sábado, outubro 31, 2009


Quadrilha


João amava Teresa que amava Raimundo
Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
Que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou-se com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.


AUSÊNCIA


Por muito tempo achei que ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje, não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres,
Porque a ausência, essa ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drumon de Andrade

VÍDEO

POR QUE É QUE ELE NÃO FICOU ONDE ESTAVA?

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CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL - LOOKIN' OUT MY BACDOOR


CARLOS PAIÃO - PLAYBACK
Participou no Concurso da Eurovisão de 1981


CANÇÕES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS

MEU PRIMEIRO AMOR - Outra versão dedicada ao meu primeiro amor e ao primeiro amor de quantos acompanham a Tieta no Memórias Futuras.



TIETA DO
AGRESTE


EPISÓDIO Nº 273


DO BRINDE COM LICOR DE VIOLETAS



O que aumenta a depressão de dona Carmosina é o facto de todos pensarem nela quando tentam identificar o anónimo e informado correspondente, Aminthas vem lhe dar os parabéns:

- Prima, você é a maior. Como descobriu a trama?

Não descobrira nada, não lhe cabe mérito na denúncia, nem sequer soubera da passagem do professor Colombo pela cidade, está completamente por fora da jogada, acabrunhada. Além do abalo criado pela notícia – lá se foi por água abaixo o trunfo conquistado com o nobre gesto de Fidélio – viu-se posta à margem dos acontecimentos. Antes não se movia uma palha em Agreste sem seu conhecimento. Agora, era tomada de surpresa, um absurdo. Os olhos miúdos de dona Carolina fazem-se opacos.:

- Soube pelo jornal, como você. E dizer que ri na cara de Ascânio…Agora não tem mesmo jeito. Estou desmoralizada.

Murcho, arrasado, junta-se a eles o Comandante, larga em cima do balcão as folhas de papel com as assinaturas no memorial de protesto. Quem tem razão é Tieta: memorial e nada, a mesma coisa. O Comandante chega do cartório onde conversou com doutor Franklin e obteve a confirmação da notícia. Mesmo agindo em representação de herdeiro presuntivo, nada poderá fazer para impedir o acto de desapropriação por motivo de utilidade pública. Qualquer acção na justiça terá de ser posterior, de que adianta? Questão liquidada, a do coqueiral. Um clima de desolação se estende sobre a agência dos Correios. Apenas Aminthas não se deixa abater e, com seu jeito gozador, tenta levantar o ânimo dos amigos:

- O navio ainda não naufragou, Comandante! Cadê sua fibra, Carmô? Nunca vi ninguém entregar os pontos tão depressa. Apesar de que eu continuo a pensar que essa tal fábrica não se vai instalar aqui…

- Não vai? Trazem a Agreste um advogado da envergadura de Hélio Colombo, levam Ascânio à capital…

- …Pleibói matuto… - diverte-se Aminthas.

- … acertam os pauzinhos com ele, marcam a eleição e você ainda duvida da intenção deles?

- Concedo que existem razões para acreditar. De qualquer maneira, temos de agir como se fosse certo…

Muda repentinamente de assunto à aproximação de bisbilhoteiros vindos do bar e do comércio, interessados na conversa: Agreste anda de orelha em pé e a notícia da próxima desapropriação das terras despertou interesse incomum. Primeiro a chegar, Chalita, encosta-se na porta, esgravata os dentes:

- Bom dia, meus fidalgos.

- Bom dia, pachá dos pobres – Aminthas não se embaraça: - Como estava dizendo, na minha opinião os Beatles ainda não encontraram substitutos… Depois do almoço passo em sua casa, Carmô, levo o disco vocês vão ver que tenho razão. Até logo, Comandante.

Cruza na porta com Edmundo Ribeiro. O colector pergunta:

- Que me dizem da notícia? Será mesmo verdade? Pelo jeito, como as coisas marcham, daqui a dois anos ninguém vai conhecer Agreste.

Em casa de dona Carmosina, enquanto dona Milú serve doce de casca de laranja da terra, Aminthas assume posse de orador:

- Respondam-me os nobres correligionários: para poder decretar a desapropriação da área, Ascânio precisa de ser eleito, não é?

- A data da eleição já foi marcada.

