sábado, janeiro 02, 2010

IMAGEM
PASSAGEM DE ANO NA PRAIA DE COPACABANA

VÍDEO

Orquestra Chinesa. O que elas fazem para divulgarem a música.

video

THE TEMPTATIONS - THE WAY YOU DO THE THINGS YOU DO


DONNA SUMMER - SHE WORKS HARD FOR THE MONEY



DONA
FLOR

E SEUS
DOIS

MARIDOS

EPISÓDIO Nº 9



Prova ainda mais impressionante do prestígio de Vadinho foi o Zé Sampaio ter comparecido à sentinela. Por breves minutos, é verdade, mas era aquele o primeiro velório do comerciante nos últimos dez anos. Tinha horror a todo e qualquer compromisso social, sobretudo a cerimónias fúnebres, velórios, cemitérios, missas do sétimo dia, o que levava dona Norma a gritar-lhe quando ele se recusava a acompanhá-la a um dos seus vários enterros semanais.

- Quando você morrer, Sampaio, não vai ter gente nem para carregar o caixão… vai ser uma vergonha.

Zé Sampaio punha-lhe um olhar torvo, não respondia, o dedo grande da mão direita entre os dentes, num gesto seu, habitual, de resignação ante o perpétuo alvoroço da esposa.

Compareceram os importantes, como Celestino e Zé Sampaio, como o parente Chimbo, o arquitecto Chaves, o dr. Barreiros, proeminente figura da Justiça, e o poeta Godofredo Filho. Chegaram incorporados os colegas da repartição, a todos eles Vadinho devia pequenas quantias. A comandá-los, oratório e solene, veio o ilustre Director dos Parques e Jardins, trajando terno preto. Vieram os vizinhos, os ricos e os pobres, os remediados também. E vieram todos quantos na Bahia frequentavam os casinos de jogo, os cabarés, as bancas do bicho, as alegres casas de mulheres: Mirandão, Curvelo, Pé de Jegue, Valdomiro Lins e seu jovem irmão Wilson, Anacreon, Cardoso Peroba, Arigof, Pierre Verger com seu perfil de pássaro e seus mistérios de Ifá. Alguns, como o doutor Giovanni Guimarães, médico e jornalista, pertenciam aos dois grupos, familiares dos grandes e dos pequenos, dos respeitáveis e dos irresponsáveis.

Os importantes recordaram Vadinho entre risos, suas histórias cheias de picardia e de malícia, seus golpes divertidos, suas trampolinagens atrevidas, suas atrapalhações e confusões, e seu bom coração, sua gentileza, sua graça inconsequente. Também os vizinhos assim o relembravam: boémio sem horários e sem limites. Uns e outros ampliavam a realidade, inventavam-lhe detalhes, atribuíam-lhe casos e aventuras, a lenda de Vadinho começava a nascer ali, junto do seu corpo, quase mesmo na hora da sua morte. O citado doutor Giovanni Guimarães imaginava pedaços inteiros de histórias, floreava os acontecidos, era chegado a uma mentirazinha bem apoiada em datas e locais precisos:

- Um dia, há quatro anos passados, no mês de Março encontrei Vadinho na casa de Três Duques, jogando no 17. Estava vestido com uma capa de borracha, por baixo não tinha roupa nenhuma, nuzinho. Botara tudo no prego, empenhara calça e paletó, camisa e cueca, para poder jogar.

Ramiro, aquele espanhol canguinha de Setenta e Sete, só queria aceitar a calça e o paletó, que diabo iria fazer com uma camisa de colarinho puído, uma velha cueca, uma gravata vagabunda? Mas Vadinho lhe impingiu até o par de meias, guardou apenas os sapatos. E tinha tanto mel na língua que conseguiu que Ramiro, aquela fera que vocês conhecem, lhe emprestasse uma capa de borracha quase nova pois não ia sair nu, rua afora, em direcção à casa de Três Duques…

- E ganhou? – queria saber o jovem Arthur, filho de seu Sampaio e de dona Norma, ginasiano e admirador de Vadinho, a ouvir boquiaberto o relato do jornalista.

Doutor Giovanni olhou o moço, fez uma pausa sorriu com o rosto todo:

- Qual quê… pela madrugada perdeu a capa do espanhol no 17 e foi trazido para casa nas folhas de um jornal… - o sorriso transformava-se num riso sonoro, contagioso, ninguém igual a Dr. Giovanni para animar uma sentinela.

