sábado, junho 23, 2012

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ILHA DO CORVO 

A mais pequena do Arquipélago dos Açores  com uma área de 17 Km2. É o cimo de um vulcão que começou a emergir há cerca de 730.000 anos e cuja cratera com 1.000 metros de altitude colapsou  há 430 mil anos. A luta com piratas e corsários, umas vezes, a colaboração, outras, foi a sua história mais remota. Depois, a partir do Séc. XVIII, foi a pesca à baleia que os fez aproximar dos americanos pois eram muito apreciados pela sua coragem. Hoje têm apenas 430 habitantes mas em 1900 eram o dobro.




 Esta "loira" é francesa !


                                               
Um menino chega a casa a chorar depois de sair da escola.
- O que é que você tem? Pergunta a sua bonita e loira mãe francesa.
- Tive zero a geografia.
- Por quê?
- Não sabia onde é Portugal.
- Você não sabe? Que tolo, passe-me aí o mapa de França.
E a mãe procura, procura ...
- Oh! Meu Deus, este mapa não é pormenorizado o suficiente, passe-me o mapa da   região.
E a mãe procura, procura……...
- Nada neste mapa, passe-me o mapa do departamento.
E a mãe procura, procura ...
- Porra ... Portugal não pode estar muito longe. A governanta é portuguesa e vem trabalhar todos os dias de bicicleta.




























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Para que vivem as pessoas?...


GABRIELA
CRAVO
E
CANELA

Episódio Nº 132


Curiosos aglomeravam-se nas portas das lojas, dos armazéns, andavam para o jornal. Amâncio e Jesuíno não se haviam levantado sequer, a mesa em posição estratégica. A um tipo que se colocou na porta, impedindo-lhe a visão, Amâncio solicitou, sua voz macia.

 - Saia de frente faz, favor…

Como o homem não ouviu, apertou-lhe o braço:

 - Saia, já disse…

Depois do caminhão ter passado, Amâncio suspendeu o copo de cerveja, sorriu para Jesuíno.

 - Operação limpeza…

 - Bem sucedida…

Continuaram no bar, sem dar importância à curiosidade a cercá-los, gente parando no outro lado da rua para vê-los. Diversas pessoas haviam reconhecido jagunços de Amâncio, de Jesuíno, de Melk Tavares. E quem dirigira tudo, mandando os homens, fora um certo Loirinho, afilhado de Amâncio, desordeiro profissional que vivia a fazer baderna em casa de mulheres.

Clóvis Costa chegara quando as chamas começavam a ser contidas. Sacou do revólver, postou-se heróico na porta da redacção. Da mesa do bar, Amâncio comentou com desprezo:

 - Nem sabe segurar o revólver…

Começaram a acorrer os amigos, improvisaram aquele comício. Durante o resto da tarde vieram personalidades emprestar o seu apoio.

Mundinho apareceu com o capitão, abraçava Clóvis Costa. O jornalista repetia:

 - São os ossos do ofício…

Naquela tarde quem parou sob a janela de Glória, a satisfazer-lhe a fome de notícias, não foi o negrinho Tuísca, extremamente ocupado a comandar o bando de moleques em frente à redacção. Foi o professor Josué, perdida toda a prudência e respeitabilidade, a face mais pálida que nunca, cobertos de crepe os olhos românticos, de luto o coração. Malvina passeava com o engenheiro pela avenida, Rómulo apontava o mar, talvez a informasse sobre a sua profissão. A moça ouvindo interessada, de quando em vez a rir.

Nacib arrastara Josué até ao jornal, o professor demorara apenas uns minutos, o que realmente lhe interessava eram os acontecimentos da praia, a conversa de Malvina e do engenheiro.

Já as solteironas conversavam na porta da igreja, em torno do padre Cecílio, comentando o incêndio. A risada de Malvina ante o mar desinteressada de jornais queimados, acabou de enfurecer Josué.

Afinal não era o engenheiro o responsável? O recém-chegado nem se dignava interessar-se pela brusca agitação da cidade, indiferente, a conversar com Malvina.

Josué atravessou a praça, passou entre as solteironas, aproximou-se da janela de Glória, os lábios carnudos da mulata abriram-se num sorriso.

Boa tarde.

Boa tarde, professor. Que foi que houve?
(Clik na imagem. Em portugal estamos no Verão e a beira-mar é sempre um local agradável mas...cuidado com os escaldões na pele)


ENTREVISTA FICCIONADA COM JESUS
 CRISTO Nº 54 SOBRE O TEMA:
 “ O ABORTO MASCULINO?”


RAQUEL -  Aqui em Nazaré, vamos reiniciar a nossa entrevista com Jesus Cristo sobre a delicada questão do aborto. Vamos a perguntas directas, precisas. Vamos começar por definir a sua posição: Jesus Cristo, é a favor do aborto?

JESUS - Eu sou a favor da vida.

RAQUEL - Quero dizer, o senhor aceitaria que em alguns casos…

JESUS - Raquel, Deus deu-nos dois tesouros: a vida e a liberdade.  Somos livres para decidir nossas vidas.

RAQUEL -  Mas respeitando as leis de Deus que diz para não matar.