- Sei disso, leio os jornais e ouço o falatório. Mas, ao que se saiba, o nosso Pleibói rural ainda não está
eleito.

sexta-feira, outubro 30, 2009


PENSAMENTO
DO DIA








" O Meu sonho, é ser pobre um dia, porque todos os dias é lixado!!!

VÍDEO

Férias na praia. Desta forma nunca fui...

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CARLOS PAIÃO - PÓ DE ARROZ


NEIL DIAMOND - WALK ON WATER

CANÇÕES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS

CARMEN SILVA - MEU PRIMEIRO AMOR
Um clássico da música sertaneja interpretada pela "garganta de ouro" do Brasil: Carmen Silva




TIETA DO
AGRESTE

EPISÓDIO Nº 272




DO MISTERIOSO CORRESPONDENTE



Como pudera suceder inconfidência de tal monta? Mestre Hélio Colombo não falara a ninguém a propósito da desapropriação, a não ser ao moço candidato. Ascânio Trindade, por sua vez, guardara absoluto sigilo acerca da conversa com o advogado. Não obstante, poucos dias depois, A Tarde publicava uma Correspondência de Agreste, relatando a estada do ilustre jurisconsulto, na qualidade de patrono da Brastânio. Referia-se à manhã no cartório, debruçado sobre livros e documentos, e ao encontro à tarde, no sobrado da Prefeitura, com Ascânio Trindade, quando ordenara ao candidato a prefeito desapropriar a imensa área, para revendê-la, no todo ou em parte, à companhia Brasileira de Titânio S. A., obtendo imediata aquiescência do obediente funcionário. A desapropriação por motivo de utilidade pública fora a solução encontrada pelo advogado para garantir ao seu constituinte a posse da área, diante da intransigência de alguns herdeiros, irredutíveis na posição de se absterem de qualquer negócio com a controvertida empresa, considerando que os eflúvios poluentes da indústria de titânio poderiam ocasionar irreparáveis danos à região. O correspondente usara o verbo ordenar e o adjectivo obediente. Os exemplares da gazeta passaram de mão em mão.

Jamais se tirou a limpo quem tivesse sido o misterioso correspondente. Doutor Hélio Colombo, recordando a curta visita a Agreste, a pavorosa travessia de ida e volta, o caminho de mulas, a poeira e a sede, a mesa farta, o sabor e o tamanho dos pitus, a cor doirada e o incomparável paladar da ambrósia, reflecte sobre as manhas e espertezas da gente do interior – caipiras, tabaréus. Parecem ingénuos e tolos, uns tabacudos. Vai-se ver, são uns finórios, enrolam os sabichões das metrópoles, na maciota. O mestre rememora a evidente curiosidade do tabelião, as perguntas capciosas durante o almoço. Pensava tê-lo engambelado. Volta a ouvir o ressonar do simpático gorducho, inexpressiva cara de lua cheia, o ar apalermado, semimorto na sala da
prefeitura, portador das certidões e da lata de doce de araçá. Pai e filho, que dupla!

quinta-feira, outubro 29, 2009

VÍDEO

Colar, sim, mas na posição certa...

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A VELHA QUE
SABIA TUDO...





No Tribunal de uma pequena cidade, o advogado de acusação chama a depôr a sua primeira testemunha, uma avózinha de idade avançada e pergunta-lhe:


- Dª Ermelinda, a senhora conhece-me?


- Claro que conheço, desde pequenino e, francamente, desiludiste-me. Mentes descaradamente a todo o mundo, enganas a tua mulher com a secretária, fizeste um filho à tua cunhada e deste-lhe dinheiro para ela tirar a barriga. Manipulas as pessoas e falas delas pelas costas, julgas que és uma grande personalidade quando não tens sequer inteligência suficiente para varredor.


- ... é claro que te conheço.



O advogado ficou branco, sem saber o que dizer. Depois de pensar um pouco, apontou para o extremo da sala e perguntou:


- Dª Ermelinda, conhece o advogado de defesa?


- Claro que sim, também o conheço desde pequenino. É frouxo, não tem tomates para manter a mulher na linha que anda a fornicar com os empregados da casa, o chofer e o jardineiro e até o carteiro dorme com ela, como todo o mundo sabe. Para além de que tem problemas com a bebida, não consegue ter uma relação normal com ninguém e, na qualidade de advogado, bem... é dos piores profissionais que conheço. Não posso também deixar de referir que engana a esposa com três mulheres diferentes e uma delas, curiosamente, é a tua.