E como naquele momento entrasse na sala o inumerável Robato, o jornalista acrescentou a prova final, as palavras ainda molhadas de riso:

- Está aí quem não me deixa mentir…Você ainda se lembra, Robato, daquela noite em que Vadinho foi nu para casa, enrolado no jornal?

Robato não era homem de vacilar: circundou o olhar em torno examinando o grupo acomodado num canto da sala de jantar; temeroso de ouvidos femininos e indiscretos, não fossem chegar à desolada viúva tais recordações; mas vacilar não vacilou, não era de recusar desafios, tinha o repente fácil, pegou a deixa no ar:

- Nu, enrolado num jornal? Ora, se me recordo… - pigarreou para aclarar a voz barroca e desatar a imaginação. – Pois se a gazeta era minha…Foi no castelo de Eunice Um Dente Só; além de nós dois e de Vadinho, me lembro de Carlinhos Mascarenhas, de Jener e de Viriato Tanajura…A gente tinha bebido a noite inteira, uma pifa sem medida…

sexta-feira, janeiro 01, 2010

JEAN GABIN - JE SAIS


VICTOR ESPADINHA - RECORDAR È VIVER





D. José
Policarpo

e o
Ricardo
dos
“Gatos Fedorentos”


Ricardo Araújo Pereira ficou sentido com D. José Policarpo porque na homilia da missa de Natal ele saudou os católicos, judeus e todos os que acreditam num Deus único, mas não se lembrou de saudar igualmente o Ricardo ou melhor, ignorou-o ostensivamente, o que é muito pior, a ele e a todos os que não acreditam num Deus único ou em Deus nenhum.

Vá lá que desta vez não os atacou, como aconteceu em data anterior, quando afirmou que o ateísmo, ou os ateus, não há aquele sem estes, constituíam o maior drama da humanidade, pior que a fome e a guerra.

D. José Policarpo não manifestou espírito cristão capaz de uma palavra de saudação para com todos os homens e mulheres que com ele partilham o planeta e são bons cidadãos cumpridores das leis, independentemente de possuirem ou não convicções religiosas

Em vez disso, comportou-se como um vulgar e faccioso “comerciante” de um “produto” para quem todos os que não sejam seus clientes, pura e simplesmente constituem um perigo e uma ameaça (para o negócio e, obviamente, para si) a menos que sejam clientes do mesmo “produto” mas de uma “marca” diferente, apenas para não hostilizar o “mercado”.

Ricardo responde, na Revista Visão, num artigo de Opinião de indiscutível qualidade que a seguir transcrevemos.

Pela minha parte, que há muito não acredito em Deus ou em deuses, (por razões óbvias...para mim) dirijo, ao Sr. Cardeal, D. José de Policarpo, nesta época, uma palavra de fraterna saudação.

E agora vamos ao texto do Ricardo:


Paz e Amor Para Todos Menos Para
Mim

O Natal é tempo de paz, tempo de amor, tempo de lamentar a existência de pessoas como eu. Não admira que seja uma época que toda a gente aprecia.

No dia que assinala o nascimento do salvador, o cardeal-patriarca não resistiu a lembrar que há quem não tenha salvação possível. Acaba por ser uma observação animadora. Se alguma coisa pode transtornar quem mereceu um lugar no paraíso é o facto de haver fila para entrar. Pois bem, eu serei menos um a obstruir os portões do céu; na homilia da missa de 25 de Dezembro, D. José de Policarpo saudou os judeus, e todos os que acreditam num Deus único – mas, ostensivamente, não me saudou a mim, que sou ateu.

Os judeus acreditam tanto como eu que o menino cujo aniversário se celebrava é o filho de Deus. No entanto, receberam uma saudação. Para mim, nem um caridoso aceno de cabeça.

O ateísmo tem sido, para mim e para tantos outros incréus, a luz que me tem conduzido na vida. Às vezes fraquejo, em momentos de obscuridade e de dúvida, mas mesmo sendo incapaz de provar a inexistência de Deus, tenho conseguido manter a fé – uma fé íntima fundada numa peregrinação que tem a grandeza e a humildade da longa caminhada da vida – em que ele não exista.

Todos os dias busco a não-existência do Senhor com renovada crença, ciente de que a Sua inexistência é misteriosa demais para que eu a tenha inventado.

É certo que o mesmo D. José Policarpo já havia dito que o ateísmo era o maior drama da humanidade – acima da fome, da guerra e do próprio “time sharing”. Fê-lo, porém em data menos misericordiosa. Sonegar saudações no Natal é particularmente cruel.

