sábado, abril 10, 2010

VÍDEO

A Camarilha da Canalhada...

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ALCIONE - SUFOCO


ANDREW LOYD WEBBER - MEMORY (Cats Musical)


CANÇÕES ITALIANAS

ENZO DI MOLA - CAROVANIERE



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 90



- Quem morreu? Dona Ângela? Tu está doido?

- Nem faz três horas. Minha velha, Vadinho…

Muitas vezes em solteiro, e mesmo depois de casado, inclusivé em companhia de dona Flor, fora ele comer a feijoada dominical de dona Ângela, naquele fim de linha de Brotas. Gordíssima e cordial, ela o tratava como filho, numa fraqueza pelo moço jogador, perdoando-lhe a vida de deboches. Não era ele uma réplica, até nos cabelos loiros, do finado Aníbal Cardeal, batoteiro imagine, seu amásio e pai do Cigano?

- Igualzinho ao outro… Dois perdidos…

Novamente sentiu – se Vadinho sem ar e sem acção, dia mais nojento, dia mais sem jeito: primeiro Flor com aquela teimosia da desgraça, agora o Cigano a conduzir nas dobras do crepúsculo e a atirar no passeio o cadáver de dona Ângela…

- Mas, como se deu? Ela estava doente?

- Nunca vi ela doente, que me lembre. Hoje, quando saí, depois do almoço, deixei ela no tanque, lavando roupa. Cantando, contente que só vendo…Tu não vê que hoje foi o dia de pagar a último letra do carro, a gente tinha o dinheiro certinho. De manhã agente ficou, os dois, contando, ela e eu… Ela me entregou o que tinha juntado nesse mês, tudo em nota de dez tostões, dois mil réis. Tava alegre porque agora o carro era meu de verdade.

- Fez uma pausa, esforçando-se por não chorar: - Diz que de repente deu uma dor lá nela, no peito. Que foi só o tempo de dizer meu nome e caiu morta… O que me dói é que eu não estava lá, estava pagando a letra do carro… Isidro, aquele do botequim, é que me veio avisar, na praça… Fui correndo… Ah! meu irmãozinho, ela estava toda fria, os olhos esbugalhados…

Agora eu vim porque estou sem um vintém, o dinheiro foi todo no pagamento do carro… O meu e o dela, da minha velha…

Sua voz quase em surdina, escutariam as comadres? Mesmo as comadres morriam um pouco na agonia do sol esbatidas na sombra quando Vadinho entregou ao Cigano aquele sujo dinheiro de violência e seu límpido palpite de vitória.

- É tudo que tenho…

Tu vem comigo? Tem muito que fazer…

- Não houvera de ir?

Livres da presença de Vadinho, as comadres entravam-lhe casa adentro: no quarto dona Flor e as malas, dona Norma tentando demovê-la. As xeretas não compreendiam as razões de dona Norma. Razão só dona Flor a possuía, carradas de razão. Um coro de cochichos:

- Oh!, vida mais injusta, como se pode martirizar assim…

- Ela devia era largar ele de uma vez…

- Atrever-se a bater… Que horror!

Jamais dona Flor acreditou não terem elas escutado a conversa do Cigano, seu anúncio de morte. Não fosse seu Vivaldo, o da funerária, e dona Flor não teria sabido do falecimento de dona Ângela nem de como Vadinho empregara o dinheiro… Seu Vivaldo passou por acaso: aproveitando estar nas imediações, veio trazer a receita de certo prato de bacalhau, de origem catalã, delícia saborosa em pantagruélico almoço em casa de Taboadas, em cuja mesa nunca serviam menos de
oito ou dez
pratos, um esbanjamento.


A Minha
Última
Operação
na Guerra
Colonial
de Angola


(Novembro de 1963)






Era minha intenção dar este tema como terminado excluindo dele a experiência que foi a minha última operação no Norte de Angola antes de seguir para o Leste passar em paz o resto da comissão mas, se o fizesse, omitiria aquele que foi, sem dúvida, o meu único momento de guerra a sério de toda a minha comissão.

Quando, por exaustão, as tropas eram retiradas da zona de guerra, mais ou menos ao fim de um ano, e transferidas para outras regiões, era comum fazerem uma pausa em Luanda e aí serem aproveitadas pelos Altos Comandos para uma última Operação em Zona de Guerra, espécie de cereja em cima do bolo, ou de preço a pagar pela passagem para uma Zona pacífica. A essas tropas chamavam-lhes de Intervenção.

Era uma oportunidade para as Chefias Militares, sedeadas no ar condicionado de Luanda, fazerem a sua própria guerra, concebendo e realizando Operações que eram desencadeadas em locais escolhidos por serem considerados importantes do ponto de vista estratégico e envolviam grande número de efectivos.

Nessas Operações, oficiais superiores, Majores ou Tenente-Coronéis, dentro de pequenas avionetas ao lado dos pilotos, sobrevoavam a zona em que as tropas operavam tentando fazer o acompanhamento que não era fácil porque cá em baixo era um ininterrupto tapete verde.

Para terem uma ideia da movimentação dos grupos de combate no terreno e da sua localização davam, então, ordens pela rádio para que fossem lançadas granadas de fumo, o que não era do agrado das tropas que operavam no terreno porque tinham de interromper a marcha e correrem o risco de que esses sinais fossem também notados pelos guerrilheiros.

Percebíamos, no entanto, que essa era a maneira desses Oficiais participarem mais directamente na guerra sem o esforço e riscos inerentes e ao mesmo tempo poderem fiscalizar o cumprimento dos itinerários fixados nas Cartas de Operações… ou pelo menos tentarem.

Era este o contexto em que fiz a minha última Operação na Guerra Colonial e que só por muita sorte não foi, igualmente, a última coisa que fiz na minha vida.

Mas se hoje a posso relatar porque lhe sobrevivi a minha vontade era, no entanto, esquecê-la, ou melhor ainda, que ela nunca tivesse acontecido.

Deixem-me, por isso, fazer previamente uma reflexão:

Afirmei no início do relato destas memórias que não houve uma guerra mas tantas quantas os que nela participaram.

O cunho e a marca da guerra estão não só nos factos, no que acontece enquanto vivemos essa experiência traumática, mas principalmente na forma como cada um sente e reage interiormente a tudo isso.

Todos fomos criados e educados num quadro de valores que respeita a vida humana mas quando nos põem uma arma nas mãos, vestem um camuflado e nos mandam para a guerra, imediatamente interiorizamos que vamos morrer e matar e por isso, quando passadas poucas semanas de termos chegado ao Úcua, um Unimog foi emboscado pelo inimigo e quase todos os seus ocupantes, meus camaradas de Batalhão, foram mortos, incluindo o meu amigo Setúbal, o que eu senti, fundamentalmente, é que a sentença da guerra estava-se a cumprir entre aqueles que eram os seus protagonistas.

No fundo, na morte daqueles soldados havia qualquer coisa de terrivelmente óbvio: os soldados foram concebidos para morrer, umas vezes uns, do lado de cá, outras vezes outros, do lado de lá.