- ... sim, também conheço muito bem.


O advogado de defesa ficou, naturalmente, em estado de choque.


Então, o juiz pediu para ambos os advogados se aproximarem do estrado e com uma voz muito ténue, disse-lhes:


- Se algum de vocês se atreve a perguntar à puta da velha se me conhece, juro-vos que vão todos presos.

NEIL DIAMOND - SUNDY SUN

CANÇÕES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS

CAUBY PEIXOTO - NINGUEM É DE NINGUEM
(Desculpem a qualidade da gravação mas a vontade de matar saudades desta canção e desta voz foi superior. Ao fim e ao cabo, a idade não perdoa...)



TIETA DO
AGRESTE

EPISÓDIO Nº 271


DE COMO A PAZ FOI PERTURBADA POR UM SANTO HOMEM


Com o engenheiro e Budião, Ricardo saíra de canoa a pescar. Tieta descansa na rede quando percebe ruídos de passos na areia. Ergue o busto, um forasteiro se aproxima. Sem nunca tê-lo encontrado, reconhece frei Timóteo, coberto por um chapéu de palha, sorridente. Tieta corre a enfiar um vestido em cima do maiô. Volta a tempo de pedir a bênção ao franciscano.

- Dona Antonieta Cantarelli? Todos falam da senhora, eu não quis ir embora sem conhecê-la. Muito prazer.

- Eu também desejava muito conhecer o senhor. Meu sobrinho Ricardo diz que o senhor é um santo.

- Santo? – ri, achando graça – sou um pobre pecador. Onde anda Ricardo? Não o tenho visto nos últimos dias.

- Estava em Agreste ajudando padre Mariano, mas já voltou. Foi pescar, não tarda.

- É um bom menino. Deus há de lhe indicar o caminho certo. Se a senhora permite, vou esperá-lo para me despedir. Minhas férias terminaram, amanhã estarei de novo em São Cristóvão.

- A casa é sua. Vou buscar uma cadeira.

O frade recusou a cadeira, senta-se ao lado de Tieta na balaustrada da varanda, ainda por cima, ainda ágil apesar dos cabelos brancos. Os olhos postos nos cômoros:

- São Cristóvão é uma cidade antiga, bonita, os homens que a construíram honraram o senhor…

- Não conheço mas já ouvi falar.

- Nada, porém, se pode comparar a Mangue Seco. Esta região é privilegiada, é bela demais, um dom de Deus aos homens. Sei que a senhora tem feito o que pode para impedir o crime que querem cometer, instalando aqui uma fábrica de dióxido de titânio.

Tieta sente-se enrubescer. Não merece elogios. O Comandante a reclamar a sua presença em Agreste e ela ali no bem – bom, a regalar-se com o sobrinho.

- Não fiz nada ou quase nada. O Comandante Dário vive me pedindo para ir a Agreste dar uma ajuda mas vou ficando por aqui, aproveitando esta maravilha enquanto posso. Carmosina me acusa de egoísta mas, me diga, frei Timóteo, de que adianta eu me tocar para Agreste, pedir ao povo que assine contra a fábrica, que proteste? A fábrica termina por se instalar da mesma maneira, não depende de mim, nem de Carmô, nem do Comandante. Não tenho razão?

- Acho que não, dona Tieta. Permita que a trate assim, não? Dificilmente os protestos do povo de Agreste, sozinhos, poderão impedir a instalação da fábrica, é certo, mas podem ajudar. De qualquer maneira devemos fazer tudo que esteja ao nosso alcance para impedir o crime sem perguntar se vamos obter sucesso ou não – Uma breve pausa antes de acrescentar: - A senhora, quando entrou na lancha com Jonas e os pescadores, não perguntou se valia pena.

Pegada de surpresa, Tieta tenta explicar:

- Lembrei meus tempos de menina levada, era doida por uma briga…

- Não estou julgando nem acusando, de que outra maneira poderão eles protestar? Mas a senhora tem muito como ajudar sem recorrer à violência. O povo de Agreste precisa ser esclarecido, uma palavra da senhora é capaz de convencer os indecisos. Deus nos confiou a guarda desses bens, nossa obrigação é defendê-los. Sem o que, estaremos sendo cúmplices dos criminosos: os índices de poluição dessa indústria são terríveis. Desculpe dona Antonieta eu falar assim mas pediu minha opinião…

Na infinita paz da tarde, a voz do frade, branda e fervorosa, o sorriso tímido e aliciador, perturbam Tieta. Não chega a responder – responder, o quê? – devido à aparição de Ricardo. Ao avistar o frade, o seminarista deixou o engenheiro para trás, surge correndo:

- Por aqui, frei Timóteo? Que surpresa!

