sábado, março 28, 2009

Se Tem Dúvidas Sobre a Resistência dos 747 aos Raios das Trovoadas Veja Este Vídeo

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JOE DASSIN - ÇA VAS PAS CHANGER LE MONDE

ELVIS PRESLEY - I NEED LOVE TONIGHT

JÚLIO IGLÉSIAS - NATALIE

CALAFÂO - CANÇÃO POPULAR AÇOTRIANA (sem direito a legendas)



Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 84



O PROGRESSO CHEGA AOS CAFUNDÔS DE JUDAS OU A JOANA D’ARC DO SERTÃO


DA PRIMEIRA APARIÇÃO DOS SUPER-HERÓIS INTERROMPENDO PECAMINOSA E AGRADÁVEL PRÁTICA NA HORA CÁLIDA DO MORMAÇO



A primeira aparição de seres de outro planeta, dos super heróis, no território do Agreste, deu-se num começo de tarde, na hora do mormaço quando ninguém perturba a paz dos habitantes.

No comércio aberto por força do hábito, para cumprir o horário – das oito às doze – só nos armazéns de Plínio Xavier há certo movimento, aliás suspeito. Duas ou três vezes por semana, na mesma hora vazia de fregueses, o comerciante de secos e molhados, cidadão respeitável, casado e pai, escondido por detrás dos fardos de carne seca, ocupa-se em meter as mãos sob a saia da solteirona Cinira, tocando-lhe as partes com as pontas dos dedos. Voltada para as prateleiras, ela faz como se não visse nem sentisse mas abre as pernas para facilitar. Plínio Xavier também age em silêncio, o suor pinga-lhe do rosto. De repente Cinira respira fundo, estremece, leva a mão onde sabe estar fora das calças a ansiada arma, aperta-a forte e sai escarreirada e furtiva.

Naquele dia, quase ao chegar ao suspiro e ao estremeção, um abominável, sinistro ruído ecoou na rua, interrompendo bruscamente a deleitosa prática.

Ao ver-se em fuga na calçada, Cinira não pode conter o terror e sufocar o grito: a máquina desconhecida e monstruosa vinha sobre ela, rugindo, imensas rodas afundando o chão. Lançava ao ar negra fumaça pestilenta através dos canos e orifícios e de súbito lancinantes sons, jamais ali ouvidos.

Fechando o último botão da braguilha, Plínio Xavier chegou à porta a tempo de observar o estrambótico veículo passando em frente do armazém, conduzindo no bojo os indescritíveis seres, ao parecer macho e fêmea, se bem não se diferenciassem muito um do outro nos atributos e nos trajes espaciais, idênticos.

Dias antes, haviam circulado rumores, trazidos de Mangue Seco, onde os pescadores afirmavam ter visto objecto não identificado, faiscante contra o sol, vindo do mar e nele desaparecendo após haver sobrevoado a praia e o coqueiral. Nem por isso o burgo estava preparado e a comoção foi imensa.

sexta-feira, março 27, 2009

(clique sobre a imagem)

A GRANDE E SAUDOSA IVONE SILVA

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MATT MONRO - THE IMPOSSIBL DREAM



ROBERTO CARLOS - CAMA E MESA


DIANA ROSS - I LOVE YOU BABY



Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 83


Nos problemas de álgebra, nas páginas impressas, saltavam inteiros os seios entrevistos pela metade no decote do penhoar; os fios de pêlo apontados pelo irmão na fresta do biquini alongavam-se rio a dentro, atando pulsos e tornozelos trazendo-o de retorno às pedras onde ela descansava, descontraída, as pernas abertas, inocente de tanta cobiça e ousadia. Até mesmo durante o sagrado sacrifício da missa, a fumaça do turíbulo ao evolar-se traçava a curva e o balouço da bunda, redonda, solta, morena, percebida sob a curva da camisola.

Labutara nas noites inquietas, a adivinhar devassidões quando se esforçava por enxergar no sonho castas imagens, vidas santas, alegrias puras. Antes de perder-se por completo ali, em Mangue Seco, esteve à beira do pecado todas as noites, ora adormecido, ora acordado, e se jamais o completou foi por não saber como fazê-lo. Mal terminava as orações e cerrava os olhos, ainda com o nome de Deus nos lábios e o pensamento na salvação da alma, e já o amaldiçoado enchia a rede de seios e coxas, de bundas e pêlos, a tia inteira e nua.

Nem os rogos, nem as preces, nem as promessas, nem as fugas. Transtornado, abrira o livro santo na página da fuga para o Egipto, conselho de Deus. Montou no burro e se tocou no rastro do padre Mariano para a Rocinha em vez de tomar a lancha para Mangue Seco onde poderia vê-la quase desnuda na praia, acompanhá-la mar adentro, salvando-a de morte certa quando a arrebentação da barra a estivesse afogando. Heróico, lutaria contra as vagas, tomando-a finalmente nos braços, trazendo para a praia o corpo inerte apertado de encontra o peito.

