sexta-feira, setembro 18, 2009

TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 236


Olha através da taça pensativo:

- Há quem se levante e proteste contra a instalação no país de uma indústria de dióxido de titânio, tachando-a de poluidora. Os motivos são vários, quase sempre inconfessáveis, mas os agentes estrangeiros que comandam essa campanha antinacional conseguem iludir e arrastar muitas pessoas honestas, que ficam alarmadas e se colocam contra nós. Não vou lhe dizer que a indústria de dióxido de titânio não polui. Polui, sim, tanto quanto outra qualquer, talvez um pouco mais. No entanto ninguém se coloca contra uma fábrica de tecidos ou de electrodomésticos. Mas, contra as indústrias fundamentais, os interessados em que continuemos subdesenvolvidos, dependentes, inventam os maiores absurdos. Dizem, por exemplo que vamos destruir a fauna do rio e do mar. Não há nada disso. Teremos tubulações submarinas que levarão os rejeitos poluidores para lançá-los vários quilómetros adiante, onde já não oferecem nenhum perigo. Mandei preparar uma pasta onde todo esse problema da soi-disant terrível poluição da indústria de dióxido de titânio é completamente esclarecido, colocado nos devidos termos. Assim você ficará preparado para desmascarar os embusteiros e esclarecer os que se deixam enganar, todos os que tentam impedir o progresso agitando o fantasma da poluição. São Paulo não passaria hoje de uma reles capital de província, se essa gente pudesse impor sua opinião. Você viu o Centro Industrial de Aratu. Que batalha, meu amigo, contra os imbecis! Por detrás dos imbecis, movendo os cordéis, os inimigos do Brasil – Não esclareceu quais, não tendo ainda tomado o pulso político de Ascânio. Assim se fosse de direita, pensaria na União Soviética, se fosse de esquerda, nos Estados Unidos.

O telefone soa, é Bety, do outro lado. O Magnífico doutor ouve, desliga:

- Tenho de ir ao enterro do juiz. Não tenho jeito, vê a que você me obriga? – Ri, cordial: - Amanhã terminaremos esta nossa conversa. No hotel, na minha suite, onde ninguém irá nos incomodar.

Ascânio abre a boca para falar, vacila, doutor Mirko o anima:

- Alguma coisa? Pode dizer, não se constranja – No fundo do peito uma esperança: quem sabe ele vai pedir dinheiro?

Ascânio aponta o desenho sobre a mesa, maravilhosa visão do futuro:

- Se eu pudesse levar este trabalho para Agreste, seria óptimo. No jornal mural que coloquei na Prefeitura tem um desenho de Lindolfo mas este aqui é um quadro, uma obra de arte, um monumento!

Bety é convocada por telefone: venha e traga Rufo. Assim Ascânio não reviu apenas a ruiva de mecha agora azul, reencontrou também o mancebo de cabeleira à Jesus Cristo, autor do desenho. Caloroso, felicitou-o, o senhor é um grande artista e agradeceu-lhe em nome de Agreste.

No dia seguinte, promete o Magnífico Doutor, ele receberá no hotel, junto com a documentação, a obra-prima devidamente acondicionada em tubo adequado.

Para o jantar Nilsa escolheu um restaurante situado no solar do Unhão, lugar belíssimo junto ao Museu de Arte Moderna, no qual se realizava o concorrido vernissage de uma exposição de fotos, gravuras, quadros, objectos; o pátio repleto de automóveis.

Quando terminaram de comer, Nilsa o levou a visitar a mostra, Ascânio sente um choque, o que é isso? Esperava ver paisagens, nus artísticos, naturezas mortas, pinturas bonitas, arregala os olhos diante de fotos absurdas, imorais, gravuras representando igrejas deformadas e umas maluquices feitas com pedaços de objectos inúteis, parece mais um bric-à-brac: até uma latrina fora usada pelo artista. Artista? Sim, confirma Nilsa, é renomado, gozando do maior prestígio não apenas na Bahia, no país inteiro, com certeza ele já ouvira falar de Juarez Paraíso.

Nilsa o aponta, cercado de gente a felicitá-lo, mulato alto, de barbas, em frente ao cartaz da exposição: a foto de imensa bunda nua de mulher, que coisa!

- Espie aquele ali, junto do banqueiro Celestino. É Caribe, vive dando entrevistas nos jornais contra a Brastânio, falando misérias. Mas que é um coroa enxuto, isso ele é. Só pinta negras.

Acompanha-o até ao hotel, na porta deserta pendura-se no pescoço de Ascânio, despede-se com um chupão daqueles:

- Não fico porque não posso chegar em casa tarde e já passa das dez. Meus pais são muito severos, vivo num torniquete.

Num torniquete. Outros são os valores das palavras, Ascânio dá-se conta. Severidade, arte, noivado. Outros valores, outro mundo em cuja porta se encontra, pronto para atravessá-la com o pé direito. Por que aquela sensação incómoda, aquele sentimento obscuro, a persistir? Como senão entrasse pelos seus próprios pés, como se estivesse sendo conduzido. No quarto vazio deplora a ausência de Nilsa, em seus grandes seios encontraria segurança. O telefone soa:

- Alô!

- Amor?

- Aqui, Ascânio Trindade.

- Por que não veio falar comigo na exposição, amor?

- Reconhece a voz em desmaio de Bety, Bebé para os íntimos:

- Não vi, me desculpe. Posso lhe servir alguma coisa?

- Pode, sim, amor. Estou falando da portaria e vou subir. Deixe a porta aberta.


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