JESUS – Quererá alguma mulher eliminar o fruto do seu ventre? Se Alegrará por abortar? Eu acho que se uma mulher escolhe fazer isso só pode ser por um motivo muito grave.

RAQUEL - Tão  grave que possa justificar uma vida?

JESUS – Ouve, Raquel.  Deus quer que tenhamos vida, mas vida em abundância.

RAQUEL -  O senhor poderia explicar melhor?

JESUS -  É viver, não apenas vir a este mundo e respirar o ar. Viver é crescer numa família que te ama, comer bem, ser saudável, para estudar…

RAQUEL -  A vida em abundância de que o senhor fala é aquilo a que chamamos de qualidade de vida.

JESUS – Isso mesmo, Raquel. Mas diz-me, que  vida pode esperar por uma criança que vai nascer  mal formado? E a dos filhos que serão órfãs se a mãe morrer no parto? E uma menina que foi estuprada é justo que ela traga ao mundo o fruto dessa a violência? Quando o rei David abusou de Bate-Seba, Deus não permitiu que a criança nascesse desse crime.

RAQUEL - Bem, alguns sacerdotes ensinam que uma mulher deve dar à luz tantas crianças quantas Deus lhe envia.

JESUS - Mas essas crianças vêm de Deus ou do capricho de um homem mau?

RAQUEL – Venham de onde vierem, os sacerdotes insistem em que a mulher é obrigada a dar-lhes o nascimento.

JESUS
-  Claro, como eles não engravidam, falam sem compaixão. Falam sobre o que eles não sabem.

RAQUEL - Então, a mulher que aborta por razões graves, não é condenada e excomungado?

JESUS -  Acredita em mim, Raquel. Deus não julga. E sabes por quê?  Porque Deus é mãe. Sabes de alguma mãe que não entenda outra mãe numa situação difícil?

RAQUEL
– Insisto. Ao dizer isso, não está ignorando o quinto mandamento que ordena não matar?

JESUS  - Não é o mesmo cortar uma árvore ou deixar de regar uma semente? Deus não nos ordena a converter toda a semente em árvore.

RAQUEL – Pois, em alguns países, as mulheres que abortam são penalizados, vão para a cadeia acusadas de assassino.

JESUS -  São eles que matam quando fazem a guerra, quando oprimem os pobres ... Se defendem tanto a vida, por que não punir os homens quando eles abortam?

RAQUEL - Refere-se aos médicos que fazem abortos?


JESUS – Refiro-me aos homens que não cuidam da vida. No meu tempo, e em todos os tempos que têm sido muitos, como as areias do mar, as mulheres sempre foram obrigadas a criarem os seus filhos e filhas, sozinhas, sem apoio de qualquer homem. Onde estavam os pais dessas crianças? Engendraram os filhos e não lhes deram nem o pão nem o nome.

RAQUEL - A irresponsabilidade paterna…

JESUS – Em verdade te digo, o homem que engravida uma mulher e depois a abandona está a cometer aborto.  Os homens que forçam as mulheres, que não se preocupam com seus filhos ...  são esses os que ofendem a Deus, esses são os abortistas. Disto não falei no meu tempo mas falo agora que me dás essa oportunidade.

RAQUEL - Aborto masculino. O outro lado da moeda sobre este tema controverso.  Quantas mulheres optam por interromper a gravidez por causa dos homens? Aborto Masculino: um novo conceito, um desafio ético.

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sexta-feira, junho 22, 2012

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As deslumbrantes cores, sombras e contrastes do pôr-do-sol...


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Já não se pode fumar um cigarrinho ao ar livre, descansado?...


A GUERRA COLONIAL

O MEU
TESTEMUNHO


Quando vi o primeiro episódio da saga do jornalista Joaquim Furtado sobre a Guerra Colonial senti, pela primeira vez, que fazia parte da história deste país.

Os anos cavam uma distância que dá profundidade às lembranças e 50 anos depois as imagens desprendem-se dos seus protagonistas, ganham vida própria e entram para uma espécie de arquivo histórico mesmo de quem as viveu.

Bastava, de resto, reparar que os jovens que protagonizaram aquelas cenas já pouco tinham a ver com os senhores de idade que tendo tido a sorte de sobreviver, enriqueceram agora, com o seu testemunho, sóbrio e distanciado, as imagens que apenas davam uma pequena amostra da barbárie dos massacres e da violência de uma guerra traiçoeira.

Cheguei ao Úcua a 11 de Novembro de 1962 integrado no Batalhão de Caçadores 381, meses depois do massacre pelos guerrilheiros da UPA dos civis que ali viviam e trabalhavam e da vingança dos brancos que, posteriormente, fuzilaram os negros que drogados avançavam em direcção às balas das metralhadoras montadas sobre os jipes gritando, meio enlouquecidos, que “as balas dos brancos eram “maza” (àgua).

Uma loucura, uma autêntica loucura a que muitos não resistiram e acabaram por engrossar os espaços do Hospital Psiquiátrico de Luanda e hoje, alguns deles, já quase uma vida passada, continuam a sofrer os seus efeitos.

 A esta distância tudo é estranho e esquisito e a palavra que mais me ocorre é: lamentável!