Montado no burro, fugira da tentação. De que adiantara? Durante todo o percurso para a Rocinha ele a teve nos braços, apertada contra o peito, no trote do animal. Ao roçar o cabeçote da sela, comprimira entre as coxas as ancas da tia.

Débeis forças, vontade fraca, armas frágeis para enfrentar o poder e as tramas do Cão. Para tentá-lo na beira do rio, Belzebu utilizara Peto; para enviá-lo a Mangue Seco, por mais incrível possa parecer, servira-se da mãe, devota e rígida.

Ele deveria ter-se oposto, discutindo, alegando a hora tardia, fingindo-se doente. Não o fez. A mãe não precisou de repetir a ordem: saíra correndo em busca de Pirica para contratar o barco. Compreendeu que o Tinhoso escolhera Mangue Seco para local do crime e não obstante para ali partira de livre vontade. Durante a travessia dava pressa a Pirica apesar de saber que se de lá desembarcasse, estaria perdido.

Assim aconteceu: em Mangue Seco o Cão o derrotara e possuíra.

Os dedos rumam para o queixo, deixando na boca um gosto de polpa fresca. As palavras, arrancadas do estômago, cortam o pulmão estranguladas:

- Estou condenado e levo a tia comigo para o fogo do inferno.

Sou ruim demais, me perdi e arrastei a tia.

A mão se espalma, toda ela fogo, vinda do queixo para o pescoço. Na hora do pecado, até as labaredas são deleite, ninguém sente as dores das queimaduras. Mas outro é o forno do inferno, outro e eterno.

- Me leve, sim, cabrito. Novinho como os que eu carregava ao colo.

Viúva honesta, ele a fizera renegar o recato e a virtude da cativa condição, manchar a memória do marido, enlouquecer a ponto de dizer coisas assim, sem pé nem cabeça, murmurar frases sem nexo, aberta em riso de contentamento, não se dando conta do mal praticado, indiferente ao castigo.

Ele fora o único culpado mas a condenação atingia os dois, sobre a cabeça da tia cairá igualmente a cólera de deus. Sobre as duas almas que não souberam resistir aos corpos vis, à carne podre. Ele, o único culpado. A tia lhe dissera que fosse embora, se quisesse, apontava para baixo dos cômoros, ele não quis, preferiu ficar. Consciente de que, se ficasse, iria desrespeitá-la, ofender a Deus, prevaricar, entregando-se de vez a Satanás, servindo-lhe de agente na degradação da alma da viúva, responsável por sua perdição.

- Quem me dera morrer.

- Nos meus braços.

A mão desce dos ombros para o peito. Ai, tia, não. Não vê que o demónio está solto, sobrevoa dunas e mar, morcego imenso a tapar a lua, a impor a noite negra e fria? O tentador está ali, presente, como sempre esteve desde o momento em que a tia surgira na porta da marinete de Jairo. Fora ele, o demónio, que falara pela boca de Osnar comparando-a a uma fruta madura, sumarenta. Naquela hora começara o combate, lá mesmo perdido. Perdido a cada momento mais, nos passos nocturnos soando no corredor, nas rendas esvoaçantes do negligê, no biquini minúsculo, na minúscula camisola, nas mãos untadas de creme, nas palavras truncadas do padre-nosso, nos sonhos prenhes de desejo quando a tinha nua junto de si, na rede e não sabia o que fazer. Agora sabe e por isso pagará durante a eternidade. Pagarão os dois, o culpado e a vítima, ele e a tia. Quem sabe, Deus é justo, terá piedade da tia e lhe reduzirá a pena a um tempo de purgatório. Por mais longo que seja, ainda que estenda por milhões de anos, é tempo e não eternidade, tem limite e fim. Um dia a sentença termina, liberta-se o condenado, mas as penas do inferno, essas não acabam jamais. Nunca jamais, repete a cada segundo o relógio do inferno. Assim contava Cosme ao falar do castigo eterno.

- Deus é bom e sábio, terá piedade, sabe que a tia não teve culpa.

Cresce o riso alegre e inconsciente, a mão desce pelo peito agoniado.

- Não diga tia, diga Tieta.

A mão no peito sufocado de vergonha, de remorso, roto de medo; como fitar a face de Deus na hora do juízo final? A mão acalma o pesadelo, transforma os sentimentos, desata o nó, rompe a treva, mas não apaga as fogueiras da ira celeste pois toda ela, palma, punho e dedos, é brasa ardida, calor divino. Divino? Assim Satanás engana e condena os homens. Esse calor divino se transformará em dor insuportável nas profundas do inferno, consumindo lenta e eternamente os pecadores.

- Só eu tenho culpa, Deus há-de perdoar-lhe, tia.

- Tia, não. Tieta, sua Tieta.

Como não percebera a voz de Deus na voz da tia apontando-lhe a descida, o caminho certo, o sendeiro a conduzi-lo à salvação, ao sacerdócio, ao paraíso?