Se alguma coisa faz sentido numa guerra é a morte dos soldados que nela participam e por isso a morte de um soldado não envergonha o outro soldado que o mata, envergonha mais se o não matar e ainda mais se se deixar matar. Os superiores não lhe perdoarão ter contribuído para aumentar o número das baixas em combate…

Assim, a minha reacção não foi contra o soldado nosso inimigo mas para os promotores daquela guerra que nos puseram uma arma na mão, vestiram-nos o camuflado e tiveram o desplante de nos dizerem que íamos defender o solo pátrio, sem esclarecerem que nele se camuflavam os interesses dos senhores do café, do algodão, do sisal, dos diamantes, do açúcar, (ainda não tinha aparecido em cena o petróleo), a maior parte residentes em Portugal com breves visitas a África, o tempo necessário para gozarem de umas bem organizadas caçadas.

Mas regressemos à minha última Operação:

Desenrolou-se tendo como base e ponto de partida a fazenda Maria João, no Coração dos Dembos, bem no centro do norte de Angola e nela participaram várias Companhias que saindo em simultâneo do mesmo ponto percorriam itinerários diferentes com objectivos de “limpeza”, perfeitamente delirantes tendo em conta a riqueza da vegetação e o desconhecimento e pouco à vontade que possuíamos quando comparados com o das populações que faziam dela a sua casa.

Fomos largados de viaturas naquilo a que eles chamavam picada e que há muito já tinha deixado de o ser (as picadas se não utilizadas, rapidamente são invadidas pelo capim e a restante vegetação se apodera delas) e deveríamos seguir para Norte até encontrar uma outra picada que, de certeza, estaria nas mesmas condições e onde as viaturas nos reconduziriam de regresso à fazenda Maria João.

Com o meu pelotão ia também um outro que era comandado por um Alferes licenciado em medicina mas que não tendo ainda feito o estágio, cumpria a comissão como oficial de infantaria e pertencia à guarnição militar que estava instalada na própria fazenda Maria João.

O seu estado de espírito não podia ser pior. Estava deprimido e era completa a saturação e o desinteresse que manifestava por tudo o que o rodeava.

Antes de partirmos acercou-se de mim e disse-me:

- “Não quero saber disto para nada, você comanda e eu vou ser apenas mais um soldado”… não mais voltei a dar pela sua presença.

A operação decorreu num vale profundo de encostas bem acentuadas e que se prolongava na sentido sul/norte.

As encostas do vale estavam desmatadas até uma certa altura para aproveitarem o terreno para a agricultura na parte mais baixa e fértil. Era uma agricultura de subsistência das populações que se tinham subtraído ao controle das autoridades portuguesas e viviam refugiadas no mato juntamente com os guerrilheiros que tinham a obrigação de as protegerem.

Começamos a deslocação para norte, pela encosta do lado esquerdo do vale, na orla do terreno que estava mais limpo e encobertos pela vegetação da floresta.

Era-nos, assim, relativamente fácil, observar o que se passava à nossa direita, mais abaixo, sem que o contrário fosse igualmente possível.

Caminhávamos uns atrás dos outros numa fila que se prolongava por dezenas de metros e durante algum tempo nada aconteceu.

De repente, ouvi um tiro, depois mais tiros, um alvoroço, alguns soldados descem a correr a encosta, atravessam o vale e perseguem pessoas que fogem subindo a encosta do outro lado.

Regressam passado pouco tempo os que tinham saído em perseguição, a calma restabelece-se progressivamente… o drama estava consumado.

Uma jovem tinha sido morta por uma bala que disparada de muito longe entrara pelas costas e atravessara-lhe o coração. Um outro soldado cortou-lhe um dedo para trazer para casa como troféu de guerra e eu… tive uma enorme vontade de fugir dali, desaparecer…eu que era o comandante daquela tropa e nem sequer podia recriminar o soldado que matou a jovem porque apenas cumprira as instruções do Quartel General de matar tudo o que mexesse, a tal limpeza a que já me referi.

Não conheci bem este soldado no sentido de que não tive com ele uma grande convivência. Era da minha Companhia mas do Pelotão do meu colega Ataíde. Tinha um aspecto rude, possante, algo primitivo, provavelmente pouco menos do que analfabeto.

Dizer-lhe que a utilização de uma arma, mesmo numa situação de guerra, é sempre da responsabilidade de quem a utiliza, faria algum sentido para ele?

Manifestar-lhe o meu desagrado não seria estabelecer a confusão na sua cabeça?

Perguntar-lhe se ele gostaria que fossem à sua aldeia e lhe matassem a irmã ou a namorada quando ela estavivesse a trabalhar no campo, era justo?

Do outro soldado, do que cortou o dedo do cadáver da jovem para recordação, não procurei saber na altura quem era, sentia demasiada vergonha por mim e por ele.

Quarenta e quatro anos mais tarde pediu-me desculpa: “eu era um garoto…”, mas não seríamos nós todos uns garotos?


Foram, para mim, momentos de pânico e desorientação, não queria estar ali nem mais um minuto e por isso dei instruções para que continuássemos o nosso trajecto o mais rapidamente possível.

Atacar civis, pessoas indefesas, não era guerra nenhuma, era um morticínio.

Cansado daquelas marchas, do ar saturado de humidade que não nos deixava respirar, do peso da espingarda, cartucheiras, bornal, capa de borracha, cantil, que depressa esvaziava… quando à noite me deixava cair o que me esperava era sempre um sono profundo e descansado, tendo por almofada o meu bornal e por lençóis a capa de borracha.

Sempre? ...não, naquela noite quase não preguei olho, os gritos de dor pela morte da jovem ecoavam por todo aquele vale.

Eram gritos lancinantes, doridos, acusatórios e o silêncio que se lhes seguia parecia total, como se os bichos da floresta tivessem decidido calar-se nessa noite para eu melhor os poder ouvir.

No outro dia, ainda o sol não nascera e já nos tínhamos posto em marcha que só não eram forçadas porque as condições do terreno e da vegetação não o permitiam.

Era ténue a minha esperança de conseguir escapar à emboscada que de certo me esperaria em qualquer ponto do percurso.

Os guerrilheiros não podiam permitir que a tropa fosse ao seu terreno matar uma jovem do seu povo da mesma forma que se caça uma gazela e saísse do emaranhado de toda aquela vegetação com total impunidade. Era para eles uma questão de honra.

Por isso, começamos a andar ainda de noite e continuávamos a apressar o andamento na esperança de sair dali depressa, antes que tivessem tempo de armar a emboscada.

Já era bem de dia quando o vale se bifurcou.

Eu devia continuar em frente, sempre para norte, sempre por aquele vale. O Quartel-General sabia bem que era ao longo dele que se encontravam as populações e por isso o itinerário era aquele e não outro.

Mas chegados àquela bifurcação decidi desrespeitar as ordens, seguir pelo vale da esquerda, de vegetação mais densa de tal forma que era praticamente impossível montar ali uma emboscada ou fosse o que fosse, e em distância, parecia-me encurtar caminho.

Disse aos homens para encherem os cantis num fio de água que por ali passava e foi nesse momento, com eles dobrados sobre si próprios, involuntariamente meio escondidos para recolherem a água e eu de pé, a fazer não sei bem o quê, que o tiroteio começou.

Eles pensaram exactamente aquilo que eu iria fazer, aquele era o sítio certo para a emboscada, antes de fugir pelo vale da esquerda que tendo uma vegetação tão densa não permitiria qualquer acção militar.

Entretanto, os tiros prosseguiam e eu continuava de pé, aparentemente de desafio: …vá estou aqui, de pé, acertem-me se forem capazes, vinguem a vossa jovem que nós matámos…

- “Meu alferes, saia daí, esconda-se, que eles matam-no!”… gritou-me o Maia, (já falecido) deitado atrás de um tronco de uma árvore caída no terreno.