Meses antes do massacre dos colonos brancos no norte de Angola a 15 de Março de 1961, tinha estado de visita a Angola integrado numa viagem de fim de curso do ICSPU chefiada pelo Prof. Hermano Saraiva, o mesmo que ainda hoje apresenta programas sobre a História Portuguesa.

Na região dos Dembos fomos recebidos pelos fazendeiros com a hospitalidade própria das gentes do norte de Portugal que, na ignorância do que lhes iria acontecer meses mais tarde, ouviram, encantados, o discurso inflamado de patriotismo do Prof. Saraiva.

O mesmo Sr. Professor que não teve coragem de prosseguir até ao fim a visita à Baixa do Kassange, no distrito de Malange, depois de nos termos cruzado com dois homens que ali eram obrigados a trabalhar para a Cotonang (Consórcio de capitais portugueses, ingleses e alemães) na cultura do algodão e que transportavam para o Hospital, a quilómetros de distancia, numa padiola, uma mulher e uma criança todos eles num estado sub-humano que nos levou a inverter a marcha e a levá-los ao destino.

O clima muito quente e de elevada humidade daquela região favorecia a cultura do algodão mas a sua exploração só era possível pelo recurso ao trabalho dos indígenas que para ali eram recrutados à força e mantidos num regime muito perto da escravatura pois não só eram obrigados a cultivar o algodão como a vendê-lo à Cotonang ao preço que esta fixava e que era baixíssimo.

Poucos meses depois daquele encontro, a 4 de Janeiro de 1961, registou-se ali uma revolta que se saldou pela morte de milhares de trabalhadores que reivindicavam melhores condições de trabalho, isenção do pagamento de impostos e a abolição do trabalho forçado.

Anos mais tarde, talvez 1977, em Portugal, como Funcionário Publico da Direcção Geral de Trabalho, numa visita a uma grande fábrica de fiação no nosso país, percebi que aquele algodão, produzido na Baixa do Kassange, naquelas condições desumanas e adquirido a preços fixados pelo comprador, fora da concorrência, tinha ajudado a viabilizar uma empresa que se mantivera a trabalhar com equipamentos dezenas de anos ultrapassado e que agora se mostrava incapaz de competir numa situação de concorrência normal no que à compra da matéria prima dizia respeito

Em última análise, o sacrifício da vida daqueles milhares de trabalhadores tinha sido inútil, de resultados contraproducentes porque ajudaram a inviabilizar empresas que se mantiveram  a trabalhar durante anos com a "batota" dos preços resultantes do trabalho forçado dos trabalhadores angolanos. 

Bem se poderia dizer que, mais uma vez, o crime não compensa.  

A política irresponsável e criminosa de um ditador, uma Administração cúmplice, cobarde e servil e uns milhares de colonos, voluntaristas, gente simples,  de trabalho, mas desinformada, manipulada e incapaz de compreenderem que o quadro para onde as suas vidas se tinham encaminhado estava  transformado numa armadilha fatal.

E tudo isto foi possível de acontecer por duas razões: uma, de raiz comezinha, evidente e que não foi percebida por quase um país inteiro: 

 - Aquela não era a nossa terra e aquela gente não era a nossa!

Viviam num Continente diferente, falavam línguas diferentes, a sua cultura, organização política e social eram diferentes como o eram, igualmente, a sua história e as suas crenças.

Nada tinham em comum connosco e não me consta que tenham solicitado a nossa presença para os governar.

A segunda razão, é que toda a gente ignorou os avisos, os sinais, as informações sobre o que iria acontecer, especialmente as mais altas autoridades administrativas de Angola que nada fizeram perante os ouvidos moucos do governo de Lisboa.

Talvez Salazar estivesse à espera do que inevitavelmente iria acontecer para poder mostrar depois, na Assembleia-Geral da Nações Unidas, as fotografias das pessoas trucidadas e assim justificar a necessidade da presença dos portugueses em África.

A legitimidade da guerra não era levantada pela generalidade dos soldados que me acompanharam, na sua maioria pouco menos que analfabetos, mas os seus desabafos e queixumes à boca pequena diziam muito, em termos reprovadores, do que lhes ia na alma sobre aquela guerra e que era muito diferente, pela certa, do que teriam dito se estivessem a defender a sua terra e a sua gente.

Satisfaz-me a ideia de que tudo fiz para os proteger mas, honestamente, tenho que admitir que o acaso nos foi muito favorável e sem a sua ajuda não teria sido possível regressarmos todos. 

Acima de tudo o país foi vítima de um grande logro ao qual se juntaram, ao longo dos anos a seguir ao início da guerra, um cortejo enorme de mentiras produzidas por generais e políticos que os deviam ter feito corar de vergonha.

Mas não havia outra saída, as mentiras alimentam-se umas às outras até que a realidade se encarrega de as desmascarar e o desfecho só poderia ter sido o que foi: o regresso em massa de mais de 500.000 portugueses desorientados, confusos, alguns deles, os mais velhos, incapazes de resistir ao infortúnio mas, na generalidade dos casos, a integração foi possível e aconteceu de uma forma mais fácil e rápida do que se poderia pensar numa demonstração de vitalidade que talvez ajude a explicar muita coisa neste país de oito séculos de existência. 


