sábado, abril 06, 2013

O PODER DAS PALAVRAS...

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Não, não são casinhas, apenas uma maneira diferente de arrumar a lenha no quintal...



Por Que Somos Bons?
(Ponhamos em ordem as nossas ideias.
 Aprendamos com R. Dawkins.)



Por que nos condoemos com o choro de uma criança que sofre?

Por que sentimos compaixão por uma viúva idosa em desespero devido à solidão?

O que nos provoca o impulso para enviarmos uma dádiva anónima para as vítimas de um cataclismo que não conhecemos nem viremos a conhecer e nunca nos retribuirá?

De onde vem o bom samaritano que vive em nós?

Recordemos Einstein:

Estranha é a nossa situação aqui na Terra. Cada um de nós vem para uma curta visita, sem saber porquê, contudo, parecemos adivinhar um objectivo. No entanto, do ponto de vista do quotidiano, há uma coisa que sabemos: que o homem está aqui pelos outros homens – acima de tudo por aqueles de cujos sorrisos e bem-estar depende a nossa própria felicidade.

Será realmente pelos outros homens que nós aqui estamos e terá isso alguma coisa a ver com a religião?

É por causa dela que somos bons?

Muitas pessoas religiosas consideram difícil imaginar como sem religião alguém pode ser bom ou há-de sequer querer ser bom, e esta incapacidade para compreender e aceitar a bondade fora da religião leva algumas pessoas religiosas a paroxismos de ódio contra aqueles que não professam a sua religião.

E assim, a religião, que se proclama como fonte de inspiração para a bondade e o amor transforma-se, ela própria, num imenso reservatório de ódio e maldade.

Brian Fleming, autor e realizador de um documentário sincero e comovente em defesa do ateísmo recebeu uma carta em 21 de Dezembro de 2005 que rezava assim:

Decididamente, vocês têm cá uma lata! Adorava pegar numa faca e esventrá-los a todos, seus idiotas, e gritar de alegria a ver as vossas entranhas a derramarem-se à vossa frente. Vocês andam a ver se arranjam como atear uma guerra santa em que um dia eu e outros como eu, possamos a vir ter o prazer de passar aos actos como o atrás mencionado”.

Chegado a este ponto o autor da carta reconhece tardiamente que a sua linguagem não é muito cristã, pois continua, agora num tom mais amistoso:

Contudo Deus ensina-nos a não procurar a vingança mas sim a rezar pelas pessoas como vocês”.

Mas a benevolência dura-lhe pouco:

Vai consolar-me saber que o castigo que Deus vos há-de trazer será mil vezes pior do que o que quer que seja que eu possa infligir. O melhor de tudo é que vocês hão-de sofrer para toda a eternidade por estes pecados de que estão completamente ignorantes. A ira de Deus não há-de mostrar misericórdia. Para vosso próprio bem, espero que a verdade vos seja revelada antes que a faca vos toque na carne. Feliz NATAL!!!


P.S: -  Vocês não fazem mesmo ideia do que vos está reservado…Eu agradeço a Deus por não ser vocês”.

Estas cartas rancorosas, de que esta é apenas um exemplo, são mais comuns na América do Norte provenientes de pessoas afectas a Igrejas de Cristo e a Seitas que proliferam por todos os EUA, mas a carta que se segue, de Maio de 2005, é de um médico inglês e foi dirigida a Richard Dawkins.

Depois de uns parágrafos introdutórios a denunciar a evolução e a incitar o autor a ler um livro que defende que o mundo tem apenas 8.000 anos (será que ele pode mesmo ser médico?) conclui:

Os seus livros, o prestígio de que goza em Oxford, tudo o que ama na vida, e tudo aquilo que alcançou são um exercício de total futilidade…A interpeladora pergunta de Camus torna-se inescapável: porque não cometemos todos suicídio? Na verdade, a sua visão do mundo tem esse tipo de efeito sobre os estudantes e em muitas outras pessoas…que todos evoluímos por puro acaso, a partir do nada, e que a esse nada voltaremos. Mesmo que a religião não fosse verdadeira, é melhor, muito melhor acreditar num mito nobre, como o de Platão, se durante as nossas vidas ele conduzir à paz de espírito.

Mas a sua visão do mundo leva à ansiedade, à toxicodependência, à violência, ao niilismo, ao hedonismo, à ciência Frankenstein, ao inferno na Terra e à terceira guerra mundial. Pergunto-me quão feliz será o senhor nas suas relações pessoais? Divorciado? Viúvo? Homossexual? As pessoas como o senhor nunca são felizes, caso contrário não se esforçariam tanto para provar que não existe felicidade nem significado em nada.”

Segundo
este médico inglês o Darwinismo é intrinsecamente uma evolução ao acaso quando, a selecção natural, é precisamente o oposto de um processo casual.


A evolução acontece à custa de alterações genéticas que favorecem a sobrevivência da espécie e essa é a essência da selecção natural de Darwin.

Muitas vezes, a selecção natural conduz a “becos sem saída” e, nesses casos, a espécie extingue-se e esse foi o desfecho de todas aquelas que hoje estudamos sob a forma de fósseis.

Os grandes dinossauros que noutros tempos dominaram a vida sobre a Terra foram eliminados por alterações drásticas e bruscas que lhes retiraram totalmente as possibilidades de sobrevivência tendo-se aberto então caminho para a evolução de outras espécies que até aí não tinham hipótese de evoluir.

