quarta-feira, junho 20, 2012


GABRIELA
CRAVO
E
CANELA

Episódio Nº 129



O fazendeiro coçou a cabeça de cabelos mal penteados:

 - Vim aqui para lhe vender meu cacau, seu Mundinho, vendi bem vendido, estou contente. Tou contente da conversa também, fiquei sabendo do pensar de vosmicê.

 - Fitava o exportador. Voto com Ramiro há bem vinte anos. Não precisei dele nos barulhos. Quando cheguei em Rio do Braço não tinha ainda ninguém, os que apareceu depois era uns bunda-suja, corri com eles sem precisar ajuda. Mas estou acostumado a votar com Ramiro, nunca me fez mal. Uma vez que buliram comigo ele me deu razão.

Mundinho ia falar, um gesto do coronel o impediu:

 - Não prometo nada para vosmicê, só prometo para cumprir. Mas a gente ainda volta a conversar. Isso, eu garanto a vosmicê.

Retirou-se deixando o exportador irritado, a lastimar o tempo perdido, uma boa parte da tarde. Assim disse ao Capitão, que apareceu momentos após a partida do senhor indiscutido de Rio do Braço:

 - Um velho imbecil a querer casar-me com uma neta de Ramiro Bastos. Gastei meu latim inutilmente. «Não prometo nada mas volto a conversar outra vez». – Imitava o acento cantado do fazendeiro.

 - Disse que ia voltar? Excelente sinal – animava-se o Capitão – Meu caro, você ainda não conhece os nossos coronéis. E, sobretudo não conhece Altino Brandão. Não é homem de meias conversas. Teria lhe dito na cara se sua lábia não o tivesse impressionado. E se ele nos apoiar…

Na Papelaria prolongava-se a conversa. Clóvis Costa cada vez mais inquieto: passava das quatro horas e não apareciam os jornaleiros com o Diário de Ilhéus:

 - Vou à redacção ver que diabo é isso.

Moças do Colégio das Freiras, Malvina entre elas, interrompiam o disse-que-disse, folheavam livros da «Biblioteca Cor-de-Rosa», João Fulgêncio as atendia.

Malvina corria com os olhos a prateleira de livros, folheava romances de Eça, de Aloísio Azevedo. Iracema aproximava-se, risinhos maliciosos:

 - Lá em casa tem o crime do Padre Amaro. Peguei para ler, meu irmão tomou, disse que não era leitura pra moça… - O irmão era académico de Medicina na Baía.

 - E porque ele pode ler e você não? – Cintilaram os olhos de Malvina, aquela estranha luz rebelde.

 - Tem o Crime do Padre Amaro, seu João?

 - Tem, sim. Quer levar? Um grande romance…
 - Vou levar, sim senhor. Quanto custa?

Iracema impressionava-se com a coragem da amiga:

 - Você vai comprar? O que não vão dizer?

 - E que me importa?

Diva comprava um romance para moças, prometia emprestar às demais. Iracema pedia a Malvina:

 - Depois você me empresta? Mas não conta a ninguém. Vou ler em sua casa mesmo.

 - Essas moças de hoje… – comentou um dos presentes. – Até livro imoral elas compram. É por isso que há casos como o de Jesuíno.
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