo levara um tiro na coxa quando Loirinho e os jagunços entraram atirando nas lâmpadas.

Se o que desejavam, como tudo indica, era surrar o engenheiro chefe, obrigá-lo a ir-se de Ihéus, fracassaram. Na confusão, o Capitão e Ribeirinho puderam retirar o avermelhado especialista, que, aliás, demonstrou gosto pelo barulho: arrebentara a cabeça de um adversário com uma garrafa de whisky. Segundo o próprio Loirinho contou, o plano fora mal organizado, de última hora.

No outro dia, o Diário de Ilhéus clamou dos céus: os antigos donos da terra, derrotados por antecedência, recorriam novamente aos processos de há vinte ou trinta anos passados.
(Click na imagem. Como é que ela suporta todo aquele peso, tão magrinha... e em bicos dos pés? A menos que faça parte do grupo de escafandristas que está a desassorear a barra de Ilhéus)

sexta-feira, setembro 21, 2012

IMAGEM
Esta imagem é um arrebatamento...


THE COMODORES - LIONEL RICHIE

Veja e ouça este lindo vídeo. Vai ver que lhe faz bem... na pior das hipóteses ficará um pouco nostálgico




Uma mulher vai ao seu ginecologista e comenta que o marido adquiriu uma forte inclinação para o sexo anal, e como não está segura que isso seja uma boa ideia, quer saber sobre os riscos que essa prática acarreta.
O ginecologista pergunta:
- A senhora gosta de fazer?
- Bem... Sim.
- Essa prática dá-lhe alguma irritação ou dor?
- Não...Não. Quase que não.
-Bom... - continua o ginecologista - Não vejo razão para que se prive de fazer sempre, mas claro que como de costume, deve tomar as devidas precauções para não ficar grávida.
A mulher dá um salto.
- Como? Eu julgava que o sexo anal não provocava uma gravidez.
- Claro que pode. Como julga que foram concebidos certos políticos?  Eles não foram paridos, eles foram cagados!.
  

PREVISÕES OU FUTUROLOGIA

A reboque dos tempos que correm, lembrei-me de vos falar do exercício da futurologia, mais prosaicamente, a adivinhação, numa linguagem mais moderna, previsões.

O difícil, aliciante e irresistível neste exercício é que as nossas previsões não traduzam, mesmo inconscientemente, os nossos desejos, correspondam aos nossos interesses materiais ou ideológicos, condicionando e enviesando o comportamento dos outros na tentativa de “driblar” o futuro.

Jesus Cristo, por exemplo, confundiu os seus desejos com a realidade futura e enganou-se. Acreditou no fim do mundo e na vinda do Reino de Deus… afirmou-o, prometeu-o. Por isso, ou por um simples e ingénuo desejo de justiça igualitária, alguns dos seus seguidores, os ricos, venderam tudo o que tinham, distribuíram os bens pelos pobres e ficaram em paz a aguardar o fim do mundo prometido pelo mestre.

Mesmo enganando-se nas previsões de fim do mundo, que não na sua mensagem de justiça e de amor, Jesus Cristo, terá sido o homem que mais influenciou os destinos de toda a humanidade. Falhou como futurologista, acertou em cheio com a mensagem.

Depois de Jesus Cristo, muitos outros têm previsto o fim do mundo (a mais apocalíptica das previsões…) e se continuarmos nesta senda corremos o risco de, com previsão ou sem ela, ele acabar mesmo, pelo menos tal como o conhecemos hoje.

 Na realidade, todos os dias o mundo acaba para os que morrem, para as espécies que desaparecem, para as paisagens que se alteram, mas isso já não é futurologia…

Governar é prever e, se olharmos para a história, ficamos alarmados com as consequências para a humanidade pelos erros cometidos no campo das previsões.

Ainda há poucos dias, João Cravinho, um dos responsáveis por obras de infra estruturas deste país, ao nível de pontes e auto estradas, construídas com o recurso às Parecerias Público Privadas (PPP), admitia que todas as previsões que serviram de base aos pressupostos que levaram à construção dessas obras com os encargos financeiros delas resultantes, estavam errados, falharam completamente.

