sábado, fevereiro 20, 2010


UM ALENTEJANO CURIOSO...





Não se sabe como, mas um turco conseguiu pegar dinheiro emprestado de um Judeu.

Acontece que o Turco nunca pagava nenhuma das suas dívidas e o judeu nunca deixava de receber o que lhe deviam.

O tempo passa, o turco enrolando e o Judeu atrás dele.

Até que um dia eles cruzam-se no café de um alentejano e começaram uma discussão.

O turco encurralado não encontrou outra saída, pegou um revólver encostou na própria cabeça e disse:

- Eu posso ir para o inferno, mas não pago esta dívida!

E puxou o gatilho, caindo morto no chão.

O judeu não quis deixar por menos, pegou o revólver do chão, encostou a sua cabeça e disse:

- Eu vou receber esta dívida, nem que seja no inferno!

E puxou o gatilho, caindo morto no chão.

O alentejano, que observava tudo, pegou o revólver do chão, encostou na cabeça e disse:

- Pois eu não perco esta briga por nada!

VÍDEO

Sem comentários...

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LES CHATS SAUVAGES - DARNIERS BAISERS

DEMIS ROUSSOS - WHEN I'M A KID


DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS

EPISÓDIO Nº 50



Paixão romântica, também. A preclara punha-lhe olhos langorosos, suspirava, Vadinho a rondá-la no pátio das visitas do colégio, triste como uma prisão, lúgubre prisão de meninos. Ela lhe dava chocolates e biscoitos do embrulho trazido para o filho. Vadinho ofertou-lhe uma orquídea às escondidas, roubada à estufa do jardim dos padres. Num dia de saída (o primeiro domingo do mês e Vadinho jamais saía, ninguém o vinha buscar, não tinha para onde ir) ela levou-o a almoçar a sua casa, palacete no Largo da Graça, apresentando-o ao marido:

- Colega de Zezito, órgão, não tem família…

Zezito era meio debilóide, criava preás e nos domingos de saída todo seu tempo era pouco para atender, no porão da casa, aos pequenos roedores.

O comerciante a roncar a sesta, Vadinho viu-se arrastado a um quarto de costura, envolto em beijos e carinhos, possuído. “Meu menino, meu colegial, meu aluno, sou tua professora, ai meu donzelo” e, consciente da sua condição de mestra, ela lhe ensinava – e como ensinava! Cresceu a paixão, insaciável e brutal. Ela desfeita em ais e juras – nunca amara ninguém, repetia-lhe cínica e tranquila. Vadinho era seu primeiro amante, e nada no mundo almejava senão partir com ele para viverem os dois aquele grande amor, ocultos num recanto qualquer. Pena estar ele interno num colégio…

- Se eu saísse do colégio você vinha mesmo viver comigo?

Fugiu do colégio, apareceu no princípio da noite para buscá-la, para libertá-la do “bestial burguês” que tanto a fazia sofrer e humilhava possuindo-a.

Obtivera mísero quarto numa pensão de última ordem, comprara pão, mortadela (adorava mortadela), uma zurrapa vendida como vinho e um buquê de flores. Ainda lhe sobraram alguns mil-réis, os colegas mais íntimos, a par do caso e solidários, haviam-se reunido para financiar-lhe a fuga e o amor. Para eles Vadinho era um retado. (esta expressão tem duplo significado na Bahia: pessoa boa, legal ou então, ligado ao verbo estar – está retado, significa estar irado, bravo).

A prezada senhora quase morre de susto quando ele lhe invadiu o lar onde o marido na outra sala palitava os dentes e lia os jornais. Vadinho endoidara com certeza – disse ela indignada. Não era uma aventureira para largar casa, esposo e filho, seu conforto e seu conceito na sociedade, para ir viver amásia de uma criança, na miséria e na desonra. Vadinho não tinha juízo, voltasse para o colégio, talvez nem houvessem dado conta de sua escapadela, e no próximo domingo de visitas, ah!, ela lhe prometia…

Não quis Vadinho ouvir a promessa, estava possesso de ira e de vexame, fora ludibriado. Sem levar em conta a proximidade dos cornos do comerciante, agarrou a madame pelos cabelos longos e oxigenados, aplicou-lhe uns tabefes na cara, gritou-lhe nomes, num esbregue de tamanhas proporções a ponto de reunir, em animada assistência, não apenas o esposo e os criados, mas também os vizinhos do elegante Largo da Graça.