O anátema mais duro é o que é lançado no tempo do perdão. Estou habituado a receber anátemas e garanto aos menos experientes que os anátemas natalícios são os que aleijam mais. Em todo o caso, no fundo, eu sei bem que não sou digno de ser saudado. Acreditar que Deus existe é uma convicção profunda, mas acreditar que não existe, curiosamente, não o é.

Alguém, munido de um aparelho próprio, mediu a profundidade das convicções e deliberou que as do crente são mais fundas do que as do ateu. Quando alguém diz acreditar em Deus, está a exprimir legitimamente a sua fé; quando um ateu ousa afirmar que não acredita, está a agredir as convicções dos crentes.

Ser crente é merecedor de respeito, ser ateu é um crime contra a humanidade.

Ainda assim esperava ter sido saudado.

Eu não acredito em Cristo mas sempre acreditei nos cristãos.

É a primeira vez que vejo um deles recusar ao menos uma saudação a um pecador.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

TOM JONES - SEX BOMB


AS MENINAS - XIBOM BOMBOM



DONA
FLOR

E SEUS
DOIS

MARIDOS

EPISÓDIO Nº 8




Vadinho tinha lábia, que lábia! Certa vez arrancara a assinatura do próspero lusitano numa promissória de alguns contos de réis. Não esqueceu de pagar, pois jamais esquecia as datas de vencimento dos diversos títulos por ele firmados e espalhados em bancos e em mãos de agiotas. Não pôde pagar, o que era diferente. Em geral nunca podia pagar, e não pagava; no entanto a cada dia o número dos títulos aumentava, aumentava o número de avalistas. Como ele o conseguia?

Celestino não voltara a avalizar, não caía duas vezes no mesmo conto. Soltava-lhe, no entanto, pelegas de cem, duzentos e até de quinhentos mil-réis, quando Vadinho lhe aparecia desesperado, sem tostão e com a certeza de ser aquele o seu dia de estourar a banca. Outros, porém, avalizavam duas e três vezes, como se fosse Vadinho o pagador mais correcto, o de melhor cadastro bancário. Todos vencidos por suas manhas, sua conversa dramática e convincente.

O próprio Zé Sampaio, marido de dona Norma, estabelecido com loja de sapatos na cidade baixa, sujeito de conversa rara, casmurrão, pouco dado a visitas, a relações e a intimidades com os vizinhos, o oposto da esposa, ele próprio fora enrolado por Vadinho algumas vezes e, apesar disso, não lhe retirara nem a estima nem o crédito na loja.

Nem mesmo quando descobriu a inacreditável sujeira: Vadinho, certa manhã, comprara fiado no seu estabelecimento vários pares de sapatos, os mais finos e caros, e imediatamente os revendera quase sob as vistas horrorizadas dos empregados de Sampaio, e por preço ínfimo a uma loja rival recém instalada nas imediações. A dinheiro batido – tratava-se de um Vadinho necessitado de urgente numerário para jogar no bicho.

O comerciante levou certamente em conta, ao pesar as responsabilidades do trapaceiro, determinadas atenuantes capazes de explicar e atenuar o deslize.

Um Vadinho alegre e despreocupado, naquela mesma tarde, contou-lhe ter sonhado durante toda a noite com dona Gisa transformada em avestruz, a persegui-lo numa campina sem fim, não sabia exactamente se na intenção de vadiar com ele nos pastos verdes – era um avestruz fêmea e em seus olhos brilhava uma luz velhaca – ou se pretendia devorá-lo a bicadas, pois o perseguia com o enorme bico aberto e ameaçador. Acordava agoniado, sacudia o sonho fora, tentava dormir pensando em assunto mais ameno, e lá voltava a renitente professora a correr atrás dele com o olho libertino e o bico agressivo.

Estivesse dona Gisa em seu quotidiano invólucro carnal e Vadinho não fugiria, enfrentaria a parada, emprenharia o diabo da gringa em cima dos matos com todo o seu assento e conhecimentos de psicologia. Mas com ela vestida de penas, virada num avestruz descomunal, não lhe restava alternativa, além da vergonhosa retirada. Quatro, cinco vezes repetiu-se o pesadelo, e de manhã cansado de tanto correr, banhado em suor, viu-se Vadinho com o palpite mais certeiro e sem tostão. Vasculhou a casa, dona Flor estava lisa, ele levara-lhe na véspera até as moedas. Saiu na esperança de morder uns conhecidos, a praça revelou-se fraquíssima, Vadinho andara abusando ultimamente do seu parco crédito. Foi quando, ao passar ante a Casa Stela, a bem sortida loja de Zé Sampaio, ocorreu-lhe a ideia luminosa e divertida de dedicar-se por breve prazo ao honesto negócio de sapataria, única maneira de obter rapidamente uns trocados.