Vamos ter que pagar pontes e auto estradas com escasso tráfego e ficámos, para além das dívidas, com o país rasgado, montes e vales separados, as aldeias isoladas, esquecidas e os automóveis nos stands à espera de futuros donos que tenham dinheiro ou crédito para os comprar, a eles, à gasolina e às portagens, tudo porque falharam as previsões para o futuro…

Menos perigoso, quase ingénuo ou inofensivo, é um outro exercício de futurologia que consiste em fazer previsões sobre aquilo que teria sido o presente se tivéssemos podido alterar o passado, história ainda mais complicada…

Por exemplo: como teria sido a vida dos portugueses se dois dos políticos mais influentes após a revolução dos Cravos, em 1974, Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, não tivessem morrido num estranho acidente de avioneta na noite fatídica de 4 de Dezembro de 1980?

Como estaríamos nós agora se não tivessem descoberto e posto em prática essa “engenharia” das PPP (Parcerias Público Privadas) que é uma maneira de hipotecar o futuro como se o mundo acabasse amanhã?

Mas nesta história do se… abre-se agora uma nova janela, aliciante, que nos permitirá regressar ao passado e alterá-lo criando um outro futuro mais ao nosso jeito, pelo menos diferente deste. E como?

 - Cavalgando um Neutrino.

 - Ah!, os meus amigos não sabem o que é um Neutrino? É uma partícula subatómica que os físicos europeus já afirmam ser mais rápida que a luz (o que diria Einstein…) o que, a ser verdade e em hipótese, permitir-nos-á viajar no tempo, regressar ao passado, andar para trás, “voltar lá…”, estão a perceber… 

Cavalgando um Neutrino, meteríamos os Drs. Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa num avião como deve ser e não aquele “cangalho desafinado e a cair de velho” ou então não teríamos permitido que um criminoso lhe colasse uma bomba antes dele levantar voo.

Teríamos, igualmente, impedido as PPP daquela maneira desenfreada que nos vão custar não sei quantos milhões, lá para 2017 (o que faz de Portugal o campeão europeu das PPP), etc… etc…”

É esta capacidade que a nossa espécie, Homo Sapiens Sapiens, tem e mais nenhuma outra possui: fazer voar a imaginação, sonhar através dela, recriar a realidade, construir só para nós uma outra onde seremos felizes para sempre… como nas histórias da nossa avózinha!

Numa entrevista com um físico japonês especialista nas Teorias de Einstein perguntaram-lhe:

 - Bem, e se pudermos viajar no tempo, regressar ao passado e alterá-lo como fica depois a realidade?

 - Ficarão duas realidades, a que estava continua e começa outra a partir dos factos alterados… respondeu ele.

Ou seja, digo eu, teríamos um Portugal sem Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, que já conhecemos, que o vivemos inclusivamente, e um outro resultante da continuação entre nós daqueles dois grandes políticos que começaria no exacto momento, 4 de Dezembro de 1980, em que interferíamos no passado impedindo-os de entrarem no calhambeque voador e assassino…

A confusão seria tanta que o preferível é mesmo o Neutrino aceitar a velocidade da luz estabelecida por Einstein como a velocidade máxima… e deixar à imaginação o que é da imaginação e à realidade o que é da realidade.



GABRIELA
CRAVO
E
CANELA

Episódio Nº 198


Mas tinha pedaços para rir, ria Gabriela, aplaudindo Tuísca. Uma vez por detrás, sopro de homem em seu cangote:

 - Que faz aqui, afilhada?

Seu Tonico, de pé, a seu lado.

 - Vim ver Tuísca…

 - Se Nacib descobre…

 - Sabe não… não quero que saiba. Seu Nacib é tão bom.

 - Deixe estar que eu não digo.

Tão depressa acabava, tão gostoso que era!

 - Vou lhe levar…

Na porta decidiu, era um finório o seu Tonico:

 - Vamos pelo Unhão, damos a volta no morro para não passar próximo do bar.

Andavam depressa. Mais adiante achavam os postes, a iluminação. Seu Tonico falava, a voz machucada, o mais bonito dos moços.

Das Candidaturas com Escafandristas

Espectáculo repetido durante meses, quase quotidianamente, nem por isso jamais se cansou o povo de admirar os escafandristas. Pareciam, assim vestidos de ferro e vidro, seres de outros planetas desembarcados na barra.

Mergulhavam nas águas, ali, onde o mar se unia com o rio. Nas primeiras vezes, a cidade em peso deslocou-se para a ponta do Unhão a ver mais de perto. Seguiam com exclamações todos os movimentos, a entrada na água, as bombas trabalhando, os redemoinhos, as bolhas de ar.

