sábado, janeiro 30, 2010


Por favor, não abandonem
os animais. Nem todos são
tão espertos como este
...




O dono de um gato queria livrar-se dele. Levou-o até a uma esquina distante e voltou para a casa. Quando regressou, o gato já lá estava.

Levou-o novamente, agora para mais longe.

No regresso, encontrou o gato em casa.

Fez isso mais umas três vezes, sempre cada vez para mais longe mas em todas elas quando chegava a casa o gato já lá estava.

Furioso, pensou: "Vou lixar este gato!"

Pôs-lhe uma venda nos olhos, amarrou-o, meteu-o num saco opaco e colocou-o na mala do carro.

Subiu à serra mais distante, entrou e saiu de diversas estradinhas, deu mil voltas... e acabou por soltar o gato no meio do mato.

Passadas umas horas ligou para casa pelo telemóvel...

- Tá, Maria, o gato já chegou?

- Sim, respondeu a mulher.

- Ainda bem, era o que eu pensava... passa-lhe o telemóvel e deixa-me falar com ele porque estou perdido.

VÍDEO

O respeito pelo descanso dominical do dono...

video

AVENTURAS DO URSINHO - A CENA DOS CÃES


SALVATORE ADAMO - NON MI TENERE IL BRONCIO (1965)


SALVATORE ADAMO - SE MAI (TON NOM)



DONA
FLOR
E SEUS DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 32



Para o acto solene, no salão nobre da Faculdade, dona Rozilda vestiu-se de sogra, toda armada em tafetá, majestosa como um peru de roda, a rir até pelos babados das mangas, um pente de dançarina espanhola espetado no coque. No baile de formatura, For resplandecia em rendas e files, não teve descanso. Não falhou uma só contradança, tantos os cavalheiros a solicitarem-na. Mas, nem assim concedeu esperança ao recém-formado.

Nem mesmo quando ele, em vésperas de partir para a Amazónia longínqua, veio visitá-las, trazendo o pai para melhor impressionar. Chamava-se Ricardo o graúdo paraense, um gigante, vozeirão de trovoada, os dedos pejados de jóias – dona Rozilda quase desmaia ao fitar tanta pedra preciosa. Havia um carbonado sem tamanho, valia pelo menos cinquenta contos de réis, ai, meu Deus!

O velho falou das suas terras, dos índios mansos e da borracha, das histórias do rio Amazonas. Falou também da alegria de ver o filho doutor, de canudo de médico. Só lhe faltava agora vê-lo casado com moça direita, modesta e sincera, não fazia questão de dinheiro, dinheiro ele juntara bastante – movia os dedos, os brilhantes faiscavam, iluminando a sala. Queria nora que lhe desse netos e netas para encherem de bulha e calor aquela austera casa de mármore, em Belém, onde o velho Ricardo, viúvo, vivera solitário, os anos da faculdade de Pedro. Falava e olhava para Flor, como à espera de uma palavra, de um gesto, de um sorriso; se aquilo não era introdução para um pedido de casamento, então dona Rozilda era uma ignorante de tais coisas.

Tremia ela de emoção e ânsia, chegara a hora abençoada, jamais estivera tão perto de seus objectivos, fitava a bobela da filha esperando seu acordo tímido porém firme. Mas Flor apenas disse com sua voz de madorna:

- Não vai faltar moça bonita e direita para casar com Pedro, ele bem merece. Eu queria que fosse aqui, na Bahia, que era para eu preparar o banquete de casamento.

Pedro Borges recolheu sem ressentimentos a aliança de ouro já adquirida, o velho Ricardo pigarreou, mudou de assunto. Dona Rozilda sentiu-se mal, ofegante, o coração descarrilhando. Saiu da sala num repente indignada, temia ter uma coisa, desejou ver a filha morta e enterrada, a ingrata, a bestalhona, a idiota, inimiga da própria mãe, amaldiçoada! Como se atrevia ela a recusar a mão do doutor – agora realmente doutor – do moço rico, do herdeiro das ilhas, dos rios e dos índios, dos mármores todos, dos faiscantes anéis, ai como se atrevia a infeliz bastarda?

Ah!, que muro de ódio e inimizade, de imperdoável incompreensão, intransponível de rancor, não se ergueria entre mãe e filha, juntas para sempre e para sempre separadas, se naquele começo de ano, logo após a partida do desprezado Borges, não houvesse surgido Vadinho! Ah! diante dos seus títulos, da posição e fortuna de Vadinho – pelo próprio Vadinho e por alguns dos seus amigos, fora dona Rozilda amplamente informada – não passava o paraense de um pobretão, com todo o mármore do seu palácio e seus doze criados; de um indigente, com toda sua terra e
toda sua
água.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

A AVENTURA DO PEQUENO URSO


OS CÃES VÃO À PRAIA


VÍDEO

Penso, logo existo. No caso destas famílias do Alabama: Disparo, logo existo...

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JEAN-FRANÇOIS MICHAEL - ADIOS, QUERIDA LUNA


ELVIS PRESLEY - PLEASE RELEASE ME (1972)



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 31



Flor, porém, não parecia preocupada com namoro ou noivado. Nas festinhas, dançava com uns e com outros, ouvia os galanteios, sorria agradecida, não ia além disso. Não correspondeu nem mesmo aos apaixonados apelos de um doutorando em medicina, um paraense alegre, festeiro e almofadinha. Não lhe deu corda, apesar da excitação de uma dona Rozilda em fúria que a fizesse mudar de opinião. A mãe entrou em pânico; iria repetir-se o caso de Rosália, revelando-se Flor igual à irmã, obstinada, disposta a resolver por conta própria sobre noivo e casamento? Quando pensava ter na filha mais nova a repetição da natureza do finado Gil, curvada á sua vontade, lá saía ela a antipatizar com o doutorzinho às vésperas do diploma, filho de pai latifundiário no Pará, dono de navio e ilhas, de seringais, matas de castanheiros, tribos de índios selvagens e rios imensos. Recamado de ouro. Dona Rozilda partira a informar-se e, na volta, após ouvir alguns conhecidos, já se fazia na Amazónia a reinar sobre léguas de terra, a mandar e desmandar em caboclos e índios.