Paraíso? Qual deles? A mão conduz ao paraíso: ainda há pouco ele enxergara a beleza, a doçura do céu em cada detalhe do corpo exposto ao luar. A mão brinca com os cabelos nascendo no peito jovem e másculo. O Major orgulhava-se do tronco cabeludo, peito e costas, prova de macheza. Um macho, o pai. O filho, castrado pelo voto feito pela promessa da mãe, impedido. Mas o demónio o levara a levantar-se contra a lei, despertara-lhe a carne morta, pervertendo-o. Fizera do mancebo casto, que desconhecia desejos e maus pensamentos, macho impuro sem controle sobre o corpo e a alma, um bode.

Não apenas: utilizara-o para conquistar a tia, perdê-la, condená-la.

- O purgatório dura uns tempos e acaba, tia. A culpa é minha; Deus é justo, não mandará a tia para o inferno.

- Cabrito tolo, sou cabra velha. Me chame de cabra, minha cabra.

Jamais, mesmo se quisesse, nem sequer na hora do pecado, quando a cabeça não pensa e a boca geme e grita. Cabra dissera Osnar, voz do demónio, quando a vira deslumbrante na porta da marinete de Jairo, acrescentando indecente comentário sobre a fartura do ubre, o Imundo. E ele? Onde mergulhara a cabeça, pousara os lábios, onde, desvairado, mordeu?

- Me perdoe, tia. Jure que me perdoa.

- Diga Tieta.

Na barriga de músculos rijos navegam os dedos em descoberta. O dedo mínimo enfia-se no umbigo, faz cócegas, a brasa cresce em labareda, consumindo o pecado, cobrindo o crime, acendendo o luar:

- Quero lhe dizer, tia…

- Tieta.

- Quero lhe dizer que mesmo tendo de pagar durante a eternidade no fogo do inferno, ainda assim…

- Diga, meu cabrito…

- … ainda assim, não me arrependo. E se o castigo pudesse ser pior, mesmo assim…

- Diga…

- … mesmo assim eu queria…

Onde a mão? A chama queima da ponta dos pés à ponta dos cabelos, percorre o corpo, a testa lateja, abre-se a boca, cresce o Cão.

- Queria o que, cabrito? Me diga…

- Estar aqui com a tia.

- Tieta.

A mão procura, encontra, apalpa, empunha. Desmedido Demónio.

- Tieta, não me arrependo, ai não, Tieta!

- Diga cabra, meu cabrito.

Onde estão as trevas e o inferno e o temor de Deus? Sob o luar, o paraíso se abre para o Cão, estreita porta de mel e rosa negra. Vale o inferno e muito mais. Vem, meu cabrito! Ai, cabra,
minha cabra, sou bode inteiro, em
fogo me consumo.

quinta-feira, março 26, 2009

ILANA YAHAU

Apenas com os dedos o artista expressa a sua criatividade com areia e uma mesa de luz.

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MÓNIA - Versão Italiana

LAURA PAUSINI - STRANI AMORE

LARA FABIAN - I GUESS I LOVED YOU


Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 82


INTERMEZO

Já ia distante a lua no caminho da África, pejada de ais de amor, quando por fim houve pausa e respiração. Desamarradas as coxas, separaram-se a vida e a morte, cada uma para seu lado, deixando de ser uma única coisa o acto de morrer e de ressuscitar. Antes compunham um corpo único, um só foguete explodindo no alto dos céus, desfazendo-se em luz sobre as vagas do mar. Antes, a noite de luar foi ao mesmo tempo dia de sol, sol e lua, dia e noite acontecendo juntos sem distâncias nem intervalos.

Quando por fim houve pausa e respiração, desapareceram o sol e a lua, as trevas cobriram o mundo, a noite despiu-se de calor e brilho, fez-se fria inimiga, ouviu-se na ressaca do oceano contra as dunas, na insana ventania transportando areia, a acta de acusação e a sentença. Mais além da vida, mais além da morte, ele pôde medir a extensão do crime. Para o castigo não havia medida humana, não se mede a eternidade.

Num esforço que lhe rompeu a garganta e o peito, reencontrou o exercício da palavra:

- Ai, tia! O que foi que a gente fez? Que é que eu fiz?

Um dia, em voto solene, jurara castidade, consagrara-se a Deus. Prometera renegar os prazeres da carne, casto filho de Maria e de Jesus. Traíra o voto.

- Me desgracei e desgracei a senhora, tia. Me perdoe…

Escuta sons de riso, em surdina, nascente de água em meio à tempestade. Mão de areia e vendaval toca-lhe a face culpada, dedos de unhas longas roçam-lhe os lábios, contendo o soluço: um homem não chora e a partir dali, do sucedido que era ele senão um homem igual aos outros, cravada no coração a marca do pecado? Igual aos outros? Pior, pois os demais não tinham assumido compromisso e o sangue de Cristo derramado na cruz os resgatara a todos, até ao fim dos séculos. Mas ele fizera voto, prometera, jurara, assumira compromisso. Traíra a confiança de Deus. No negrume enxerga as chagas se abrindo em pus no corpo perverso, a lepra. Dedos pressionando a pele dos lábios impedem o grito e o espanto.

