sábado, novembro 28, 2009

MORT SHUMAN - UN ÉTÈ DE PORCELAINE

MARRADAS





CIDADES SUBTERRÂNEAS DA CAPADÓCIA






Havia dois locais da Europa que eu desejava profundamente visitar:

- As ruínas de Pompeia e as Cidades Subterrâneas da Capadócia.

È verdade que hoje, pela Internet, podemos facilmente conhecer e obter informações dos mais variados, distantes e exóticos locais do mundo mas nada substitui o que apreendemos e sentimos através dos nossos próprios sentidos, com a nossa presença, ouvindo pessoas habilitadas desses lugares.

Tinha-me acontecido na visita a Pompeia e voltou a acontecer agora na Capadócia. Estes lugares assistiram ao surgimento da nossa cultura, pessoas que conhecemos da história e da religião pisaram aquelas pedras e quase que é possível, fechando os olhos, num esforço de imaginação, vê-los passeando nas suas vestes de então, acompanhados dos seus familiares e escravos (ruinas da cidade Efeso) quais fantasmas trazidos até nós numa cápsula do tempo.

São locais que nos “esmagam”, berços da cultura, terras das nossas raízes. A nossa vida não começou quando nascemos, a herança que recebemos foi aquela que eles criaram, eles são os nossos verdadeiros avós. Nós, apenas mais um elo da corrente de gerações que foram acrescentando mais"coisas" e nos trouxe até aos dias de hoje.

A geologia marca a história da vida dos povos. No caso concreto das Cidades Subterrâneas da Capadócia, foram os vulcões que terminaram a sua actividade há cinco milhões de anos que despejaram naquela zona central da Anatólia mais de cem metros de altura de cinzas seguidas de lava, o basalto.

Este, pressionando com o seu peso as cinzas que ficaram por baixo, tufo, neste caso vulcânico, transformou-as em rochas facilmente perfuráveis que, naturalmente, foram desde sempre aproveitadas pelos homens que viveram naquelas paragens para escavarem nelas cavernas, abrigos, primeiro para se defenderem dos animais selvagens e em simultâneo de vizinhos hostis.

O surpreendente é que esses abrigos se tenham transformado em autênticas cidades onde viviam milhares de pessoas - a que me foi mostrada albergaria três mil pessoas - e onde nada faltava, com um grau de segurança total pois as pedras em forma de mó que fechavam as entradas eram inexpugnáveis e a agua era obtida através de poços que chegavam aos lençóis freáticos subjacentes.

Deslocarmo-nos através daqueles corredores baixos e estreitos (alguns turistas, principalmente oriundos da europa central, com os seus enormes corpanzis não conseguem passar) e ir descendo aos vários pisos até trinta metros de profundidade (outras cidades maiores vão até oitenta metros), passando por compartimentos, menores ou maiores (para mim seriam todos muito pequeninos) onde toda a vida se processava: vi as pedras de moer cereal, prensas onde esmagavam as uvas para vinho, lojas de alimentos, cozinhas com sistemas de dispersão de fumos para que não fossem notadas do exterior, estábulos, igrejas, poços de ventilação que permitiam que todos os níveis da cidade fossem igualmente arejados e dotados com uma temperatura a rondar os 13 graus, independentemente da que faria no exterior, numa obra de engenharia que deixa de boca aberta os nossos técnicos de hoje.

A maior destas cidades albergaria 100.000 habitantes e estava ligada por um túnel com oito quilómetros a outra cidade.

Atendendo à dimensão, profundidade e complexidade destas cidades os especialistas consideram que a sua construção terá demorado milénios e o início reportar-se-ia a povos primitivos – há cerca de 9.000 anos e abandonadas no séc. VIII - que as foram deixando (é uma forma dizer) para que as gerações seguintes as aumentassem em dimensão e complexidade.

As portas de entrada eram várias – foram descobertas mais de seiscentas - e esculpidas numa roda em pedra mais dura o que faz pressupor que havia uma preocupação defensiva nessas cidades.

Declarada como Património Mundial da Humanidade, as Cidades Subterrâneas da Capadócia constituem a mais engenhosa obra de engenharia dos povos antigos atingindo completamente, durante milénios, os seus objectivos de servirem para a defesa contra o frio, animais selvagens ou povos inimigos.

Ter tido a oportunidade de visitá-los constituiu para mim um grande privilégio.

CANÇÕES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS

ROBERTO CARLOS - A NAMORADINHA DE UM AMIGO MEU



TIETA DO

AGRESTE



EPISÓDIO Nº 291



DO DESVELO CÍVICO E DA JUSTIÇA DIVINA



No sábado, a cidade amanheceu em plena campanha eleitoral. Para Prefeito vote contra a poluição votando no comandante Dário de Queluz, recomendam faixas em número de quatro, colocadas em pontos estratégicos, nos logradores de maior circulação. Uma, bem em frente da Prefeitura. Tabuletas convidam a população a comparecer em massa no dia seguinte, domingo, por volta das cinco da tarde, após a matiné e antes da bênção, ao grande comício de lançamento da candidatura do comandante Dário de Queluz. O candidato usará da palavra e o poeta De Matos Barbosa declamará os Poemas da Maldição.

Faixas e placares confeccionados no quintal do bangalô do Comandante pela eficiente equipa, cujo desvelo cívico a bela Carol saudara prazenteira e esperançosa. Em casa de dona Milú, dona Carmosina e Aminthas, dois crânios, redigiram uma espécie de manifesto ao povo, expondo as razões da candidatura do Comandante. Impresso em Esplanada, em papel amarelo, o volante se destina a farta distribuição em Agreste, no sábado e no Domingo. Dias de agitação subterrânea, sábado de ocorrências sensacionais.