Segundo o testemunho ulterior de Vadinho, naquele dia se fizera homem, e homem para sempre escarmentado.

Pela mão desse escândalo penetrou Vadinho na vida nocturna da cidade, rapazola de dezassete anos, ao qual se afeiçoara Anacreon, batoteiro afamado, carteador de fino estilo. Ninguém melhor para revelar ao moço inexperiente as subtilezas e as finuras da ronda, do vinte-e-um, do bacará, do póquer, para introduzi-lo na dialética das mesas de roleta e na mística dos dados, pois Anacreon não era apenas competente, era também um coração leal, de frente para a vida, um tanto quixotesco.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010


COISAS
DE
ÍNDIOS…





Um bravo indiosinho, filho do Chefe Grande Cabeça e Grossa, aproximou-se do pai numa manhã de radioso Sol e perguntou-lhe:

- Meu pai, por que é que os nomes dos índios são tão compridos e não são como os dos caras pálidas que se chamam Zé, Manel ou João?

- Meu filho, os nossos nomes são um símbolo da beleza natural de tudo o que acontece e representa a riqueza da nossa cultura na sua forma de expressão.

- Como assim?...

- Por exemplo, a tua irmã chama-se Lua Cheia no Grande Lago porque foi feita numa noite em que eu e a tua mãe andávamos a passear à beira dele numa noite de luar, nos abraçamos, beijamos e o amor gerou a vida dela.

- Hum…

- Olha o teu irmão chama-se Grande Corcel das Pradarias Imensas porque um dia vinha com a tua mãe a regressar à aldeia pela pradaria num dia de muito sol, resolvemos descansar, abraçamo-nos, beijamo-nos e ele foi gerado.

- Ah!...

O que tu queres saber mais, meu pequeno Camisinha de Merda Furada Vinda da China?

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Cuidado com as cerimónias de casamento à beira das piscinas...

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LORENZO PILAT - LA CASA DEL SOL


MORT SHUMAN - PAPA TANGO CHARLY



DONA FLOR


E SEUS DOIS


MARIDOS



EPISÓDIO Nº 49





Dona Rozilda reagia brava em tom de briga:

- Não sei que diabo você e seu marido têm contra Vadinho… Só porque o rapaz é rico e ocupa posição de destaque, é um zunzunzum contra ele, não sei por que vocês tomaram esse abuso dele… Com a porcaria desse pobretão metido a pintor vocês ficaram influídos até demais, se dependesse de vocês faziam o casamento na hora, como se eu fosse dar a minha filha a esse vira bosta.

Com Vadinho vocês só pensam maldade. Não vejo nada de mais que ele namore com Flor, ela já está em tempo de casar e quando o Senhor do Bonfim, ouvindo as minhas preces, envia um partido como esse, você e Porto fazem uma zoada medonha, a achar isso e aquilo… Me deixe, mulher, se assunte…

- Eu não acho nada, minha santa, se assunte você. Estava só falando…

Porque você é toda cheia de melindres, toda não-me-toques. Basta ver qualquer moça passeando sozinha com um rapaz e logo diz que é uma perdida…

E agora mudou da água para o fogo, largou menina de mão…

- Tu acha ela uma perdida? É isso que tu acha? Diga logo…

- Se assunte, Rozilda, você sabe que eu não sou disso…

Dona Rozilda encerrava a discussão:

- Eu sei o que estou fazendo, a filha é minha e, assim Deus me ajude, ainda este ano eles se casam…

- Possa ser, queira Deus…

- Possa ser? Vai ser e com certeza… Não me venha com cantiga de sotaque, vocês têm é má vontade com Vadinho…

Não, ninguém demonstrava má vontade com Vadinho, ele a todos seduziu com sua lábia e sua fantasia, primeiro aos conhecidos do Rio Vermelho, depois aos da Ladeira do Alvo, dona Lita e Porto já lhe haviam tomado amizade e bem o desejavam para marido de Flor. Quanto a dona Rozilda, parecia viver exclusivamente para satisfazer-lhe as vontades, adivinhar-lhe os caprichos.