Finalmente aparecera o príncipe encantado, não fora inútil sua espera, nem seu sacrifício mal empregado. Num navio do rio Amazonas aportaria ela nas soberbas casas da Barra, nos trancados palacetes da Graça, os donos a cortejá-la em salamaleques e adulações.

Flor sorria com o seu delicado rosto redondo, cor de mate, sorria com as Formosas covinhas na face, com os olhos surpresos, repetia com sua voz cansada, voz de dengo e de madorna:

- Não gosto dele… é feio como a necessidade…

“Que diabo ela pensava?”, dona Rozilda subia a serra. Flor estava agindo como se o casamento fosse questão de gostar ou não gostar, como se houvesse homem feio e bonito, como se pretendente igual a Pedro Borges andasse sobrando pela Ladeira do Alvo.

- O amor vem com a convivência, minha condessa de titica, com os interesses em comum, com os filhos. Basta que não haja antipatia. Você tem raiva dele?

- Eu? Não, Deus me livre. Ele é até bonzinho. Mas só caso com homem que eu ame…Esse Pedro é um bicho de feio… - Flor devorava romances da Biblioteca das Moças, apetecia-lhe um rapaz pobre e bonito, atrevido e loiro.

Espumava dona Rozilda de raiva e excitação; a voz esganiçada cruzando a rua, transmitindo os ecos da disputa a todos os vizinhos:

- Feio? Onde já se viu homem feio ou bonito? A beleza do homem, desgraçada não está na cara desgraçada, está no carácter, na sua posição social, em suas posses. Onde já se viu homem rico ser feio?

Quanto a ela, não trocava o feioso Borges (e até não era tão horrível assim, a cara um pouco espinhosa, é verdade) por toda essa caterva de moleques atrevidos e insolentes do Rio Vermelho, sem tostão no bolso, sem onde cair mortos, uns vagabundos. O doutor Borges – antecipava-lhe o título – era moço de bem, via-se logo em seus modos, de família distinta do Pará, distinta e podre de rica. Ela, dona Rozilda, tinha sabido: a residência deles em Pará era um palácio, só de criados mais de uma dúzia.

Uma dúzia, ouviu, filha ruim, caprichosa e tola, fátua e absurda. Todos os pisos de mármore, de mármore as escadarias. Estendia as mãos, teatral:

- Onde já se viu homem rico ser feio?

Flor sorria, as covinhas do rosto eram uma lindeza, não tinha pressa em casar. Tapava a boca da mãe:

- A senhora fala como se eu fosse mulher dama para medir os homens pelo dinheiro…Não gosto dele, se acabou…

A luta entre dona Rozilda, irritada e irritante, num nervosismo de doente e Flor, serena como se nada estivesse acontecendo, peleja da qual Pedro Borges era objectivo e prémio, atingiu o ápice quando das festas de formatura no fim daquele ano. O doutorando as convidara para o acto
solene e para o baile.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

TANGO


BURRINHA, MAS HONRADA!



Uma garota passada de burra, ia sair pela primeira vez com um homem.

A mãe dela apreensiva, deu algumas instruções:

- Olha minha filha, ele te convidou pra sair, você vai;
Ele vai te levar pra jantar, você vai;
Ele vai te convidar pra conhecer o apartamento dele, você vai;
Ele vai te oferecer uma bebida, você aceita;
Ele vai te convidar pra ir pro quarto, você vai;
Ele vai te convidar pra tirar a roupa, voce tira;
Ele vai te pedir pra deitar na cama, você deita...

Mas, na hora em que ele for subir em cima de você pra desonrar a sua família, você não deixa, viu minha filha?

Tudo avisado, a garota saiu.

Quando chegou, foi contar pra mãe o ocorrido:
- Tudo o que a Senhora falou era verdade, mãe!
Ele fez tudinho! Só que na hora que ele foi subir em cima de mim pra desonrar minha família...

- Você saiu da cama, né, filha?
Perguntou a mãe, apreensiva.

- Melhor!!!!! Eu subi em cima dele e desonrei a familia dele!

VÍDEOS

Ojectos estranhos...

video

LES SURFS - DEUX SOUVENIRS


PATXION ANDION - PALAVRAS



DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS


EPISÓDIO Nº 30


Enquanto dona Rozilda forjava planos, Flor fazia-se conhecida professora de culinária, especialmente de cozinha baiana. Nascera com o dom dos temperos, desde menina às voltas com receitas e molhos, aprendendo quitutes, gastando sal e açúcar. De há muito recebia encomenda de pratos baianos, constantemente chamada a ajudar em vatapás e efós, em moquecas e xinxins, inclusivé em famosos carurus de Cosme e Damião como o da casa de sua tia Lita e de dona Dorothy Alves, onde se reuniam dezenas de convidados e ainda sobrava comida para outros tantos. Carurus anuais, promessas feitas aos santos mabaças, aos ibejes. Com o tempo o seu nome foi-se espalhando, vinham lhe pedir receitas, levavam-na a casa de gente rica para ensinar o ponto e o tempero desse e daquele prato mais difícil. Dona Detinha Falcão, dona Lígia Oliva, dona Laurita Tavares, dona Ivany Silveira, outras senhoras “de representação”, de cuja amizade tanto se gabava dona Rozilda, recomendavam-na a amigas, Flor não tinha mãos a medir.