Não houvesse empreendido operação comercial, desonesta e desastrada na aparência, em verdade subtil e lucrativa, e jamais se perdoaria, pois deu o avestruz – dona Gisa não mentia nem em sonhos – e Vadinho cobrou um dinheiro alto.

Agradecido e digno, procurou em seguida Zé Sampaio na loja e ante os empregados atónitos, pagou-lhe o valor da mercadoria comprada pela manhã, comentou a rir o golpe primoroso e o convidou para um trago comemorativo. Zé Sampaio declinou do convite mas não se zangou com Vadinho, continuou a dar-se com ele e a vender-lhe sapatos com desconto e a prazo. Abatimento de dez por cento no valor da compra, crédito limitado a um par de sapatos em cada compra e só
após ter sido liquidada a anterior.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

GRANDES MÚSICAS...GRANDES INTERPRETAÇÕES ...


VÍDEO

MICROONDAS


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TONY ORLANDO - CÂNDIDA

PAULO RIBEIRO - QUEM EU QUERO NÃO ME QUER


DONA FLOR
E SEUS DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 7




O corpo de Vadinho foi depositado no caixão, levado para a sala de visitas onde haviam improvisado um estrado com cadeiras.
Seu Vivaldo trouxera flores, contribuição gratuita da funerária. Dona Gisa arrumou uma saudade roxa entre os dedos cruzados de Vadinho.
Seu Vivaldo considerou para si mesmo o absurdo do gesto: deviam colocar entre os dedos do morto uma ficha de jogo, isso sim. Uma ficha em vez da saudade roxa, e se em lugar da música e dos risos de Carnaval se elevassem por ali perto o ruído das mesas de roleta, a voz roufenha do crupiê, o soar das fichas, as nervosas exclamações dos jogadores, era bem possível ver-se Vadinho levantar-se do caixão, sacudir dos ombros sua morte, como sacudia, num gesto característico, as complicações a perseguirem-no, e encaminhar-se para depositar sua ficha no 17, seu número predilecto. Que poderia ele fazer com uma saudade roxa? Logo estaria murcha e fanada, nenhuma roleta a aceitaria.

Seu Vivaldo não se demorou; carnavalesco obstinado, só abrira a funerária naquele domingo de festa para atender a um amigo como Vadinho. Fosse outro o defunto, e se arranjasse como pudesse, não iria ele Vivaldo, perturbar seu Carnaval.

Muitos perturbaram seus projectos de Carnaval. Foi um desfilar de gente noite adentro, na sentinela do boémio. Alguns vieram por ser Vadinho descendente de ramo pobre e bastardo de uma família importante, os Guimarães.

Um dos seus avoengos fora senador estadual e mandachuva na política. Um tio seu, de apelido Chimbo, ocupara o posto de Delegado Auxiliar durante uns poucos meses. Esse tio, um dos raros Guimarães a reconhecer Vadinho como parente legítimo, foi quem lhe arranjou o emprego na Prefeitura: fiscal de jardins, lugar dos mais modestos, ordenado mísero, não dava para uma noite gorda no Tabaris. Não é necessário ressaltar a completa negligência do jovem funcionário municipal: jamais fiscalizara jardim de nenhuma espécie, só aparecia na repartição para receber os magros caraminguás mensais. Ou para tentar o aval impossível do chefe, para morder os colegas em vinte ou cinquenta mil réis. Os jardins não lhe interessavam, não tinha tempo a perder com plantas e flores, podiam desaparecer todos os jardins da cidade, não lhe fariam falta. Ave nocturna, seus canteiros eram as mesas de jogo, e suas flores, como bem considerava seu Vivaldo as fichas e os baralhos.

Os que vieram por influência do nome dos Guimarães podiam-se contar nos dedos, vagos e apressados parentes. Todos os demais, aquele desfilar sem conta, vinham para despedir-se de Vadinho, para ficar mais uma vez sua face, sorrir para ele numa recordação agradável, dizer-lhe adeus. Porque gostavam dele, desculpavam-lhe as loucuras, valorizavam seu lado bom.