Há cerca de sessenta milhões de anos, após o desaparecimento dos grandes dinossauros, pequenos animais que viviam nas florestas passaram a encontrar um espaço que até aí não dispunham.

Eram os antepassados dos mamíferos dos quais, hoje, nós somos os seus mais recentes representantes.

Nada aconteceu por acaso!

Muitos cientistas sustentam que o nosso sentido de certo e errado provem do nosso passado darwiniano.

Richard Dawkins apresenta, a este respeito, a sua versão:

-Em primeiro lugar temos os comportamentos de altruísmo e bondade para com os nossos parentes dos quais o carinho e a protecção que dispensamos aos nossos filhos é o exemplo mais óbvio mas não o único no mundo animal.

Cuidar dos parentes próximos para os defender, para os alertar contra os perigos ou partilhar com eles alimentos são comportamentos normais entre indivíduos que partilham cópias dos mesmos genes.

-Em segundo lugar, temos um outro tipo de altruísmo para o qual existe uma sólida fundamentação lógica darwiniana que é o altruísmo recíproco (temos de ser uns para os outros).

Esta teoria trazida para a biologia por Robert Trivers não depende da partilha de genes e funciona até igualmente bem entre animais de espécie diferentes, sendo aí chamada de simbiose.

Trata-se do mesmo princípio que está na base de todo o comércio e das trocas entre os seres humanos.

O caçador precisa de uma lança e o ferreiro precisa de carne. É assimetria que medeia o acordo.

A abelha precisa de néctar e a flor de ser polinizada.

As flores não podem voar, por isso pagam às abelhas o aluguer das suas asas e a moeda de pagamento é o néctar.

As guias-do-mel, aves da família “indicatoridae”, conseguem encontrar colmeias mas não conseguem entrar nelas ao contrário dos ratéis e dos homens.

Então, as aves conduzem, através de um voo atractivo, os ratéis ou o homem até ao mel e depois ficam à espera da recompensa.

Estas relações mutualistas abundam no reino dos seres vivos: búfalos e picanços, flores tubulares e beija flores, garoupas e bodiões, etc.

O altruísmo recíproco funciona por causa das assimetrias que há nas necessidades e nas capacidades de as satisfazer. É por isso que funciona particularmente bem entre espécies diferentes onde as assimetrias são maiores.

A selecção natural favorece os genes que predispõem os indivíduos, em relações de necessidade e oportunidade assimétricas, para darem quando podem e solicitarem quando não podem.

E favorece também as tendências para lembrar as obrigações, para guardar rancor, para fiscalizar as relações de troca e para punir os trapaceiros que recebem, mas que não dão quando chega a sua vez de o fazerem.

-Em terceiro lugar, os comportamentos altruístas favorecem o indivíduo que os pratica porque lhes permite ganhar fama de bondosos e generosos e essa reputação é importante e os biólogos reconhecem nela valor de sobrevivência darwiniana não só pelo facto de se serem bons como também por alimentarem essa reputação.

Reputação que não se restringe apenas ao ser humano, de acordo com experiências recentemente feitas em animais, nomeadamente peixes, e publicadas num artigo de R. Bshary e A. S. Grutter na revista Nature de Junho de 2006.

-Em quarto lugar, o economista norueguês-americano Thorstein Veblen e de uma forma diferente o zoólogo israelita Amotz Zahavi, acrescentaram ainda uma ideia mais fascinante quanto à vantagem dos comportamentos altruístas considerando-os uma proclamação implícita de domínio ou superioridade.

Por exemplo, os chefes rivais das tribos do noroeste do Pacífico competiam entre si organizando festins de uma abundância ruinosa.

Só um indivíduo genuinamente superior pode dar-se ao luxo de anunciar o facto por meio de uma oferta dispendiosa.

Os indivíduos compram o êxito através de demonstrações de superioridade, incluindo a generosidade ostentatória e o assumir de riscos pelo bem comum. (onde é que nós já vimos isto?...)

Temos então quatro boas razões Darwinianas para os indivíduos serem altruístas, generosos ou “morais” uns para com os outros e ao longo da nossa Pré-Histórica, o ser humano viveu em condições que terão favorecido bastante a evolução destes 4 tipos de altruísmo.

Vivíamos em aldeias ou, em tempos mais recuados, em bandos nómadas discretos, parcialmente isolados de aldeias ou de bandos vizinhos, e estas eram condições que favoreceram extraordinariamente o evoluir das relações altruístas familiares como factor importante para a sobrevivência do grupo.

E não só para o altruísmo de base parental como igualmente do altruísmo recíproco ao cruzarem-se com frequência com os mesmos indivíduos e estas são as condições ideais para se construir a reputação do altruísmo e também para publicitarem uma generosidade conspícua.

É fácil perceber a razão pela qual os nossos antepassados pré históricos terão sido bons para os membros do seu próprio grupo mas maus, chegando à xenofobia, em relação a outros grupos.

Mas agora que a maior parte de nós vive em grandes cidades onde já não estamos rodeados de parentes e conhecemos indivíduos que não mais voltaremos a encontrar, por que motivo somos ainda tão bons uns para os outros e até para aqueles que pertencem a grupos exteriores ao nosso?

É importante não transmitir uma ideia errada sobre o alcance da selecção natural pois ela não favorece a evolução de uma consciência cognitiva do que é bom para os nossos genes, o que ela favorece são regras de base empírica que na prática funcionam no sentido de prover os genes que as criaram.