Foi uma dessas senhoras esnobes e endinheiradas quem lhe deu a ideia da escola, pois, tendo-lhe pedido receitas teóricas e demonstrações práticas, fez questão, ao pagar-lhe o trabalho, de estar remunerando a óptima professora e boa amiga, e não gratificando uma cozinheira. Subtilezas gentis de dona Luísa Silveira, sergipana fidalga toda cheia de astúcias e não-me-toques.

A sério, com escola montada, Flor só começou a leccionar depois da partida de Rosália e Morais para o Rio de Janeiro. O mecânico concluiu não ser suficiente a distância entre os altos do Cabula e a Ladeira do Alvo, quis colocar entre sua casa e a sogra o próprio mar oceano, tomara sagrada aversão a dona Rozilda, a megera, como dizia: “aquilo é peste, fome e guerra!”

Logo prosperou a escola, até senhoras do Canela e do Garcia, mesmo da Barra, vieram desvendar os mistérios do azeite doce e do azeite de dendê; uma das primeiras foi dona Maga Paternostro, ricaça cheia de relações, entusiástica propagandista dos dotes de Flor.

O tempo foi passando, corriam os anos, Flor não tinha pressa em arranjar noivo, agora era dona Rozilda quem começava a preocupar-se, afinal a filha caçula já não era menina. Flor encolhia os ombros, interessada apenas na escola. O irmão, numa das suas vindas de Nazareth, desenhara um cartaz com tinta de cor – elogiavam muito o seu jeito para o desenho – pendurara sob a sacada:



ESCOLA DE CULINÁRIA SABOR E ARTE


Heitor lera nos jornais extenso noticiário sobre uma escola Sabor e Arte, experiência de um fulano vindo dos Estados Unidos, um tal Anísio Teixeira. Com uma mudança de uma letra no título em moda, adaptou-o aos interesses da irmã. Ao lado das letras caprichadas, colher, garfo e faca, cruzados em gracioso tripé, completavam a obra do artista (se fosse hoje já podia Heitor ir pensando numa exposição individual e na venda de uns quadros a bom preço, mas era naqueles tempos, e o funcionário da ferrovia contentou-se com os elogios da irmã, da mãe e de certa aluna de Flor, uma de olhos molhados, que atendia por Celeste).

As aulas de culinária davam o necessário para o sustento da casa, as parcas despesas de mãe e filha, e também para guardar algum dinheiro, tendo em vista os gastos de um futuro matrimónio. Mas, sobretudo, enchiam o tempo de Flor, libertavam-na um pouco de dona Rozilda a repetir-lhe quanto sacrifício lhe custara criar e educar os filhos, criar e educar aquela filha caçula, e de como lhe era necessário encontrar marido rico que as arrancasse dali, da Ladeira do Alvo e do fogão,
para as
delícias da Barra, da Graça, da Vitória.

quarta-feira, janeiro 27, 2010



Dificuldades em Agachar...



Ele era completamente narcisista, estilista e apanhava muito sol....

Uma manhã parou nu em frente ao espelho para admirar o seu corpo e notou que estava todo bronzeado, à exceção do "dito cujo".

Então decidiu fazer algo. Foi à praia, despiu-se completamente e cobriu-se todo de areia, menos aquilo...

Duas velhinhas vinham caminhando pela praia. Uma delas usava um bastão para ajudar a caminhar.

Ao ver 'aquela coisa' saindo da areia, a que tinha o bastão começou a dar voltas ao redor, observando.

Quando se deu conta do que era, disse:

- 'Não há justiça no mundo'.

A outra anciã, que também observava com curiosidade, perguntou-lhe a que se referia.

A do bastão respondeu:

-Olha isso!!!

-Aos 20 anos, dava-me curiosidade;

-Aos 30, dava-me prazer;

-Aos 40, enlouquecia-me;

-Aos 50, tinha que pedir;

-Aos 60, rezava por ele;

-Aos 70, esqueci-me que existia.

Agora que tenho 80, crescem no solo, e eu nem sequer consigo agachar-me!




AS ORIGENS


DA POPULAÇÃO

BRASILEIRA


(continuação)

Como era de esperar, o estudo da ancestralidade dos brancos brasileiros a partir das características moleculares do ADN mitocondrial mostrou-se bem diversa da que foi encontrada com os marcadores do Y, ou seja, a maioria das linhagens paternas é europeia, enquanto que a maioria das linhagens maternas (mais de 60%) é ameríndia ou africana.

Evidencia-se, assim, um padrão de reprodução assimétrico – homens europeus com mulheres indígenas e africanas, o que está de acordo com o que sabemos sobre o povoamento “pós-descobrimento” do Brasil.

Em 1552, em carta ao rei D. João, o padre Manuel da Nóbrega relata a falta de mulheres brancas no país e pede que elas sejam enviadas, para que os homens se “casem e vivam apartados dos pecados em que agora vivem…”

É certo que a coroa portuguesa permitia os relacionamentos entre portuguesas e índias desde o início da colonização e chegou mesmo a estimular os casamentos deste tipo ao promulgar um Alvará de Lei em 4 de Abril de 1755, da autoria do Marquês de Pombal cuja ideia era povoar o Brasil e garantir a sua ocupação territorial. No entanto, essa política bastante liberal para a época, não abrangia os africanos, apesar de, na prática, os relacionamentos entre portugueses e africanas terem existido e mesmo nas classes mais altas, como se pode ver em algumas novelas históricas.