- Tia, só quando houver gente, tolo. Não tendo, sou Tieta, tua Tieta. – Está rindo a infeliz, inconsciente, condenada por ele às penas do inferno. Rindo, alegre, não se dá conta do horror que cometeram.

O demónio o possuíra, o mais perigoso, o mais sagaz, e subtil, o pior de todos, o demónio da carne. Não se contentando em levá-lo à perdição, utilizara-o como instrumento para tentar e corromper a tia, para perverter viúva honrada, fiel à memória do marido, e transformá-la em fêmea enlouquecida, animal em cio, a gemer e a ganir, a berrar como as cabras nos oiteiros de Agreste. Ai, tia, que desgraça! A mão percorre os lábios, as unhas arranham a pele, ameaçando pausa e distância.

Possuída pelo cão, ela também. Excomungada por culpa dele, exclusiva, que tanto lhe devia: gratidão, respeito e puro amor de sobrinho e protegido. Não lhe mandara presentes de S. Paulo, não trouxera vara de pesca e molinete, não lhe dera dinheiro, camisa nova, pijamas que a mãe guardara para o seminário, não ofertara imagem e ostensório à Igreja, piedosa criatura? Alegre, informal, arrebatada, sim, mas generosa ovelha do rebanho de Deus, como a classificara padre Mariano. Alma pura, inocente coração, digna da estima do Senhor, da recompensa divina, proclamara o padre no sermão, durante a missa. Merecedora de todo o respeito e muita gratidão, para pagar o terno afecto, a bondade, as generosa dádivas.

A mãe recomendava cuidasse da tia, ficasse às suas ordens, fosse seu amigo. Por acaso obedecera? Buscara aproximá-la ainda mais de Deus e da Igreja como era a sua obrigação de sobrinho seminarista? Falara-lhe dos santos e dos milagres, contara os prodígios da Virgem e do Senhor, descrevera as maravilhas do reino dos céus? Nada disso cumprira. Ao contrário, pusera-se às ordens de Satanás na conquista da alma da tia, solerte instrumento do maldito. Antes servo de Deus, anjo consagrado, depois escravo de cão, obediente comparsa, cúmplice activo, anjo decaído.

- Me perdoe, tia…

A mão se alonga, cobre a boca inteira, a palma comprimida sobre os lábios, trincando os dentes.

- Não diga tia, diga Tieta.

Depois da morte próxima do leproso – primeira demonstração da ira divina – o castigo eterno, as chamas do inferno, para todo o sempre, sem apelo, sem repouso, sem intervalo, sem direito à contrição, sendo demasiado tarde para o arrependimento. Arrependimento? A mão rodeia a boca, as unhas raspam de leve.

No inferno para toda a eternidade, a carne pecadora e podre queimando e jamais acabando de queimar – salva ou condenada, a alma é imortal. Ouve o riso suave, nascido da ignorância, riso de quem não sabe da violência da cólera de Deus. Por detrás do manso balido satisfeito, ele escuta a gargalhada do diabo, sinistra, vitoriosa, insultante: duas almas ganhas de uma vez, numa só parada, duas a mais para a prática do pecado e para as chamas do inferno, boa colheita.

Tantos dias, tantas noites de trabalho. Porque ele lutara e resistira; com pequenas forças e armas mínimas; não possuía a estatura dos santos verdadeiramente dignos de servir a Deus, fortaleza da lei, dos mandamentos. Ainda assim resistira, lutara, erguera trincheiras: na banca, curvado sobre os livros, nas águas do rio mergulhando quando Peto, instruído pelo cão, dirigia-lhe a vista na bacia de Catarina; nas orações, antes de deitar-se na rede; em rogo e promessa, na missa – se a Virgem o salvasse, comprometia-se a dormir sobre grãos de milho durante todo o ano lectivo. Trincheiras conquistadas, destruídas uma a
uma pelo Coisa
Ruim.

quarta-feira, março 25, 2009

Barack Obama e a Religião

BARACK OBAMA E A RELIGIÃO

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O Papa Ratzinger e o Proselitismo


O porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, disse que a morte por esmagamento dos dois jovens angolanos no Estádio dos Coqueiros, em Luanda, causou "dor e desconcerto" ao Papa Bento XVI e à Comitiva Papal.

"Não é legítimo pôr em causa o sofrimento do Papa sensibilizado pela legião de fãs. Certamente que a forma exótica como se veste, os adereços que usa e a coreografia da missa, destinada a centenas de milhares de curiosos, o convertem numa estrela Pop capaz de provocar a histeria colectiva que produziu os acidentes. Ainda assim, foram em menor número dos que frequentemente são atropelados a caminho de Fátima nos dias das peregrinações.

Uma só morte, em particular de um jovem, é motivo de compungimento mas não podemos exagerar na tristeza. No dia que, em Luanda, morreram dois jovens que desejavam assistir à missa do Papa, faleceram em África centenas de jovens vítimas da fome, da sida e do paludismo, sem missa, incenso ou água benta.