Um dos primeiros a chegar á noite, vestido a rigor, pois iria mais tarde levar as filhas, três moças de truz, ao baile de um grande clube, foi o comendador Celestino, português de nascimento, banqueiro e exportador. Não passara às carreiras, como quem cumpre fastidiosa obrigação. Demorara-se na sala, a conversar, recordando sucessos de Vadinho, após ter abraçado dona Flor e ter-lhe oferecido seus préstimos. De onde
vinha sua estima pelo pequeno funcionário da Prefeitura, pelo boémio dos cabarés de segunda, pelo jogador sempre encalacrado?

terça-feira, dezembro 29, 2009


MIA COUTO


"OS SETE SAPATOS SUJOS"


Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei “Sete Sapatos Sujos” que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos.
Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico:

Primeiro Sapato: A idéia de que os culpados são sempre os outros.


Segundo Sapato: A idéia de que o sucesso não nasce do trabalho.


Terceiro Sapato: O preconceito de que quem critica é um inimigo.


Quarto Sapato: A idéia de que mudar as palavras muda a realidade.


Quinto Sapato: A vergonha de ser pobre e o culto das aparências.


Sexto Sapato: A passividade perante a injustiça.


Sétimo Sapato: A ideia de que, para sermos modernos, temos que imitar os outros.


Mia Couto - Escritor moçambicano, também licenciado em Medicina e Biologia, num excerto da Oração de Sapiência que produziu no dia 7 de Março de 2005, na abertura do Ano Lectivo do Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique.

VÍDEO

BASKET ACROBÁTICO

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AGNALDO TIMÓTEO - OS BRUTOS TAMBÉM AMAM

BÁRBARA JARDIM - NINGUÉM É DE NINGUÉM


DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 6

O corpo fora levado do Largo para o necrotério, mas nem assim ela teve um momento de sossego. De repente tornara-se o centro da vida não só da sua rua mas de todas as artérias adjacentes, e isso num domingo de Carnaval. Até o trazerem de volta, embrulhado num lençol, o traje de baiana numa pequena trouxa colorida, dona Flor não parou de receber pêsames, provas de amizade, gentilezas, numa contínua romaria de vizinhos, conhecidos e amigos. Dona Norma e dona Gisa, essas abandonaram inteiramente os afazeres das suas casas, já um tanto descuidados devido ao Carnaval, almoços e jantares entregues aos cuidados das amas apressadas. Não despregaram as duas de junto de dona Flor, cada qual mais dedicada e consoladora.

Lá fora era o Carnaval com seus mascarados, seus blocos e ranchos, suas fantasias ricas e divertidas. As músicas das multiplicadas orquestras, os Zé-pereiras, os zabumbas, os blocos, os ranchos, afoxés com seus tamboris e atabaques. De quando em vez, dona Norma, não resistia e corria até à janela, debruçava-se, arriscava um olho, trocava facécias com um mascarado conhecido, transmitia a notícia da morte de Vadinho, aplaudia uma fantasia original ou um bloco bonito. Por vezes chamava dona Gisa, se um rancho particularmente animado surgia na esquina. E quando o Afoxé dos Filhos do Mar, já na parte da tarde, deu entrada na rua, com sua figuração inesquecível, acompanhado por grande multidão a sambar, até dona Flor, as lágrimas mal contidas, aproximou-se da janela e espiou o afoxé tão anunciado nos jornais, a maior beleza do Carnaval baiano. Espiou mas sem se mostrar, escondida pelas largas espáduas de dona Gisa. Dona Norma, esquecida do morto e das conveniências, batia palmas entusiásticas.

Assim fora o dia inteiro, desde a hora da notícia. Até dona Nancy, argentina retraída, nova na rua, casada com o dono da fábrica de cerâmica, um arrevesado Bernabó, desceu do seu sobrado rico e de sua soberba, para oferecer condolências e préstimos a dona Flor, revelando-se pessoa simpática e educada e trocando com dona Gisa filosóficas considerações sobre a brevidade da vida e sua segurança.

Não tivera dona Flor, como se vê, tempo para reflectir no seu novo estado e nas transformações de sua existência. Só quando trouxeram Vadinho do necrotério e o deixaram nu no leito do casal, onde tantas e tantas vezes tinham feito amor, então, e somente então, encontrou-se sozinha com a morte do marido e se sentiu viúva. Jamais voltaria ele a derrubá-la na cama de ferro, arrancando-lhe vestido e combinação, e as peças mais íntimas, atirando com o lençol para cima da penteadeira, tomando de cada detalhe de seu corpo, fazendo-a delirar.