Dirigi-me para junto dele, normalmente, como quem muda de mesa na esplanada do café, com a inconsciência do perigo própria de quem não nasceu para aquelas coisas.

-“Meu alferes, as balas aos seus pés até levantavam pó!”

Entretanto, alguém gritou que eles estavam em cima das árvores a fazerem fogo para cima de nós e logo tudo quanto tinha folhas e ramos foi varrido pelas rajadas das G3.

Nitidamente, o efeito da surpresa tinha passado e o nosso maior poder de fogo estava a impor-se.

Chamei o homem da bazuca e mandei-o disparar duas granadas na esperança de que alguma delas conseguisse passar por entre as árvores e explodisse contra a outra encosta do vale.

A primeira rebentou logo à nossa frente, deu cabo de uma árvore que estava muito próxima e “choveram” bocadinhos de madeira para cima de nós.

- “É pá, levanta o cano dessa merda para ver se consegues fazer a granada passar por cima das árvores!

Inspirado pelos “deuses da guerra”, o homem da bazuca, à segunda tentativa, conseguiu que a granada passasse por entre as árvores, as sobrevoasse e estourasse contra a encosta do vale, no outro lado.

O efeito ultrapassou tudo o que se poderia esperar: o estrondo do rebentamento multiplicado pelo eco, possível pelo facto das encostas serem suficientemente íngremes e próximas a funcionarem como paredes em frente uma da outra, parecia coisa do apocalipse.

De repente, “vinte exércitos” tinham entrado em cena e accionado os seus dispositivos de lançamento de granadas. Quando, finalmente, os rebentamentos se deixaram de ouvir, a guerra tinha acabado, a calma e o silêncio estabeleceram-se como se nada ali tivesse acontecido.

Levantámo-nos lentamente olhando e perguntando uns pelos outros e inacreditavelmente estavam todos bem, apenas um sargento enfermeiro, de mais idade e pesado, tinha desmaiado de comoção mas estava a recuperar.

Tiveram a oportunidade de uma justa vingança e não a aproveitaram. Dispararam de surpresa de cima das árvores a distâncias que não eram muito grandes e poderiam ter-nos causado inúmeras baixas…éramos mais de sessenta alvos.

Em vez disso, não acertaram em ninguém, a jovem não foi vingada… mas eles tentaram, cumpriram a sua obrigação, provavelmente com feridos ou mortos pois foram vistos alguns a atirarem-se das árvores, não sabemos se atingidos ou não.

A continuação da marcha foi penosa, momentos houve em que a vegetação de tão densa que era foi-nos aprisionando de pernas e braços, obrigando a recuos e avanços que eram uma autêntica luta contra o emaranhado dos ramos.

Finalmente, exaustos de cansaço, fome e sede porque no meio de toda aquela confusão e na pressa de abandonar o local nem enchemos os cantis de água, lá chegámos ao destino, já de noite, mas vivos e sem feridos.

Aquilo que nos separou da morte, nesse dia, foi um simples capricho do acaso.

Quarenta e quatro anos depois convenço-me cada vez mais que é ele, o acaso, que comanda a vida, sempre a comandou. Todo o processo evolutivo, em certa medida, foi determinado pelo acaso e as nossas humildes vidas, claro, também não lhe podiam fugir.

Pensei muitas vezes, ao longo de todos estes anos, naquela jovem com um sentimento de culpa pela sua morte.

Propositadamente, não quis vê-la para não lhe recordar o rosto pela vida fora mas é fácil imaginá-lo e ele tem-me acompanhado, sinal de que a minha consciência não está completamente descansada.

Afinal, eu era o comandante daquela Operação e antes dela começar deveria ter dado instruções a todos os soldados de que, a menos que fôssemos atacados, ninguém dava tiros sem minha autorização.

Esta ordem ficou por dar e custou a vida àquela rapariga e a minha consciência carregará sempre esse peso.

Para ela, flores…todas as flores deste mundo!.

sexta-feira, abril 09, 2010

VÍDEO

Barbeiro de Sevilha tocado em Bateria (vale a pena ouvir outra vez).

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GAL COSTA - EU VIM DA BAHIA


SANTA ESMERALDA - DON'T LET ME BE MISUNDERSTOOD


CANÇÕES ITALIANAS
CÀUDIO VILLA - PIEMONTESINA



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 89





Os gritos cortavam a tarde, as comadres em alerta saíam à rua:

- É Vadinho tomando dinheiro de Flor, coitadinha…

- Cão mais tenebroso! Cão das trevas!

Vadinho partiu para dona Flor, os olhos negros, a cabeça vazia, o ódio a cobrir-lhe o entendimento, ódio de fazer o que estava fazendo. Tomando-a pelos pulsos, bradou-lhe:

- Larga essa merda!

Foi ela quem bateu primeiro: arrancando-se dele e não querendo deixar-se agarrar novamente, socou-lhe o peito com os punhos fechados, com a mão aberta atingiu-lhe o rosto. “Sua puta, tu me paga!, disse Vadinho, enquanto dona Flor gritava: “me deixa desgraçado, não me bata, me mate logo, é melhor”. Então ele a empurrou, ela caiu por cima de umas cadeiras, gritando: assassino, miserável, e ele a esbofeteou. Uma, duas, quatro bofetadas. O estalo das tapas levantou, na rua, o coro de revolta e lástima das comadres. Dona Norma abriu a porta, foi entrando sem pedir licença:

- Ou você para com isso ou eu chamo a polícia.

Vadinho nem parecia vê-la: lá estava ele com o dinheiro na mão e um ar perdido, o cabelo revolto, olhando num espanto para onde dona Flor jazia caída, a gemer baixinho, num choro manso. Dona Norma correu a ampará-la, Vadinho saiu porta fora, as notas apertadas entre os dedos. As vizinhas arredaram do passeio, era como se vissem o próprio demónio dos infernos.

Naquele mesmo instante , o táxi do Cigano freou junto à porta. Reconhecendo-o, Vadinho sorriu, porque aquela coincidência era mais uma prova da infalibilidade do palpite. Ia pela rua bem do seu quando tivera aquela certeza, mas uma certeza total e absoluta, sem perigo de engano ou urucubaca, certeza de que nessa tarde, nessa noite ele iria estourar todas as bancas de jogo da cidade, uma por uma, começando pelas roletas do Tabaris, terminando no antro escuso de Paranaguá Ventura. Uma certeza a crescer dentro dele, a dominá-lo, exigindo acção, obrigando-o a desdobrar-se em inútil peregrinação à cata de numerário, a partir por fim e a contragosto, em busca do dinheiro de dona Flor.

Ao esbofeteá-la, porém, ficara vazio até dessa certeza, fora o palpite, todo ele oco por dentro, sem saber o destino a dar àquele dinheiro, como se tudo houvesse sido inútil. Mas, na rua, ante o táxi do Cigano a surgir num milagre – pois Vadinho tinha pressa de iniciar ainda no turno vespertino a maratona do século – novamente se tranquilizou. Mais uma prova indiscutível de força do palpite, Vadinho sentia um calor nas mãos, uma urgência de partir. Agora apenas as mesas de roleta, a bolinha a girar, o crupiê, o 17, as paradas, o olhar nervoso de Mirandão, à sua esquerda como de hábito, as fichas, apenas o jogo existia para ele. Quis entrar no táxi mas o cigano saltara entre as vizinhas em alvoroço.
Um rastro de lágrimas no rosto do chofer, a voz espessa.