Caixeiros largavam os balcões, trabalhadores abandonavam os sacos de cacau, cozinheiras as cozinhas, costureiras a costura, Nacib o seu bar. Alguns alugavam botes, vinham rondar em torno dos rebocadores.

O engenheiro chefe, avermelhado e solteiro (Mundinho pedira ao ministro para mandar homem solteiro, para evitar confusões) gritava ordens.

D.ª Arminda assombrava-se ante as figuras monstruosas:

 - Inventam cada coisa! Quando eu contar ao finado, na sessão, ele é capaz de me chamar de mentirosa. Coitado, não viveu para ver.

 - Pensei que fosse mentira, fosse verdade não. Descer no fundo do mar… Acreditava não – confessava Gabriela.

( A beleza única de Sónia Braga para encarnar a Gabriela que veio directamente lá do sertão, fugida à fome, para os braços de seu Nacib, moço bonito...)

quinta-feira, setembro 20, 2012

ANGELA MERKEL

Depois deste elogio da Merkel à nossa Chouriça ainda restam dúvidas sobre a viabilidade de Portugal?

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Percebo o desafio que a natureza representa para os pintores...



- Joãozinho, o que é que o menino quer ser quando crescer?
- Quero ser bilionário, ir à boate mais cara, pegar a melhor puta, dar a ela uma Ferrari de mais de um milhão, um apartamento em Copacabana, uma Mansão em Paris, um Jacto para viajar pela Europa, um cartão Visa Infinito e amá-la 3 vezes ao dia…

...a professora, não sabendo realmente o que fazer com aquela resposta passou à frente e o continua a aula…

E a menina, Mariazinha?

- Professora, não tenho a menor dúvida, quero ser a puta do Joãozinho.


KOHAR WITH STARS OF ARMÉNIA
Espectáculo, um prazer para os ouvidos e para a vista...


ENTREVISTA FICCIONADA COM JESUS
 Nº 69 SOBRE O TEMA: “O DÍZIMO”

PREGADOR - Abre tua mão, irmão!...Não roubes a Deus!... Cumpre o mandamento e paga o dízimo, aleluia!

RAQUEL - Nossa unidade móvel está instalada às portas de um templo pentecostal no bairro cristão de Jerusalém. Está nos ouvindo, Jesus Cristo?

JESUS - Sim, Raquel, mas… o que o pregador está pedindo?

RAQUEL - Que os fiéis paguem o dízimo, tal como o senhor ensinou. Ou também não?

JESUS - Não, Raquel. Eu nunca falei de dízimos.

RAQUEL - O Senhor não ordenou a seus seguidores que dessem a décima parte de seus salários para manter a Igreja?

JESUS - Ao contrário, eu critiquei aos fariseus que pagavam até o dízimo do cominho, mas esqueciam o mandamento da justiça e do amor.

RAQUEL - O senhor mesmo não pagava o dízimo?

JESUS - E com o que ia pagar se eu não tinha como? Melhor se eu tivesse cobrado!

RAQUEL - Se o senhor não deu essa norma, de onde a tiraram tantas igrejas cristãs? A Bíblia não fala de dízimos?

JESUS - Sim, era uma lei para ajudar os levitas, que não tinham terras próprias e, sobretudo, para auxiliar aos forasteiros e as viúvas. O dízimo não era para enriquecer o Templo, mas para distribuí-lo entre os pobres.

RAQUEL - Pois acredito que alguns entenderam ao contrário. Temos uma ligação…

RAQUEL - Sim, alô?

GARY - Hy! Fala Gary Amirault, from Missouri, United States.

RAQUEL -  Legal! Pode falar, senhor Amirault…

GARY -Estou ouvindo seu programa. A senhorita jornalista, e o Senhor, Jesuschrist, querem saber de onde veio o costume de pagar para a Igreja a décima parte do que se ganha?

RAQUEL -  É o que estamos tratando de esclarecer.

GARY - Na igreja primitiva nunca se falou de dízimos. Nas primeiras comunidades punha-se tudo em comum para que ninguém passasse necessidade.

JESUS - Pergunte-lhe quando começou, então, esse mau costume de cobrar o dízimo.

RAQUEL -  Então, senhor Amirault, quando algumas igrejas evangélicas começaram a exigir o dízimo?