Bendita agitação! Nas idas e vindas, Ricardo, dito Pau-Para-Toda-Obra se desenvolve. Do outro lado do quintal, desfalece na hora da sesta a oprimida manceba. Por entre as trepadeiras trocam juras e promessas, traçam planos; o senhor dos escravos passará o fim-de-semana em Mangue Seco com a esposa e os netos. Na torre da igreja, ao entardecer, Cinira fita a paisagem tranquila do burgo, um pé no barricão, o outro levantado (para facilitar). Por detrás da mangueira, Maria Imaculada, infalível às nove da noite em ponto, quando a luz se apaga abrindo os caminhos das barrancas do rio à circulação romântica dos namorados. Depressa, depressa, bem, que o tempo é curto. Em casa Tieta espera impaciente. Quanto a dona Edna, aguarda vez, afinal ninguém é de ferro, nem sequer um seminarista adolescente, ávido de acção, quase fanático.

Na sexta-feira, o silêncio do motor não interrompeu os afazeres dos devotados partidários do Comandante. Nem Ricardo correu ao encontro de Maria Imaculada. Posta a par com antecedência, a menina concordara em sacrificar por uma vez o medido momento de prazer à boa causa. Fidélio, Seixas, Ricardo, Peto, Sabino, atravessam a noite colocando faixas e tabuletas sob o comando de Aminthas e a fiscalização de Osnar. Infenso a qualquer esforço físico – reservo meu físico para os embates do amor – Osnar dita ordens, caga regras. O Comandante superintende os trabalhos, o rosto grave, preocupado com a elaboração do discurso para o comício, tremenda responsabilidade. Bafo de Bode concedera de início o suporte da sua presença aos militantes do meio ambiente. Mas, tendo conseguido subtrair dos cuidados de Osnar uma garrafa de pinga quase cheia, sumira.

Terminam todos na pensão de Zuleika, onde os aguarda uma peixada comemorativa, encomendada pelo benemérito Osnar. Todos, menos o Comandante, por incorruptível e Ricardo por seminarista. Não se apressa o jovem, todavia, a recolher-se. Coincidindo a vigília cívica com a partida de Modesto Pires para o regaço da família, na praia, acontece uma porta apenas encostada na solidão de agreste, à espera de valente justiceiro.

Nas ocorrências daqueles dias agitados, prevaleceu o desentendimento, divididas as opiniões, envenenadas. Mas quando certos factos vieram à tona e os chifres de Modesto Pires tornaram-se públicos e aceites, houve acordo unânime, não se ouviu acusação e crítica aos autores da façanha.

Autores, sim, o que não retira de Ricardo a glória de ter sido o primeiro a vencer as barreiras perversamente intransponíveis do respeito aos poderosos, do medo da vingança dos prepotentes – e a fazer justiça. Justiça divina, segundo o povo, cansado de esperar o auspicioso evento desde que, há aproximadamente seis anos, o dono do curtume importara dos confins de Sergipe as graças muitas de Carol, com elas enriquecendo o património de Agreste. Limitando, no entanto, o valor do gesto com a prática de mesquinha e egoísta exclusividade.

Bafo de Bode, ao retornar na esperança de mais cachaça, encontra a praça vazia. Tomando pelos becos ermos distingue, no primeiro alvor da madrugada, a robusta sombra do bom samaritano na acto de transpor a porta da escravatura para proclamar a abolição. Inimigo das tiranias e da propriedade privada, Bafo de Bode exclama para o escasso auditório de dois vira-latas e uma cadela:

- Seja feita justiça de Deus! Mete ferro, padrequinha!

sexta-feira, novembro 27, 2009

VÍDEO

NÃO HAVIA LÁ MAIS NINGUÉM PARA AJUDAR...???

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O "COBRADOR" DO PARQUE DE ESTACIONAMENTO DO JARDIM ZOOLÓGICO DE BRISTOL

(Transcrito do The London Times)



No exterior do England 's Bristol Zoo existe um parque de estacionamento para 150 carros e 8 autocarros.
Durante 25 anos, a cobrança do estacionamento foi efectuada por um muito simpático cobrador.

As taxas eram o correspondente a 1.40 € para carros e 7.00 € para os autocarros.

Um dia, após 25 sólidos anos de nenhuma falta ao trabalho, o cobrador simplesmente não apareceu.

A administração do Zoo, então, ligou para a Câmara Municipal e solicitou que enviassem um outro cobrador. A Câmara fez uma pequena pesquisa e respondeu que o estacionamento do Zoo era da responsabilidade do próprio Zoo, não dela. A administração do Zoo respondeu que o cobrador era um empregado da Câmara. A Câmara, por sua vez, respondeu que o cobrador do estacionamento jamais fizera parte dos seus quadros e que nunca lhe tinha pago ordenado.

Enquanto isso, descansando na sua bela residência nalgum lugar da costa da Espanha (ou algo parecido), existe um homem que, aparentemente, instalou a máquina de cobrança por sua conta e então, simplesmente começou a aparecer, todos os dias, cobrando e guardando as taxas de estacionamento, estimadas em 560 € por dia... durante 25 anos!!!
Assumindo que ele trabalhava os 7 dias da semana, arrecadou algo em torno de 7 milhões de Euros.

E ninguém sabe, nem sequer, seu nome ...!!!

MARIZA - FADO CURVO


CANÇÔES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS

BÁRBARA JARDIM - NINGUÉM É DE NINGUÈM



TIETA DO
AGRESTE

EPISÓDIO Nº 290




Comecei a pensar se não estão enrolando Ascânio, ele ainda é novinho, fácil de intrujar. Mandei chamar ele aqui, falei dos artigos, da imundice, dessa história da poluição.

Quando Enoch morreu, eu recomendei a Ascânio: mantenha a cidade limpa, já que não pode trazer de volta a animação. Então, que conversa é essa, agora, de botar aqui uma fábrica que ninguém quer em lugar nenhum? Me respondeu que com a fábrica a animação vai voltar, Agreste vai conhecer de novo a prosperidade. Que essa história de poluição não passa de invencionice de uns sujeitos que não querem que o Brasil vá para a frente, são contra o governo, mandados pela Rússia, como aquele rapaz Giovanni, que andou por aqui e ficou muito amigo de Carmosina. Mas eu lhe fiz ver que também O Estado de São Paulo baixava o pau nessa indústria e eu nunca soube que O Estado de São Paulo tivesse a ver com a Rússia, O Estado não é jornal de inventar coisas.