Capricho mesmo, ele tinha apenas um: estar a sós com Flor, tomá-la nos braços, vencer-lhe a resistência e pudicícia, ir-se apossando dela pouco a pouco, a cada encontro. Amarrando-a nas cordas do desejo mas amarrando-se ele também, preso a esses olhos de azeite e espanto, a esse corpo fremente e arisco, ávido de vontade, contido de pudor. Preso sobretudo à mansidão de Flor, à atmosfera doméstica, ao ambiente de lar próprio de graça da moça, de sua quieta beleza, atmosfera a exercer poderoso fascínio sobre Vadinho.

Jamais vivera ele vida de família, não chegara a conhecer a mãe morta de parto, e o pai cedo desaparecera da sua existência. Produto de ocasional ligação entre o primogénito de pequenos burgueses remediados e a copeira da casa, dele ocupara-se o pai, o tal parente longe dos Guimarães, enquanto solteiro. Mas, ao fazer um casamento afortunado, tratou de livrar-se do bastardo a quem sua esposa, devota ignorante, consagrava um santo horror – “filho do pecado!” Internou-o num colégio de padres onde, aos trancos e barrancos, Vadinho chegou ao último ano do curso secundário, não o tendo concluído por haver-se apaixonado, num domingo de visitas, pela mãe de um colega, distinta quarentona, mulher de comerciante da Cidade Baixa, considerada naquele tempo a mais fácil puta da alta sociedade da capital – paixão devoradora e
correspondida.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

BEETHOVEN 'S FIFTH BREAK FAST

FRASE DITA PELO DR. DRÁUZIO VARELA

Citação...


''No mundo actual está se investindo cinco vezes mais em remédios para virilidade masculina e silicone para mulheres do que na cura do Mal de Alzheimer. Daqui a alguns anos teremos velhas de mamas grandes e velhos de pila dura, mas que não se lembrarão para que servem''...


CONVERSAS ENTRE PAI E FILHO



O pai e o filho estão no bar a conversar, quando no meio das conversas de futebol, o filho diz:

- Pai, vou divorciar-me da minha mulher. Há seis meses que ela não fala comigo.

O pai fica em silêncio durante uns momentos, bebe mais um golo da cerveja e diz:

- Pensa melhor nisso, mulheres assim são difíceis de arranjar.

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Dá que pensar...

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EL ARREBATADO - UNA NOCHE CON ARTE


HARRY NILSSON - EVERYBODY'S TALKIN (1969)



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 48



Os dias iniciais desse namoro sem declaração formal e sem formal consentimento foram inesquecíveis. Todos os anos, no verão, na oportunidade das festas do bairro, costumava Flor passar uns dias com os tios, aos quais era muito afeiçoada. No mês de Fevereiro a Escola de Culinária não funcionava.

Vinha para a procissão do presente a Yemanjá, a dois de Fevereiro, quando os saveiros cortam as ondas carregados de flores e dádivas para dona Jonaína, mãe das águas, da tempestade, da pesca, da vida e da morte no mar. Ofertava-lhe um pente, um frasco de perfume, um anel de fantasia. Yemanjá habita no Rio Vermelho, seu peji ergue-se numa ponta de terra sobre o oceano.

Em companhia das moças do bairro, divertia-se em intenso e festivo programa: pela manhã banho de mar, passeios à tarde no farol da barra e em Amarelina, por vezes iam até Pituba; a organização e os ensaios da prancha de Carnaval – alegre trabalheira; piqueniques em Itapoã, em casa do doutor Natal, médico amigo do tio Porto, ou na lagoa do Abaeté, com violas e cantigas, batalhas de confete. À noite circulavam no Largo de Sant’Ana ou na Mariquita, por entre as barracas coloridas, quando não havia dança programada em residência de família amiga ou elas próprias não invadiam e ocupavam uma sala de visitas, improvisando um assustado.