Dos cálculos efectuados e considerando os 90.647.461 de pessoas classificadas como brancas no censo de 2.000, pode-se concluir haver 28 milhões de afro-descendentes entre os brasileiros autoclassificados como brancos.

Continuando esses cálculos, pode-se estimar que, do censo de 2.000, 61 milhões de brasileiros negros têm linhagens maternas africanas o que somado aos 28 milhões de brasileiros “brancos” que também apresentam linhagens maternas africanas, conclui-se que 89 milhões de pessoas, ou seja, 52% dos brasileiros são afro-descendentes por via materna e esta percentagem é muito superior aos 45% dos brasileiros que se declararam “pretos” ou “mulatos”.

Atentando a esta contribuição materna subsariana no Brasil, ainda hoje é possível identificar no património genético brasileiro de origem subsariana uma proporção considerável de linhagens provenientes da costa leste de África (rondando os 13%), muito mais elevada do que a proporção observada noutras regiões que receberam escravos, como Portugal.

De facto, a costa leste de África, especialmente Moçambique e Madagáscar, aumentou a sua importância como fonte de escravos desde que Portugal perdeu a possessão de Angola para os Holandeses em 1640.

Estes escravos eram principalmente direccionados para as colónias na América e o Caribe porque nessa altura a importação de escravos para a Europa já era muito reduzida, tendo a maioria dos países europeus proibido a entrada de escravos em meados do século XVIII. No entanto, a escravatura continuou para as colónias americanas, começando as pressões abolicionistas a fazer-se notar em inícios do século XIX, com Portugal a abolir o tráfego de escravos definitivamente em 1869 apesar da escravatura ter sido abolida em 1761.

Nas ex-colónias e mesmo no Brasil, para onde se dirigiram mais portugueses, é possível identificar uma maior miscigenação entre homem português e nativas/escravas, da mulher portuguesa e nativos/escravos.

Mas há um caso famoso que foi o do filho mais velho de uma escrava, Sally Hemings, cujo pretenso pai teria sido o Presidente dos Estados Unidos da América, Thomas Jefferson.

As análises ao ADN de pessoas familiares do Presidente e de outras descendentes da escrava, permitem concluir que o filho mais velho de Sally Hemings não podia ter sido gerado por Thomas Jefferson mas poderia ser gerado pelos seus sobrinhos. O filho mais novo de Sally Hemings partilhava a linhagem paterna do Presidente, o que, se não permite afirmar que tenha sido o Presidente a gerá-lo, não o exclui – o Presidente ou qualquer parente masculino poderia ser o pai.

Mas os tempos felizmente mudam – uma linhagem subsariana masculina está, finalmente, à frente da Casa Branca.

VÍDEO

Que rica ajuda...

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LEE MARVIN - WANDERING STAR


PATSY CLINE - CRAZY



DONA
FLOR
E
SEUS DOIS
MARIDOS

EPISÓDIO Nº 29


Durante o namoro e o noivado, dona Rozilda mostrou-se tão amável quanto lhe era possível, escondeu as saliências mais ásperas da sua natureza. Necessitava casar as filhas, Rosália chegara ao limite de idade; sobravam moças em busca de marido, minguavam rapazes dispostos ao matrimónio. Árdua batalha, essa de casar filhas, dona Rozilda bem o sabia. Suas conhecidas, quase todas, consideravam o mecânico um bom partido. Uma delas, inclusivé, uma dona Elvira, mãe de três encardidas e remelentas donzelas, destinadas ao definitivo celibato, pusera as três bruacas a cercarem o pretendente, desfeitas em sorrisos e olhares prometedores, só faltava arrastá-lo para a cama, lambisgóias desenxavidas e audaciosas. Ao demais, era Morais trabalhador e morigerado, não seria difícil à sogra comandá-lo, dirigi-lo à sua vontade, após o casamento. Nisso se enganou, o genro iria surpreendê-la.

Assim, a completa verdade Rozilda, o artesão só a veio a conhecer depois de casado. Haviam decidido habitar todos no primeiro andar da Ladeira do Alvo, solução económica e sentimental, pois gastariam menos e continuariam juntos, e outra coisa não demonstravam querer Morais e dona Rozilda senão continuarem para sempre juntos. Rosália resistira a esses planos temerários, “quem casa quer casa”, recordava ela, mas como fazer frente a essa lua-de-mel da mãe e do noivo?

Não durou seis meses a lua-de-mel, desfez-se a combinação, pois como informou o genro aos conhecidos: “Só Cristo aguentaria morar com dona Rozilda e ainda assim não era certeza, precisava experimentar para ver se o Nazareno tinha bastante competência. Pois talvez nem ele suportasse.”

Mudaram-se para o fim do mundo do Cabula, quase zona rural. Morais preferia enfrentar aquele bonde comprido e lento, viagem de nunca acabar, descarrilhando a toda a hora, atrasado para sempre; preferia sair pela madrugada para chegar a tempo na oficina situada nas imediações da Ladeira dos Galés; meter-se naqueles matos esconsos onde sibilavam venenosas cobras-cascavéis e onde os exus de muitos candomblés da redondeza andavam soltos pelos caminhos fazendo misérias, a tolerar o convívio quotidiano da sogra. Antes as cascavéis e os exus.