Ele embatucou mas pediu que eu não tivesse receio, que só deseja o benefício de Agreste. Isso eu acredito, Ascânio é um menino bom. Mas pode estar sendo enrolado. Tu é que sabe a verdade e vai-me dizer.

Tieta ouve sem interromper. O velho fala devagar, cortando as frases ao meio, a respiração curta. Apenas provou o café trazido por Merência. De quando em quando uma cabra dispara no terreiro, o Coronel levanta a vista.

- Para ver o senhor e conversar dessas coisas é que vim, Coronel. Também gosto de Ascânio, penso que é um rapaz direito. Vive sonhando com os tempos passados, do avô dele e do senhor, pensa que a Brastânio vai fazer voltar aquele movimento e aí ele se engana. Se fosse uma fábrica de tecidos, de sapatos, todo o mundo estava de acordo. Mas A Brastânio vai produzir dióxido de titânio…

- E que diabo é esse dióxido de titânio?... Carmosina me explicou, mas ela é letrada demais para o meu entendimento…

- O que é, no duro, eu mesma não sei, coronel, não lhe vou mentir. Mas sei que é a indústria pior do mundo para poluir. Vai destruir o nosso clima que é tão bom, empestar a água do rio e do mar, terminar com os pescadores.

- Envenena tudo, Coronel, até as cabras.

- As cabras também?

- Por isso, Coronel, é que estou aqui para lhe dizer que, se Ascânio continuar a apoiar a instalação da Brastânio, nós vamos lançar a candidatura do comandante Dário a prefeito.

O coronel Artur da Tapitanga estremece, tomado de indignação, como se Tieta o houvesse esbofeteado. Um lampejo de cólera nos olhos; a voz, num esforço supremo, se afirma violenta:

- Nós, quem? Como se atreve a falar em candidatura sem me consultar?

- Ninguém, Coronel, não se altere. Não há ainda nenhuma candidatura. O Comandante, a Carmosina, eu e outros amigos queremos obter o seu acordo, para isso estou aqui. O senhor é padrinho de Ascânio, patrono da candidatura dele. Nós não somos contra Ascânio, somos contra a fábrica de dióxido de titânio. É só Ascânio dizer que não tem nada com a fábrica, que não vai favorecê-la e acabou-se a briga. Mas, se ele não aceitar, não temos outro jeito, Coronel, porque não queremos que Agreste vire…como o jornal disse…uma lata de lixo…

O velho descansa o queixo na bengala, nada mais resta de cólera, os olhos apagados, a voz lenta e baixa repete:

- Uma lata de lixo…Isso mesmo. Carmosina leu para mim. Não já lhe disse que falei com Ascânio? Falei, faz dias. Sabe o que ele me respondeu? Que tinha muita honra em ser candidato da fábrica, que ia até ao fim de qualquer maneira. Que ninguém vai impedir que ele arranque Agreste da leseira.

A mão descarnada busca a mão de Tieta, toca os dedos repletos de anéis, pedras preciosas:

- Ouça, minha filha, você está conversando com um bode já sem serventia, solto no campo para morrer. O desinfeliz pensa que ainda é o pai do terreiro, não é mais nada, até os cabritos novos lhe metem os pés. O Coronel Artur de Figueiredo, que mandava e desmandava, se acabou. Não nomeio mais candidato nem disputo eleição. Tu não vê? De um lado, os capitalistas da fábrica não são nem daqui. Do outro tu, Tieta, que eu conheci menina, descalça, tangendo as cabras, agora coberta de brilhantes. Não conto mais para nada – Na voz, cansaço e amargura.

Comovida, Tieta afaga-lhe a mão. Carinhosamente:

- Não diga isso, Coronel. Se o senhor largar Ascânio de mão, não tem fábrica que eleja ele. O senhor é o dono da terra. Manda na gente daqui. Tanto isso é certo que se o senhor me pedir ou me ordenar, eu acabo com a candidatura do Comandante neste instante, aqui mesmo. Contra o senhor não me levanto nem para salvar as cabras

Desponta um sorriso nos lábios murchos do ancião:

- Não acredito que esse titânio mate cabras, Tieta, tu dizes isso pra me enrolar. Mas não te peço nem ordeno nada. Não me meto mais cada um faça o que quiser. Ascânio pensa que está agindo certo, é lá com ele. Tu, Carmosina, o Comandante, não sei mais quem, acham o contrário. Se eu ainda tivesse ambição de dinheiro, era bem capaz de apoiar a tal indústria, me associar com os forasteiros, por dinheiro a gente vende até a alma. Se ainda tivesse amor à vida, apoiava vocês, o pior homem do mundo pode, às vezes ter um gesto grande. Não tenho mais nada a ganhar nem a perder no mundo, Tieta, perdi até o gosto de mandar. Mas agradeço o que tu disse, a consideração que teve para com um velho. Tuas palavras puseram mel em minha boca, perto da hora da morte.

- Coronel, antes de ir embora, queria uma coisa.

- Pois ordene.

- Conhecer Ferro-em-Brasa, aquele seu bodastro. Para comparar com o bode Inácio, um que foi do velho Zé Esteves.

- Vou mandar lhe levar no curral.

- Não me acompanha? Vamos me dê o braço, se levante… - toma o braço do Coronel e o prende contra o seio.

Descem juntos os degraus da varanda:

- Tu não é gente. Tu é o cão em figura de mulher – Um suspiro fundo.

- Se eu tivesse dez anos menos, se andasse aí pelos setenta e cinco, ah!, tu
não ia continuar viúva
que eu não deixava.

quinta-feira, novembro 26, 2009

VÍDEO

A melhor máquina de sempre...

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AMOR OU INTERESSE



- A tua mulher faz sexo contigo por amor ou por interesse?


- Olha pá, deve ser por amor... ela não demonstra nenhum interesse!