GARY -    Na realidade, não foram os mórmons nem os adventistas que começaram. Foi muito antes, no século sexto, quando os bispos e outros dignitários da Igreja Católica necessitavam de dinheiro, muito dinheiro, para cobrir seus luxos. Então, se lembraram dessa antiga lei de Moisés e a atribuíram a Jesus.

JESUS - A mim?

GARY - No ano 567, no Concílio de Tours, declararam o dízimo obrigatório e a excomunhão aos que não pagassem. Em alguns países como a França, a Igreja Católica cobrou este “imposto religioso” até há muito pouco tempo atrás, até a Revolução Francesa. Ficou mais claro, Jesuschrist?

JESUS - O que ficou claro pra mim é que estes foram mais sem-vergonhas do que os sacerdotes do meu tempo. Maus pastores que espoliam as ovelhas em vez de cuidar delas.

PASTOR - Vamos ver, irmãos… Não sei quem vocês são, mas os convido a nos acompanhar no culto.

JESUS - Não, obrigado. Porque eu não tenho um cobre para pagar o dízimo.

PASTOR - Não tem nadica de nada para oferecer para Deus?

JESUS - Deixe-me ver… Ah, sim, aqui tenho um par de moedinhas, como as daquela viúva que uma vez vi rezando no átrio do Templo.

PASTOR - Pois si quiser ir e oferecer suas moedas a Deus…

JESUS - Não, prefiro comprar uns doces àqueles meninos que estão vendendo na esquina. Vamos embora daqui, Raquel!

RAQUEL - Vamos, sim, antes que nos botem pra fora. Para Emissoras Latinas, Raquel Pérez, Jerusalém.


GABRIELA
CRAVO
E
CANELA

Episódio Nº 197

Coisa mais sem gosto ela nunca assistira. O grandão bebia água, ela começava a ter sede.

 - Tou com sede…

 - Psiu…

 - Quando é que acaba?

O tal doutor ia virando as folhas de papel. Demorava um tempão lendo cada uma. Se seu Nacib também não gostava, caía de sono, porque é que vinha? Que coisa mais esquisita, porque é que vinha, pagava entrada, largava o bar, no circo não ia? Entendia não… E se zangava, virava costas, porque ela pedia para não vir. Coisa esquisita.

Palmas e palmas, arrastar de cadeiras, todo o mundo andando para o tablado. Nacib a levou. Apertavam a mão do homem, diziam-lhe palavras de gabação!

 - Formidável! Maravilhoso! Que astro! Que talento!

Seu Nacib também:

 - Como gostei…

Não tinha gostado, estava mentindo, ela sabia quando ele gostava. Dormira um bocado, porquê gabação? Trocavam cumprimentos com os conhecidos. O Doutor, seu Josué, seu Ari, o Capitão não soltavam o homem. Tonico, com Dª Olga, tirava o chapéu, aproximava-se.

 - Boa noite, Nacib. Como vai Gabriela? – Dª Olga sorria. Seu Tonico todo circunspecto.

Esse seu Tonico, moço bonito a valer, o mais bonito de todos, era um finório. D.ª Olga presente, parecia um santo de Igreja. Mal saía Olga ficava todo meloso, derretido, encostava-se nela, chamava-a” beleza” soprava-lhe beijos.

Dera-lhe para andar na ladeira, parava na sua janela quando a via, de afilhada a tratava desde o casamento. Fora ele, dizia-lhe, quem convencera Nacib a casar. Trazia-lhe bombons, botava-lhe uns olhos, tomava-lhe a mão. Um moço bonito, bonito a valer.

A rua entupida de gente andando. Nacib apressado, o bar ia encher. Ela apressada por causa do circo. Ele nem a levou à porta, despediu-se no meio da ladeira deserta. Foi pela praia, seu Mundinho ia entrando em casa, ficou a mirá-la. Evitou o bar andando depressa, chegou ao porto.

Era um circo miúdo, quase sem luzes. Levava o dinheiro apertado na mão, não tinha quem vendesse entrada. Afastou o pano da porta, entrou. A segunda parte começara, mas não viu Tuísca. Sentou no galinheiro, prestou atenção. Aquilo é que era coisa de ver-se. E Tuísca chegou tão engraçado, vestido de escravo. Gabriela aplaudiu, não se conteve, gritou:

 - Tuísca!