Ah! nunca mais, pensou dona Flor, e sentiu um nó na garganta, um tremor nas pernas, compreendeu, então, que tudo terminara. Ficou ali parada, sem palavras e sem lágrimas, despida de qualquer excitação, distante de toda a representação a cercar a morte. Apenas ela e o cadáver nu, ela, e a definitiva ausência de Vadinho. Não ia ter de esperá-lo mais madrugada afora, nem de esconder de suas vistas o dinheiro pago pelas alunas, nem de vigiar as suas relações com as mais bonitas, nem de apanhar dela nos dias de cachaça e mau humor, nem de ouvir os ácidos comentários dos vizinhos. Nem de rolar com ele na cama, abrindo-se toda para o seu desejo, despindo-se da roupa, do lençol e do recato para a festa do amor, a inesquecível festa. O nó na garganta, estrangulando; uma dor no peito, aguda punhalada.

- Flor, não está na hora de vestir ele? A voz de dona Norma ressoava urgente no quarto, vinda da sala – Não tarda chegar visitas…

A viúva abriu a porta; agora estava séria, calada, sem soluços sem gemidos, fria e austera. Sozinha no mundo. Os vizinhos entraram para ajudar. Seu Vivaldo, da funerária Paraíso em Flor, viera pessoalmente entregar o caixão barato – fizera considerável abatimento, era companheiro de Vadinho nas mesas de roleta e bacará onde jogava ataúdes e lápides – e colaborou com eficácia e experiência para fazer do boémio um morto apresentável. Dona Flor a tudo assistiu sem uma palavra, sem uma lágrima, estava sozinha no mundo.

segunda-feira, dezembro 28, 2009







JESUS É
DE DIREITA OU DE
ESQUERDA?


A Revista VISÃO interroga, no seu último número, várias personalidades da nossa vida política acerca da opinião que têm sobre esta interessante questão.

De acordo com o discurso que teria sido proferido por Jesus (ou por quem lhe escreveu o guião, caso não tinha sido ele) e chegou até nós, ele foi, certamente, um dos maiores inovadores da ética que a história conheceu. O Sermão da Montanha é muito avançado para o seu tempo e o seu “dar a outra face” adiantou-se a Gandhi e Martin Luther King em 2.000 anos ( Richard Dawkins).

A sua tolerância face à mulher adúltera: “Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra” indicia uma política fracturante de costumes bem mais aberta do que a seguida, até hoje, pelas diversas igrejas que lhe reclamam a herança.

“É impossível a um rico entrar no Reino do Céu”. “Em verdade vos digo que dificilmente um rico entrará no reino do céu”. Repito-vos: “ É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no reino do céu”.

Se estas afirmações não constituem uma condenação directa, pelo menos aos homens ricos do seu tempo, não deixam quaisquer dúvidas que “os ricos não pertencem à fraternidade com que Jesus quer construir na terra o reino dos céus” na opinião de Joaquim Carreira das Neves e colocam-no num posicionamento ideológico de esquerda, de acordo com os conceitos de esquerda/direita dos dias de hoje.

O Novo Testamento é a principal fonte da vida e dos ensinamentos de Jesus e terá sido escrito pelos seus discípulos, chamados “evangelistas”, entre os anos 60 e 100 da era cristã. Embora Jesus tenha falado em aramaico, uma língua com alfabeto próprio ainda em uso, na sua versão moderna, na Arménia e em certas partes da Síria, o Novo Testamento chegou até nós em grego, que era a língua franca da época.

Centenas de escritos produzidos depois do Século I não integram os quatro Evangelhos (esta palavra vem do grego e significa: “boas mensagens ou boas novas”) do Novo Testamento: Mateus, Marcos, Lucas e João, e ficaram a constituir os Evangelhos Apócrifos que estão na base de muitas celeumas entre historiadores, linguistas e hermeneutas (pessoas especializadas em interpretar textos escritos).

Aliás, várias religiões cristãs têm cânones diferentes aceitando uns e recusando outros.

Joaquim Carreira das Neves, 75 anos, padre franciscano, especialista em Estudos do Próximo Oriente e profundo conhecedor das circunstâncias históricas contemporâneas dos escritos do Novo Testamento afirma:

- “Se vivesse hoje, Jesus era de esquerda, porque andava com os desclassificados e marginalizados. Jesus tinha muito apreço pelos que eram mais descriminados e andava sempre ao lado dos mais desfavorecidos”.

Richard Dawkins, prémio Nobel, ateísta militante, acima referido e cujas entrevistas temos aqui passado neste blog, é um grande admirador de Jesus tendo mesmo escrito um artigo intitulado. “Ateus por Jesus”.

Na sua opinião, a superioridade moral de Jesus confirma precisamente que a ética das Escrituras em que foi educado não o satisfazia. Afastou-se explicitamente delas, por exemplo quando desvalorizou os avisos severos quanto a desrespeitar o “sabat”: “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”.