A casa de Porto, florida de trepadeiras e acácias ficava na Ladeira do Papagaio e aos domingos, invariável, o tio saía com outro amante da pintura, residente no Largo, um senhor sergipano, acanhado como ele só, um certo José de Dome; saíam a desenhar casarios e paisagens. Uns dois anos antes, quando da partida de Rosália e António Morais para o Rio, Flor, sozinha e triste, chegara a sentir uma vaga inclinação pelo pintor, já homem maduro, dos seus quarenta anos se bem apresentasse menos, caboclo rijo e seco. Propusera-lhe ele um dia, vencendo a extrema timidez, pintara-lhe o retrato e o iniciara numa tela de ocres e amarelos lancinantes onde a cor mate de Flor ressaltava transfigurada.

“Negócio de maluco, um disparate, aliás esse fulano é leso” definiu dona Rozilda, que em matéria de arte não ia além do cromo das folhinhas, ao ver aquela explosão de tinta e luz.

Nunca chegara José de Dome a concluir o retrato, no entanto. Não houvera tempo, Flor retornara à Ladeira do Alvo e, se bem prometesse vir posar aos domingos, jamais o fez; tampouco ela entendia a pintura de sergipano. Simpatizava, sim, com o seu sorriso e sua solidão. Mas aquele sentimento nem chegara a ser namoro, pois não se pode chamar namoro aos longos silêncios e aos breves sorrisos das horas de pose. Não passa de efémera inclinação a durar apenas os dias de veraneio incapaz sequer de romper o acanhamento do artista.

Ao voltar ao Rio Vermelho, Flor reencontrou o amigo do tio com a mesma cordialidade, mas fora quebrado o encanto daquelas férias anteriores, era como se nada houvesse acontecido entre eles. Quanto ao retrato por acabar está até hoje na parede do atelier do pintor, no terceiro andar de um velho sobradão, na esquina do Largo de Sant’Ana; quem quiser pode vê-lo, é só tomar coragem e subir as carunchosas escadas.

Tão diferente com Vadinho… Como se irrefreável avalanche a arrastasse, ele a dominou e decidiu de seu destino. Flor compreendeu, ao fim daqueles perfeitos e rápidos dias do Rio Vermelho, não lhe ser mais possível viver sem a graça, a alegria, a louca presença do rapaz. Fez quanto ele lhe pediu: nas festinhas não dançou com nenhum outro, de mãos dadas com ele por entre a quermesse do Largo, desceu à praia escura para no negrume da noite melhor se beijarem, como ele sugeriu; sentindo um arrepio a mão de carícias por debaixo do seu vestido, acendendo-lhe as coxas e as ancas.

Dona Rozilda, quem jamais poderia imaginá-la assim democrática, de tamanha liberalidade?

Fechava os olhos aos evidentes abusos daquele namoro tão sem controle e desassuntado, a ponto de tia Lita, pouco afeita a carrancismos, no entanto, estranhar e advertir:

- Você não acha, Rozilda, que Flor está dando corda demais a esse moço?

Saem juntos por toda a parte como se fossem noivos, nem parece que se
conheceram no outro dia

quarta-feira, fevereiro 17, 2010


A FIDELIDADE
DÁ-ME TESÃO


de Fernando Alvim







Vai haver um dia, quando já nada restar, que a fidelidade será ensinada nos bancos da escola. Os professores exibirão nos seus quadros electrónicos gravuras antigas, que demonstram cabalmente que ela terá existido em tempos idos e todas as crianças exclamarão com espanto como se estivessem a ver uma cidade perdida, entretanto submersa.

A fidelidade está a perder-se como estas cidades: sabemos que existe, mas dificilmente a veremos. A fidelidade passou de moda. Vai-se aos desfiles de Paris e de Nova Yorque e ninguém a veste. A fidelidade tem uma cor ultrapassada e gasta, de meias grossas, agora só encontrada em calendários baços dos anos antigos. A fidelidade é passado. O futuro é dos polígamos e dos polígrafos. Dos polígamos, porque são eles que representam o pulsar exacto destes dias. Dos polígrafos, porque serão agora mais usados para percebermos como mente o presente. Por isso, detesto tanto o presente, de tal forma que o nego.

