sábado, junho 13, 2009

ATENÇÃO:

A "Tieta” vai de férias durante uma semana. No próximo dia 22 cá estaremos, sem falta, para continuarmos a contar a história da Tieta porque, afinal, não há nada como uma boa história… especialmente quando é de um escritor como Jorge Amado.

Aproveitem para porem em dia a leitura de todos os episódios e ouvirem alguma das músicas da vossa preferência que escolhi para vós e, por que não, ler o Relatório da "Operação Fim de Regime", escrito pelo próprio punho do Capitão Salgueiro Maia, "Um Homem da Liberdade", sim, esse mesmo, que foi agora, no passado dia 10, Dia de Portugal, homenageado pelo Presidente Cavaco Silva que, 20 atrás, como Chefe de Governo, lhe recusou uma pensão...

Passem bem, e até daqui a uma semana.

BAÚ DAS RECORDAçÕES ( 1955)


TONNY BENNET - STRANGER IN PARADISE


CANÇÕES BRASILEIRAS
ELIS REGINA - CADEIRA VAZIA
Composição de Lupicínio Rodrigues e Alcides de Carvalho do Album "Elis ao Vivo"


sexta-feira, junho 12, 2009

CANÇÔES QUE SEMPRE RECORDAREMOS


TOM JOBIM e LUIZA JOBIM - WAVE




JÚLIO IGLÉSIAS - EL AMOR



Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 161





ONDE O AUTOR, UM SACRIPANTA, A PRETEXTO DE FORNECER DISPENSÁVEL INFORMAÇÃO, DEFENDE-SE DE SEVERAS CRÍTICAS


Não, não pensem que quero me meter na briga recém iniciada, quem sou eu? Já defendi a minha posição de completa neutralidade, narrador objectivo e frio, expondo factos concretos. Não venho tampouco comentar a visível mudança operada na maneira de ser do moço Ricardo. Apenas, mais uma vez constato a influência de uma perfumada e gostosa – como direi? –, de um perfumado e gostoso favo de mel, inebriante rosa negra. Transforma gelo em fogo, carneiro em leão, seminarista devoto em estudante subversivo e arruaceiro.

Outro dia, escandalizado, meu amigo e companheiro de lides literárias, Fúlvio D’Alembert (José Simplício da Silva, bancário, na mediocridade da vida civil e burguesa; se por acaso já forneci essa explicação, aqui a repito, antes de ser acusado de redundante do que de omisso), revelou-me que, em certos seminários, actualmente, os estudantes lêem e analisam Freud e Marx e não o fazem para negá-los, refutando-lhes as heréticas teorias, denunciando-os à polícia política à falta da Santa Inquisição; uma vale a outra. Muito ao contrário, comentam-lhes os escritos entre elogios e aplausos. Não obstante a presença de Frei Timóteo no corpo docente, penso que os alunos do seminário de Aracajú não conheciam Marx e Freud nos idos de 1965 – data tão próxima, ainda ontem, parecendo contudo distante passado ante as transformações do mundo; ocorrem elas com tal rapidez que o tempo é jogado para trás, o presente se reduz a breve, fugaz instante. O encontro com os hipies, as repetidas conversas com Frei Timóteo, uma e outra coisa concorreram para a inesperada evolução do jovem mas, em definitivo, o que o fez outro, virando-o pelo avesso, foi a olente rosa negra, o suculento favo de mel onde sequioso e faminto mergulhou e renasceu.

Emprego muito a propósito as imagens acima, rosa negra, favo de mel, metáforas destinadas a evitar palavras exactas e justas, seja por pernósticas, incompletas e feias as que não ofendem o pudor: vagina e vulva, por exemplo, terríveis palavrões; seja por criticáveis e condenadas as que exprimem com vigor, exactidão e poesia, a doçura, a graça, o calor, a eternidade, a perfeição: xoxota, xibiu , boceta. No texto anterior, ai de mim! – utilizadas e repetidas.

Meu confrade e crítico Fúlvio D’Alembert, a quem entrego as páginas escritas para correcção gramatical, conselhos estilísticos e acentos, recriminou-me asperamente pelo uso e abuso de tais termos, por colocá-los na própria escrita literária, enfeando a linguagem, emporcalhando a frase. Por que tanto repetir palavras obscenas, por que voltar seguidamente ao maldito tema em copiosas referências àquilo que ele trata pudicamente de aparelho genital da mulher?

Mas pergunto eu: como não falar de coisa tão importante na vida do homem? Por que lhe dar nomes ásperos e agressivos, poluindo-lhe a beleza e a graça? Por que lhe negar os doces apelidos nascidos da língua grata do povo?

Na mesa do bar, quando Aminthas, Fidélio, Seixas, o vate Barbozinha, o diligente Ascânio começam a discutir altas filosofias, a desovar altos conhecimentos em maratonas intelectuais, Osnar, chateado, a bocejar, protesta:

- Como vocês perdem tanto tempo discutindo essas besteiras, quando se pode falar de boceta, coisa adorável?

Osnar, afirma dona Carmosina, e nisso concordo com a sabichona, por vezes nos leva a alma.

Aproveito, aliás a referência à malta do bilhar para responder a outra restrição feita pelo caro e meticuloso Fúlvio D’Alembert à presente narrativa. Chama-me a atenção para o facto de não ter sido o leitor informado da profissão de três dos quatro compadres de contínua presença nas páginas deste melodramático folhetim. De Osnar se sabe a condição invejável de cidadão apatacado, vivendo de rendas; e os demais? Falou-se da tendência a humorista de Aminthas, do fanatismo pelo som moderno e do parentesco com dona Carmosina, nada disso definindo profissão ou fonte de receita. Sobre Seixas, apenas referências às primas, um rol delas; de Fidélio nada se conta, fugidio indivíduo. Concordo com a crítica, confesso o erro, dou a mão à palmatória. Tem razão o amigo Fúlvio D’Alembert ao apontar-me a grave lacuna, a falta de informação assim importante, direi mesmo fundamental: o meio de vida de certos personagens. A economia condiciona o mundo e dirige as acções humanas, ensina Marx aos seminaristas. Ou é o sexo, como aprendem em Freud? Confusão medonha. São os três, Aminthas, Seixas e Fidélio, funcionários públicos. O primeiro, federal, os outros dois, estaduais. A par da condição de servidores da Nação e do estado dos três rapazes, o leitor não mais os pensará desempregados, troca-pernas, boas vidas. Troca-pernas, boas-vidas, de acordo; desempregados, não.

Chego, por fim ao motivo único dessa minha intervenção. Desejo apenas informar os nomes dos cinco assinantes de A Tarde. São eles: Modesto Pires, o árabe Chalita, Edmundo Ribeiro, doutor Caio Vilasboas e seu Manuel Português. O sexto exemplar, como se sabe, vem, gratuito, para dona Carmosina, oferta da gerência. Após a publicação da Carta ao Poeta De Matos Barbosa, a explosiva crónica de Giovanni Guimarães, o número de assinaturas passou de cinco a nove, dona Carmosina – ela sempre sai ganhando – embolsou polpuda comissão. Polpuda em termos de Agreste, naturalmente… Tudo no mundo é relativo, como diria Einstein, desconhecido dos seminaristas de Aracajú.

quinta-feira, junho 11, 2009

VÍDEO
VER E OUVIR ELIS REGINA E TOM JOBIM SERÁ SEMPRE UM PRIVILÉGIO

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BAÚ DAS RECORDAÇÕES


SHARIF DEAN - ME AMAS (1974)


CANÇÕES BRASILEIRAS

SIMONE - QUEM É VOCÊ

"Todas as cartas de amor são ridículas" (FERNANDO PESSOA)

Música composta por Isolda e Eduardo Dusek e que faz parte do CD "SIMONE BITTENCOURT de OLIVEIRA" de 1995.


CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS
JOE D'ASSIN - LA PETIT PAIN AU CHOCOLAT




JÚLIO EGLÉSIAS - VOUS LES FEMMES


Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 160



-Porque desistiu, Comandante. Como o loteamento não foi para a frente, ele desistiu. Mas agora disse que não volta sem ter descoberto quais são realmente os proprietários – informa o genro – Pelo que ele soube pelos técnicos da Brastânio que apareceram por aqui, antes de eu ter chegado, o local ideal para a fábrica, aliás, as fábricas, pois são duas, interligadas, fica um pouco mais abaixo dos terrenos dele, nas margens do rio. O tal cara queria saber a quem pertenciam para informar os directores com vistas a negócio. Seu Modesto fez boca-de- siri, é claro.

- Se andaram se informando na cidade devem estar certos que o coqueiral pertence aos pescadores ou que não tem dono, é o que todo mundo pensa em Agreste.

- Seu Modesto me disse que comprou toda a área de propriedade dos pescadores.

- É verdade.

- Agora quer o resto para revender à Brastânio. A estas horas, deve estar no cartório, infernando doutor Franklin.

Entretidos na conversa, não repararam na aproximação do austero doutor Caio Vilasboas. No veraneio, o médico abandona o formalismo habitual, despe-se do colarinho duro, passa o dia de pijama e, se é obrigado a sair de casa, acrescenta o guarda pó azul que usa quando toma a marinete de Jairo. Ao passar por eles, cumprimenta mas evita parar, leva pressa, anda em direcção à praia. Seguem-no com os olhos, curiosos.

- Será que tem alguém doente? – preocupa-se o Comandante ao ver o médico desviar o rumo para as casas dos pescadores. – Doutor Caio nunca vem por essas bandas.

O engenheiro palpita:

- Não será outro candidato a comprar o coqueiral? Pensando que pertence aos moradores?

- É isso, não é outra coisa, você acertou em cheio. A corrida está começando. Sabe, doutor Pedro, na canoa eu vinha dizendo a Tieta que a gente precisa de reagir, protestar, impedir essa monstruosidade.

- De acordo mas de que jeito? Como diz Giovanni Guimarães, o pessoal do cacau tem força política, o de Recôncavo, também. Mas aqui todo o mundo vai achar que pode ganhar dinheiro com a instalação da fábrica.

- Se Tieta tomar a frente, o povo fica do nosso lado.

O engenheiro concorda, sorri para Tieta:

- Isso é verdade. Seu Modesto diz que o povo botou dona Antonieta no altar, junto da Senhora Sant’Ana. E teve porquê

- O ruído de um motor, descendo o rio.

- É o barco de Pirica – reconhece o Comandante.

O barco enfrenta a rebentação, trás um passageiro. Olho de marujo, comandante Dário o identifica:

- Edmundo Ribeiro por aqui? Não me diga que…

O colector, acompanhado do filho Leléu, desembarca na praia, em frente às cabanas para as quais se encaminha, os pés afundando na areia. O engenheiro completa a frase do Comandante, deixada pelo meio:

- … veio em busca dos proprietários do coqueiral, sim, senhor. Com certeza.

Mais um. Vai ser uma loucura. Temos de fazer alguma coisa, logo.

- O que é que se pode fazer? - pergunta o barbudo: - Se fosse em Salvador, a gente mobilizava os estudantes, ia aos jornais, ameaçava com uma passeata. Mas aqui…

O Comandante coça a cabeça, pensativo. Protestar, sim, era indispensável. Mas como? Que diabo podiam fazer mesmo com Tieta à frente, obtendo o apoio do povo?

- Fazer o quê, também Tieta deseja saber.

Vestido de calção de banho, descalço, torso nu, cor de bronze, parecendo mais um jovem pescador do que um levita do santuário, Ricardo volta a se fazer ouvir, voz sem apelação:

- No dia em que esses sujeitos aparecerem de novo em Agreste ou em Mangue Seco, a gente bota eles para correr.

- Hein? – Exclama o Comandante antes de explodir de entusiasmo. – Cardo, exulta Tieta, voltada para o sobrinho, seu menino, bode inteiro e macho, bodastro.

- Toque aqui – o engenheiro estende a mão ao seminarista.

Por entre a meia dúzia de choupanas, os vultos do Doutor Caio Vilasboas e do colector Edmundo Ribeiro cruzam-se, inaugurando a bolsa de imóveis na praia de Mangue Seco.

quarta-feira, junho 10, 2009

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Coisas de gatos...



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BAÚ DAS RECORDAÇÕES

CARLOS GARDEL - ADIOS MUCHACHOS (1948)





CANÇÕES BRASILEIRAS

FÁBIO JR. - ALMA GÉMEA
Música lançada no final do ano de 1995 na TV Globo por Fábio Jr. Foi gravada pelo autor no CD "Peninha" de 1997.


CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS

NANA MOUSKURI - SERENADE THE SHUBERT




BONEY M - SUNNY



Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 159






DA INAUGURAÇÃO DA BOLSA DE IMÓVEIS EM MANGUE SECO, QUANDO O JOVEM SEMINARISTA RICARDO DESATA O NÓ GÓRDIO



Em Mangue Seco, o dia esplêndido de sol, a imensidão do mar, as dunas de areia, o infindo coqueiral, aparentemente a paz mais completa. Aparentemente, constataram pouco depois.

Acompanhados pelo Comandante – dona Laura ficara na Toca da Sogra com Gripa, nas arrumações – Ricardo e Tieta examinam os progressos da construção da pequena casa de veraneio. O Comandante sorri ante o espanto da tia e do sobrinho; não esperavam encontrar o telhado pronto e terminado.

Os operários não folgam na semana de Natal, fosse pela fama, fosse pelo dinheiro de Tieta, pelas duas coisas juntas e sobretudo pela assistência do Comandante que substituíra Ricardo no controle das obras e lhes quisera fazer uma surpresa. Enquanto Tieta coberta de unguentos e Ricardo de cuidados permaneciam em Agreste, ele oferecera aos trabalhadores a cervejada comemorativa da cumeeira e prometera em nome da proprietária um bom agrado se antes do Ano-Novo o telhado estivesse colocado. Agora falta apenas cimentar o chão, pintar as paredes, aplicar as portas e janelas e cercar o terreno onde, numa esquina, o providencial e habilidoso comandante Dário havia fincado na areia o tronco em que gravara o singular nome da casa de veraneio de Tieta. Dali se vê a Toca da Sogra e o Nosso Cantinho, a ampla e confortável vivenda de Modesto Pires. Distante da praia, nas margens do rio, avista-se a casa do doutor Caio Vilasboas, cercada de varandas, sem nome a designá-la.

Estão acertando com os mestres pedreiro e carpina o andamento dos trabalhos finais, quando aparece o engenheiro Pedro Palmeira. Vestido apenas com uma sunga de banho, queimado de sol, um filho escanchado no pescoço. Rapagão jovial, de prosa animada e riso fácil, bom companheiro de veraneio – disputa peladas na praia com os moleques e os pescadores jovens, carteia animado biriba, após a sesta com a esposa, o Comandante e dona Laura – naquela tarde parece preocupado. Sua primeira pergunta, mesmo antes de desejar bom dia, revela o motivo:

- Leram a crónica de Giovanni Guimarães? Que me dizem? – Pousa o menino no chão.

- Estamos ameaçados do pior – responde Comandante Dário.

- Não é mesmo? Hoje estive discutindo com seu Modesto Pires sobre isso. Ele pensa de diferente maneira da minha, vê um dinheirão a ganhar.

Escondendo um sorriso, Tieta olha para o Comandante a lembrar-lhe o começo da conversa na canoa. O rapaz, esgaravatando na areia com um talo de palha de coqueiro, prossegue:

- Foi desagradável. Evito conversar com seu Modesto sobre certos assuntos, nossos pontos de vista raramente coincidem. Mas hoje não pude evitar, foi chato – corre a retirar o filho que mergulha nas sobras da massa de reboco.

- Marta terminou chorando, seu Modesto, quando se exalta, não escolhe palavras. Para ele o dinheiro passa antes de tudo. Antes dos valores fundamentais que estão ameaçados pela poluição da Brastânio, a isso não dá importância.