O Papa, depois de solicitar aos africanos para que deixassem a bruxaria e se tornassem católicos, transformou, à sua frente, no Estádio dos Coqueiros, água de Luanda em benta e rodelas de pão ázimo em corpo e sangue de um deus que foi homem há dois mil anos e era filho biológico de uma pomba e de uma mulher virgem.

Só um crente é capaz de ter suficiente subtileza para apreciar as diferenças. "



Este Comunicado é um bom exemplo das contradições existentes da doutrina da Igreja e os interesses dos povos com velado desprezo pela vida humana quando se proibe o uso do preservativo que tantas mortes pode evitar.

O Papa apela às populações para que deixem a bruxaria mas depois o seu porta-voz chama a atenção para os "actos de bruxaria" quando o Papa transforma água de Luanda em água Benta e rodelas de pão em corpo e sangue de um deus que foi homem há 2 mil anos o qual, ainda por cima, era filho biológico de um pomba e de uma mulher virgem...

As subtilezas que os crentes têm que possuir "para poderem apreciar as diferenças", ou melhor dizendo, aceitar estes apelos, não são de natureza muito diferente das que são necessárias aos seguidores dos bruxos...

No plano puro da crença não há como distingui-las: o fundamento de umas é o mesmo de todas as restantes: a necessidade ancestral do homem em acreditar só ultrapassável pelo apelo à razão e ao saber científico.

Lutero sabia bem isso quando afirmava: "Quem quiser ser cristão deve arrancar os olhos à sua própria razão".

Tentar conciliar a crença e a razão é missão impossível e as declarações do Papa nos Camarões, à sua chegada a África, não têm nada de surprendentes: o Papa está ao serviço da crença, da sua crença, não da razão.

JEROMEMURAT

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Zucchero / Paul Yong - Senza Una Dona

ZUCCHERO / PAUL YONG - SENZA UNA DONA

Neil Diamo - Girl, You'll be a Woman Soon (1967)

NEIL DIAMOND - GIRL, YOU'LL BE A WOMAN SOON (1967)

ROCIO DÚRCAL - À MÉDIA LUZ


Tieta do Agreste

EPISÓDIO Nº 81


DO MEDO E DA VONTADE DISSOLVIDOS NO LUAR



Generala? Sozinha, deitada no alto das dunas, moleca de Agreste, pastora de cabras. O marulho ingente das ondas, o odor de maresia, música e perfume dos começos do mundo. No céu, a lua e as estrelas eternas.

Nos cômoros, ouvindo as vagas, nos oiteiros de terra pobre, no contacto com o rebanho indócil, fizera-se forte e decidida, aprendera a desejar com intensidade e a lutar para conseguir.

Mar bravio, terra árida, faces de um mesmo mundo agreste, duro, pobre e terrivelmente belo. Sentia-se plantada nas pedras onde as cabras saltavam e nas areias movidas pelo vento. Tinha da terra e do mar, da água doce e da salgada, correnteza de rio, ressaca do oceano. Aprendeu a não ter medo, a não fugir, a olhar de frente, a assumir a iniciativa. Tantas estrelas, incontáveis; quantos amores, o desejo preso na garganta, na ponta dos dedos, no fundo do estômago? Amores de fugidio instante, amor da vida inteira, o de Filipe.

Ninguém conta as estrelas, para que contar as ânsias, a boca seca, a necessidade urgente? O número não importa e sim o beijo, a morte e a vida juntas, uma coisa só. Em Mangue Seco, sobre a areia, em Agreste, nos esconsos do rio, cabra montês.

Em cama de casal somente Lucas, quando ela deixou a aridez dos oiteiros e descobriu os atalhos do prazer. Ei-la de novo ali, nãos coros, como da primeira vez. Tensa, pronta, à espera.

Longe, no rio, a luz, pode ser apenas o reflexo de uma estrela. Qualquer ruído se perde no rebentar dos vagalhões contra as montanhas de areia. Mas a lua cheia ilumina as dunas, suave claridade, macia. O vulto indeciso, no sopé dos cômoros, por qual se decidir? Tieta levanta-se, olha, advinha, reconhece. Modula o chamado da cabra, doce convocação de amor, berro ligeiro, sussurrado. Indicando rumo e desembarque.

Frente a frente, tia e sobrinho. Cardo veste calção e a camisa do Palmeiras que Tieta lhe enviou. Sorri sem jeito:

- A bênção, tia. Mãe mandou que viesse trazer uma encomenda, deixei na mão do comandante, lá em baixo.

- Foi só?

- Disse para eu ficar com senhora, lhe ajudando.

- Mas tu não queria vir.

Atrapalha-se o rapazinho, tenta esboçar um gesto, baixa os olhos. A evasiva, entre gaguejada orgulhosa:

- Está uma festa por lá, por causa da luz. O povo todo na rua, dando vivas pra tia. Diz que a tia…

- Tu tem medo de ficar não é?