- Vim me despedir, meu filho, e tive o prazer de conhecer e de conversar com dona Tieta. Regresso amanhã ao convento.

Carregando um samburá com peixe, o engenheiro se incorpora ao grupo:

- Também eu e Marta já estamos de malas arrumadas, temos apenas mais dois dias. Mangue Seco, agora, só para o ano, se para o ano já não tiver tudo podre por aqui. Quando penso nisso me dá uma revolta…

- Estávamos falando nesse assunto, dona Tieta e eu. Estão planejando um crime, um grande crime.

Ricardo acompanha o frade até à canoa. Frei Timóteo deita-lhe a bênção:

- Pessoas simpática, a sua tia. Sei quanto você a estima, vai sentir a sua falta. Quando ela for embora vá passar uns dias comigo, no convento.

Na cama, à noite, Tieta comenta a visita:

- Será que ele desconfia de nós os dois?

- Nunca deu a entender.

- Sabia da história das lanchas, me falou mas não repreendeu. Diabo de frade acabou com meu sossego.

- O quê?

- Com essa história que a gente tem obrigação a cumprir. Não quero sair daqui a não ser para a festa e o embarque…

Felipe costumava dizer que para se viver feliz era preciso antes de tudo abolir a consciência. Tu e os teus problemas de consciência, ainda te vais dar mal… prevenia ao sabê-la preocupada por causa de uma das meninas do Refúgio. Tieta prende Ricardo contra o peito, tentando
esquecer as palavras do frade, não percebe o vislumbre de esperança nos olhos do rapaz.

quarta-feira, outubro 28, 2009


A OSTRA E A
PÉROLA




Uma ostra que não foi ferida não produz pérola. As pérolas são produtos da dor que resultam da entrada de uma substância estranha ou indesejável no interior da ostra, como um parasita ou grão de areia. As pérolas são feridas curadas.

Na parte interna da concha é encontrada uma substância lustrosa chamada NÁCAR. Quando um grão de areia penetra na concha as células do Nácar começam a trabalhar e cobrem o grão de areia com camadas e mais camadas, para proteger o corpo indefeso da ostra.

Como resultado, uma linda pérola se vai formando. Ostra que não foi ferida, de algum modo, não produz pérola pois esta não é mais que “uma ferida cicatrizada”.

- Você já se sentiu ferido pelas palavras rudes de alguém?

- Já foi acusado de ter dito coisas que não disse?

- Suas ideias já foram rejeitadas ou mal interpretadas?

- Já sofreu os duros golpes do preconceito?

- Já recebeu o troco da indiferença?

Então, produza uma pérola!!!

Cubra as suas mágoas com várias camadas de amor… eu sei que é mais fácil cultivar ressentimentos, alimentar vários tipos de sentimentos pequenos que não deixam que a ferida cicatrize dentro de si.

Na prática, o que vemos são ostras vazias porque tendo sido feridas não souberam compreender e perdoar. Um sorriso, um olhar, um gesto, podem valer mais que muitas palavras.

Lembre-se disso!

CARLOS PAIÃO - CINDERELA
Carlos Paião, licenciado em medicina mas dedicado exclusivamente à música. Compositor prolífico, em 1978 já tinha escrito mais de duzentas canções, muitas delas grandes êxitos que iremos trazer ao Memórias Futuras. Faleceu num brutal acidente de automóvel em 1988, na EN1, Lisboa - Porto, a poucas dezenas de quilómetros aqui de Santarém. No dia anterior tinha ardido o Chiado, em Lisboa.



CANÇÕES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS

THE FEVERS - CÂNDIDA



TIETA DO
AGRESTE

EPISÒDIO Nº 270




ONDE A FORMOSA LEONORA CONHECE FINALMENTE OS ESCONSOS DO RIO



Leonora se dá conta, confusamente, dos sentimentos de Ascânio. Nas agruras da vida nunca tratou com homem parecido com ele e teme magoá-lo, desiludi-lo, perdê-lo. Intimida-se sem coragem para defender o tempo medido que lhe resta.