Vejamos um exemplo:

-No cérebro de um pássaro a regra «cuidar daquelas coisas pequenas que soltam grasnidos e vivem no ninho e deixar-lhes cair comida nas bocas vermelhas e escancaradas» tem o objectivo de preservar os genes que criaram a regra porque os objectos que soltam grasnidos e ficam de boca aberta são os seus descendentes.

Mas esta regra falha se outra cria de pássaro entra para dentro do ninho, situação que foi engendrada pelos cucos.

Esta falha ou “tiro fora do alvo”pode também acontecer com os impulsos para a bondade, altruísmo, empatia, piedade, que o homem continua a desenvolver quando as condições já são diferentes das que existiam em tempos ancestrais.

Por outras palavras, as condições são outras mas a regra empírica manteve-se e, portanto, embora hoje as pessoas já não sejam nossos parentes, façam parte do nosso grupo, ou tenham possibilidade de retribuir, tal como a ave que por impulso continua a alimentar o filho do cuco, também nós continuamos a sentir o desejo de sermos bons e generosos.


É como o desejo sexual que não deixa de ser sentido mesmo quando a mulher é estéril ou toma a pílula e fica incapaz de reproduzir.

São ambos
“tiros fora do alvo”, erros darwinianos: abençoados e inestimáveis erros.

Em tempos ancestrais a melhor forma da selecção natural assegurar a sobrevivência da nossa espécie foi instalando no cérebro não só a necessidade de acreditar, da qual já falamos num texto anterior, como também, o desejo sexual e a compaixão ou generosidade.

Estas regras que ditam estes impulsos para acreditar, para o sexo, para a generosidade e para a xenofobia, são muito anteriores à religião, às civilizações e aos vários contextos culturais que se limitaram mais tarde a regulá-los, condicioná-los, instrumentalizá-los, cada um à sua maneira, fazendo deles o cerne da vida dos homens ao longo de toda a sua existência.


Se voltarmos novamente a pôr a questão de saber qual a razão ou razões pelas quais somos bons, a resposta parece-nos ser agora clara, acessível à nossa razão, quase natural e, acima de tudo, nada ter a ver com qualquer religião.

Tudo, na sua complexidade, parece fácil, lógico e simples, quando explicado à luz da razão e do conhecimento…


A história de um grande amor. Eu conto, de cima para baixo:

 - Eu era muito estudioso.

 - Até conhecer uma garota.

 - Ela era assim

 - Juntos éramos um só...

 - Dei-lhe presentes

 - Eu era feliz

 - Falávamos todas as noites.

 -Eu ia dormir tarde.

 - Mas quando meus amigos ficaram sabendo da garota...

 - Reagiram assim...

 - No dia dos namorados alguém lhe ofereceu uma rosa vermelha.

 - Ela ficou assim

 - Eu fiquei tão fulo...

 - Que comecei a ....

 - Chorar.

 - Mas, revoltei-me...

 - Não fui atrás dela mas sim em busca de outra solução...

 - Garotas... Garotas...

Sabe-se que ele mais tarde recuperou e veio a ser feliz com outra garota.


Sinal dos Tempos



Por ocasião do Jubileu da Rainha Elizabeth II, dois amigos - um inglês e outro chinês passeavam juntos em Londres.

Diz o Chinês:

- Veja todas estas bandeiras! E enche o peito de orgulho patriótico!

Responde o inglês:

 - Mas, Chang, são bandeiras britânicas!

O Chinês:

 - Sim, mas veja as etiquetas...

 O Rei pescador....

 


 Era uma vez um rei que queria ir pescar.
 
Chamou o seu meteorologista e pediu-lhe a previsão do estado do tempo para as próximas horas e este assegurou-lhe que não iria chover.
 
Como a noiva do monarca vivia perto de onde ele iria, vestiu o seu fato mais elegante. No caminho, encontrou um camponês montando seu burro que viu o rei e disse:
 
 - "Majestade, é melhor regressar ao palácio porque vai chover muito."

 É claro que o rei ficou pensativo:

 - "Eu tenho um meteorologista muito bem pago que me disse o contrário, portanto, vou seguir em frente”.

E assim fez… e, claro, choveu torrencialmente.
 
O rei ficou encharcado e a namorada riu-se dele ao vê-lo naquele estado.
 
Furioso, voltou para o palácio, despediu o meteorologista e convocou o camponês oferecendo-lhe o trabalho, mas este disse-lhe:

 - "Senhor, eu não entendo nada disso, mas se as orelhas do meu burro estão caídas, significa que vai chover "
 
 Então, o rei contratou o burro.

 Assim começou o costume de contratar burros que, desde então, têm as posições mais bem pagas, no governo e não só...

BAHIA

O PAÍS
DO
CARNAVAL

 Episódio Nº 66

 - Paradoxo, agora?

 - Em homenagem a Ticiano.

 - Ah!

O relógio deu horas. E Ticiano reclamou o remédio:

 - Eu, que nunca obedeci a ninguém, sou obrigado, no fim da vida, a obedecer a um relógio…


 - Quero apresentá-lo ao meu amor.

 - Sim, Jerónimo. Você deve libertar-se de Ticiano. Ele lhe estima. Pensou fazer aquilo tudo em seu benefício. Como se enganou…Você deve aspirar à Felicidade acima de tudo,

Ticiano como adora a insatisfação e a dor, pensou fazer de você um novo Ele. Você seria eternamente infeliz. Ticiano é um tipo de excepção. Veio de outra época. Ele não sente a necessidade que sentimos nós outros, homens de hoje, de procurar a Felicidade, o fim da existência. Ele vive porque nasceu. Não quer realizar, não quer vencer.