- Vadinho, meu irmãozinho, minha velha morreu, minha mãezinha…

Eu soube na rua, estou vindo agora de casa… Não vi ela morrer, diz que ela chamou por mim quando deu a dor…

De começo Vadinho nem prestara atenção às palavras do amigo, mas logo entendeu e apertou o
braço do Cigano. Que estava ele inventando, que história mais maluca?

quinta-feira, abril 08, 2010

ASSISTA EM TODO O PORMENOR À ATERRAGEM DE EMERGENCIA NO RIO HUDSON, NAS IMEDIAÇÕES DE NOVA YORK, A 23 DE JANEIRO DE 2009.



O Perigo Que
Representa a
Força da
Fé Religiosa



Em Julho de 2005, Londres foi vítima de um ataque concertado de bombistas suicidas: três bombas no metro e uma num autocarro. Não tão grave como o ataque ao World Trade Center de 2001, e sem dúvida que menos inesperado pois, na verdade, Londres já andava crispada à espera de um acontecimento do género desde que Tony Blair se decidira por envolver a Grã Bretanha na invasão do Iraque com os americanos de George Bush.

Os jornais perguntaram, então, entre comentários sofridos, o que teria levado quatro jovens a fazerem-se explodir levando consigo uma grande quantidade de pessoas inocentes.

Os assassinos eram cidadãos britânicos bem-educados, adeptos do criquet, o tipo de jovens cuja companhia se poderia apreciar.

Porque o fizeram, afinal, esses jovens adeptos do criquet?

Ao contrário dos seus homólogos palestinianos, ou dos kamikaze japoneses ou ainda dos tigres do Sri Lanka, a estas bombas humanas não as moveu a expectativa de que as suas famílias enlutadas fossem alvo de admiração, protegidas ou apoiadas com pensões devidas a mártires.
Muito pelo contrário, os familiares tiveram, nalguns casos, de se esconderem. Um dos homens cometeu a crueldade de deixar grávida a viúva e órfão o filho que começava a dar os primeiros passos. O acto destes quatro jovens traduziu-se num desastre não só para os próprios e para as vítimas, como também para as famílias deles e para toda a comunidade muçulmana da Grã-Bretanha que passaram a debater-se com represálias pelos seus actos.

Só a força da fé religiosa é capaz de motivar uma loucura tão extrema em pessoas que em tudo o mais davam mostras de sanidade e compostura.

Sam Harris, ao referir-se ao líder da Al-Qaida, Osama bin Laden, demonstra grande perspicácia ao dizer o seguinte:

- “Por que razão haveria alguém de querer destruir as Torres de World Trade Center e toda a gente que nela se encontrava?

Chamar de “mau” a Bin Laden é fugir à nossa responsabilidade de dar uma resposta adequada a tão importante pergunta.

A resposta a esta questão é óbvia – quanto mais não seja porque foi pacientemente repetida pelo próprio Bin Laden. A resposta é que homens como ele acreditam “efectivamente” naquilo que dizem que acreditam. Acreditam na verdade literal do Corão. Por que motivo teriam 19 homens instruídos, pertencentes à classe média, trocado as suas vidas neste mundo pelo privilégio de matar milhares dos nossos semelhantes?

- Porque acreditavam que iam direitos para o paraíso se o fizessem.

É raro encontrar comportamentos humanos explicados de forma tão completa e satisfatória. Porque temos nós demonstrado tanta relutância em aceitar esta explicação?”

O conceituado jornalista Muriel Gray pronunciava-se de forma idêntica referindo-se às bombas de Londres:

- “ Culpa-se toda a gente. Desde o óbvio duo de ladrões: George Bush e Tony Blair até à inacção das comunidades muçulmanas. Mas nunca terá sido tão claro que existe apenas um culpado e que sempre assim foi. A causa de toda esta desgraça, do caos, da violência, do terror e da ignorância é, evidentemente, a própria religião e, embora pareça ridículo afirmar uma realidade tão óbvia, o governo e os media estão a esforçar-se ao máximo por fingir que não é assim.

A religião e a fé que a potencia está, e sempre esteve, na origem de todos estes aparentemente tresloucados actos. Quando os cristãos assassinam médicos das clínicas abortistas não é porque sejam psicóticos: fazem-no por idealismo religioso e ponto final.

Consideram bons os actos que praticam não devido a qualquer idiossincrasia pessoal destorcida, nem por terem sido possuídos por Satanás, mas tão-somente porque desde o berço foram educados a ter uma fé total e inquestionante.

Todas as pessoas religiosas e muito mais os representantes das Igrejas, sentem uma grande incomodidade com esta explicação tão simples quanto verdadeira. Quer queiram ou não, há um rasto de cumplicidade que fica, mesmo sabendo nós que a maioria das pessoas possuidoras de fé religiosa são pacíficas e inofensivas mas, atenção, aconteceram muitas surpresas com estas pessoas nos recentes acontecimentos dos Balcãs que puseram a ferro e fogo aquela região, mesmo considerando a importância dos factores nacionalistas.
Quando o quadro social se altera, quando grupos religiosos se envolvem em disputas levados por líderes ambiciosos e sem escrúpulos, vêm ao de cima comportamentos e reaçções de violência completamente inesperadas por parte de pessoas religiosas que pareciam perfeitamente pacíficas e inofensivas.

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Esta mulher não devia ir a casamentos...

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SYLVIE VARTAN - EST CE QUE TU LE SAIS


VANUSA - MANHÃS DE SETEMBRO


CANÇÕES ITALIANAS

ADRIANO CELENTANO - IL TANGACIO (1963)



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS

EPISÓDIO nº 88

“Hipocrisia, nada além de hipocrisia, carícias para romper minha resistência, impossibilitar-me a negativa, carícias para minha fraqueza de mulher”. Juntou todas as forças, agravos antigos, a pequena reivindicação de um rádio novo, pôs-se de pé, vexada de desgosto:

- Por que não diz logo ao que veio? Ou pensa que não sei?

Sério e triste o rosto de Vadinho; vinha porque tinha de vir, porque nada conseguira em parte alguma, mas não vinha contente, de peito aberto e riso solto, ah! se pudesse não vir!

Também ele sabia o destino que dona Flor pensara dar àquele dinheiro. Seu Edgar Vitrola ainda não aparecera, pois o antigo aparelho continuava na sala como Vadinho constatou ao abrir a porta. Mas podia aparecer a qualquer momento com a oitava maravilha do mundo, beleza de móvel em pau marfim e metal cromado, última palavra em maquinaria, em ondas e faixas, em quiloates e voltagens, capaz de captar as mais longínquas emissoras, as do Japão e as da Austrália, as de Addis-Abeba e de Hong-Kong, sem esquecer os subversivos programas de Moscovo, tanto mais proibidos quanto mais procurados. Dona Flor mandara recado urgente a seu Edgard, por intermédio de Camafeu, tocador de berimbau e companheiro inseparável de Vitrola.

Primeiro no bonde, com seu palpite e sua vergonha, depois a pé pela rua, viera Vadinho partido em dois. Um na pressa de chegar antes do vendedor de rádios, nunca um palpite o possuíra tanto assim; o outro no desejo de chegar tarde após seu Edgard, não mais encontrando nem o rádio velho nem os cobres pagos por dona Lígia, dinheiro ganho por sua mulher à custa de trabalho e de suor: atravessara a noite junto ao forno, após um dia sem descanso. Partido em dois, no bonde; vindo pela rua, entrando em casa, abrindo a porta: partido em dois. Se seu Edgard não tivesse passado, que sinal mais certo da infalibilidade do palpite?