Tieta sente-se corar. Não pensara ela também, antes de tudo, no dinheiro a ganhar? Não propusera ao Comandante a aquisição das terras à margem do rio onde a fábrica pretende se instalar para revendê-las com lucro? Fizera-se necessário o Comandante falar em paz, em beleza, no clima de sanatório, na felicidade do povo para que ela reflectisse e pensasse naqueles outros valores, maiores – fundamentais, no dizer do engenheiro barbudo e preocupado – o direito à saúde, à beleza, à paz, a um lugar bom para esperar a morte. Somente após Ricardo, seu menino de ouro e diamantes, proclamar, em nome deles dois, militante solidariedade à causa de Agreste, ela se decidira.

Seu Modesto interrompeu o veraneio, foi para Agreste, futucar no cartório as escrituras antigas para tirar a limpo a quem pertence o coqueiral.

- Não vai ser fácil descobrir. Uma vez, ele já andou querendo saber, quando comprou a parte que
pertencia aos pescadores e pensava fazer um loteamento. Não conseguiu nada.

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Uma partida destas não se faz...

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BAÚ DAS RECORDAÇÕES


LES PAUL & MARY FORD - VAYA CON DIOS
(Uma das 100 músicas mais ouvidas em 1954)


Canções Brasileiras
SIMONE - ALMA

Música lançada no LP "CORPO e Alma" de Simone em 1982. Composição de Sueli Costa e Abel Silva


CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS
HELEN SHAPIRO - YOU DON'T KNOW




SKEETER DAVIS - THE END OF THE WORLD



Tieta do Agreste Adicionar imagem
EPISÓDIO Nº 158




Aponta para os cômoros de Mangue Seco que surgem em meio à rebentação, erguida diante do mar; do embate com os vagalhões eleva-se uma cortina de água. A voz do Comandante, ardente:

- Já pensou, tudo isso coberto pela poluição? O progresso é uma boa coisa mas é preciso saber que espécie de progresso – Pousa os olhos em Tieta.

- Voltando ao que eu dizia: se formos apenas eu, Barbozinha, Carmosina, uns dois ou três mais, a protestar, pouco vai adiantar. Mas se você, Tieta, se juntar a nós, levantar a voz, tomar a frente, aí a coisa muda…

- Eu, Por quê?

- Porque, para o povo de Agreste você é a tal. Com razão: a luz da Hidrelétrica, a velhinha salva no incêndio, a sua figura, a sua bondade, a franqueza, seu amor à vida. Para a gente de Agreste, depois da Senhora Sant’Ana, está você. O que você diz faz lei. Não se deu conta disso?

- Sei que gostam de mim, sempre gostaram. Quem me botou para fora de Agreste foi o Velho, com medo da língua das beatas, não foi o povo. Gostam de mim mas daí… Por que hei de me meter, me diga Comandante? Adoro minha terra, penso vir acabar meus dias aqui, quando a idade chegar. Mas daí a me meter numa briga dessas…

- É sua obrigação, permita que eu lhe recorde. Você diz que adora Agreste e é verdade: comprou casa na cidade, está construindo outra em Mangue Seco, só lastimo que não fique de vez, sem esperar a velhice – Sorriu para Tieta com amizade – Você já pensou que, se cruzar os braços agora, quando quiser voltar, nada disso existe, acabou tudo, Mangue Seco virou um esgoto da fábrica de titânio? Já pensou no motivo por que nenhum país do mundo quer essa indústria em suas terras?

Tieta não responde, os olhos fixos na paisagem que vai se ampliando diante dela, a imensidão do mar de Mangue Seco. Sua terra, seu princípio, ali começou. Nos outeiros de Agreste, pastoreando cabras, nas dunas de Mangue Seco, coberta pela primeira vez. Sua terra? Seu começo, sim. Sua terra, porém é São Paulo, a cidade imensa, afarista, poluída, solitária. Lá estão plantados seus interesses: o negócio rendoso, o mais fechado e caro randevu do Brasil, o Refúgio dos Lordes, os apartamentos, a loja no andar térreo, um dinheirão mensal, cada vez maior, por que há de se envolver com as encrencas de agreste? Antes foi Tieta, a pastora de cabras a soltar o berro do desejo nos cômoros de Mangue Seco. Agora é Madame Antoinette, patroa de raparigas, cafetina a serviços de milionários. Nada lhe cumpre fazer ali, nesses confins do mundo. Se poluírem as águas e os céus de Agreste, a beleza de Mangue Seco, tant pis.

Na voz do comandante uma súplica desesperada:

- Só você, com seu prestígio, pode salvar agreste.

Endurece a face de Tieta, Madame Antoinette. Nada mais tem a fazer em agreste, é tempo de retornar a são Paulo. Visitou a família. Desfrutou da paz da terra, beneficiou os seus e a comunidade, atendeu aos pobres, basta. Nada mais lhe cumpre fazer, repete para si mesma.

Apenas deixar que as águas corram. Um dia voltará e, se valer a pena, retirada dos negócios, velha e respeitável senhora, ali passará os últimos anos da sua vida. Bom lugar para esperar a morte, dizia o caixeiro-viajante responsável pela surra e pela expulsão. Não fosse para vê-la e tê-la nos braços, nos esconsos do rio, fugiria do caminho que conduz aos infelizes limites de Agreste.

Tinha razão, isso aqui só serve para se esperar a morte, clima de sanatório, tranquilidade e paz, paisagem incomparável. Vai responder um não redondo ao comandante quando uma dúvida a atravessa: será que no mundo já não se tem direito à existência de um lugar, um único que seja, bom para nele se esperar a morte?

- se você disser não, Tieta, acabou-se Agreste, é o fim de Mangue Seco.

Antes que ela abra a boca, a voz de Ricardo chega do fundo da canoa, imperativa:

- A tia vai dizer sim, Comandante. Não vai deixar que arrasem Mangue Seco. Senão por que havia de fazer o Curral do Bode Inácio?

Tieta volta-se, seu menino cresceu, de repente virou homem feito. Num espanto o escuta, acento decidido, inflexível:

- Li o artigo do jornal, Comandante, seu Barbozinha me mostrou. A tia não vai deixar que acabem com os peixes e os pescadores. Nem ela, nem eu. Se achar que eu sirvo para alguma coisa, pode contar comigo, comandante.

terça-feira, junho 09, 2009


SALGUEIRO MAIA


De todos os oficiais do Movimento dos Capitães que participaram na Revolta Militar do 25 de Abril de 1974, Salgueiro Maia foi aquele que mais conquistou a nossa simpatia e admiração o que aumentou ainda mais a grande consternação que sentimos pelo seu desaparecimento prematuro, vítima de um cancro, em 1992, sem que as instâncias militares, em vida, tenham reconhecido os seus méritos.

É verdade que o filme de Maria de Medeiros sobre a Revolução dos Cravos e o Documentário da SIC, focados na intervenção e na pessoa dele, que todos os anos têm passado na Televisão para celebrar a data – não perco nenhum embora já os saiba de cor - , contribuíram decisivamente para que esses sentimentos se desenvolvessem e com o tempo criado raízes, atrevo-me a dizer, na generalidade dos portugueses.

Ambos os espectáculos foram concebidos no rigor e na verdade dos acontecimentos, pelo que nos foi possível, a todos nós, espectadores, avaliar em todos os momentos decisivos da missão que lhe foi atribuída, o rigor, competência, coragem, firmeza e determinação, que não lhe diminuíram em nada, o cuidado, a preocupação e o sentido cívico com que pautou toda a sua intervenção para tentar evitar qualquer acção de confronto pelas armas que poderia ter descambado numa luta fratricida, e conseguiu-o.

Eis a missão que lhe foi atribuída para ser cumprida sob o seu comando:

- “Instalar em Lisboa controlando os acessos ao Banco de Portugal, Companhia Portuguesa Rádio Marconi e Terreiro do Paço e estabelecer ligação com o PC na sede de ligação”

A História conta-nos, depois, que esta missão foi cumprida por Salgueiro Maia com êxito total, de tal forma que um confronto entre militares que poderia ter acontecido e dado origem a um “banho” de sangue fratricida, transformou-se e ficou conhecido em todo o mundo pela Revolução dos Cravos.