- Pode-se até dizer, não quis…

 - É verdade. Está à morte, Grande Ticiano… Homens como ele vivem poucos em cada século… E morrem na miséria.

 - Nasceu no Brasil…

 - Neste País do Carnaval só as máscaras comuns sobem… Ele foi muito superior a nós todos. Conseguiu vencer a insatisfação. Não precisou de solucionar o problema da sua existência. Colocou-se sobre a vida. Espectador…

- Mas nós…

- Nós temos que viver. E procurar não fracassar. Tentar a Felicidade. Para não ficar vivendo a miséria minha e de José Lopes… Você precisa, deve, tem obrigação de ser feliz…

 - Eu o serei, Paulo.

XIV

Tomou o automóvel às pressas. Aquele telefonema tirara-lhe a calma. Pedro Ticiano estava à morte. Vivia os últimos instantes de uma existência agitadíssima.

O filho acabara de chamar Paulo Rigger pelo telefone. O relógio grande, dependurado na parede, gritou com voz rouca as onze horas da noite.

Paulo Rigger desceu para acordar o chofer. Empurrou a porta do quarto. Na cama de solteiro, apertadinhos, o chofer e a copeira dormiam o sono inocente dos que têm os instintos satisfeitos.

Despertou-os. Confusão de desculpas. A criada a tapar o rosto, envergonhada, em vez de tapar as outras partes que exibia, opulentas.

 - Vamos, Augusto. Isso não tem importância. Podem dormir juntos quando quiserem. Não me interessa. Preciso é sair agora mesmo. Tire logo o carro…

Chovia muito. Quis fazer uma frase e disse uma tolice:

 - Parece que o céu chora o desaparecimento de Ticiano. A Bahia e os maus escritores do Brasil é que gozarão. São capazes de dar um baile

sexta-feira, abril 05, 2013

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Quadro de José Malhoa


PRAIA DAS MAÇÃS ou À BEIRA MAR

JONNY FOSTER - AMORE SCUSAMI

Quem, da minha geração, resiste a esta bela canção italiana de 1964? Deixem-me recordá-la... Inclui a apresentadora da canção. Seria um desperdício tirá-la...



NA MINHA ALDEIA

- A Casa da Lenha


Rapaz, disse-me o meu pai quando o sol desaparecia no horizonte: a partir de hoje, começa a ser Inverno nesta casa. Vai ao chaveiro, leva a chave da casa da lenha e uma cesta e trás cavacas para debaixo da chaminé.

Peguei num candeeiro a petróleo e segurando a chave na mão direita, lá fui andando na direcção da casa da lenha, a última do corrupio, já encostada ao muro que separava a propriedade do vizinho.

Não era fácil abrir a porta da casa da lenha, fechada desde o Inverno anterior, para além de que a chave, de ferro, era grande para a minha mão e era-me difícil manipulá-la. Depois, havia o trinco, a aldraba e por fim a lingueta e todos aqueles sons metálicos a fazerem de acompanhamento sonoro que emprestava solenidade à abertura de uma porta nas casas antigas.

Empurrei-a com dificuldade empecilhada que estava pelos gravetos da lenha. Lentamente, levantei o candeeiro um pouco acima dos meus olhos e dei tempo a que a luz definisse os contornos do amontoado da lenha contra as paredes caiadas de branco, mais amareladas que brancas, convenhamos.

Finalmente, olhei para o chão e bem na minha frente, a uns dois, três metros de distância, esperava-me um pequeno exército de ratinhos. À frente, aquele que deveria ser o chefe, cabecita levantada na minha direcção, bigodes espetados de um lado e de outro numa pose, toda ela, de desafio.

Atrás dele, em formação militar, filas de ratinhos, uns a seguir aos outros, todos eles, à imagem do chefe, cabecitas levantadas na minha direcção, bigodes eriçados, ar desafiador e hostil não deixando dúvidas de que eu não era bem recebido.

Não estavam ali por acaso, há muito que, de certo, me esperavam. Os mais velhos, aqueles que pela idade já não teriam forças para estarem na primeira linha, teriam avisado que um dia, que eles não saberiam qual, viria um humano estragar o seu belo castelo de cavacas e mais grave, levá-las, umas após outras… as suas belas cavacas!

Naquele momento, aguardando o desfecho da situação, lá atrás, escondidos com medo mas dispostos ao sacrifício, estariam com certeza os familiares daqueles ratinhos-soldados, orgulhosos pela coragem e determinação dos que assumiram heroicamente a responsabilidade de uma luta tão desigual.

Eu estava perplexo, não sabia o que pensar. Talvez se saltasse para cima deles com as minhas botas de tacão e cano alto e pulasse e voltasse a pular com certeza que sairia vencedor esmagando-os a todos mas, algo me tolhia os movimentos e inibia a decisão… e se eles tivessem uma poção mágica, como a do Obelix?

Se assim fosse estaria explicada tanta coragem e ousadia que roçavam a loucura e o suicídio.

Defrontarem-me a mim, um humano? E eles, simples ratinhos, tão pequeninos… hum!, teria que haver uma qualquer arma secreta!

Resolvi dar um passo em frente: seriam eles ou eu, aquela situação de impasse não podia continuar.

Avancei um passo, nem rápido nem lento, determinado. Não deveria demonstrar medo, a vantagem era toda minha, essa era a minha convicção, era isso que eu tinha de lhes dar a entender.