Primeiro, o rapaz a julgara moça donzela, casta filha de família, de esmerada educação, riquíssima, à espera de casamento condizente com sua situação social. Depois, Mãezinha, inventara aquela história do noivo calhorda, desmascarado antes de abiscoitar os cobres da milionária mas depois de lhe ter papado os tampos. Para converter em audácia o acanhamento de Ascânio, colocando a seu alcance paulista evoluída, sem preconceitos provincianos nem exaltado xodó, lírico e ardente, agradável passatempo de férias. Mãezinha a trouxera na viagem para curar – lhe o peito e o coração. No sertão irás respirar ar puro e apreciar o prazer de um amor romântico, desses que deixam a gente pejada de saudade. Sabes lá o que é trepar ouvindo versos? Só mesmo em Agreste, cabrita. Ar puro para os pulmões debilitados pela poluição da metrópole, sentimento para o coração crestado pela aridez e violência. Carga de saudade para as horas de solidão.

A trama de Mãezinha obtivera êxito apenas parcial. Ascânio continuou a imaginá-la ingénua filha de família, ainda mais digna e necessitada de respeito por enganada e sofrida. Enganada, sim, meu amor, sofrida por demais. Mas, ai! Não ingénua filha de família, digna de respeito. O segredo não lhe pertence, não pode abrir a boca e dizer: leva-me para a cama sem vacilar, nada te peço, nada mereço, sou mulher da vida, uma qualquer. Uma infeliz. Além dos fregueses, esses não contam, tive outros homens antes de ti, mas somente agora, aqui em Agreste, amei como se deve amar. Eu te amo, quero ser tua e quero que sejas meu. Por quanto tempo, não importa!

Não pode contar a verdade, contudo nada a impede de estender-lhe os braços e pedir: vamos até à beira do rio, derruba-me no escuro, na sombra dos chorões. Agarra teu bode pelos chifres, ensinara Mãezinha. No alto dos cômoros, Leonora seguira o conselho. Dera-se bem.

Palmilhando a calçada da Praça da Matriz, no recorrido habitual dos namorados, fugazes apertos de mão, de olhares ternos, beijos rápidos, vendo o tempo passar sem que Ascânio se atreva, mais uma noite ameaçada de ir para o brejo, Leonora vence o receio, supera a inibição e se decide:

- A gente nunca sai daqui, da Praça. Eu tinha vontade de ir à Bacia de Catarina. É um passeio tão bonito.

É bonito, sim, iremos um dia desses…

- Por que não vamos hoje?

- Não tem ninguém para nos fazer companhia.

- Companhia para quê? Quero ir contigo, nós dois.

- Sozinhos? – Acaricia-lhe a face – Agreste não é São Paulo, Nora. Amanhã teu nome estaria na boca do mundo.

Dando assunto por encerrado, Ascânio volta a discorrer sobre seus projectos de administrador e as perspectivas abertas para o município com a vinda da Brastânio. Leonora escuta desatenta, ouvindo ressoar ao longe a voz de Mãezinha: agarra teu bode pelos chifres, cabrita. Interrompe o passeio e o discurso:

- Tu me amas, Ascânio? De verdade?

- Duvidas? Eu…

- Então, porque foges de mim ou não te agradei?

- Fujo de ti? Não me agradaste? Não digas isso nunca mais. Eu te amo e não quero que falem mal de ti, entendes?

Leonora sorri e prossegue, mansa e firme:

- Entendo, sim, era o que eu pensava. Deixa que falem, não me importo, não tira pedaço – Toma-o pela mão: - me leva, amor, para a beira do rio. Lá onde tu quiseres, meu senhor.

Ascânio sente o suor escorrendo pelo corpo, pensamentos e sentimentos
se atropelam,
impossível ordená-los.


DISTRAÍDO


Aquele que na hora de se deitar:



- Beija o relógio;

- Dá corda ao gato;

- E enxota a mulher pela janela.

terça-feira, outubro 27, 2009

VÍDEOS

MOMENTOS ROMÂNTICOS...???

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CANÇÕES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS


NILTON CÉSAR - RECEBA AS FLORES QUE EU LHE DOU



TIETA DO
AGRESTE
EPISÓDIO Nº 269




DOS DIAS VENTUROSOS



Os dias que se seguiram ao frustrado domingo da inauguração do Curral do Bode Inácio, à aflita noite dos chifres sagrados, foram os mais felizes das férias de Tieta, dos mais felizes da sua vida.