LOS IRACUNDOS - SOY UN MAMARRACHO

CANÇÃO SERTANEJA
PÁRA PEDRO



TIETA DO
AGRESTE

EPISÓDIO Nº 289




DE COMO O VELHO CAUDILHO ARTUR DE TAPITANGA FICOU SEM O SEU CANDIDATO




Sentado no banco de madeira, na varanda da casa grande, sozinho, o coronel Artur de Figueiredo calenta sol. Cabras pastam nas imediações, mais adiante fica o curral. Voz forte de mulher, pedindo licença na cancela, corta-lhe a madorna. Coisa ruim a velhice: fraquejam as pernas, na boca insossa a comida perde o sabor, à orelha dura os sons chegam fracos e distantes, na visão embaçada pessoas e coisas movem-se em meio a um nevoeiro. Tem dificuldade em reconhecer a visita que se aproxima, atravessando por entre galinhas, conquens e patos.

- Quem vem lá?

- É de paz, Coronel.

A voz soa-lhe familiar. Põe-se de pé, apoiado na bengala, aperta a vista:

- É você, Tieta? Louvado seja Deus! Estive para lhe mandar um recado mas soube que você andava em Mangue Seco.

- Voltei, Coronel, e vim logo lhe ver. Não esqueci a promessa.

Acercando-se, Tieta constata quanto decaíra o octogenário em pouco mais de quinze dias. Ao visitá-la na noite de Ano-Novo, por ocasião da morte de Zé Esteves, era um velho disposto e alegre, desfilando recordações, saliente, malicioso, exigindo sua ida à fazenda para conhecer o bode Ferro-em-Brasa, pai de rebanho, sem rival na história. Transformara-se em esquálido ancião, curvo sobre a bengala, voz arrastada, olhos sem brilho, pele e ossos.

Parece conservar, no entanto, a força de carácter, hábitos antigos e determinados interesses – públicos e privados. Ao abraçar Tieta, apalpa-lhe com as mãos trémulas a carnação farta, ai seu tempo!

- Vamos sentar, minha filha, quero que você me explique o que está acontecendo em Agreste.

A rir, brincalhona, Tieta comenta o vacilante manuseio:

- O tempo passa, a mão do Coronel não perde o tato.

Menina, pastora de cabras, fugia ao enxergá-lo no caminho. Se ele a alcançava passava-lhe a mão pelos peitos e pelas pernas.

- Já perdi o gosto de quase tudo, só não perdi o vício de mulher. Sou como um bode velho, que já não serve para nada mas ainda vai cheirar o rabo das cabras – Bate com a bengala no chão, chama: - Merência!

A criada, ser informe, corcunda, sem idade, carapinha branca, espia da porta aguardando ordens, reconhece Tieta:

- Tu é Tieta, não é? Tu ficou loura ou deu para usar chinó?

- Sou eu mesma, Merência. Depois vou lá dentro falar com você.

- Passe um café para a gente, não fique aí parada, mulher.

- Que idade Merência tem, Coronel?

- Se não passou dos cem, deve estar beirando. Quando eu nasci já era moleca fogosa. Agora, Tieta, me esclareça, me diga o que está ocorrendo. Nunca ouvi tanta maluquice em minha vida.

- O que assim, Coronel?

- Ascânio, meu afilhado, meu braço direito na Prefeitura, nem parece o mesmo rapaz sensato, anda às voltas com uma tal de indústria que pretende se instalar em Agreste, para os lados de Mangue Seco, segundo me diz. Ascânio acha que com isso o município vai prosperar outra vez, o dinheiro vai correr.

Esteve na capital, conversando com os capitalistas, jura por eles. Quando me falou a primeira vez, achei a esmola grande demais, mas calei minha boca porque esse tempo moderno é mesmo esquisito, acontecem coisas que nem o diabo explica… - faz uma pausa, muda de assunto – Como é que tu conseguiu botar luz de Paulo Afonso em Agreste? Até aqui já levantaram poste. Nem o diabo pode explicar… – um resto de malícia nos olhos baços, na voz de catarro – Para tu mandar tanto nesses políticos de São Paulo, não sei não…

Tieta ri, bota lenha na fogueira do ancião:

- Tenho meus recursos, Coronel, minhas armas secretas…

- Disso eu sei. Tu não é gente, desde novinha – Os olhos descem do busto de Tieta até aos quadris – Bem servida de leitaria e padaria. Que Deus conserve as prendas que te deu. Teu finado devia ser homem acomodado, bom de génio…Era conde, não era?

- Comendador, Coronel.

- É tudo a mesma coisa. Esses monarquistas são todos mansos. Raça de cabrões. Mas, voltando atrás: me aparece por aqui dona Carmosina, outra pessoa direita, carregada de jornais, as gazetas que eu assino e ela é quem lê, toca a me recitar artigos de O Estado de São Paulo e de A Tarde, dois jornais sérios,
dizendo que a tal fábrica é uma desgraça, que só vem para Agreste porque ninguém a quer em lugar nenhum do mundo, acaba com tudo.

quarta-feira, novembro 25, 2009


As seguintes afirmações foram
retiradas de diversas provas
globais este ano:





Biologia

- A respiração anaeróbia é a respiração sem ar que não deve passar de três minutos.'


(Queria ver o artista a experimentar)

- As plantas distinguem-se dos animais por só respirarem à noite.


(E tu enquadras-te em que categoria? A julgar pela falta de oxigénio no cérebro deve ser na 1ª, não?)

- Os crustáceos fora de água respiram como podem.'

(É como a resposta: respondeu como pôde...)

- Carácter sexual secundário são as modificações morfológicas sofridas por um indivíduo após manter relações sexuais.'


(Deves ser cá um leão na cama!)

- A insónia consiste em dormir ao contrário.'


(Eu é que te viro ao contrário, sua anta!)

- Quando um animal irracional não tem água para beber, só sobrevive se for empalhado.'

(Por essa ordem de ideias, já há algum tempo que não deves ter nada para beber...)

- O coração é o único órgão que não deixa de funcionar 24 horas por dia.


(Pois, e os outros vão todos prós copos, seu maluco!)

- Os ruminantes distinguem-se dos outros animais porque o que comem, comem duas vezes.'

(Este fala por experiência própria, com certeza!)