Eles fizeram um recuo que percebi que era estratégico e como eram muito pequeninos, ao meu passo eles fizeram uma pequena corrida atrás sem alterarem entre si as posições e muito menos a atitude de hostilidade e desafio.

Depois, foi a minha vez de dar um passo atrás e eles, acto contínuo, uma corridinha à frente e tudo voltou à situação inicial.

Continuavam a olhar-me com os seus olhos muito pequeninos mas que irradiavam a enorme força e convicção dos seus propósitos.  Não era um desafio qualquer… para eles era a conquista do seu espaço, do seu território, o tudo ou nada, a vida ou a morte.

O meu olhar é que já não era o mesmo, a surpresa e perplexidade tinham desaparecido, tal como o meu natural instinto de esmagar o mais fraco.

Caí em mim, desinteressei-me das cavacas e percebi que estava perante a decisão suprema de um grupo que face ao direito à vida no seu espaço e no seu território, tinha decidido morrer com honra lutando sem hipóteses de vencer.

Eu seria um adversário imbatível, as minhas botas de tacão e cano alto, arma demasiado poderosa, a poção mágica apenas produto da minha imaginação, o destino daquela luta estava traçado à partida.

O massacre seria o desfecho inevitável e eu não estava preparado para ele. Sentia, no fundo, que a razão lhes assistia e o simples exercício da lei do mais forte deixou de fazer sentido.

Fortes, eram eles que morreriam corajosamente enquanto que eu não passaria de um simples executor sem honra nem glória.

Voltei-lhes as costas e regressei com a cesta vazia, não sem antes ouvir atrás de mim a porta da casa da lenha fechar-se com fragor.

Sentei-me ao pé de meu pai que olhou para a cesta vazia e perguntou-me pelas cavacas da casa da lenha.

Deixei passar tempo sem responder, ele insistiu na pergunta.  Disse-lhe que já não tínhamos casa da lenha… pertencia, por direito próprio, a uma comunidade de heróicos ratinhos.

Não sei o que o meu pai respondeu, tão pouco se disse alguma coisa… a história acaba aqui. 

O Que eles Pensam da Velhice



  
 - Pode-se nascer velho, como se pode morrer jovem! ( Jean Cocteau ) 

 - A idade não é pretexto para que se fique velho! 
(G. Slatery )

 - O meu sonho é morrer jovem com uma idade muito avançada! 
( Jeanson )


 - Envelhecer é aborrecido, mas é a única forma de se viver muito tempo! ( Saint- Beuve )


 - Devemos preocupar-nos mais em juntar vida aos anos do que anos à vida!
( Victor Hugo de Lemos )



 - O bom lado das coisas: por mais velho que se seja pode-se ser mais jovem do que nunca! ( Albert Einstein )


 - Um homem só é velho quando os seus desgostos tomam o lugar dos seus sonhos! (John Barrymore )


 - Envelhecer é ser capaz de ser jovem durante mais tempo do que os outros!
( Bernard Shau )



 - Pelo facto de envelhecer não deixe de rir; mas ao deixar de rir, envelhece-se de facto! ( Balzac )


 - Aos 969 anos, Mathusalem estava tão bem conservado que apenas lhe davam 345! ( Tristan Bernard )

A VELHICE



Eu nunca trocaria meus amigos, minha vida maravilhosa, minha amada família por menos cabelos brancos ou uma barriga mais lisa.

 Enquanto fui envelhecendo, tornei-me mais amável para mim, e menos crítico de mim mesmo. Eu me tornei meu próprio amigo… Eu não me censuro por comer um bolo a mais ou por não fazer a minha cama, ou para a compra de algo bobo que eu não precisava, como uma escultura de cimento, mas que parece tão "avant garde" no meu pátio. Eu tenho direito de ser desarrumado, de ser extravagante.


Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento.


Quem vai me censurar se resolvo ficar lendo ou jogar no computador até as quatro horas e dormir até meio-dia? Eu Dançarei ao som daqueles sucessos maravilhosos dos anos 60 e 70, e se eu, ao mesmo tempo, desejo chorar por um amor perdido…Eu choro.


Vou andar na praia de calções excessivamente largos sobre um corpo decadente, e mergulhar nas ondas com abandono, se eu quiser, apesar dos olhares penalizados dos outros no jet set.


Eles, também, vão envelhecer.

Eu sei que às vezes esqueço algumas coisas. Mas há mais algumas coisas na vida que devem ser esquecidas. Eu me recordo das coisas importantes.


Claro, ao longo dos anos meu coração foi quebrado. Como não pode quebrar seu coração quando você perde um ente querido, ou quando uma criança sofre, ou mesmo quando algum amado animal de estimação é atropelado por um carro?


Mas corações partidos são os que nos dão força, compreensão e compaixão. Um coração que nunca sofreu é imaculado e estéril e nunca conhecerá a alegria de ser imperfeito.


Eu sou tão abençoado por ter vivido o suficiente para ter meus cabelos grisalhos, e ter os risos da juventude gravados para sempre em sulcos profundos em meu rosto.


Muitos nunca riram, muitos morreram antes de seus cabelos virarem prata.


Conforme você envelhece, é mais fácil ser positivo. Você se preocupa menos com o que os outros pensam. Eu não me questiono mais.


Eu ganhei o direito de estar errado. Assim, para responder sua pergunta, eu gosto de ser idoso.