A simplicidade do Relatório que Salgueiro Maia redigiu e deixou para a História sobre a “OPERAÇÃO FIM DE REGIME” que ele executou como Comandante, diz tudo do carácter e do homem que ele foi. As pessoas são grandes quando conseguem fazer coisas grandes com a mesma simplicidade com que fazem as coisas simples.
Este espírito de simplicidade que sempre esteve presente em todos os momentos da sua missão e que ressaltam, depois, para a escrita do Relatório, salientado por José Niza, foi fundamental para o sucesso daquela que ficou conhecida pela Revolução dos Cravos em Portugal. Um homem simples e respeitador dos seus ideais e valores que integravam o respeito pelas hierarquias militares de que fazia parte, tanto elas estivessem do lado da sua barricada, como na barricada oposta.

Após ter terminado a sua missão reentrou à 01H30 do dia 26 de Abril, na sua Unidade, Escola Prática de Cavalaria de Santarém. Desde entã0, recusou qualquer protagonismo político e participação no novo poder. Este facto conferiu-lhe o carácter “do herói romântico” tão do nosso agrado e tão pouco vulgar na vida real.

Das muitas Operações em que participou e sobreviveu, na Guiné e em Moçambique, durante a Guerra Colonial, não conseguiu ultrapassar a última, em 1991...faleceu a 4 de Abril de 1992 de cancro, com 48 anos.

A Câmara Municipal de Santarém decidiu publicar e fazer distribuir pelas escolas do Conselho, um documento sob a forma de revista, que apresenta na capa a fotografia de Salgueiro Maia encabeçada pelo título “Operação Fim de Regime” e que transcreve o relatório redigido por Salgueiro Maia da operação militar do 25 de Abril.

Este documento que me foi cedido, gentilmente, pela sua viúva, professora na Escola Ginestal Machado, tem dois pequenos prefácios, um do Presidente da Câmara, Moita Flores, e o outro de José Nisa, munícipe de Santarém, democrata, médico, poeta, político, que foi autor da letra da Canção “E Depois do Adeus” que serviu de Senha no Movimento Militar do 25 de Abril.

Pela muita admiração e apreço que nutro pelo Cap. Salgueiro Maia, transcrevo aqui, no Memórias Futuras, esse documento histórico que é o Relatório da Operação Fim de Regime, e faço-o no dia 10 de Junho, Dia de Portugal e das Comunidades, este ano celebrado em Santarém pelo Presidente da República e em que o seu momento alto é exactamente junto à estátua de Salgueiro Maia.

NO DIA DA VITÓRIA



NO DIA DA OPERAÇÃO

SALGUEIRO MAIA
CAPITÃO DE CAVALARIA


Operação “FIM DE REGIME”
(Documento Confidencial)


Relatório da Operação:


MISSÃO:

- Instalar em Lisboa controlando os acessos ao Banco de Portugal, Companhia Portuguesa Rádio Marconi e Terreiro do Paço, estabelecer ligação com o PC na sede de ligação Fox Trot 2.

EXECUÇÃO:

- Conceito de Operação – Deslocar na madrugada de 25ABR74 um Esq. Rec., 10 Viaturas Blindadas e um Esq. de Atiradores a 160 homens com 12 Viaturas de Transporte de Pessoal, 2 Ambulâncias e um Jeep. Estas Forças devem iniciar o movimento pelas 03H00 e deslocarem-se o mais rapidamente possível afim de entrarem em posição ainda esta noite.


- DESENROLAR DA ACÇÃO:



Pelas 23h30, fui informado pelos Tens. Cavª. Santos Silva e Sardinha que um contacto do Movimento se encontrava na Pastelaria Bijou, tendo-me deslocado ao referido local encontrei o Sr. Capitão de Cavª. Valente e ADM. MIL. Torres que conduzi ao meu carro, tendo posteriormente estacionado em frente ao portão Chaimite na rua que conduz ao liceu.

Nessa altura recebi a Ordem de Operações assim como outras directivas. Durante o espaço de tempo que durou o contacto, fui vigiado e posteriormente seguido por dois homens que se deslocavam num Toyota Corola novo de cor amarela e matrícula LA-90-83.

No dia 24, pela manhã, foram contactados os primeiros Furriéis Mils. visto que a ideia da manobra era só do conhecimento de cerca de 6 oficiais do Quadro Permanente e 3 Oficiais Milicianos. Os Furriéis Mils. mostraram-se totalmente colaborantes e prontos a contactar outro pessoal.

Como a Escola estava vigiada pela D.G.S. e a fim de não se mostrar algo de diferente no movimento normal os graduados aliciados entraram no Quartel à civil e individualmente até ao fechar da Porta de Armas pelas 21H30, dirigindo-se imediatamente aos quartos onde se combinaram em pormenor as operações a desenrolar e o dispositivo a adoptar ao mesmo tempo que escutavam as emissões dos EAL e Rádio Renascença afim de ouvir o sinal de execução.

Pelas 00H45 o Ex.mo Major de CAV. Costa Ferreira, Cap. de Cav. Garcia Correia, Bernardo e Aguiar tentaram aliciar o 2º Comandante da EPC. Tem. Cor. Sanches, único oficial Superior que permanecia no Quartel.

Posteriormente, foram ao Gabinete todos os Oficiais para informar que o apoio ao Movimento era total mas não houve adesão do 2º Comandante.

Pelas 01H30 deu-se ordem para que todo o pessoal formasse na Parada onde cada Comandante de Esquadrão pôs ao corrente da situação o pessoal sob as suas ordens e da parte destes a adesão foi total ao ponto de quase a totalidade querer marchar sobre Lisboa.

Pelas 03H20 o pessoal encontrava-se equipado, armado e municiado e com duas rações de combate por homem.

Pelas 03H30 saiu-se da EPC com destino ao Terreiro do Paço que foi alcançado sem dificuldades de maior.

Pelas 05H30, no itinerário para o Terreiro do Paço passamos por viaturas da Polícia de Segurança Pública no Campo Grande e Polícia de Choque na Av. Fontes Pereira de Melo. As referidas Forças não se manifestaram.

Antes de alcançarmos Entrecampos fomos contactados pelo Ex.mo Major Arruda que se deslocava num Austin Mini creme. Na altura da entrada em dispositivo no Terreiro do Paço a P.S.P. que cercava a zona não interferiu na nossa acção e colaborou no isolar da mesma para com a população. Ao mesmo tempo entrava na zona um Pelotão reforçado da A.M.L./Chaimite do R. C. 7 comandado pelo Alf. Mil. David e Silva que aderiu de imediato ao Movimento.

O Ministério do Exército era guardado por 2 Pelotões da P.M. comandados pelo Asp. Saldida e que também, de imediato, se colocou sob as minhas ordens e foram ocupar o lado oposto do Ministério, conforme lhes ordenei. Deste pessoal, 7 homens permaneceram dentro do Ministério por as portas permanecerem fechadas tendo sido a estes homens que o Ministro do Exército deu ordens para abrir um buraco na parede com ligação ao Ministério da Marinha por onde fugiu.

Pelas 07H00 da manhã surgiu do lado da Ribeira das Naus um Pelotão de Reconhecimento Panhard do R. C. 7 comandado pelo Ex.mo Ten. Cor. Fernaud de Almeida que posto perante o dilema de ter que disparar ou se render optou pelo segundo.

A prisão do referido oficial foi efectuada debaixo da janela do Ministério com os ex-ministros a assistirem, tendo um deles várias vezes chamado o referido Oficial que lhes respondeu não poder ir por se encontrar preso. Pouco depois surgiram forças da G.N.R. do lado do Campo das Cebolas. Tendo chegado à fala com o Comando destas Forças aconselhei-o a abandonar a zona visto não ter potencial para se bater comigo, no que fui obedecido pouco depois de ocupar posições na zona apresentou-se-me às ordens o CMDT. da 1ª Divisão da P.S.P., Cap. Maltez Soares a quem ordenei que o pessoal da referida corporação não se devia manifestar mas sim contribuir para descongestionar o trânsito na zona.