No primeiro andar da Ladeira do Alvo ficaram apenas Flor adolescente, apurando em moça bonita – delicado rosto, seios altos e altaneiras ancas – e dona Rozilda, uma dona Rozilda cada vez mais agre, limitada agora às graças e às prendas daquela filha, seus derradeiros trunfos na batalha pela ascensão social, batalha tantas vezes perdida.

Não perdera, no entanto, sua resistência, não se abalara sua firme vontade de subir, de galgar os degraus a conduzi-la ao mundo dos ricos. Nas suas noites fatigadas de insónia (dormia pouco, ficava a ruminar projectos) decidira não entregar a caçula a nenhum outro Morais. Destinava Flor a melhor partido, a rapaz de qualidade, a branco fino, a doutor formado ou a comerciante forte.

Defenderia com unhas e dentes aquela última trincheira, não se repetiria o que acontecera com Rosália. Não só Flor era muito mais dócil e cordata como não receava ficar solteirona, não tinha conversa de casamento, não se levantava contra a mãe quando esta a proibia de engraçar-se com empregadinhos de escritório, caixeiros de armarinho, galegos de balcão de padaria. Obedecia sem resmungos, não se revoltava aos berros, não se trancava no quarto ameaçando suicídio, num calundu daqueles, como fazia Rosália quando dona Rozilda, zelosa de seu futuro, lhe interditava qualquer reles namorico.

Resultado: casara com aquele mequetrefe do Morais, um zé-ninguém, nem sequer caixeiro, um simples artesão, um operário, que horror! Socialmente ainda menos importante do que elas. Podia ser um colosso no trabalho, podia ganhar dinheiro, ser bom marido, alegre camarada: a verdade, porém, é que a filha em vez de subir descera na escala social; assim, pelo menos, amargava dona Rozilda, destinada a outras alturas. Com Flor era diferente, não iria repetir-se o equívoco.

terça-feira, janeiro 26, 2010



RIR, FAZ-LHE BEM…



Na primeira noite a noiva, no quarto, diz para o noivo:

- Sabe, meu amor, eu não sei fazer nada de nada!

- Não se preocupe, minha querida! – Você tira a roupa e deixa que eu faço o resto!

E ela, muito meigamente, responde:

- Não, meu amor! Trepar, eu trepo desde os 15 anos. O que eu não sei fazer é lavar, passar, cozinhar, arrumar a casa…


XXX


Diz um espermatozóide para o outro:

- Quando chegamos ao óvulo?

- Responde o outro:

- Cala-te e caminha…ainda agora passámos o estômago…


XXX

Um fulano chega a uma casa de meninas e pergunta:

- Quanto custa uma menina?

- Depende do tempo.

- Bom… suponhamos que chove…


XXX

Uma mulher, toda boazona, vai ao médico.

- Sr. Dr., queria que fizesse algo pelo meu marido, algo que o fizesse ficar como um touro!

- Pois bem, dispa-se. Vamos começar pelos cornos.


AS ORIGENS


DA POPULAÇÃO


BRASILEIRA




(“O Património Genético Português” – A história humana preservada nos genes – de Luísa Pereira, bióloga doutorada em genética populacional e Filipa Ribeiro licenciada em jornalismo)



O Brasil tem uma das populações mais heterogéneas do mundo por ter recebido contribuições dos grandes grupos populacionais: ameríndios nativos, colonizadores europeus (principalmente portugueses) e escravos africanos.

Na altura em que os portugueses chegaram ao Brasil, os ameríndios totalizavam 2,5 milhões de indivíduos, enquanto os portugueses eram apenas 1.500. O cruzamento entre o homem português e mulher ameríndia começou imediatamente, sendo frequente, e mesmo encorajado, após o terramoto de 1755, como medida para o crescimento populacional e a ocupação do país.

Se, por um lado, ocorreu esta diluição de linhagens ameríndias, maioritariamente femininas, na recém miscigenada população brasileira, por outro, as tribos ameríndias sofreram drásticos declínios devido a conflitos e doenças.

Recorde-se, por exemplo, que a epidemia de disenteria combinada com a gripe, em 1560, foi tão destrutiva como a varicela, em 1520 no México e no Caribe. Actualmente essas tribos reduzem-se a 326.000 indivíduos.

Os judeus perseguidos em Portugal também começaram a procurar refúgio no Brasil e, na impossibilidade de levarem as suas mulheres, cruzavam-se com as mulheres nativas, originando uma geração híbrida, os mamelucos, que ajudaram a alargar a influência portuguesa. De realçar que a palavra “mameluco” vem do árabe e designava os escravos que serviam como pajens, criados e soldados dos califas muçulmanos do Império Otomano; o termo pegou na América do Sul nos séculos XVII e XVIII, referindo-se a grupos de portugueses miscigenados ou não, que eram caçadores de escravos.

Normalmente, quando se fala nas origens da população brasileira, só nos lembramos de recuar até ao séc. XVI mas estudos recentes revelam a existência nas regiões do norte e centro, Amazónia, restos de complexos habitacionais semelhantes, em dimensão, às “polis” da Antiga Grécia.

Estas cidades, datadas de cerca de 1500, foram depois cobertas pela vegetação mas eram mais complexas em termos de planeamento do que as cidades europeias da mesma altura. A maior cidade deste complexo tecido urbano data de 1250 a 1650. O colapso surgiu por força das doenças resultantes dos contactos com os europeus que terá sido a causa provável da morte da maioria dos habitantes.

Os escravos africanos começaram a ser transportados para o Brasil a partir da segunda metade do século XVI para trabalharem nas plantações da cana do açúcar e, mais tarde, nas minas de ouro e diamantes e nas plantações de café.

