terça-feira, outubro 15, 2013

Os Líderes

 que me 

envergonham…


Já aqui vos contei, era eu alferes e comandava o meu grupo de combate numa operação no norte de Angola, em princípios de 1963, junto à famigerada Pedra Verde, sobre a qual a nossa aviação despejou dezenas e dezenas de bombas porque ali se abrigavam as populações inimigas… diziam eles.

Nessa operação que se desenrolava no terreno com os militares em “bicha de pirilau”, uns atrás dos outros, eu ocupava a 4ª ou 5ª posição a seguir ao soldado da frente.

Observávamos um silêncio religioso, nada se ouvia para além do sussurrar de uma aragem ligeira sobre o capim, até que o soldado que liderava a coluna estancou e a “bicha de pirilau” imobilizou-se.

Troquei um olhar interrogativo e, num gesto discreto, ele apontou para o chão, uns metros mais à frente.

Eu não levava o meu galão de alferes, era uma das elementares regras de defesa dos oficiais em combate mas eles, os soldados, sabiam que eu era o comandante e esperavam que desse o exemplo… e eu avancei.

Entendi que era essa a minha obrigação de líder, de comandante, de chefe, mesmo sendo miliciano, não militar por vocação, tal como eles, também eu ali estava por obrigação.

Dar o exemplo foi aquilo que não fizeram nem o nosso Presidente da República, Cavaco Silva, nem tão pouco a Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves.

Ambos recebem, não os ordenados correspondentes às funções que exercem mas as suas reformas – a da Presidente da Assembleia foi-lhe atribuída aos 42 anos de idade (!...) – porque, nos termos da Lei, puderam optar, entre ordenado e reforma, pela de valor mais alto.

Na actual conjuntura de crise, de cortes de ordenados e reformas, de sacrifícios generalizados, entendeu o legislador, e bem, que este privilégio não justificava manter-se e daí uma norma, discutida e aprovada no Domingo, a propósito do Orçamento de Estado para 2014, em que o seu Artigo 76º dispõe que no exercício de funções remuneradas os pensionistas ou beneficiários de qualquer subvenção mensal vitalícia, verão a sua pensão ou subvenção suspensa enquanto durar o exercício da função.

No entanto, ao contrário do que acontecerá com os restantes pensionistas, ela não terá efeitos retroactivos para os actuais Presidentes da República e da Assembleia da República que poderão continuar a receber a reforma, bastante superior aos ordenados correspondentes às funções que exercem.

Eles “recusaram-se” a dar o exemplo, mandaram avançar para o sacrifício o soldado anónimo que vinha lá atrás, na “bicha de pirilau”…e, no entanto, esta que hoje estamos a travar é que é a nossa guerra a sério, onde todos estamos envolvidos, e não a de Angola em que participei há 50 anos.

Se numa situação destas, de guerra em curso para toda a população, em que se decide o futuro do país, as duas figuras máximas do Estado não conseguem dar o exemplo aos cidadãos, então, devem ser despromovidos e condenados no Tribunal das nossas consciências já que eles não as devem ter, pelo menos consciência de justiça social.

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