 Para testar a personalidade do empregado, o dono da empresa mandou pagar 500€ a mais no salário dele.

Os dias passam, e o funcionário não diz nada.
No mês seguinte, o patrão faz o inverso: manda tirar 500€.
Nesse mesmo dia, o funcionário entra na sala para falar com ele:

- Engenheiro, acho que houve um engano e tiraram-me 500€ do meu salário.

- Ah é?! Curioso porque no mês passado eu paguei-lhe 500€ a mais e você não comentou nada!
 
- Pois, mas é que um erro eu ainda tolero; agora dois acho que é um abuso!!!


GABRIELA
CRAVO
E
CANELA

Episódio Nº 131


Do fogo e da água com jornais e corações.

Alguns felizardos conseguiram retirar das cinzas molhadas exemplares quase perfeitos do jornal. O que o fogo não consumira empapara-se de água, trazida em latas e baldes por operários, empregados e voluntários de boa vontade, para apagar a fogueira. As cinzas espalhavam-se pela rua, voavam à brisa da tarde, um cheiro de papel queimado.

Trepado numa mesa transportada da redacção, o Doutor, pálido de revolta, a voz embargada, discursava para os curiosos amontoados ante o Diário de Ilhéus:

 - Almas de Torquemada, Neros de fancaria, cavalos de Calígula, apetece-lhes combater e vencer ideias, derrotar a luz do pensamento escrito com o fogo criminoso de incendiários, obscuros obscurantistas!

Algumas pessoas aplaudiam, a multidão de moleques em festa clamava, batia palmas, assobiava. O Doutor, ante tanto entusiasmo, o “pince-nez” perdido no paletó, estendia os braços para os aplausos, vibrante e comovido:

 - Povo, ó meu povo de Ilhéus, terra de civilização e de liberdade! Jamais permitiremos, a não ser que passem sobre os nossos cadáveres, venha aqui instalar-se a negra Inquisição a perseguir a palavra escrita. Ergueremos barricadas nas ruas, tribunas nas esquinas…

Do Pinga de Ouro, nas imediações, em mesa junta a uma das portas, o coronel Amâncio Leal ouvia o discurso inflamado do doutor, brilhava-lhe o olho são, comentou sorrindo para o coronel Jesuíno Mendonça:

 - O Doutor está inspirado hoje…

Jesuíno estranhou:

 - Ainda não falou dos Ávilas. Discurso dele sem Ávilas não presta…

Dali, daquela mesa, haviam assistido a todo o desenrolar dos acontecimentos. A chegada dos homens armados, jagunços trazidos das fazendas, postando-se nas imediações do jornal, esperando a hora. O cerco perfeito aos moleques saindo das oficinas com os exemplares. Alguns ainda tinham chegado a vozear:

 - Diário de Ihéus! Olha o Diário… A chegada do engenheiro, o Governo de cara no chão…

Os jornais sendo sequestrados dos moleques em pânico. Alguns jagunços entraram na redacção e nas oficinas, saíram com o resto da edição. Contava-se depois que o velho Ascendino, pobre professor de Português a ganhar uns cobres extras na revisão dos artigos de Clóvis Costa, dos tópicos e notícias, borrara-se todo de medo, as juntas numa súplica:

 - Não me matem, tenho família…

As latas de querosene estavam num caminhão parado junto ao passeio, tudo tinha sido previsto. O fogo crepitou, cresceu em labaredas altas, lambendo, ameaçador, as fachadas das casas; parava gente a olhar a cena sem compreender.

Os jagunços, para não perder o costume e garantir a retirada, deram umas descargas para o ar, dissolvendo o ajuntamento. Embarcaram no caminhão, o chauffer atravessou as ruas centrais a buzinar, quase atropelando o exportador Steveson. Ia numa disparada de louco, sumiu em direcção à estrada de rodagem.
(Click na imagem e segure-a enquanto as ondas não a levam)



INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES
 À ENTREVISTA Nº 53 SOBRE O TEMA:
 “ABORTO?” (9º e último)

Outras vozes mais sãs e mais piedosas

Pastores, padres, freiras, até mesmo bispos, desafiam e contradizem as posições do Vaticano sobre o aborto.  Essa é, por exemplo, a opinião do Cardeal Paulo Evaristo Arns, que durante anos serviu como arcebispo de São Paulo, Brasil.  Falando relativamente às gravidezes forçadas de estupro, disse:
 - “ O conselho que devemos dar a qualquer rapariga que foi estuprada é imediatamente ir ao ginecologista e faça o tratamento.  Não espere até que a criança esteja formada dentro de si. Este é o conselho que recebi do meu professor de moral há cinquenta anos.”
E esta é a opinião da religiosa católica e teóloga brasileira Ivone Gebara: 