Mas se já encontrasse o novo aparelho, ficaria em casa naquela noite, ao lado de dona Flor, estreando-o ouvindo música, rindo com as piadas. Partido em dois, dividido pelo meio, assim viera Vadinho.

Por que seu Edgard não passara antes? Agora não tinha mais remédio.

- Tu pensas que é só por interesse que eu te agrado?

- Só por interesse e nada mais…

Apenas interesse, vil interesse; retesava-se dona Flor:

- Por que não fala logo?

Um muro os separava naquela hora do crepúsculo quando a tristeza irrompe no horizonte em cinza e em vermelho, quando cada coisa e cada vivente morre um pouco no morrer do dia.

- Já que é assim tu vai emprestar nem que seja duzentos mil réis.

- Nem um tostão…Tu não vai ver nem um tostão…Como tu ainda tem coragem de falar em empréstimo? Quando é que tu pagou nem que fosse um vintém? Esse dinheiro só sai de minha mão para a do senhor Edgard.

Juro que pago amanhã, hoje estou precisado de verdade, é caso de vida ou de morte. Juro que amanhã eu mesmo compro um rádio para você e tudo mais que tu quiser… Pelo menos cem mil-réis…

- Nem um tostão…

- Tem paciência, meu bem, só essa vez…

- Nem um tostão… – repetia como se não soubesse dizer outra coisa.

- Ouve…

- Nem um tostão…

Toma cuidado, não brinca comigo porque, se não for por bem, vai ser por mal…

Disse e olhou em torno como a localizar o esconderijo. Eis que dona Flor perdeu a cabeça e, em desespero, se para o velho aparelho de rádio; junto às gastas válvulas ocultara o dinheiro. Vadinho a seguira, ela porém já segurava as cédulas desafiando-o aos berros:

- Esse tu não vai gastar no jogo. Só se me matar…

quarta-feira, abril 07, 2010

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A maneira mais bonita de fazer passar uma mensagem..

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O Mistério
da Fé (II)



Já vimos que fé, designada pela igreja, como “mistério”, não passou de mais um processo de selecção, comum à evolução dos seres vivos e primeiramente explicado por Charles Darwin. De resto, na vida, não há mistérios: há coisas que sabemos, outras que não sabemos e chamar a estas de “mistérios” é, no mínimo, tendencioso.

As crianças, filhas dos nossos antepassados remotos que tinham maior propensão para acreditarem nos conselhos e advertências dos pais e dos mais velhos morriam menos e por isso, entre os descendentes, geração após geração, foram aumentando progressivamente o número dos que acreditavam até que, finalmente, éramos todos crentes.

Foi uma estratégia bem sucedida mas que se revelou perigosa porque quem acredita no “bom” acredita no “mau” e as crianças não têm condições para fazerem essa destrinça. Os líderes religiosos estão conscientes da vulnerabilidade do cérebro das crianças e da importância destas serem doutrinadas em tenra idade.

O alarde jesuíta “dai-me a criança durante os sete primeiros anos e eu dar-vos-ei o homem” não é menos exacto ou sinistro por ser já uma frase batida.

James Dobson, fundador do famigerado movimento Focus on the Family, mostra que também conhece bem o princípio:

- “Aqueles que controlam o que é ensinado aos mais novos e aquilo que eles experienciam – o que vêm, ouvem, pensam e crêem – irão determinar o futuro da nação”.

Esta vulnerabilidade a que ficam sujeitas as crianças que não têm forma de distinguir os bons dos maus conselhos, constitui um subproduto de uma solução, que em termos evolucionistas, terá sido fundamental para a nossa sobrevivência.

Temos na natureza outros casos de subprodutos de óptimas soluções para a sobrevivência:

- As borboletas da traça orientam-se pelos raios luminosos da lua para encontrarem o caminho de casa. Como a lua está no infinito óptico os seus raios são paralelos o que lhes permite servir de bússola aos olhos da traça. Mas se o objecto de luz estiver próximo, os raios já não serão paralelos mas divergem como os raios de uma roda e, nestas condições, o sistema de orientação que estava correctamente concebido deixou de funcionar conduzindo as borboletas directamente contra a chama das velas naquilo que parece ser um aparente suicídio.

Se, na história da humanidade, uma eventual guerra santa tivesse colocado metade da humanidade contra a outra metade e nessa guerra tivessem morrido todos os homens, hipótese meramente académica mas verificada muitas vezes no passado em escalas menores, a mesma solução que teria permitido a vida estaria agora na origem do desfecho fatal.

Este mecanismo do acreditar, o tal “mistério da fé” para a Igreja, é um dispositivo que se assemelha a um computador que fazem o que lhes mandam, obedecem cegamente a quaisquer instruções transmitidas através da linguagem da programação… e esta pode ser para coisas boas: “processamento de folhas de cálculo” ou para coisas erradas. O computador não tem forma de saber se uma dada instrução vai produzir um bom ou mau resultado, limitam-se a obedecer tal como se espera que faça um soldado. É esta obediência incondicional que torna os computadores úteis e é precisamente por isso, também, que eles se tornam totalmente vulneráveis a infecções de vírus e vermes de software. É assim o cérebro de uma criança e disso se aproveita a religião que lhes inscreve, através da repetição até à exaustão dos seus dogmas: “reza vinte Ave-Marias, trinta Pais-Nossos e…” sem que a criança tenha oportunidade ou possibilidades de elaborar um pensamento crítico ou pedir uma simples explicação… aquelas pessoas têm apenas a preocupação de o formatarem, não estão lá para o ensinarem a pensar, o seu objectivo é a construção de um homem obediente e totalmente disciplinado, pelo menos relativamente à doutrina religiosa que não tem discussão nem crítica porque, na verdade, não pode ter.

A morte põe termo à vida… mas Jesus ressuscita. Todos nós somos filhos de um pai e de uma mãe… Jesus é filho de Maria e da intervenção do Espírito Santo. Há um tribunal no céu que castiga os maus enviando-os para o Inferno e premeia os bons com o Paraíso, deixando no meio uma coisa chamada de Purgatório que é uma espécie de ante-câmara para os candidatos ao Paraíso que ainda não satisfazem todas as condições. Enfim, digamos que é necessária muita fé… a que está faltando a muitos católicos que apesar de continuarem a ir à missa já não acreditam na vida depois da morte.

Para terminar, uma pequena história de Hitchcock:
- Diz-se que Alfred Hitchcock, o grande especialista cinematográfico na arte de assustar pessoas, ia certa vez de viagem pela Suiça quando de repente apontou pela janela do carro e disse:
-“Eis o espectáculo mais assustador a que alguma vez assisti”. Era um padre a conversar com um rapazinho, com a mão sobre o ombro deste. Hitchcock pôs a cabeça de fora da janela do carro e gritou:

- “Foge, miúdo! Foge ou estás perdido!”

