sábado, junho 02, 2012


GABRIELA
 CRAVO
 E
 CANELA

Episódio Nº 114



Sobressaltavam-se quando o relógio soava as doze e meia, iam saindo, deixando gordas gorjetas, que Bico Fino recolhia com as unhas sujas e ávidas. Iam empurrados pelo relógio, como obrigações, a contragosto. O bar esvaziava-se, Nacib sentava-se a comer. Ela o servia rodando em torno da mesa, abrindo a garrafa de cerveja, enchendo-lhe o copo.

O rosto moreno resplandecia, quando ele, farto, entre dois arrotos – «é bom para a saúde», explicava – elogiava os pratos. Recolhia as marmitas, Chico Moleza aparecia de volta, era a vez de Bico Fino ir almoçar. Gabriela armava a espreguiçadeira num terreno por detrás do bar, plantado de árvores, dando para praça. Dizia «até logo seu Nacib», voltava para casa.

O árabe acendia o charuto de São Félix, tomava dos jornais da Bahia, atrasados de uma semana, ficava a espiá-la desaparecer na curva da igreja, seu andar de dança, seus quadris marinheiros. Já não levava a flor na orelha, metida nos cabelos. Ele a encontrara na espreguiçadeira, teria caído por acaso, ao curvar-se a moça, ou a retirara ela da orelha e a deixara ali de propósito? Rosa rubro, com cheiro de cravo, perfume de Gabriela.

Do Esperado Hóspede Indesejável

Eufóricos, o Capitão e o Doutor apareceram cedo no bar Vesúvio comboiando um homem de uns trinta e poucos anos,
de rosto aberto e ar desportivo.

Antes mesmo que o apresentassem, Nacib adivinhou tratar-se do engenheiro. Desencantara, afinal, o tão esperado e discutido cidadão…

- Dr. Rómulo Vieira, engenheiro do Ministério de Viação.

 - Muito prazer, doutor. Um seu criado…

 - O prazer é meu.

Ali estava ele, o rosto queimado do sol, o cabelo cortado quase rente, uma pequena cicatriz na testa. Apertava com força a mão de Nacib. O Doutor sorria tão feliz como se exibisse parente próximo e ilustre ou mulher de rara beleza.

O Capitão pilheriava:

 - Esse árabe é uma instituição. É ele quem nos envenena com bebida falsificada, rouba-nos ao pocker, sabe da vida de todo o mundo.

 - Não diga isso, Capitão. O que é que o doutor vai pensar?

 - Um bom amigo, rectificava o Capitão. – Pessoa de bem.

O engenheiro sorria, um tanto contrafeito, a olhar com desconfiança a praça e as ruas, o bar, o cinema, as casas próximas, em cujas janelas surgiam olhos curiosos.

Sentaram-se em torno de uma das mesas do passeio. Glória surgia da janela, molhada do banho, os cabelos por pentear, num desalinho matinal. Logo descobria o forasteiro, cravava-lhe os olhos, corria para dentro a embelezar-se.

 - Um pancadão de mulher, hem? – O Capitão explicava-lhe Glória solitária.

Nacib quis servi-los pessoalmente, trouxe pedaços de gelo num prato, a cerveja apenas estava fria. Afinal chegara o engenheiro!

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