- “A mulher não é obrigada a abortar ou não abortar, mas deve ter o direito de decidir”.  A sociedade nega esse direito às mulheres pobres, desde o momento em que lhes nega o direito à educação sexual. Se uma menina de 15 anos diz que não pode prosseguir com a gravidez, a sociedade tem o direito de se assumir como culpada, porque antes da gravidez a sua responsabilidade social não foi cumprida.  Então eu apoiaria a descriminalização do aborto, mas acompanhada por uma educação sexual.  Eu acredito que os estados não devem criminalizar o aborto e devem ser dadas condições às mulheres que procuram abortar por opção, para que possam fazer no menor tempo possível”.
Para entender o aborto a partir da perspectiva de dois eminentes ginecologistas cristãos recomendo o livro esclarecedor "A tragédia do aborto. Em busca de um consenso ", e José Aníbal Faúndes Barzelatto (Editora Terceiro Mundo, 2005). A escritora chilena Isabel Allende diz o seguinte:

- “O aborto é um problema que afecta quase todos, directa ou indirectamente, pelo menos uma vez na vida.  Ninguém é a favor do aborto.  É uma solução desesperada que não agrada a ninguém e sempre deixa cicatrizes emocionais e físicas.”

quinta-feira, junho 21, 2012


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Parecem paisagens sobrepostas...


O Conjunto MPB4 canta "Lamento" de Pinxiguinha/Vinícius de Morais num programa de 1977

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Lida com um crocodilo de quase 5 metros como se fosse o cachorrinho lá de casa...



N A R I ZT U P I D O

No Interior de Minas Gerais, um casal de amigos caminhava pelo pasto de uma fazenda, até que viram um cavalo transando com uma égua e a amiga logo perguntou...  
- Carzarbertoo..., o que é aquilo?
- Elis tão casalano, sô! A égua tá no cio, o cavalo percebeu isso e ta mandano brasa!!!
- Mais cumé co cavalo sabe que ela tá no cio, Arbertoo?
- Ooora!!, é co cavalo sente o cheiro da égua no cio, sô!
Passaram mais adiante, e tinha um bode transando com uma cabra, e a amiga perguntou de novo, e o amigo deu a mesma resposta.
Mais na frente, lá estava um boi pegando uma vaca, e ela tornou a perguntar, e ele deu a mesma resposta: que o boi também sentia o cheiro da vaca no cio.
Foi aí que a amiga perguntou:
- Ô Carzalbertoo, se eu perguntá uma coisa pr'ocê, ocê jura que num vai ficá chatiado?
- Craro que não, miga! Ocê pode perguntá!
 
- Ocê tá com o nariztupido?

GABRIELA
CRAVO
E
CANELA

Episódio Nº 130






João Fulgêncio cortava a   conversa:

- Não diga besteira, Maneca, você não entende disso. O livro é muito bom não tem nada de imoral. Essa moça é inteligente.

 - Quem é inteligente – quis saber o Juiz de Direito, abancando-se na cadeira deixada por Clóvis.

Falávamos de Eça de Queiroz, Ilustríssimo – respondeu João Fulgêncio apertando a mão do magistrado.

 - Um autor muito instrutivo… - Para o Juiz todos os autores eram «muito instrutivos». Comprava livros às bateladas, misturando jurisprudência e literatura, ciência e espiritismo. Segundo diziam comprava para enfeitar a estante, impor-se na cidade, não lia nenhum deles. João Fulgêncio costumava perguntar-lhe:

 - Então, digníssimo gostou de Anatole France?

 - Um autor muito instrutivo… - respondia imperturbável o Juiz.

 - Não o achou um tanto ou quanto irreverente?

 - Irreverente? Sim, um tanto ou quanto. Porém muito instrutivo…

Com a presença do Juiz retornaram as penas de Nacib. Velho debochado… Que fizera da rosa de Gabriela, onde a deixara abandonada? Era hora de crescer o movimento do bar, bastava de conversas.

 - Já vai, meu caro amigo? – interessou-se o Juiz – Boa empregada você arranjou… Eu lhe dou os meus parabéns. Como é mesmo o nome dela?

Saiu. Velho debochado… E ainda por cima a perguntar-lhe o nome de Gabriela, velho cínico, sem respeito ao cargo que ocupava. E ainda falavam dele para desembargador…

Ao despontar na praça, divisou Malvina a conversar com o engenheiro na avenida da praia. A moça sentada num banco, Rómulo de pé a seu lado. Ela ria numa gargalhada solta, Nacib nunca a escutara a rir assim.

O engenheiro era casado, a mulher estava louca num hospício. Malvina não tardaria a saber. Do bar, Josué também observava a cena, acabrunhado, ouvia a cristalina gargalhada a ressoar na doçura da tarde. Nacib sentou-se a seu lado, simpatizante de sua tristeza, solidário.

O jovem professor nem buscava esconder a dor de cotovelo a alma. O árabe pensou em Gabriela: O Juiz, o coronel Manuel das Onças, Plínio Araça, muitos outros a rondá-la. O próprio Josué não fazia por menos, a escrever-lhe rimas.

Uma calma infinita cobria a praça, tépida tarde de Ilhéus. Glória debruçava-se na janela. Josué, enfurecido de ciúmes, levantava-se, voltado para a janela proibida de rendas e seios. Tirava o chapéu para cumprimentar Glória, num gesto irreflectido e escandaloso.

Malvina ria na praia, doce tarde de sossego.

Correndo pela rua, arauto de boas e más novas, o negrinho Tuísca, arquejante, parava junto à mesa:

 - Seu Nacib, seu Nacib!

 - O que é, Tuísca?