Ao projectar a volta a Mangue Seco, sonhava reencontrar a beleza e a paz. Sortuda, obteve de lambugem devoradora paixão, insólita em sua farta colheita de xodós. Pela primeira vez deixou de ser sestrosa chiva requestada e conquistada, rendendo-se submissa ao apelo, à cobiça, à sedução do macho.

De súbito, restituída à paisagem da sua adolescência, cabra de pejado úbere, desejou com ânsia irreprimível, seduziu e conquistou cabrito apenas desmamado, derrubando-o nas dunas, violentando-o. Além da paz e da beleza, a timidez e a fúria do mancebo. Como se não bastasse, ainda por cima sobrinho e seminarista. Louca, absurda, incomparável aventura, disputando com Deus os preciosos minutos.

Dias de plenitude, de paixão decantada em amor único e imortal, quando a existência se faz inconcebível sem a presença do ser amado, seriam perfeitos se não estivessem a chegar ao fim. Ocorre a tentação de levar Ricardo para São Paulo. Sabe que não pode nem deve fazê-lo: mais cedo ou mais tarde a magia se romperá projectando no desejo a sombra do fastio e do tédio. Por isso mesmo, não admite perder nem um instante da ventura sem par desse amor enquanto imenso e eterno. Proibidas as idas a Agreste, suspensos os encargos do coroinha, as obrigações do levita do Templo, o seminarista despiu a batina, exibe-se quase nu na sunga de banho.

Tieta não cogita cumprir as promessas feitas a dona Carmosina e ao Comandante, disposta a permanecer em Mangue Seco até ao dia da festa da luz, véspera de embarque. Na festa se despedirá de todo o mundo, adeus minha gente, até outra vez, levo saudades, foi bom demais.

Não vê motivo para sacrificar-se. Nada pode fazer de válido para impedir a instalação da fábrica, sua presença em Agreste não passará de tempo e esforços perdidos, inúteis. Alegre e livre, vive dias incomparáveis, prosando com Pedro e Marta, com Jonas e os pescadores. Gemendo e rindo nos braços de Ricardo, no alto das dunas, na fímbria do mar, na rede, na cama, na areia, na espuma das ondas, no casco da canoa, de noite, de madrugada, ao cair da tarde, na barra da manhã. A lua crescente finca-se nos cômoros, entra pela janela do Curral.

Bom seria ficar para sempre, ali envelhecer e esperar a morte, sem preocupações nem compromissos. Por que há de abandonar o paraíso? Urge regressar a São Paulo, reassumir a direcção do Refúgio, ganhar dinheiro e empregá-lo bem. Ademais, dentro de muito pouco tempo, Mangue Seco será apenas triste e podre paisagem de cimento, fumaça e detritos. Melhor não pensar nisso, aproveitar enquanto ainda existem paz, beleza, amor.

A plenitude dura desde a manhã de segunda-feira, quando por fim Ricardo chegou e Tieta o recebeu com quadro pedras na mão:

- Se fez de propósito para aguar minha festa, conseguiu. Por que não ficou de vez?

- Mas a tia disse que não ia haver mais festa.

- Desde quando sou de novo tia? Estamos cercados de gente por acaso?

- Desculpe, mas nunca lhe vi tão zangada assim. Padre Mariano me prendeu por causa do inventário. O Cardeal…

- Quero que o Cardeal se vá estourar no inferno. Ele, o padre e toda e sua laia. A que horas terminou esse tal de inventário?

- Em cima da bênção.

- E por que você ficou por lá, não veio ontem mesmo?

- Quando a bênção acabou era de noite, não me ocorreu – o que lhe não ocorre é uma boa desculpa – comi, rezei o terço com a mãe, fui deitar. Sonhei… - levanta os olhos para Tieta: - … sonhei com você a noite inteira. Cada sonho!

Justamente por ele não ter dado uma desculpa, Tieta acreditou:

- Se me fizer outra dessas, você vai ver. De agora em diante tu não sais mais daqui nem pra mim nem pra porcaria nenhuma. Até eu ir embora, Deus se acabou – a voz se adoça: - Tu sonhou mesmo comigo?

- Sonhei com você mocinha, mais moça do que eu, antes de ir embora. Igualzinha como você me contou, igualzinha, sem tirar nem pôr, meninota – Não era por acaso verdade? Faltava a Maria Imaculada apenas o cajado de pastora.