VÍDEO

A modalidade mais espectacular da Ginástica: O TUMBLING

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ALCIONE - GOSTOSO VENENO


KENNY ROGERS - SHE BELIEVES


CANÇÕES ITALIANAS
TONY DEL MONACO - UNA SPINA E UNA ROSA





DONA

FLOR

E SEUS

DOIS

MARIDOS



EPISÓDIO Nº 87




Por azar, Vadinho encontrava-se escornado na sala quando o doutor Zitelmann Oliva se deu ao incómodo (ele tão ocupado com seus oito cargos todos de realce e importância) de vir pessoalmente a casa deles para pagar:

- estou com esse dinheiro no bolso há três dias… Lígia hoje só faltou me bater quando descobriu que eu ainda não tinha efectuado o pagamento…

- Ora, doutor não se preocupe… Que bobagem…

- Então seu Vadinho – pilheriava o figurão – o que é que você faz para sua mulher ficar cada vez mais moça e bonita? – conhecia dona Flor de menina e de há muito conhecia Vadinho que, de quando em quando, tentava mordê-lo (com poucos resultados, aliás, doutor Zitelman era duro na queda).

- Boa vida, doutor, a boa vida que ela leva. Casada com um marido como eu, que não dá dor de cabeça, não dá preocupações… vive a la godaça, descansada, feliz da vida… - ria seu riso despreocupado, tão contente! Dona Flor ria também de tamanho descaramento do marido.

Vadinho não lhe pedira dinheiro naquele dia. Com certeza ganhara na véspera, ainda tinha alguma reserva. Mas, quando ele apareceu de súbito na tarde seguinte, com aqueles olhos baixos, o rosto sério, quase triste, ela adivinhou de logo o motivo a trazê-lo: vinha pelo dinheiro. Enquanto as alunas sorviam o licor, saboreavam o bolo, álacres, com o olhares furtivos para o moço quieto, dona Flor, em silêncio, o coração sufocado, fez uma jura a si mesma, numa resolução terminante. Não lhe daria aquele dinheiro, nem todo nem uma pequena parcela, um real sequer. Destinava-o à compra de um novo aparelho de rádio. Ouvir rádio, eis o passatempo preferido de dona Flor, sua maior distracção: doida por sambas e canções, tangos e boleros, pelos programas cómicos, e, sobretudo, pelas novelas radiofónicas. Juntas, a ouvi-las, ela, dona Norma, dona Dinorá, e outras vizinhas, trémulas e vibrantes com o destino da condessa apaixonada pelo engenheiro pobre. Excepção. Só dona Gisa, num desprezo de erudita por tão baixa literatura.

O rádio, parte da sua bagagem de solteira, antiquado e gasto, só dava despesas, encrencando todos os dias, falhando nos momentos mais dramáticos, mudo na cena mais emocionante. Consertos e mais consertos, inúteis e caros. Dessa vez a decisão de dona Flor era irrevogável: não abriria mão de suas economias, sucedesse o que sucedesse. Afinal, tinha de colocar um paradeiro àquele abuso.

Foram-se as alunas numa revoada de risos e um tanto quanto desiludidas: era aquele sorumbático sujeito, num canto a cismar, o tão falado marido da professora, com fama de perigoso, de irresistível, o do caso com a Noémia Fagundes da Silva? Francamente, não lhes parecera digno de cobiça muito aquém da insolente legenda.

Dona Flor encontrou-se a sós com Vadinho, vis-à-vis com o seu medo, a boca amarga, opresso o coração. Erguendo-se num esforço, ele dirigiu-se à mesa, encheu um cálice de licor:

- Este troço é gostoso mas pega que é uma beleza, dá um pileque medonho, uma ressaca horrível… Dor de cabeça maior só com licor de jenipapo…

Queria parecer despreocupado, veio para junto dela, oferecendo-lhe uma gota do seu cálice, amável e terno:

- Prove, meu bem…

Mas dona Flor recusava, como recusava-se à carícia da mão a descer do cangote, no caminho dos
seios pela abertura da blusa.

terça-feira, abril 06, 2010

VÍDEO

Injeção no bumbum...

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RITA COOLIDGE - WE'RE ALL ALONE


RONNIE CORD - RUA AUGUSTA (1963)


CANÇÕES ITALIANAS

ENRICO MUSIANI - CHITARRA VAGABUNDA



DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 86


As outras trancaram as bocas, quem se incomoda em transmitir alvissareiras novas? Para isso não há urgência nem sofreguidão, ninguém sai correndo rua fora. Só para as más notícias. Para levá-las, sobram os arautos, não falta quem se dê aos maiores incómodos, quem largue trabalho, interrompa descanso, quem se sacrifique. Dar uma notícia ruim, coisa mais emocionante!

Não fosse o puro acaso e dona Flor teria ido embora naquela tarde em que Vadinho desceu ao fundo da sua ignomínia, desnudou-se em baixeza; chegara a arrumar as malas. Havia sempre um quarto à sua disposição em casa dos tios, no Rio Vermelho. Por um quase nada não se foi de vez, no definitivo rompimento. No entanto, a rua estava cheia de comadres, atraídas pelos gritos e pelo choro, e todas viram quando o Cigano chegou e todas o escutaram falar com voz trémula, foram testemunhas da reacção de Vadinho.

Alguma delas contou a cena a dona Flor, repetiu-lhe as palavras do Cigano? Pois sim, que esperança! Nem uma só para remédio, como se nada houvessem visto e ouvido. Ao contrário, todas as xeretas apoiavam a sua decisão, reconheciam-lhe motivos de sobra para romper de uma vez e para sempre com o canalha. Algumas até ajudavam na preparação das malas.


Quando Vadinho apareceu naquela tarde, dona Flor imaginou em seguida o motivo da inopinada presença. Quanto mais assuntava em suas maneiras, mais se convencia; nunca estivera tão discreto com as alunas, quase escondido num canto da sala, deixando-as concluir tranquilas, na cozinha a aula prática, um bolo de aniversário. As moças, componentes da turma nova, riam numa curiosidade sem disfarces, no desejo de conhecerem o falado marido da professora, com sua fama singular: à sua maneira Vadinho era célebre. Finda a aula, quando, entre exclamações e elogios, foram servidas fatias de bolo e cálices de licor de cacau – especialidade da casa, orgulho de dona Flor, cuja competência em licores de ovo e frutas corria parelha com a fama de seu tempero – com uma ponta de jactância, um ar vaidoso, ela apresentou:

- Vadinho, meu marido…

Nenhuma piada, nenhuma frase de duplo sentido, nem um piscar de olhos. Vadinho mantinha-se sério e quase triste; dona Flor conhecia o significado daquela expressão e tinha-lhe medo. Ah! se pudesse reter as alunas pela tarde e pela noite, prolongando a conversa, mesmo com o perigo do valdevinos por as mangas de fora, sair com suas ousadias. Ah!, se pudesse evitar o colóquio, o vis-à-vis com um Vadinho incapaz de fitá-la de frente, dobrado ao peso de suas piores intenções… Mas as alunas, moças e senhoras de intensa vida social, churupitavam o licor às carreiras, despediam-se.

Na véspera, dona Lígia Oliva mandara-lhe pagar – regiamente – os doces e salgados, uma encomenda enorme, para a recepção de uns lordes de São Paulo. Desde o casamento, dona Flor circunscrevera-se à lida com a Escola, recusando encomendas. Abria, no entanto, algumas excepções, para pessoas de sua estima: “de dona Lígia sou devota”, disse ao assumir empreitada de tal monta.