A resposta se espelha na confusão do rosto aberto ao luar, franco, sem malícia. Tieta prossegue:

- Me monte. É comigo que tu sonhas aquelas coisas? Não minta.

O adolescente baixa os olhos:

- Todas as noites. Me perdoe, tia, não é por meu querer.

- E tu tem medo, foge de mim?

- Não adianta nada. Nem me esconder nem rezar. Até na reza, penso e vejo.

- Tu me acha bonita?

- Demais. Bonita e boa. Eu é que não presto, sou ruim de natureza ou bem é castigo de Deus.

- Castigo porquê?

- Não sei tia.

- Se tu não quer ficar pode ir embora. Em seguida, neste instante.

Aponta para baixo, deita-se de novo sobre a areia, o corpo exposto: a saia aberta, a blusa desatada. A voz de Ricardo chega de longe, do fundo do tempo:

- Estou com medo de ofender a Deus e de lhe ofender, tia, mas tenho vontade de ficar.

- Aqui, junto de mim?

- Se a tia deixar. – Os olhos incendeiam.

Na lonjura, espoca o clarão dos foguetes subindo ao céu, estrelas acendidas pelo povo de Agreste em honra e louvor da filha ilustre, da viúva rica e poderosa, da paulista com voz e mando no governo.

Tieta sorri, estende a mão:

- Tenha medo, não. Nem de mim, nem de Deus. Venha, se deite.

Os corpos flutuam no luar, na música das vagas. Lua, estrelas, mar, os mesmos do passado, iguais. Que importam idade, parentesco, batina de seminarista? Uma mulher, um homem, eternos. Aqui, nas dunas, chiba em cio, um dia distante ela começou. Tieta toca seu princípio.
Hoje, cabra de ubre farto, cansada de bode Inácio, defloradora de cabritos.

terça-feira, março 24, 2009

PARA QUEM ACHA QUE NÃO VALE A PENA...

Para Quem Acha Que Não Vale A Pena...

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Fantástica Instrumentação

FANTÁSTICA INSTRUMENTAÇÃO

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BARBEIRO DE SEVILHA

BARBEIRO DE SEVILHA

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ELTON JOHN - NIKITA


JOHN PAUL YONG - LOVE IS ON THE AIR (1978)



Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 80


DA PERGUNTA MAL-HUMURADA



Na Prefeitura, de bastante mau humor, o engenheiro-chefe informa ao ansioso Secretário da mudança havida no plano de extensão dos fios e postes da Hidrelétrica: Agreste fora incluída inesperadamente na relação de municípios a serem beneficiados com luz e força da usina. Não apenas isso, já de si incrível absurdo, tinha mais. As ordens, vindas do alto, da própria presidência da Companhia, urgentes, eram de conceder a Agreste prioridade absoluta, iniciando-se imediatamente as obras necessárias para que fossem concluídas em tempo mínimo. Inconcebível decisão a trazê-los ali, a esses quintos do inferno, num Domingo, dia de descanso, cobertos de poeira, putos da vida. Perdendo tempo, ainda por cima, pois há horas buscam um funcionário responsável com quem conversar.

Antes de informar sobre prazos e datas, existe uma coisa, uma única, que o engenheiro chefe e seus subordinados desejam saber: como se explica que um município tão pobre e atrasado, cujo prefeito é maluco precisando de camisa-de-forças e internamento, o Presidente, o Presidente da Câmara de Vereadores um macróbio, houvesse conseguido modificar planos aprovados, definitivos, ordens de serviço em andamento, passando à frente de comunas ricas, prósperas, protegidas por políticos de renome, ocupando altos postos. Quem pedira por Agreste?

Pedira, não, impusera! Por favor, o nome desse líder de tamanha força dessa personalidade assim eminente, desse prepotente manda-chuva, do potentado capaz de tal proeza?
Tem realmente de ser realmente alguém de muito poder, com certeza general.

Osnar, distribuidor de patentes, dizia-a Generala. Mas Ascânio silencia
para não aumentar o mau humor dos engenheiros.
Sorriu modesto, vamos ao que interessa, às datas e aos prazos.

segunda-feira, março 23, 2009

Sapateado Sensacional

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Cantiga dos Ais - Mário Viegas


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VENUS - BANANARAMA


LARA FABIAN - MEU GRANDE AMOR


DIANA ROSS - MISSING YOU



Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 79




Terão de dar a mão à palmatória.
Tieta gostaria de participar da alegria geral mas aquele por cujo beijo anseia não está presente, não veio, não quis vir, preferindo seguir atrás do padre no lombo de um burro, o idiota! Que espécie de dor-de-cotovelo mais absurda! Seu rival é Deus. Pois Deus que se cuide, no particular Tieta do Agreste não costuma perder.

Por proposta de dona Carmosina, unanimemente aprovada, decidem voltar em seguida acompanhando Ascânio, ninguém se sente capaz de demorar-se o resto da tarde em Mangue Seco, esperando o pôr de sol, com tamanha novidade em Agreste. Todos desejam ver os engenheiros.