O moleque nem ouviu. Era uma história triste de um palhaço infeliz, a mulher ruim o havia largado.
(Click nesta imagem da "juventude desnuda")

quarta-feira, setembro 19, 2012

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O Rossio em Lisboa, o coração da minha cidade... à noite, quando tem mais encanto.


Playing For Change

Nascido da inspiração de pôr o mundo em contacto através da música, os produtores de "Playing For Change" viajaram pelo globo para encontrarem músicos que compartilhassem objectivos comuns de paz e compreensão dos seus companheiros seres humanos. A música é uma linguagem universal que todos nós compartilhamos e que pode ser usada como ferramenta poderosa para nos unir.




A HIPOTENUSA


Um Quociente apaixonou-se
Doidamente
Por uma Incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.

Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.

"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode chamar-me Hipotenusa."

E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs
Primos-entre-si.

E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais.

Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.

Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar-se.
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.

E casaram-se e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até àquele dia
Em que tudo, afinal,
se torna monotonia.

Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.

Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
chamado amoroso.
E desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu a
Relatividade.
E tudo que era
espúrio passou a ser
Moralidade
Como aliás, em qualquer
Sociedade.



GABRIELA
CRAVO
E
CANELA

Episódio Nº 196


E por aí foi. Ele fala, a gente ouve. Gabriela ouvia. De quando em vez batiam palmas, ela também. Pensava no circo, devia ter começado. Felizmente sempre atrasava, pelo menos meia hora. Ela fora duas vezes ao Grande Circo Balcânico, com D.ª Arminda, antes do casamento.

Marcado para as oito horas, só se iniciava depois das oito e meia. Olhava o grande relógio como um armário no fundo da sala. Fazia um ruído alto, distraía. O Dr. Ezequiel falava bonito, ela nem distinguia as palavras, era um som redondo, embalador, dava sono.

Cortado pelo tiquetaque do relógio, os ponteiros andando. Muitas palmas atrapalharam-lhe o cochilo; perguntou a Nacib, animada:

 - Já acabou?

 - A apresentação. A conferência vai começar agora. O grandão de peito engomado levantava-se, era aplaudido. Tirou do bolso um horror de papel, estendeu em cima da mesa, alisou com a mão, pigarreou como o Dr. Ezequiel, só que mais forte, bebeu um gole de água. Uma voz de trovão abalou a sala.

 - Gentis senhoritas, flores dos canteiros desse florido jardim de Ilhéus. Virtuosas senhoras que saístes do recesso sagrado do vosso lar para ouvir-me e aplaudir-me.

 - Ilustres senhores, vós que haveis construído à beira do Atlântico essa civilização ilheense…

E por aí fora, parando para beber água, pigarreando, limpando o suor com o lenço. Nunca mais ia acabar. Tudo cheio de versos. Umas palavras trovejadas sobre a sala e a voz se adoçava, lá vinha verso.

 - «Lágrima de mãe sobre o cadáver do filho pequenino chamado ao céu pelo Todo-Poderoso, a lágrima mais sagrada» Ouvi: «Lágrima materna, lágrima…»

Com ele era mais difícil  madornar. Ela ia fechando os olhos na cadência do verso, desviando os olhos do relógio e o pensamento do circo e, de repente, acabavam as estrofes, a voz clamava, Gabriela estremecia, perguntava a Nacib:

 - Já vai acabar?

 - Psiu! – fazia ele.

 - Mas também ele sentia sono, Gabriela bem percebia. Apesar do ar atento, dos olhos fitos no doutor conferencista, apesar da força que fazia, de quando em vez, nos versos compridos, as pestanas de Nacib batiam, os olhos fechavam.

Acordava com as palmas, incorporava-se a elas, comentava para a esposa do Dr. Demóstenes a seu lado:

 - Que talento!

Gabriela via o ponteiro dos relógios, nove horas, nove e dez, nove e quinze. A primeira parte do circo devia estar próxima ao fim. Mesmo que tivesse começado às oito e meia, às nove e meia terminaria. É verdade que existia o intervalo, talvez ela chegasse a tempo de ver a segunda parte, onde Tuísca ia representar. Só que esse doutor não terminava nunca mais.