 - Tocaram fogo no Diário de Ihéus.

 - O quê?

- No prédio? Nas máquinas?

 - Não, senhor. Nos jornais, juntaram um monte na rua, jogaram querosene, foi uma fogueira que nem noite de São João.
(Click na imagem. Está encontrada a rosa que o juiz tirou do cabelo da Gabriela...)


INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES
 À ENTREVISTA Nº 53 SOBRE O TEMA:
“ABORTO?” (8)

Por que tanta severidade?

Não é fácil de entender em profundidade a insistente e severa intolerância de alguns clérigos quando se opõem a todos os abortos em todas as circunstâncias.  Além das razões derivadas da misoginia tradicional eclesiástica, o desejo de controlar a sexualidade das mulheres ou de  restringir a sua liberdade de consciência, o teólogo alemão Eugen Drewermann, psicanalista de profissão, diz que uma das razões mais íntimas e escondidas que podem explicar esta posição é:

 - Numa perspectiva psicanalítica está bem motivado o rigor com a estrita proibição de   "matar a criança no ventre de sua mãe" até à   comparação incrível e teoricamente  incompreensível do Cardeal Joseph Hoffner (1986), que coloca no mesmo plano o aborto e o extermínio em massa de tantos "vidas inúteis" nas câmaras de gás do regime nazi.

Para entender esta motivação, é preciso pensar no que foi a vida dessa pessoas com uma experiência da primeira infância muito curta que, quando chegada a maturidade, se torna numa evidência contundente de que se realmente existem deve-se somente à vontade heróica do sacrifício da própria mãe. 

Consequentemente, o que há a esperar de alguém que chega a essa evidência é que, como um outro Abel, assuma a sua disponibilidade pessoal para o sacrifício.  Então, quando se tornam num sacerdote de um Deus exigente, ele pode exigir a todos, especialmente às mulheres e mães, que actuem da mesma forma e ofereçam, livremente, o seu sacrifício pessoal.

quarta-feira, junho 20, 2012

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Parte da montanha virou rocha incandescente... Será?



GERALDO VANDRÉ
O ano de 1968 inicia-se prometendo ser um período de transformações radicais interna e externamente, e isso torna-se visível quando jovens de vários países, inspirados nas manifestações em Paris ocorridas no mês de Maio, iriam às ruas propor mudanças e uma sociedade livre. Nesse contexto chega às lojas de Discos do Brasil o LP Canto Geral, de Geraldo Vandré, o disco mais politicamente engajado dos anos duros da ditadura militar.
Logo na primeira faixa na música Terra Plana, ele mostra suas intenções ao afirmar: "deixo claro que a firmeza de meu canto vem da certeza que tenho, de que o poder que cresce sobre a pobreza e faz dos fracos riqueza, foi que me fez cantador", segue-se depois Companheira e Maria Rita, duas canções que referem-se a cumplicidade do amor, seja nas aflições ou nas dificuldades da vida proletária.
Geraldo Vandré atinge o limite máximo de sua militância ideológica, em textos panfletários que se tornaram fundamentais para se compreender aquele período histórico, vejamos alguns: "O terreiro lá de casa não se varre com vassoura, varre com ponta de sabre e bala de metralhadora" (Cantiga brava); "é a volta do cipó de arueira no lombo de quem mandou dar" (Arueira); "já soltei o meu cavalo, já deixei a plantação, eu já fui até soldado e hoje muito mais amado sou chofer de caminhão" (Ventania).

     Canto Geral, é um disco que marcou uma época, lançado em 1968 antes do AI 5. Sua mensagem continua firme e forte até hoje, precisando no entanto ser redescoberto pelas novas gerações que estão em busca de seus ideais e carecem de um manifesto musical que os impulsione e possa mostrar-lhes o caminho. É ouvir e conferir. À venda nas melhores lojas do ramo! -  Luiz Américo Lisboa Junior
GERALDO VANDRÉ - PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES


Talvez você já conheça
 mas só faz bem repetir…


Campanha publicitária do Citibank espalhada pela cidade de São Paulo através de Outdoors:

 - Crie filhos em vez de herdeiros.

 
- Dinheiro só chama dinheiro, não chama para um cineminha, nem para tomar um sorvete.

 - Não deixe que o trabalho sobre sua mesa tampe a vista da janela.

- Não é justo fazer declarações anuais ao Fisco e nenhuma para quem você ama.
 
- Para cada almoço de negócios, faça um jantar à luz de velas.
 
- Por que as semanas demoram tanto e os anos passam tão rapidinho?
 
- Quantas reuniões foram mesmo esta semana? Reúna os amigos.
 
- Trabalhe, trabalhe, trabalhe… mas não se esqueça, vírgulas significam pausas... e quem sabe assim você seja promovido a melhor ( amigo / pai / mãe / filho / filha / namorada / namorado / marido / esposa / irmão / irmã.. etc.) do mundo!
 
- Você pode dar uma festa sem dinheiro. Mas não sem amigos.

E para terminar:

"Não eduque seu filho para ser rico,
eduque-o para ser feliz.
Assim, ele saberá o valor das coisas e não o seu preço."

