segunda-feira, julho 27, 2009


TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 191



- Ouvi falar: Bonaparte, que é muito de Mangue Seco, me disse que dos milagres que a senhora praticou aqui, nesses poucos dias, e foram vários, o maior de todos foi a rapidez com que levantou essa casa de veraneio. Botou aquela gente da praia, preguiçosa como quê, na cadência do nosso Josafá, a de Itabuna.

- De Itabuna, doutor? A cadência de dona Antonieta é a de São Paulo, com ela é a jacto – A risada forte de Josafá.

- Devo a meu sobrinho Ricardo, ele tomou a frente, tocou fogo no pessoal, um menino que vale seu peso em ouro. A ele e ao Comandante Dário, um amigão.

Ainda bem que Bonaparte não vale seu peso em ouro, seria soma considerável; nem por isso é mau rapaz, apenas não quer nem pode correr. E para que correr? – pergunta-se o tabelião.

Em passadas largas, aberto em riso, Osnar invade o cartório à frente da malta do bilhar, Aminthas, Seixas e Fidélio, e de quebra seu Manuel:

- Cadê o fazendeiro? Capitão Astério, agora que você é proprietário de terras e criador de cabras, eu lhe promovo a major.

Cercam o amigo e companheiro, o campeão, o Taco de Ouro – manterá o título no actual torneio? Jarde e Josafá despedem-se, Josafá aperta a mão de Tieta:

- Fique sabendo, dona Antonieta, que tive muito prazer em lhe conhecer pessoalmente. Se tem uma pessoa direita em Agreste, é a senhora. Com a senhora é pão pão, queijo queijo.

- É verdade – concorda doutor Franklin – Dona Antonieta é um exemplo de bondade e correcção. Mas antes de sair, Josafá, ouça a resposta a uma pergunta que vou fazer aqui a nosso amigo Fidélio – Retira os óculos, volta-se para os rapazes em torno a Astério: - Fidélio, como é mesmo seu nome?

- Fidélio de Arroubas Filho.

- O nome completo, por favor.

- Fidélio Dórea A. de Arroubas Filho.

- E o A o que é?

- Fidélio Dórea Antunes de Arroubas Filho.

- Obrigado – agradece o tabelião e, brandindo os óculos, se dirige a Josafá, que espera parado na porta – Está vendo, Josafá? Outro Antunes.

Ainda tem mais: dona Carlota Alves… Sabe que é? A directora da escola particular. Ela não assina mas também é Antunes. Pelo lado da mãe.

Josafá não se altera, solta uma risada de quem nada teme:

- Uns Antunes que nem usam o nome. Não são como meu pai e eu, Jarde e Josafá Antunes, só e com muita honra!

Para não expor publicamente seu maior trunfo, controla a vontade de repetir alto e bom som o nome e as manhas do advogado a quem telegrafara e com cujo concurso espera contar: doutor Marcolino Pitombo, especialista máximo em litígios de terras na região cacaueira, famoso em Itabuna e Ilhéus desde tempos imemoriais, quando Uruçuca se chamava Água Preta e Itajuípe era a famigerada vila de Pirangi, onde se matava gente por um dê cá aquela palha. Doutor Marcolino Pitombo ganha no direito e, se for necessário, no caxixe.

Grapiúna esperto, Josafá está certo de obter-lhe a aquiescência pois, sabendo-o sergipano, em atenção à idade avançada e ao lugar de nascimento do causídico, mandara por à sua disposição passagens aéreas de Ilhéus a Aracaju e vice-versa. Agreste encontra-se mais próximo da capital de Sergipe do que Salvador, menor quilometragem a enfrentar de carro. Josafá irá receber o advogado em Aracajú, assim, além dos honorários, doutor Marcolino ganhará provas de consideração e de lambujem visita gratuita aos parentes e à terra natal.

Pensa em tudo, o diligente Josafá. Jarde pensa apenas nas cabras, em seu Mé e nos entrevistos urbes de dona Antonieta, preciosos haveres perdidos para sempre.

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