Por mim, gostaria de viver sempre no passado ou no futuro, mas nunca hoje, sempre amanhã ou ontem. E isso até poderia ser possível, não tivessem os fundamentalistas do presente inquinado todos os saudosistas e os futuristas. Reparem que não existem presentistas, do mesmo modo que não existe presentismo. E por quê? Porque o presente não existe. Não tenham dúvidas, todos somos já passado ou futuro de algo. O presente, foi algo que inventaram quando alguém foi à água. E é este presente inventado, este presente que não existe, que deixou de ter fidelidade a tudo: à praia, ao corte de cabelo que deveria ser sempre assim, às bolas de Berlim que só comeríamos no senhor Victor, ao segredo que nos haviam dito para guardarmos, à pessoa que jurámos amor para sempre, ao clube, ao nosso irmão de sangue, que nos telefonou quando mais precisávamos, a este jornal, a estas linhas, ao homem, à mulher que todos os dias se deita connosco. Que se lixe este presente, eu só quero futuro e passado, onde a fidelidade me dá tesão.

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Pai desesperado...

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TRIO LOS PANCHOS - ADORO

JULIO IGLESIAS - QUIERO


DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS

EPISÓDIO Nº 47



Tocava dona Rozilda os cimos do poder, sentia o gosto sem igual da fama; Vadinho tocava os seios rijos de Flor no escuro da escada, sentia o gosto sem igual da boca sedenta e medrosa da moça, mordia-lhe os lábios. Revelava-lhe um mundo apenas suspeitado de prazeres proibidos, ganhando a cada noite de namoro uma parcela de sua resistência e de seu corpo, de pudor, da sua oculta emoção.

O desejo a consumia numa fogueira de altas labaredas, ardiam brasas em seu ventre mas Flor buscava conter-se e coibir-se. Sentindo-se, entretanto, dia a dia, menos dona da sua vontade, de recusa frágil, de relutância débil, submissa escrava do rapaz audacioso, que já se apoderara de quase todo o seu corpo queimado de uma febre sem remédio, ai, sem remédio.

Insolente, Vadinho! Não lhe declarara amor, não fizera praça de sentimentos apaixonados, não lhe pedira sequer autorização para namorá-la. Em vez de frases poéticas, de termos alambicados, ela ouvia duvidosos conceitos, insinuações mal intencionadas. Subindo a Ladeira do Alvo, na pista de Flor (cujo retorno da casa da tia Lita, no Rio Vermelho, dera-se dias após a festa de Pergentino), o petulante, ao ler o anúncio da Escola de Culinária, murmurou-lhe ao ouvido, num sussurro romântico de quem lhe fizesse inocente galanteio:

- Escola de Culinária Sabor e Arte… - Repetiu: - Sabor e Arte…

- Baixou a voz, o bigodinho roçando a orelha da moça: - Ah!, quero saborear-te… - não apenas um trocadilho de mau gosto mas também franco aviso das suas intenções, deslavada plataforma, claro programa de namoro.

Flor nunca tivera um namorado assim, tão diferente dos outros, nem imaginara namorar daquele jeito. Como não o mandou imediatamente embora?

Não era Flor uma dessas debochadas janeleiras, de idílio escandaloso nos cantos de rua, nos pés de escada, no esconso das portas. Jamais gaiato algum fora além de tímido beijo. Pedro Borges apenas aflorou-lhe a face, ela não admitia intimidades. Bastava o atrevido estender a mão na ousadia de tocá-la e Flor enchia-se de indignação e o expulsava, como a guardar-se por inteiro para aquele que realmente amasse. A esse, sim, nada recusaria e esse era Vadinho; eis porque não o despachou como aos outros, sem grosseria nem escândalo mas firme e inflexível.

Não o repeliu sequer da primeira vez e, no entanto, conheciam-se apenas a algumas horas, pois foi no domingo do Bando Anunciador, no dia seguinte ao da festa do Major Tiririca. Em companhia de amigas, viera Flor apreciar os blocos, Vadinho apareceu e encostou. As outras afastaram-se, entre risinhos, certamente chegara a hora da indispensável declaração. Elas vinham mesmo comentando o chamego do rapaz; não largara Flor sozinha na festa, seu par constante. Ia agora declarar-se, era um momento grave: cabia à moça logo conceder o sim ou pedir tempo para melhor reflexão, em geral vinte e quatro horas. Flor anunciara às amigas seu propósito de deixar Vadinho padecer uns dias mas as outras duvidaram, teria ela coragem para tanto?

