sábado, março 30, 2013


O PAÌS
DO
CARNAVAL

Episódio Nº 60


 - É… - apoiava Jerónimo, enrubescendo.

 - E crer… Existem ainda homens inteligentes que crêem. Crer… Acreditar que um Deus, um ser superior, nos guie e nos dê auxílio… Mas ainda há quem creia…

  - Há…

 - Olhe, Jerónimo, dizem que foi Deus quem criou os homens. Eu acho que foram os homens que criaram Deus. De qualquer modo, homens criados por Deus ou Deus criado pelos homens, uma e outra obra são indignas de uma pessoa inteligente.

 - E Cristo, Pedro Ticiano?

 - Um poeta. Um blagueur. Um céptico. Um diferente da sua época. Cristo pregou a bondade porque, naquele tempo, se endeusava a maldade. Um esteta. Amou a Beleza sobre todas as coisas.

Fez em plena praça pública blagues admiráveis. A da adúltera, por exemplo. Ele perdoou porque a mulher era bonita e uma mulher assim tem direito a fazer todas as coisas.

Cristo conseguiu vencer o convencionalismo. Um homem extraordinário. Mas um Deus bem medíocre…

 - Como?

 - Um Deus que nunca fez grandes milagres! Contentou-se em multiplicar pães e curar cegos. Nunca mudou montanhas de um lugar, nunca fez descer sobre a terra nuvens de fogo, nem parou o sol. Cristo, tinha contra si, esta qualidade: sempre foi um mau prestidigitador.

 - E Cristo amoroso?

 - Cristo, como homem, esteve sempre coerente. Pregava o perdão porque, então, a vingança era lei. Pregava a castidade porque, na época, a luxúria reinava. E, pelo menos para o exterior, ele foi um puro, apesar da perseguição de Madalena e de outras mulheres…

 - E no interior?

 - Sei lá! Pode ser até que Cristo conservasse a sua castidade… Em todo o caso… O vício entre quatro paredes não é vício… É esta a lei do mundo…

 - E amar romanticamente e crer romanticamente entre quatro paredes?...

 - A imbecilidade é sempre a imbecilidade onde quer que seja.

Jerónimo mudava de assunto.

 - Você, Pedro Ticiano, é o homem de espírito mais forte que eu já vi. Com quase setenta anos ainda é ateu…

 - Ah, não tenho medo do inferno… E, no caso dele existir eu me darei bem lá…

 - Você sempre foi meio satânico… É capaz de fundar um jornal oposicionista no inferno. Voltaire, você e Baudelaire no inferno… Que gozado!

Pedro Ticiano sorria, vendo que Jerónimo não resistia à fascinação da sua palavra. E gostava de derrubar os sonhos daquele homem medíocre e bom, que tinha o único defeito de querer intelectualizar-se.

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