- As aves têm na boca um dente chamado bico.


(Tu é que precisavas de levar um bico nessa boca!)

-
O Sol dá-nos luz, calor e turistas.


(E gajas, esqueceste-te das gajas!)

- A principal função da raiz é enterrar-se.


(Já te enterraste e bem )

- O vento é uma imensa quantidade de ar.


(E ar é o que não falta dentro dessa cabecinha!)


História

- O objectivo de uma Sociedade Anónima é ter muitas fabricas desconhecidas.


(E a sociedade por quotas é constituída por pessoas com alguma idade , certo?)

- Na Grécia a democracia funcionava muito bem porque os que não estavam de acordo envenenavam-se.'


(Se te envenenasses também não se perdia nada!!)

- As múmias tinham um profundo conhecimento de anatomia.


(Eram muitos espertas, as múmias!)

- A arquitectura gótica notabilizou-se por fazer edifícios verticais.


(Bem visto, nunca tinha reparado nisso!)

- A febre amarela foi trazida da China por Marco Polo.


(E a febre tifóide, terá vindo da Tifolândia?)

- A harpa é uma asa que toca.'


(Tu é que podias bater as asinhas e ir cantar para outra freguesia...)

- Péricles foi o principal ditador da democracia Grega.


(...Ou terá sido o principal democrata da ditadura Grega?!)

- Os Egípcios antigos desenvolveram a arte funerária para que os mortos pudessem viver melhor.'


(E resultou! Basta ver o ar de felicidade das múmias, quando saem da pirâmide para dar uma volta...)


Geografia

- O petróleo apareceu há muitos séculos, numa época em que os peixes afogavam-se dentro de água.


(E em que século é que uma ave rara como tu apareceu?)

- O problema fundamental do terceiro mundo é a superabundância de necessidades.


(E o teu problema é a superabundância de estupidez!)



Geologia

- Terramoto é um pequeno movimento de terras não cultivadas.


(Sim, porque as terras cultivadas não se metem nisso!)


Química

- Lavoisier foi guilhotinado por ter inventado o oxigénio.

(Um gajo já não pode ser bom!...)


CASAL GAY


A criança adoptada por um casal gay entra na casa de banho e vendo o pai todo nu, diz:


- Pai, que grande pila que tu tens!


- Grande???... Dizes isso porque ainda não viste a da tua mãe.

SALVATORE ADAMO - JE T'LACHE PLUS

CANÇÕES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS
AGNALDO TIMÓTEO - OS VERDES CAMPOS DA MINHA TERRA



TIETA DO
AGRESTE


EPISÓDIO Nº 288


O nome de Leonora não foi sequer pronunciado durante a conversa, não houve referência ao namoro. Dona Antonieta lhe informou ter regressado a Agreste devido ao assunto da Brastânio. Ela e alguns amigos tinham opinião negativa sobre a instalação da Brastânio no município, como era do conhecimento de Ascânio, e estavam dispostos a lutar para impedi-la. Não queriam agir, porém, antes de ouvi-lo, para isso ela solicitara aquele encontro. Estimava-o, acreditava-o honrado. Honrado, porém ingénuo, deixando-se envolver por empresários sem entranhas, ela conhecia bem essa raça.

Para Tieta e seus amigos, o ideal seria dar completo apoio à candidatura de Ascânio. Para tanto fazia-se necessário que ele mudasse de posição, opondo-se à indústria de dióxido de titânio, mortalmente poluidora. Se assim agisse, tudo em paz. Cabe a Ascânio decidir, entre eles e a Brastânio. Não pede uma resposta imediata mas a deseja em prazo curto, o tempo urge.

- Agradeço à senhora ter vindo falar comigo, antes de fazer qualquer coisa. Mas não agradeço aos outros. Na cidade, todo o mundo já sabe que o Comandante quer ser candidato. Sobre Carmosina…

- Basta que você me diga sim eu e todos os demais estaremos a seu lado. Vim conversar com você em nome de todos. Pense, depois me responda.

- Não tenho mais o que pensar, dona Antonieta. A última coisa que eu desejava era desgostar a senhora. Me peça o que quiser, eu farei correndo. Mas não me peça para virar a casaca. Mesmo que eu fique sozinho lutando pelo progresso de Agreste, mesmo que a senhora nunca me perdoe e se torne minha inimiga…

- Epa! Calma! Quem falou em inimizade? Não tenho nada a lhe perdoar ou não perdoar. Você pensa de uma maneira eu penso de outra, vamos decidir na eleição mas não somos inimigos. Você ainda é muito novo, se afoga em pouca água. Felipe era o maior adversário do doutor Ademar mas se dava muito bem com ele. Não confunda alhos com bugalhos.

Separaram-se em meio a expressões de amizade, mas Ascânio sentia ressentimento e azedume. Esperara que Tieta não se metesse no assunto, mantendo-se distante da contenda, demorando-se em Mangue Seco, como anunciara até ao dia da festa. Nem lhe falara na homenagem, receoso de que ela o levasse a mal, vendo na placa da rua uma forma de suborno. Suborno, palavra terrível, andava no ar.

Após o jantar, como de hábito, Ascânio veio buscar Leonora na porta da
casa de Perpétua. Rodaram na praça enquanto durou a cansada iluminação do motor, antes de tomarem os desvios para os escuros dos chorões. Contou a Leonora a difícil conversa. Ela já sabia, Mãezinha lhe falara.

- Você também vai pedir para eu mudar meu pensamento, entregar os pontos? Depois de meu padrinho e de dona Antonieta, só falta você… - o acento amargo.

- Só peço que me ames, nada mais – beijou-lhe a mão naquele gesto submisso, de ternura e devotamento – Mãezinha me disse: tu não é daqui, não se meta nessa briga. Pode ser egoísmo meu, Ascânio, mas até fiquei contente porque, com essa encrenca, Mãezinha adiou viagem para São Paulo. Tinha marcado para o dia seguinte ao da festa, agora vai se demorar para ajudar o Comandante. Minha avó sempre dizia que tudo no mundo tinha seu lado bom.