        "Há os que se queixam do vento. Os que esperam que ele mude... E os que procuram ajustar as velas." 


GABRIELA
CRAVO
E
CANELA

Episódio Nº 129



O fazendeiro coçou a cabeça de cabelos mal penteados:

 - Vim aqui para lhe vender meu cacau, seu Mundinho, vendi bem vendido, estou contente. Tou contente da conversa também, fiquei sabendo do pensar de vosmicê.

 - Fitava o exportador. Voto com Ramiro há bem vinte anos. Não precisei dele nos barulhos. Quando cheguei em Rio do Braço não tinha ainda ninguém, os que apareceu depois era uns bunda-suja, corri com eles sem precisar ajuda. Mas estou acostumado a votar com Ramiro, nunca me fez mal. Uma vez que buliram comigo ele me deu razão.

Mundinho ia falar, um gesto do coronel o impediu:

 - Não prometo nada para vosmicê, só prometo para cumprir. Mas a gente ainda volta a conversar. Isso, eu garanto a vosmicê.

Retirou-se deixando o exportador irritado, a lastimar o tempo perdido, uma boa parte da tarde. Assim disse ao Capitão, que apareceu momentos após a partida do senhor indiscutido de Rio do Braço:

 - Um velho imbecil a querer casar-me com uma neta de Ramiro Bastos. Gastei meu latim inutilmente. «Não prometo nada mas volto a conversar outra vez». – Imitava o acento cantado do fazendeiro.

 - Disse que ia voltar? Excelente sinal – animava-se o Capitão – Meu caro, você ainda não conhece os nossos coronéis. E, sobretudo não conhece Altino Brandão. Não é homem de meias conversas. Teria lhe dito na cara se sua lábia não o tivesse impressionado. E se ele nos apoiar…

Na Papelaria prolongava-se a conversa. Clóvis Costa cada vez mais inquieto: passava das quatro horas e não apareciam os jornaleiros com o Diário de Ilhéus:

 - Vou à redacção ver que diabo é isso.

Moças do Colégio das Freiras, Malvina entre elas, interrompiam o disse-que-disse, folheavam livros da «Biblioteca Cor-de-Rosa», João Fulgêncio as atendia.

Malvina corria com os olhos a prateleira de livros, folheava romances de Eça, de Aloísio Azevedo. Iracema aproximava-se, risinhos maliciosos:

 - Lá em casa tem o crime do Padre Amaro. Peguei para ler, meu irmão tomou, disse que não era leitura pra moça… - O irmão era académico de Medicina na Baía.

 - E porque ele pode ler e você não? – Cintilaram os olhos de Malvina, aquela estranha luz rebelde.

 - Tem o Crime do Padre Amaro, seu João?

 - Tem, sim. Quer levar? Um grande romance…
 - Vou levar, sim senhor. Quanto custa?

Iracema impressionava-se com a coragem da amiga:

 - Você vai comprar? O que não vão dizer?

 - E que me importa?

Diva comprava um romance para moças, prometia emprestar às demais. Iracema pedia a Malvina:

 - Depois você me empresta? Mas não conta a ninguém. Vou ler em sua casa mesmo.

 - Essas moças de hoje… – comentou um dos presentes. – Até livro imoral elas compram. É por isso que há casos como o de Jesuíno.
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INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES
 À ENTREVISTA Nº 53 SOBRE O TEMA:
 “ABORTO?” (7)

O Mais Grave

As posições oficiais da religião católica sobre o aborto são as mais rígidas de todas porque o Vaticano não só é contrário ao aborto como também se opõe à anticoncepção colocando as mulheres num beco sem saída, mesmo quando se sabe que o planeamento familiar a partir dos vários métodos contraceptivos, é a melhor prevenção do aborto, porque evita uma gravidez indesejada. O Vaticano opõe-se a métodos de contracepção "artificiais" e só aceita o método "Rhythm", que é ineficiente e complicado, rejeitando até mesmo o preservativo e a "pílula do dia seguinte.
A mensagem contida em todas estas proibições – não referindo já suspeitas e proibições relativamente à educação sexual adequada nas escolas, e que o destino das mulheres é “aceitar todos os filhos que Deus enviar"
Nenhuma das outras religiões compartilha as ideias católicas do Vaticano sobre a contracepção. E, praticamente, todos permitem e promovem métodos artificiais de controle da natalidade, sem ensinarem que o seu uso seja incompatível com as crenças religiosas.

terça-feira, junho 19, 2012

IMAGEM

Um leme esquecido... Ao fundo a outra banda do rio Tejo


A propósito dos recentes acontecimentos em torno da Banca, a quem o governo está injectando milhares de milhões enquanto a população espanhola se afunda na miséria.

Com final feliz é outra coisa...


Um homem entrou num Banco, foi ao balcão e disse:
-'Eu quero abrir a porra duma conta, na merda deste banco, s'faxavor!'

A rapariga do balcão, estupefacta, perguntou:
-'O Senhor desculpe, mas acho que não ouvi bem o que disse? Não se importa, de repetir?'

-'Bem, veja lá se ouve desta vez, caralho! Eu disse, que quero abrir a porra de uma conta, na merda deste banco! Comé?? Demora muito?'