A idade me libertou. Eu gosto da pessoa que me tornei. Eu não vou viver para sempre, mas enquanto eu ainda estou aqui, eu não vou perder tempo lamentando o que poderia ter sido, ou me preocupar com o que será. E eu vou comer sobremesa todos os dias (se me apetecer).



É bom quando se chega a velho... significa uma vitória sobre a vida que se ultrapassou... quantos não ficaram para trás?... somos uns vencedores sem termos consciência disso... queixa-te da doença e da pobreza, não lamentes a velhice.


O velhinho caminhava tranquilamente… quando passa em frente a um prostíbulo ...

Uma prostituta grita: -  "Oi, Vovô!, Por que não experimenta?"
O velhinho responde: -  "Não, filha, já não posso!"


A prostituta: "Ânimo! Vamos tentar?
O velhinho entra e funciona como um jovem de 25 anos, 3 vezes… e sem descanso.
Puxa! Diz a prostituta, “e ainda diz que já não pode mais?...
Responde o velho:
- Ah, transar, eu posso. Não posso é pagar!…”


O PAÍS
DO
CARNAVAL

Episódio Nº 65

Encontraram-se em casa de Pedro Ticiano. O amigo piorara repentinamente e a notícia os levara a visitá-lo. Paulo Rigger, muito triste, muito sentimental, com um medo horrível de que Pedro Ticiano morresse.

Ticiano ajudava-o com as suas blagues e o seu cepticismo a suportar a vida. Jerónimo Soares, com uma cara de Madalena arrependida, conversava, relembrando ironias de Pedro.

Junto ao leito, pobre, onde o doente descansava os ossos e a pele, estava José Lopes, empunhando uma grande colher cheia de remédio. Pedro, ainda lúcido, procurava conversar.

 - Vocês são muito bons! Não sei como pagar-vos tanta bondade…

 - Ora, Ticiano, deixe disso…

- É nosso dever. Nós lhe devemos tanto…

E Jerónimo Soares enumerava os benefícios que Pedro Ticiano lhe fizera.

José Lopes, ao ministrar o remédio, disse a Pedro:

 - Aquele não lhe deve nada, Ticiano. Se você continuar a ter influência sobre aquele rapaz, fá-lo-á um infeliz…

 - Mas pelo menos ele ficará diferente da totalidade dos homens. Isto é que eu quis fazer. Um homem diferente, digno de nós.

 - Mas ele não dá para isso. É muito bom rapaz…

 - Muito bom. Uma grande alma…

 - Isso faz com que a gente perdoe a pequenez do cérebro…

 - Coitado!

Pedro Ticiano interessava-se por Ricardo Braz. Já haviam recebido carta dele?

 - Não. Ele, na sua felicidade burguesa, não nos escreve – respondeu Paulo.

José Lopes contestou:

 - Nada disso… Ele não escreve porque está sendo infeliz. Ricardo é muito orgulhoso. Nós vivíamos dizendo que no amor não existe Felicidade; que ele se saciaria. Ele se saciou.

Talvez a estas horas sofra horrivelmente. Mas o orgulho não deixa que ele desabafe com os amigos… Ricardo nunca confessará que errou.

 - É isso mesmo – apoiava Ticiano, a voz fraca, fina.

 - Meu pobre Ricardo…

 - Você, Paulo, ficou sentimental, depois da sua tragédia amorosa…

 - É verdade. Eu hoje só tenho vocês, meus amigos. Se os perco fico sozinho na vida e não sei o que acontecerá. E, em verdade, eu já os estou perdendo. José e Jerónimo não aparecem. Ticiano, doente. Ricardo no Piauí.

- Eu quero furtar a vocês o espectáculo da minha miséria…

 - Que orgulho, José!

 - E Jerónimo oculta a sua felicidade. Deve ser assim… A gente deve sofrer e gozar sozinho.

 - Não lhe reconheço hoje, José.

 - É que eu, Paulo, estou a ser sincero…

quinta-feira, abril 04, 2013

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Na imagem, o antigo. Ao fundo, na linha do horizonte, o moderno.


MONTALEGRE (A norte de Portugal, na fronteira com Espanha)

OTIS REDDING  - SITTING ON THE DOCK OF THE BAY


O Espírito do Tempo



A relatividade que o tempo introduz na vida das pessoas em sociedade, a tendência natural para se viver o que acontece “hoje” esquecendo aquilo que foi “o ontem”, o curto espaço temporal em que decorre a vida humana, a própria lógica de que “o que passou, passou e o que interessa é o futuro”, retira-nos muito da perspectiva necessária para uma apreciação correcta e justa do mundo em que vivemos.

E estas circunstâncias dificultam, para o comum das pessoas, a avaliação da necessidade que todos sentimos de saber se, em termos globais, estamos melhor ou piores, se estamos a avançar ou a retroceder e em que sentido.

As variáveis de apreciação são muitas e a importância de cada uma delas tem a ver com aquilo que são as preocupações dominantes em cada momento, em cada local e em cada contexto.

Se perguntarmos a alguém no nosso meio se se regista ou não progresso a resposta, muito provavelmente, vai depender, em primeira análise, do que tem sido a experiência da sua própria vida em termos materiais e assim, o progresso, no sentido de que as coisas hoje estão melhores do que estavam ontem, ficará a depender da experiência de uma vida que correu bem ou não correu.

Mas se insistirmos com a pergunta em termos gerais, abstraindo do caso pessoal, a resposta surge, naturalmente, associada aos avanços tecnológicos, à rapidez com que o mercado é surpreendido pelo novo modelo de telemóvel, de ecrã de televisão ou das recentes descobertas para vencer esta ou aquela doença e, por estas razões, a resposta é, invariavelmente, positiva.