Não deixa de ser verdade, reflecte Ascânio. Se a conversa com dona Antonieta deixara-o estomagado, o encontro com o padrinho o assustara. O Coronel estimava o afilhado, pensara dar-lhe a filha em casamento, fizera-o secretário da Prefeitura, proclamara-o candidato quando da morte do doutor Enoch. Não lhe retirara o apoio, apesar da intriga de Carmosina, mas tão pouco ficara convencido das benemerências da Brastânio. A candidatura do Comandante vai irritar o Coronel, fazendo-o esquecer exigências sem sentido e jogar todo o peso do seu prestígio na eleição de Ascânio. O Coronel Artur da Tapitanga não está acostumado a suportar oposição, inexistente no município há muitos e muitos anos.

Ainda bem, porque senão Ascânio seria obrigado a recorrer à Brastânio para enfrentar as despesas da campanha, pequenas mas obrigatórias; ele não tem um tostão furado. Não deseja pedir auxílio aos industriais nessa oportunidade, está em jogo seu orgulho. Dissera a doutor Mirko: não preciso, estou eleito. Mais tarde, porém, quem sabe? Nos dias de amanhã, após o pleito, a posse, a desapropriação, quando o complexo fabril erguido em Mangue Seco estiver produzindo riqueza e prestígio para Agreste, todos compreenderão, Carmosina e dona Antonieta. Comprovada a justeza da sua atitude, estará à vontade para aceitar qualquer oferta de ajuda a ser proposta pela Brastânio por ocasião das eleições legislativas. O marido de Leonora Cantarelli não pode reduzir suas aspirações ao cargo de Prefeito Municipal e o prestígio do coronel Artur de Figueiredo, mesmo que o cacique viva até lá, não é suficiente para eleger um deputado.

terça-feira, novembro 24, 2009


Ramadão



Um muçulmano durante o período do Ramadão senta-se junto a um alentejano no voo Lisboa - Funchal.

Quando o avião descola começam a servir as bebidas aos passageiros.

O alentejano pede um tinto de Borba.

A hospedeira pergunta ao muçulmano se quer beber alguma coisa.

Responde o muçulmano com ar ofendido:


- Prefiro ser raptado e violado selvaticamente por uma dezena de putas da Babilónia antes que uma gota de álcool toque os meus lábios.


O alentejano engasgando-se, devolve o copo de tinto à hospedeira e diz:


- Eu também, eu também. Não sabia que se podia escolher!!!

VÍDEO

Vale a pena reparar na expressão do espectador...

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CARLOS PAIÃO - PIÃO-DAS-NICAS

CANÇÔES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS

ROBERTO CARLOS - DE QUE VALE TUDO ISSO



TIETA DO
AGRESTE


EPISÓDIO Nº 287



Ascânio não soube desse diálogo mas tomou conhecimento de variadas opiniões sobre os motivos determinantes da sua posição. Seu carácter e sua honra são discutidos apaixonadamente – como sempre acontece com os líderes.

Jamais imaginara que a redenção de Agreste (A presença da Brastânio significa a redenção de Agreste – proclama a manchete do jornal mural) lhe custasse tanto vexame, tanta consumição. Apesar das escusas do doutor Marcolino, persistem em seus ouvidos as frases capciosas, a palavra “compensações” junto com o aparte insultante, cuspido em sua cara no improvisado meeting do primeiro post: Pau – mandado da Brastânio! Vendido! De nada adiantara ter recusado a ajuda oferecida pelo doutor Mirko para a eleição, exactamente para ficar a coberto de qualquer suspeita: acusam-no da mesma maneira.

No decorrer desses dias agitados, vai-se habituando a equívocas situações que de início lhe pareceram intoleráveis. Ao ouvir o aparte, ficara como louco, desafiara o covarde a mostrar-se e a repetir a injúria. Perdera a cabeça, no bar, durante o torneio do Taco de Ouro, ao ouvir dona Edna aludir à Bacia de Catarina. Terminara por não ligar importância ao disse que disse, um líder deve colocar-se acima de tais mesquinhezas. Sobretudo quando acontecem factos realmente graves, junto aos quais o aparte anónimo, a frase incompleta do advogado, as torpezas de dona Edna nada significam.

Dona Carmosina, amiga fraterna, em cujo seio encontrara lenitivo na hora fatal da traição de Astrud, madrinha do namoro com Leonora, comportara-se de maneira insólita, para não dizer indigna. Tentara intrigá-lo com o coronel Artur, a quem Ascânio devia emprego e candidatura. Obtendo resultados, o que é pior.

Envenenado contra a Brastânio, o fazendeiro mandara chamá-lo. Não quero imundice em Agreste, dissera. Ascânio rebatera as afirmações e os argumentos da agente dos Correios, cuja posição apaixonada devia-se à amizade que a ligava a Giovanni Guimarães. Repetira frases e conceitos de Mirko Stefano e Rosalvo Lucena, bradara contra os inimigos do progresso da pátria brasileira. O coronel, os olhos semicerrados, a face cansada, ouviu o seu arrazoado mas não se deu por satisfeito, atirou-lhe com artigos publicados em O Estado de São Paulo, a sentença do juiz italiano; O estado de São Paulo não mente nem se engana. Levantou os olhos para o afilhado:

- Fui eu que levantei a sua candidatura quando Enoch morreu. Mas por aí estão dizendo que você é candidato por essa tal fábrica.

- O que sou devo ao senhor, meu padrinho. Mas não me importo que me apontem como candidato da Brastânio, não é uma desonra. Ao contrário, pois temos o mesmo ideal: o progresso de Agreste. Digam o que disserem, façam o que fizerem, não me dobram. Vou até ao fim. Agradeço tudo o que o senhor tem feito por mim, mas não me peça padrinho, para mudar de opinião – Um líder forja-se na luta.