Ela pediu licença, e foi contar a desagradável situação ao gerente, que concordou que ela não era obrigada a ouvir tal palavreado.

Dirigiu-se com ela ao balcão, e interpelou o homem:
-'O Senhor importa-se de me dizer o que se passa? Há algum problema? '

-'F*d*-se, não há merda de problema nenhum! Eu é que ganhei os 75 milhões no Euromilhões e quero abrir a porra duma conta, na merda deste banco!'

-'Ah! Percebo perfeitamente... e esta p*ta está a complicar as coisas ao Senhor Doutor, não é verdade?

 GERALDO VANDRÉ (CONTINUAÇÃO)

 Mas com todo esse clima o Brasil conseguia sobreviver com uma efervescência cultural extraordinária, e a porta vez da insatisfação era capitaneada pela música popular que vivia momentos gloriosos, principalmente em função do sucesso dos Festivais que eram realizados pelas emissoras de televisão. A produção musical brasileira estava dividida em dois extremos, aqueles que se vinculavam ao iê iê iê sob a influencia dos Beatles e os outros que se preocupavam com as questões sociais e que passariam a história como os compositores de uma vertente denominada de música de protesto. 
O maior expoente dessa canção arrebatadora e que criticava abertamente o regime foi Geraldo Vandré, artista típico de uma geração contestadora e que sabia muito bem qual o seu papel na sociedade e a importância da mensagem que a sua arte tinha para fazer valer seus direitos de cidadão livre em face de uma repressão contínua, aliando a tudo isso os graves problemas de ordem social, política e económica em que vivia o país. (continua - Luís Américo Lisboa Junior )

GERALDO VANDRÉ - MARIA RITA


GABRIELA
CRAVO
E
CANELA

Episódio Nº 128


 - Vosmicê tem muito merecimento… Tem outros que chega aqui, só visam ganhar dinheiro, não pensam em mais nada. Vosmicê pensa em tudo, nas necessidades da terra. Pena vosmicê não ser casado.

 - Porquê, coronel? – Tomava da garrafa, quase uma obra de arte, ia servir novamente.

 - Vosmicê me desculpe… Coisa fina essa bebida. Mas, para ser franco com vosmicê, prefiro uma cachacinha… Esse trago é enganador: cheiroso, açucarado, parece até bebida para mulher. E é forte como o cão, embebeda sem a gente se dar conta. Cachaça, não, a gente sabe logo, não engana ninguém.

Mundinho tirou do armário uma garrafa de cachaça.

 - Como prefira, coronel. Mas porque eu devia ser casado?

 - Pois, se vosmicê me consente, vou lhe dar um conselho: case com moça daqui, filha da gente. Não tou lhe oferecendo filha minha; estão as três casadas e bem casadas, graças a Deus. Mas tem muita moça prendada aqui e em Itabuna. Assim todo o mudo vê que vosmicê não está aqui de visita, só para se aproveitar.

 - Casamento é coisa séria, coronel. Primeiro é preciso encontrar a mulher com quem se sonha, o casamento nasce do amor.

 - Ou da necessidade, não é? Nas roças, trabalhador casa até com toco de pau, se vestir saia. Pra ter mulher em casa, com quem deitar, também pra conversar. Mulher tem muita serventia, o senhor nem imagina. Ajuda até na política. Dá filho pra gente, impõe respeito. Pró resto, tem as raparigas…

Mundinho ria:

 - O senhor está querendo fazer-me pagar um preço muito alto pelas eleições. Se depender de casar-me, temo estar desde já derrotado. Não quero ganhar assim, coronel. Quero ganhar com o meu programa.

Falou-lhe então, como já o fizera com tantos outros, sobre os problemas da região, apresentando soluções, rasgando estradas e perspectivas, num entusiasmo contagiante.

 - Vosmicê está coberto de razão. Tudo o que vosmicê disse é como as tábuas da lei: verdade pura. Quem pode contradizer? – Agora fitava o chão, muitas vezes sentira-se magoado contra o abandono em que vivia o interior, esquecido pelos Bastos. – Se o povo daqui tiver juízo, o senhor vai ganhar. Se o Governo lhe reconhece, não sei, isso já é outra conversa…

Mundinho sorriu, pensando ter convencido o coronel.

 - Só que tem uma coisa: o senhor tem a razão, mas o coronel Ramiro tem as amizades, fez benefício a muita gente, tem muito parente e compadre, todo mundo está acostumado a votar com ele. Vosmicê me desculpe: porque vosmicê não faz um arranjo com ele?

 - Que arranjo, coronel?

 - Se junta os dois? Vosmicê com a sua cabeça, seus olhos de ver, ele com o prestígio, os eleitor. Ele tem uma neta bonita, vosmicê não conhece? A outra ainda é muito menina… Filhas do Dr. Alfredo.

Mundinho enchia-se de paciência:

 - Não se trata disso, coronel. Eu penso de uma forma, o senhor conhece minhas ideias. O coronel Ramiro pensa de outra, para ele governar é apenas calçar rua e ajardinar a cidade. Não vejo acordo possível. Eu estava lhe propondo um programa de trabalho, de administração. Não é para mim que peço os seus votos, é para Ilhéus, para o progresso da região do cacau.
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