José Manuel Pureza, especialista em Estudos da Paz, docente de Relações Internacionais na Universidade de Coimbra, afirma:

- “Cristo foi um revolucionário, um blasfemo. Morreu assassinado, não morreu nem de velho nem doente – foi morto pelo poder político e religioso da época”.

Parece, pois, que se aceitarmos como boa a dicotomia entre “transformação” e “conservação”, para separar a esquerda da direita, então, não há dúvidas sobre onde colocar Jesus:

- “Pôs-se sempre do lado da transformação – isso é, para mim, suficiente para dizer que de direita ele não seria”, conclui o professor.

VÍDEO

Casting para dança... e que casting!

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ROBERTO LIVI - DE ESTA AGUA NO HE DE BEBER


FAUSTO - PARABÉNS



DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS

EPISÓDIO Nº 5


Era domingo de Carnaval, quem não tinha naquela noite corso de automóveis a fazer, festa onde divertir-se, programa para a madrugada? Pois bem: com tudo isso o velório de Vadinho foi um sucesso. “Um autêntico sucesso” como orgulhosamente constatou e proclamou dona Norma.

Os homens do rabecão largaram o corpo em cima da cama, no quarto de dormir, só depois os vizinhos o transportaram para a sala. Os tipos do necrotério estavam apressados, seu trabalho aumentava com o Carnaval. Enquanto os demais se divertiam, eles lidavam com defuntos, com as vítimas de desastres e de brigas. Arrancaram o lençol imundo a embrulhar o cadáver, entregaram o laudo à viúva.

Vadinho ficou nu como Deus o pôs no mundo, em cima da cama de casal, uma cama de ferro com cabeceira e pé trabalhados, comprada em segunda mão por dona Flor, num leilão de móveis, quando do casamento, seis anos antes.

Dona Flor, sozinha no quarto, abriu o envelope, estudou o parecer dos médicos. Balançou a cabeça incrédula. Quem diria? Aparentemente tão forte e são, tão moço ainda!

Gabava-se Vadinho de jamais ter estado doente e de atravessar oito noites e oito dias sem dormir, jogando e bebendo ou na farra com mulheres. E por vezes não passava realmente oito dias sem aparecer em casa, deixando dona Flor em desespero, como maluca? No entanto ali estava o laudo dos doutores da Faculdade: era um homem condenado, fígado imprestável, rins estrompados, coração aos pandarecos. Podia morrer a qualquer momento, como morrera. Assim, de repente. A cachaça, as noites nos casinos, a esbórnia, a correria doida à cata de dinheiro para o jogo haviam arruinado aquele organismo belo e forte, deixando-lhe apenas a aparência. Sim, porque olhando-o apenas pelo lado de fora, quem o julgaria tão implacavelmente liquidado?

Dona Flor contemplou o corpo do marido antes de chamar os prestimosos e impacientes vizinhos para a delicada tarefa de vesti-lo. Lá estava ele, nu como gostava de ficar na cama, uma penugem dourada a cobrir-lhe braços e pernas, mata de pêlos loiros no peito, a cicatriz da navalhada no ombro esquerdo. Tão belo e másculo, tão sábio no prazer! Mais uma vez as lágrimas assomaram ao rosto da jovem viúva. Tentou não pensar no que estava pensando, não era coisa para dia de velório.

Ao vê-lo assim, porém, largado sobre o leito, inteiramente nu, não podia dona Flor, por mais esforço que fizesse, deixar de recordá-lo como era na hora do desejo desatado: Vadinho não tolerava peça de roupa sobre os corpos, nem pudibundo lençol a cobri-los, o pudor não era o seu forte. Quando a chamava para a cama, dizia-lhe: “vamos vadiar, minha filha”; era o amor, para ele, como uma festa de infinita alegria, à qual se entregava com aquele seu reconhecido entusiasmo aliado a uma competência proclamada por múltiplas mulheres, de diferente condição e classe. Nos primeiros tempos do casamento dona Flor ficava toda encabuladas e sem jeito, pois ela a exigia nuinha por inteiro:

- Onde já se viu vadiar de camisola? Por que tu te esconde? A vadiação é coisa santa, foi inventada por Deus no paraíso, tu não sabe?

