sábado, setembro 25, 2010


DONA
FLOR
E SEUS
DOIS
MARIDOS


Episódio Nº 234



Quem não atenderia àquele apelo, ordem e não convite? Os ruídos foram cessando, cavalheiros e damas ocuparam as cadeiras, muitos homens permanecendo em pé, na esperança de escapulir. Verdadeira parada de elegância, as mulheres exibindo jóias de preço e decotes audazes, os cavalheiros todos a rigor, o maestro envergando sua casaca.

Na primeira fila, próximas a dona Imaculada sentavam-se dona Flor e dona Norma. E o Arcebispo Primaz, às vésperas, segundo diziam todos, do cardinalato.

O maestro Agenor Gomes, emocionado da cabeça aos pés, levantou a batuta.

A primeira parte foi ouvida com atenção e aplausos. A marcha de Schubert, tocada com ênfase e propriedade, e depois o primoroso violino do doutor Venceslau Veiga, na melodia de Drdla, arrancaram palmas e até bravos de certos apreciadores e entendidos como o doutor Itazil Benício, dublé de médico e de artista (Silvinho). Suave feliz o maestro Gomes.

No intervalo, os convidados, como bárbaros famintos, há meses sem comer, atiraram-se ao régio bufê, onde, pela primeira vez em suas vidas, dona Flor e dona Norma viram e provaram caviar.

A dona Flor, com seu paladar de mestra de cozinha, o tão falado caviar, - cada grama uma fortuna – soube bem: “é esquisito mas eu gosto”. Não concordou dona Norma e, fazendo uma careta, disse à amiga entre risos (gostava, isso sim, de champanhe e já bebera duas taças):

- Esse negócio tem um ranço, não sei de quê…

Riu também dona Flor e, como doutor Teodoro se afastara para ir em busca de Urbano Pobre Homem e obrigá-lo a servir-se, recordou um dito do finado seu primeiro esposo, ao voltar do Rio. Na viajem, dona Flor não sabe onde, ele andara se fartando do tal de caviar e lhe dissera, quando ela lhe perguntou que gosto lhe encontrara:

- Tem gosto de bocera…É muito bom!

Espocou dona Norma em riso, um pouco tonta do champanhe: fora um maluco, o falecido, um boca suja, um sem remédio, mas tão alegre, inesquecível! “Menina o finado tinha graça e entendia desses gostos…”

Voltava doutor Teodoro trazendo pelo braço o Pobre Homem, dona Flor apressou-se a lhe preparar um prato, sem esquecer uma porção de caviar.

Foi meio difícil juntar os convivas em frente ao anfiteatro para a segunda parte do concerto. Logo os amantes da música ocuparam seus lugares, mas eram minoria naquela massa de gente apenas rica, a comer e a beber. O comendador, porém, deu ordens enérgicas aos empregados e finalmente o maestro e a orquestra atacaram o “Simple Aveu”.

Após a música de Francis Tomé, chegou-se ao momento culminante do concerto: o solo de violoncelo executado pelo comendador Adriano Pires, o “Cavalo Pampa”. Aquele, sim, foi silêncio de verdade, até na copa e na cozinha a criadagem parou o trabalho e os garçons suspenderam o serviço de bebidas até ao fim do número. Dona Imaculada dera ordens no sentido do silêncio mais estrito.

Esquecido de tudo, do mundo e de seus habitantes, o comendador do Papa, o seco milionário, naquela hora ao violoncelo era íntimo da alegria e da bondade, de repente um ser humano.

Site Meter