Não abriu ele a boca para fazer declaração alguma, a conversa girou divertida em torno de motivos diversos, um doidivanas esse Vadinho! Dois animados blocos carnavalescos, em desafio, juntos se encontraram no oitão da Igreja de Sant’Ana e, aproveitando-se do atropelo estabelecido quando o povo acorreu a ali se comprimiu. Vadinho a apertou contra si, abraçando-a por detrás, cobrindo-lhe os seios com as mãos, beijando-lhe sôfrego o cangote. Ela estremeceu apenas, semicerrou os olhos, deixou-o fazer, quase morta de medo e de alegria.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

SHAKIRA & ALEJANDRO - LA TORTURA


HISTÓRIAS
DO
APARTHEID

Dr. Hamilton Naki


Hamilton Naki, um negro sul-africano de 78 anos, morreu em Maio de 2005. A notícia não apareceu nos jornais, porém, a sua história é uma das mais extraordinárias do sec. XX.

Naki era um grande cirurgião. Foi ele quem retirou do corpo da dadora o coração que foi transplantado em Louis Washkansky em 1967 na cidade do Cabo, na 1ª operação de transplante cardíaco realizado com êxito. Era um trabalho muito delicado. O coração doado teria que ser retirado e preservado com o máximo cuidado. Naky era o 2º homem mais importante na equipe que fez o 1º transplante cardíaco da história. Porém, não podia aparecer porque era um negro no país do Apartheid.

O cirurgião chefe do grupo, o branco Christian Barnard, transformou-se numa celebridade instantânea, mas Hamilton não podia sair, sequer, nas fotografias da equipe. Quando, por descuido, apareceu numa o Hospital informou que era um empregado de limpeza.

Naky usava máscara e bata, porém jamais estudara medicina pois abandonara a escola aos 14 anos de idade.

Era jardineiro na Escola de Medicina da Cidade do Cabo. Começou por limpar as jaulas dos animais sujeitos às experiências médicas, porém a sua curiosidade inteligente permitiu-lhe aprender depressa a técnica cirúrgica, vendo os médicos brancos praticarem os transplantes em cães e porcos.

Transformou-se num cirurgião tão excepcional que o Dr. Barnard o requisitou para a sua equipe.

Era um problema para as leis sul africanas pois, na sua qualidade de negro, não podia operar pacientes nem tocar em sangue de brancos.

No entanto, o Hospital, considerava-o tão valioso que abriu uma excepção e transformou-o num cirurgião… clandestino.

Porém, nada disso o incomodava e ele seguiu sempre estudando e dando o melhor de si não obstante a descriminação de que era vítima. Simplesmente, ele era o melhor. Dava aulas aos estudantes brancos mas ganhava o salário de técnico de laboratório que era o máximo que o Hospital podia pagar a um negro.

Vivia numa barraca sem luz eléctrica nem água corrente num gueto da periferia como correspondia a um negro.

Durante 40 anos ensinou cirurgia e retirou-se com a pensão de jardineiro, de 275 dólares mensais.

Terminado o Apartheid, concederam-lhe uma condecoração e o título de Médico Honoris Causa.

Ao longo da sua vida nunca reclamou das injustiças de que foi vítima.

… há homens assim, que estão acima da sua condição de simples mortais… deslumbram-nos, são
o nosso orgulho.

DINO MEIRA - ONDE ESTÃO TEUS OLHOS NEGROS


CHICO BUARQUE - MORENA DE ANGOLA




DONA

FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 46


Cada vez mais gentil, o secretário tornou-se confidencial:

- O que lhe estou dizendo… A primeira coisa que o Director fez ao chegar…

Alguém muito elevado deu ordens, certamente. Foi uma das últimas vagas e estavam todas reservadas… Quer um conselho? Vá logo se apresentar, não perca tempo.

Apresentou-se, tomou posse, reuniu a magra família e foi ao primeiro andar do Alvo agradecer. “Alguém muito elevado”, contou; e dona Rozilda repetia as palavras rolando-as na língua, saborosas, enchia a boca com elas, tinham um gosto de poder. Vibrava de contentamento: não esperara nomeação tão rápida, resultado tão fulminante. Com aquela urgência, tão depressa, só mesmo ordens directas do Governador. Do Governador, minha filha, e não de outro. Vadinho mandava e desmandava no governo.