Entretanto, pelas 09H00 foi pedido um reforço pelo B.C.5 para o Q. G. da R.M.L. pelo que mandei seguir para o local uma AML e uma ETT comandadas respectivamente pelo Alf. Graduado de Cavaleria Marcelino e Asp. Mil. Cav. Riciardi. Chegados ao Q.G. a força apresentou-se ao Sr. Cap. Inf. Bicho Beatriz CMDT da C.C.A.Ç. que ocupava a zona.

Por ordem do CMDT da CCAÇ foi colocada a AML no cruzamento da Av. António Augusto de Aguiar com a Av. Marquês da Fronteira e a ETT no cruzamento da Av. Duque d’Ávila com a Rua Marquês Sá da Bandeira mantendo-se nessas posições até às 19H00, quando foi mandada regressar para junto do meu Comando.

Pelas 10H00 surgiu uma força comandada pelo Brigadeiro Junqueira Reis e constituída por 4 C.C.M./47,1 da Compª de Caç. do R. I. 1 e alguns pelotões da P.M..

O referido Brigadeiro dividiu as forças em 2 núcleos que progrediram respectivamente pela R: Ribeira das Naus e pela R: do Arsenal. No 1º, junto às viaturas Blindadas comandadas pelo Alf. Mil. Souto Mayor acompanhado pelo Maj. de Cav. Pato Anselmo que depois de várias negociações se considerou prisioneiro. Antes disso tentei dialogar com o referido Brigadeiro no lado da Ribeira das Naus mas o mesmo exigia que eu fosse ter com ele atrás das forças que comandava e eu que ele viesse a meio do espaço que nos separava. Ordenou ao Alferes Milº de Cav. Souto Mayor que disparasse sobre mim com as peças do C.C. M/47 mas não foi obedecido tendo de imediato ordenado a prisão do referido oficial declarando-lhe que: “você já estragou a sua vida”. Deu ordem aos apontadores dos CC M/47 e aos atiradores que progrediam atrás dos Blindados também para abrirem fogo, mas não foi obedecido, nesta altura Oficial General disparou alguns tiros para o ar tentando que as nossas tropas lhe respondessem. Não houve troca de tiros.

As negociações com o Major Pato Anselmo foram orientadas pelo Major de Inf. Com. Jaime Neves, Cap. de Cav. Tavares de Almeida e Alf. Milº. De Cav. Maia Loureiro. Logo que o Major Pato Anselmo se rendeu mandou-se voltar as torres dos CC/47 e avançar na nossa direcção no que fomos obedecidos. Os AT. e P.M que progrediam aras dos CC/47 e outros que se encontravam no mirante antes do cais do Sodré vieram entregar-se.

Na R. do Arsenal as negociações foram feitas pelos Tens. Cavª Santos Silva e Assunção e Furriel Milº. Cavª J. Nunes do RC7 que se tinha passado para o nosso lado. O Furriel J. Nunes iniciou um movimento até junto dos CC/47 afim de informar o brigadeiro Reis de que devia vir a meio caminho estabelecer conversações. Tendo andado cerca de 5 metros precedido pelo Tem. Cavª Santos Silva, o Brigadeiro Reis abriu fogo na nossa direcção pelo que ambos se viram na contingência de ocupar as anteriores posições de defesa. Nessa altura o Tem. Cavª Santos Silva voltou à Praça do Comércio informando dos acontecimentos.

Na mesma altura em que o Ten. Santos Silva regressava à Praça do Comércio, o Ten. Cavª Assunção, alheio aos incidentes verificados dirigiu-se à Rua do Arsenal, procurou entabular conversações tendo-se dirigido ao outro lado pedindo a vinda a meio do caminho do Brigadeiro Reis o que não lhe foi concedido prosseguindo por isso até junto dos CC/47. Nessa altura, o Brigadeiro Reis mandou abrir fogo sobre o Ten. Cavª Assunção não tendo sido obedecido pelos soldados tendo-se o Ex.mo Coronel Romeiras interposto entre as armas e o referido Tenente aconselhando calma ao Brigadeiro reis que nessa altura agrediu o Ten. Assunção com 3 murros. Devido ao insucesso das conversações o Ten. Assunção voltou às suas linhas.

Depois das 09H00 começou a circular na nossa frente a fragata F-734. Dei ordem para que o 1º Oficial Superior da Marinha que chegasse junto ao cerco fosse conduzido à minha presença. Tendo-me surgido um Oficial Superior da Marinha cuja identificação não recordo, pu-lo ao corrente da situação pois necessitava de saber se devia abrir fogo contra o barco ou não pois que isso obrigava a alterar o dispositivo e a colocar as EBR em frente ao referido barco; o Oficial da Marinha declarou-me que ia saber o que se passava e posteriormente fui informado que o barco se encontrava ali por ordem do governo mas que não disparava contra nós.

Pelas 10H00 surgiu um grupo de Comandos, comandado pelo Ex.mo Major Jaime Neves entrou no Ministério a fim de prender os Ministros e passou revista aos mesmos. Também por esta altura surgiu o Exmo. Coronel Correia de Campos que passou a comandar as operações no Terreiro do Paço.

Posteriormente, chegou à civil à zona de operações o Exmo. Cor. Cavª Francisco de Morais que manifestou a sua total adesão ao Movimento e nos deu os parabéns. Tendo-se constatado a fuga dos Ministros e a não existência na zona ocupada de objectivos remuneradores, o Exmo. Cor. Correia de Campos propôs ao PC a escolha de outros objectivos no que foi atendido. Propus a divisão do nosso efectivo em duas forças, sendo uma formada pelo pessoal da EPC e outra pelos aderentes do RC 7, RL 2 e RI 1 comandadas pelos Tens de Cavª Cadete e Balula Silva, tendo-se estes dirigido para O QG da Legião Portuguesa na Penha de França. A minha coluna progrediu pela R: Augusta em direcção ao Rossio sendo aclamada em apoteose pela população durante todo o trajecto até ao Carmo.

Ao chegar ao largo do Rossio encontrei uma coluna auto-transportada, uma Companhia de atiradores do RI 1 cujo Comandante, Cap. Inf. Fernandes me declarou estar ali por ordem do governo para não me deixar passar mas estava às minhas ordens. Disse-lhe para seguir atrás da minha coluna até ao Carmo, no que fui obedecido.

Pelo meio-dia e trinta cerquei o Quartel da G.N.R. do Carmo. Foi bastante importante o apoio dado pela população no realizar destas operações pois que além de me indicarem todos os locais que dominavam o Quartel e as portas de saída deste, abriram portas, varandas e acessos a telhados para que a nossa posição fosse mais dominante e eficaz.

Também nesta altura começaram a surgir populares com alimentos e comida que distribuíram pelos soldados.

Passei novamente a comandar as forças pela ausência do Exmo. Cor. Correia de Campos que foi receber ordens ao PC.

Pouco depois, populares vieram informar-me que estávamos a ser cercados por 2 Companhias da G. N. R. e outra da Polícia de Choque, como não tinham viaturas blindadas não me preocupei com o assunto. Posteriormente fui informado que o Brigadeiro Junqueira dos Reis comandando viaturas blindadas e outra Companhia do R.I. 1 se encontrava também a cercar as nossas tropas. Pelas 14H00 surgiu-me um sargento do R.I.1 a dizer que o pessoal se encontrava disposto a passar para o nosso lado. Respondi-lhe que poderiam vir e indiquei-lhes o caminho. O pessoal do R.I.1 pôs as armas em bandoleira, misturou-se com a população e passou-se para o nosso lado. Tive também a informação que a tripulação de um CC tinha abandonado o mesmo.

Para complicar mais a situação das tropas fiéis ao governo surgiu um Esquadrão do R. I. 3 comandado pelo Cap. de Cavª. Ferreira que cercou o que restava das tropas do Brigadeiro Junqueira dos Reis.

Entretanto, recebi ordens para obrigar à rendição do Quartel do Carmo. A ordem foi escrita pelo Exmo. Major Otelo Saraiva de Carvalho e transportada pelo Cap. de Artilharia Rosado da Luz e dizia:

“Salgueiro Maia:

Tentámos fazer um ultimato ao QG/GNR para entrega do Presidente do Conselho sem grandes resultados. Os tipos desligam o telefone ou retardam a chamada dizendo que vão ver se as pessoas estão.