Esses dinheiros extraordinários, quase sempre recebidos na ausência de Vadinho, dona Flor os reservava para despesas inesperadas, uma compra maior, uma doença, qualquer precisão. Acontecia-lhe, inclusivé, juntar alguns contos de réis, bolo de notas oculto em esconderijos pela casa. Economias para a aquisição de utensílios domésticos, de presentes de aniversário, para as mensalidades da máquina de costura, e consumidas em grande parte em empréstimos a
Vadinho, aos cem e duzentos mil-réis.

segunda-feira, abril 05, 2010


O Mistério da Fé


Um quarto dos portugueses acredita que com a morte tudo acaba. De acordo com os dados de um estudo da socióloga da Universidade do Porto, Helena Vilaça, entre estes, 10% são de católicos que vão com regularidade à missa e 26% ocasionalmente.

Ora isto não faz sentido. Qualquer brecha no dispositivo da fé derruba uma religião, a católica ou qualquer outra.

Uma religião é um conjunto de dogmas que não se explicam, não são susceptíveis de serem entendidos pela razão e que precisam da fé para serem aceites e seguidos. Por isso, a Igreja chama-lhe o “mistério” da fé conferindo-lhe um aspecto transcendental ligado a Deus e a crença em Deus é a essência das religiões. Tu acreditas porque Deus “te manda acreditar” e, na verdade, as pessoas sentem-se impelidas a acreditar.

No entanto, nenhum daqueles dogmas faz sentido à luz da nossa inteligência e as próprias religiões, que desde sempre têm dividido os homens, estão na base de incontáveis guerras, ódios profundos e sofrimentos atrozes ao longo de toda a história da humanidade.

Vemos numerosos grupos de pessoas, que em determinadas regiões chega à totalidade, a defender crenças que contradizem completamente factos cientificamente demonstrados, bem como as religiões rivais seguidas por outros. As pessoas não só nutrem por essas crenças uma certeza veemente como também fazem tudo por elas, incluindo morrer e matar.

Por quê?

Centremos a nossa atenção nas crianças. Mais do que em qualquer outra espécie, nós sobrevivemos através da experiência acumulada pelas gerações anteriores e essa experiência precisa de ser transmitida às crianças, para a sua protecção e bem-estar.

Teoricamente, as crianças podem aprender, através da experiência pessoal que não devem aproximar-se de um penhasco porque podem cair, que não devem comer bagas vermelhas desconhecidas porque podem ser envenenados, que não devem nadar em rios infestados de crocodilos porque podem ser comidos por eles.

Tudo isto elas podem aprender mas, à custa de quantas vidas?

Num período longo de milhões de anos em que a sobrevivência dos nossos remotos antepassados era de tal maneira difícil que o risco da eliminação da própria espécie era uma realidade demasiado próxima, essa aprendizagem com o custo em vidas que acarretava teria, muito provavelmente, sido suficiente para o nosso desaparecimento da face da Terra.

Os processos de selecção que se aplicam a todos os seres vivos começaram a dar vantagem a todas as crianças cujo cérebro continha a seguinte regra prática: acredita sem hesitações em tudo o que os adultos te disserem, obedece aos teus pais, ao chefe da tua tribo, sobretudo quando falam num tom grave e ameaçador. Confia nos mais velhos sem contestar.

Esta regra tão valiosa para as crianças acabou, mais tarde, por dar maus resultados mas então o mecanismo do acreditar, a fé, o tal mistério da fé, já se tinha constituído num mecanismo do nosso cérebro. Depois foi fácil e possível às mesmas crianças passarem a acreditar que “tinham de sacrificar uma cabra durante a lua cheia para que a chuva viesse” mesmo que isso constitua um desperdício de tempo e de cabras.

Ambos os avisos parecem igualmente dignos de confiança, ambos provêm de uma fonte respeitável e são proferidos com grave seriedade que inspira respeito e exige obediência. O mesmo se aplica às questões que lhe são ditas sobre o mundo, o cosmo, os princípios morais e a natureza humana. Mais tarde, quando essas crianças tiverem filhos, muito provavelmente, irão transmitir-lhes tudo o que receberam – quer o bom senso, quer o disparate – e fá-lo-ão, igualmente, com toda a naturalidade usando o mesmo ar grave e persuasivo.

A época em que hoje vivemos, com a democratização do ensino e o desenvolvimento do espírito crítico e do conhecimento científico, torna cada vez mais difícil aos católicos acreditar em todos os dogmas da Igreja e a morte para além da vida, a “vida eterna”, por arrastamento a Ressurreição de Cristo e tudo o resto, os pilares essenciais do cristianismo, desmoronam-se.

Um quarto dos portugueses acredita que com a morte tudo acaba, entre eles estão muitos católicos, 10% dos que vão à missa regularmente e 26% nem tanto assim.

Perante estes dados, António Janela que é o Director do Instituto Diocesano de Formação Cristã afirma que: “à luz da fé isto não faz sentido mas eu sei que há muita confusão na cabeça das pessoas”…

As pessoas hoje, na nossa sociedade, estão em melhores condições de distinguir, na herança recebida, o que é de bom senso e o que é disparate, entre o que é “não nadar nos rios infestados de crocodilos” e o “cortar a cabeça à cabra em noite de lua cheia para que chova”.

Será uma crise no mecanismo da fé nos nossos cérebros? Uma ligeira avaria no dispositivo do acreditar ou, simplesmente, estão criadas as condições para que a razão se imponha à parte do irracional da fé?

Se assim for, as religiões, e estou a pensar na católica, não conseguirá sobreviver facilmente com a crítica dos seus seguidores porque uma religião, seja ela qual for, pressupõe obediência e disciplina totais, cegas, diria mesmo.

A pouco e pouco ficará a crença num Deus, Ser Supremo que terá estado na origem da Criação como uma espécie de “salvado” do que foi um mecanismo do processo de selecção que cumpriu o objectivo para que foi criado e a prová-lo aí estão todos esses biliões de pessoas que hoje povoam a terra.

Pessoalmente, por uma questão de "status", gostaria de me sentir filho de Deus mas isso seria um atentado à minha razão e a tudo quanto aprendi. Com muito “desgosto” meu vou ter que me contentar em ser descendente de um macaco, esperto, habilidoso, que a partir de um certo momento começou a desenvolver sinais de inteligência e, mesmo assim, prcisou de muita sorte para chegar até mim.

VÍDEO

Um anúncio com muita imaginação...

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JOE DASSIN - SALUT LES AMOUREUX


CLÁUDIO FONTANA - ADEUS INGRATA


CANÇÕES ITALIANAS

JIMMY FONTANA - IL MUNDO (1965)




DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


EPISÓDIO Nº 85



Numa única coisa estavam todas de acordo, de dona Rozilda a dona Norma, de dona Dinorá a dona Gisa, as verdadeiras amigas e as simples fuxiqueiras: dona Flor precisava esquecer, e quanto antes, aqueles anos desgraçados, precisava apagar a imagem de Vadinho de sua vida, como se ele nunca houvesse existido. Para elas o tempo de nojo estava durando demasiado, e por isso a cercavam para lhe provar – com factos – ter sido ela beneficiária da misericórdia divina.

A própria tia Lita, sempre disposta a desculpar Vadinho, não escondia no entanto sua surpresa:

- Nunca pensei que ela sentisse dessa forma.