A notícia fez seu curso na ladeira e quando Vadinho apareceu à noite, na esperança de ficar a sós, com Flor, no escuro da escada, foi saudado pela vizinhança numa quase manifestação de apreço. Surpreendeu-se com os agradecimentos, abraços e louvores, dona Rozilda num exagero histérico. O rapaz passara o dia dormindo e quase esquecera as desventuras da inexequível candidata. “Oh!, disse, não é nada, nada me devem, por favor!”

O poeta cumprira a promessa, feita mais a Andreza do que a ele, Vadinho. Mas, como explicar a verdade, desfazer o enredo? Jamais dona Rozilda e seus vizinhos, jamais a amarga professora e sua gente mirrada e encardida, cor de sujo, ali junta para lhe agradecer, jamais compreenderiam os intricados caminhos por onde o mundo e os homens andam, jamais acreditariam dever Célia sua nomeação a uma negra cozinheira, muito mais pobre do que ela, alegre num casebre de madeira na fímbria do mar de Água de Meninos a fornecer almoços a saveiristas e a carregadores, a negra Andreza de Oxum.

A fama correu e os pedidos choveram. Implorando nomeação de professora primária somaram-se oito em menos de uma semana. De motorneiro de bonde a fiscal de rendas não houve cargo sem candidato a adular dona Rozilda, sem bater palmas na porta do sobrado na Ladeira do Alvo.

Até o emprego do sacristão na Igreja da Conceição da Praia, a vagar segundo constava mas ainda não era certo, até esse lhe vieram pedir. Nem se Vadinho fosse ao mesmo tempo Governador e
Arcebispo, nem assim daria abasto.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010


Julgamento do Lobo Mau no conhecido “caso” do Capuchinho Vermelho.

Versão dos Tribunais Portugueses.
Pressupostos e
Sentença.



Visto e Considerando os acontecimentos por todos conhecidos, declaro:


1) Que o Capuchinho Vermelho (CV) não desconhecia que podia encontrar-se com o Lobo Mau (LM);

2) Que tão pouco era alheia à fome do LM e aos perigos do bosque;

3) Que, se tivesse oferecido a cesta da merenda para que o LM acalmasse a fome, não teriam ocorrido os factos conhecidos;

4) Que o LM não ataca o CV de imediato e há evidências claras de que primeiro conversa com ela;

5) Que é o CV quem, voluntariamente, dá pistas ao LM e lhe ensina o caminho da casa da avózinha;

6) Que a anciã não é imputável porque confunde a sua neta com o LM.

7) Que, quando o Capuchinho chega a casa da avózinha e o LM está na cama com a roupa daquela, CV não se assusta;

8) Que o facto de o CV confundir o LM com a avozinha demonstra a infrequência das suas visitas, facto que tipificaria como abandono de pessoa anciã por parte da jovem Capuchinho;

9) Que, o LM, com perguntas simples e directas quer desesperadamente alertar o CV sobre a sua possível conduta final;

10) Que, quando o LM, que já não sabe que mais pode fazer para alertá-la, come o Capuchinho, é porque não lhe restava outra solução;

11) Que, é altamente possível que antes o Capuchinho tenha feito amor com o LM e, inclusivamente, lhe agradara;

12) Que se depreende do ponto de vista anterior que é o CV que provoca os mais baixos instintos, brutais e predadores da pobre fera;

13) Que o LM ataca, mas tal facto corresponde à sua própria natureza e ao seu instinto natural e animal exacerbados pela conduta sedutora do Capuchinho;

14) Que merece uma referência a mãe do Capuchinho que exibe culpabilidade por não acompanhar a filha conhecendo os perigos do bosque;


Por tudo isto, disponho o seguinte:


SENTENÇA:

1º - Absolver o Senhor Lobo Mau.

2º - Condenar a família do Capuchinho, impondo à avó que se apresente no Hospital a designar para observação gerontológica.

3º- Condenar a mãe do Capuchinho por não ter cumprido correctamente os seus deveres matriarcais.
4º - Ao Capuchinho condeno-a:

a) Trabalho comunitário no Jardim Zoológico local para aprender a natureza e instinto animal;

b) Indemnizar o Sr. Lobo Mau à razão de 100 euros diários e preparar-lhe todas as tardes a merenda durante um ano;

c) Pagar as custas do processo.