- Me conte, cabrito, tintim por tintim.

segunda-feira, outubro 26, 2009

VÍDEOS

UMA IDÉIA MUITO ORIGINAL

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NEIL DIAMOND - SOOLAIMON

CANÇÔES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS

NILTON CÉSAR - ESPERA UM POUCO, UM POUQUINHO MAIS



TIETA DO
AGRESTE

EPISÓDIO Nº 268





AMOSTRA DAS CONSUMAÇÕES DE UM CANDIDATO A LÍDER E A MARIDO OU DO CARÁCTER SUJEITO A DURAS PROVAS



Jovem, saudável, potente, apaixonado. Apaixonado é pouco dizer: louco de amor e sabendo-se correspondido. Sem sombra de dúvida. Recebera prova indiscutível (e celestial) que outra não fora senão a maior de todas: a bem amada abrira as pernas para ele, entregara-se, sem nada pedir em troca. Sendo pobre e ela rica, jamais ousara falar em casamento, não fizera propostas nem promessas. Prova de infinito amor, o gesto de Leonora nos cômoros.

Galã principal da história aqui narrada, no gozo de invejável saúde, de potência sexual recentemente comprovada à tripa forra na capital do Estado, como explicar que esse jovem galhardo e varonil, ao ter à sua disposição, enleada e ardente, a mais desejada e inacessível das mulheres, a mulher da sua vida, não se aproveitasse, buscando inclusivé evitar (ou pelo menos adiar) a repetição da exaltante noite de amor? Onde já se viu contradição tão flagrante, absurdo igual? Quais as razões dessa demência? Será que realmente existe, nos cafundós de Judas, ou seja, em Agreste, bestalhão tamanho?

Desembarcando da lancha, no Domingo, Ascânio acompanhou Leonora até à porta da casa de Perpétua. Tomando-lhe as mãos, a ternura esparramada nos olhos e na voz, disse:

- Vou para casa, por hoje me despeço. Você precisa de descansar, quase não dormiu, está fatigada. Se me permite, amanhã, indo para a Prefeitura, passo para lhe dizer bom dia.

Permitirá quanto Ascânio peça e deseje – o ideal seria que a desejasse e possuísse naquela mesma noite, nos esconsos do rio. Não está assim tão cansada e, se estivesse, onde poderá repousar feliz, sem laivo de tristeza, senão nos braços dele? Cala, no entanto, novamente intimidada, à espera de que Ascânio tome a iniciativa, ouse e proponha. Aproveita, cabrita, faz tua reserva de saudade, o tempo é curto, recomendara Mãezinha. Envolta em preconceitos e escrúpulos, desperdiça-se a noite de Domingo.

Ele se aproxima para o beijo de despedida. Leonora atraca-se em seu pescoço, os seios túmidos. Os corpos se unem, as coxas se encontram, um calor cresce do beijo longo, desesperado, de lábios, línguas e dentes. Ascânio se desprende e foge rua afora, sob a fosca luz dos velhos postes.

Seus passos, em lugar de levá-lo a casa, conduzem-no à pensão de Zuleika Cinderela, onde, sorridente, Maria Imaculada o acolhe:

- Seu Ascânio…faz tempo que o espero…Que bom que veio. Tomando da menina, linda e trêfega, Ascânio não se tranquiliza, pois comprova que só o corpo de Leonora, nenhum outro, pode lhe dar aquela sensação de plenitude e torná-lo invencível, dono do mundo.

Para merecê-la outra vez, deve esperar. O gesto de Leonora, prova de infinito amor, fora igualmente prova de desmedida confiança. Pura e íntegra, nem mesmo a dolorosa experiência anterior a fizera duvidar dos sentimentos e do carácter do novo pretendente: colocara-se em suas mãos por considerá-las limpas, honradas. O desejo consome o moço apaixonado mas ele se controla, deve comportar-se à altura da confiança de Leonora.

Guarda no bolso um anel de compromisso. Assim dona Antonieta volte a Agreste, ele a procurará para conversa franca e decisiva: amo sua enteada e a quero para esposa. Sou pobre mas tornei-me ambicioso. Confie em mim, serei alguém. Noivo, o anel no dedo de Leonora, a data do casamento marcada, então, quem sabe… Antes, porém seria ignóbil abuso, comportamento vil.