Dona Norma também se admirava:

- Pelo jeito não vai esquecer nunca… Quanto mais o tempo passa, mais ela sofre…

Dona Gisa plantada em seus conhecimentos de psicologia, discordava das pessimistas:

- É natural… ainda vai durar uns dias mas depois termina, ela esquece, volta a viver…

- É isso, sim… - dona Dinorá era da mesma opinião – Com o tempo ela vai se dar conta que foi Deus quem olhou por ela…

Dividiam-se, porém, quanto à forma de melhor ajudá-la. Dona Norma forte do apoio a dona Gisa, propunha o silêncio em torno do nome de Vadinho. Ao demais, sob o comando férreo de dona Rozilda – e dona Dinorá era o sargento dessa aguerrida tropa – abriam a boca de intrigas, xingos e lamentos, para convencê-la de que por fim podia pensar em viver uma vida tranquila e feliz, de paz, conforto e segurança. De qualquer maneira, no silêncio da piedade ou no ruidoso libelo, ela devia encontrar os caminhos do esquecimento.
Era tão moça ainda, tinha a existência inteira à sua frente…

Se ela quiser não fica viúva por muito tempo… - profetizava dona Dinorá, que, em matéria de falar da vida alheia, possuía um sexto sentido, um dom divinatório, uma espécie de vidência. Aliás, em sua casa (herança de um comendador espanhol), de robe e em transe, dona Dinorá botava cartas e previa o futuro, consultando uma bola de cristal.

Por que, perguntava-se dona Flor, não vinha nenhuma delas recordar-lhe jamais um bem-feito de Vadinho? Afinal, em meio às incontáveis tratantices, vez por outra prevaleciam em seus actos a graça, a generosidade, o senso de justiça, o amor. Por que então só mediam Vadinho com o metro da ruindade, só o pesavam numa balança de maldições? Sempre fora assim, aliás. Quando ele era vivo, sucediam-se as xeretas, ávidas de transmitir notícias desagradáveis, de lastimar dona flor, coitada!: merecedora de marido direito e bom, capaz de oferecer-lhe trato e consideração. Nunca, porém, acontecera comadre às pressas, abandonando seus cómodos, seus quefazeres e seus lazeres, para vir, sôfrega e vibrante, lhe anunciar boa acção de Vadinho:

- Flor, repare, mas não diga que eu contei… Vadinho ganhou no bicho e deu dinheiro todo a Norma pra ela comprar um presente de aniversário para você… O aniversário ainda está longe, eu sei, mas ele teve medo de gastar o dinheiro, quis logo garantir o presente…

Assim sucedera certa ocasião, todas as comadres o sabiam e só dona Norma tinha o compromisso de guardar segredo. No entanto, não fosse ela romper a jura, incapaz de tão longa mudez, mais de
vinte dias, dona Flor nunca viria a tomar conhecimento do gesto.

domingo, abril 04, 2010




A Pedofilia
no seio da Igreja






Andam as notícias cheias com as denúncias de casos de pedofilia por parte de eclesiásticos nos mais variados países do mundo católico. O assunto, só por si, é escabroso, quando praticado por padres faz as delícias de certa imprensa…ainda não estamos esquecidos do que foi aquando do escândalo da Casa Pia.

A nossa sociedade é falsamente moralista e quanto mais estiver impregnada de conceitos, preceitos e dogmas religiosos sobre os homens e seus comportamentos mais falsa se torna.

Quem foi obrigado a viver na infância em situações de clausura, colégios internos, seminários e outras instituições de carácter público que deveriam ser de apoio à criança, como a Casa Pia, segregados da convivência na sociedade, em situações de austera disciplina, desprotegidos, sabe que o perigo que as crianças correm de serem molestadas pelos adultos que as supervisionam, que sobre elas exercem o mando, o controle, a autoridade, é muito maior, na linha, de resto, com aquilo que já acontece no seio de certas famílias face ao poder exercido sobre elas por familiares.

A igreja para garantir a sua continuidade tem que moldar e formar as “suas tropas” e para que esse trabalho seja eficaz precisa de iniciá-lo a partir de idades tenras, no segredo da clausura dos seminários, locais ideais para se formatarem as consciências, impregná-las do medo dos infernos, dos castigos decorrentes do pecado e do prémio que representa o céu para os que se portam bem, obedecem, aceitam a autoridade e a disciplina, não esquecendo que aqui na terra, junto deles, há aqueles que, em nome de Deus, têm a faculdade de perdoar…

Este é um “caldinho” extremamente perigoso para as crianças que têm a desdita de nele cair e aquilo que agora se sabe e do muito mais que nunca se saberá, não pode constituir nenhuma surpresa.

Ocultados, desmentidos ou finalmente admitidos por alguns, não todos, os factos aí estão e a vergonha da igreja não podia ser maior porque ela, hipocritamente, afirma-se como uma entidade de pessoas especiais, preparados para uma vida isenta de pecado – seja isso o que for – e que ouvem, julgam e perdoam os pecados dos outros.

Aquele que hoje é o Papa, escondeu e ocultou crimes de pedofilia durante anos praticados por subalternos seus na hierarquia da Igreja quando tinha o poder e a obrigação, não só como Bispo mas principalmente como cidadão, de entregar à justiça os autores desses crimes.

Não o fez por uma razão, ela própria já admitida e confessada: “não era bom para a Igreja”, e eu que não sou crente e não devo obediência ou disciplina à Igreja, concordo em absoluto com a razão apresentada mas afirmo-a por outras palavras: “…não era bom para o negócio”.

As crianças devem crescer no seio de famílias saudáveis, num relacionamento espontâneo com pais, professores, colegas e amigos e devem ser ensinadas a utilizar o seu pensamento de uma forma crítica e a aprenderem o muito que a ciência hoje tem à sua disposição para que possam, no futuro, serem pessoas úteis e responsáveis no seio da sociedade.

A Igreja que vê no sexo uma fonte privilegiada de pecado, que por isso tão pouco permitiu que Jesus tivesse sido filho biológico de seus pais, José e Maria, que faz da castidade um valor e proíbe os seus representantes de se casarem, tudo isto contrariando a própria natureza do homem e até dos seres vivos, vem agora, na impossibilidade de continuar a esconder e a negar aquilo que desde sempre souberam, de forma envergonhada e com desculpas e justificações esfarrapadas, bater a medo com a mão no peito e a pagar vultosas indemnizações financeiras às vítimas sem que, até à data, tenhamos conhecimento de algum padre pedófilo que tenha sido condenado em tribunal e esteja a cumprir pena de prisão… o padre Frederico esteve lá tão pouco tempo antes de fugir em liberdade para o Brasil que nem conta.

… parece que, em alguns casos, os superiores na hierarquia da Igreja, os mudavam, como castigo, para outros locais de culto mas nem sequer ficavam proibidos de continuarem a contactar com as crianças…

Era importante que todos reflectíssemos com serenidade e de forma imparcial sobre estes acontecimentos e outros ainda mais graves levados a cabo por extremistas de outras religiões.

Somos seres pensantes, racionais, sejamos também críticos relativamente a estes assuntos. A nossa liberdade como pessoas não se concilia com dogmas baseados na fé que a nossa própria razão, que faz de nós aquilo que somos, não consegue entender.

O fundamento da fé religiosa, a sua força e glória residem no facto de não dependerem de uma justificação racional e isto deveria dar que pensar, o resto… os casos de pedofilia na igreja, apenas comprovam aquilo que já sabemos: o poder que ela ainda tem na nossa sociedade que lhe permite subtrair à justiça os religiosos que praticaram crimes de abuso sexual sobre crianças.

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