O russo Jacob dormia em sua cadeira. O Mister que sentara junto de uma porta, desaparecera há muito. Aqui não havia intervalo, era tudo de uma vez.
(Click na imagem de uma recordação das minhas férias em João Pessoa, o local mais oriental do Brasil e da América do Sul. Não esqueço as ostras fresquíssimas, apanhadas na noite anterior, que um "cara" trazia dentro de um balde e que vendia aos banhistas com sumo de limão... eram óptimas)


 ENTREVISTA FICCIONADA
COM JESUS Nº 68 SOBRE O TEMA:
“LOCAIS SAGRADOS”

RAQUEL - Na cobertura exclusiva da segunda vinda de Jesus Cristo à Terra, os nossos microfones junto ao famoso Muro das Lamentações, o único que continua em pé daquele grande Templo de Jerusalém, destruído pelo imperador romano Tito no ano 70. O senhor conheceu o Templo, não é mesmo, Jesus Cristo?

JESUS – Conheci-o em todo seu esplendor, Raquel. E veja o que é hoje, não ficou pedra sobre pedra. Um pedaço de muro...

RAQUEL -  O senhor vinha com frequência ao Templo?

JESUS - A última vez vim com um chicote. Os sacerdotes tinham-no convertido num covil de ladrões.

RAQUEL Preferia rezar em outros templos, talvez lugares de culto mais simples?

JESUS - Não, já lhe disse que para falar com Deus, eu ia ao monte, de noite, olhava as estrelas, a cara da Lua. Nunca gostei dos templos.

RAQUEL - Apesar disso, por todo o mundo, ergueram centenas, milhares de igrejas, catedrais, basílicas, santuários, oratórios, ermidas, capelas em seu nome...

JESUS - E você diz que tudo isso foi erguido em meu nome?

RAQUEL -  Com certeza. O senhor deve ter visto alguns por estas terras. São templos cristãos. Em sua honra e em honra de sua mãe Maria.

JESUS - Que péssima memória a desses pedreiros! No nosso movimento, nunca iríamos orar nos templos. E minha mãe rezava fazendo as lentilhas ou buscando água do poço.

RAQUEL - Mas os primeiros cristãos já teriam templos para celebrar a eucaristia. Ou não?

JESUS - Pelo que me contaram, não. Eles reuniam-se em suas casas. Não tinham templos. Nem altares.

RAQUEL -  Eles não tinham dinheiro para construí-los?

JESUS - Tinham fé de sobra para não construí-los. Vê, lembro uma vez que regressávamos à Galiléia e passamos por Samaria. Entre judeus e samaritanos, tu já sabes, sempre tinha briga. Tem que adorar a Deus no templo do Garizim, diziam eles Têm que adorá-lo no templo de Jerusalém, diziam Pedro, Tiago e os outros.

RAQUEL - E o senhor, como bom judeu, preferia em Jerusalém.

JESUS - Não, disse eu, nem aqui nem lá. Deus não vive em edifícios construídos pela mão do homem. Deus não cabe em igrejas nem em sinagogas. Eu dizia que tinha que rasgar o véu de todos os templos.

RAQUEL - Tenho que fazer uma pergunta que nossa audiência deve estar fazendo. O senhor sabe que o maior de todos os templos construído em seu nome é a basílica do Vaticano, em Roma, onde vive o Papa, sucessor de Pedro, o seu máximo representante?

JESUS - E como é esse templo? Maior que o que havia aqui em Jerusalém?

RAQUEL - Muitíssimo maior. Eu visitei-o. O templo que o senhor conheceu pareceria de brinquedo diante da Basílica de São Pedro. Dentro há estátuas, altares de ouro, jóias, museus, tesouros de valor incalculável, riquezas secretas…

JESUS - E tu disseste que esse é o templo de Pedro, do meu amigo de Cafarnaum, o pescador?

RAQUEL -  Assim o chamam. Basílica de São Pedro.

JESUS - Pois em nome do meu amigo Pedro, que não está aqui, gostaria de falar com esse que diz ser representante dele e meu.

RAQUEL - O senhor estaria disposto a um debate desse nível?

JESUS - Por que não? Nestes dias me inteirei de tantas coisas que creio que é urgente fazer umas perguntas a esse Papa.