Alguns dados históricos apontam para que, entre 1551 e 1850 teriam entrado no Brasil 8,5 milhões de subsarianos.

Quanto à emigração europeia para o Brasil, estima-se que entre 1508 e 1808 chegaram 500.000 portugueses. A partir desta data os portos brasileiros foram legalmente abertos e começaram a chegar emigrantes de outras paragens, tais como Itália, Espanha e Alemanha, embora os portugueses continuassem a ser maioritários.

Já no século XX, começou a emigração asiática, especialmente do Japão mas também da Líbia e da Síria.

Resumindo:

- Entre 1500 e 1972, 58% dos emigrantes chegados ao Brasil eram europeus, 40% subsarianos e 2% asiáticos.


(continua)

VÍDEO

Verdadeiramente de Loucos...

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ALFREDO MARCENEIRO - CABELO BRANCO É SAUDADE


MARIA TEREZA DE NORONHA - FADO CORRIDO





DONA
FLOR

E SEUS
DOIS

MARIDOS


EPISÓDIO Nº 28



Outros conhecidos confirmaram essa extensa crónica do comerciante, e dona Rozilda, após aconselhar-se com o seu compadre, doutor Luís Henrique, um ruybarbosa de sabedoria – conselhos inestimáveis – e de muito pesar os prós e os contras, decidiu a favor do mecânico.

Não era, repetia, o genro dos seus sonhos, o príncipe de sangue nobre e arcas de ouro. Sangue nobre só o herdara Morais de um ancestral distante, Obitikô, príncipe de tribo africana aportado escravo na Bahia, sangue azul a misturar-se com sangue plebeu de degradados lusitanos e de holandeses mercenários. Resultou da mistura um pardavasco claro de sorriso fácil, simpático moreno. Quanto a arcas de ouro, o pé-de-meia com as economias do mecânico não lhe permitia sequer montar casa imediatamente. Mas Rosália trancara-se em sua babada paixão, não aceitava discutir sobre as obscuras origens, o honrado ofício e as magras poupanças do rapaz, e, ante essa Rosália espinhosa, de resposta insolente e fácil calundu, dona Rozilda baixou a cabeça. E, assim, na quinta ou sexta aparição nocturna de Morais – todo engomado em branco, o chapéu quebrado sobre o olho, os sapatos de duas cores, irresistível! – ela o interpelou.

Estavam os dois amorosos num enleio, olhos nos olhos, as mãos dadas falando bobagens, quando, das sombras da escadaria, dona Rozilda interrompeu inesperada e inquisidora, dura voz terrorista:

- Rosália, minha filha, quer me apresentar ao cavalheiro?

Feitas as apresentações, Rosália engrolando as palavras, Morais todo sem jeito, dona Rozilda foi logo arremetendo, sem nenhuma cerimónia nem consideração:

- Filha minha não namora em pé de escada nem em canto de rua, não sai sozinha para passear com namorado, não crio filha para divertimento de gaiato nenhum…

- Mas eu…

- Quem quiser conversar com filha minha tem de declarar antes suas intenções.

António Morais afirmou a pureza matrimonial das suas mais recônditas intenções, não era moleque para abusar das filhas dos outros. Respondeu com presteza e modéstia ao minucioso interrogatório, dona Rozilda comprovando informes, sobretudo os referentes à oficina.

Foi o mecânico aprovado e admitida oficialmente sua presença nocturna à porta do sobrado, junto à qual, a partir daquela conferência, Rosália o esperava sentada numa cadeira. Da janela dona Rozilda, no controle da moral familiar; filha sua não era para o desfrute de nenhum vadio. Assim, quando Morais adiantava a mão terna para a terna mão da moça, ouvia-se o repreensivo pigarro de dona Rozilda caindo lá de cima:

- Rosália!

Com isso apressou o noivado, Morais ansioso de maior liberdade, de intimidade menos vigiada. Noivo, passou a frequentar a casa, a sair com Rosália aos domingos para a matinê, levando Flor de contrapeso, com ordens terminantes de vigiar e controlar os enamorados, de impedir beijos e ternuras; dona Rozilda exigia o máximo respeito. Mas Flor não nascera para tira de polícia; compreensiva e solitária, voltava as costas para a irmã e futuro cunhado, absorvia-se no filme, a
mastigar confeitos,
deixando em paz o casal e sua urgência, suas bocas e mãos atarefadas.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

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Que Pesadelo! Vem a propósito...

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ANDY WILLIAMS - THE IMPOSSIBLE DREAM


ANDREA BOCELLI - AVE MARIA NO MORRO



DONA
FLOR
E SEUS DOIS


MARIDOS

EPISÓDIO Nº 27



Tanto tempo esperaram, semanas, meses e anos, tão bem postas e arranjadas, e nenhum fidalgo apareceu; nem rapaz aristocrata da Barra ou da Graça, nem filho de coronel de cacau, nenhum senhor do alto comércio, sequer galego enriquecido no duro labor dos armazéns e padarias.

Quem chegou foi António Morais com sua oficina de mecânico, sua competência autodidacta, seu honrado macacão negro de graxa. Chegou na hora certa e por isso foi bem recebido. Já Rosália chorava lágrimas de vitalina condenada à solidão e à beatice, dona Rozilda não teve forças para reagir. Não era o genro antevisto nas longas vigílias de trabalho no pedal da máquina ou no calor do fogão. Não mais podia prender, porém, em considerações e argumentos ou na ira ameaçadora, o fustigado ímpeto de Rosália, cujos vinte (e tantos) anos sadios ansiavam por marido.