Com o megafone tenta entrar em comunicações e fazer um aviso – ultimato para a rendição. Eu já ameacei o Cor. Ferrari mas ele parece não ter acreditado. Com a auto-metralhadora rebenta a fechadura do portão para verem que é a sério. Julgo que não reagirão. Felicidades. Um abraço. Otelo”

Pelas 15H00 com megafone solicitei a rendição do Carmo em 10 minutos. Como não fui atendido passados que foram 15 minutos, ordenei ao Tem. Cavª Santos Silva para fazer uma rajada da torre do Chaimite que comandava sobre as mais altas janelas do quartel do Carmo.

Depois das rajadas solicitei a rendição do Quartel mas como surgiu junto a mim o Exmo. Cor. Cavª Abrantes da Silva, solicitei ao mesmo que fosse ao Quartel do Carmo dialogar, para que quem lá estava não pensasse que a guerra era feita por um simples Capitão. Quando o referido oficial entrou no Quartel ficou junto a nós um Major da GNR como refém. Como as negociações demorassem e a rendição era imperativa, passados que foram 15 minutos, ordenei nova abertura de fogo só com armas automáticas sobre a frontaria do Quartel. Continuavam sem responder às minhas solicitações de rendição e quando já tinha perdido as esperanças de resolver o problema sem utilização de armas pesadas, surgiram dois civis com credencial de Sua Ex.ª o General António de Spínola que entraram no Quartel para dialogarem com o Presidente do Conselho. Demoraram cerca de 15 minutos e saíram dizendo-me que tinham de se deslocar à residência do referido Oficial. Em face da situação ordenei ao Tem. Cavª Assunção para se deslocar no meu jeep e transportar os referidos civis.

Entretanto, desloquei-me ao Quartel onde verifiquei que a disposição do pessoal era de se render. Falei cerca de 15 minutos com o General Comandante do QG da GNR e outros oficiais superiores. Pedi audiência ao Prof. Marcelo Caetano no que fui atendido.

A conversa decorreu a sós e com grande dignidade. Nela, o Prof. Caetano solicitou que um oficial General fosse receber a transmissão de poderes para que o governo não caísse na rua.

Pelas 18H00 chegou ao Quartel do Carmo Sua Ex.ª o General António de Spínola acompanhado pelo Tem. Cavª Dias de Lima. Entretanto havia viaturas com combustível quase esgotados e necessidade de óleo para os motores e sistemas hidráulicos. O Sr. José Francisco, agente comercial, morador na Rua Serpa Pinto nº 8, 5º Esq. – Odivelas, que desde os primeiros momentos se colocara à disposição das NT (Nossas Tropas) e passara a servir de elemento de ligação, orientou uma viatura nossa no deslocamento até à zona de estação de Santa Apolónia onde em Estação de Serviço requisitámos combustível e os óleos necessários.

Pelas 19H00 levantámos cerca ao Carmo para nos dirigirmos ao Quartel da Pontinha tendo ficado na zona somente as forças do RI 1.

O Prof. Caetano e os outros elementos do governo, foram conduzidos na auto-metralhadora Chaimite “Bula”, que ao mesmo tempo deu escolta à viatura civil onde se deslocava Sua Ex.ª o General Spínola também em direcção à Pontinha.

Na Rua António Maria Cardoso pelas 15H00 agentes da DGS instalados na sede abriram fogo sobre a multidão que se aglomerava na referida rua tendo causado um morto e dois feridos que foram transportados nas nossas ambulâncias.

Pelas 21H00 atingimos a Pontinha e por não ter instalações disponíveis tivemos que nos deslocar para o Colégio Militar, onde O Ex.mo Brigadeiro Ramires pôs as instalações à nossa disposição e forneceu 3ª refeição a todo o pessoal.

Pelas 22H00, comandando 6 viaturas blindadas para o RL 2 às ordens do Exº Major de Cavª Monge com vista à rendição dos RL 2 e RC 7 e prisão dos respectivos Comandantes. Esta acção terminou pelas 01H30 do dia 26 de Abril de 1974 pelo que ficámos instalados no RC 7.

DIA D + 1

Pelas 08H30 seguimos em patrulhamento para o centro da cidade e pelas 11H00 tomámos conta do Edifício da defesa Nacional a fim de garantir a segurança das individualidades que lá foram tomar posse.

Recolhemos ao RC 7 pelas 19H00 e durante todo o tempo em que estivemos na Cova da Moura foi extraordinário o apoio da população às nossas tropas ao ponto de no prédio em frente à Defesa Nacional várias senhoras fizeram o almoço para todo o pessoal.

As forças que permaneceram no Colégio Militar ficaram sob o comando do Cap. de Cavª. Tavares de Almeida e pelas 09H30 escoltaram sua Ex.ª o General António de Spínola à RTP Lumiar, tendo regressado pelas 02H30. Pelas 03H30 seguiram para a Pontinha a fim de defender o PC.

Pelas 05H00 o Ten. Cavª Santos Silva deslocou-se para a Rua do Alecrim a fim de cercar o comando da DGS tendo regressado pelas 19H00.

Também pelas 19H30 o Cap. Cavª Tavares de Almeida recebeu ordem de regresso a Santarém, atendendo ao desgaste físico do pessoal sob o seu comando; chegaram ao seu destino tendo a quase totalidade da população de Santarém a recebê-los.

DIA D + 2

Cerca das 00h30 o Tem. Cavª Santos Silva recebeu ordens para com duas viaturas blindadas escoltar a Tomar o Exmo. Cor. Cavª Francisco Morais, Comandante da Região Militar de Tomar; chegaram a Santarém pelas 04H00 e a escolta para Tomar foi efectuada sob o comando do Cap. Cavª Cadavez.

Pelas 09H30 efectuamos um patrulhamento pelo centro da cidade que se encontrava calma tendo regressado cerca das 12H00 para voltar a sair pelas 14H00 a fim de escoltar os arquivos existentes na Escola Prática da DGS.

Às 19H00 chegou do RC 7 pessoal sob o comando do Cap. Cavª. Cadavez a fim de substituir todo aquele que se encontrava sob o meu comando, substituindo o mesmo nas 4 guarnições das 4 viaturas blindadas que continuaram no RC 7.

Pelas 20H00 regressei com as 3 EBR, uma ETT e o pessoal rendido tendo atingido Santarém às 22H30.


ADMINISTRAÇAO E LOGÍSTICA:

a) Distribuídos a cada homem rações de combate para os dias 25 e 26 ABR74;

b) Serviço de Saúde – 2 equipas constituídas por um enfermeiro e 1 maqueiro cada, a deslocar nas 2 ambulâncias.


COMANDO E TRANSMISSÕES:

- Posto de Comando em Jeep
- Rede de Comando, ver anexo Ordem Operações MOFA


DIVERSOS:

Fui depois informado por oficiais da GNR do Quartel do Carmo que o Prof. Marcelo Caetano desde as 08H30 do dia 25 declarava que se rendia se fosse um Oficial General a receber a rendição. Este facto não foi comunicado pelo Comandante do Quartel do Carmo e deste modo a rendição só se efectuou depois das 15H00.


O COMANDANTE DAS FORÇAS
(assinatura)

Fernando José Salgueiro Maia
CAP. CAVª.


O COMANDANTE
(assinatura)

Rui Costa Ferreira
Maj. Cavª




PREFÁCIOS DE MOITA FLORES E DE JOSÉ NIZA AO RELATÓRIO DE SALGUEIRO MAIA DA "OPERAÇÃO FREGIME"




O Testemunho Directo
(Francisco Moita Flores)

O documento que aqui se publica faz parte do conjunto de fontes históricas directas que explicam o 25 de Abril de 1974. Uma fonte decisiva e que nenhum historiador pode negligenciar ao abordar a Revolução dos Cravos. Por outro lado, é um testemunho de um comandante militar, de um herói cujas qualidades o tornaram um mito. E seguramente o Capitão mais amado do país. O José Niza explica, de seguida, de forma certa esta fonte da História, da nossa memória recente, dos nossos afectos. Agora, 35 anos depois do 25 de Abril, no ano em que a Escola Prática de Cavalaria é entregue ao povo de Santarém, este Testemunho Directo é uma bela maneira de evocar, de presentificar aquilo que sobre Abril não se disse. Enquanto Presidente
da Câmara desta luminosa cidade e cidadão que rememora emocionado esses dias de esperança límpida, sinto uma alegria extrema por deixar esta edilidade associada a este importante documento.