Mal se refizera da entrevista, difícil e dolorosa pois o padrinho definhava a olhos vistos, recebeu outro golpe, o pior de todos. Voltando de Mangue Seco, a madrasta de Leonora, a cidadã benemérita, a Joana d’Arc do sertão, dona Antonieta Esteves Cantarelli o convida para uma conversa. Nós dois e mais ninguém, dissera. Ficara apavorado, na certa Tieta soubera do que estava acontecendo entre ele e Leonora, na beira do rio; chegaram aos seus ouvidos as murmurações da cidade. Não negará; aproveitando a deixa, confessará seu amor profundo e honesto, quer casar-se. Pobre, porém ambicioso e capaz, saberá conquistar um lugar ao sol. Assim resolverá de uma vez a situação. No bolso o anel de compromisso. Seja qual for a reacção
de dona Antonieta, não pensa desistir de
Leonora. Prepara-se para o encontro.

segunda-feira, novembro 23, 2009


A idade ensina-nos a fazer as melhores escolhas!!!





UMA QUESTÃO DE
PRIORIDADE





Uma senhora inglesa bem idosa estava no convés de um navio de cruzeiro segurando seu chapéu firmemente com as duas mãos para não ser levado pelo vento. Um tripulante aproxima-se e diz:


- Perdoe-me, lady...não pretendo incomodar, mas já notou que o vento está levantando bem alto o seu vestido?

- Já, sim, mas é que eu preciso de ambas as mãos para segurar o chapéu.

- Mas, lady.... deve saber que suas partes íntimas estão sendo expostas! -
disse o tripulante.


A senhora olhou para baixo, depois para cima, e respondeu:

- Gentleman, qualquer coisa que esteja vendo aqui em baixo tem 85 anos.

O chapéu comprei-o ontem!

VÍDEO

Um perigo para o trânsito...

video

LUÍS MIGUEL - EL RELÓGIO


CANÇÕES ROMÂNTICAS BRASILEIRAS
NELSON NED - SE AS FLORES PUDESSEM FALAR



TIETA DO
AGRESTE

EPISÓDIO Nº 286




DOS ÚLTIMOS RETOQUES NA FORMAÇÃO DE UM LÍDER OU DE COMO ASCÂNIO FICA DE SACO CHEIO



Forja-se um líder no fulgor da batalha, vencendo adversidades – lera Ascânio Trindade no volume “A Trajectória dos Líderes, de Tiradentes a Vargas”.

Comprova pessoalmente a verdade da afirmação. No fragor da batalha, em meio a agravos e decepções, insolências e ameaças, Ascânio se modifica, amadurece, reformula sua escala de valores, cresce em ambição (um homem sem ambição jamais será um vitorioso, ensinara o vitorioso Rosalvo de Lucena), torna-se um forte. Convicto do acerto das suas atitudes, disposto a ir até ao fim.

Segundo o autor dos esboços biográficos, quase sempre uma força misteriosa sustenta o líder no combate, uma estrela guia-lhe os passos, um sol ilumina seu caminho. Correcto. No caso do jovem líder de Agreste, essa misteriosa força provem de Leonora Cantarelli, estrela e sol, inspiração e desiderato. Nela se alimenta de coragem e disposição. Muito deve suportar um líder, se deseja vencer e comandar. Não fosse aquele alento de amor, cada noite renovado, como tolerar e confundir advogados e herdeiros? Juntos ou cada qual por si, sobem e descem as escadas da Prefeitura, a aporrinhá-lo. Aporrinhar, verbo cru e grosseiro, jamais o utilizaria antes o educado Ascânio, pouco afeito a expressões chulas. Mas agora de saco cheio escapam-lhe palavrões a torto e a direito.

Sozinho ou em grupo, terminam sempre na sala de despachos, infernizam a vida do candidato, esgotam-lhe a paciência. Exigem definições, promessas, garantias. Vai desapropriar ou não? A área inteira ou apenas uma parte? Em que bases será fixada a indemnização? Peritos? Quais? Apesar de ter abandonado a faculdade de Direito no 2º ano, Ascânio enfrenta os argumentos dos advogados, a pressão dos herdeiros. De nada vale irritar-se. Não pode mandá-los à puta que os pariu como tanto deseja fazê-lo. Deve consideração a Modesto Pires, a dona Carlota, é amigo de Canuto Tavares e deles necessita sobretudo agora, pois a eleição pode deixar de ser um simples referendum da vontade comum do coronel Artur de Tapitanga e do povo.

Aparentando não perceber insinuações, meias – palavras, advertências, consegue apaziguá-las sem se comprometer. Tão rígido antes, aprende a ser maleável. Diante da intransigência de Fidélio, não existe outra solução para o problema dos terrenos, além da desapropriação. Se existe, gostaria de conhecê-la, quem sabe os senhores advogados…

A desapropriação, por consequência, beneficia os herdeiros. A Prefeitura não deseja prejudicar ninguém. A instalação da fábrica deve ser motivo de riqueza para os cidadãos do município, esse o seu pensamento. Por que não tratam de legalizar seus direitos? Assim, no momento preciso, se Fidélio não voltar atrás, poderão acertar com a Prefeitura os detalhes da desapropriação. Navega entre herdeiros e advogados evitando entrar em choque com paredros (conselheiros) de sua candidatura. Apesar disso, atritou-se com doutor Marcolino Pitombo, logo com quem!

- Mais uma palavra e eu o convido a retirar-se da sala – Um líder deve saber se impor, quando necessário e útil.

Na presença de Josafá, o causídico em meio a uma conversa enrolada, de repente se refere a “compensações no caso que…” Insultado, Ascânio não lhe permite terminar a frase, vagam no ar indefinidas intenções. Tentativa de suborno? Diante da indignada reacção, doutor Marcolino não perde a calma nem o sorriso: o caro amigo anda com a susceptibilidade à flor da pele; somente assim se explica que empreste malévolo sentido a palavras inocentes – acalme-se, por favor. As explicações foram aceites, ficou o dito por não dito.