Ao demais, se António Morais não era rico nem importante, pelo menos não era empregado de patrão nenhum, tinha sua pequena oficina afreguesada, ganhava com que sustentar mulher e filhos. Dona Rozilda curvou-se ante o destino, meio a pulso, mas curvou-se, que jeito?

Naquele tempo já Heitor conseguira colocação na Estrada de Ferro de Nazareth, por intermédio de seu padrinho, Dr. Luís Henrique, e fora viver na cidade de Recôncavo, vindo à Capital raramente. Tinha futuro no emprego, dona Rozilda não precisava de preocupar-se com ele. Também Flor começara a dar cursos de cozinha a moças e senhoras, ganhando dinheiro e fama de professora competente. Agora ela carregava com a maior parte das despesas da casa, mesmo porque Rosália, amedrontada com o correr do tempo, despendia seus ganhos em enfeitar-se, em vestidos e sapatos, perfumes e rendas.

António Morais reparara em Rosália na matiné do cinema Olímpia, num dia de palco, quando, além dos dois filmes e do seriado, seu Mota, o empresário, exibia artistas de passagem na Bahia, restos de mambembes desfeitos em excursões pelo interior, famintas estrelas de embaçada luz. Enquanto “Mirabel, o sonho sensual de Varsóvia”, polaca venerável, cansada de guerra, das ribaltas e dos leitos dos castelos, rebolava uma antiga bunda emurchecida para delírio da criançada ali a educar-se, António Morais divisou em cadeiras próximas dona Rozilda e as duas filhas: Rosália na excitada espera, Flor desabrochando nos peitos e nas ancas.

Não mais teve olhos o mecânico para o consumido bamboleio do “sonho de Varsóvia”. O petulante olhar de Rosália cruzou sua mirada súplice. Na saída, o moço acompanhou, a prudente distância, mãe e filhas, localizando moradia burguesa da Ladeira do Alvo. Rosália apareceu por instantes na sacada, deixou um sorriso a esvoaçar.

No outro dia, após a janta, António Morais penava ladeira acima ladeira abaixo, estagiando na calçada fronteira ao sobrado. Da janela Rosália espreitava, animadora. O mecânico subia e descia, os olhos postos na sacada alta, assobiando modinhas. Daí a pouco, Rosália, escoltada por Flor, surgia ao pé da escada. Num passo de urubu-malandro, Morais encostou.

Dona Rozilda, sempre alerta, ainda na matiné reparara no namoro. E, ao ver Rosália esfogueada e indócil, saiu a tomar informações do sujeito; Antenor Lima o conhecia, forneceu notícias concretas e favoráveis: mecânico de mão-cheia, oficina própria, nos Galés, um monstro de trabalho. Menino de nove anos, António Morais perdera pai e mãe num desastre de marinete, ficara solto nas ruas e em vez de juntar-se aos capitães da areia e sair para a ventura da vagabundagem e da má vida, metera-se na oficina de Pé de Pilão, um negro maior do que a Catedral, mecânico e boa praça. Na oficina o molecote fazia de tudo, pau para toda a obra, esperto como ele só. Sem ordenado fixo, mas com direito de ali dormir, sem falar nas gorjetas, algumas gordas. Sozinho aprendera a ler e a escrever, com Pé de Pilão aprendera o ofício, e ainda jovem começara a trabalhar por sua conta e risco, cobrando uns biscates. Tinha as mãos maneiras e a cabeça viva: os motores de automóvel não guardavam segredos para a sua curiosidade. Não era nenhum doutor, certamente, nem rapaz de posses. Mas poucos mecânicos podiam competir com ele. Ganhava seu dinheiro seguro, daria um marido de primeira, que diabo a mais pretendia Rosália, se não era nenhuma princesa nem possuía roça de cacau? – perguntava o malcriado Lima à enganjenta e resmungona vizinha.

domingo, janeiro 24, 2010



O Nosso Avô,
O Homem de
Cro-Magnon














Cinco milhões de anos decorreram até ao aparecimento do Homem Moderno mas só há 28.000, quando desapareceram os últimos vestígios dos Neandertais, pela primeira vez, apenas uma espécie de hominídeo ficou sozinho sobre a Terra. Antes disso não terá havido uma época em que não tenham existido, pelo menos, duas ou até mesmo cinco.

O grande vitorioso foi esse nosso avô, o Homem de Cro- Magnon, relacionado com os Neandertais, de acordo com a informação genética, por um ancestral comum… há 660.000 anos!

Entrou na Europa há cerca de 40.000 anos, provavelmente pela Anatólia, que hoje constitui 98% do território da Turquia e, inevitavelmente, estabeleceu contacto com os Neandertais há muito aqui instalados. É suspeito porque à sua presença se seguiu o desaparecimento daqueles que ao longo de tantos milénios estavam perfeitamente adaptados sem que, para isso, se tivessem registado grandes alterações no meio ambiente onde viviam há tantos anos.

Podem colocar-se várias hipóteses:

- Extinção passiva dos Neandertais face à menor capacidade de utilização dos recursos em concorrência com o Homem Moderno;

- Mistura por força de cruzamentos mas, se ela aconteceu, não foi suficientemente forte para deixar vestígios nas populações actuais;

- Doenças provocadas por vírus trazidas pelos povos recém-chegados e para os quais os Neandertais não tinham defesas, à imagem do que tantas vezes sucedeu quando europeus contactaram com povos indígenas de outros continentes.

Nesta história do desaparecimento dos Neandertais há perguntas que continuam envoltas em mistério:

- Eles viveram cerca de 155.000 anos na europa em condições glaciais, na penúltima glaciação entre 250.000 e 180.00 anos e, já na actual, entre 115.000 e 30.000.

