sábado, janeiro 29, 2011

TEREZA

BATISTA

CANSADA

DE

GUERRA

Episódio Nº 17



De nada adiantara o rábula afirmar que Libório comprara, por umas poucas fichas de roleta, apenas três meses do magro ordenado do servidor municipal. De nada valera ser a vítima exemplar funcionário, homem honrado, bom marido, pai extremoso de cinco filhos – pena o vício do jogo – e Libório conhecido vigário, tantas vezes na barra da justiça, jamais condenado.

Lulu Santos exalta-se na narrativa, o tal Libório fazendo-se humilde e perseguido – ah! que vontade de perder o respeito ao juiz, à sala de audiências e atirar as muletas nas ventas do canalha! Tereza não pode imaginar com que prazer o rábula a viu cuspir na cara do corno filho-de-uma-puta. Corno, corníssimo, habitué desses escândalos públicos, dessas valentias de bater em mulher. Só bate em mulher, não tendo coragem de enfrentar cara a cara nenhum dos muitos camaradas que lhe puseram chifres. Por trás, sim, se tem ocasião os persegue, usando para isso do prestígio e das relações de que goza nos meios policiais, fazendo-lhes a vida difícil. Filho-de-uma-puta completo, escarrado e cuspido.

Pior ainda, o caso presente, a ser julgado em breves dias, na próxima semana. Assunto triste, pleito perdido por antecipação. Só de lembrar, Lulu Santos se enfurece, os olhos relampejantes:

- Vou-lhe contar do que é capaz esse filho-de-uma-puta – destacava as sílabas; em sua boca qualquer outro era filho-da-puta, às vezes com afecto e ternura: Libório era fi-lho-de,-uma-puta, o palavrão completo, as sílabas divididas.

Numa pequena chácara de mangueiras, cajueiros, jaqueiras, cajazeiras, pés de pinha, de graviola, de ata e condessa, vive e trabalha Joana das Folhas, ou Joana França, viúva de um português. O português, seu Manuel França, velho conhecido de Lulu Santos foi quem introduziu em Aracajú o cultivo de alface, de tomates dos grandes, de couve repolho, outras verduras do Sul, cultivadas ao lado dos jilós, dos maxixes, das abóboras, da batata doce, na chácara de terra excelente. Obteve freguesia certa e segura para o negócio pequeno, porém próspero.

Desde madrugada no amanho da terra, ele e a negra Das Folhas; primeiro amigados, depois quando o filho único cresceu e o lusíada sentiu o primeiro baque no coração, casados no juiz e no padre. O filho nem esperou a morte do pai; levando-lhe as economias desapareceu no mundo. O honrado portuga não resistiu, Joana herdou o sítio e uns dinheiros a receber do compadre António Minhoto, herança bem merecida: negra forte, um pé-de-boi, um cão no trabalho, o pensamento no filho. Contratou ajudante para o serviço na chácara e para levar as alfaces, tomates e couves à clientela.

- espere eu voltar para contar o resto – pede a velha Adriana aproveitando a pausa – É só um minuto enquanto trago o mungunzá.

- Puxa! – exclama Tereza – Sujeito mais péssimo esse Libório.

- Ouça o resto do caso e verá que péssimo sou eu.

A brisa da noite vinha do porto, Lulu Santos a falar do português Manuel França, de sua mulher Joana das Folhas e do filho andejo, o pensamento de Tereza em Januário Genebra: onde andará? Prometera aparecer; levá-la a ver a barcaça, a passear na barra onde se abre o mar oceano e
se estendem as dunas de areia. Porque não veio o malvado?

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