Esclarecer com a presente sentença que este processo não afecta o bom nome e a honra do Sr. Lobo Mau.


Publique-se, arquive-se e tenha-se por firme a presente sentença

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Esperemos que os bebés não vejam estas coisas...

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MARC ANTHONY - DIMELO


NAT KING KOLE - ADELITA


DONA

FLOR

E SEUS

DOIS

MARIDOS


EPISÓDIO Nº 45



Mirandão aconselhava Vadinho a não se amofinar: há gente assim, amigada com o caiporismo, não adianta se querer acudir. Ao demais, a preocupação tira o apetite, e o sarapatel de Andreza era um monumento, louvado até pelo doutor Godofredo Filho, com toda a sua autoridade.

No dia seguinte, Vadinho trataria do embeleço. Afinal a maçante já esperara tanto, não era um dia a mais ou a menos que a levaria ao suicídio. Quanto ao sarapatel da sua comadre Andreza, como foi mesmo a frase; a frase, não, o verso de mestre Godofredo?

E quem encontraram à mesa da filha-de-santo senão o próprio poeta Godofredo, a fazer honra à comida de Andreza, sem regatear elogios ao tempero e à cozinheira, pedaço real de negra, palmeira imperial, brisa matutina, proa de barco. Andreza sorria com toda sua prosápia e realeza, machucava pimentas para molho.

- E olhe quem está aí! – saudou Mirandão – Meu imortal, meu mestre, considere-me de joelhos ante sua intelectualidade.

- De joelhos estamos todos diante deste sarapatel divino – riu o poeta, apertando as mãos aos dois rapazes.

Sentaram-se e Andreza logo constatou a face preocupada de Vadinho. Ele sempre tão alegre e pícaro, cheio de astúcia e trêfego, que lhe acontecera para assim sombrear o rosto melancólico? Conte, meu santo, lave a alma, bote os dissabores para fora. Andreza, de amarelo, colares nos braços e no pescoço, era a própria Oxum se desfazendo em dengue e formosura.

Conte, meu branco, não fique jururu, sua negra está aqui para lhe ouvir e consolar.

Na mesa, a toalha cheirando a patchuli, o chão perfumado de folhas de pitanga, entre o sarapatel e a pura cachaça de Santo Amaro. Vadinho desfiou o rosário de desditas da professora primária, uma infeliz. Sentada à cabeceira, a negra Andreza sentia-se comovida com o relato, apertava com a mão o seio arfante – coitadinha da moça com seu aleijão e sua fome com seu desejo de trabalhar e sem emprego! Será que Godo, cujo nome saía nas gazetas, ele próprio alto funcionário, não podia dar uma palavra, se mexer pela pobrezinha?

Tremiam os lábios de Andreza ao suplicar, Vadinho tinha razão, como sentir-se alegre quando alguém sofria assim, tão dura vida? Por que quisera escutar esta feia história? Não poderia novamente sorrir enquanto não soubesse a moça nomeada. O poeta Godofredo prometeu interceder, quem sabe talvez obtivesse algo, quando ficara ela de voltar à Directoria? No dia seguinte… Não naquela mesma tarde, pois já era quase manhã, assim lhe ordenara Vadinho.

Pois que ela fosse, Godofredo ia ver… Não esclareceu ser parente próximo e amigo íntimo do Director de Educação, pedido seu era ordem executada. Não gostava o poeta de exibir-se, mesmo seus poemas só de raro em raro os publicava. Queria apenas devolver o sorriso de Andreza, sem seu sorriso era triste a noite e o mundo deserto e frio.

Assim, quando na tarde seguinte, Célia, pessimista porém persistente, arrastou sua perna capenga escada acima e penetrou na ante-sala do gabinete do Director de Educação, qual não foi sua surpresa ao ser saudada com ânsia e calor pelo secretário de Sua Excelência, antes seco e ríspido:

- Dona Célia, eu estava esperando pela senhora. Meus parabéns, sua nomeação já saiu, já foi assinada…

- Hein? – estremeceu a professorinha – o quê?

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