RAQUEL - Emissoras Latinas promoverá essa entrevista. Será um furo jornalístico. Fique atenta a nossa audiência. Oportunamente os informaremos. E enquanto não chega esse momento, transmitiu Raquel Pérez, enviada especial em Jerusalém.
   

terça-feira, setembro 18, 2012

IMAGEM
Elevador da Lavra. O que seria dos lisboetas, os mais velhinhos, carregados de reumático, numa cidade com sete colinas não fossem os elevadores?  E, mesmo assim, ainda há quem se aventure e com filhos às costas... Este é o mais antigo de todos. Inaugurado em 1884 liga a Rua Câmara Pestana ao Largo da Anunciada. (Click na imagem 2 vezes)


Playng for Change

No More Trouble





Uma senhora de meia-idade teve um ataque de coração e foi parar ao hospital.
Na mesa de operações, quase às portas da morte, vê Deus e pergunta:
- Já está na minha altura?
Deus responde:
- Ainda não. Tens ainda mais 43 anos, 2 meses e 8 dias de vida.
Depois de recuperar, a senhora decide ficar no Hospital e fazer uma lipoaspiração, algumas cirurgias plásticas, um facelift,...
Como tinha ainda alguns anos de vida, achou que poderia ficar ainda bonita e gozar o resto dos seus dias.
Quando saiu do Hospital, ao atravessar a rua, foi atropelada por uma ambulância e morreu.
A senhora, furiosa, ao encontrar-se com Deus, pergunta-lhe:
- Então eu não tinha mais 40  anos de vida? Porque que é que não me desviastes do caminho da ambulância?
 Responde Deus:
- Eras tu?! Nem te reconheci!...


A Namoradinha Que Nunca Tive


Ver o comportamento dos jovens de hoje nas noites de 6ª F.ª constitui a forma mais chocante e violenta de me sentir velho, fora do tempo que passa ou numa terra estranha onde devo ter aterrado de pára-quedas no dia anterior e na qual não me reconheço.

Normalmente, a tendência das pessoas que chegam à fase da velhice - não percebo porque esta palavra mete medo a tanta gente e a trocaram por essa coisa da 3ª idade ou, pior ainda, por sénior - é o de recordarem os tempos de namoro da sua juventude como tendo sido os melhores deste mundo e eu compreendo isso muito bem porque sou da idade deles e as pessoas da mesma geração, naturalmente, compreendem-se melhor.

Mas do que, normalmente, eles não se dão contam é que esses elogios não têm a ver com os “tempos” mas antes com a juventude, a sua juventude, ela é que era boa, tão boa que até as coisas más de quando fomos jovens agora nos parecem boas.

Realmente, a juventude potencia a vida, os obstáculos não passam de desafios e os desgostos, sejam quais forem, esquecem-se e ultrapassam-se muito rapidamente porque, para isso, lá está a primavera da vida com as campainhas a tocarem por todo o lado chamando-nos ao dia seguinte que espera por nós…

Mas aquilo que nos foi feito pelos nossos pais e educadores, na década de quarenta e cinquenta, que coincidiu com a minha juventude, foi uma grande maldade só perdoável porque os meus avós, com eles, ainda fizeram pior.

A separação forçada a que os jovens de sexo diferente estavam sujeitos constituiu um atentado e uma violação não só aos direitos da minha juventude mas, ainda mais grave, à minha própria natureza e de todos os jovens da minha geração, em maior ou menor grau, vítimas dessa autentica crueldade.

Quando estudava no Colégio Nuno Álvares, em Tomar, bem poderia desejar ver, a caminho da Igreja para a Missa Dominical, nem que fosse ao longe, as minhas colegas do Feminino, também elas internas do Colégio num outro edifício. Mas em vão, porque não só as Missas eram a horas ligeiramente diferentes como os percursos eram igualmente diferentes.

Contactos de proximidade e intimidade só com as mulheres da vida que nos esperavam nas casas, ditas de “meninas”, algumas delas passajando roupa de vestir, quem sabe, as calças de algum filho que talvez tivesse a nossa idade ou até mesmo mais velho.

Essas insípidas experiências de sexo feito com uma mulher que tinha idade para ser nossa mãe constituíam atentados efectuados por nós próprios à nossa sensibilidade de jovens e eram sempre de muito má recordação.

Eram relações muito desiguais: de um lado, a mulher profissional, experiente, madura, por vezes maternal, do outro, a inexperiência, a juventude ainda feita meninice com um pouco de vergonha à mistura…e para quê?