Não ponho em causa os avanços tecnológicos como indicadores de progresso, acima de tudo porque eles só são possíveis pelos avanços na ciência que é criativa e libertadora na medida em que resulta da inteligência humana.

Mas há um outro indicador que tende a ficar esquecido, não porque as pessoasão saibam dele ou desprezem a sua importância se confrontado directamente, simplesmente está diluído na nossa vida do dia a dia.

Refiro-me àquilo que é hoje o pensamento das pessoas relativamente às outras seus semelhantes e vamos alargar a comparação à data em que os meus avós, que eu conheci pessoalmente, nasceram, fins do século XIX, princípios do século XX.

Thomas Henry Huxley, biólogo britânico, falecido em 1895, um progressista e esclarecido liberal, dos principais defensores públicos da teoria da Evolução de Charles Darwin, escreveu em 1871 o seguinte:

- “Nenhum homem racional, conhecedor dos factos, acredita que o preto mediano seja igual, e muito menos superior, ao homem branco.

E, se isto for verdade, não é de modo algum crível, que uma vez removidas todas as peias e desfrutando o nosso prógnato parente de terreno neutro e de nenhum favor ou opressor, ele venha a ser capaz de competir com êxito contra o seu rival de cérebro maior e menor maxilar, num duelo que deve ser terçado com pensamentos e não à dentada. Os lugares cimeiros na hierarquia da civilização não hão-de ficar, seguramente, ao alcance dos nossos escuros primos”.
Abraham Lincoln era um homem avançado em relação à sua época, foi o 16º Presidente dos EUA e autor de vários pensamentos que, pela sua qualidade, ficaram na história:

Podeis enganar toda a gente durante um certo tempo; podeis mesmo enganar algumas pessoas durante todo o tempo; mas não vos será possível enganar sempre toda a gente.

-Um boletim de voto tem mais força do que um tiro de espingarda.

- Quando pratico o bem, sinto-me bem; quando pratico o mal sinto-me mal. Eis a minha religião.

-O campo da derrota não está povoado de fracassos, mas de homens que tombaram antes de vencer.

-Pecar pelo silêncio, quando se deveria protestar, transforma homens em cobardes.
No entanto, quando os EUA se aprestam para eleger um presidente filho de pai negro e mãe branca é curioso ver o que este homem lúcido, esclarecido e avançado para a sua época, dizia, em 1858, num debate com Stephan A. Douglas:

Direi então que não sou, nem nunca fui, favorável a que se promova, seja de que maneira for, a igualdade social e política entre as raças branca e negra; que não sou, nem nunca fui, a favor de que os negros sejam jurados, nem que sejam habilitados a ocuparem cargos públicos nem a casar com brancos; e direi, alem disto, que há uma diferença física entre a raça branca e a negra que acredito que para sempre impedirá que as duas raças vivam lado a lado numa base de igualdade social e política.

E visto que assim não poderão viver, enquanto permanecerem juntas terá de haver uma posição superior e outra inferior, e eu, tal como outro homem qualquer, sou a favor de que a posição superior seja conferida à raça branca.
Estes dois homens, Huxley e Lincoln, se tivessem nascido e sido educados no nosso tempo seriam os primeiros a arrepiarem-se das suas posições e por isso, sendo eles dos espíritos mais liberais da sua época, imagine-se a maneira de pensar de um homem médio do seu tempo.

Mas estas profundas e radicais alterações na maneira de pensar dos homens relativamente a outros homens aconteceu, igualmente, em relação aos animais:

Quando os primeiros marinheiros desembarcaram na ilha Maurícia e viram os mansos dodós, a única coisa que lhes ocorreu foi matá-los à paulada não para se alimentarem deles já que, segundo diziam, a sua carne era intragável mas apenas porque pensaram que se eles estavam ali, indefesos, matá-los era a única coisa a fazer.

Um comportamento idêntico aconteceu mais recentemente com o extermínio do lobo da Tasmânia que ainda em 1909 tinha a cabeça a prémio.

Hoje a conservação da vida selvagem e do meio ambiente passaram a ser valores aceites com o mesmo estatuto moral outrora atribuídos a valores de natureza religiosa como o respeito pelo sabado ou entre os católicos, pelo domingo.

Os vertiginosos anos da década de sessenta ficaram na história pela sua modernidade aberta e progressista mas no seu início, um advogado de acusação no julgamento por alegada obscenidade do romance “O Amante de Lady Chatterley” ainda podia perguntar a um júri:

Aprovariam que os vossos filhos, as vossas filhas – porque as raparigas sabem ler, tal como os rapazes (?!) - lessem este livro?

Isto é livro que os senhores deixassem pousado lá em vossa casa?

É livro que gostassem que a vossa esposa ou criadas lessem?


Alguma coisa mudou e mudou em todos nós e é a esta mudança que verdadeiramente se pode chamar de progresso porque é uma mudança que vai numa direcção verdadeiramente consistente e não tem a ver com a religião, quando muito ela dá-se a despeito da religião e não por causa dela.

A língua alemã tem uma palavra «Zeitgeist» que significa “o nívelde avanço intelectual e cultural do mundo numa determinada época” e a que também chamam o “espírito do tempo”… e a que velocidade este espírito do tempo se tem deslocado numa frente alargada por todo o mundo!