Dona Antonieta negara-lhe o apoio na campanha pela instalação na Brastânio. Como reagirá ao pedido de casamento? Parece olhar o namoro com simpatia, talvez por julgá-lo inconsequente distracção de férias. Daí a casamento a distância é grande. Como agir se a omnipotente madrasta se opuser?

Ascânio não admite sequer o pensamento de não voltar a tê-la nos braços, rendido e vibrante, o corpo de Leonora. Agora que o tocara e conhecera, não pode viver mais sem possuí-lo. É necessário esperar, porém. Não é fácil ser um homem digno, custa esforço.

domingo, outubro 25, 2009

VÍDEOS

VEJAM NO QUE PODE DAR A MANIPULAÇÃO DAS IMAGENS...

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CANÇÕES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS

NILTON CÉSAR - FELICIDADE


CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL - HEY, TONIGHT



DUAS PROPOSTAS
INTELIGENTES




Nós sabemos que as sociedades em que vivemos são geridas por critérios economicistas mas vamos esquecê-los por momentos:

- 1ª Proposta:

- Quarenta e quatro milionários alemães iniciaram uma campanha para convencer a chanceler Merkel a aumentar a carga fiscal sobre os mais privilegiados.

Os membros deste grupo admitem ter mais dinheiro do que o necessário e afirmaram-se dispostos a contribuir com o excedente para financiar programas sociais e económicos que ajudem a recuperar a economia alemã. Se a proposta for aceite o estado alemão poderá embolsar em dois anos, cem mil milhões de euros.

- 2ª Proposta:

- Carvalho da Silva da CGTP, perante a recomendação do Governador do Banco de Portugal para a moderação dos salários no próximo ano à volta de 1%, sugere a redução drástica dos prémios dos gestores das empresas de forma a permitir aumentar o salário mínimo de 10%.

Para além de inteligentes, ambas as propostas são justas do ponto de vista humano e vantajosas no aspecto social.


Está visto, que por muito dinheiro que uma pessoa tenha a qualidade da sua vida não pode continuar a aumentar em paralelo com o aumento da sua fortuna. Os excedentes acumulam-se sob a forma de entesouramento ou são canalizados para investimento directamente ou por intermédias pessoas com o risco que isso representa.

Ora, uma pessoa depois de ser muito rica deseja, principalmente, saúde e poder viver em paz, segurança e tranquilidade social. Sem estes condicionalismos não poderá desfrutar, em plenitude, a sua riqueza.

Ceder o dinheiro ao estado significa, em primeiro lugar, uma prova de confiança na instituição e nas pessoas que governam e isto é, indubitavelmente, bom.

Contribuir para melhorar a situação e a qualidade vida dos compatriotas, especialmente dos mais necessitados, teria como resultado alcançar um melhor clima social com mais harmonia e tranquilidade o que, naturalmente, aproveitaria a todos, os mais ricos incluídos.


A proposta do líder da CGTP, Carvalho da Silva, refere um aspecto sensível, nevrálgico e muito discutível que são os altos prémios que os gestores auferem estabelecidos por eles próprios nos estatutos das empresas que gerem com a cumplicidade dos governos e accionistas.

Diz Carvalho da Silva que uma redução drástica desses prémios permitiria economizar dinheiro suficiente para aumentar de 10% o salário mínimo nacional.

As contas não estarão feitas, a sugestão será mais um desabafo mas pergunta-se: com que legitimidade trabalhadores, não obstante as responsabilidades das funções que exercem, ganhando ordenados que no nosso país são mais elevados do que na média europeia, beneficiando de regalias e mordomias de toda a espécie que correspondem a outros tantos ordenados, se permitem ainda estabelecer prémios chorudos a si próprios, às vezes, mesmo, em situações deficitárias das suas empresas?

Supondo que a sugestão de Carvalho da Silva era possível e exequível, apenas no campo das suposições, não só os trabalhadores de mais baixos salários teriam o maior aumento de sempre como também o consumo sofreria um forte impulso o que seria bom para as empresas e para o estado. O clima social ficaria desassombrado e os trabalhadores sentiriam que, pela 1ª vez, alguém tinha pensado neles a sério e esse sentimento seria bem mais importante que os menos de cinquenta euros a mais no salário ao fim do mês.

Por isso considerei que ambas as propostas, aparentemente, “chocantes” ou "demagogicas" eram inteligentes.

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