Todos menos Tieta. Anuncia a decisão de aceitar o convite de dona Laura e do Comandante, de ficar na praia até quarta-feira quando, em companhia de Modesto Pires, voltará a Agreste para a escritura do terreno.

Enquanto os demais se arrumam, leva Perpétua á Toca da Sogra, entrega-lhe um molho de chaves:

- Quero que você me faça um favor. Abra a mala azul, repare na chave, pegue aquela maleta onde guardo o dinheiro, a que você viu, abra com essa chave pequena, e retire… - calcula a quantia em voz alta, o necessário para dar um sinal a Modesto Pires, assegurando a compra do terreno, e para despesas iniciais de construção.

Você vai fazer casa? Em seguida?

- Imediatamente. Vou demarcar o terreno e começar uma casinha, pequena, o Comandante se ofereceu para tomar conta da obra, em Saco tem tudo o que precisa, em material e mão-de-obra, é só ter dinheiro para pagar. O Comandante disse que a construção pode andar depressa. Quero ver minha casinha de pé, pelo menos as paredes antes de regressar a são Paulo. Quando eu não estiver, você e os meninos ficam usando. Elisa também. – Fita a irmã, adoça a voz. – Tenho vontade de fazer alguma coisa por meus sobrinhos, Perpétua, já que não tenho filhos.

- Ah! Mana, que alegria você me dá dizendo isso – brilham os olhos gázeos, tremula a voz esganiçada. O acordo com o Senhor, apenas estabelecido e já em pleno andamento.

- Em Agreste, a gente conversa sobre isso.

- Por quem mando o dinheiro e as chaves?

- Pelo Comandante, ele vai com a canoa levando gente.

O Comandante não precisou ir, couberam todos na lancha de Elieser e no barco de Pirica onde se acomodarão, além de Ascânio, Leonora e Peto. Tieta se aflige:

- E eu que preciso desse dinheiro amanhã bem cedo. Mande por qualquer um que venha para cá.

- Deixe comigo, eu dou jeito – garante Perpétua.

Tieta confia, já alegre, sorrindo. O calundu passou, constata Leonora ao despedir-se. No momento do embarque, na praia, a caravana improvisa ruidosa manifestação, sob a batuta de dona Carmosina:

- Então, como é que é?

O coro responde:

- É!

- Para Antonieta nada?

- Tudo!

Dona Carmosina junta-se aos demais:

- Hip, hip!, hip, hip! Hurra! Antonieta! Antonieta!

Modesto Pires repete: - O povo de Agreste, se essa história da luz for verdade, como parece, vai-lhe entronizar no altar-mor da Matriz, junto da Senhora Sant’Ana, dona Antonieta. Eu já lhe disse e repito.

Tieta desata em riso: mundo mais divertido.

domingo, março 22, 2009

ABBA - SUPER TROUPER


BONNEY M - DADDY COOL

ELTON JOHN - GOODBYE YELLOW BRICK ROAD


JÚLIO EGLÉSIAS - HEY




Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 78




Pirica vem em busca de Ascânio, trazendo recado do coronel Artur da Tapitanga e notícia sensacional: os engenheiros da Hidrelétrica de Paulo Afonso encontram-se em Agreste e querem falar com alguém responsável pela Prefeitura. Foram à casa do perfeito, deu a maior confusão. Doutor Mauritônio não diz coisa com coisa, vive num mundo de fantasmas, agrediu o engenheiro chefe confundindo-o com o agrónomo Aristeu Regis responsável pela deserção de Amélia Doce Mel.

Insultados e expulsos foram parar na fazenda do coronel Artur de Figueiredo, Presidente da Câmara Municipal. O octogenário enviara Pirica com ordens de trazer Ascânio.

Há uma animação geral, querem saber mais, reclamam detalhes, mas Pirica, além do já contado, acrescenta apenas uma informação: o Coronel estava muito contente quando o encarregara do recado:

- Diga a Ascânio que os homens da luz estão aqui, não perca um minuto.

- Fidélio exclama:

- Vão instalar a luz, ganhei a aposta. Viva dona Antonieta!

O primeiro viva, seguido de outros ali mesmo, debaixo dos coqueiros. Prólogo às comemorações da cidade, Agreste vai vibrar com a notícia. Ascânio, empertigado, encaminha-se para Tieta:

- Permita, dona Antonieta, que eu lhe antecipe a gratidão do povo de agreste.

Tieta estende a mão a Ascânio para que ele a ajude a levantar-se:

- Ainda não Ascânio. Não arrote antes de comer. Atenda ao chamado do Coronel, tire o assunto a limpo, por hora não se sabe de nada certo. Eu aprendi a não soltar foguete antes do tempo para não queimar a mão. Se for verdade, quem mais merece parabéns é você que você que lutou tanto. Eu pouco fiz, só fiz pedir.