- Por que não resistiram eles ao agravamento do último máximo glaciar se já estavam a viver há tanto tempo em condições adversas de temperatura?

- E por que é que os Homens Modernos que não tinham essa longa adaptação resistiram?

Uma coisa, porém, é certa e está demonstrada nos estudos da genética:

- O antepassado comum a toda a diversidade populacional não africana viveu em África até há uns 70.000 anos, muito provavelmente onde hoje se localizam o Quénia, a Somália e a Etiópia.

Partidos desta zona de África estes caçadores nómadas percorreram o sul do continente asiático chegando à Austrália há 60.000 anos, enquanto que outros, mais tarde, cerca de 40.000 anos, se dirigiram para a Europa. Entre eles viria o primeiro Homo Sapiens Sapiens, conhecido como O Homem de Cro-Magnon, nome da localidade francesa onde os seus primeiros vestígios foram encontrados.

A dispersão do Homem Moderno por todo o mundo substituindo em todo o lado os Homens Arcaicos, caso do Neandertal na Europa, foi, sem dúvida, um dos maiores sucessos da Humanidade e mesmo da História da Vida.

Altos, 1,80 e 2 metros, bem parecidos, seriam irreconhecíveis se hoje os víssemos bem vestidos a descer o Chiado.

A caça era um objectivo comum mas, de acordo com a análise dos vestígios encontrados no seus locais de acampamento, a dieta alimentar era principalmente fornecida pelas mulheres e crianças na sua pesquisa diária pelas florestas e era constituída por tubérculos, frutos, raízes, ovos, pequenos animais, etc.

Eram pessoas robustas, saudáveis, com uma alimentação diversificada, dotadas de uma enorme competência artística comprovada pelas extraordinárias gravuras que nos deixaram nas paredes das grutas. As técnicas de pintura incluíam: perspectiva, falsa perspectiva, relevo, tradução do movimento que levariam mais tarde Picasso a dizer, contemplando-as: “…está ali tudo!” Possuíam, igualmente, a capacidade de pensar o futuro: o primeiro calendário encontrado é de há 32.000 a.c.

Eram engenhosos e inventivos. Inseridos num outro contexto social, nada, do ponto de vista neurológico, os teria impedido de serem capazes de irem à lua. Simplesmente, não havia um desafio que provocasse esse tipo de invenção.

Bem mais útil para as suas vidas foram os impulsionadores de lanças que inventaram e lhes permitiram lança-las com precisão por cima do ombro a distâncias muito superiores matando assim mais caça e arriscando-se menos.

O seu contemporâneo Neandertal continuava a caçar as suas presas com baionetas de madeira com grandes riscos para a sua integridade física.

Pesquisadores italianos analisaram o ADN de um esqueleto com 28.000 anos encontrado no sul de Itália, Paglicci, que carregava uma variante genética presente na grande maioria dos europeus de hoje.
Com o sedentarismo, por oposição ao nomadismo, e os números crescentes dos efectivos populacionais durante o Neolítico, as doenças fizeram a sua aparição em força. A sua propagação estava agora facilitada e o contacto com os animais domésticos trouxe novas doenças que passavam destes para os homens.

A gripe é provocada por um vírus que infecta aves e mamíferos e provoca pandemias massivas. A gripe espanhola, por exemplo, em 1918-1819, provocou entre 20 a 40 milhões de pessoas atingindo, especialmente, a faixa etária dos 20-40 anos.

Entre os homens de Cro-Magnon existia uma divisão do trabalho com base num cooperativismo primário. Partilhavam entre si os riscos da caça que era, compreensível e obrigatoriamente, distribuída por todos.

Os defuntos eram enterrados não só com utensílios mas também com objectos fúnebres ou seja, talhados apenas para este fim.

A arte rupestre estava ligada a crenças sobrenaturais de sobrevivência. Com as figuras que reproduziam nas paredes das cavernas pretendiam estabelecer uma espécie de ligação sobrenatural ao mundo dos animais que precisavam para a sua alimentação, que receavam ou admiravam.

Na semi-obscuridade da gruta, à luz ténue da pequena chama, o artista acariciava a parede onde se escondia o animal que ele iria fazer aparecer. Mais do que arte era pura magia, um momento de comunhão espiritual entre ele e o mundo da natureza que também era o seu.

Por exemplo, a figura do cavalo é reproduzida com uma frequência superior à que seria de esperar pela importância que tinha na dieta alimentar numa “confissão” implícita de que ele “gostava mais de os ver do que de os comer”.

Há 10.000 o “nosso avô” entrou em decadência. A temperatura aumentou e muitos dos animais do seu consumo básico como os mamutes e as renas ou desapareceram ou emigraram para norte e a escassez de recursos levou-os a graves conflitos. Muitos milhares morreram, outros espalharam-se por vários pontos da Europa e da Ásia dando lugar a comunidades que apareceriam na época seguinte, a do Neolítico.

Para trás tinha ficado um longo período de muitos milhares de anos de verdadeira liberdade e harmonia em que o nosso antepassado, numa comunhão inteligente com a natureza, atingiu a plenitude das suas faculdades físicas, intelectuais e artísticas…talvez o período mais feliz da sua/nossa existência.

Depois, integraria novas formas de vida em sociedade com todas as consequências que conhecemos porque já fazem parte da história que estudámos.

Do passado, ficou-nos o gosto pela caça e a pesca, pelos colares de flores e de conchinhas pendurados à volta do pescoço e dos fins-de-semana no campo, com a família, para combater o stress e respirar o ar livre que devia ser puro.

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