Um Relatório Militar
José Niza





Este Relatório da Operação “Fim de Regime”, escrito e assinado em 29 de Abril de 1974 por Fernando Salgueiro Maia, Capitão de Cavalaria e Comandante das Forças que da Escola Prática de Santarém se deslocaram a Lisboa para depor o regime e restaurar a democracia em Portugal, é um documento fascinante. Fascinante em todos os aspectos e em todas as leituras que dele possam fazer-se.

Muitas vezes acontece que as coisas essenciais, autênticas e puras são remetidas para trás dos biombos da História. E por lá ficam esquecidas.

Este Relatório chegou-me às mãos há 15 anos quando Santarém foi o palco da Homenagem Nacional a Salgueiro Maia e eu tive a honra de presidir à comissão organizadora. Foi nessa altura, já 29 anos passados sobre o 25 de Abril de 1974, que o li pela primeira vez. E espanta-me que hoje, 35 anos depois, este documento continue a ser desconhecido da esmagadora maioria dos Portugueses. Na verdade, é como se se tratasse de um texto inédito e esquecido, encontrado num qualquer armário da Escola Prática, agora vazia de heróis e de memórias.

O fascínio desta extraordinária história reside, antes de mais, na simplicidade objectiva e fria com que Salgueiro Maia relata os acontecimentos. Uma simplicidade tão simples que torna banal, rotineira e quase sem importância uma operação de enorme risco que podia ter custado a vida a muitos militares.

Outra vertente desta fascinante descrição reside no facto de Salgueiro Maia ser completamente omisso a qualquer tipo de abordagem polémica ou ideológica. O momento supremo da operação que consistiu na rendição e abdicação de Marcelo Caetano, Presidente do Conselho de Ministros, é relatada da seguinte forma: “Pedi audiência ao Prof. Marcelo Caetano no que fui atendido. A conversa decorreu a sós e com grande dignidade. Nela o Prof. Caetano solicitou que um oficial General fosse receber a transmissão e poderes para que o Governo não caísse na rua”.

Ponto final. Em três linhas de texto e quarenta e duas palavras, Salgueiro Maia – protagonista e testemunha de si próprio – contas como as coisas se passaram. E anote-se o respeito pelo inimigo derrotado. Ficámos também a saber, um a um, os nomes dos 160 heróis. Heróis anónimos, quase todos eles, uma espécie de soldados desconhecidos aos quais o Portugal de hoje tudo deve.

A divulgação deste Relatório, sobretudo para os mais novos, para os que nasceram depois do 25 de Abril de 1974, é um imperativo patriótico que agora se cumpre.

Viva Salgueiro Maia!
Viva o 25 de Abril!
Viva Portugal!

CHICO BUARQUE - TANTO MAR

O Povo brasileiro, na pessoa de um dos seus maiores artistas, Chico Buarque, associou-se à Revolução dos Cravos, em Portugal, nesta bela canção.

segunda-feira, junho 08, 2009

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BAÚ DAS RECORDAÇÕES


KENNY BALL - MIDNIGHT IN MOSCOW - (1962)


Canções Brasileiras


GAL COSTA - ALGUEM COMO TU

Composição musical de José Maria de Abreu e letra de Jair Amorim, lançada em 1952 por Dircinha Batista. José Maria de Abreu, nascido em 1911, foi autor de mais de 200 músicas .




CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS

ALAIN BARRIERE - ELLE ETAIT SI JOLIE




GEPY & GEPY - BODY TO BODY



Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 157






- Pensa que vale a pena, Comandante? – cepticismo na interrogação de Tieta.

- É o que eu também pergunto – intervém dona Laura preocupada.

- Mesmo que não sirva de nada, não vou deixar que destruam Mangue Seco sem que eu proteste.

A canoa corta a água, margeando o rio que se alarga à aproximação da foz. A paisagem ganha em beleza, avista-se ao longe o oceano, a correnteza torna-se mais rápida, a embarcação mais leve. A voz do Comandante baixa de tom mas conserva o acento de paixão, busca convencer:

- Escute, Tieta, pense no que lhe vou dizer. Se eu abrir a boca em Agreste para protestar, não vou conseguir nada, é a pura verdade. Vão me ouvir porque me respeitam, alguns ficarão de acordo, ninguém fará nada. O mesmo acontece com Barbozinha, não vai adiantar nada ele escrever tanta poesia. Talvez A Tarde publique algum poema, qual a serventia? Nenhuma. É capaz até que haja alguém quem venha divertir-se à custa dele, acusando-o de vira-casaca: primeiro elogiou, chamou os homens da companhia de Reis Magos, depois, quando seu nome apareceu no jornal, mudou de lado. Você sabe como é a língua do povo.

- Coitado de Barbozinha, está magoado. Quando soube da crónica, ficou feito doido, disse que estava desmoralizado, me deu um trabalhão…

- Foi atrás de Ascânio, está aí o resultado.

- Ascânio não tem culpa, ele também não sabia nada dessa tal… Como é mesmo o nome?

- Brastânio.

- Falaram em progresso, mandaram brindes, Ascânio vibrou, podia acontecer o mesmo com qualquer um.

- Não nego. Ascânio meteu na cabeça que tem de reerguer o município, repetir a administração do seu avô que foi o melhor Intendente de Sant’Ana do Agreste no tempo da carochinha. Botou luz na cidade, calçou as ruas, construiu o ancoradouro, o sobrado da Prefeitura. Basta ouvir falar em progresso, Ascânio fica maluco, com isso pode botar a perder tudo quanto nós temos: o clima, a beleza, a paz. Uma coisa eu lhe digo, Tieta: meu voto ele não terá para Prefeito.

- Não diga isso, Comandante. Ascânio com o amor que tem a Agreste pode fazer muita coisa boa…

- … e muita coisa ruim. Antes, eu não duvidava da honradez de Ascânio. Mas ele praticou um acto muito feio.

- E qual foi?

- Ele sabia dos planos dessa gente, viu as plantas, os projectos, estava a par de tudo e calou a boca, ficou tapeando todo o mundo com histórias de turismo…

- O coitado não sabia do perigo de tal indústria… parece que é o fim não é? Pelo que diz o jornal…

- Se é… Não pode haver nada de pior. Vamos dar por certo que ele não soubesse do perigo. Mas como explicar que continue a defender a Brastânio mesmo depois do artigo de Giovanni Guimarães? Hoje mesmo, de manhã, na Agência dos Correios, ele disse as últimas a mim e a Carmosina. Conheço o mundo, Tieta, aprendi que a pior coisa para um homem é a ambição do poder. Não há honradez que resista.


E AGORA, PS?





Eu coloco a pergunta nestes termos porque me parece que o resultado destas eleições foi uma questão que se colocou entre o eleitorado e o Partido Socialista.

Por outras palavras: os cidadãos, votantes e não votantes, não fizeram nenhuma opção pelo PSD, tão pouco tiveram a preocupação de lhe dar uma vitória eleitoral, não premiaram os protestos e reivindicações dos dois partidos de esquerda e deixaram, naturalmente, para o fim da lista, o CDS de Paulo Portas.

Os cidadãos portugueses estão descontentes com a vida, com o futuro, têm medo do dia de amanhã e estão confusos, muito confusos, porque já perceberam perfeitamente que o mal que os afecta sendo do país, é da europa e do mundo.

Eles sabem, porque não são parvos, que o Estado não é um poço sem fundo e que o país não pode ser alimentado com as migalhas dos muitos e variados programas de natureza social por mais indispensáveis que eles se mostrem neste momento.