Na saída, Josafá recordou ao impulsivo patrono conversa anterior:

- Não lhe avisei, doutor, que Ascânio é homem direito? O senhor se trumbicou…

- Confesso que me enganei, sim, mas ao afirmar que o rapaz é tolo. Nem tolo nem honesto. Pode ter sido, antes de lhe ter aparecido uma boca dessas. Meu caro Josafá, já lhe disse que toda a honestidade tem seu preço. O nosso é baixo, não paga a pena, não se compara com o da
Brastânio. Não se esqueça que mestre Colombo passou aqui antes de mim.

domingo, novembro 22, 2009


Drª RITA LEVI
MONTALCINI


Presidente Honorária da Associação Italiana de Esclerose Múltipla



NOTÁVEL ENTREVISTA





A italiana neurologista, Drª Rita Levi – Montalcini, que completou 100 anos no dia 22 de Abril de 2009, recebeu o Prémio Nobel da Medicina há 23 anos, quando tinha 77.

Nasceu em Turim, Itália, em 1909 e obteve o título de médica na especialidade de Neurocirurgia.

Por causa da sua ascendência judia viu-se obrigada a deixar a Itália um pouco antes do começo da 2ª G.G.

Emigrou para os E.U.A. onde trabalhou no Laboratório Victor Hambuerger do Instituto de Zoologia da Universidade de Washington de Sant Louis.

- Como vai celebrar os seus 100 anos?

- Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso, não gosto de celebrações. No que estou interessada é naquilo que faço todos os dias.

- E o que faz?

- Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem… elas e os seus países. E eu continuo investigando, continuo pensando.

- Não se vai aposentar?

- Jamais! Aposentar é destruir o cérebro. Muita gente se aposenta e se abandona… e isso mata seus cérebros e adoecem.

- E como está seu cérebro?

- Igual a quando tinha 20 anos! Não noto diferença em ilusões nem em capacidades. Amanhã vou para um Congresso Médico.

- Mas terá algum limite genético?

- Não. Meu cérebro vai ter um século… mas não conhece a senilidade… o corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!

- Como é que faz isso?

- Possuímos grande plasticidade neural: quando morrem neurónios, os outros se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso é preciso estimulá-los.

- Ajude-me a fazê-lo.

- Mantenha seu cérebro com ilusões, activo, faça com que ele trabalhe e ele nunca se degenerá.

- E viverei mais anos?

- Viverá melhor os anos que viver, é isso o interessante. A chave é manter curiosidades, empenho, ter paixões… veja… não me refiro a paixões físicas especificamente…simplesmente tenha paixões.

- A sua foi a investigação científica…

- Sim e continua sendo.

- Descobriu como cresceu e se renovam as células do sistema nervoso…

- Sim, em 1942: dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, factor de crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida a sua viabilidade em 1986, deram-me um prémio por isso.

- Como foi que uma garota italiana dos anos 20 se converteu em neurocientista?

- Desde menina que tive empenho em estudar. Meu pai queria ver-me bem casada, boa esposa, boa mãe… e eu não quis. Fui firme e confessei que queria estudar.

- Seu pai ficou magoado?

-Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa… meus irmãos mais velhos eram brilhantes e eu sentia-me tão inferior…

- Vejo que isso foi um estímulo…

- Meu estímulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava em África para ajudar na lepra. Desejava ajudar os que sofrem, esse era o meu grande sonho!

- E você o tem feito… com a sua ciência.

- E hoje, ajudando as meninas de África para que estudem. Lutamos contra as enfermidades, a opressão da mulher nos países islâmicos por exemplo, além de outras coisas…

- A religião trava o desenvolvimento cognitivo?

- A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem afastando-a do desenvolvimento cognitivo mas algumas religiões estão tentando corrigir essa posição.

- Existem diferenças entre o cérebro do homem e da mulher?

- Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções vinculadas ao sistema endócrino. Mas quanto às funções cognitivas, não tem qualquer diferença.

- Por que existem ainda poucas cientistas?

- Não é assim! Muitas descobertas científicas atribuídas a homens foram, na realidade, feitas por irmãs, esposas ou filhas.

- É verdade?

- A inteligência feminina não era admitida e, por isso, deixada na sombra. Hoje, felizmente tem mais mulheres que homens na investigação científica: as herdeiras de Hipátia!

- A sábia Alexandrina do Sec. IV…

- Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como ela foi. Claro, o mundo tem mudado alguma coisa…

- Ninguém tentou assassiná-la…

- Durante o fascismo, Mussolini quis imitar Hitler na perseguição aos judeus e eu tive de esconder-me por uns tempos. Não deixei de investigar: tinha o laboratório no meu quarto… e descobri a apoptose, que é a morte programada das células!

- Por que tem uma alta percentagem de judeus entre cientistas e intelectuais?

A exclusão estimula entre os judeus os trabalhos intelectuais: podem proibir tudo menos o pensamento! E é verdade que tem muitos judeus entre os Prémios Nobel…

- Como explica a loucura nazi?

- Hitler e Mussolini souberam falar ao povo, onde prevalece o cérebro emocional sobre o neocortical, o intelectual. Conduziram emoções, não razões!

- Isso está acontecendo agora?

- Por que acha você que em muitas escolas nos E.U.A. é ensinado o Criacionismo e não o Evolucionismo?

- A ideologia é emoção sem razão?

- A razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos. Nós não. E ao sermos imperfeitos temos que recorrer à razão, aos valores éticos: distinguir entre o bem e o mal é o mais alto grau da evolução Darwiniana!

- Você nunca se casou ou teve filhos?

- Não, entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que decidi dedicar-lhe todo o meu tempo, toda a minha vida!

- Conseguiremos algum dia curar a o Alzheimer, o Parkiinson, a demência senil?

- Curar… O que vamos conseguir é travar, atrasar, minimizar todas essas enfermidades.

- Qual é hoje o seu grande sonho?

- Que consigamos um dia utilizar ao máximo a capacidade cognitiva dos nossos cérebros.

- Quando é que deixou de se sentir feia?

- Ainda estou consciente das minhas limitações!

- O que tem sido o melhor da sua vida?

- Ajudar os demais.

- O que faria hoje se tivesse 20 anos?

- Mas eu estou fazendo!!!



A Drª Levi - Montalcini é, desde 2001, Senadora Vitalícia da República Italiana, nomeada directamente pelo Presidente Carlo Azeglio Ciampi.

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