De onde vieram estas mudanças graduais e concertadas verificadas na consciência social?

Ritchard Dawkins não tem dúvidas de que não vieram da religião:


Alastram de uma mente a outra através de conversas, da leitura de livros, jornais, transmissões televisivas e radiofónicas e, hoje em dia, da Internet.

As alterações da sensibilidade moral são sinalizadas em editoriais, em debates na rádio, nos discursos políticos, no palavreado dos comediantes de stand-up, nos guiões das telenovelas, nas votações parlamentares ao criar as leis e nas decisões dos juízes ao interpretá-las.

É claro que o avanço não é uma rampa lisa, mas mais um perfil sinuoso dos dentes de uma serra com contrariedades locais e temporais como acontece agora por culpa da acção do governo Bush dos E.U.A. desde o início da presente década mas a uma escala mais longa a tendência para a progressão é inequívoca.”
Nesta marcha imparável, Dawkins, não tem dúvidas sobre o papel motriz que é representado por aqueles líderes políticos que, à frente do seu tempo, se erguem solidários e nos persuadem a prosseguir com eles: Gandhi, Luther King, Nelson Mandela, etc., não falando já de artistas do mundo do espectáculo, desporto e outras figuras públicas.

E depois temos, igualmente, os progressos na educação e no ensino e especialmente a crescente compreensão de que cada um de nós partilha uma humanidade comum com os membros de outras raças e com o sexo oposto – uma e outra, ideias profundamente não bíblicas, provenientes da ciência biológica e, sobretudo, da evolução.


NOTA

Aqui há dias, fiz referência às minhas "maldades" de quando era jovem, nas férias, a meio da década de cinquenta, perseguindo os passarinhos com a fisga e ratoeiras... recordam-se... por causa de um pequeno filme de um passarinho lindo a fazer o ninho e a criar os filhos.

Contei, depois, que a minha neta do coração, com sete anos, seria incapaz de um tal comportamento, e, em grande parte pela mensagem de respeito pela natureza - animais incluídos - que eu lhe transmiti.

Eu mudei ao longo da vida, acompanhei os "tempos" e não perdi oportunidade de transmitir essas alterações às gerações seguintes. Redimi-me do que fiz nos tempos da minha juventude... Concordo inteiramente com Richard Dawkins:  

- Por este novo pensamento, que é poderoso e muito importante, o mundo evoluiu para melhor. 


O PAÍS
DO
CARNAVAL

Episódio Nº 64


 - A experiência é feita de desilusões…

 - Eu possuo uma grande experiência…

José Lopes despediu-se. Fazia-se tarde e ele necessitava de estar á frente da sua casa de jogo.

Paulo Rigger ficou a acompanhá-lo tristemente com o olhar. Magro, faces encovadas, tossira tanto no desenrolar da conversa…

Viam-se raramente. José Lopes não aparecia, escondendo de todos a sua miséria… Rigger recordou-o: o mais confiante, o que mais esperava, o que pretendia ser feliz e se dizia sereno.

Agora, fracassado, bebia pelos bares e dirigia uma casa de jogo, a caçar uma tuberculose disponível. Ele era bem o símbolo do fracasso de todos eles… Porque haviam fracassado lamentavelmente…



Todos, menos Jerónimo Soares. Ele, se não chegara à inteira felicidade, caminhava a passos de gigante para ela. Cada vez mais liberto da influência de Pedro Ticiano, resolvera morar definitivamente com Conceição. Alugara uma casinha e mobilara-a decentemente.

Mudaram-se num sábado à tarde. Conceição, muito contente, com uma alegria infantil a lhe bailar no rosto, arrumava a sua nova residência. Sempre pretendera possuir uma casa.

Quando moça, em companhia dos pais, o casamento se lhe afigurava como o maior ideal. Depois, perdeu-se. E, prostituta, sofrendo, ela jamais se esquecera do seu sonho. Uma casinha… Um homem que a possuísse inteiramente, de quem ela fosse o amor e que constituísse para ela a Felicidade.

Quantas vezes as companheiras de trabalho, marafonas sifilíticas e cínicas, não riram dos seus desejos!

 - Quem cai nesta vida, não se livra mais dela. Quando muito se amásia… Mas isso é pior. Um dia quer dar o seu corpo a outro homem e não pode. Tem o amásio a empatar. Quando, apesar de tudo, se entrega, toma bordoada e volta novamente para a rua.

E ela temia amigar-se.

 - O corpo da gente não perde o costume de ser de muitos. Não se contenta com um…

 Mas Conceição nascera para mãe de família. Nascera para se entregar a um e a um só. Assim, quando Jerónimo, sentimental e ávido de amor, invadira a sua vida, ela compreendeu que os seus se realizariam.

Amou-o intensamente. Ele, em paga, era de uma bondade infinita.

 - Um Santo! – dizia às companheiras.

Havia dias, entretanto, que ele estava de mau humor. Dizia-lhe coisas amargas, fazia-a sofrer. Ela chorava muito e ele se tornava estúpido.

Esses dias iam rareando ultimamente. E ela se gabava de que o seu amor o estava conquistando. Não sabia que a diminuição da influência de Ticiano sobre Jerónimo é que realizava o milagre.

De facto, Jerónimo pouco procurava Ticiano. Temia envolver-se novamente no ciclo de ferro das blagues daquele destruidor.

 - O amor é uma imbecilidade…

Mas ele, Jerónimo, sequioso de amor, preferia ser imbecil a ser infeliz.

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