O resultado destas eleições foi um recado, mais que um recado: um grito de alarme, de protesto, de apreensão, dirigido pelos cidadãos do país ao governo, muito especialmente a José Sócrates.

Os votos válidos nos partidos, e estou a pensar no PSD, que não é governo, que não toma medidas, que não é contestado nas ruas ou onde quer que seja, não representam nenhuma opção do eleitorado.

Os cidadãos estão tristes e apreensivos, sem esperança, quer votem nos seus partidos de eleição, num partido de opção, em branco, inutilizem o voto ou, pura e simplesmente, voltem as costas às urnas.

Os cidadãos estão tristes e preocupados com a vida, descrentes dos partidos e dos políticos, descrentes deles próprios, impotentes para darem a volta à situação das suas vidas.

Eles sabem perfeitamente que o governo é atingido nos seus interesses quando as fábricas fecham e lançam trabalhadores no desemprego - este é o cerne da crise - mas este era o momento para o grito de desespero a Sócrates.

O resultado destas eleições não expressou a vontade do eleitorado em ser governado em alternativa por Manuela Ferreira Leite, porque não era este o momento dessa opção, nem tão pouco, com os votos que atribuíram ao seu partido, num universo de 63% de abstensionistas, manifestaram essa intenção.

Por isso, a pergunta:

- “E agora, PS?” “E agora, José Sócrates?”“Esta votação teve a ver contigo e só contigo. Não vemos alternativas, é certo, mas tu tens que te esforçar, tens que dar explicações sem arrogâncias, com humildade democrática e que todos entendamos, concordando ou não. Sabemos que a crise te ultrapassa mas isso só aumenta as tuas responsabilidades, tuas e de todos os teus ministros. Dentro de poucos meses vamos
votar “a sério”, por agora fica aqui o nosso grito”.

domingo, junho 07, 2009

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CIDADE DAS FORMIGAS
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BAÚ DAS RECORDAÇÕES


FRANCE GALL - POUPÉ DE CIRE POUPÉ DE SON
(Festival da Canção da Eurovisão de 1965)


CANÇÕES BRASILEIRAS


SIMONE - QUEM É VOCÊ
Música do CD "Simone Bettencourt de Oliveira" de 1995. Composição de Isolda, brilhante compositora, neta e bisneta de maestres e compositores, tornar-se-ia uma das melhores compositoras de músicas românticas a partir dos anos 70.


CANÇÕES QUE SEMPRE RECORDAREMOS


BOBBY VINTON - HURT




BRENDA LEE - IS USUAL



Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 156






ONDE O COMANDANTE DÁRIO DE QUELUZ RECRUTA VOLUNTÁRIOS


Ao leme da canoa a motor, comandante Dário espera que Tieta conclua a leitura da crónica de Giovanni Guimarães. Ele e dona Laura passarão em Mangue Seco o Ano-Novo e a festa dos Reis. Tieta e Ricardo aproveitam a condução e a companhia: vão dar o empurrão final nas obras do curral do Bode Inácio, certamente atrasadas devido ao Natal, qualquer pretexto serve aos praieiros para não trabalhar. Tieta deseja inaugurar a biboca – assim a designa – antes de volta para São Paulo, marcada para imediatamente após a instalação da luz da Hidrelétrica; não pensara prolongar por tanto tempo a estada. Viera por um mês, terminará passando dois; para quem tem negócios a cuidar um absurdo. Para o Curral, mandou fazer em Agreste uma cama larga, colchão de lã de barriguda: nela se despedirá de Ricardo quando chegar a hora de partir. Por intermédio de Astério encomendou cadeiras e mesas dobradiças, camas de campanha; comprou redes na feira. Para os hóspedes: para o Velho e mãe Tonha, as irmãs, os sobrinhos, os amigos que utilizarão o Curral em sua ausência.

A primeira reacção de Tieta, após a leitura, deixou o Comandante alarmado. Devolvendo-lhe as páginas dactilografadas, ela comentou:

- Há um dinheirão a ganhar, Comandante, nessa história.

- Dinheirão a ganhar?

- Não foi o senhor mesmo quem me disse que essas terras do coqueiral não têm dono, são devolutas?

- Não é bem assim. Donos, elas têm, mas quais são ninguém sabe direito. Modesto Pires comprou uma parte, a que era do pessoal do povoado. Foi ele que me disse não ter comprado mais devido à confusão, o coqueiral tem não sei quantos donos, o que é o mesmo que não ter nenhum.

- Pois então: a gente compra esses terrenos para vender ao pessoal da Companhia. Compra por um vende por dez, por dez ou vinte. Filipe era um craque nessas operações.

- Deus me livre Tieta. Não quero ganhar dinheiro à custa da desgraça da minha terra.

- Comandante, se a gente não pode impedir, se não tem jeito a dar, pelo menos ganha um dinheirinho. Quando Ascânio começou com essa história de turismo, eu pensei em comprar terrenos por aqui.

- Primeiro eu não tenho com que comprar um gato morto; segundo, vai ser a maior dificuldade localizar os donos; terceiro – fez uma pausa antes de enunciar – não vou cruzar os braços, Tieta, vou partir para a briga. Sou o homem mais pacato do mundo, mas essa gente não vai poluir Agreste sem meu protesto. Isso não.

A canoa pesada, impelida pelo motor de pouca força, desce o rio sem pressa. A voz apaixonada do Comandante conquista a atenção de Ricardo. A princípio o seminarista seguira a conversa de ouvido distraído, o pensamento vogando na correnteza. Esses dias em Agreste, as festas de Natal, deixaram lembranças e marcas ténues mas persistentes. Ficaram-lhe na cabeça, fazem-se presentes e ele encontra sabor em recordá-las. Pela primeira vez, dera-se conta do interesse com que, na rua e na igreja, certas mulheres o fitavam. As moças, debruçadas nas janelas, seguiam-nos com os olhos, quando passava de batina, indo ajudar padre Mariano na missa ou quando atravessava a praça, shorte e camiseta, a caminho do rio. Cinira mordia os lábios ao vê-lo, suspirava; dona Edna, essa nem se fala; comia-o com os olhos mesmo na frente do marido. Na festa dos brindes de Natal, Ricardo sentia o contacto das ancas redondas de dona Edna, abalroando-o na confusão. A lembrança mais pertinaz e grata, porém é de Carol, semi-escondida atrás da janela, segurando a cortina e sorrindo para ele, os lábios abertos carnudos, os olhos húmidos. Ao percebê-lo vindo no passeio, Carol retirara-se da janela para melhor poder espiá-lo e para lhe sorrir – coisas defesas ao seu estado de amásia de ricalhaço. Mais moça e mais escura do que a tia, possuía o mesmo busto farto, idênticos quadris, poderosos e maneiros, igual exuberância de carnação, quem sabe a mesma alegria?

Em Agreste, Ricardo não se demora a pensar naqueles meneios e sorrisos, lábios mordiscando-se, ancas em navegação subtil. Desfaziam-se na fumaça do incenso. Retornam na canoa, e no espelho do rio ele enxerga faces e gestos, não lhe desagradam. À noite terá Tieta nos braços, sobre as dunas, como da primeira vez.

Na presença do Comandante e de dona Laura eram tia e sobrinho comportados. Ela dormia na cama de solteiro, ele na rede. Nas areias, no alto dos cômoros, porém, sumia o parentesco, o vento levava os ais de amor para o outro lado do oceano. Há pouquíssimos dias começara tudo aquilo, parecia uma enormidade de tempo, pois Ricardo, nesse interim, fizera-se outro. Quantos dias? Quantos anos? Curioso que jamais se houvesse sentido tão próximo de Deus, tão convicto da vocação sacerdotal. Por quê? Ao dizê-lo a Frei Timóteo, o franciscano não percebera a contradição no caso, ao contrário.

- Você pôs à prova sua vocação. Agora está em paz consigo mesmo.

Ricardo emerge desses pensamentos para escutar a veemente declaração do Comandante, a voz em crescendo:

- Vou brigar e quando eu brigo é de verdade.

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