sexta-feira, setembro 13, 2013

No bar da "Lanterna dos Afogados"
JUBIABÁ

Episódio Nº 110

Ele é invencível… É o homem mais corajoso daquelas bandas. Ali no céu estão as estrelas que foram testemunhas de como ele lutou. E se os homens que o cercavam não tivessem ficado apalermados com a sua coragem ele levaria um consigo para as estrelas, para o grande céu azul.
Brilharia lá com a sua navalha na mão… Seria visto por dos Reis, pela mulher de voz masculina, por Lindinalva e, possivelmente, seria descoberto pelo Gordo que sempre quis ter uma estrela…

Enganaria mestre Manuel que havia de pensar que era a luz de um saveiro que queria pegar corrida com o “Viajante Sem Porto”… Ouviria Maria Clara cantar seus sambas.

Tudo isso aconteceria se os homens não tivessem ficado bestificados quando ele apareceu na estrada com a navalha na mão e um talho no rosto. Cairiam em cima dele e ele levaria um. Talvez furassem todo o seu corpo com tiros…

Mas os homens que morrem lutando e que levam um consigo viram estrelas no céu e têm um A B C na terra que canta os seus feitos… Ele seria uma estrela vermelha com uma navalha na mão. Jubiabá sempre disse que os homens corajosos viram estrelas…

E o negro António Balduíno solta a sua gargalhada que silencia os grilos e assusta os animais nas tocas. Um cheiro de folhas se espalha na noite silenciosa. Passa um vento que anuncia chuva. As folhas se dobram e exalam perfume. Mais adiante na estrada há qualquer coisa negra e uma lanterna que brilha.

Vozes de homens discutem. É um trem que parou. Naturalmente leva para a Feira de Sant’Ana os passageiros do navio que chegou hoje de Cachoeira, vindo da Baía.

Os homens examinam uma roda. António Balduíno contorna pelo outro lado e chega perto de um vagão de carga. Se a porta estiver aberta irá de trem. Empurra a porta com toda a força e ela cede. Está aberta, sim.

Pula como pulam os animais, rápido e subtil. Fecha a porta por dentro e só então nota que amedrontou uns vultos que se escondem no fundo do vagão entre os rolos de fumo:

- Ué, gente… Eu sou de paz… Também não gosto de pagar passagem…

E ri.


A mulher estava grávida. A barriga ainda não estufara muito mas se notava perfeitamente a gravidez. Um dos dois homens era velho e segurava um bordão. Fumava quase dormindo. Na escuridão do carro quando a brasa do cigarro iluminava o bordão parecia uma cobra pronta para o bote.

O outro vestia calças de soldado e um paletó velho de casimira. Não tinha barba mas tentava ostentar um bigode com raros fios que nasciam em cima do lábio. Passava constantemente a mão no bigode imaginário enquanto conversava.

«Um menino» pensou António Balduíno.

O trem estava parado, era por isso que eles se conservavam em silêncio. Houvera um desarranjo qualquer, coisa comum naqueles trens. E eles há meia hora que se conservavam em silêncio esperando que o trem partisse.

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