- As intenções, os gestos não valem nada quando não trazem resultados, foi a senhora mesmo que me disse – retruca Ascânio.

- Você brigou, se bateu, não ficou na intenção. Vá saber o que há e se for verdade comemoremos juntos.

- Nós e o povo todo, dona Antonieta. Vai ser a maior festa de Agreste.

O entusiasmo domina a alegre comitiva. Tieta, queira ou não é abraçada, beijada, felicitada. Barbozinha ameaça discursar, fará um poema à luz de Paulo Afonso, luz nascida dos olhos de Tieta; Osnar propõe que a carreguem em triunfo – solte minha perna seu aproveitador! Aminthas promete a Fidélio pagar a aposta assim a notícia se confirme. Afectuoso abraço do comandante; solenes felicitações de Modesto Pires, impressionadíssimo com o prestígio da conterrânea; nunca acreditara que os pedidos feitos por ela dessem resultado positivo; nem vão tomar conhecimento dos telegramas, jogam no lixo, garantira a dona Aída e a alguns amigos. Perpétua empina o peito: as relações da irmã na cúpula da política e do governo são um orgulho para a família, sua posição social eleva todos os parentes. Se não estivesse tão amuada, ao ouvir a palavra cúpula, Tieta abriria num frouxo de riso; ainda assim sorri nos braços de Perpétua. Elisa, emocionada não contem o choro, cobre a irmã de beijos. Dona Carmosina e dona Milu jamais duvidaram, contavam as horas na espera da resposta.

Agora, perante a presença dos engenheiros em Agreste, que dirão os incrédulos?


Bento XVI e
o
Preservativo





A Sida é um dos grandes flagelos de África, infelizmente longe de ser o único mas é, sem dúvida, dos mais graves.

Num continente em que 70% das pessoas estão infectadas, no ano passado, aos 22 milhões de seropositivos na África Subsariana, juntaram-se mais 1,9 milhões.

E o que diz Bento XVI à sua chegada aos Camarões, na sua visita ao continente africano?

Textualmente:

- “Não se resolve o problema da Sida com a distribuição de preservativos. Pelo contrário, o seu uso só o agrava”.

O mundo reagiu com espanto e indignação, excepção feita aos seus cardeais e a João César das Neves mas, na verdade, não há razão para surpresas.

As pessoas têm que desfazer nos seus espíritos a ideia de que a religião católica ou qualquer outra, prossegue como finalidade, a vida e a felicidade humanas e só este equívoco é que explica a surpresa e indignação face às palavras do Papa.

A Igreja Católica é um edifício construído para ser um instrumento de Poder e de Controle de Consciências e com esta finalidade perpetuar-se no tempo, aproveitando-se de um “espaço de crença” que, por questões de sobrevivência da espécie, se desenvolveu no cérebro humano ao longo do seu processo de desenvolvimento.

Homens muito inteligentes, ambiciosos e perspicazes construíram-no de princípios, dogmas, preceitos, regulamentos, tudo ditado por Deus, e uma história nem sempre bem construída – o espírito santo, a virgindade de Maria, a ressurreição – mas para aqual o sentimento de crença não tem nenhum tipo de exigência quanto ao rigor.

Certo, é que a Igreja não se preocupa com o homem mas consigo própria e quem julgar que não é assim corre o risco de se surpreender.

Se a religião católica transigisse relativamente ao uso do preservativo, amanhã no que respeitasse à morte medicamente assistida em situações previstas na lei, ao divórcio, ao aborto, igualmente nas condições das leis etc, estaria a pôr-se em causa a si própria no futuro porque estaria a fragilizar os seus alicerces.

O sofrimento e o pecado são peças indispensáveis da doutrina da Igreja e no seu controle das consciências. Na sua óptica, as pessoas não nasceram para ser felizes mas para amarem e respeitarem o seu Deus da forma que ela, Igreja, estipula sob pena de serm castigadas depois da morte por toda a eternidade.

A Igreja precisa de candidatos a pecar e para isso tem que criar proibições, regras de vida desumanas, daquelas em que o incumprimento é obvio porque é a nossa própria natureza que está a ser atingida e o sexo, fonte da vida, de prazer e de felicidade é, por isso, um campo excelente.

A “ordem” do Papa para os africanos é:

- Submetam-se à Igreja, sejam castos, não tenham relações sexuais fora do casamento. Se assim não procederem serão duplamente castigados: primeiro, pela Sida e após a morte irão para o inferno.

A intimidação é a forma mais eficaz testada pela Igreja ao longo dos séculos para obter disciplina e respeito e Bento XVI, como o mais intransigente e rigoroso dos Papas não podia, mesmo que isso vá contribuir para mais uns milhares de seropositivos, fragilizar o edifício da doutrina, num dos seus aspectos essenciais: abrir mão de uma proibição que leva directa e garantidamente ao pecado.

Se um dia, por hipótese, as pessoas deixassem de pecar, a religião, esta ou qualquer outra, deixaria de ser necessária.

Bento XVI velará para que isso não aconteça…



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