Não só a despia toda, como, achando pouco, tocava e brincava com os detalhes do seu corpo de curvas largas e reentrâncias profundas onde cruzavam-se sombra e luz num jogo de mistérios. Dona Flor tentava cobrir-se, Vadinho arrancava o lençol entre risos, expunha-lhe os seios rijos, a formosa bunda, o ventre quase despido de pêlos. Tomava dela como de um brinquedo, um brinquedo ou um fechado botão de rosa que ele fazia desabrochar em cada noite de prazer. Doa Flor ia perdendo a timidez, entregando-se àquela festa lasciva, crescendo em violência, tornando-se amante animosa e audaz. Nunca, porém, abandonou por completo a pudicícia e a vergonha; era necessário reconquistá-la cada vez, pois, apenas desperta dessas loucas audácias e dos ais de desmaio, voltava a ser tímida e pudorosa esposa.

Naquela hora, a sós com a morte de Vadinho, deu-se conta dona Flor, então e completamente, de sua viuvez, que nunca mais o teria, nem em seus braços voltaria a desmaiar. Porque desde o momento do trágico boato transmitido de boca em boca, até à chegada do rabecão, no fim da tarde, vivera a professora de culinária uma espécie de sonho mau e ao mesmo tempo um tanto excitante: o impacto da notícia, a caminhada em prantos até ao Largo Dois de Julho, o encontro com o corpo, a multidão a rodeá-la, a cuidar dela, a oferecer-lhe solidariedade e conforto, a volta para casa quase carregada por dona Norma e dona Gisa, pelo professor Epaminondas e por Mendez, o espanhol do botequim. Tudo tão rápido e
confuso, não lhe deixara tempo para pensar e realizar por completo a morte de Vadinho.

domingo, dezembro 27, 2009

AMOR A PORTUGAL
(PAISAGENS DE PORTUGAL)



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RICHARD DAWKINS - ENTREVISTA CBS NEWS (LEGENDADO)


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DONA FLOR
E SEUS DOIS
MARIDOS

EPISÓDIO Nº4



Diante de tão súbita morte, dona Gisa não pensava em Vadinho senão com saudade: era-lhe simpático, apesar de tudo; possuía um lado gentil e cativante.

Nem por isso, no entanto, nem por ele encontrar-se ali, no Largo Dois de Julho, morto, estendido na rua, vestido de baiana, iria ela de repente santificá-lo, torcer a realidade, inventar outro Vadinho feito de um só pedaço. Assim explicou a dona Norma, sua vizinha e íntima, mas não obteve da parceira o esperado apoio.

Dona Norma dissera muitas vezes as últimas de Vadinho, brigava com ele, pregava-lhe sermões monumentais, chegara um dia a ameaçá-lo com a polícia.

Naquela hora derradeira e aflita, porém, não desejava comentar as predominantes e desagradáveis facetas do finado, queria apenas gabar os seus lados bons, sua gentileza natural, sua solidariedade sempre pronta a manifestar-se, sua lealdade para com os amigos, sua indiscutível generosidade (sobretudo se a praticava com o dinheiro alheio), sua irresponsável e infinita alegria de viver. Aliás, tão ocupada em acompanhar e socorrer dona Flor, nem tinha ouvidos para dona Gisa com sua dura verdade.

Dona Gisa era assim: a verdade acima de tudo, por vezes a ponto de fazê-la parecer áspera e inflexível; talvez numa atitude de defesa contra a sua boa fé, pois era crédula ao absurdo e confiava em todo o mundo. Não, não relembrava os malfeitos de Vadinho para criticá-lo ou condená-lo, gostava dele e com frequência perdiam-se os dois em longas prosas, dona Gisa interessada em aprender a psicologia do submundo onde Vadinho se movimentava, ele a contar-lhe casos e a espiar-lhe no decote do vestido o nascer dos seios pujantes e sardentos. Talvez dona Gisa o entendesse melhor que dona Norma, mas, ao contrário da outra, não lhe descontava sequer um defeito, não ia mentir só porque ele morrera. Nem a si própria dona Gisa mentia, a não ser quando isso se fazia indispensável. E não era o caso, evidentemente.

Dona Flor atravessava o povo no rasto de dona Norma a abrir caminho com os cotovelos e com sua extrema popularidade:

- Vai, arreda mina gente, deixa a pobre passar…

Lá estava Vadinho no chão de paralelepípedos, a boca sorrindo, todo branco e loiro, todo cheio de paz e inocência.

Dona Flor ficou um instante parada, a contemplá-lo como se demorasse a reconhecer o marido ou talvez, mais provavelmente, a aceitar o facto, agora indiscutível, de sua morte.

Mas foi só um instante. Com um berro arrancado do fundo das entranhas, atirou-se sobre Vadinho, agarrou-se ao corpo imóvel, a beijar-lhe os cabelos, o rosto pintado de carmim, os olhos
abertos, o atrevido bigode, a boca morta, para sempre morta.

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