O que um jovem necessita para o seu desenvolvimento saudável é o de se envolver num namoro com uma rapariga da sua simpatia e com ela sair, conviver e expressar-lhe os seus sentimentos na sequencia de um processo que, sabemos hoje, começa a desenvolver-se aos oito anos de idade e envolve circuitos de neurónios, hormonas e muitos outros químicos à mistura.

Há uns bons anos atrás, uma senhora pretensiosa, minha colega de trabalho em Moçambique, desabafou comigo, muito orgulhosa, porque tinha dado dinheiro ao filho, já rapazola, para ir às meninas. Pobre senhora, tinha as ideias todas baralhadas na cabeça…

Mas, voltando à minha juventude, eu não sabia nada, era apenas uma alma romântica, de resto, ninguém sabia nada, para além de que quase todas essas coisas eram pecado e a castidade é que era boa e fazia bem à saúde para além de agradar a Nosso Senhor.

 Antes do Colégio Nuno Álvares, em Tomar, tinha estado dois anos num Colégio de Jesuítas em Lisboa…

O meu colega José Augusto, que jogava futebol na equipa do Colégio e por isso era conhecido das meninas do Feminino que eram autorizadas a assistir aos jogos num sector das bancadas que lhes era reservado, devidamente acompanhadas e vigiadas, ficou interessado na irmã do Peixoto, talvez por cumplicidade com o irmão que era seu amigo, ou por um qualquer olhar mais penetrante da bancada para o campo ou do campo para a bancada, não se sabe… as setas do Cupido têm percursos muito caprichosos.

Fui então escolhido para redigir a carta do pedido de namoro o que aceitei com grande regozijo interior mas aparente indiferença sem que, no entanto, me tivesse feito demasiado caro não fosse ele desistir do pedido.

Com todas aquelas barreiras e obstáculos que existiam entre rapazes e raparigas, eu nem de vista conhecia a irmã do Peixoto mas, desde quando, um jovem romântico de dezasseis ou dezassete anos, precisa de conhecer uma rapariga para lhe escrever uma carta de amor?

Não faço nenhuma ideia se o José Augusto veio a casar com a irmã do Peixoto, se tiveram muitos meninos e hoje um rancho de netos mas, se tal não aconteceu, não foi por causa da carta que depois de ter conseguido chegar ao destino com a cumplicidade de outros jovens, foi lida pela destinatária que lhe respondeu logo, na volta do mensageiro, com os olhos ainda cheios de lágrimas de amor e paixão, conforme as suas próprias palavras.

Não está certo, não é justo, não foram os lindos olhos dele, foi a minha carta, foram as minhas palavras que desencadearam nela os sentimentos de amor e paixão… mas foi ele que ficou com a namorada e isto foi uma espécie de batotice.

Fosse a vida o Jogo da Glória, a pedra que me representa como jogador voltaria para trás, à casa do NAMORO, e recomeçar-se-ia novamente a lançar os dados.

AH!… dizem vocês, mas se assim fosse serias o último a chegar à META e eu respondo: quero lá saber, muito mais importante do que chegar primeiro à META é ficar na casa do NAMORO porque a volúpia de uma paixão aos dezassete anos de idade dá muito mais prazer do que cortar a porcaria da META e não duvidem de mim porque sei do que falo… ainda hoje morro de saudades pela namoradinha que nunca tive.

A vida é, em grande parte, um jogo, apenas as regras são diferentes consoante os locais e a época em que se vive e os factos descritos não os teria vivido se não estivéssemos então nos anos pouco gloriosos de 1954/55, completamente dominados por uma mentalidade de sacristia, bolorenta e doentia, que então predominava na nossa sociedade.

A separação contra natura dos sexos aconteceu nas nossas sociedades machistas e favoreceu escandalosamente os homens que, a propósito dessa separação, reservaram para as mulheres as tarefas discretas do lar e da família ficando eles com os privilégios dos trabalhos mais nobres.

De há muito que entre nós a situação se alterou, rapazes e raparigas convivem hoje lado a lado desde os bancos da escola até ao último grau da vida académica, vestem as mesmas fardas e participam nas mesmas guerras.

Hoje, são elas que dominam em todos os lugares da Administração Pública com excepção, ainda, dos pontos chaves do Poder Político e isto porque são mais trabalhadoras e perseverantes na linha de uma tradição evolutiva da nossa espécie em que o segredo do sucesso talvez tenha estado mais nelas do que em nós, homens.

... mas que raio de saudades eu tenho da namoradinha que nunca tive…

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